Transcendence é um enorme desperdício de tempo e de esforço. É simplesmente fraco. Não porque esteja mal feito, mas porque é a mesma história de sempre, que já foi contada 50.000 vezes: cientistas criam Inteligência Artificial (IA), a IA ganha consciência, a IA domina tudo, a IA volta-se contra os cientistas, os cientistas derrotam a IA com um vírus informático, mesmo a tempo de evitar que esta destrua o planeta. Outra vez? Quantas vezes vão (re)fazer exactamente a mesma história?
Johnny Depp no elenco, mas que parece muito pouco à vontade sem estar vestido de forma extravagante ou falar sem sotaque de pirata. Depp é daqueles gajos que ninguém consegue imaginar sentado atrás duma secretária com um computador à frente. É um erro de casting óbvio, que se estende ao restante elenco que parecem que não fazer parte do filme. Apenas passaram por ali para dizer umas deixas... Morgan Freeman também aparece por lá. O realizador (Wally Pfister) é o director de fotografia de Christopher Nolan, por isso há muitas imagens que parecem seguir o mesmo estilo, assim como o som grave e possante que as acompanham, a típica imagem de marca de Nolan. É a única coisa positiva num filme que parece um remake. Para quem não vê muitos filmes de ficção científica até pode surpreender pela positiva, mas para quem conhece bem o tema, Transcendence entra pela retina, faz tabela no cérebro e desaparece no esquecimento... ●○○○○


Costuma-se dizer que chegar ao topo não é muito difícil. Difícil é manter-se lá. Os irmãos Wachowski são a prova disso. Depois de Bound e Matrix (ou melhor 1,5 Matrix's, porque o segundo derrapa e o terceiro estatela-se ao comprido), os irmãos têm tido muita dificuldade em fazer um filme em condições e que chegue ao nível dos primeiros. Eles tentam, mas regularmente falham. Cloud Atlas levantou muitas expectativas e sinceramente, quando vi as primeiras imagens, pensei que iam voltar à genialidade do início. Enganei-me. O filme parece mais um tour de force (para os actores e para a mesa de montagem) que outra coisa. São cortes e recortes constantes que partiram o filme em bocadinhos que por vezes não parecem ligar bem. Se não soubesse, diria que foram várias pessoas a fazer o filme. A realidade é que Cloud Atlas teve mesmo as mãos de três realizadores - os irmãos Wachowski e Tom Tykwer (dono de excelentes filmes como Heaven e especialmente Perfume: The Story of a Murderer) - e de certa forma isso nota-se. Há uma inconsistência algures que quase passa despercebida, mas há.
Notam-se muitas homenagens ao género (sempre menosprezado) da ficção científica. Umas mais escondidas como Fahrenheit 451 e outras mais à escâncara como o look futurista Matrix e a cena Soylent Green, mas em versão coreana. É óbvio demais, não? Podia ser um novo clássico da ficção científica, mas está demasiado embrulhado e confuso para isso. Acho que Cloud Atlas perde o rumo precisamente porque é grande demais em tudo. É exemplo típico de que por vezes mais é menos...
Cloud Atlas tem um daqueles castings que parece uma parada de Hollywood (Hugh Grant, Susan Sarandon, Hugo Weaving, Jim Broadbent, Halle Berry e claro, a superestrela Tom Hanks), mas aposto que nenhum deles meterá o nome do filme na primeira linha do cartão de visita. Todos eles têm filmes melhores para mostrar.
Cloud Atlas não é uma chiclete. É uma fábula moralista sobre a repercussão das acções ao longo do tempo e como a ironia do destino está sempre presente, em que um evento mau pode ter implicações positivas no futuro. Dá também a entender que algo de nós - uma espécie de alma - transita, atravessando as linhas do tempo. É um filme complexo, se calhar, complexo demais. A primeira vez que ouvi falar do filme foi precisamente por ser uma história tão interligada (que vai do século XIX até ao século XXIII e mais além), com tantas linhas temporais simultâneas que era impossível de adaptar para cinema. A evidência está à vista. Cloud Atlas parece ter sido feito com a intenção de ser uma (nova) afirmação que os Wachowski conseguem voltar a fazer filmes épicos. E não há dúvida que é épico... em trabalho de montagem e duração. Mas chega aos calcanhares de Matrix ou Bound? Acho que ninguém responderá afirmativamente. As cenas memoráveis estão praticamente todas no trailer... Verdadeiramente boa é a banda sonora original, e de certa forma une mais o filme em termos temporais, do que a própria narrativa. O tema principal que dá o título ao filme é mesmo muito bom.
Devido ao início de carreira espectacular, dou sempre o benefício da dúvida aos Wachowski. Mas desta vez - mais uma vez - sinceramente, acho que falharam. O melhor de Cloud Atlas é a prestação dos actores - que são indiscutivelmente bons -, alguns bons pormenores de realização à Wachowski e a parte de efeitos especiais que é sem falhas (como são muitos dos filmes chiclete da actualidade). Mas o que se destaca como expecionalmente bom é mesmo a complexidade técnica da montagem e a banda sonora.
Por ser muito complexo (ou confuso?), Cloud Atlas é um filme que já se me varreu (quase) completamente da memória. Isso nunca é bom. Se calhar que terei de o ver outra vez para o perceber melhor. Para um fã incondicional da ficção científica, que espera sempre o novo grande filme de referência, infelizmente, Cloud Atlas é "apenas" pouco melhor que mediano. É nitidamente um filme que ficou refém das altas expectativas que criou à sua volta. Mas pelo lado positivo, parece-me que é daqueles filmes incompreendidos "à primeira" e que ficarão melhores com o passar do tempo. ●●●○○

