THX é um normal cidadão que vive, sem questionar nada, no seu subterrâneo asséptico, algures no distópico século XXV (será?!?). Mas devido à influência de LUH 3417, a sua subversiva companheira de quarto, deixa de tomar os comprimidos obrigatórios para controlo mental e começa lentamente a mudar a sua forma de pensar. E da crisálida homogénea de THX 1138, emerge um novo e perigoso "TEX": um cidadão com a capacidade de pensar, questionar e reagir contra o status quo...
Eis o primeiro mundo cinematográfico de George Lucas. Controlo mental com drogas para suprimir emoções; prisões infindável sem paredes nem limites; trabalho como ideologia, consumo como religião, em que as pessoas trabalham para construir máquinas e robots que controlam o trabalho das outras pessoas. É um mundo branco, minimal e desprovido de tudo, mas no essencial é o mais negro que se pode imaginar.
É daqueles filmes que apesar de estar tecnologicamente muito "marcado" no tempo, paradoxalmente, por ser tão a-estético e distópico, se torna ao mesmo tempo extremamente actual. Strange but true. Junta-se a este lado positivo da balança o excelente som de toda a produção. Aliás, sonora e visualmente THX é absolutamente fantástico. Os pouquíssimos actores também assentam que nem uma luva neste ambiente impessoal de desumanizado (Robert Duvall, Maggie McOmie, Donald Pleasence e Don Pedro Colley). Por último, aquele final ambíguo, sem se perceber se ele volta atrás ou se simplesmente não há nada cá fora, é um daqueles "remates" perfeitos e que termina espectacularmente bem o filme.
Por outro lado, o negativo, há de facto a questão da desactualização tecnológica (que é uma marca demasiado profunda e marcante) e a montagem, que parece algo errática, mais virada para as questões e ligações estéticas do que para dar suporte ao guião, o que dá um ar por vezes desconexo a toda a história. Acho que é até o ponto mais negativo de todo o filme.
THX 1138 parece verdadeiramente um filme de fim de curso de cinema, mas sob o efeito de esteróides. Muuuuitos esteróides. Acho muito interessante, o misto de juventude com maturidade, o que revelou nitidamente todo o potencial de um gajo anónimo, mas que viria a ser "o" George Lucas. E tudo o que se seguiu é simplesmente história do cinema... Não sendo uma obra-prima, THX 1138 é um dos meus filmes preferidos de todos os tempos, porque sempre que o revejo me lembra que é possível fazer tanto com tão pouco... Uma referência e um verdadeiro filme de culto. ●●●●○


A dona sem escrúpulos de uma mega-corporação agro-pecuária, decide desenvolver um projecto secreto para criar super-porcos. Animais com base no porco, mas que pela acção da modificação genética se transformam em gigantescos nacos de carne. Uma miúda sul-coreana juntamente com o avô ficam responsáveis por alimentar um desses super-porcos experimentais e com o tempo cria uma relação de amizade muito pouco usual com o simpático bicho. Inevitavelmente, chega o dia em que a maléfica empresa tem de recolher o super-porco para o levar para abate. Mas a miúda não quer largar o seu novo "amigo" e então começa uma muito estranha aventura para o resgatar da morte certa...
Sem ser uma obra prima, Okja é um filme muito bom. É ainda melhor porque o panorama actual do cinema se resume a conceber produtos que passam numa tela de cinema e que são feitos e vendidos como um hambúrguer com batatas fritas e cujo único propósito de existirem é faturar o máximo possível no box office.
Okja é terno e emotivo, sempre repleto de bons momentos, tanto dramáticos, como de acção, tudo sob a batuta perfeitamente ritmada de Bong Joon Ho, que tem aqui mais um excelente exemplo de como ser verdadeiramente um realizador nos tempos actuais. Afirma-se cada vez mais como um dos meus realizadores de referência.
O casting é um mix estranho mas muito bem escolhido e com prestações muito boas (Jake Gyllenhaal, Giancarlo Esposito e Paul Dano, entre outros) Destaque maior para a icónica e única Tilda Swinton e para a miúda Seo-hyun Ahn, que acaba por ser o centro de todas as atenções.
Já tinha lido muito boas coisas sobre este Okja e a realidade é que não me desiludiu nada. É uma lufada de ar fresco, com ventos fortes provenientes da Netfilx. Totalmente recomendado. ●●●○○

