Quando saiu da prisão, condenado por matar dois negros que lhe tentaram roubar o carro, um antigo skinhead tenta evitar que o irmão mais novo siga os mesmo trilhos perigosos e errados. Neo-nazis, questões raciais e sociais fracturantes e cinzentas, a perda da influência paternal e as más influências, um ciclo de violência que é errático e que ataca quem está ao nosso lado. Tudo isto são temas muito difícies de pegar e especialmente ambíguos para mostrar em filme. Por isso mesmo, American History X não é propriamente um filme fácil. Desde aquele "momento" no lancil do passeio, passando pelo chuveiro da prisão até ao final imprevisível mas traumático, tudo neste filme é musculado e duro. É um mergulho num mundo violento, a "preto e branco" e pouco conhecido da sociedade. Um vislumbre do submundo dos skinheads e da supremacia racial branca. Apesar de ser um filme de 1998, é irónico que alguns discursos do filme encaixem perfeitamente na retórica do actual presidente americano, Donad Trump, o que ajuda a perceber melhor porque esta administralção é recorrentemente acusada de ser racista e conotada (ou colada) com a propaganda da supremacia branca. Este tema/trauma racial é latente na sociedade americana, daí que seria uma boa altura para rever o filme e perceber o quão actual se mantém. Curiosamente, se o filme fosse lançado neste momento é provável que fosse extremamente polémico e traria ainda mais gasolina para a fogueira do debate público. É caso para dizer que um tema desta magnitude nunca sai de cima da mesa da actualidade...
American History X é realizado na perfeição por Tony Kaye, que nos vai levando para a frente e para trás na história (brilhante fotografia a preto e branco) para mostrar um drama intimista e familiar com toques de conto moral mas sem ser objetivamente moralista. Impecável. Ninguém diria que Kaye teve grandes discordâncias com o corte final, a ponto de querer (e processar o estúdio) para retirar o seu nome dos créditos do filme. É um dos poucos casos em que o realizador não gosta na peça final, mas que aparentemente tudo acaba por se conjugar na perfeição.
Beverly D'Angelo, Elliott Gould, Stacy Keach, Edward Furlong e em especial destaque Edward Norton, no papel irreconhecível de um musculado skinhead arrependido, todos dão uma prestação espectacular e inesquecível. A realização é limpa, impecável e a história circular de violência é quase um pequeno conto moderno. Não poderia pedir mais. American History X é um grande filme e está recomendadíssimo. ●●●●○

Os eventos passados em Dunkirk são decisivos na história da Segunda Guerra Mundial e consequentemente na história do mundo. Sem o salvamento destes soldados presos na praia e cercados de alemães, é provável que a Inglaterra tivesse sucumbido e a Alemanha Nazi tivesse mesmo conquistado toda a Europa e quem sabe o mundo hoje, seria um mundo totalmente diferente... É uma daquelas histórias de guerra que para além de diferentes do habitual (são os civis que salvam os soldados e não o contrário), também não é muito conhecida, talvez ofuscada pela grande manobra de acção e bravura que foi o desembarque na Normandia. Por isso, é sempre bom ser relembrado e informado de factos menos conhecidos. Este Dunkirk, de Christopher Nolan é isto e muito mais, mas tem algumas falhas. E quando eu digo "falhas", não são "falhas", mas apenas aspectos que não conjugam muito bem com o que gosto de ver num filme de guerra.
Estar a ver um filme como o Dunkirk é como estar a apreciar uma obra arquitectónica de Alvar Aalto. É bonito e minimalista mas demasiado impessoal. E Dunkirk é um bocado assim. As personagens são demasiado robotizadas. Eu percebo a lógica: desumanizar as personagens para transmitir a desumanização do soldado e da própria guerra. Neste caso, acho que Nolan foi longe demais e as personagens tornaram-se quase zombies, sem acção, sem emoções, sem personalidade... apenas têm uma presença física. Percebo, mas não gosto. Tornou-se demasiado não-emocional.
A narrativa não-linear é um pouco confusa e também não ajuda a cimentar a importância e o desespero dos soldados. Também a entendo mas também não gostei porque não é totalmente perceptível. Percebo a lógica temporal dispersa pela areia, pela água e pelo ar. E provavelmente até foi mesmo o que os soldados sentiram naqueles instantes angustiantes, mas essa sensação não passou pelo ecrã. Tal como os actores (Mark Rylance, Tom Hardy, Cillian Murphy, Kenneth Branagh, Fionn Whitehead, Damien Bonnard), apenas estão lá...
Mas apesar disto tudo, Dunkirk é uma obra de arte lindíssima. Belo som, maravilhosas imagens e planos de câmara de deixar um gajo de boca aberta. Parece-me que este Dunkirk é mais uma experiência do que propriamente um filme. Nolan quis experimentar um novo tipo de cinema e apoiou-se neste elenco jovem para o fazer. Cheira quase a preparação para algo grande que vem a seguir. É uma obra de arte cinematográfica minimalista e algo diferente no já longo e muito bem preenchido currículo de Nolan.
Apesar de não ser excepcional e de optar por ir para campos que não são do meu gosto, é um belíssimo filme de guerra que sem dúvidas, recomendaria sempre. E vem confirmar aquilo que toda a gente já percebeu, mas não quer dizer: Christopher Nolan é o melhor, mais eclético, perfecionista, puro e verdadeiro realizador do momento. ●●●○○

Um filme que toca em muitos aspectos interessantes não é necessariamente um filme interessante. É o caso de Downsizing. Gostei muito da premissa inicial e tinha imensa curiosidade em perceber para onde o filme me levaria. Tristemente, não me levou a lado nenhum. Ao invés de ser levado numa aventura e deslumbrado com esse "admirável novo mundo", apenas me deixei estar sentado a olhar para o ecrã, vendo pessoas com 5 cm de altura a portarem-se exactamente da mesma formas que as "normais", num cenário mais pequeno mas que sem perspectiva de comparação era exactamente igual ao "normal", e a determinada altura esqueci-me que estava a ver um filme em que a premissa inicial era a de miniaturizar pessoas... Estava a ver uma sátira com contornos sociais. Não foi bem isso que "venderam" no trailer... Mas tudo bem. Aceito a parte do "engano" do trailer. O problema é que o filme não tem muito interesse. Alexander Payne até começa bem, mas depois parece que a história bloqueia e regressa ao mundo dos grandes. E aí o filme torna-se rotineiro e linear e pior, parece que não tem um rumo muito definido. Basta lembrar que toda lógica do filme começa porque há uma enorme preocupação com as alterações climáticas e com o preservar o mundo da sobre-população humana, mas depois toda esta temática simplesmente desaparece do guião... É no mínimo estranho, o caminho que o filme trilha...
Matt Damon, Christoph Waltz, Hong Chau e um dos meus actores favoritos de sempre, Udo Kier apoiam-se na capacidade superior dos diálogos que têm à disposição e assim ajudam a minimizar os danos causados pela falta de objectividade do próprio argumento. Downsizing é aceitável, mas face às potencialidade da própria história. poderia ser muito melhor. Esperava mais, mas vê-se bem. ●●○○○

Danny Boyle é um gajo que curto há muito tempo. É daqueles realizadores que sei de antemão que não me vai desiludir. Mas desta vez acabou mesmo por acontecer. Steve Jobs é um desilusão de filme. Esperava muito mais.
O filme retrata alguns aspectos marcantes do co-fundador da Apple em três momentos temporais distintos: em 1984 aquando do lançamento do Macintosh; em 1986, quando o mundo dos computadores ficou chocado com o despedimento de Jobs e sequente criação do enorme falhanço que foram os computadores pretos da NEXT; e em 1997 com o regresso à casa onde "nasceu" para lançar o iMac, o pequeno computador colorido que foi um sucesso porque toda a gente queria ter um só por ser extremamente giro.
Eu não tenho problema nenhum com filmes "partidos". Muito pelo contrário. Gosto muito de argumentos não-lineares. E neste caso, como é costume, Aaron Sorkin não desilude e consegue habilmente costurar três histórias "diferentes" e distantes no tempo. MAs para mim há algo que falha. A demasiada incidência na vida de Steve Jobs por "trás da cortina" (percebe-se a lógica, já que os fãs tratavam-no [e ainda tratam] como um verdadeiro Feiticeiro de Oz [com todas as implicações que isso traz...]), acabou por transformar um biopic de Jobs no filme em que Jobs vive a sua vida inteira nos bastidores, vãos de escadas, passagens estreitas e garagens subterrâneas. Não me lembro bem, mas acho que há apenas uma única cena de exteriores... A determinada altura o filme torna-se repetitivo e por vez até maçador. A ex-mulher e a filha estão presentes, mas aparecem e desaparecem, assim como toda a restante gente... Parece que o Jobs vivia literalmente num daqueles camarins escuros e distante da realidade e era visitado regularmente por meio mundo que o vinha chatear mesmo antes de ele apresentar um produto novo qualquer... Parece uma paródia. Mas não é.
O que poderia ajudar muito a elevar o filme seriam os actores. Michael Fassbender, Kate Winslet, Seth Rogen e Jeff Daniels são muito bons, mas de alguma foram parecem desligados do enredo. Posso ser só eu, mas nunca consegui "ver" o Fassbender como Jobs. Há algo ali que não bate certo. Foi como estar a ver uma personagem ficcional com o mesmo nome do Jobs, mas que não era "o" Jobs. E ainda por cima dá a impressão que contaminou o resto do elenco.
Os grandes (Danny Boyle) também "falham" e este é o caso. Steve Jobs não é um mau filme, mas também não é um bom filme. Tendo por base, uma personagem tão rica como a figura de Jobs, vindo de um realizador que até é dos mais favoritos, e face à expectativa que foi criada na altura da estreia, Steve Jobs só pode ser classificado como uma enorme desilusão. ●●○○○

