Como grande parte do pessoal da minha geração sabe, os Nirvana vieram preencher um vazio. No início dos anos 90 parecia que existia uma necessidade no ar. Sentia-se que era preciso power na música. Que era preciso regressar ao low-fi, às guitarras desafinadas e aos rifles potentes. Era preciso que alguém aparecesse em palco e partisse aquela porcaria toda. Era preciso gritar, dar uns berros, partir umas guitarras no amplificador. Era preciso rebentar... O pessoal já estava farto de cabelos com gel, fatiotas a condizer com os sapatos, coreografias bem ensaiadas e músicas pop polidas até à exaustão. O metal não era solução: tinha calças mais justas que collants, cabelos tão bem tratados e longos não era para toda a gente e, além do mais, até o metal tinha baladas... O punk, idem aspas, com a agravante que as considerações estéticas eram ainda mais gritantes e discutíveis, com a excepção das botas pretas de tropa. Era preciso algo novo, mais desleixado, mais cru, mais individual, mas ao mesmo tempo poderoso e libertador. O que apareceu foi o grunge, uma mistura de coisas novas e antigas, que não condizia com nenhum rótulo conhecido. Era um capítulo novo. O grunge parecia-se com muita coisa e com coisa nenhuma. E a primeira banda associada a esse novo estilo que ninguém percebia muito bem o que era (acho que ainda não se percebeu) foi precisamente os Nirvana. Uma banda atípica naquela altura: eram só três elementos, desgrenhados e o vocalista não era "bonito", nem sorria para a câmara. De uma vez só, os Nirvana preencheram todos os vazios. Aquilo era poderoso, cru e, mais importante que tudo, parecia ser verdadeiro. Parecia mesmo uma daquelas bandas de garagem que toda a gente teve ou que o vizinho do lado tinha e um gajo só ia lá para assistir. Não admira que o sucesso tenha sido colossal e imediato. E é preciso relembrar que isto tudo aconteceu num mundo antigo e desconhecido de muita gente, onde ainda não existia internet, ainda se usava o vinil, cassetes (e duplos decks) e o grande hype era... o CD. Era outro mundo totalmente diferente. (Agora senti-me um verdadeiro dinossauro...)
O pessoal queria dar (e levar) umas cotoveladas, mochar um bocado e não cantarolar ao ouvido ou dançar juntinho com a namorada. Só o "dançar" já era algo que estava a mais... Mas claro que não foram só os Nirvana. Foram os Smashing Pumpkins, os Pearl Jam, os Stone Temple Pilots, os Soundgarden, os Nine Inch Nails, os Alice in Chains, os Sonic Youth, os Faith no More e tantos, tantos outros que vieram ao mesmo tempo, sendo que provavelmente muitos nem se encaixam na "categoria oficial" do grunge. Pessoalmente, sempre reconheci mais o grunge como um momento na história, do que propriamente uma "categoria" musical...
Para mim, como para milhões de outros, os Nirvana apareceram exactamente na altura certa. O que lia naquelas letras era mesmo aquilo que sentia e, mais importante, era mesmo aquilo que queria dizer. Foi estranho. Foi uma ligação global instantânea. Ainda hoje, volta e meia, naquelas ocasiões especiais, lá pego no velho CD e dou por mim a ouvir Nirvana. Vai ficar aqui para sempre.
Por causa disto tudo o que enumerei, quando ouvi dizer que ia sair um documentário sobre os Nirvana, fiquei entusiasmado. Gosto muito da música deles, mas dos elementos da banda só sei os nomes e pouco mais.
Cobain: Montage of Heck é uma ode aos Nirvana, embora esteja excessivamente centrado no Kurt, o que não acho nada criticável, pois foi sempre a face mais visível (e visada) da já mítica banda. E, pensando bem, qual é a banda em que o vocalista não é o elemento principal?
Para quem é fã dos Nirvana, muito provavelmente, este documentário é quase um estado de... nirvana. Tem tudo. Tem filmagens desde o nascimento até à morte do Kurt, animações, diagramas, desenhos e depoimentos vários, num dos trabalhos de montagem mais épicos que já vi.
