Conan, a mítica personagem de Robert Howard foi adaptada para cinema no longínquo ano de 1982. Mesmo para quem não gosta muito de BD's (como é o meu caso), é uma daquelas personagens que toda gente conhece e que está tão enraizada na cultura popular como qualquer outro super-herói. Como não sou grande conhecedor do mundo da BD, dei uma leitura rápida na internet e fiquei a saber que Conan passou das mãos da Marvel (!) para a Dark Horse Comics em 2003. Faz muito mais sentido.
Em relação ao filme, Conan, The Barbarian é um dos dinossauros das adaptações de BD's. Vem de um tempo tão remoto, que ainda não existiam computadores pessoais, telemóveis, internet e a única rede social que existia chamava-se "a rua". O filme é do mais puro domínio do fantástico mas tem poucos efeitos especiais. Pelo standard actual, é caso para dizer: inacreditável.
Este é um daqueles filmes que adoro desde miúdo, e sempre que repete por aí em algum canal não resisto a vê-lo. Foi o que aconteceu... outra vez. Sobre o filme propriamente dito, não há muito a dizer a não ser que é muito bom... Os culpados deste sucesso são John Milius, Oliver Stone, Arnold Schwarzenegger, James Earl Jones e Basil Poledouris.
John Milius é principalmente culpado por conseguir juntar uma equipa fantástica e por escrever um argumento tão bem. Se formos ver o currículo, Milius nunca foi um grande realizador (não tem grandes filmes para referência), mas sempre foi um excepcional construtor de guiões. Apocalypse Now passou-lhe pelas mãos, portanto não é preciso dizer mais nada. Conan é só mais um da lista. Mas neste caso, fica muito bem na fotografia, porque Conan tem grandes sequências visuais e imagens icónicas.
Oliver Stone, para além de ser o reconhecido realizador que é, tem uma faceta menos conhecida que é a de escrever guiões. E também o faz muitíssimo bem. Midnight Express e Natural Born Killers, são só dois "pequenos" exemplos da mestria de Stone com as palavras. Não deixa de ser curioso que Stone e Milius parecem estar trocados de sítio: um é mais realizador, mas escreveu o guião, o outro é mais guionista mas ficou com a realização...
Basil Poledouris também é culpado, mas pelo lado sonoro. Conheço bastantes bandas sonoras originais e excluindo os musicais, esta é uma das melhores de sempre, se não mesmo a melhor. Acho isso excelente, principalmente porque Conan é um filme de acção/fantástico e normalmente, estas bandas sonoras limitam-se a acompanhar o "tempo" da acção. Basil Poledouris conseguiu criar música original que verdadeiramente complementa e une as imagens do filme. Muito bom.
James Earl Jones é o culpado de ser um dos melhores vilões de sempre. Não sei se é a aparência, se é aquela voz de Darth Vader, mas há qualquer coisa estranha que acontece quando Jones aparece nos filmes. Além disso, tem sempre aquela figura intimidante e aqueles olhos penetrantes... Foi uma excelente escolha de casting.
Finalmente, o homem dos músculos: Arnold Schwarzenegger. Ele é culpado por ser tão... Conan. Vá lá... mas existe mais alguém que possa interpretar o papel de Conan para além de Arnold?! Se o "verdadeiro" Conan fizesse uma viagem à realidade e eu o visse algures por aí, de certeza que dizia: "este gajo não é nada parecido com o Schwarzenegger!" Sempre achei que gajos com músculos não sabem representar, e Schwarzenegger não é excepção. Foram precisas décadas para Schwarzenegger atingir um patamar aceitável na área da representação, mas acabou por lá chegar. Neste caso, nem sequer era preciso. Conan e Schwarzenegger com a sua falta de jeito natural, encaixam tão perfeitamente, que era impossível arranjar outro actor para este papel.
Uma referência ainda para Max von Sydow, um daqueles "senhores" inesquecíveis do mundo dos filmes.