10.000 BC mantem-se - até à data - como o único filme de Roland Emmerich em que não há explosões. É uma história passada há 10.000 anos, portanto era dificil encaixar explosões no guião. Mas há perseguições com mamutes! Tinha de haver perseguições...
O que dizer deste filme? 10.000 BC é uma desilusão de proporções mamuteanas! Para quê ver um Emmerich se nada explode? Exacto... não se deveria ver. É que 10.000 BC é muito mau. É um filme verdadeiramente da era da Pedra. Até a voz off é irritante... apesar de ser a voz de Omar Sharif...
É um filme muito bom... para miudos de 10 anos se maravilharem com tigres de dentes de sabre e mamutes, muitos, muitos mamutes. Se bem que há uma espécie de galinholas gigantes que não sei muito bem se alguma vez existiram. Mas também, como a parte histórica foi completamente mandada para as urtigas, o que é que isso importa? Desde que fique cool no ecrã... Acho até que foi mesmo assim que começou a ideia original para o filme: "vamos aproveitar os efeitos especiais digitais para misturar pessoas com mamutes realistas..." E pronto. Nasceu 10.000 BC. Torto, mas nasceu.
O que se pode dizer de um filme passado na pré-história que começa com caçadores recolectores e acaba com uma luta contra figuras místicas (serão extraterrestres?!) que constroem pirâmides egípcias? E em que as personagens falam inglês com sotaque neandertal? Acho que não há mais nada a dizer, a não ser que é absurdo, não é? O filme vale basicamente pelos efeitos especiais, perdão, pelos mamutes... ●○○○○



Classificar Under the Skin como um filme de ficção científica que envolve extraterrestres é demasiado redutor. Aliás, acho que é quase impossível classificar Under the Skin, pois é o filme mais marado que vi nos últimos anos. É essa a palavra mais correcta: marado. Mas marado, no bom sentido.
É como se Kubrick, Malick e Cronenberg se tivessem fundido numa única entidade e realizassem um filme através de um criatura de luz negra extraterrestre... ok... excedi-me um pouco.
Under the Skin é único, esotérico, místico, assustador, inspirador, estranho e diferente de tudo o que já vi, e dificilmente se esquece tão cedo.É tudo o que acho que um filme deve ser. Especialmente, que fique gravado na memória de longa duração.
Em muitas alturas é uma obra de arte cinematográfica, quase a roçar o conceptual. Portanto prevejo que qualquer crítico profissional lhe dê valor máximo enquanto que o público "normal" o considere uma patetice.
Acho que ser demasiado conceptual é a única falha do filme. Por vezes o ritmo do filme quebra. A continuidade da história, especialmente, sofre imenso com o excesso de protagonismo das imagens. E já agora, também com as longas ausências de falas. Mas não só. Há uma clivagem imensa entre as imagens conceptualmente geniais e o estilo quase amador das restantes filmagens, que segundo li foram totalmente feitas sem recurso a guião e sem actores profissionais. São pessoas normais que aparecem ali e nem sabem que estavam a entrar num filme.
Quando a fêmea atrai homens para o interior da sua armadilha negra (e viscosa) parecia que estava a ver uma dimensão alternativa da realidade. É tudo tão minimal e polido que é simplesmente espectacular. Mas quando a fêmea anda a deambular de carrinha branca (?) pela cidade à procura de homens, parece que estava a ver um documentário de rua. Esta inconsistência visual, para mim, é o único pormenor negativo que posso apontar. Tudo o resto é puramente genial. Começando pela Scarlett Johansson, que está tão estranha, tão diferente e ao mesmo tempo, tão normal, que nem parece a mesma, e acabando numa banda sonora original que passados 8 dias ainda faz tabela nos meus neurónios. Tem qualquer coisa de primordial que fica gravado no cérebro.
As cenas escuras do interior da armadilha de homens (?) e a cena da pele no final é puro génio cinematográfico e do melhor que já vi. Não conhecia Jonathan Glazer, mas quando fiz uma pesquisa rápida e percebi que tinha sido o realizador do vídeoclip Karma Police dos Radiohead, tudo fez sentido. Jonathan Glazer é um realizador para ter debaixo de olho e estar atento ao próximo filme. Pode ser mais uma obra de arte.
Under The Skin é vagamente inspirado num livro de Michel Faber sobre extraterrestres que vêm para a Terra em busca de comida. Nunca li o livro, mas pelo que percebi, o filme nada tem a ver com livro. É mesmo muito vagamente inspirado. Mas Under the Skin não é um filme para comparar, é um filme para admirar. Não é um filme com respostas, é um filme que deixa perguntas no ar: o que é ser humano, afinal? É a capa estética que temos por fora ou algo negro inexplicável no nosso interior? Podemos aprender a ser humanos ou já nascemos assim? Para qualquer fã da ficção científica, mas especialmente para qualquer fã de cinema, Under the Skin é um filme obrigatório. ●●●●○

Como dizem os americanos, "this is pure family entertainment!". São filmes com o carimbo da Disney, por isso outra coisa não se podia esperar... Se bem que há sempre aquela velha questão Bamby e o caçador... Mas isso é outra história.
Os dois filmes são bonzitos porque conseguem misturar aventura e comédia muito bem. É divertimento para toda a família mas com algum miolo. Muita acção, muitas pistas (que invariavelmente levam a novas pistas), muita informação histórica, muita, muita conspiração, muitos segredos obscuros, muita aventura e emoção, argumentos consistentes e actores como Jon Voight, Harvey Keitel, Christopher Plummer, Helen Mirren e Ed Harris complementam dois filmitos muito engraçados, muito bem recheados de piadas inteligentes. Nicolas Cage encaixa perfeitamente num papel onde nunca acharia que podia encaixar. Sai-se muito bem como explorador moderno. Nunca diria. A dupla National Treasure e National Treasure: Book of Secrets, apesar de ser uma cópia descarada da série Indiana Jones, mas trazida para a actualidade, não desilude nada e é muito divertida. Filmes light para descomprimir e que se vêem muito bem. ●●○○○




