James Ivory decidiu embrenhar pelo mundo dos artistas e não se deu nada bem. Surviving Picasso retrata um período da vida de Picasso em que ele se apaixona por Françoise Gilot, uma jovem pintora que acabou por ser a única mulher forte e capaz o suficiente para "sobreviver" ao portento criativo de Pablo Picasso. Não só lhe sobreviveu como também foi a única capaz de o deixar e continuar com a sua vida...
Nos principais papéis há Anthony Hopkins como Pablo Picasso, Natascha McElhone como Françoise Gilot e depois há também em papéis mais secundários, nomes como Julianne Moore, Joss Ackland e um novíssimo e quase irreconhecível Dominic West como Paulo Picasso.
Surviving Picasso é muito fraquinho. Logo à partida há uma enorme falha que é a ausência das obras de Picasso. Acho incompreensível fazer o que quer que seja minimamente relacionado com Picasso e não mostrar um único quadro do mestre... No entanto, há uma razão para isso. Não existia uma autorização expressa para se poder mostrar as obras de Picasso. A família opôs-se ao filme e não autorizou que se usassem reproduções das obras. Só isto retira muita estética ao filme, já para não dizer que se perde imenso valor estético e uma parte substancial da história. Até porque existe uma relação quase simbiótica entre as mulheres e os períodos estéticos de Picasso...
Mas para além disso, o filme é relativamente inócuo. A fotografia é fraca, não tem nenhum pormenor relevante na realização, a banda sonora é quase inexistente... Não quero estar aqui a bater mais no ceguinho...
Não fosse as boas interpretações dos actores principais e este Surviving Picasso teria sido uma desgraça total. Parece um daqueles biopics feitos para televisão. Não gostei nada. Se a intenção era mostrar um pouco mais Gilot para além de Picasso fizeram-lhe um muito mau serviço. O filme serve acima de tudo para mostrar como Picasso tudo dominava e ninguém saia incólume da relação... que é exactamente o oposto daquilo a que se propunha. Apesar da premissa, o retrato de Françoise Gilot figura mais como acompanhante de Picasso do que peça principal... é um falhanço total para James Ivory. Acontece aos melhores... 


Durante muitos anos ouvi e li sobre este The Omen. Era suposto ser um filme terrorífico... mas não é. Este é um dos problemas de ver os filmes fora de tempo. Em 1976 imagino que deve ter gerado um escândalo do tamanho do mundo. Mas agora, no contexto actual, admito que perdeu um pouco de "poder de fogo"...
The Omen conta uma história bizarra. O embaixador americano em Roma (Gregory Peck) e a esposa (Lee Remick) têm uma vida do melhor que a vida tem para oferecer. Mas falta-lhes algo muito importante: um filho. Há muito tempo que pensam ter filhos, mas parece que nunca se vai tornar realidade, por motivos vários. Mas um dia lá acaba por acontecer e a Katharine vai finalmente ter o tão desejado filho. No entanto, a criança morre à nascença no hospital e Robert em desespero decide seguir a sugestão de um padre e adoptar uma criança nascida exactamente no mesmo momento, mas cuja mãe morreu em trabalho de parto. Mas para complicar todo este assunto, Robert omite essa importante parte à esposa...
Depois de se mudarem para Londres, estranhos acontecimentos começam a persegui-los. Para piorar ainda mais a situação, Robert começa a ser perseguido por um padre que sabe da situação da troca dos bebés e lhe confidencia que o seu filho, é nada mais nada menos que o próprio Anticristo...
Richard Donner realizou um dos grandes filmes de terror de sempre. E é tudo por causa da história que é mesmo totalmente bizarra. Será que a criança é mesmo o Anticristo? Será que o embaixador estará apenas a alucinar? A paranóia e dúvida são constantes até determinado ponto do filme. É um retrato realista de uma família em crise e à beira de um ataque de nervos. A atmosfera muda completamente quando se percebe que toda aquela história estranha é mesmo verdade e aí o filme torna-se numa perseguição até à morte. The Omen tem uma constante aura carregada e vai-se tornando cada vez mais alucinante até culminar naquele momento icónico de termos o pai, num altar a sacrificar o filho possuído... Será que ele consegue ter força mental suficiente para matar mesmo o miúdo?...
Talvez o melhor do filme esteja mesmo na parte final e naquele sorriso verdadeiramente maléfico de Damien. Mas curiosamente, na versão original do argumento a história termina de forma diferente. Foi a MPAA (Motion Picture Association of America, que durante muito tempo foi a responsável pelos ratings etários dos filmes e por tabela "mandava" nos filmes) que decidiu que o final original era demasiado chocante... e que deveria acabar como aparece na versão final. Não deixa de ser irónico pensar que se o bem vence é chocante, mas é totalmente aceitável que o mal triunfe... Estranho, não é? ●●●○