Conan, The Barbarian marcou a minha juventude. Foi dos primeiros filmes do género fantástico que vi. Pensando bem, acho até que foi dos primeiros filmes de qualquer género que vi! E mesmo hoje em dia, tantos filmes depois, posso dizer que (ainda) é um dos melhores. ●●●●○
Conan, the Destroyer
Pouco conhecida é a sequela de Conan que depois de bárbaro, passou a Conan, The Destroyer. E não é muito conhecida, porque simplesmente é má. Apesar de eu gostar muito do Richard Fleischer e da Grace Jones, não consigo superar o facto de que este é um filme mau. É apenas um aproveitamento imediato do sucesso do primeiro filme. Mas ser um filme sem chama, monótono, previsível, com maus efeitos especiais e que parece ter sido feito à pressa para corresponder à procura dos fãs, acaba por ter um lado positivo: mostra como é difícil fazer um filme deste género sem que se torne... patético. ●○○○○
Conan, The Barbarian (2011)
O que dizer do novo Conan, The Barbarian, agora protagonizado por Jason Momoa (...quem?!)? Posso dizer o mesmo que digo sempre deste tipo de remakes... filme de acção, efeitos especiais, algumas explosões, corpos esbeltos e jovens por todo o lado, roupas curtinhas, vazio de novas ideias (quanto mais não fosse, porque é mais um remake a juntar à avalanche de remakes da actualidade), uma chiclete para consumir e deitar fora. É mais um produto para a classe juvenil que outra coisa. Não tem nada que seja memorável ou que se aproveite. Mas admito que esta apreciação também pode ser o meu ressabiamento por estarem constantemente a denegrir os filmes que adoro fazendo remakes sem parar... ●○○○○
+ bónus
Red Sonja
Aproveitando a febre "Conan", ainda saiu para cinema um outro filme, Red Sonja, uma personagem feminina também saída da BD de Conan. Este filme foi traduzido em português como "Kalidor: A Lenda do Talismã" e foi mais um desastre de Richard Fleischer. Arnold Schwarzenegger não é Conan, mas sim Lord Kalidor... Confuso? Eu pelo menos estou... E é mesmo só isso: um filme que cavalga o sucesso de Conan e que quis colmatar a necessidade de mais filmes de espadas, feitiçaria, fantasia em tempos remotos e enormes músculos salientes. Como se comprova, é difícil fazer um filme dentro desta temática que não seja mau. O que torna o original Conan, The Barbarian sempre uma referência. Sou sincero, já vi este filme há muitos anos e já na altura o achei mau... nem imagino o que acharia agora. Alguns destaques: para Brigitte Nielsen, uma "ave rara" dos anos 80, que tem a particularidade de só ter entrado em maus filmes; para Sandahl Bergman, que no primeiro filme fazia de companheira de Conan e aqui é a vilã; e para a boa (!) banda sonora de um senhor chamado Ennio Morricone... Estranho, não? ●○○○○
Estava no sofá a ver um canal de cabo e começa a dar um filme com um look verdadeiramente estranho. Ainda por cima, na descrição do filme dizia que era sobre um rapaz que encontra um carro que consegue voar. Fiquei confuso. Pensei que era um erro da programação. Mas não. Era mesmo verdade! Era Chernaya Molniya, um filme russo de super-heróis (!?) traduzido como "A Super Máquina Russa". Pelo que se vê nos filmes ocidentais, a Rússia tem um enorme problema
com filas de trânsito intermináveis e trânsito caótico, por isso um super-herói só podia ser mesmo um carro voador... Não consegui resistir a ver o desenvolvimento da coisa...
Para perceber este filme é preciso imaginar que estamos numa realidade alternativa e que a Rússia é o centro do Mundo. E que o centro do mundo do cinema é um sítio chamado "Hollywooduska". Só assim este filme da dupla Dmitriy Kiselev, Aleksandr Voytinskiy faz sentido.
Tem todo o aspecto, mecânica e defeitos do clássico filme de super-heróis, mas aqui, quem tem os super-poderes é um Volga, um carro dos "clássicos". É ver para crer. Por vezes tinha a impressão que estava a ver uma versão alternativa russa do Spider-Man mas com carros. Ainda mais entranho é que às vezes parecia que estava a ver um filme live-action da Disney, mas falado em russo. É muito estranho.
Tudo em Chernaya Molniya é "chapa 4" de Hollywood, tirando obviamente o orçamento e a realidade russa que é muito, muito, muito diferente e... é outro mundo totalmente novo.
Por muito que digam que estamos todos mais ligados, uma pessoa não está habituada a ter contacto com outras culturas que não a americana e a mais ocidental que até está cada vez mais americanizada. Pelos vistos, e pelo que é dado a mostrar pela "super máquina russa", apesar de todas as estranhas diferenças sociais, económicas e culturais, não deixa de ser curioso que até a cinzenta, enrugada e orgulhosa sociedade russa se está a americanizar...
Os efeitos especiais não ficam nada a dever aos dos filmes de Hollywood e são muito aceitáveis. A história, apesar de totalmente previsível, tem algum nexo... para o tipo de filme que é. O actor principal, Grigoriy Dobrygin, até nem pareceu mau, só que para ajudar ainda mais à confusão, é super parecido com o Hayden Christensen. Nada neste filme parece ser normal....
Chernaya Molniya é um filme estranho para olhos ocidentais, que se vê mais por curiosidade do que por razão qualquer... ●●○○○
Para perceber este filme é preciso imaginar que estamos numa realidade alternativa e que a Rússia é o centro do Mundo. E que o centro do mundo do cinema é um sítio chamado "Hollywooduska". Só assim este filme da dupla Dmitriy Kiselev, Aleksandr Voytinskiy faz sentido.
Tem todo o aspecto, mecânica e defeitos do clássico filme de super-heróis, mas aqui, quem tem os super-poderes é um Volga, um carro dos "clássicos". É ver para crer. Por vezes tinha a impressão que estava a ver uma versão alternativa russa do Spider-Man mas com carros. Ainda mais entranho é que às vezes parecia que estava a ver um filme live-action da Disney, mas falado em russo. É muito estranho.
Tudo em Chernaya Molniya é "chapa 4" de Hollywood, tirando obviamente o orçamento e a realidade russa que é muito, muito, muito diferente e... é outro mundo totalmente novo.
Por muito que digam que estamos todos mais ligados, uma pessoa não está habituada a ter contacto com outras culturas que não a americana e a mais ocidental que até está cada vez mais americanizada. Pelos vistos, e pelo que é dado a mostrar pela "super máquina russa", apesar de todas as estranhas diferenças sociais, económicas e culturais, não deixa de ser curioso que até a cinzenta, enrugada e orgulhosa sociedade russa se está a americanizar...
Os efeitos especiais não ficam nada a dever aos dos filmes de Hollywood e são muito aceitáveis. A história, apesar de totalmente previsível, tem algum nexo... para o tipo de filme que é. O actor principal, Grigoriy Dobrygin, até nem pareceu mau, só que para ajudar ainda mais à confusão, é super parecido com o Hayden Christensen. Nada neste filme parece ser normal....