Le Capital é um filme sobre banqueiros depravados, totalmente cegos pelo poder do dinheiro, que fazem os documentários do Michael Moore parecer um livro de histórias para crianças. É normal: sendo que estamos numa das maiores crises económicas de todos os tempos e o realizador é grego e sem papas na língua... Estava mesmo a ver que este não ia ser um filme light... E definitivamente não é.
Tudo começa quando o big boss do Phenix Bank (excelente pormenor logo no nome do banco, porque afinal parece que os bancos nunca "morrem") tem um ataque devido a um problema nos testículos, interrompendo a calmaria do seu jogo de golfe. Devido aos problemas de saúde (e à pressão dos accionistas) é forçado a abandonar o comando do banco e delega as responsabilidades no seu protegido, o jovem Marc Tourneuil, brilhantemente intrepretado por Gad Elmaleh.
Marc entra no espírito do jogo (ser banqueiro, aparentemente é como participar num jogo que nunca pára) e começa a deslizar numa espiral de pura ganância, paranóia e luta pelo poder pois a sua liderança é prontamente ameaçada por uma tentativa de takeover hostil por parte de um fundo de investimento americano, liderado por Dittmar Rigule, o excepcional Gabriel Byrne. A este juntam-se os opositores internos do próprio banco.
A partir daqui entra-se num mundo fechado e frenético. Marc raramente tem contacto com as pessoas "normais". Afasta-se da mulher que não tem uma visão tão gananciosa do mundo, e do filho, a que obriga a falar sempre em inglês. É preciso preparar os miúdos para o mundo global, não é verdade?
A excepção é quando tem uma reunião de família que corre obviamente mal, tal é a disparidade económica e social entre os intervenientes à mesa.
O homem é constantemente confrontado com a dualidade de escolhas. Entre a atracção erótica da supermodelo internacional, em que pode estar a chupar mamilos numa discoteca, dar uma queca no wc ou entrar na loucura total porque pode simplesmente fazer o que quiser, ou optar pela cerebral Maude (Céline Sallette) e fazer o que é correcto, mostrando todos os esquemas por "trás da cortina" e "abandonar o barco". Noutro plano, ele pode sucumbir aos planos maquiavélicos de Dittmar ou tomar o controlo do banco aliando-se aos seus próprios inimigos internos. Visto de fora pode não parecer, mas a vida de banqueiro aparentemente que não é nada fácil.
Costa-Gavras nunca aborda o tema de forma leve. É tudo à bruta. O tema é complexo, mas Gavras conduz o filme como se fosse a conduzir um tractor: passa por cima de tudo. Desde Wall Street que não via nada tão directo. "O dinheiro não é uma ferramenta, mas sim algo a que deves servir. Serve-o bem e ele recompensa-te generosamente", diz a personagem de Gabriel Byrne. Este é o mote de todo o filme. Ter o máximo de dinheiro possível sem olhar a meios. Gravas pinta os banqueiros como mafiosos insensíveis, que se precisarem de aumentar os lucros, despedem os trabalhadores e chamam-lhe "plano social". Mostra como a informação interna é vital, pois o banqueiro não se importa de contratar um antigo polícia para vigiar outros colegas banqueiros, nem que seja para lhes vasculhar o lixo à procura de podres que possam dar uma vantagem negocial.
Mas apesar de toda a artilharia pesada, Gravas consegue povoar todo o filme de camadas e de pormenores, como aquela cena em que Marc está a vestir um fato e o costureiro lhe pergunta para que lado se inclina a "dita cuja". O banqueiro parece pensar: "mas faz diferença?". É como as discussões políticas. Num mundo dominado pelo dinheiro, ser de esquerda ou direita, faz alguma diferença?... Pois...
Em termos de realização, Costa-Gravas abre o livro todo e mostra como fazer um filme de/e para actores, como filmar em múltiplas localizações - todas elas com as suas particularidades bem vincadas - mas ainda assim manter uma coerência incrível e um ritmo alucinante durante todo o filme. Muito bom. Se o dinheiro está sempre em movimento, Marc tem de o acompanhar. Tive de respirar fundo no final, porque finalmente o homem pára. Desde que tomou posse como presidente que o homem não pára de atender telefones, ler e enviar e-mails, fazer videoconferências, apanhar aviões, organizar reuniões ou desviar-se de facadas nas costas.
O pior do filme é mesmo acabar de forma frouxa. Um filme com um tema tão explosivo, com tanto andamento, tinha de acabar com um grande estouro. "Vamos continuar a roubar os pobres para dar aos ricos", é uma daquelas frases que vão ficar para a história, mas não chega. Percebo a lógica de continuidade, mas o resto do filme elevou demasiado a expectativa e por isso esperava um final mais bombástico que o simples reconhecimento que Marc é "um Robin dos Bosques moderno".
Para mim, a grande questão é se o filme é só uma ficção ou mostra a realidade escondida atrás da cortina. Ou este pessoal dos bancos é uma espécie de sugadores de sangue, paranóicos, psicóticos e maníacos sem um pingo de humanidade ou, por outro lado, eles até são gajos normais, que trabalham muito e ganham ainda melhor, mas o resto das pessoas "normais" os vêem como sugadores de sangue, paranóicos, psicóticos e maníacos sem um pingo de humanidade... Seja como for, a resposta é sempre preocupante.
Por isso mesmo é um filme que estará sempre dividido na apreciação. Ou se gosta ou se detesta. Ou se sente que alguém finalmente está a dizer toda a verdade ou se sente que o realizador está a manipular a realidade para fazer uma declaração política vincada. É um filme que vai estar sempre no 50/50, também porque é demasiado directo. Não há meias palavras nem questões dúbias. É tudo atirado directamente à cara de quem está a ver o filme e está tudo à vista. Le Capital é um filme sem portas fechadas. Dentro do género de filmes que são nitidamente uma declaração política, este é um dos mais bem feitos que já vi. ●●●●○