P.S. Sempre que se fala neste tipo de filmes de terror, mais espiritual, parece que têm sempre uma maldição associada para além da sua mitologia sinistra. Acredite quem quiser... Gregory Peck e o argumentista David Seltzer foram atingidos por raios nos seus aviões quando voltavam para filmagens no Reino Unido.... O produtor Harvey Bernhard quase foi atingido por um raio em Roma... Os rottweilers que foram usados no filme atacaram violentamente os seus próprios tratadores... O hotel onde Richard Donner estava hospedado foi bombardeado pelo IRA... e para além disso foi atropelado nas filmagens... Depois das filmagens, Gregory Peck ia para Israel de avião, mas teve de cancelar a viagem. O avião onde deveria ir cai e não houve sobreviventes... No primeiro dia de filmagens, várias pessoas envolvidas na rodagem do filme sobreviveram a um acidente grave de carro. Já na pós-produção do filme, John Richardson dos efeitos especiais, teve também um acidente de carro grave, e a namorada foi decapitada... É a velha questão... Não acredito nas bruxas, mas...
O famoso escritor de livros de crime e mistério, Harlan Thrombey (Christopher Plummer) é encontrado morto na sua casa. Logo após fazer 85 anos, para grande surpresa de todos os familiares, ele suicida-se sem nenhuma razão aparente... Paralela e misteriosamente, o conhecido detective Benoit Blanc (Daniel Craig) é convencido por um desconhecido a resolver este enigma que parece mais um assassinato premeditado do que um suicídio casual. Começando com esta premissa, Blanc vai conhecendo aos poucos a família disfuncional do velhote. E, de repente, todos parecem de alguma forma culpados do suposto crime...
Knives Out é um filmito de detectives escrito e realizado por Rian Johnson - muito ao estilo de Hercule Poirot -, e é totalmente aceitável. Nada de novo, nada de muito surpreendente, mas muito aceitável. O enredo é algo básico e a partir de determinado momento até se torna previsível, mas consegue "agarrar". Os actores são todos muito bons (Chris Evans, Ana de Armas, Jamie Lee Curtis (que classe... uma lady em qualquer filme), Michael Shannon (sempre muitíssimo bem), Don Johnson (regressado ao mundo dos vivos...) e Toni Collette (nunca falha esta mulher...) e isso ajuda bastante. Só não percebi aquele sotaque estranho na personagem de Daniel Craig. Será para o descolar da pele de James Bond? Pois não sei... Knives Out tem o seu quê de inteligência e suspense, misturado com alguns momentos de comédia e por isso vê-se bem e não chateia. É esquecível, mas não chateia nada. ●●

O livro da Agatha Christie, Murder on the Orient Express é vagamente inspirado no famoso caso Lindbergh, que envolveu raptos e mortes. Se a história real já é mais estranha que a ficção, o livro da Agatha Christie sublima ainda mais o enredo. É das melhores e mais bem construídas histórias policiais que conheço. Não admira que já vá para aí na quarta adaptação. Mas tudo começou aqui com este Murder on the Orient Express realizado por Sidney Lumet.
Mas antes de mais nada tenho de afirmar que este livro nunca mais devia ser adaptado para cinema. Quer dizer, "nunca mais" também é um bocado radical. Uma adaptação de dez em dez, ou vinte em vinte anos, apenas para uma nova geração de espectadores que não se dão ao trabalho de ir ver o que está para trás. Esta história em particular não deixa margem de manobra para nada. O final é tão epicamente surpreendente que é impossível de ser mudado. E um realizador que pegue novamente na história vai estar sempre preso a ele. Se não muda o filme, vai de encontro a todas as outras adaptações já feitas, mas se muda alguma coisa, irá estar a desvirtuar a história, e ainda por cima não estou a ver em que é que possa ser melhorada. É a velha questão de ser preso por ter cão e ser preso por não ter...
Esta adaptação de Sidney Lumet, surpreendentemente (vindo de quem vem) nem é grande espiga, apesar de estar tudo muito bem feito. Na altura da estreia foi um sucesso precisamente por ter sido a primeira adaptação, mas tirando isso, não é um filme muito satisfatório. O look anos 70 também não ajuda. A história da Agatha Christie é espectacular, mas o twist final só funciona uma vez. E de cada vez que vejo um nova versão acabo por me entediar... É basicamente o que dizia no início... É a verdadeira faca de dois gumes. Estranhamente isto também se aplica neste filme, porque entretanto já vi todos os outros filmes antes deste. Para uma pessoa que veja o filme agora, pela primeira vez, ele acaba por funcionar como mais uma versão da história.
Ainda por cima esta primeira tentativa cinematográfica não tem uma estética forte e aquelas carruagens e cenários exíguos também não davam muita margem de manobra para uma grande realização. Quer dizer, Lumet realizou um dos grandes thrilllers do cinema apenas numa sala... Bem, mesmo os grandes realizadores têm os seus maus momentos... O grande apelo do filme acaba por residir nos actores. E nesse aspecto é um festim de lendas do cinema...
Albert Finney, Lauren Bacall, Ingrid Bergman, Jacqueline Bisset, Jean-Pierre Cassel (pai do Vincent Cassel), Sean Connery, John Gielgud, Anthony Perkins, Vanessa Redgrave, Michael York... e a lista continua... Tudo muito bem, com um pequeno reparo... Albert Finney como Hercule Poirot... não!. Reconheço o esforço na criação da persona, mas não. Aquele não é o Poirot que existe na mentalidade colectiva. Tem a sua piada de vez em quando, mas acho que está desfasado da "realidade". Não "é" o Poirot... é um actor a esforçar-se ao máximo para tentar ser o mais parecido possível com "o" Poirot, que como toda a gente sabe foi encarnado no eterno David Suchet.
Esta primeira versão de Murder on the Orient Express não está má, mas podia ter sido muito melhor. Digamos que foi uma boa primeira tentativa... ●●●○