Chernaya Molniya é um filme estranho para olhos ocidentais, que se vê mais por curiosidade do que por razão qualquer... ●●○○○
Senna é um documentário sobre a vida e a carreira do mítico piloto de fórmula 1, Ayrton Senna. Vida e carreira? Haverá forma de separar uma coisa da outra? Vendo o documentário, parece que não. A vida de Senna passou-se quase toda num cockpit, ao volante de um carro de corridas. Tal como ele confidencia, correr era uma experiência mística. A condução acontecia num estado de quase inconsciência, automática, em transe, por um túnel de adrenalina. Era pura condução. Mas não era preciso que ele o dissesse. Quem via a competição de fora, percebia que havia ali algo de especial a acontecer entre aquele piloto, o carro e a pista. Senna, notava-se, mais do que correr para viver, vivia para correr.
O documentário foca toda a vida competitiva das corridas motorizadas, as relações familiares, mas especialmente as amizades e os ódios de estimação em pista (especialmente com outro génio do volante, Alain Prost, também conhecido como "o professor") e que culmina na infelizmente célebre prova em Ímola, no Grande Prémio de San Marino. É tudo tão trágico que parece ter saído de um guião de cinema. A realidade, mais uma vez, ultrapassou a ficção.
Grande parte da carreira de Senna também parece saída de um filme. O primeiro grande prémio foi ganho em Portugal em 1985, ao volante de um Lotus, aquele carro icónico preto e dourado.
As contendas com Prost, o piloto pragmático, foram um extra para quem assistia de fora. Os dois pilotos eram tão antagónicos que só poderia dar choque. Apesar da rivalidade, eles acabaram por correr juntos na McLaren e Senna até foi campeao mundial pela primeira vez com Prost como companheiro de equipa. Já não me lembrava nada disto. Mas o mal-estar entre os dois era bem visível. Lembro-me que na altura, ou se puxava pelo Prost ou pelo Senna. Nao havia meio termo. Verdadeiramente digno de filme é a conquista do seu primeiro Campeonato Mundial. No Grande Prémio do Japão de 1988, Senna começa na pole position mas arranca mal e cai para os últimos lugares. Mas não desiste e vai ganhando lugares e, perto do final da corrida, acaba mesmo por ultrapassar Prost e terminar em primeiro. Épico.
Após a conquista de mais dois campeonatos mundiais e inúmeras vitórias em Grandes Prémios, a carreira de Senna termina abruptamente numa curva rápida de Ímola. É daqueles acontecimentos que de alguma forma têm um significado especial, porque quem o viu nunca mais esquece.
Nessa prova, que parecia estar amaldiçoada pelos deuses das corridas, Rubens Barrichello teve um acidente a grande velocidade, fez o carro voar contra um muro, mas saiu milagrosamente incólume. Um outro jovem piloto, o austríaco Roland Ratzenberger morreu nas provas livres e parecia que estava dado o mote da tragédia. Já durante o Grande Prémio, logo no arranque, J.J. Lehto não consegue arrancar e é abalroado a grande velocidade pelo português Pedro Lamy tendo como consequência, alguns feridos nas bancadas com os pneus e detritos que voaram da violenta colisão. Depois de reatada a corrida, na sétima volta, Ayrton Senna é traído pela direcção do seu Williams, indo chocar a alta velocidade no muro da (agora) ínfame curva Tamburello. Tanta incidência, tanta tragédia numa só prova é inacreditável.
Lembro-me de inicialmente pensar que não tinha sido assim tão grave. Já tinha visto choques e acidentes piores e aquele parecia ser apenas mais um. Mas minutos depois, percebeu-se que algo de errado se passava. O errado era Senna não voltar mais à pista. O errado era Senna não voltar para junto dos aficionados. O errado era Senna não voltar com vida. O Mundo esteve todo errado naquele momento. Com esse acidente, Ayrton Senna, ainda um jovem piloto (tinha apenas 34 anos) de uma forma repentina e trágica, pagou o preço da imortalidade. Morreu o homem Ayrton e nasceu a lenda Senna.
Sempre gostei do Ayrton Senna - mesmo sem gostar particularmente de Formula 1 -, porque ele era um piloto que levava o carro aos limites: ultrapassava em sítios que diziam ser impossível, saía de pista por cima da relva, cortava chicanes, a cada curva que fazia parecia que se ia despistar e nunca desistia de querer ser melhor do que o que era. Admiro isso. Apenas conheci a persona mediática do piloto, mas parece-me que era uma boa pessoa. Parecia ser um gajo normal. É uma pena ter ido embora tão cedo...
Mesmo para quem não gosta de desportos motorizados - como é o meu caso - este é um documentário a ver com atenção. Pelo lado desportivo da coisa, sem nunca entrar no campo da especulação ou moralista de tentar culpar A ou B pelo acidente, mas essencialmente pelo lado emotivo e humano do piloto. Usando apenas entrevistas e imagens de arquivo, Senna é uma lição de Asif Kapadia sobre como se deve fazer um documentário emotivamente forte. É um documentário muito, muito bom. Para honrar um dos melhores pilotos de sempre, se não mesmo o melhor, só podia mesmo ser assim. ●●●●○
Labels:
2010,
acidente,
Alain Prost,
Asif Kapadia,
Ayrton Senna,
Barrichello,
curva,
documentário,
Fórmula 1,
GP San Marino,
lenda,
nota4,
Pedro Lamy,
Ratzenberger,
Senna,
Tamburello
Estava a ver TV e ia começar um filme com o nome estranho de Kiss Kiss Bang Bang e onde contracenavam o Robert Downey Jr. e o Val Kilmer. Como o genérico inicial tinha bom aspecto e o nome do filme era estranho, deixei-me ficar a ver. Confirmou-se, o filme era de facto estranho. É um daqueles filmes com muitas peripécias que lembra o After Hours de Martin Scorsese. Até está bem escrito e bem realizado por Shane Black mas por ter tantas peripécias a acontecer e a alterar o curso da história acaba por ficar algo desconexo. Em alguns momentos é mesmo muito bom, mas também tem partes em que chega a roçar a comédia fatelosa.