Neste momento, Danny Boyle é o gajo mais inventivo com uma câmara de filmar nas mãos. Disso não tenho dúvidas. E em cima desse enorme pormenor ainda é o gajo que consegue fazer bons filmes a partir das histórias mais estranhas e ao mesmo tempo mais "normais", como é o caso de Slumdog Millionaire e 127 Hours.
No entanto, Trance não se encaixa no lote dos filmes excelentes que Boyle tem no currículo. Isto porque Trance parece um cocktail: duas partes de Angel Heart, uma parte de Trainspotting e uma espremidela de Inception. Contrariamente a estes filmes, Trance não é um filme excepcional. É só mais um filme. A certa altura, pareceu-me que Danny Boyle fez o filme com intenção de treinar novos meios inventivos de usar uma câmara de filmar. Parece que Boyle estava a descomprimir e para isso fez um filme que ele gostaria de ver e não para o público. Parece que chama a isso de cinema de autor.
Mas o meu problema não é Boyle fazer um filme para se divertir ou não fazer concessões ao público (tem um nu absolutamente integral e a imagem de um gajo a levar um tiro em cheio na "coisa"); o meu problema é o filme ser totalmente desconexo e incoerente.
Trance começa por ser um filme de "golpe" com um roubo audaz de uma pintura valiosa de Goya, passa para a paranóia da hipnose e acaba não se percebe muito bem como. Parece que história foi contada várias vezes, por várias pessoas, de maneiras diferentes. Dei comigo a pensar: "não estou a perceber nada", e isto não acontece muitas vezes. Só acontece quando os filmes não são muito bons.
Até a questão dos actores é incoerente: apesar de bons (James McAvoy, Rosario Dawson e especialmente Vincent Cassel), parecem fazer parte de filmes diferentes. Foram um nítido erro de casting. Falta aquela coisa estranha a que se chama de "química".
Trance tem momentos de puro génio, mas também tem muitos momentos que são uma seca. Apesar do filme ser muito pequeno para os padrões actuais, parece muito longo e que nunca mais acabava. Isso nunca é um bom sinal. E mais do que deixar-me na dúvida, deixou-me muitas vezes confuso. Tirando o ritmo do filme que está muito bem misturado com a banda sonora e da excelente fotografia, não gostei de mais nada. Obviamente, Danny Boyle é muito melhor que isto. Fico è espera do próximo. ●●○○○




"Estou a sentir amnésia e dejà vú ao mesmo tempo. Acho que já me esqueci disto antes..."

Há um género de piadas sobejamente conhecido que é o das piadas secas. É suposto terem graça precisamente por não terem graça nenhuma. Van Helsing parece ser o equivalente cinematográfico da piada seca. Mas ainda tenho dúvidas quanto a isso.
Já o vi umas 4 vezes (não sei porquê, mas está sempre a repetir nos canais por cabo) para tentar perceber se é mesmo a sério ou apenas uma paródia aos filmes clássicos de monstros. Tal como a piada seca da introdução, Van Helsing é daqueles filmes em que o esquecimento é uma parte importante: é tão vazio de tudo que vejo-o sempre como se fosse a primeira vez...
Van Helsing é ridículo mas de uma maneira engraçada. Os próprios actores parecem estar a gozar com as personagens que representam. A certa altura, Hugh Jackman até parece que estava a representar a sua outra personagem, o Wolverine... em vez de lobisomem. Com tantas garras e pelos, é compreensível que faça confusão. Tudo é servido em doses absolutamente exageradas. Há efeitos digitais a cada 2 minutos que como alguém disse numa crítica "appears ridiculously expensive and unconvincingly obvious all at once". Não conseguiria dizer melhor. Este filme deveria chamar-se "como estragar um filme gastanto uma pipa de massa em efeitos especiais absolutamente desnecessários". O design de produção é medonho no mau sentido. É horrivelmente feio, mas acho que a intenção não era essa... Drácula e os vampiros são do pior que já vi, e do Frankenstein então, nem vale a pena dizer nada...
É um produto audiovisual que está mais perto do conceito do fogo de artifício que dos filmes: explode, faz muito barulho, tem muitas cores, entretem os miúdos e depois desaparece.
Van Helsing é uma anedota grotesca de Stephen Sommers, mas daquelas muito secas. Ainda assim, arranca-me algumas gargalhadas por não ter piada nenhuma. Além de roçar o embaraçoso, Van Helsing é um filme tão mau, mas tão mau, que é preciso vê-lo várias vezes para acreditar. ○○○○○


Nunca ninguém se reúne numa mesa vazia para conviver. Excepto nos negócios. Mas aí não se convive: maquinam-se estratégias.