Por outro lado, para quem, como eu, é um grande fã da música dos Nirvana, acaba por ser um bocado decepcionante. Mas também já estou habituado a esta aproximação. Obviamente, não acredito em metade do que é relatado porque simplesmente sei que cada participante ou interveniente na vida do Kurt Cobain vai ter uma opinião diferente, se não mesmo contrária ao que aqui aparece. Não me parece que alguém consiga resumir e mostrar verdadeiramente a "história completa". Nem a própria pessoa visada, quase de certeza teria a capacidade de mostrar a história verdadeira. Não sei se a história foi semelhante ao que aparece no documentário, mas aceito a lógica do guião.
Se se considerar a parte mais técnica do documentário (guião, realização, montagem, fotografia), este Cobain: Montage of Heck é um brilhante documentário, muito provavelmente um dos melhores. Aproveitando o mote do título: "montage of heck" é um documentário com uma "montagem do caraças". Brilhante mesmo. Só poderia ser melhor se estivesse mais virado para o lado da música do que para a parte pessoal, mas compreendo a inclinação...
O documentário não sei se ficará para a história. É provável que fique. Mas tenho uma certeza: os Nirvana já ficaram. Disso não tenho dúvida. Porque sei que daqui a 20, 30 ou 50 anos, um teenager do futuro vai abrir um cd (ou o suporte que se usar nessa altura) do Nevermind e quando ouvir aqueles primeiros acordes do Smells Like Teen Spirit vai-lhe dar uma vontade estranha de vestir camisas de flanela, abanar o capacete e de se atirar para cima de outras pessoas... ●●●●○
Antes de mais queria dizer que não gosto de comédias. Acho-as constrangedoras porque normalmente não me conseguem fazer rir. ...E depois fico com pena dos actores. É verdade. É como aquelas situações em que uma pessoa está a assistir a um show de stand-up, mas a pessoa não tem graça nenhuma... É mais ou menos isso que acontece. No campo da comédia, sou um público muito, muito difícil. As únicas coisas que - nas condições certas - me consegume fazer rir são tombos/malhanços ou argumentos tipo Woody Allen. E é aqui que entra o Jim Carey, o mago das caretas estúpidas e da comédia física, digamos assim. Não sei porquê, mas é dos poucos que consigo suportar (parece-me genuinamente um bom actor, e acho uma pena que não "salte" fora das "comédias de caretas"). Mesmo assim, tenho de estar na disposição para a galhofa...
Vi o Bruce Almighty e achei-o razoavelmente... suportável. O Jim Carrey não faz demasiadas palhaçadas e a história até tem alguma margem para ter piada. Ter uma vida de porcaria e de repente ficar com todos os poderes divinos dá muito jeito para encaixar algumas piadas e foi isso mesmo que aconteceu. Soltei umas gargalhadas, não mais que isso. Lá pelo meio também tem o Steve Carell, que sei que é um actor cómico com muitos fãs, mas que nunca dei muita atenção, lá está, porque não sou entusiasta da comédia. E qualquer filme sai sempre mais elevado com a presença de Morgan Freeman. Ajuda sempre. ●●○○○
É uma sequela? É um spin-off? Não. É o mesmo filme.
No outro dia, estava a vegetar em frente à TV e vejo novamente o Morgan Freeman a fazer o papel do primeiro filme. Pensei que era uma repetição do Bruce Almighty. Mas não reconheci nada, a não ser o Morgan Freeman e o Steve Carell. Na informação do canal, dava como título do filme Evan Almighty. Pensei que tinha perdido capacidade de memória, porque tinha a certeza que o filme se chamava Bruce Almighty. Ainda por cima, não aparecia o Jim Carrey. Continuei a ver e então percebi que era outro filme. Uma espécie de... Não sei muito bem o que é, mas basicamente é o filme anterior com algumas das personagens anteriores, (Freeman faz a mesma personagem e Carell faz a personagem de Jim Carey) embrulhadas numa história parecida com a anterior. A única diferença em relação ao anterior é este filme ser (ainda) menos cómico. Aguentei ver o filme até ao fim porque estava mesmo muito cansado e não me apeteceu levantar do sofá...