O que notei de mais estranho é o facto dos dois actores parecerem que não estavam ali a representar nenhum papel. Robert Downey Jr. está como peixe na água; não estava a representar, estava só ali, a ser ele próprio, a dizer umas deixas na sua maneira muito particular. Já Val Kilmer parece que entrou no filme para gozar consigo próprio, com o papel e, já agora, com toda a sua carreira. Pareceu-me mais um acto de reabilitação para os dois actores do que outra coisa. As piadas constantes entre os dois actores não são nada inocentes...
Kiss Kiss Bang Bang é um filme divertido, estranho, desequilibrado e imprevisível mas que se vê bem. ●●○○○
O que notei de mais estranho é o facto dos dois actores parecerem que não estavam ali a representar nenhum papel. Robert Downey Jr. está como peixe na água; não estava a representar, estava só ali, a ser ele próprio, a dizer umas deixas na sua maneira muito particular. Já Val Kilmer parece que entrou no filme para gozar consigo próprio, com o papel e, já agora, com toda a sua carreira. Pareceu-me mais um acto de reabilitação para os dois actores do que outra coisa. As piadas constantes entre os dois actores não são nada inocentes...
Kiss Kiss Bang Bang é um filme divertido, estranho, desequilibrado e imprevisível mas que se vê bem. ●●○○○
Os filmes que são excepcionais - os de "6 estrelas" - têm uma coisa muita boa: não é preciso revê-los para comentar. Ficam gravados na memória e isso ajuda muito quando se tem um blog de cinema.
Como estranhamente estamos a reviver (e muito) a lógica Orwelliana, acabei de rever mentalmente Animal Farm (1954), um clássico de animação, reservado a adultos. E sublinho o reservado a adultos pelo simples facto de que é impossível explicar a acção deste filme a uma criança, além de me parecer totalmente inapropriado. Bem, se calhar estou a projectar os meus traumas... Lembro-me bem dos gritos do burro Benjamin enquanto corria atrás do carro que leva o amigo Boxer para o matadouro, depois de ser vendido pelos porcos. Como é que se explica isto a uma criança sem a traumatizar? A primeira vez que o vi, tinha para aí uns 13 ou 14 anos e apesar do aspecto similar da animação, percebi rapidamente que não estava a ver um filme Disney. Além disso, obviamente, faltavam-me as bases de conhecimento político e social para entender esta fábula. Como seria de esperar, levei uma "pancada na cabeça"...
O filme baseia-se no livro de George Orwell de 1945 com o mesmo nome e é tão conhecido e está tão enraizado na cultura popular que nem vale a pena escrever mais sobre o assunto. Animal Farm é uma exposição mais ou menos dissimulada de como o ideal comunista se desmorona/desmoronou com o tempo e se torna/tornou uma ditadura tão ou mais brutal como a organização social que a precedeu.
Facto pouco conhecido (pelo menos para mim e que só descobri enquanto pesquisava sobre o filme) é que George Orwell, autor do também mundialmente conhecido "1984", chamava-se realmente Eric Arthur Blair. Mas, como eu digo sempre, isso não interessa para nada. O que interessa é que tanto o livro como o filme são óptimos.
Gosto de simbolismos, daí que este filme seja um dos meus filmes de eleição. Há obviamente comparações directas e sobreposições das figuras históricas, como por exemplo Napoleon que é na verdade Estaline; o embriagado dono original da quinta, Jones, que é Nicolau II e Snowball que é Trotsky. Menos consensual é Old Major que tanto me parece ser Lenine como Karl Marx, mas se calhar é mesmo uma mistura dos dois. Figura também dúbia é Pilkington que parece ser uma mistura do bloco Estados Unidos/Inglaterra. Toda a gente tem as suas teorias e todos com quem comentei o filme têm ligeiras nuances sobre quem é quem e sobre o que se trata verdadeiramente Animal Farm. Há meia internet a discutir os mais ínfimos pormenores e tudo o que gira em volta dos simbolismos do filme.
De todas as comparações e simbologias desta fábula destaco especialmente quatro: Boxer, Benjamin, Mr. Whimper e o gato.
O cavalo Boxer é uma excelente representação da massa trabalhadora anónima e também uma ferramenta indispensável dos governantes e dirigentes. Infelizmente, tal como qualquer outra ferramenta, Boxer, possui as mesmas características, podendo ser bem ou mal utilizado. Assim que a sua utilidade se vê reduzida devido a um acidente de trabalho na construção do farol do regime - o moinho -, Boxer é vendido sem complacência. Parece óbvio deduzir, que independentemente do estilo de governação, a massa trabalhadora é uma massa capaz de elevar o orgulho colectivo, mas que também acaba por ser uma das responsáveis pelo crescimento desmesurado e desregrado de regimes autoritários e das suas manobras de propaganda. Ainda assim, Boxer traduz-se naquela massa humana, que apesar de discordar das ideias dos governantes devido a uma análise atenta que faz da sociedade que o rodeia, acaba por se sacrificar pessoalmente perante as necessidades do colectivo, na esperança que o seu trabalho resulte num futuro melhor para todos.
