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Um funcionário de escritório (Griffin Dunne) vive a sua vidinha monótona. Um dia encontra por acaso uma jovem atraente (Rosanna Arquette) e trocam números de telefone. Já em casa, ele entra em contacto e marca um encontro no apartamento dela, no outro lado da cidade. Mas durante a viagem de táxi para o encontro, o dinheiro voa-lhe pela janela fora e então começa uma verdadeira aventura e uma tentativa desesperada para tentar regressar a casa...
Pelo caminho encontra-se com várias personagens excêntricas (Linda Fiorentino, Verna Bloom, Teri Garr, John Heard e Will Patton) e também assiste a toda a acção da noite como ir a um clube de música punk ou a um bar gay, para além de testemunhar um suicido, um assassinato, diversos roubos e ser perseguido por uma multidão em fúria... e uma carrinha de gelados. É a loucura nocturna da cidade que nunca dorme... After Hours é uma comédia bastante negra cheio de confusões, coincidências inacreditáveis e desencontros constantes...
Gosto muito deste filme, mas quando se o (re)vê com alguma atenção, são óbvias algumas das falhas nas ligações narrativas. Há algumas distorções inverosímeis e pequenas omissões de forma a que a história seja contínua e cíclica. Isto é verdadeiramente notável na cena final da fuga com a "escultura". Dá impressão que por muito inverosímil que fosse, o filme teria de começar e acabar da mesma forma. Fico com a impressão que Martin Scorcese e Joseph Minion começaram uma história que ira passar por vários pontos, mas sem ter um destino final objectivo... e a determinada altura não sabiam mesmo como sair dela. Aquilo que se vai passando na cabeça do espectador, em que uma pessoa fica na dúvida sobre o que vai acontecer com o personagem, acaba por ser o que de facto aconteceu com a própria realização... ninguém sabia muito como terminar este filme.
Mas lá está. Isto é andar à procura de pormenores para "martelar", porque é um filme do Martin Scorcese. No geral, a realização é soberba. A fotografia nocturna e o trabalho de câmara são fantásticos e está cheio de pormenores técnicos que dariam para encher um livro sobre como realizar um filme. A montagem é muito boa e dá um ritmo alucinante à narrativa.
After Hours é um filme estranho se associado ao mestre Scorcese. Não deve ser dos filmes mais memoráveis ou reconhecidos da carreira, mas na realidade é uma prova da versatilidade e do gosto pelo cinema do mestre. É inteligente, negro, cómico, original, dramático e é totalmente surreal. Uma cápsula do tempo dos anos 80 que no entanto é um filme intemporal. Ao fim de todos estes anos não perdeu nenhuma da vitalidade original e por isso é totalmente recomendado. ●●●○

PS: Uma das perguntas que fica em suspenso desde o principio do filme é porque é que o Paul não vai a pé para casa. Alguém já se deu ao trabalho de ver quando tempo demoraria a percorrer a distância entre a casa dele e o apartamento dela: é mais ou menos a duração do filme...
Estava a ver TV e ia começar um filme com o nome estranho de Kiss Kiss Bang Bang e onde contracenavam o Robert Downey Jr. e o Val Kilmer. Como o genérico inicial tinha bom aspecto e o nome do filme era estranho, deixei-me ficar a ver. Confirmou-se, o filme era de facto estranho. É um daqueles filmes com muitas peripécias que lembra o After Hours de Martin Scorsese. Até está bem escrito e bem realizado por Shane Black mas por ter tantas peripécias a acontecer e a alterar o curso da história acaba por ficar algo desconexo. Em alguns momentos é mesmo muito bom, mas também tem partes em que chega a roçar a comédia fatelosa.
O que notei de mais estranho é o facto dos dois actores parecerem que não estavam ali a representar nenhum papel. Robert Downey Jr. está como peixe na água; não estava a representar, estava só ali, a ser ele próprio, a dizer umas deixas na sua maneira muito particular. Já Val Kilmer parece que entrou no filme para gozar consigo próprio, com o papel e, já agora, com toda a sua carreira. Pareceu-me mais um acto de reabilitação para os dois actores do que outra coisa. As piadas constantes entre os dois actores não são nada inocentes...
Kiss Kiss Bang Bang é um filme divertido, estranho, desequilibrado e imprevisível mas que se vê bem. ●●○○○

 
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