(sim, podia ter mudado de canal, mas fiquei a ver como é que acabava a história... Não costumo deixar filmes a meio. Nem mesmo aquelas comédias que não me conseguem arrancar um único sorriso...) ○○○○○
Vi o Bruce Almighty e achei-o razoavelmente... suportável. O Jim Carrey não faz demasiadas palhaçadas e a história até tem alguma margem para ter piada. Ter uma vida de porcaria e de repente ficar com todos os poderes divinos dá muito jeito para encaixar algumas piadas e foi isso mesmo que aconteceu. Soltei umas gargalhadas, não mais que isso. Lá pelo meio também tem o Steve Carell, que sei que é um actor cómico com muitos fãs, mas que nunca dei muita atenção, lá está, porque não sou entusiasta da comédia. E qualquer filme sai sempre mais elevado com a presença de Morgan Freeman. Ajuda sempre. ●●○○○
É uma sequela? É um spin-off? Não. É o mesmo filme.
No outro dia, estava a vegetar em frente à TV e vejo novamente o Morgan Freeman a fazer o papel do primeiro filme. Pensei que era uma repetição do Bruce Almighty. Mas não reconheci nada, a não ser o Morgan Freeman e o Steve Carell. Na informação do canal, dava como título do filme Evan Almighty. Pensei que tinha perdido capacidade de memória, porque tinha a certeza que o filme se chamava Bruce Almighty. Ainda por cima, não aparecia o Jim Carrey. Continuei a ver e então percebi que era outro filme. Uma espécie de... Não sei muito bem o que é, mas basicamente é o filme anterior com algumas das personagens anteriores, (Freeman faz a mesma personagem e Carell faz a personagem de Jim Carey) embrulhadas numa história parecida com a anterior. A única diferença em relação ao anterior é este filme ser (ainda) menos cómico. Aguentei ver o filme até ao fim porque estava mesmo muito cansado e não me apeteceu levantar do sofá...
(sim, podia ter mudado de canal, mas fiquei a ver como é que acabava a história... Não costumo deixar filmes a meio. Nem mesmo aquelas comédias que não me conseguem arrancar um único sorriso...) ○○○○○
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Christine é mais um dos grandes filmes de John Carpenter. Infelizmente, este é um daqueles gajos que só vai ter reconhecimento como grande cineasta que é quando morrer. É verdade que nos últimos anos tem andado desaparecido e quando aparece, os filmes são muito fraquinhos. Mas tem um reportório anterior que mete respeito. Christine é um desses exemplos. Tenho que dizer que a Christine é um carro muito, muito fixe. É verdadeiramente uma personagem. Tudo é fixe neste filme: desde as boas interpretações dum elenco jovem e totalmente desconhecido (Keith Gordon, John Stockwell e Alexandra Paul, ajudados por veteraníssimos como Robert Prosky e Harry Dean Stanton), até à grande banda sonora que acompanha cada momento do filme.
A base é (mais) uma excelente história de Stephen King sobre um carro-assassino-psicopata que aparentemente tem vida própria. Mas é mais do que isso. É sobre a emancipação na adolescência. É sobre despegar-se das rédeas familiares. É sobre o poder que é ter algo verdadeiramente nosso. É sobre a revolta dos nerds. É sobre como o sobrenatural aparece despercebido no quotidiano. Christine tem tudo. Tem cenas verdadeiramente inesquecíveis, como por exemplo a Christine a rolar vagarosamente em chamas numa estrada tipo Lost Highway ou ver o carro a reconstruir-se à frente dos nossos olhos. Agora parece um pouco idiota dizer isto, mas em 1983, sem computadores para gerar efeitos digitais, isso era verdadeiramente cinema sobrenatural. Christine é John Carpenter vintage. Um clássico de terror, "bad to the bone" e muito fixe. ●●●●○
Durante muito tempo fui um maluquinho por Legos. Depois cheguei aos 10 anos de idade e isso passou-me. Por isso mesmo, tinha uma grande curiosidade em ver The Lego Movie. Não desilude muito: é um filme de animação... com legos. Não é aborrecido nem irritante, dá para algumas gargalhadas e tem as vozes de grande actores como Liam Neeson ou o incomparável Morgan Freeman.