Full Metal Jacket é um daqueles filmes que não precisa de apresentações. É simplesmente um dos melhores filmes de guerra que já vi. E esta apreciação é mais ou menos unânime entre os cinéfilos, críticos e público em geral, o que por si só já é uma referência de qualidade. Mas eu tenho um problema com este filme. E esse problema é a dualidade.
O génio do cinema, Stanley Kubrick sempre filmou com base em referências de alguma forma mitológicas e/ou conceptuais. Em todos os filmes dele há uma característica bem marcada que me diz que tudo o que aparece ou é dito tem sempre outro significado, que quer dizer algo mais. Em Full Metal Jacket essa "marca" é a dualidade, que está presente mesmo antes do filme começar, quando uma pessoa olha para o (excelente) poster promocional e temos uma frase como "Born to Kill" escrita ao lado de um pin com o símbolo da paz... Já durante o filme, a dualidade é omnipresente e o próprio personagem principal, a determinada altura, faz precisamente menção à dualidade do homem e da guerra. Eu percebo a lógica, mas neste caso, a lógica aparece-me de certa forma inconsistente, ou então o Kubrick foi longe demais nesse lado duplo das coisas e não conseguiu passar bem a mensagem. Como aquele match cut no 2001, em que se salta instantaneamente do osso para a nave espacial. Ou é algo que eu não percebi ou algo que não está bem. Seja como for, para mim é uma marca profunda, porque o problema não está na dualidade do argumento, do tratamento das personagens ou outra coisa qualquer; o problema está na espinha dorsal do filme. Por vezes dou por mim a pensar se este não será um tipo de filme totalmente novo. Um filme com duas partes totalmente distintas que se interligam no final. Mas não me parece que assim seja. Acho que mentalmente só estou a tentar ver as coisas de outra forma para "desculpar" o "erro" de cálculo do Kubrick. Já vi este filme pelo menos umas 5 vezes e não consigo deixar de pensar que na realidade são dois filmes excepcionais "colados" a meio. Falta-me a ligação que deveria ser a personagem do Matthew Modine, só que a personagem principal do primeiro filme (devido à prestação excepcional) acaba por ser, sem dúvida, o Vincent D'Onofrio. E aqui é que começam verdadeiramente os problemas.
A primeira parte trata da desumanização do treino militar. Não é por nada que o filme começa com o rapar das cabeças dos recrutas, uniformizando-os numa "massa" desprovida de individualidade. Depois o tratamento miserável que sargento Hartman (um incomparável, inesquecível e icónico R. Lee Ermey) dá aos moços, relega-os para o ponto mais baixo da subserviência e controlo. Alguns aguentam o tratamento duríssimo (Arliss Howard), enquanto outros (Vincent D'Onofrio) acabam por enlouquecer e sucumbir mesmo antes de entrarem no teatro de guerra. A segunda parte leva-nos para a loucura e para a surrealidade da guerra. Somos transportados para o Vietname, onde os soldados americanos esperavam ser recebidos como salvadores mas afinal acabam por perceber que não são bem-vindos. Os cenários aumentam mas ritmo de acção diminui. Talvez por isso sinta que esta segunda parte do filme acaba por se tornar mais fraca do que a primeira. Parece quase um epílogo da história anterior. Não tem propriamente um início nem um fim, apenas uma informação breve sobre o que aconteceu a alguns dos protagonistas do "primeiro" filme e o encontro com novas personagens (Adam Baldwin). É esta dualidade forçada, entre as duas partes do filme, que acho que o prejudicam. A primeira parte é muito mais forte que a segunda, a ligação pelo meio perde-se e isso acaba por ofuscar o resultado final.
Mas tenho de esclarecer aqui uma coisa. Por muito pretensioso (ou faccioso?!?...) que possa parecer, Full Metal Jacket só tem algo de criticável precisamente por ser realizado pelo Stanley Kubrick. O homem era um génio e isso vê-se na sua filmografia. Todos os filmes são perfeitos e alguns até são mais que perfeitos! Por isso mesmo a "barra" está sempre muito, muito lá em cima. É essa a única razão que me leva a escalpelizar tanto ao pormenor e a ser tão exigente.
Mas tirando este meu complexo das "duas metades", Full Metal Jacket é um filme único e  imperdível. Banda sonora excepcional, uma atenção aos detalhes absolutamente minuciosa, cenários e fotografia belíssima, planos de câmara fantásticos e recheado de personagens e situações tão icónicas que ainda hoje continuam a ser copiadas e algumas já entraram e enraizaram-se na cultura pop como é o caso do sargento Hartman e do seu temperamento irascível. É um filme obrigatório para qualquer pessoa que gosta de cinema. Um filme com a marca e a qualidade Stanley Kubrick. Imperdível. ●●●●○
(se este fosse um filme realizado por outra pessoa qualquer, seria de caras para levar 5 estrelas; ao Kubrick, não consigo perdoar esta "falha" por muito mínima que seja...)

O ano é o longínquo 2057. Um grupo internacional de astronautas segue na nave Icarus em direcção ao Sol. A sua missão: detonar uma arma nuclear para reactivar o Sol que entretanto entrou num estado de latência, ameaçando a vida na Terra. Icarus falha e é então enviada uma nova vaga de astronautas para terminar a missão anterior. Mas nem tudo corre como planeado.
Sunshine até nem é um mau filme, mas fico com a sensação que é... apressado. É isso, apressado. Parece que o Danny Boyle (gajo muitíssimo bom atrás da câmara e que aprecio bastante) quis sair da sua zona de conforto e fazer um filme de ficção cientifica, mas lá para o meio chateou-se, percebeu que aquele não era o tipo de filme que gosta de fazer e então decidiu apressar o final do filme. Mas no geral é um bom filmito de ficção científica. Toca em muitos pontos interessantes: as conotações religiosas; o poder enigmático, magnético, hipnótico e quase surreal do sol está muito bem conseguido; as relações de demasiada proximidade (e intimidade) de um grupo de pessoas restrito e fechado tanto tempo no mesmo sítio é exemplar.
Sunshine tem um bom grupo de actores (Mark Strong, Cillian Murphy, Michelle Yeoh, Hiroyuki Sanada, Chris Evans), uma excelente fotografia e especialmente, tem pés e cabeça. É uma história cientificamente credível que sustenta todo o filme. E tem também aquele toquezinho de Solaris que fica sempre bem. É um bom filme, mas a sensação que fica é de que Danny Boyle esteve desconfortável fora do seu meio habitual. É pena, porque fora essa sensação latente e estranha que ficou entranhada, é um filme que se vê muito bem. Podia ser melhor, mas é o que é... ●●○○○