PS: Sem querer estregar o filme, fica apenas a informação que dos mais de 70 livros que Agatha Christie escreveu, este é o único em que no final o verdadeiro assassino não é levado à justiça... Mas só vendo para se perceber como a justiça acaba por realmente ser bem empregue... A última vez que Agatha Christie apareceu ao público foi para ver este filme na estreia... Curioso, não é?...


Um satélite cai numa zona remota dos Estados Unidos, perto de uma pequena povoação. Quase imediatamente, toda a população do local morre. Há apenas dois sobreviventes, o bêbado da zona e um bebe recém-nascido. Porque é que apenas estes dois não foram afectados? O que é que podem ter em comum que os torna imunes? É um mistério... O satélite com a misteriosa doença é levado para umas instalações secretas de máxima segurança onde será minuciosamente analisado por um grupo de cientistas de topo que tentarão perceber o que causa a morte a quem entra em contacto com o satélite. Como se não fosse já stressante o suficiente estar metido debaixo de terra com uma arma biológica que ninguém entende como mata, ainda por cima, as próprias instalações acrescentam um nível extra de stress. As instalações têm um sistema de segurança extremo: se houver uma fuga de material biológico, as instalações entram automaticamente em auto-destruição nuclear e há apenas uma pessoa com capacidade de anular a destruição... e tem apenas 5 minutos para o fazer.
The Andromeda Strain não é fantástico mas roça o muito bom. Os cenários futuristas... muito bons. Aqueles split screens da acção com fotos dos acontecimentos... mítico. Mas principalmente destaco a base cientifica (e especulativa) que é muito boa. É um filme que se nota que teve muito cuidado na preparação e na concepção. A demonstração científica de como se faz toda a descontaminação e o estudo de um acontecimento hipotético deste género é muito bom. O facto de tentar induzir um grau de realismo, quase documental a todo o filme, é excepcional. Para isso também ajuda um casting de actores com muito pouca projecção internacional e que vinham essencialmente das produções de TV da altura (Arthur Hill, David Wayne, James Olson e Kate Reid), que transmitem a sensação de estarmos mesmo a ver cientistas a trabalhar, ao invés de estar a ver o "grande nome" de Hollywood a fazer exemplarmente de "cientista". Muito inteligente esta aproximação.
Não se pode esconder que este The Andromeda Strain está muito datado no tempo, mas isso não lhe retira nenhum mérito. Grita por um remake que até já recebeu o apelo dos produtores Ridley e Tony Scott, que adaptaram o romance de Michael Crichton para um mini série de dois episódios em 2008. A nova história é pouco difere desta, o que prova que o original já tinha todos os condimentos modernos de um muito bom techo-thriller.
Robert Wise é um mestre à frente do seu tempo. Há por aqui coisas que são ficção científica mas com o passar do tempo se tornaram em facto científico. E o cerne de toda a questão - uma nova forma de vida biológica proveniente do espaço, tipo vírus - continua a não ser desenvolvida em nenhum meio actual, o que demonstra que o pessoal antigo tinha muito mais imaginação e tomates para pegarem em temas deste género, comparativamente ao pessoal de agora, que tem todos os meios possíveis e imaginários para fazer coisas deste género... The Andromeda Strain é um clássico da ficção científica altamente recomendado, principalmente nesta altura estranha do mundo envolto em pandemia... ●●●○