Mas o que me chamou à atenção neste filme foi a história. Já não é a primeira vez que vejo filmes de animação em que o ênfase está numa espécie de alerta anti-capitalista. A lógica é sempre a mesma: há um grande homem de negócios que quer acabar com a diversão dos gajos normais para fazer uma treta enfadonha qualquer e restrita a uma elite. Aqui o mauzão de serviço é um boneco chamado Lord Business. Não deixa de ser estranho, se pensar que estes filmes vêm dos grande grupos da indústria do cinema. Irónico, no mínimo. É estranho. Deveria haver uma reflexão profunda sobre o porquê de filmes para crianças incidirem tanto em temas como o capitalismo selvagem ou a crítica social, quando as crianças de certeza que não perceberão a história. Será uma indirecta para os pais que os acompanham? Não sei dizer...
The Lego Movie fica um pouco abaixo do mediano porque não tem nada de novo. A única coisa que o diferencia dos milhões de filmes de animação que são lançados todos os anos é que tem legos. Advinha-se uma sequela, uma prequela e mais dois ou três spin-offs... ●●○○○
Mas o que me chamou à atenção neste filme foi a história. Já não é a primeira vez que vejo filmes de animação em que o ênfase está numa espécie de alerta anti-capitalista. A lógica é sempre a mesma: há um grande homem de negócios que quer acabar com a diversão dos gajos normais para fazer uma treta enfadonha qualquer e restrita a uma elite. Aqui o mauzão de serviço é um boneco chamado Lord Business. Não deixa de ser estranho, se pensar que estes filmes vêm dos grande grupos da indústria do cinema. Irónico, no mínimo. É estranho. Deveria haver uma reflexão profunda sobre o porquê de filmes para crianças incidirem tanto em temas como o capitalismo selvagem ou a crítica social, quando as crianças de certeza que não perceberão a história. Será uma indirecta para os pais que os acompanham? Não sei dizer...
The Lego Movie fica um pouco abaixo do mediano porque não tem nada de novo. A única coisa que o diferencia dos milhões de filmes de animação que são lançados todos os anos é que tem legos. Advinha-se uma sequela, uma prequela e mais dois ou três spin-offs... ●●○○○
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The Lego Movie
Mais três filmes medianos, agora dentro da temática "o mundo está quase a acabar, ou então já acabou e o que vem a seguir pode ser mais ou menos isto"...
Depois do grande sucesso da Cidade de Deus e da passagem muito bem conseguida para o filme "americano" com The Constant Gardener, o brasileiro Fernando Meirelles adapta o livro de Saramago "Ensaio sobre a Cegueira" sobre uma estranha epidemia que torna toda a gente cega. Não li o livro, portanto não posso dizer se o filme lhe faz jus ou não. Mas vi o filme e não gostei muito. A ideia parece-me excelente, mas o desenrolar do filme é muito lento. Começa muito bem e depois vai ficando cada vez mais lento, até que acaba por parar. O casting pareceu-me demasiado heterogéneo (Julianne Moore, Mark Ruffalo, Gael García Bernal, Danny Glover) e se calhar por causa disso aparenta estar desunido. É difícil de explicar mas apesar de ter tudo para que fosse um bom filme (bom realizador, bons actores, boa história), há algo neste Blindness que falha. Deixou-me com uma sensação de ser apenas mais um filme com um tom apocalíptico vulgar. ●●○○○
The Book of Eli é um filme realizado pelos gémeos Hughes Brothers ("donos" de um filme muito engraçado chamado From Hell acerca de Jack the Ripper) passado num daqueles futuros pós-apocalípticos em que não há nada com excepção do caos generalizado, gajos porcos e malucos que parecem saídos do Mad Max e alguns canibais. Pelo meio, há Denzel Washington, uma daquelas personagens pacíficas que só é violento porque o obrigam. Ele protege um livro (uma Bíblia) das más intenções da personagem de Gary Oldman, o vulgar líder super-autoritário de uma povoação algures no meio do deserto. Tem a Jennifer Beals, Michael Gambon e até aparece o Tom Waits, mas não há muito mais que isso. Tem uma história bem contada, algumas boas cenas estilosas de acção/porrada e... vê-se. ●●○○○
Por último, o melhor desta selecção, Snowpiercer de Joon-ho Bong, gajo que desconheço totalmente. Mas é um nome a reter. A história até é relativamente normal (mais uma cena pós-apocalíptica ambiental) para não dizer disparatada (os únicos sobreviventes pós-apocalípticos estão confinados num comboio que viaja a alta velocidade sem parar à volta do mundo [?!?]). Só que Bong conseguiu dar-lhe um toque estranho que de alguma forma cativa. Aliás, tudo é estranho neste filme: é uma adaptação de uma BD francesa (Le Transperceneige) escrita por Jean-Marc Rochette em 1982 (nunca esperaria que a inspiração viesse duma bd francesa tão antiga); depois a estreia e distribuição atribulada do próprio filme, a sair em alguns países para formato DVD ao mesmo tempo que chegou às salas de cinema; e a mistura estranha que é todo o filme: produção da Coreia do Sul, República Checa, América e França.