Para dar um pouco de descanso ao cérebro, esta semana só vou falar de uma chiclete: Power Rangers. Uns adolescentes (tinha de ser, pois o grupo etário consumidor deste tipo de produtos está na faixa dos 8-15 anos) descobrem umas pedras coloridas e todos ganham super-poderes numa altura em que o mundo corre perigo devido ao mau da fita (neste caso, "a" má da fita [parece que foi uma imposição do MLMC [Movimento Libertário das Mulheres no Cinema]) e aos fiéis monstros digitais que vêm junto.
Não sou conhecedor do "meio". Lembro-me vagamente de uma série de TV com monstros ridiculamente falsos, lutas de artes-marciais e umas fatiotas coloridas. Pouco mais. Aliás, vi tão poucas vezes os Power Rangers (e acho que nunca vi um episódio inteiro), que na minha cabeça está organizado juntamente com os Teletubbies (porque dava mais ou menos na mesma altura e também por causa das cores da fatiotas), o que demonstra claramente o meu nível de conhecimento da coisa...
Já sabia ao que ia e portanto as expectactivas eram mesmo muito baixas. Talvez por causa disso (ou então porque estava cansado e com muito sono...) até foi melhor do que pensava. Melhor dizendo, não foi tão "mentalmente ofensivo" quanto esperava... Ainda assim é um produto. É um produto da marca Saban, mas que também já foi da Walt Disney e que não tarda nada irá ser um produto com a chancela da marca Hasbro. Um produto e uma fórmula de sucesso, portanto. Uma "coisa" para vender aos saudosistas e aos novos miúdos que nunca viram a série original. Tal como diz a música: "E como tudo que é coisa que promete, A gente vê como uma chiclete, Que se prova, mastiga e deita fora"... ●○○○○

Mark e David Schultz são dois irmãos que são também campeões olímpicos de luta greco-romana. Apesar das vitórias, Mark leva uma vida fora da ribalta, treinando na obscuridade e praticamente no anonimato. A juntar a esta falta de reconhecimento, Mark sente que vai estar sempre na sombra do irmão que talvez por ser mais sociável acaba por ser mais apoiado. A determinado ponto entra em cena o milionário excêntrico John du Pont, uma misteriosa personagem que sente que Mark não é suficientemente reconhecido e por isso quer mudar todo o paradigma desportivo, trazê-lo para a ribalta e mostrá-lo ao mundo (americano) como um exemplo do trabalhador dedicado e do que a América faz de melhor. Para isso, monta uma equipa (Equipa Foxcatcher) e toda a estrutura de treino na sua enorme mansão com o intuito de participar nos Jogos Olímpicos de 1988 e vencer a medalha de ouro. Só que à medida que Mark e John se tornam mais íntimos, a difícil conciliação de personalidades, faz com que tanto Mark como John acabem por trilhar um caminho de tragédia.
Foxcatcher é um filme estranho. Para já porque é baseado numa história verídica e como toda a gente sabe, a realidade é mais estranha que a ficção. Todos os eventos inacreditáveis do filme são realmente verdadeiros. Li e confirmei a história e parece-me... inacreditável. É daquelas coisas que uma pessoa só consegue pensar: "isto é mesmo verdade?", "isto aconteceu mesmo assim?". E é. É mesmo verdade. Por isso a história é um dos pontos positivos e basilares deste Foxcatcher. A outra coisa boa é o ritmo/tom do filme. Só quando me informei melhor do assunto é que percebi porque é que o filme parece destinado apenas a ser visto por pessoas fortemente medicadas com Prozac. É que tem um ambiência e um tom mesmo estranho. É beje, mas tem uma qualidade quase onírica... Parece que o próprio filme está sob o efeito de uma droga qualquer. Encaixa perfeitamente bem no tema. É (muito) monótono mas ao mesmo tempo é tenso. Nota-se algo no ar, como se uma pessoa estivesse muito calma mas prestes a explodir num violento episódio psicótico. Calmo, mas desconfortável. É essa a sensação. Nota-se que se passa algo de errado e que aquelas personagens estão a caminho de algo mau, mas não se percebe o quê nem porquê nem quando. Só faz sentido no final. Um grande polegar levantado para Bennett Miller. Excelente realização.
Um outro ponto muito positivo são os actores. Channing Tatum (muitíssimo bem), Mark Ruffalo e Vanessa Redgrave dão cartas na representação, mas quem partiu a louça toda foi o Steve Carell. Uma surpresa de tamanho olímpico. Uma transformação total e completa e não estou a falar da parte das próteses faciais. É mesmo da parte psicológica. Ver Steve Carell a fazer papéis cómicos e vê-lo a fazer de alucinado milionário John du Pont é como ver pessoas/actores totalmente diferentes. Até o olhar é diferente. Está irreconhecível... para melhor.
Foxcatcher surpreendeu-me imenso pela positiva. Sem dúvida nenhuma um filme para ver. ●●●○○

O ano é 2022 e a realidade é um distopia viva. O mundo do detective Thorn (Charlton Heston) dá uma volta de 180 graus quando lhe é designada uma investigação de homicídio numa zona rica e exclusiva da cidade. Mas o mundo de Thorn é também um mundo superpovoado (40 milhões de pessoas só em Nova York), poluído e de recursos sobreexplorados e escassos. É um mundo onde a eutanásia é uma matéria de estado que tem centros próprios para acabar com os idosos, que no momento em que são envenenados e esperam a morte, podem finalmente rever num monitor o extinto mundo natural em todo o seu esplendor... É neste mundo pessimista e terminal que Thorn conhece Shirl (Leigh Taylor-Young), uma "mobília". Soylent Green tem conceitos muito fixes e muito avançados. "Mobília", por exemplo é o que se chamam às mulheres que fazem parte do contrato de arrendamento que os ricos assinam quando vão para os tais apartamentos chiques na "alta" e vivem numa realidade paralela dos milhões de pessoas a viver em vãos de escadas... As pessoas são tantas que são literalmente tratadas como lixo... O próprio termo "soylent" é uma mistura de soja (soybeans) e lentilhas o que me lembra imediatamente a mudança nos conceitos alimentares relativamente recentes...
Soylent Green foi adaptado do livro de Harry Harrison, "Make Room! Make Room!", e lida com temas extremos como a conspiração, distopia, canibalismo, homicídio e destruição ecológica à escala planetária. E é uma obra negra, pessimista e que não acaba bem. É mesmo típico dos filmes dos 70's. Os anos 70 foram ao mesmo tempo o pináculo e a década do nascimento da verdadeira ficção científica. Foi quando se começou a aliar a lógica e o pensamento científico ao espectáculo do cinema. Apesar de só ter contacto com este e outros filmes do género muito mais tarde (nos 80's), isso teve um efeito profundo em mim. Neste caso específico, fez com que começasse a estar alerta para a ecologia e começou a incutir-me a curiosidade de como o mundo natural funcionava e como o homem o poderia desestabilizar ou até mesmo o destruir. Até essa altura eu não tinha noção que isso seria sequer possível. Não tinha conhecimentos nem inteligência suficiente para perceber. Soylent Green foi um filme que literalmente mudou o meu mundo e que mudou a forma como via o mundo. E também mudou a forma como via os filmes. Aquele final simplesmente explodiu-me com o cérebro... E teve o condão de o pôr a funcionar de outra forma. Aquilo seria possível? Seria possível a Terra e o Homem chegarem àquele ponto? Quem eram aquelas pessoas que conseguiam imaginar um futuro assim? Ainda hoje, sempre que ouço um camião do lixo a carregar ao longe, lembro-me sempre do Soylent Green. Claro que é um filme que está datado no tempo e faltam-lhe muitas "coisas" de 2022. Mas quem é que consegue imaginar o mundo daqui a 50 anos e mostrá-lo exactamente como será viver nele? É preciso dar o desconto devido...
Este foi o último filme de Edward G. Robinson que se debatia com um cancro, embora ninguém soubesse. Na cena da eutanásia, Heston estava mesmo a chorar devido à actuação "real" de Robinson... Pensando bem, é de facto, cruel. A última coisa que filmou foi a sua "morte", o que viria realmente a acontecer uns dias depois do final das filmagens. Mais um elemento mítico a juntar ao próprio carácter mítico do filme em si.
Soylent Green é um clássico intemporal, imperdível e imprescindível. É daqueles filmes que tem uma história que dá para infindáveis dissertações e discussões. Mas o melhor é ver. Diria que é mesmo obrigatório ver. E que seja a uma terça-feira, pois terça-feira é dia de Soylent Green... ●●●●● + ●

Li há uns tempos atrás que em 1830, o ketchup era vendido como medicamento. Isto demonstra que o consumidor pode facilmente ser enganado quando compra um produto. O mesmo acontece com Rampage, mais uma chachada igual a tantas outras, mais um produto digital "falso", que é vendido como se fosse mesmo um filme de cinema. Rampage é um bom produto de merchandising para miúdos porque tem animais gigantes a destruírem cidades. De Brad Peyton, com Dwayne Johnson e Jeffrey Dean Morgan. Parece que também há outros actores, mas só lá estão para levarem com destroços digitais... ●○○○○