Benjamin, o burro, simboliza uma parte da massa trabalhadora, tal como Boxer. A diferença entre eles parece ser apenas uma questão de inteligência e percepção da realidade. Como quem diz, esta é aquela parte estúpida que responde sempre com um enorme sorriso e um sonoro obrigado, quando lhe oferecem umas míseras cenouras... que foi ele que pagou. Companheiro inseparável de Boxer, Benjamin é, por assim dizer, mais "curto de vistas". Apesar de trabalhar lado a lado com Boxer e de ter a mesma capacidade de trabalho e sacrifìcio, Benjamin faz uma análise menos objectiva da sociedade (ou nem chega a fazê-la) e deixa passar em branco muitas das atrocidades do regime. Ou não quer ver o que se passa ou está desatento. Apenas no momento em que perde o seu melhor amigo é que finalmente percebe que quem o governa é afinal um inimigo interno, igual ou pior que as ameaças externas. Só perante uma situação extremamente grave e que o implica directamente, é que esta "massa trabalhadora" consegue de facto pôr de parte o cinismo com que olha para a situação e percebe que tem de arregaçar as mangas e fazer alguma coisa para mudar o rumo aos acontecimentos.
Mr. Whimper, o intermediário entre animais e humanos, com o tempo foi-se tornando numa das personagens mais interessantes. Convém lembrar que o filme é de 1954 mas o livro tem data de publicação de 1945 e foi escrito ainda antes dessa data. O grande mundo corporativo dava os primeiros passos globais enquanto a sociedade cambaleava do meio de duas guerras mundiais, e em que a União Soviética ainda era, para todos os efeitos, uma Aliada, facto esse que, obviamente, dificultou a publicação do livro. Mas, analisando a continuidade das personagens no tempo para lá do representativo do livro/filme, Mr. Whimper é um dos poucos que mudou e cresceu em importância. No filme, é uma pequena personagem que lucra com os produtos que saem da quinta e lucra o suficiente para ser olhado com desconfiança pelos outros donos de quintas. O seu papel fica por aqui, mas se houvesse uma sequela do Animal Farm e as sobreposições históricas fossem continuadas, Mr. Whimper seria sem dúvida a personagem de topo no momento, representativa do aparecimento de uma nova força espelhada no comerciante obcecado pelo lucro. A semente da era actual do gigantismo corporativo global, sem fronteiras, e do capitalismo puro e duro é o Mr. Whimper! Ele rege-se apenas e só pelo dinheiro. São-lhe indiferentes os regimes polìticos, as pessoas, os papéis e as leis. Nada é tão importante quanto o dinheiro e lucro. Não importa a sua origem, desde que o destino seja o seu bolso. Extrapolando o conteúdo do filme, facilmente se pode imaginar que por muitas voltas e reviravoltas que aconteçam na "gestão" da quinta, mais cedo ou mais tarde, Mr. Whimper acabará por ser o "chairman of the board" da grande empresa que irá comprar Animal Farm. E se isso acontecesse, uma grande parte da quinta iria ser transformada numa área de belos condomínios e todos os animais estariam cobertos de impostos e burocracia. Se calhar estou a a extrapolar demais, mas como tudo é cíclico, veremos... Pode ser que um dia haja um Animal Farm 2...
O Gato, o qual desconheço o nome, é talvez a única não-personagem e uma das minhas preferidas. Já vi muitas teorias que apontam em várias direcções quanto ao que o gato poderá representar. A única coisa certa é que o gato está lá. Não está presente nos grandes acontecimentos, mas acaba sempre por cruzar a acção. Não participa mas também não está excluído. Quem é este misterioso gato? Será um símbolo dos excluídos da sociedade? Um apátrida? Será um refugiado ou um exilado de outra "animal farm"? Será um nómada, já que não parece pertencer ou ter grandes relações com o colectivo? Será um daqueles anarquistas sempre vestidos de negro, a trabalhar sorrateiramente nos bastidores? Nem sequer se percebe muito bem se apoia os "bons" ou os "maus" e a certa altura até apoia os dois lados. Na minha opinião, tal como na vida real, o gato não tem uma finalidade escondida, nem sequer representa nada em especial. Apenas representa o seu papel: o de ser gato, a olhar por si, a tentar passar despercebido sem causar grande alarido e mais nada. Com tudo o que isso tem de bom e de mau. Num filme com tanto simbolismo, é a única personagem que se representa a si própria. Como sempre, os gatos são superiores...
Tantos anos depois da sua estreia, Animal Farm, continua a ser uma referência, quanto mais não fosse, por ser a primeira longa-metragem de animação inglesa (mas também já li que foi a segunda!), muito por culpa da força criadora e visionária do casal-autor, Joy Batchelor e John Halas. Referência ainda para Maurice Denham, que teve o trabalho hérculeo e excepcional de fazer as vozes de todos os animais.
Animal Farm não é um filme de 6 estrelas pelos atributos técnicos avançados, mas porque de certa forma parece ter sido concebido quase como um manifesto intemporal. É inegável que é na história excepcional de George Orwell que reside toda a força do filme. De uma forma estranha, Animal Farm muda conforme os olhos de quem o vê e muda à medida que o expectador vai ficando mais velho. Mais estranho ainda, é Animal Farm conseguir ser simples e complexo ao mesmo tempo.