A história é relativamente básica mas "viciante": o pessoal das carruagens de trás do imenso comboio-salvação revolta-se contra a disparidade em relação às cabines da frente e decide tomar de assalto a locomotiva e o seu misterioso condutor. Apesar de ser mais ou menos descabido, acaba por sintetizar um pouco o próprio mundo e fá-lo de uma forma interessante, porque é quase como ir abrindo uma sucessão de portas para o desconhecido. Claro que há cenas de acção e pancadaria a rodos, mas por acaso até são muito boas, como é costume nos realizadores asiáticos. O papel principal é de Chris Evans, mas os restantes "secundários" são de luxo: Ed Harris, John Hurt e a quase irreconhecível Tilda Swinton.
Vi-o sem grande expectativas (pensava que era só mais um filme de ficção científica/porrada) e acabei por ter uma agradável surpresa. Não é uma pérola, mas é uma pedra (semi) preciosa. ●●●○○
Depois do grande sucesso da Cidade de Deus e da passagem muito bem conseguida para o filme "americano" com The Constant Gardener, o brasileiro Fernando Meirelles adapta o livro de Saramago "Ensaio sobre a Cegueira" sobre uma estranha epidemia que torna toda a gente cega. Não li o livro, portanto não posso dizer se o filme lhe faz jus ou não. Mas vi o filme e não gostei muito. A ideia parece-me excelente, mas o desenrolar do filme é muito lento. Começa muito bem e depois vai ficando cada vez mais lento, até que acaba por parar. O casting pareceu-me demasiado heterogéneo (Julianne Moore, Mark Ruffalo, Gael García Bernal, Danny Glover) e se calhar por causa disso aparenta estar desunido. É difícil de explicar mas apesar de ter tudo para que fosse um bom filme (bom realizador, bons actores, boa história), há algo neste Blindness que falha. Deixou-me com uma sensação de ser apenas mais um filme com um tom apocalíptico vulgar. ●●○○○
The Book of Eli é um filme realizado pelos gémeos Hughes Brothers ("donos" de um filme muito engraçado chamado From Hell acerca de Jack the Ripper) passado num daqueles futuros pós-apocalípticos em que não há nada com excepção do caos generalizado, gajos porcos e malucos que parecem saídos do Mad Max e alguns canibais. Pelo meio, há Denzel Washington, uma daquelas personagens pacíficas que só é violento porque o obrigam. Ele protege um livro (uma Bíblia) das más intenções da personagem de Gary Oldman, o vulgar líder super-autoritário de uma povoação algures no meio do deserto. Tem a Jennifer Beals, Michael Gambon e até aparece o Tom Waits, mas não há muito mais que isso. Tem uma história bem contada, algumas boas cenas estilosas de acção/porrada e... vê-se. ●●○○○
Por último, o melhor desta selecção, Snowpiercer de Joon-ho Bong, gajo que desconheço totalmente. Mas é um nome a reter. A história até é relativamente normal (mais uma cena pós-apocalíptica ambiental) para não dizer disparatada (os únicos sobreviventes pós-apocalípticos estão confinados num comboio que viaja a alta velocidade sem parar à volta do mundo [?!?]). Só que Bong conseguiu dar-lhe um toque estranho que de alguma forma cativa. Aliás, tudo é estranho neste filme: é uma adaptação de uma BD francesa (Le Transperceneige) escrita por Jean-Marc Rochette em 1982 (nunca esperaria que a inspiração viesse duma bd francesa tão antiga); depois a estreia e distribuição atribulada do próprio filme, a sair em alguns países para formato DVD ao mesmo tempo que chegou às salas de cinema; e a mistura estranha que é todo o filme: produção da Coreia do Sul, República Checa, América e França.