Jobs conta a história de Steve Jobs, desde que desiste da universidade até chegar ao patamar de guru criativo e um dos empresários de maior sucesso no século XX, à frente da empresa tecnológica mais valiosa do mundo. É um período de tempo extremamente alargado (1973-2000) o que leva a que muitos pontos de interesse da história da Apple e do Jobs sejam omitidos ou erroneamente dramatizados. É uma das grandes falhas do filme. Mas essencialmente é um filmito que se vê bem. Parece um telefilme ou um documentário quitado. Acho que o melhor que deveriam ter feito era acrescentar mais umas duas horitas (até porque há material relevante que ficou de fora: a relação conturbada com a filha, as Silicon Valley Wars, etc.) e transformar isto numa mini-série de luxo. Acho que ficava muito melhor e os apple fans podiam ter mais uma coisita para adorarem e juntarem aos mini-altares do Jobs lá de casa. ;-) Assim, tal como estreou, é só mais um filmito que nem aquece nem arrefece. Ashton Kutcher como Steve Jobs até nem está mal, mas também não mostra grande garra. Muitos nomes de relevo juntaram-se à parada como Matthew Modine, J.K. Simmons, Kevin Dunn e James Woods, só para mencionar alguns. Jobs (o filme, não o homem) não teve muito sucesso e levou com muita crítica negativa principalmente daqueles que se intitulam como apple fans (?). Passados 2 ou 3 anos saiu uma nova versão da história... Mas essa ainda não consegui ver. Fica para breve. ●●○○○

Uma das frases mais conhecidas de Thomas Hobbes é "conhecimento é poder"... Partindo daqui o que poderia dizer sobre este Titan? É um filme sem poder absolutamente nenhum. Diria mais: é uma fraude. É tão ridículo que nem sei o que dizer... Mas o que é se passa com os filmes de hoje em dia? Como é que alguém num estúdio, vê uma coisa destas e manda-a cá fora para as salas de cinema? Acham que o público é todo estúpido? Fazem product placement à escâncara e sem pejo nenhum... Ridicularizam todo o conhecimento científico... Sinceramente não entendo. The Titan tem um argumento estúpido e um final ainda mais estúpido. É um filme que só faz sentido por 23 segundos... A make-up é horrível. É tudo mau. Nada se aproveita a não ser a base da história que até tinha imenso potencial: fazer um filme de ficção cientifica sem efeitos especiais. Mas ficou-se por aí. E eu nem vou perder mais tempo com "isto"... Este filme é um insulto à minha inteligência... ○○○○○

Não sei porquê, mas tenho-me lembrado muito do Chuck Norris. É um daqueles gajos que "está cá dentro". Cresci com o VHS e a derreter dinheiro em videoclubes só para ver filmes como este. Adorava estes filmes de porrada e aventura. Mas também tinha 15 anos e não havia mais filmes para ver, ou os que havia ainda eram piores. É preciso ter noção do panorama da altura. Havia coisas muito, mas muito piores. Estes filmes eram dos poucos filmes de acção que havia...
Neste caso, Firewalker, que se já era mau em 1986, então agora é quase ridículo. É um sucedâneo, que como tantos outros filmes desta altura tentaram cavalgar o género da aventura/arqueólogo lutador, muito em voga devido ao sucesso global do Indiana Jones. Mas só se fica pelo sucedâneo...
Tem uma busca pelo ouro perdido dos Maias ou Incas ou Índios (ou lá o que é...), cenas de porrada que acabam invariavelmente em cima de mesas de bar ridiculamente fracas, piadas infantis, risos maléficos guturais, tiroteios com som de ricochete, algumas explosões e um final feliz. Também tem um dos super-star da altura, Louis Gossett Jr., a belíssima Melody Anderson e uma breve aparição de John Rhys-Davies. O que é que um gajo pode pedir mais? ●○○○○


"A Ciência criou-o. Agora o Chuck Norris tem de o destruir!". Esta é a tagline promocional do filme e é mesmo verdadeira. Acho que isto diz tudo de um filme e alerta para a "experiência" cinematográfica estranha que uma pessoa está prestes a ter. Na década de 80 fizeram-se alguns filmes muitos estranhos. Este é sem dúvida um deles. Pode-se classificar como um filme de acção/artes marciais/suspense/terror/ficção científica... ?!?... Mais ou menos isto. A grande questão é: "será possível misturar isto tudo num filme?" É sim senhor, e a resposta é Silent Rage, em que um ranger do Texas (Chuck Norris, ranger do Texas?!... onde é que já vi isto?) versado nas artes marciais tenta parar um assassino em série que não fala e que através da manipulação genética (?!) tem o super-poder de se regenerar e assim tornar-se praticamente imortal. Basicamente é um Wolverine, mas com tendências homicidas. Ou será o Michael Meyers do Halloween?... Mas o que acho mesmo engraçado neste filme é que o guião é praticamente o mesmo do Terminator que sairia uns anos mais tarde. Pode ser coincidência, mas lá que é parecido é... Mas também posso ser eu a tentar ver coisas onde elas não existem.
Ron Silver (uma dos poucos actores "verdadeiros" que entram neste filme), Toni Kalem (no papel da moça que frágil que foge e grita imenso) e Brian Libby (no papel de Terminator, perdão, no papel de psicopata imparável risível) são os únicos destaques possíveis. O resto do pessoal é demasiado mauzinho para mencionar... tal como o filme na generalidade. Mas é tudo desculpado porque esta é um peça vintage. Silent Rage (de Michael Miller) é para evitar, a não ser que uma pessoa seja fã e saudosista dos 80's e/ou se queira rir um bocado com esta raridade. ●○○○○

Estranho, surrealista, hipnótico, sei lá... que outras palavras tenho para este filme? é dificíil arranjar palavras para Seconds. É um filme estranho. Muito estranho. Não é ficção científica mas tem uns toques que fazem lembrar. Parece-me um episódio muito, muito quitado da Twilight Zone... mas para adultos. É muito à frente. Em 1966, John Frankenheimer filma de uma forma tão moderna, aparentemente tão avançada no tempo que parece que ainda não se conseguiu lá chegar. É uma lição de realização, de borla. É brilhante. É tão marcado, tão potente que nota-se automaticamente onde, por exemplo, o Gaspar Noé vai buscar aqueles planos malucos. Onde Lynch vai buscar todas aquelas personagens malucas. (bem... no caso do Lynch, pode não ser verdade...), onde Cronenberg vai buscar aquelas cenas hospitalares todas. É, de facto, um filme muito à frente do seu tempo.
Seconds é um daqueles filmes que me põe a pensar. Orgias "romanas", mudanças de identidade, cirurgias plásticas, morte planeada, tudo misturado num ar muito hipnótico com muitos close-ups extremos, planos de câmara muito oníricos e... estranheza.
Um banqueiro abastado está desligado da sua própria vida. Então decide requisitar os serviços duma Companhia que lhe promete mudar completamente a vida, mas não só: dão-lhe um aspecto e uma identidade completamente nova. O banqueiro velho e amorfo é sujeito a uma complexa operação plástica que o irá transformar num novo homem, renascido. Quem é que inventa estas histórias? Isto para mim, é fantástico.
Foi um dos filmes que mais me surpreendeu nos últimos tempos. É uma experiência cinematográfica.
Ver actores como John Randolph, Rock Hudson, Frances Reid e Salome Jens é ver outro nível. Há ali qualquer nos actores mais antigos que é único. Não sei explicar o que é. É diferente. Seconds é filme para muitas classificações. Muito provavelmente este é um filme que tem um culto de adoradores associados, porque tem exactamente essa aura estranha de cult movie. É mesmo estranho. Também é até hoje o melhor filme que vi daquele género muito particular que é o midlife crisis movie. E podia continuar por aqui fora... O melhor é mesmo ver e aprender com os mestres. Um clássico. ●●●●●