Uma das perguntas que me faço regularmente quando vejo filmes pipoca é porque o faço. Bumblebee é a resposta a essa pergunta. De vez em quando fazem um filmito destes que não é totalmente para estúpidos. Até tem uma história com pés e cabeça. Uma pessoa está a olhar para a tela e fica agradada com o que vê; não é apenas um chorrilho interminável de perseguições, explosões e cenas CGI totalmente despropositadas. É que já não aguento a cena actual, em que o herói para ir do sofá ao frigorífico buscar um iogurte, tem de estar envolvido numa cena de acção alucinante, com explosões, cenas de pancadaria e saltos de carros entre arranha-céus, que não acrescenta nada à história e que só ali está para satisfazer o cliente final, que tendo pago um preço tão alto pelo bilhete de cinema quer ter o máximo possível de filme, e nunca, mas nunca em tempo inferior a 2 horas e meia...
Nesse aspecto, Bumblebee foi uma boa surpresa. Não sofre tanto deste novo mal do cinema e é um pouco diferente na aproximação. Por vezes tem mesmo piada e nota-se que foi mais pensado do que é habitual. É normal. O realizador é Travis Knight, a mesma mente criadora de Kubo. Está mais regrado e contido do que o normal, o que lhe dá mais espinha dorsal e o transforma quase num filme "normal", mas com robots em CGI. O pessoal jovem não deslumbra mas também não compromete (Hailee Steinfeld, Jorge Lendeborg Jr. e Jason Drucker. John Cena é mais um daqueles fenómenos estranhos: um gajo que não tem formação nem jeito absolutamente nenhum, mas que com o tempo vai ganhando calo suficiente para lentamente se ir transformando num bom actor.). Uma surpresa totalmente inesperada. ●●●○○



PS: Claro que na esperada sequela toda esta história do filme parco em efeitos e estupidez explosiva lá vai pelo esgoto abaixo porque os fãs exigem algo maior, com mais explosões e mais acção. E lá estarei eu aqui a desdenhar, atirando raios e coriscos aos filmes-pipoca e a perguntar novamente: "mas porque é que eu perco o meu tempo a ver estas 'estupidezes'?..."
Nazis e zombies são uma combinação explosiva desde os tempos do Wolfenstein 3D, que para quem não conhece é um jogo de computador tão antigo que o 3D ainda era em 2D... E, tirando a questão da antiguidade, pouco difere deste Overlord (realizado por Julius Avery). Sangue, gore, tiros, explosões e um casting (Jovan Adepo, Wyatt Russell, Mathilde Ollivier, Pilou Asbæk) que é tantas vezes lançado ao ar pelas ubíquas explosões que é raro vê-los com os pés no chão... Mais uma chachada sem grande sentido que apenas viu a luz do dia porque tinha a chancela mágica (que é como quem diz... $$$!) do J.J. Abrams... ●○○○○

O sol está a morrer e Terra está ameaçada. A única solução é construir gigantescos motores por todo o mundo e literalmente deslocar a Terra para outro sistema solar. Por sorte há um novinho em folha a apenas 2500 anos de distância. Nada que assuste o carácter empreendedor dos nossos jovens heróis... e já agora dos argumentistas. Isto é que se chama pensar em grande. Daí o nome The Wandering Earth, ou no seu título original: Liu lang di qiu... (acho eu... [o meu mandarim anda um pouco enferrujado...])
Um filme para provar que nem só os americanos conseguem gastar rios de dinheiro para fazer filmes de chacha. Um sucedâneo americano do filme-desastre de acção, só que feito na China. Tem mais qualquer coisa que o normal, porque tem traços de anime. Por vezes fez-me lembrar uma conversão de anime para imagem real. Mas também posso ser só eu a ser mentalmente desencaminhado pela sonoridade oriental... Tirando isso, o costume. Verborreia digital, muita acção e fogo de artifício, muito pouco "sumo", o inevitável sacrifício do herói e um final feliz, miraculosamente conseguido quando faltam 3 segundos para o fim.
O que se destaca mais é o muito bom design da produção. Por acaso até está muito acima da média. Mas de resto é um pouco fracote. Medianamente bem realizado por Frant Gwo e pobremente interpretado por actores com nomes muitos sugestivos, tais como Jing Wu, Chuxiao Qu, Guangjie Li e Man-Tat Ng... Vê-se e esquece-se rapidamente, tal como os restantes "produtos" americanos do mesmo género. Apenas se diferencia um pouco da chachada habitual por causa dos sabores exóticos... ●○○○○

 
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