A história é relativamente básica mas "viciante": o pessoal das carruagens de trás do imenso comboio-salvação revolta-se contra a disparidade em relação às cabines da frente e decide tomar de assalto a locomotiva e o seu misterioso condutor. Apesar de ser mais ou menos descabido, acaba por sintetizar um pouco o próprio mundo e fá-lo de uma forma interessante, porque é quase como ir abrindo uma sucessão de portas para o desconhecido. Claro que há cenas de acção e pancadaria a rodos, mas por acaso até são muito boas, como é costume nos realizadores asiáticos. O papel principal é de Chris Evans, mas os restantes "secundários" são de luxo: Ed Harris, John Hurt e a quase irreconhecível Tilda Swinton.
Vi-o sem grande expectativas (pensava que era só mais um filme de ficção científica/porrada) e acabei por ter uma agradável surpresa. Não é uma pérola, mas é uma pedra (semi) preciosa. ●●●○○
Os filmes, como tudo nesta vida, influenciam e são influenciados pelo dia que um gajo acabou de ter...
Eis alguns exemplos de "filmes medianos" que, se estiver bem disposto, até gosto. Pelo contrário, se estiver num daqueles dias em que o mundo parece que se une para nos atirar ao tapete...
"Filmes medianos" são filmes relativamente bem feitos, bem escritos, com actores que se desenrascam bem, mas que no geral, - lá está - como tudo na vida, não têm o que é preciso para chegar ao topo. É um filme que não aborrece mas que também não fica para o história. Reveem-se bem passados uns anos.
Nesta segunda incursão, três filmes dentro da temática "porrada velha" que representam bem o que são filmes medianos.
Gosto muito do tipo de realização do Walter Hill e também gosto do Arnold Schwarzenegger e especialmente do James Belushi. Deve ter sido por causa disso que já vi Red Heat para aí uma meia dúzia de vezes. Como em todos os filmes de Hill, o casting é muito bom e por isso ainda há Ed O'Ross, Laurence Fishburne (quando ainda se chamava Larry Fishburne) e a Gina "Bound" Gershon.
Arnold faz de um polícia russo que vai para Chicago atrás dum traficante de droga. As diferenças abismais e as piadas entre ele e o típico americano Belushi até fazem esquecer que este é um filme vulgar de porrada. ●●○○○
Mais recentemente encontrei um filme de porrada muito jeitoso, chamado In Bruges, do totalmente - pelo menos para mim - desconhecido Martin McDonagh. Já o elenco não é nada desconhecido: Colin Farrell, Brendan Gleeson e Ralph Fiennes dão vida a uns mafiosos que se encontram em Bruges. Sim, Bruges, aquela famosíssima cidade belga que ninguém sabe muito bem onde fica. Depois de um golpe falhado em que um inocente morre, Farrell e Gleeson vão "relaxar" (e esconder-se) uns tempos para a Bélgica (!?). Onde, obviamente, tudo começa a correr mal, quando Farrell se envolve com uma actriz e o seu amigo anão. Mesmo com esta história maluca, surpreendentemente, In Bruges é um bom filme, com bons momentos de comédia e grandes momentos de acção e pancadaria. ●●●○○
Por último, uma raridade que merece ser vista, The Raid: Redemption. Vi por mera curiosidade e ia ficando "sem cabeça". Tudo neste filme é um enorme surpresa. O filme é indonésio mas o realizador é um... galês, chamado Gareth Evans! Vendo o filme ninguém diria. É simplesmente espectacular. Tem as melhores cenas de pancadaria que alguma vez vi. Acho que mais real que isto é impossível. Aliás, passei grande parte do filme a tentar perceber se aquilo era encenado ou se o pessoal do filme andava mesmo à pancada. Mas ninguém me tira a ideia que alguns daqueles duplos foram mesmo parar ao hospital com lesões graves. Não consigo entender como é que se filmam coisas assim. É a magia do cinema. Mas o filme não vale só pela porrada. Vale pela simplicidade de processos. É como diz o trailer: um "Ruthless Crime Lord, 20 Elite Cops, 30 Floors of Chaos". É a prova que Hollywood tem vindo a exagerar e que não é preciso gastar biliões de dólares para fazer um simples filme de acção e porrada, embrulhados em guiões hipercomplicados e cheios de clichés. Apenas com 1 milhão de dólares, Gareth Evans, consegui meter no bolso a grande maioria dos filmes de porrada americanos. Só por isso, merece uma grande salva de palmas. Obriga a repensar a forma como os filmes de acção têm sido levados demasiado a sério pela indústria mainstream. O elenco é-me totalmente desconhecido, repleto de nomes como Iko Uwais, Joe Taslim, Donny Alamsyah, Yayan Ruhian, mas isso não faz diferença nenhuma. Proporcionaram-me as melhores cenas de luta que alguma vez vi em cinema. ●●●○○
Eis alguns exemplos de "filmes medianos" que, se estiver bem disposto, até gosto. Pelo contrário, se estiver num daqueles dias em que o mundo parece que se une para nos atirar ao tapete...