Inside Job, traduzido como A Verdade da Crise é um documentário do realizador Charles Fergunson, que mostra a origem da crise económica global que em 2008, de um dia para o outro, apareceu para infernizar a vida de (quase) toda a gente. Narrado por Matt Damon, este é um poderoso documentário e uma denúncia pungente sobre os culpados duma crise ainda sem fim à vista, e que muitos consideram como um gigantesco crime sem castigo. Quanto mais não seja, porque segundo o que se pode constatar, as pessoas envolvidas na origem da crise são precisamente as mesmas responsáveis pela sua resolução.
De uma qualidade excelente a todos os níveis, Inside Job conta com um guião inteligentemente construído, que consegue mostrar a complexidade do sistema financeiro americano - replicado em todo o mundo -, sem entrar em campos demasiados técnicos que dificultariam a compreensão do cidadão comum/pagador de impostos.
Esta lógica simples é muito bem apresentada a dada altura, quando se coloca a questão da ganância incessante e qual a razão porque algumas pessoas não conseguem parar de acumular riqueza, mesmo que isso se torne num prejuízo óbvio para outros. A resposta simples é dada recorrendo áquela velha competição de rapazes, mas que neste caso, não cessa na idade adulta: "o meu é maior que o teu...". Simplesmente genial. É um argumento tão simples e óbvio que nem parece verdadeiro...
É também uma oportunidade única para assistir a mini-entrevistas com Paul Volcker - presidente do Conselho para a Reconstrução Económica e George Soros, magnata da bolsa e presidente da Sociedade Aberta/Fundação Soros, entre muitos outros intervenientes de várias áreas, que de uma forma ou outra estão relacionadas com este descalabro financeiro.
Este documentário mostra também como são estreitas as ligações entre os poderes das finanças privadas e a política, a corrupção em larga escala envolvida nestes meios, os grupos de pressão para desregulamentar o sector financeiro (com os resultados que se conhecem) e mais importante que tudo, como é que os apontados culpados por esta crise ainda conseguiram ganhar dinheiro com ela: daí o quase-paranóico e omnipresente sentimento de inside job...
Duma forma subtil mas assertiva, Inside Job deixa em aberto a hipótese desta crise económica - que segundo os analistas custou 20 triliões de dólares - ser o maior golpe de todos os tempos. E em que ninguém foi, nem será responsabilizado.
Tal como diz o crítico Kenneth Turan do Los Angeles Times, este é "um poderoso documentário que o vai deixar ao mesmo tempo de boca aberta e a ferver de raiva". Tenho de concordar totalmente. Acima de tudo, Inside Job é um fantástico trabalho de pesquisa e estudo, óptimo para compreender uma situação que às vezes parece demasiado abstracta e absurda para ser real e possível. Mas a crise económica é bem real e, aparentemente, está aí para durar e continuar a gerar mais problemas. Para quem quer compreender como se chegou a este período da actualidade em termos económicos e sociais, em que só se fala em subidas de impostos, reduções de direitos adquiridos, dívidas públicas, austeridade e sacrifícios, este documentário é mesmo obrigatório. Vê-lo não faz ninguém ficar mais rico, mas pelo menos fica-se a perceber como se pode ficar mais pobre. ●●●●○

As maiores trilobites do mundo foram encontradas na freguesia de Canelas, concelho de Arouca...
Acho que as trilobites não são do mesmo tempo que o Hércules, mas ainda assim é um facto científico e histórico interessante. E esta é a única coisa interessante neste post... Quanto aos filmes, nem vale a pena alongar muito os comentários de tão maus que são... Hércules, mesmo sendo uma personagem mitológica, deve estar bastante chateado pela forma como foi tratado aqui...

Hercules foi feito exclusivamente para vender pipocas e, vá lá, Brett Ratner ainda se dá ao trabalho de tentar criar algo novo. Tem alguns actores interessantes que podem de facto (tentar) fazer o seu trabalho, como Rufus Sewell, Joseph Fiennes, Dwayne Johnson (que é aquela máquina de músculos do costume) e John Hurt que é um senhor em qualquer filme. Tem muitos efeitos especiais e muita acção. O costume do género.  ●○○○○


The Legend of Hercules é uma tentativa descarada de levar as pessoas a comprar pipocas a pensar que é o outro filme. Parece uma mistura de 300 com Gladiator, mas sem bons actores, sem uma história em condições e basicamente... sem nada que valha a pena ver. É daqueles filmes que quando chega ao fim, uma pessoa encolhe os ombros... e fica sem palavras. ○○○○○

Apesar de nada terem a ver um com o outro, estes dois filmes são muito parecidos. E são também uma surpresa. Têm de facto uma história com pés e cabeça - algo raro hoje em dia - não causam epilepsia com tanto efeito digital, têm bons actores com espaço para desenvolver as personagens, boas cenas de acção e no geral estão bem dirigidos.

Dracula Untold conta (mais) uma história alternativa da mítica personagem de Vlad Tepes, normalmente conhecido por Drácula. Contrariamente ao que pensava, até tem alguma densidade e uma sensação de monumentalidade que não é nada normal neste tipo de filmes. Falta-lhe aquele pulsar sanguíneo essencial a qualquer filme do Drácula, mas ainda assim satisfaz por não se tornar numa anedota de vampiros adolescentes. Luke Evans está muito bem no papel de Vlad, mas quem chama mais a atenção é Charles Dance como o vampiro original. Uma menção positiva para os efeitos especiais que não estragam o filme, nem ofuscam os actores. A história é mais virada para um (suposto) contexto histórico e acaba por se diferenciar bem das milhentas adaptações do tema. Só por isso já merece destaque. Nota-se que aqui e ali que vai buscar inspiração ao brilhante Drácula de Francis Ford Coppola e às vezes até parecia que estava a ver um episódio de Game of Thrones, mas sinceramente, se é para copiar, ao menos que se copie dos melhores. E como primeiro filme acho que está bom. Fico à espera de novidades de Gary Shore. ●●○○○


Salomon Kane é um produto Marvel mas que depois passou para as mãos negras da Dark Horse. Faz todo o sentido já que é um filme que gira em torno de maldições e demónios. Essa é mesmo a melhor parte do filme: ver a personagem de James Purefoy amaldiçoada, atormentada, dividida entre o mal e o bem. Normalmente, em filmes de acção do género comercial não se perde tanto tempo a construir uma personagem. Deve ser por isso que o filme não é tão mau quanto parece no trailer. É também uma aposta nos tempos medievais para ganhar uma crosta de sujidade que lhe dá algum realismo. Aliás, o que mais me saltou à vista, foi precisamente a sujidade enlameada que está presente durante todo o filme. Torna-o desconfortável, mas num bom sentido. Tive medo que me saltasse lama para a carpete da sala... Pena que no final tivessem exagerado nos efeitos plastificados da praxe. Se não tivessem feito isso, o filme saía mais barato e teria resultado muito melhor. ●○○○○