Não querendo entrar no campo dos realizadores subvalorizados e para não me repetir, vou só dizer que este é mais um (bom) filme do Robert Zemeckis. The Walk é baseado na história verídica de Philippe Petit, um equilibrista francês, que em 1974 decidiu unir as duas torres do Wall Trade Center com uma corda de 200 kgs de aço e atravessá-la a pé a mais de 400 metros de altura. Zemeckis dirige tão bem este filme que aposto que se for visto em formato 3D/IMAX deve dar umas tonturas valentes.
Contado na primeira pessoa e muitas vezes voltado directamente para o espectador, The Walk é mais parecido com um heist movie do que um biopic. Só para se ter uma noção, a primeira vez que Philippe Petit/Joseph Gordon-Levitt põe um pé naquele cabo de aço, já passou cerca de 1 hora e meia de filme. Empreender uma façanha deste tipo é muito mais do que simplesmente andar num cabo de aço mais fino do que o próprio pé. São anos de planeamento antecipado e meticuloso e muito trabalho nos locais só para montar uma coisa desta magnitude. Não deixa de ser extraordinário o golpe que fizeram. E depois, como se não fosse bastante, Petit ainda andou em cima do cabo durante largos minutos fazendo manobras arriscadas de equilibrismo. E com tudo isto, justamente, ficou para a história.
Todos os aspectos técnicos (como é normal com o RZ) são do melhor, o casting é jeitoso (Joseph Gordon-Levitt, Charlotte Le Bon, James Badge Dale, César Domboy, Ben Kingsley), está muito bem escrito e não há propriamente nada de mal a apontar a The Walk. Mas acho que falha na essência e algumas coisitas minúsculas. Exagera um pouco nos planos picados para mostrar a quem tem vertigens, a loucura que é estar em cima do WTC e olhar directamente para baixo. Está 10-15 minutos mais comprido do que o que devia. O aspecto (demasiado) formatado de biopic com discurso directo acaba por não ajudar porque a determinado momento parece um realmente um documentário da TV. Ainda assim, um documentário muito bom. Nota-se que é também uma prova sentida de homenagem à cidade de Nova York e às Torres do WTC, o que se compreende facilmente devido ao trama dos ataque de 11/9. É sentido e é facilmente perceptível na forma como Zemeckis aborda cada frame onde aparecem os prédios. É compreensível, mas acho que foi exactamente isso que fez o filme perder um pouco o foco. Mas é um filme que se vê muito bem. Só tenho pena é de não o ter visto num cinema 3D ou IMAX. Deve ser uma autêntica trip de vertigens... ●●●○○

Passado na Los Angeles dos anos 70, The Nice Guys conta a história de dois detectives muito particulares que investigam o aparente suicídio de uma artista porno. Esta investigação vai levá-los muito mais longe do que estavam à espera...
Os nice guys são Ryan Gosling e Russell Crowe e são dirigidos por um muito experiente Shane Black, que há muito se dedica (e bem) aos filmes policiais e de acção. Também uma miúda que parece ser muito talentosa Angourie Rice, mas nem isso é suficiente para dar mais "sabor" aos filme.
The Nice Guys até é um filme agradável mas de facto não tem muito sabor. Tem algumas piadas engraçadas e bem esgalhadas e até há uma boa química natural entre os dois protagonistas, mas sente-se que falta ali alguma coisa. Não sei muito bem o que é, mas falta. Vê-se bem, não chateia, dá para dar uma ou outra gargalhada, mas fica-se por aí. É demasiado inócuo para o meu gosto. Tem bons momentos, mas definitivamente podia ser melhor. ●●○○○

De tanto ver chachadas de acção, filmes de super-heróis e restantes vendedores de pipocas, por vezes tenho mesmo necessidade de ver um bom filme. É quase como se começasse ressacar por filmes normais. Preciso não só de ver um filme normal, mas um bom filme. Daqueles que me imobilizam e me deixam calado até ao fim, e que quando acaba me obriga a deixar sair um desabafo do género: "estava mesmo a precisar de um bom filme como este".
Nocturnal Animals foi o último filme que vi e que literalmente me "calou" (Tenho a irritante tendência natural para falar durante os filmes). Ainda por cima não sabia nada do filme. Vi-o porque tinha três actores que gosto: Amy Adams, Jake Gyllenhaal e Michael Shannon. E sei logo à partida que estou a lidar com três excelentes actores, inteligentes e que costumam escolher muitíssimo bem os projectos em que se metem. E ainda não vi um mau filme com nenhum destes três como protagonista (e ainda se juntou mais uma grande performance de Aaron Taylor-Johnson). Tudo o resto era uma incógnita.
Nocturnal Animals é o tipo de cinema que adoro. É encontrar um filme assim que me faz suportar todos os restantes filmes. É simplesmente muito bom. É... uma experiência visual e sensitiva. Desde o soberbo arranque com toques de Lucian Freud ao final aberto e subjectivo.
A história é algo complexa porque é uma história dentro de uma história. A lindíssima Susan recebe o manuscrito de um livro escrito pelo seu ex-marido que não vê há muitos anos e que lhe dedica o livro. O problema é que o livro trata da história trágica de um homem que num ápice perde tudo o que tem (mulher e filha) numas férias que se transformam em tragédia, violência e dor. Parece quase uma chamada de atenção para o amor perdido entre os dois, muitos anos antes. Como se fosse para mostrar que não há segundas hipóteses para os verdadeiros sentimentos e que uma vez deixados para trás, mais cedo ou mais tarde, eles acabam por nos apanhar da maneira mais dolorosa possível.
Mal acabei de ver este Nocturnal Animals, tive de ir ver quem era o realizador, um tal de Tom Ford. E para grande surpresa minha era mesmo o Tom Ford que conhecia, o designer de moda. E já nem era a primeira vez que realizava e eu nem sabia. Outra grande surpresa. Não estava nada à espera que um estilista fizesse um filme assim, mas pensando bem, faz todo o sentido. Visual arrojado, intensidade dramática, angústia, vidas duplas, arte, despego emotivo, tudo remete de alguma forma estranha para o mundo da moda. Mas o que facilmente se poderia transformar em algo fútil mas visualmente deslumbrante, mistura-se perfeitamente com o drama, dando origem a um estilo novo, como se fosse uma pesada tragédia mitológica passada nos dias de hoje.
Nocturnal Animals é muito bom. Obrigaria-me a estar aqui horas a divagar sobre a história, as performances dos actores, as fantásticas imagens noturnas e tudo o mais. Mas vou-me conter e dizer apenas de uma forma sucinta que está muito bem escrito, tem actores excepcionalmente bons, uma excelente fotografia e uma realização ainda melhor que impregna todo o filme de um ritmo lento, pesado, mas ao mesmo tempo acutilante. Uma pérola recente para ver e rever. Perfeito. ●●●●●

Elis é um biopic brasileiro sobre a vida conturbada daquela que é considerada a melhor cantora brasileira de sempre: Elis Regina.
Antes de mais nada, a confissão. Conheço uma ou outra música da Elis Regina... sei que se envolveu em alguns conflitos com a ditadura militar brasileira e que, tal como as grandes estrelas musicais irreverentes, morreu devido aos excessos com a bebida e as drogas. E é isto que sei sobre a cantora, admitindo que os pormenores são quase nenhuns. Não sou nada fã de música brasileira (muito menos Bossa Nova... [eu é mais Sepultura e Planet Hemp]), daí que Elis Regina seja para mim uma perfeita deconhecida.
Apanhei este filme na RTP2 e decidi dar-lhe uma hipótese, até porque já não me lembro de ver um mau filme brasileiro. Pelo contrário, todos os filmes brasileiros que tenho visto são excelentes. Precisamente por causa disso, Elis desiludiu-me um bocadinho. Esperava mais, ainda por cima, tendo como base, a melhor cantora brasileira de sempre. Afinal, Elis (realizado por Hugo Prata) é "apenas" um filmito brasileiro relativamente jeitoso. Não é que o filme seja mau, eu é que estava à espera de melhor. Tinha as expectativas demasiado elevadas. É quase uma mistura entre uma telenovela e um filme. Um telefilme?!? Não tem grande "presença", falta-lhe energia, mais drama e um ritmo mais vibrante, mas também não chateia.
Tem dois grande pontos positivos: o primeiro são os actores que são muito bons (não me lembro de ver um mau actor brasileiro) (Gustavo Machado, Caco Ciocle e Zécarlos Machado) mas obviamente o principal destaque vai para Andréia Horta. Brilhante, mesmo. Um verdadeiro tour de force. O outro ponto positivo foi dar-me a conhecer a figura de Elis Regina, de quem, pouco ou nada conhecia. Fiquei curioso e mal tenha oportunidade vou arranjar uns discos. Quando isto acontece depois de ver um filme é sempre bom. ●●○○○