Revi-o mais tarde e por diversas vezes, e só aí percebi alguns dos paralelismos desta fábula com a revolução comunista e consequente degeneração de um ideal que aparentava ser uma alternativa. Esta característica de sobreposição da realidade fez com que o filme ficasse infelizmente preso no tempo. No entanto, e como tudo indica, a História parece ser cíclica, o que quer dizer que Animal Farm volta a estar actual. Já se fala novamente numa nova Guerra Fria. Vamos lá a ver se ninguém se lembra de levantar "muros" ou "cortinas" outra vez...
É de referir que há diferenças entre o filme e o livro, nomeadamente no final. Não sei se foi uma tentativa de aproximação mais light para dar um final um pouco mais feliz, ou se como já li numas teorias da conspiração, a CIA comprou os direitos e usou o filme como propaganda anti-comunista... Sinceramente não sei. O que sei é que quando se pega em simbolismos políticos, a história nunca é simples...
Como curiosidade, enquanto procurava um trailer encontrei... o filme inteiro disponível no youtube. Em tempos, Animal Farm já foi difícil de se encontrar no mercado português, mas agora está por todo o lado. É uma oportunidade de ouro para (re)ver um clássico que é muito mais que um filme de animação. É uma lição de história para quem tem olhos instruídos, um exercício mental de projecção do futuro e um acto contínuo de reflexão. Como obra de cinema é simplesmente único, incomparável, intemporal, obrigatório, mas acima de tudo, genial. ●●●●● + ●
Labels:
1954,
animação,
Animal Farm,
capitalismo,
comunismo,
ditadura,
drama,
fábula,
George Orwell,
história,
John Halas,
Joy Batchelor,
Maurice Denham,
nota6,
propaganda
Não. Não tem nada a ver com "aquela" cena dos 1% mais poderosos que controlam tudo e todos. Isto é sobre a teoria do 1 porcento (ou por cento?) dos filmes que são verdadeiras obras primas. Já por aqui expliquei como classifico todos os filmes que vi. Se alguém tiver paciência para os meus longos textos pode ler sobre isso aqui.
Dentro das avaliações, há uma classe de filmes muito particulares: aqueles que, do meu ponto de vista, preenchem todos os requisitos como obra cinematográfica e ainda têm algo mais: os filmes de "6 estrelas". (sim, estrelas, apesar de eu usar "bolas", mas isso é só porque não ainda consegui perceber como introduzir os símbolos correctos sem desconfigurar o texto...)
Ao longo do tempo, percebi que não existem assim tantos filmes deste gabarito. De todos os filmes que vi até hoje, se calhar, os de "nota 6" resumem-se a poucas dezenas. E como sou um gajo que tem sempre muitas teorias, automaticamente desenvolvi uma, que me diz que só de 100 em 100 filmes é que aparece um daqueles filmalhaços que nunca mais se esquece e que ficam para a história. Sinceramente, não sei se a teoria está certa. Nunca tive a oportunidade de a testar.
Mais uma outra coisa boa que saiu do facto de comentar os filmes num site: permite-me contabilizar e assim testar a teoria. Como o site chegou ao centésimo filme, para comemorar, vai já a seguir um desses filmes de "6 estrelas"...
Dentro das avaliações, há uma classe de filmes muito particulares: aqueles que, do meu ponto de vista, preenchem todos os requisitos como obra cinematográfica e ainda têm algo mais: os filmes de "6 estrelas". (sim, estrelas, apesar de eu usar "bolas", mas isso é só porque não ainda consegui perceber como introduzir os símbolos correctos sem desconfigurar o texto...)
Ao longo do tempo, percebi que não existem assim tantos filmes deste gabarito. De todos os filmes que vi até hoje, se calhar, os de "nota 6" resumem-se a poucas dezenas. E como sou um gajo que tem sempre muitas teorias, automaticamente desenvolvi uma, que me diz que só de 100 em 100 filmes é que aparece um daqueles filmalhaços que nunca mais se esquece e que ficam para a história. Sinceramente, não sei se a teoria está certa. Nunca tive a oportunidade de a testar.
Mais uma outra coisa boa que saiu do facto de comentar os filmes num site: permite-me contabilizar e assim testar a teoria. Como o site chegou ao centésimo filme, para comemorar, vai já a seguir um desses filmes de "6 estrelas"...
Labels:
1%,
cinema,
classificação,
comentário,
estrelas,
nota6,
teoria
Esta é uma série de filmes de ficção científica que não sendo propriamente maus, podiam ser melhores. São filmes que falham essencialmente porque os conceitos não são originais. Apesar de estarem muito bem feitos, bem dirigidos e sempre com bons actores, uma pessoa está sempre com aquela sensação de "já vi isto antes"... E é verdade. Por vezes, até parecem misturas de filmes. Estão bem realizados, as histórias, apesar de pouco originais têm algum nexo e pelo menos não são festivais ocos de acção, explosões e de efeitos especiais digitais só para encher tempo de filme e vender pipocas. Não vão figurar na história do cinema, mas vêem-se muito bem. Mais uma visualização com recurso à técnica intensiva.