Não são dois filmes para ficar na história do cinema, mas vêem-se bem. Já é suficiente. Face à tendência actual dos filmes de acção, que parecem sempre resvalar para a lama dos efeitos especiais, esquecendo literalmente tudo o resto que compõe um filme, pode-se dizer que são... dois filmitos jeitosos. Duas agradáveis surpresas. São bons para ver numa noite de Inverno chuvosa...
Só nos anos 90 é que poderia existir um filme como este. Quem é que se lembraria de juntar um
detective brutamontes dos narcóticos, crianças num jardim de infância e fazer uma comédia? Bem, Ivan Reitman lembrou-se, e ainda bem, porque Kindergarten Cop (1990) é um filme surpreendentemente divertido. É daquelas misturas esquisitas que não deveriam combinar, mas que de alguma forma estranha até funcionam.
Ivan Reitman, para além de ter dado vida aos Ghostbusters, praticamente também inventou o tipo de filmes que aproveita a carreira descente de alguns dos heróis de acção dos anos 80. É normal e compreensível. Os grandes heróis de acção como Schwarzenegger começaram a não ter tempo de antena à medida que os seus músculos perdiam densidade e as pessoas já não mostravam interesse em gajos hiper-musculados que ganhavam sempre no final. Estes (quase) super-heóis não podiam simplesmente desaparecer e começaram a entrar numa espécie de auto-paródia que culmina nos mais recentes The Expendables de Silvester Stallone. Surpreendentemente, parece que alguns têm jeito para a comédia, como Schwarzenegger. Vá-se lá perceber...
O filme tem duas partes distintas. O início, na cidade violenta, suja e decadente que é o habitat natural do detective John Kimble (Arnold Schwarzenegger), e a pacata e tranquila vila de Astoria onde decorre o final. Kimble tem de encontrar uma testemunha em fuga relacionada com um caso de droga e a única forma de o conseguir é assumir o papel de professor de um jardim de infância.
Schwarzenegger é uma surpresa pelo lado cómico e desajeitado, e a parceira-detective Phoebe O'Hara (Pamela Reed), viciada em comida e que namora com um chef de cozinha é uma personagem super-cómica. Mas o melhor de tudo são as crianças, como se costuma dizer. Os miúdos foram muito bem escolhidos e são a alma deste filme. É tudo tão genuíno que acaba por ser hilariante.
Raramente vejo comédias porque não me conseguem fazer rir. Sou daquele género de pessoas que só entende humor físico. O meu cérebro só processa Chaplin, Keaton ou as caretas rídiculas do Jim Carrey. É uma falha minha. Só em ocasiões - muito poucas - os Monty Python ou o Woody Allen me conseguem fazer rir. Este filme arrancou-me algumas gargalhadas. É o melhor elogio que lhe posso dar. ●●○○○

Transformers é o género de filme que sei que não vou gostar mas tenho de ver. E quando digo que não vou gostar quer dizer que após alguns minutos de o ter visto já o esqueci. São filmes feitos para os olhos, não para a cabeça... Já sei que vai ser um festim de acção, perseguições e explosões constantes, efeitos especiais do outro mundo, câmaras hiper-lentas, ângulos de filmagem impossíveis e muito reflexo de luz. Uma autêntica verborreia visual. O visual típico de Michael Bay. Ah!, e moças em biquini envoltas em espuma fofa a lavar carros desportivos com a bandeira americana desfraldada ao vento em plano de fundo.
Isso causa-me uma espécie de amor-ódio. Quer dizer, é como os acidentes na auto-estrada: uma pessoa já viu dezenas, mas tem sempre que abrandar para ver melhor... e já agora, buzinar aos outros gajos que param. O mesmo se passa no caso do crítico (profissional ou amador) que adora detestar estes filmes, mas que depois os vê em segredo para desopilar de ver tantos filmes europeus que muitas vezes são uma gigantesca seca...
Como sempre, o efeito novidade do primeiro filme impôe-se. Vendo o primeiro (que nunca é tão mau quanto parece), os outros parecem sempre iguais. E neste caso, são mesmo iguais. É como ver uma série. Vendo os trailers todos de seguida levanta-se uma questão pertinente: existe mesmo alguma diferença entre eles? Não serão todos o mesmo filme? Adiante.
Em miúdo, quando via os desenhos animados dos Transformers, o que mais queria era outro episódio para ver os carros, tanques e aviões a transformarem-se em robots. Nesta série de filmes, é o mesmo, só que em CGI. De carne e osso há imensa gente como Shia LaBeouf, Megan Fox, Jon Voight, John Turturro, Patrick Dempsey, Frances McDormand, John Malkovich, Mark Wahlberg, Stanley Tucci, Kelsey Grammer e até Buzz Aldrin, mas só lá estão para dar um bocado de descanso aos nervos ópticos e ao pessoal dos efeitos especiais.
Neste caso, a história não interessa para nada. Quem é que quer saber da história? O que uma pessoa quer é ver os robots em acção, os Autobots e os Decepticons à porrada e a partirem tudo da maneira mais espectacular possível. Até porque normalmente estas histórias são lineares e "chapa 4" para não prejudicarem a continuidade e qualidade dos efeitos especiais: existe uma coisa qualquer que pode destruir a Terra e por isso os "bons" e os "maus" disputam-na; inevitavelmente, acabam nas mãos dos indefesos, mas resilientes humanos, que com a juda dos "bons" acabam por salvar o dia e o mundo. No caso mais gritantemente pateta do primeiro filme, quando o "mau" do Megatron consegue pôr as mãos robóticas em cima do tal cubo que todos procuram... morre ao tocar-lhe. AH?!? Alguém perdeu um bocado a noção do rídiculo quando escreveu isto, não? Lá está, o foco está todo na qualidade das explosões e não na qualidade do guião.
O Michael Bay tem o seu lugar muito específico na indústria do cinema e eu respeito isso. Criou um estilo próprio, que é facilmente identificável e faz literalmente toneladas de dinheiro com os seus produtos de cinema. O que não quer dizer que os seus filmes valham alguma coisa. Por vezes parece-me que o Michael Bay percebe isto tudo e exagera tanto na produção dos filmes só para chatear os críticos. Mas isso sou eu a pensar alto...
Estes filmes têm de ser encarados como realmente são: um produto de consumo rápido, como um hamburger do McDonald's ou uma Coca-Cola, por exemplo. Sabem muito bem, satifazem no imediato, mas devem ser consumidos com moderação para não causar problemas de saúde. Eu só consigo imaginar o que aconteceria se uma pessoa visse os filmes todos de seguida: provavelmente tinha uma problema nos nervos ópticos ou acabaria num hospital com um caso sério de epilepsia... ●○○○○