Aqui há uns tempos li algures uma frase que me ficou gravada. "Toda a geração tem o Jaws que merece". Parece-me uma frase absoutamente verdadeira.
O final dos anos 90 tiveram este Deep Blue Sea... para o bem e para o mal. A história é no mínimo estranha: um grupo de cientistas isolado numas instalações aquático-futuristas, tenta encontrar a cura para a doença de Alzheimer, fazendo experiências com tubarões vivos para lhe retirar do cérebro a tal cura. As experiências têm por base tornar os tubarões maiores e mais inteligentes, o que obviamente leva a que acabem por se virar contra os cientistas. Podia ser mais estranho mas era difícil. Mas também isso pouco interessa porque é apenas o disparo para as cenas de ação com tubarões digitais. E para poder dizer com toda a moralidade: "não deviam mexer com a natureza das coisas. Agora a presa tornou-se no caçador". É um enorme cliché mas também não é importante.
O que é mais estranho neste filme, é que apesar de ser ostensivamente uma chachada, de alguma forma entretém sem chatear. Tem acção. Tem suspense. Tem choque. E até uns toquezinhos cómicos aqui e ali. Na altura, a única grande estrela do elenco era o Samuel L. Jackson. E a personagem, chocantemente, nem sequer chega ao fim do filme. O restante pessoal, a funcionar apenas como "carne para canhão" (ou neste caso, "carne para tubarão") eram todos ilustres secundários (Thomas Jane, Saffron Burrows, Michael Rapaport, Stellan Skarsgård, LL Cool J) mas que funcionam perfeitamente bem. Renny Harlin é um bom realizador para este tipo de filmes de acção. Tem ritmo e introduz habilmente alguns elementos de comédia para o meio da tensão, o que eficazmente atenua a sanguinolência... E diga-se, até há bastante...
Apesar de toda a deficiência científica (para não dizer falhas graves), dos já maus efeitos especiais digitais (eram muito bons em 1999) e da história sem pés nem cabeça, Deep Blue Sea é um filme que estranhamente não me chateia nada (re)ver. Não tenho nenhuma explicação para este fenómeno. Deve ser só saudosismo... ●●○○○

Atomic Blonde é mais uma apropriação cinematográfica do vasto mundo da BD. Ou como lhe chamam agora, novela gráfica. Existe esta diferença importante, especialmente devido à temática. Lembro-me de quando era (mais) miúdo e as BD's eram muito mais inócuas no que dizia respeito à realidade do dia-a-dia. Daí que as BD's fizessem furor e tivessem sempre sucesso. As pessoas liam BD como uma forma de escape aos problemas do dia-a-dia e aos problemas do mundo. Entrava-se num mundo de fantasia e o truque do sucesso era exactamente esse. De há uns anos para cá as coisas foram-se misturando e as BD's tornaram-se mais realistas e começaram a tocar em temas que mais ninguém tinha coragem para tocar. Neste caso particular, o pano de fundo são o final dos anos 80 (outra vez?!), a eminente queda do Muro de Berlim e uma trama de espiões com tanta traição à mistura e tão confusa que a determinado ponto pensei que estava a ficar demasiado burro para entender o filme.
O que vale é que Atomic Blonde é um filme de acção. Tem uma uma loiraça "atómica" (percebi o trocadilho; e é uma loiraça cheia de estilo) e muitas cenas de porrada, por isso a história acaba por ser mais um acessório do que propriamente o fio condutor. Percebe-se bem porquê. David Leitch, como antigo duplo e director de cenas de porrada, é o realizador perfeito para este filme e isso nota-se nas cenas de acção impecavelmente realistas. Boas cenas de acção enquadradas numa grande fotografia, muito graças ao omnipresente néon rosa evocativo dos 80's. E claro, a música ajuda sempre, porque como já disse um milhão de vezes, não há música como a dos 80's...
Charlize Theron está impecavelmente sexy como sempre a que acresce uma agressividade pouco vista, mas o restante pessoal como James McAvoy, Eddie Marsan, John Goodman ou Toby Jones também ajudam.
Atomic Blonde é mais uma chiclete de acção, mas por estar tão bem feita e por ter aquele aspecto old school, até se vê bem. ●●○○○

O que acontece com os fãs quando uma grande franchise como a do Harry Potter termina? Mergulham numa grande depressão, voltam ao material inicial e compram todo o merchandising que consigam deitar aos mãos para aliviar as dores da alma. E depois seguem a sua vida ou mudam para "fanizar" outra franchise qualquer. Qual é a solução para este grave problema do mundo? Criar uma nova franchise, que sendo "nova", está intimamente ligada à franchise anterior. Daí o aparecimento deste Fantastic Beasts and Where to Find Them...
Sendo um novo produto cinematográfico não me vou alongar muito. Os actores são bons (Eddie Redmayne, Colin Farrell, Katherine Waterston, Dan Fogler) e dão algum colorido e comédia ao tom mais negro que é habitual nas sequelas de grandes êxitos. Também há umas presenças esporádicas de Ron Perlman, Jon Voight e Johnny Depp.
A história tem nexo e o filme um bom ritmo e está bem dirigido. Venha de lá então o "2" e conforme o box office, a terceira parte dividida em dois. Não vale a pena mexer em equipa ganhadora, não é verdade? Não há dúvidas que é um produto de consumo para a época de Natal, cheio de fantasia, acção e aventura, mas ao menos está bem feito. Vê-se... ●●○○○

Houve um hype muito grande à volta deste filme. E como sempre acontece... fiquei um pouco desiludido. Quanto mais não seja porque sou naturalmente um pouco "anti-cena-que-está-na-moda" e fico logo de pé atrás. Mas vi e admito que gostei. Apesar de a partir de determinada altura me parecer algo previsível e de se assemelhar demasiado com a lógica paranóica da "substituição" de The Stepford Wives. Ou também podia ser muito bem um excelente episódio da Twilight Zone. Mas isto é um problema pessoal que tenho: vejo demasiadas coisas, demasiados filmes e depois tudo me parecem estranhamente "familiares"...
Apesar das minhas questões pessoais, Get Out é inegavelmente um filme muito bom. Não um filme genial como o pintaram, mas "simplesmente" muito bom.
Muito boa a realização de Jordan Peele, com muitos pontos de tensão latente, o que é extremamente difícil de conseguir. Tem um ritmo lento que potencia ainda mais a tensão, mas acelera nos sítios certos para manter uma pessoa sempre na pontinha da cadeira a roer as unhas. A direcção de actores é especialmente excelente, mas que é resultado de uma excelente escolha de actores, como Daniel Kaluuya, Allison Williams, Bradley Whitford ou qualquer um dos secundários. Todos muito bons.
Get Out tem montes de pontos positivos. Logo à partida mete um dedo na ferida da questão racial americana, que devido aos mais recentes desenvolvimentos presidenciais (digamos assim) está cada vez mais empolada e aprofundada. E, diga-se, trata a questão de uma forma frontal e muito ousada para um "simples" thriller. Afinal de contas, Get Out tem como pano de fundo um subúrbio elitista de brancos que atrai, rapta e hipnotiza... Bem, é melhor não dizer mais nada... Este é um assunto que dava pano para mangas e portanto não vou divagar muito, porque senão iria precisar de um blog inteiramente novo... Mas voltando ao filme... Grande ambiência de terror, excelente fotografia, realização impecável e uma história tensa muito bem escrita, repleta de personagens fortes, estranhas, mas ao mesmo tempo plausíveis... Não se pode pedir mais.
Get Out não é aquele filme absolutamente genial que todos diziam ser, mas é sem dúvida uma lufada de ar fresco no panorama cinematográfico actual. Espero sinceramente que este filme abra portas para outros filmes não tão comerciais como os que povoam actualmente as salas de cinema, porque tal como se provou, é possível fazer um filme sem personagens vestidas de lycra e mesmo assim ter boas prestações na bilheteira, boa reação da crítica e do mais importante aspecto do cinema: o público. ●●●●○

Martin Scorsese é - provavelmente - neste momento o melhor realizador vivo. O homem faz filmes de toda a espécie e feitio e faz tudo bem. É um estudioso do meio, um perfeccionista e um executante exímio na sua arte. E isso nota-se bastante bem em Shutter Island. Pelo estilo visual e pela temática da insanidade, nunca diria que este é um "Scorcese". É um tipo de filme que nada tem a ver com Scorcese, que apresenta uma coisa e depois deixa-a desenvolver para outra completamente diferente. Todo o filme é um enorme twist de argumento, que diga-se, está exemplarmente bem escrito. Os actores são do melhor que há (Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Ben Kingsley, Max von Sydow, Michelle Williams e Elias Koteas) e dispensam mais comentários.
Portanto, o que é que falha aqui? Para mim o que falhou foi a previsibilidade. Se calhar já vi muitos filmes deste género com twist ou então foram os anos seguidos a ver religiosamente o "Alfred Hitchcock Presents". Sinceramente, não sei. O que sei é que a meio do filme já estava a ver o que ia acontecer e isso chateou-me um bocado. Tudo me pareceu demasiado familiar, como se já tivesse visto este filme antes, ou algo muito parecido. Nesse aspecto, foi uma pequena desilusão. Vindo de um mestre como Martin Scorsese, surpreendeu-me por não me surpreender. Tirando este pequeno pormenor pessoal, Shutter Island é como uma peça de relojoaria cinematográfica, perfeitamente funcional e meticulosamente elaborada. A ver com atenção. ●●●○○