Moon
Clones, solidão, perda de identidade e twist. Um mix de The Island e Silent Running. O melhor de Moon é mesmo o tour de force de Sam Rockwell, que literalmente faz uma longa metragem sozinho. O filme entra naquela categoria de filmes que se desenrolam muito lentamente. O twist final é relativamente surpreendente, mas lá está, parece que "já vi isto antes"... Com um orçamento minúsculo, o realizador Duncan Jones conseguiu montar um filme com pés e cabeça. Fico à espera do próximo filme. ●●○○○
In time
In time não é um mau filme, mas não consegui deixar de pensar em como toda aquela história parecia um enorme deja vu. O tempo como moeda até é original, mas fez-me lembrar em demasia no clássico Logan's Run e no esteticamente espantoso Gattaca, que por acaso até é do mesmo realizador, Andrew Niccol. O tempo está a acabar e, mais uma vez, uma luta de classes "contra o sistema", num futuro distópico. Já enjoa um bocado. E além disso, o filme por vezes perde-se na complexidade do tempo, ou seja, há ali alguns buracos no argumento. ●●○○○
Looper
Não sei se é por ter o Bruce Willis e a temática ser a das viagens no tempo, mas não consegui descolar de 12 Monkeys. Mas neste caso, o problema nem sequer é a falta de originalidade do tema. O problema é o tema. Não gosto particularmente do time travel porque quando se entra nesse campo, tudo fica confuso e nada é impossível em termos de história. É plausível voltar atrás e reescrever a história, não é verdade? Isso normalmente emaranha as histórias de uma forma que nunca acabam bem. Até a saga Terminator acabou por se deteriorar, portanto está tudo dito... Looper sofre exactamente do mesmo mal, pois acaba por criar paradoxos impossíveis. Joseph Gordon-Levitt está sempre bem em qualquer filme. ●●○○○
Elysium
Esperava muito de Elysium e em particular de Neill Blomkamp, depois do excelente District 9. Mas mais uma vez, o filme volta à desigualdade entre ricos e pobres, aos bairros de lata (que até parecem os mesmos de District 9), à luta de classes no futuro distópico. Não pode haver exemplo maior da falta de originalidade se nem sequer é preciso sair da própria filmografia. Parece que Neill Blomkamp ficou preso nas suas próprias ideias e imagens. Vi há pouco tempo um trailer de Chappie (que ainda não vi) e fiquei pasmado ao ver como os robots desse filme são iguais aos deste... Espero que Blomkamp acorde para a vida. Os seus filmes até são bons, mas estão a sair todos iguais... Matton Damon is everywhere e Jodie Foster nunca falha. ●●○○○
Automata
Mais uma história da Inteligência Artificial que se torna consciente e a determinado ponto até se torna mais humana que os próprios humanos, e que nos remete para a questão fulcral: o que nos torna humanos? O filme até seria engraçado se já não tivessem sido feitos 235.894.341 filmes com o mesmo tema e a mesma história. Não entendo esta panca de voltar a fazer sempre a mesma coisa. Antonio Banderas até me surpreendeu no papel de um funcionário de seguros do futuro, mas provavelmente é só por parecer mais velho e sem aquela áurea de galã-macho-latino. Automata tem uma boa estética e até "rola bem" mas não acrescenta absolutamente nada de novo. Fica a curiosidade de ver um novo projecto de Gabe Ibáñez. ●●○○○
Moon
Clones, solidão, perda de identidade e twist. Um mix de The Island e Silent Running. O melhor de Moon é mesmo o tour de force de Sam Rockwell, que literalmente faz uma longa metragem sozinho. O filme entra naquela categoria de filmes que se desenrolam muito lentamente. O twist final é relativamente surpreendente, mas lá está, parece que "já vi isto antes"... Com um orçamento minúsculo, o realizador Duncan Jones conseguiu montar um filme com pés e cabeça. Fico à espera do próximo filme. ●●○○○
In time
In time não é um mau filme, mas não consegui deixar de pensar em como toda aquela história parecia um enorme deja vu. O tempo como moeda até é original, mas fez-me lembrar em demasia no clássico Logan's Run e no esteticamente espantoso Gattaca, que por acaso até é do mesmo realizador, Andrew Niccol. O tempo está a acabar e, mais uma vez, uma luta de classes "contra o sistema", num futuro distópico. Já enjoa um bocado. E além disso, o filme por vezes perde-se na complexidade do tempo, ou seja, há ali alguns buracos no argumento. ●●○○○
Looper
Não sei se é por ter o Bruce Willis e a temática ser a das viagens no tempo, mas não consegui descolar de 12 Monkeys. Mas neste caso, o problema nem sequer é a falta de originalidade do tema. O problema é o tema. Não gosto particularmente do time travel porque quando se entra nesse campo, tudo fica confuso e nada é impossível em termos de história. É plausível voltar atrás e reescrever a história, não é verdade? Isso normalmente emaranha as histórias de uma forma que nunca acabam bem. Até a saga Terminator acabou por se deteriorar, portanto está tudo dito... Looper sofre exactamente do mesmo mal, pois acaba por criar paradoxos impossíveis. Joseph Gordon-Levitt está sempre bem em qualquer filme. ●●○○○
Elysium
Esperava muito de Elysium e em particular de Neill Blomkamp, depois do excelente District 9. Mas mais uma vez, o filme volta à desigualdade entre ricos e pobres, aos bairros de lata (que até parecem os mesmos de District 9), à luta de classes no futuro distópico. Não pode haver exemplo maior da falta de originalidade se nem sequer é preciso sair da própria filmografia. Parece que Neill Blomkamp ficou preso nas suas próprias ideias e imagens. Vi há pouco tempo um trailer de Chappie (que ainda não vi) e fiquei pasmado ao ver como os robots desse filme são iguais aos deste... Espero que Blomkamp acorde para a vida. Os seus filmes até são bons, mas estão a sair todos iguais... Matton Damon is everywhere e Jodie Foster nunca falha. ●●○○○
Automata
Mais uma história da Inteligência Artificial que se torna consciente e a determinado ponto até se torna mais humana que os próprios humanos, e que nos remete para a questão fulcral: o que nos torna humanos? O filme até seria engraçado se já não tivessem sido feitos 235.894.341 filmes com o mesmo tema e a mesma história. Não entendo esta panca de voltar a fazer sempre a mesma coisa. Antonio Banderas até me surpreendeu no papel de um funcionário de seguros do futuro, mas provavelmente é só por parecer mais velho e sem aquela áurea de galã-macho-latino. Automata tem uma boa estética e até "rola bem" mas não acrescenta absolutamente nada de novo. Fica a curiosidade de ver um novo projecto de Gabe Ibáñez. ●●○○○
Labels:
2009,
2011,
2012,
2013,
2014,
Andrew Niccol,
Antonio Banderas,
Automata,
Bruce Willis,
Elysium,
ficção científica,
In Time,
Joseph Gordon-Levitt,
Looper,
Matt Damon,
Moon,
Neill Blomkamp,
nota2,
Sam Rockwell
Control é um filme extremamente "polido" e muito bom. Tanto em termos de construção da narrativa, como obviamente de imagem. Vindo de Anton Corbijn, um dos melhores fotógrafos do mundo da música, não é de estranhar que Control tenha uma fotografia espectacular. A opção estética do preto e branco foi muito bem conseguida e encaixa-se perfeitamente no retrato trágico duma história como esta.