+ bónus Hasbro: Battleship
A pergunta que fica depois de ver todos os Transformers é: será que é possível fazer algo pior? Infelizmente, sim! Quando o acabei de ver Battleship - outra adaptação (?) de brinquedos da Hasbro - que é igual aos Transformers, mas em versão batalha naval, a única coisa em que pensava era: como é possível? Alexander Skarsgård, Liam Neeson, Taylor Kitsch e Rihanna (ah?!) aparecem num filme que só existe devido ao sucesso dos Transformers. Mas se a saga dos robots que se transformam em carros são hamburguers, Battleship é a versão Happy Meal. Quarenta por cento do lucro da McDonald's advém da venda de Happy Meals, por isso percebe-se a lógica comercial da coisa. Porque o que interessa aqui é isto: fazendo as contas por alto, estão aqui investidos 1.000 milhões de dólares na produção de 5 filmes! Parece muito dinheiro? Se compararmos com os 3.000 milhões de dólares (que até deve ser mais) de lucro já não parece tanto, pois não? E no final, é isto que interessa, dinheirinho em caixa e mais nada.
Mas independentemente da questão comercial, isto não é um filme em condições: é um hamburger tipo sola de sapato e uma cola quente sem gás. É algo intragável. Um daqueles filmes raros que vale literalmente zero. Parece um filme que foi feito para promover a venda do jogo de tabuleiro que lhe deu origem. Só falta saber o que virá a seguir: fazer um filme baseado na complexidade do Tetris? Na história bombástica do Minesweeper? Uma comédia romântica com o Pac-Man? É que se der lucro, tudo é possível... ○○○○○

Hellboy nasce de mais uma adaptação da BD. Desta vez da Dark Horse Comics. Nunca fui um grande adepto de BDs por isso o meu conhecimento é um pouco limitado. Talvez por causa disso, Hellboy não me tenha entediado tanto quanto as aventuras dos super-heróis do universo Marvel. Ser uma BD muito mais negra que o habitual provavelmente também ajuda. A não ser que alguém não considere como negro, a história do filho de um demónio, nascido nas profundezas do Inferno e que é a chave para o Apocalipse... Acho que se pode considerar como uma história bastante negra.
Em cima disso, Guillermo del Toro conseguiu criar dois filmes que têm um tom (ainda) mais descontraído do que o normal do estilo, o que faz com que sejam muito divertidos de se ver. São puro entretenimento e uma boa dose de fantasia. Del Toro afirma-se cada vez mais como o "homem" do fantástico no cinema moderno. É muito bom, porque é sempre um tema muito maltratado e que precisa de bons realizadores. O grande destaque nos dois filmes é mesmo Guillermo del Toro.
Além disso, também tem John Hurt que me leva sempre para 1984, e Ron Perlman como protagonista
principal, o que só por si já é um ponto positivo. Eu diria que o Hellboy é melhor que o Hellboy 2: The Golden Army, mas isso deve ser o efeito novidade a funcionar. Boas cenas de acção, diálogos inteligentes e histórias bem escritas são tudo menções louváveis. Os efeitos especiais vão de q.b. a exagerados, como é normal no estilo, mas não afectam muito os filmes. As caracterizações são excepcionalmente boas.
São essencialmente filmes para pipocas, mas bonzitos. São filmes para ver no sofá, num domingo chuvoso, mas ainda assim, que valem a pena perder umas horas para ver. ●●○○○