"Filmes medianos" são filmes relativamente bem feitos, bem escritos, com actores que se desenrascam bem, mas que no geral, - lá está - como tudo na vida, não têm o que é preciso para chegar ao topo. É um filme que não aborrece mas que também não fica para o história. Reveem-se bem passados uns anos.
Nesta segunda incursão, três filmes dentro da temática "porrada velha" que representam bem o que são filmes medianos.
Gosto muito do tipo de realização do Walter Hill e também gosto do Arnold Schwarzenegger e especialmente do James Belushi. Deve ter sido por causa disso que já vi Red Heat para aí uma meia dúzia de vezes. Como em todos os filmes de Hill, o casting é muito bom e por isso ainda há Ed O'Ross, Laurence Fishburne (quando ainda se chamava Larry Fishburne) e a Gina "Bound" Gershon.
Arnold faz de um polícia russo que vai para Chicago atrás dum traficante de droga. As diferenças abismais e as piadas entre ele e o típico americano Belushi até fazem esquecer que este é um filme vulgar de porrada. ●●○○○
Mais recentemente encontrei um filme de porrada muito jeitoso, chamado In Bruges, do totalmente - pelo menos para mim - desconhecido Martin McDonagh. Já o elenco não é nada desconhecido: Colin Farrell, Brendan Gleeson e Ralph Fiennes dão vida a uns mafiosos que se encontram em Bruges. Sim, Bruges, aquela famosíssima cidade belga que ninguém sabe muito bem onde fica. Depois de um golpe falhado em que um inocente morre, Farrell e Gleeson vão "relaxar" (e esconder-se) uns tempos para a Bélgica (!?). Onde, obviamente, tudo começa a correr mal, quando Farrell se envolve com uma actriz e o seu amigo anão. Mesmo com esta história maluca, surpreendentemente, In Bruges é um bom filme, com bons momentos de comédia e grandes momentos de acção e pancadaria. ●●●○○
Por último, uma raridade que merece ser vista, The Raid: Redemption. Vi por mera curiosidade e ia ficando "sem cabeça". Tudo neste filme é um enorme surpresa. O filme é indonésio mas o realizador é um... galês, chamado Gareth Evans! Vendo o filme ninguém diria. É simplesmente espectacular. Tem as melhores cenas de pancadaria que alguma vez vi. Acho que mais real que isto é impossível. Aliás, passei grande parte do filme a tentar perceber se aquilo era encenado ou se o pessoal do filme andava mesmo à pancada. Mas ninguém me tira a ideia que alguns daqueles duplos foram mesmo parar ao hospital com lesões graves. Não consigo entender como é que se filmam coisas assim. É a magia do cinema. Mas o filme não vale só pela porrada. Vale pela simplicidade de processos. É como diz o trailer: um "Ruthless Crime Lord, 20 Elite Cops, 30 Floors of Chaos". É a prova que Hollywood tem vindo a exagerar e que não é preciso gastar biliões de dólares para fazer um simples filme de acção e porrada, embrulhados em guiões hipercomplicados e cheios de clichés. Apenas com 1 milhão de dólares, Gareth Evans, consegui meter no bolso a grande maioria dos filmes de porrada americanos. Só por isso, merece uma grande salva de palmas. Obriga a repensar a forma como os filmes de acção têm sido levados demasiado a sério pela indústria mainstream. O elenco é-me totalmente desconhecido, repleto de nomes como Iko Uwais, Joe Taslim, Donny Alamsyah, Yayan Ruhian, mas isso não faz diferença nenhuma. Proporcionaram-me as melhores cenas de luta que alguma vez vi em cinema. ●●●○○