Baseado no livro da mulher de Ian Curtis, a história de Control conta o percurso do líder dos Joy Division, desde os tempos da escola, passando pelos meandros da inspiração, construção e sucesso da banda e das suas músicas, até ao final prematuro e trágico aos 23 anos, e espelha muito bem o desmorenamento e as divisões internas do vocalista.
Sou um grande fã da música dos Joy Division. Até gostava da banda ainda antes de conhecer a música propriamente dita. É estranho, eu sei, mas, os Joy Division, precisamente pela história que rodeia a banda, têm uma áurea estranha e depressiva que aproxima sempre os adolescentes. E eu não fui excepção. Quando uma pessoa é mais nova e ouve alguém a dizer que há uma banda muito boa, em que o vocalista se suicidou, há imediatamente uma ligação e uma pessoa tem que a ouvir e conhecer melhor. Foi o que aconteceu. Por acaso quando ouvi os primeiros discos nem sequer gostei muito. Só mais tarde é que consegui encaixar a sonoridade muito particular dos Joy Division que é uma música fora do normal e demasiado adulta, tanto na sonoridade como nas letras para ser entendida por adolescentes... É muito atmosférica mas ao mesmo tempo frenética. Tem muita pedalada, como se diz na gíria. É um bocado como o próprio Ian Curtis e a sua história pessoal e artística. Se o filme o retrata correctamente, trata-se de uma pessoa numa viagem de montanha russa, alternando, entre altos muito altos e baixos muitos baixos. Passa-se rapidamente dum imobilismo depressivo para uma eufórica velocidade da luz.
Li algumas coisas sobre o assunto e sempre se falou em epilepsia e bipolaridade. Umas vezes estamos bem e outras estramos mal. Mas a vida não é mesmo assim? A diferença é que algumas coisas tem "poder de encaixe" para essas mudanças abruptas e outras nem por isso. Tal como tantos outros, lidar com a fama, o protagonismo e ser a cara duma grande banda, reconhecido e adorado por milhões, deve dar um bocado cabo do miolo. Presumo que isso deve mexer com tudo cá dentro. Há quem viva para isso, mas também dá para perceber que há quem não aguente e acabe por mergulhar na depressão. E a conhecida disponibilidade de drogas, álcool e afins nos bastidores do mundo da música também não deve ajudar nada...
Já não é a primeira vez que um líder de uma banda icónica acaba desta maneira. Deve ser sina dos grandes autores. Ou então é isso que os põe na galeria dos "grandes". Morrer jovem e no pico da carreira musical é o primeiro passo para se tornar numa lenda. Jim Morrison, Kurt Cobain, Michael Hutchence, Ian Curtis e a lista continua... Mas isto é outro assunto...
Para além da fotografia e da realização estilizada de Corbijn, o que mais gostei em Control foi o ritmo. O filme consegue retratar na perfeição os altos e baixos de Curtis e está sempre muito bem encaixado nos grandes temas dos Joy Division. Se o filme pudesse ser comparado a uma música, seria sem dúvida a Transmission. Mas também podia ser a Atmosphere. Ou Love Will Tear Us Apart. O filme está tão bem feito que se calhar até podiam ser todas.
Mas acima de tudo, o filme vale pela brilhante interpretação de Sam Riley. Excelente. Posso dizer que até me mete impressão. Quem conhece as actuações de Ian Curtis fica arrepiado. A forma como Riley consegue replicar todos aqueles tiques estranhos, os movimentos frenéticos, o olhar e até as expressões é absolutamente impressionante. Fica a pergunta: onde é que desencantam estes actores desconhecidos? Dificilmente outro actor conseguiria fazer melhor.
Control é um bom filme para fãs dos Joy Division, do Ian Curtis e não só. É um filme para quem gosta de bons filmes. ●●●●○
Labels:
2007,
Anton Corbijn,
banda,
Control,
depressão,
drama,
epilepsia,
Ian Curtis,
Joy Division,
música,
nota4,
Sam Riley,
Samantha Morton,
suicídio