É difícil separar o Mel Gibson-pessoa dos Mel Gibson-actor/realizador. Nos últimos anos tem estado um bocado proscrito precisamente porque o seu lado pessoal tem sobressaído demasiado e ainda por cima pelas piores razões. Depois de anos a criar uma figura de durão, homem violento e másculo (dentro e fora do cinema) é difícil de separar uma persona da outra. Eu gosto muito do Mel Gibson-actor/realizador e felizmente consigo separar as duas coisas.
Hacksaw Ridge tem o condão de reabilitar Mel Gibson para o cinema e para o grande público. (Ainda bem!) Apresenta uma história verdadeira com uma personagem pacifista, um objector de consciência que no meio de uma guerra brutal (EUA contra o Japão), se preocupa mais em defender os seus companheiros do que atacar os seus inimigos. É uma mensagem extremamente poderosa. O mais incrível de toda esta situação é que a personagem é real e a história também. Desmond Doss foi um soldado americano que apesar de todas as pressões internas do Exército dos EUA (foi a tribunal de guerra por se recusar a pegar em armas de fogo e foi alvo de constantes agressões pelos superiores hierárquicos e colegas de caserna durante a formação militar) levou a sua ideia de pacifismo avante e acabou condecorado como um grande herói de guerra pelos seus feitos: como soldado/médico salvou das trincheiras dezenas de militares (americanos e não só) de uma morte certa. O que fez é verdadeiramente heróico. Parece tão inacreditável que fui obrigado a ir confirmar. E é mesmo verdade. É uma daquelas histórias em que a realidade suplanta (e muito) a ficção e que merece ser contada e relembrada. Num mundo povoado por super-heróis de plástico e pipocas é bom saber que ainda há verdadeiros heróis e que alguém lhe dá o devido valor.
Para além da realização perfeita de Gibson, uma grande parte do valor de Hacksaw Ridge vem também dos actores: Andrew Garfield é excelente e foi muitíssimo bem escolhido; Sam Worthington, Hugo Weaving e Vince Vaughn complementam especialmente bem o protagonista e o resto do casting é muito homeogéno. As cenas de guerra são cruas e têm um "ar antigo", quase do tempo pré-efeitos especiais, o que lhe confere uma autenticidade incrível. Muito bom.
Hacksaw Ridge é muitas coisas. É um filme de guerra que é um autêntico manifesto anti-guerra sem cair em falsos moralismos. É um pedido de desculpas e de integração de Mel Gibson. Não é coincidência esta escolha da personagem. Apesar de todas as diferenças evidentes, Doss, tal como Gibson é também alguém que não é bem visto pelos seus pares, mas que prova em campo todo o seu valor e acaba por receber a atenção merecida. Noutro plano, é também a confirmação de um grande realizador que é tão bom que obviamente não precisa de enormes orçamentos para fazer bom cinema. Mas principalmente é um filme muito bom que merece ser visto. ●●●●○

Esta (previsível) saga Deadpool é um case study. Não a percebo. Não entendo o super-herói e nem sequer entendo os seus poderes. Eu também conheço muito pouco das bandas desenhadas e portanto nem sequer conheço este super-herói. Ou melhor, este anti-super-herói. Basicamente é uma personagem que vai sendo alterada à medida que for preciso. É impressão minha, ou havia um Deadpool completamente diferente num dos filmes do Wolverine? Não interessa. Ignora-se.
Não consigo ver aqui nenhum significado e é insultuosa para tudo e todos, inclusivé para o próprio universo a que pertence. Tem a linguagem mais vulgar que me lembro de ver num filme mainstream. Parece que todos os personagens aprenderam a falar com um chulo dos anos 70. Sinceramente, mais que outra coisa qualquer, isto parece uma forma de escape para o pessoal da Marvel. Como se eles próprios quisessem criticar o seu próprio universo "vazio" mas não tivessem essa opção pois insultariam os milhões de fãs que os alimentam. Daí que Deadpool (de Tim Miller) funcione quase como uma válvula de escape para todo o ecossistema Marvel.
E mais. Pensando bem no assunto, o irónico de toda esta situação, é que Deadpool acaba por funcionar quase como uma caixa de ressonância para a crítica profissional: a personagem passa todo o filme a criticar exactamente os mesmos pontos que os críticos e diz aquilo que eles não podem dizer em público, mas que pensam enquanto assistem sorridentes nas ante-estreias. Pensando bem, este Deadpool é, se calhar, o super-herói favorito dos críticos. Quem sabe se Deadpool não é mesmo o derradeiro crítico profissional por baixo daquela fatiota vermelha? É uma incógnita com que o mundo vai ter de aprender a lidar...
Por muito que eu não goste deste filme, tenho de admitir que tem algumas piadas bem construídas e pela crítica inerente e imparável, acaba por funcionar como um antídoto aos "normais" filmes de super-heróis e foi algo totalmente diferente do que já tinha visto. E isso é positivo em qualquer situação. Até mesmo num filme como o Deadpool. ●●○○○


Depois do imenso êxito que foi insultar meio mundo "normal" e a totalidade do mundo dos "heróis", eis que chega a inevitável sequela, com Ryan Reynolds (o verdadeiro alter-ego de Deadpool...) e Morena Baccarin a regressarem aos seus papéis. Deadpool 2 (de David Leitch) acrescenta mais insultos ao anterior, mais quebras da "quarta parede" e o também inevitável super-vilão representado por um actor (Josh Brolin - excelente em qualquer situação) de renome principescamente pago para dar alguma credibilidade a um filme que não o tem e assim também chamar mais clientela para o balcão das pipocas. É receita garantida e funciona sempre, portanto "em equipa que ganha não se mexe" e assim aconteceu mais uma vez. Espera-se um buraco no longo rol de filmes de super-herois já agendados para os próximos anos, para assim poder encaixar um Deadpool 3, que de certeza será ainda mais vulgar e insultuoso. Isto só vai parar quando o público se chatear com um piada inofensiva qualquer... ●○○○○

Para quem gosta verdadeiramente de cinema, há filmes que são obrigatórios. Some Like It Hot é um daqueles filmes que uma pessoa deve mesmo ver porque é simplesmente perfeito. Para quem não conhece, a história passa-se no final dos loucos anos 20 e é sobre um duo de músicos em sérias dificuldades financeiras que por azar testemunham um sangrento massacre feito por mafiosos. A única forma de fugirem imediatamente dos gangsters é ingressarem numa banda musical feminina que parte para a Flórida. Para isso, têm de se disfarçar de mulheres...
É uma comédia perfeita, escrita e realizada pelo génio de Billy Wilder. É mais que uma comédia. É uma comédia com um tom subtilmente sexual, cheio de personagens ricas, com várias formas. É um filme de disfarces e travestismo dentro de um daqueles filmes de gangsters durões a preto e branco. É simplesmente brilhante. Não estou a ver como poderia ser melhorado. Não dá sequer para pensar nisso... Para mim é um filme óptimo. Dá-me pouquíssimo trabalho. Já foi estudado, examinado, fruto de teses de doutoramento e diversas análises sociais. Já tudo foi dito sobre o filme e assim não preciso de dizer mais nada. Para mim, é simplesmente perfeito. Deixa-me sem palavras de elogio...
Some Like It Hot tem um conjunto de actores que só se juntam em décadas: Tony Curtis, Jack Lemmon e Marilyn Monroe são hilariantes, mas podia falar de Joan Shawlee ou de Joe E. Brown, que parece um desenho animado vivo. Tudo é cómico mas inteligente. Tudo é normal, mas memorável. "I Wanna Be Loved By You", cantado pela Marilyn Monroe é "só" uma das músicas do filme. Quer dizer... o que é que se pode dizer mais? Intemporal. Clássico. Moderno. Arrojado. Obrigatório. Perfeito. ●●●●●