Quando se cria um filme de culto como Taxi Driver, o que é que se faz a seguir? A resposta de Martin Scorsese foi um musical extravagante chamado New York, New York. Saiu (quase) perfeito.
New York, New York (1977) é um filme de 5 estrelas, e para mim, um caso de estudo. Se este filme fosse uma das big bands retratadas no filme, seria uma banda excepcional, extremamente afinada, com um ritmo que obriga a perna a saltitar como um reflexo involuntário, que tem um saxofonista irascível mas genial, uma cantora tão boa que é inacreditável, mas em que o maestro estraga tudo no final; ele até concebeu a peça toda e conduziu-a de forma irrepreensível durante a maior parte do tempo, mas perto do final começou a dispersar-se e ao que parece estava apressado para ir a algum lado e de repente termina com a música. É uma pena. Não sei o que se passou com Scorcese neste filme. Criou um filme genial, mas depois vandalizou-o. No mínimo, é estranho.
New York, New York conta a história do romance(?) conturbado de Jimmy Doyle (Robert De Niro), um saxofonista que tem tanto de naturalmente genial como de alucinado, e Francine Evans (Liza Minnelli) uma cantora que procura reconhecimento para o seu enorme talento. Tudo isto se passa logo a seguir ao final da II Grande Guerra. Isto dá o mote imediato para a euforia que reina durante todo o filme. A guerra tinha acabado, os soldados tinham voltado a casa (Jimmy supostamente é um deles - ou será apenas uma manobra de engate?) e o que toda a gente parecia querer naquele momento era expulsar a euforia da vitória, deixar para trás o negrume da guerra e abraçar tudo o que de bom a vida tem para oferecer.
É assim que começa o épico New york, New York. Jimmy tenta - mas não consegue - seduzir Francine no meio do frenesim duma festa gigante, em que as emoções estão à flor da pele e a excitação é tão grande que tudo se torna tenso.
Pelo desenrolar da história, pensei que o filme ia retratar as origens da música New York, New York. Sempre pensei que a música pertencia ao Frank Sinatra e que era muito mais antiga que o filme.Fui pesquisar e para minha grande surpresa percebi que a música é um original da banda sonora do filme. Melhor que isto é impossível. Criar um ícone planetário, reconhecido em todo o mundo, não é para todos. Só por este pormenor, o filme receberia as 5 estrelas. Mas tudo o resto também é perfeito. Ou melhor dizendo, quase perfeito.
Normalmente os musicais costumam ser melhores que os outros filmes. Não sei porque é que isso acontece, mas é verdade. Só pode ser a atracção subconsciente da música. Scorsese foi extremamente subtil ao transformar um musical num filme sobre músicos e sobre música. Mas já não foi nada subtil no tom musical. O filme quase que me obrigou a mexer-me. Os ritmos frenéticos do jazz, os solistas, os solos possantes. Senti a música quase fisicamente. Muito bom.
Em termos de actores, acho difícil que se volte a reunir uma dupla tão boa como esta. Liza Minneli tem uma performance excepcional. Durante todo o filme é brilhante, mas bastava ter aparecido perto do final para cantar New York, New York para receber todos os melhores elogios. A força, a emoção, o poder são tão grandes naquela última actuação, que aquilo deixa de ser cinema para ser algo totalmente real. Deu-me arrepios na espinha e emocionou-me. Tocou-me em qualquer coisa cá dentro que não se consegue explicar. Não há palavras.
Robert De Niro parece uma mistura de Travis Bickle, do Taxi Driver com James Conway, do Goodfellas. É uma grande performance, mas sinceramente dá um tom tão amargo e tão desconcertante ao filme que quase o estraga. Não sei se a persongaem era para ser mesmo assim ou se De Niro a contruiu, mas o certo é que Jimmy Doyle é uma das personagens mais inquetantes, arreliadoras e psicóticas que já vi. É o tipo de gajo que nunca podemos ter por perto, porque vai arranjar problemas em qualquer sítio. Na gíria diz-se que é um gajo que gosta de armar estrilho. É um guna. Mas um guna genial quando pega no saxofone. É o tipo de homem que bate na mulher grávida, que pede que o matem por ela não aceder a um pedido de casamento repentino, por exemplo. Um verdadeiro pulha que só merece solidão...
Um dos grandes destaques vai também para a produção, para os cenários e a para a fotografia. É tudo do melhor e um manual de como fazer as coisas perfeitamente. A inclusão daqueles sets artificiais e o uso da luz, levou-me imediatamente para as grandes produções musicais dos anos 40 e 50. Criam uma envolvência que obriga uma pessoa a mergulhar naquela realidade.
Depois entra a parte estranha. Pensei mesmo que este era um daqueles filmes que têm qualquer coisa mais, que se tornam uma referência, um dos raros filmes de 6 estrelas. Desde o início que se nota que é um filme muito acima da média. Mas perto do final do filme, algo de estranho se passou. Durante todo o filme (que é enorme), Scorsese faz uma apologia dos clubes noturnos, dos grandes musicais americanos e da própria música americana, mesmo mostrando o seu lado mais negro. Mas perto do final, inclui uma cena que parece totalmente desajustada do restante. Mostra Francine como empregada de um cinema, numa espécie de sonho em que imagina que tudo lhe corre pelo melhor, repleta de diamantes e em que culmina a fazer um musical glamoroso chamado "Happy Endings". Afinal ela acorda e percebe que é tudo só um sonho. Quando se vê novamente confrontada com o início do sonho, ela desiste e foge da situação.
Scorsese nitidamente diz-me que está contra estes finais felizes, que eles não acontecem na vida real, que a vida é muito mais dura e injusta, que glamour é uma criação do cinema. Parece que está contra, não só os finais felizes (e o filme não tem um final feliz) como também está contra o glamour, a perfeição, os sorrisos falsos e os brilhos dos antigos filmes. Pode não ter sido a intenção, mas é a sensação com que fiquei. Parece que Scorsese tinha umas contas a ajustar com aquele tipo de cinema e teve de arranjar uma forma de o fazer à força. Um filme é objectivamente é uma opinião muito pessoal e não tenha nada contra isso. Mas neste caso, parece que viu que o filme estava para acabar e não ia ter oportunidade de encaixar aquela cena noutro sítio. Pareceu forçado. Fez mal, porque acho que diminui imensamente o filme ao cortar o ritmo. Para piorar ainda mais, o filme acaba rápido demais. Com aquela situação do sonho dos "Happy Endings", a personagem de De Niro desaparece do filme durante imenso tempo. Regressa praticamente só para ver Francice conseguir tudo o se desejava (ironicamente, o tal "Happy Ending" que ela rejeita na espécie de sonho), tentar um reconciliação (falhada) e para sair de cena "de pés", tal como entrou. É desapontante de tão incoerente.
Depois de ver um filme que é uma autêntica montanha-russa de emoções, que passa da comédia para o drama mais profundo, que tem performances artísticas e músicas inesquecíveis, Scorsese vai-se embora, a encolher os ombros, como se não quisesse saber. Não entendo. É como se Pollock terminasse uma das suas pinturas, mas no canto do quadro escrevesse a letras vermelhas que não é grande fã do abstracto. Não compreendo. Acho que aconteceu qualquer coisa nos últimos tempos de filmagem...
Mas voltando ao lado positivo. New York, New York tem uma história excepcionalmente bem contada, actores no pico de forma, com performances do outro mundo, momentos de cinema de puro génio, e uma das melhores músicas de sempre foi composta de propósito para a banda sonora. Há alguém que nunca tenha ouvido a New York, New York?  Mesmo com as falhas que tem, New York, New York é um filme que merece ser visto, revisto e estar em qualquer lista dos melhores filmes de sempre. Um dos grandes filmes que já vi. ●●●●●

 
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