Breathless é um remake de um filme francês dos anos 60 (À bout de souffle - que ainda não vi -). Mas mais que um remake, Breathless é um filme dos anos 80 e está tudo dito. Tem um bocadinho de tudo: drama, romance, comédia, acção, roadtrip... Grandes músicas do Jerry Lee Lewis. Tem tudo. E claro, sendo um produto dos anos 80, sofre dos mesmos problemas que a própria década: excessivo, com coisas e cores a mais... Muitas vezes, tornava as coisas feias. Mas no meio de tantas coisas feias hvia sempre coisas verdadeiramente únicas e espectaculares. Em Breathless há momentos lynchianos misturados com cenas de telenovela. Há um Richard Gere (no seu pico de sex symbol global) nu, e a musa Valérie Kaprisky também... Há uma banda sonora que nitidamente influenciou Quentin Tarantino e o seu estílo "único" de filmar. Breathless é um daqueles filmes que imagino que o Tarantino viu e reviu enquanto trabalhava no videoclube...
Para ver com toda a atenção aos pormenores e muita mentalidade aberta para perdoar e esquecer as partes horríveis, como as filmagens de carro à "James Bond dos anos 60". Uma autêntica máquina do tempo. ●●●○○

Ready Player One leva-nos para o ano de 2045 em que o mundo é merda, em que as casas são  bairros de lata e há gente a mais para tão pouco espaço. A única forma de "sair" deste mundo distópico é através da realidade virtual, nomeadamente para para um universo virtual chamado OASIS. É um bocado como se passa hoje em dia com o Facebook e as outras redes sociais do género... Mas adiante.
Este é um daqueles filmes que me facilita a vida. Não há dúvidas que é um filme do Steven Spielberg e está tudo dito. Com este exagero digital em mãos alheias seria um descalabro total. Assim, como está, é perfeitamente comestível. Vindo de quem vem, estranhamente banal, mas comestível. Ready Player One falha em muitos níveis. Para mim falha logo no conceito temporal. Há aqui muita (demasiada?) nostalgia, até para um irremediável nostálgico como eu. Imensas referências aos "dourados" anos 80, que a maior parte do público alvo parece-me que não vai entender. Tantas referências que o meu cérebro sobreaqueceu de tanto voltar para trás e para a frente no tempo, sem conseguir arranjar nenhuma linha lógica de pensamento que una as duas coisas... Falha no elenco (Tye Sheridan, Olivia Cooke, Ben Mendelsohn) porque não parece "colar" no filme. E por fim, ...como é que hei-de dizer isto, sem parecer um grandessísimo moralista??... falha no compasso moral do argumento. E isto é estranho num filme do Steven Spielberg. Porque pensando bem, os jovens do filme não estão a lutar por uma melhor realidade; estão sim, a lutar para melhorar a realidade virtual, para que fique livre de publicidade. E sendo assim, está tudo feliz nas suas vidas... Mas a "realidade" da qual terão que novamente "fugir" continuará a ser exactamente a mesma: a do ano de 2045 em que o mundo é merda, em que as casas são bairros de lata e há gente a mais para tão pouco espaço. ●●○○○ apenas por respeito ao mestre...

A Hologram For The King é uma comédia (?) sobre o choque de culturas. Neste caso, um homem de negócios americano (Tom Hanks) procura sair da situação de falência em que se encontra, tentando vender um revolucionário aparelho holográfico de videoconferências ao Chefe de Estado Saudita himself. Pelo caminho cruza-se com uma médica saudita (Sarita Choudhury) e com um motorista (Omar Elba) um pouco alucinado mas assertivo. Estão assim reunidas todas as condições para uma boa comédia. E na realidade até é uma boa comédia. Não conhecia esta faceta do Tom Tykwer. Não apanhei o início dos créditos e portanto não sabia quem realizava. Aliás, não sabia nada deste filme. Foi um daqueles filmes que apanhei na TV e que nem fazia a mínima ideia que existisse. Simplesmente sentei-me no sofá, liguei a TV e estava a começar o filme. Prendeu-me logo de imediato, o que já é um ponto muito positivo. E depois, vai melhorando, em crescendo, entrando num tom muito particular que é ser uma comédia e um drama ao mesmo tempo. Gostei bastante. Só não gostei mais porque a determinada altura, ainda por cima perto do final, descamba para uma espécie de comédia romântica light, que não é mesmo nada o meu género de filmes... Foi pena, mas tudo bem. Gostei da surpresa. ●●●○○

Bob Munro tem um problema. Tem um grande negócio em mãos e tem também as férias planeadas com a família disfuncional. Pensando bem, que famílias é que não são disfuncionais?... A solução? Alugar uma caravana, fazer uma road trip e tentar fazer o negócio pelo caminho às escondidas da família. Como é óbvio, este é o caminho da desgraça. E a comédia começa...
Não é fácil fazer uma comédia que não descambe para os "tombos" ou para a estupidez. Mas mais difícil ainda é eu ver uma comédia. Praticamente impossível é eu rir-me a ver uma comédia. Mas aconteceu. Tudo por culpa do Barry Sonnenfeld, que é na actualidade o melhor gajo a realizar este tipo muito particular de filmes e do Robin Williams que é sem dúvida nenhuma um dos maiores génios da comédia. De sempre. É mesmo bom. Totalmente genuíno. Cheryl Hines, Kristin Chenoweth e especialmente Jeff Daniels também são muito bons. Infelizmente o resto do casting estragou um bocado as coisas, mas é a vida... o  que é que se há-de fazer?
Para "desanuviar as coisas" e variar de estilo, foi bom ver uma comédia. Melhor foi perceber que ainda há comédias feitas com inteligência à mistura. RV é brilhante? Não, é apenas melhor que a média. A tradução para português "Com a Casa às Costas" tem piada? Alguma. É light, mas é bom. Tem um bom feeling e isso é do mais que suficiente. Uma vénia para o Robin Williams. ●●●○○

Ora bem, como é que eu hei-de explicar isto? Tomb Raider é um filme que é um remake baseado num reboot do jogo que lhe deu origem... Humm... Já me perdi um bocado...
Mais uma versão do Tomb Raider, agora com Alicia Vikander, Dominic West, Walton Goggins a representarem papéis num filme realizado por Roar Uthaug.
Tomb Raider é igual ao jogo. Mesmo igual. Tudo copiadinho. Só que mais passivo, menos interessante e com mais pipocas. ●○○○○ pelo esforço técnico...

E agora para algo completamente diferente... Steven Seagal. Os filmes do Steven Seagal não mudam muito. Até meio da década de 90 vi-os todos porque sempre fui fã dos filmes de artes-marciais, ou como se dizia da altura "filmes de porrada", e estes eram uma evolução para os filmes de acção típicos dos anos 80. O Steven Seagal tinha um estilo de porrada muito próprio e eu gostava disso. Mas a determinada altura os filmes parecem sempre o "mesmo" filme. Ele faz sempre o mesmo papel (um polícia/detetive incorruptível), na mesma história (alguém mata um dos seus familiares ou amigos e ele vai procurar vingança). Depois de 5 ou 6 filmes já não dá para aguentar mais. É como estar a ver Steven Seagal a fazer a personagem de... Steven Seagal... Mas, para a altura - e repito, para a altura -, os primeiros filmes até eram aceitáveis. Neste caso, o Out for Justice, o filme de acção típico naquela altura peculiar de transação entre os 80's e os 90's. Como não podia deixar de ser, Seagal faz de detetive em busca de vingança pela morte de um amigo polícia, às mãos de um mafioso tresloucado pelo abuso de drogas, neste caso interpretado pelo excelente William Forsythe. Este era um actor muito bom dos anos 90 que infelizmente não colou nos anos seguintes. O mesmo aconteceu com Jerry Orbach e Gina Gershon, outros nomes dos 90's que entretanto caíram (quase) no esquecimento. O problema é que entravam nestes filmes mais fraquinhos e não tinham tantas oportunidades como as que existem agora. Outros tiveram mais sorte como Julianna Margulies e John Leguizamo que só estavam a começar nesta altura e assim puderam aproveitar o boom nas produções cinematográficas.
Out for Justice tem como principal factor positivo não ser (ainda) ridículo apesar de muito datado no tempo. As cenas de acção até são boazitas e ainda actuais e a história apesar de banal, tem espinha dorsal e é totalmente aceitável. Classifico melhor estes filmes "antigos" do que grandes produções atuais, porque me lembram da simplicidade de outros tempos, do VHS, e de uma realidade de cinema que já não existe. É simplesmente um caso de puro saudosismo... ●●○○○

 
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