Rodin foca-se na vida do famoso escultor num específico espaço de tempo e eventos. O momento é o da criação da famosa estátua de Balzac, na altura muito mal recebida, mas que agora é reconhecida como uma das obras mais importantes da escultura moderna. O evento é o romance tórrido e conturbado com Camille Claudel e a posterior separação entre ambos. Em pano de fundo surge também, uma obra escultórica que teve influência directa dos dois artistas, A Porta do Inferno, baseada na obra de Dante.
A premissa e o núcleo central do enredo são muito bons, os intervenientes têm muita coisa para dizer e mostrar, mas no geral, o filme acaba por ser uma decepção. Por muito que goste de Rodin - e é sem dúvida um dos meus artistas favoritos - é preciso compreender que a maior parte do público não conhece a personagem. Quem tiver pouco conhecimento da vida e da obra do mestre escultor nunca vai perceber o filme e vai literalmente estar a olhar para uma tela "vazia" a tentar perceber o que é que se passa. Neste caso, uma escultura em fase de criação... Bastava uma pequena introdução para dar um melhor contexto ao filme. Auguste Rodin, apesar de ser unanimemente considerado o percursor da escultura moderna, era na realidade um homem "comum". Tentou por três vezes ingressar na Faculdade de Belas Artes e por três vezes foi recusado, o que exemplifica bem o quanto o ensino artístico tem para oferecer e reconhecer em termos de conhecimento estético... Mas isso é outra história... Rodin era efectivamente um autodidacta. Não aprendeu com ninguém. "Ensinou-se", no seu próprio estilo. Acho que meia dúzia de linhas no início do filme a explicar quem é o protagonista, permitiriam entrar melhor no mundo de Rodin e Claudel. Sem esta introdução, uma pessoa fica algo perdida na história, como se entrasse a meio do filme sem perceber nada do que aconteceu antes...
Mas esse nem é o principal problema deste Rodin. O problema está em tudo o resto. A realização de Jacques Doillon é fraca, dura e seca como um pedaço de pedra antes de ser trabalhado por um escultor. Percebo a lógica (se é que ela existe), mas não gosto do tom demasiado cru e austero. É um filme que parece uma adoração a uma fotografia antiga e acinzentada de uma estátua. Há uma música deslavada no início e outra no fim, perto dos créditos. Pelo meio, sempre os mesmos planos fixos envoltos em silêncio. As obras dos dois artistas que deveriam na realidade ser a grande mais valia, pouco ou quase nada são intervenientes... Não gostei nada disto. Rodin é um dos meus artistas favoritos e por isso acho que este filme fez-lhe pouca ou nenhuma justiça... Vale a interpretação de Vincent Lindon e Izïa Higelin e pouco mais. Não há tensão, não há carga emocional... Tudo é uma estátua de pedra sólida neste filme. Estaria de acordo com esta aproximação, não fosse o tema central deste tal "momento" o romance  de Rodin Claudel... É um contrasenso... Tudo junto, parece um daqueles telefilmes ou documentários que recriam a vida de uma pessoa famosa...  Uma decepção enorme. 

Um jovem vai entregar um carro de um stand ao dono e para isso vai ter de conduzir longas horas de um estado americano para outro. Entediado com a longa viagem solitária, oferece boleia a um desconhecido numa noite de chuva intensa. A viagem é longa e feita pelo meio do deserto onde abundam estradas intermináveis. Os problemas começam de imediato quando ele descobre que o homem da boleia é na realidade um assassino em série que tem cometido crimes horríveis por aquela estrada fora. Para além de o perseguir, o assassino acaba também por incriminá-lo de vários crimes, levando-o a ser confrontado e perseguido pela polícia... A sua única ajuda é uma simples empregada de restaurante...
Um gato persegue as suas presas e brinca com elas até as matar. O prazer do gato nunca está na perseguição... está no doce sabor do medo. É assim que eu vejo este The Hitcher. Um perseguição infindável, cheia de cantos obscuros, reviravoltas e volte faces inesperados, em que o actor principal é manipulado pelo vilão e não parece ter saída possível do pesadelo em que caiu...
The Hitcher está muito bem feito e muito bem realizado por Robert Harmon. Tem uma grande fotografia cheia de planos enormes do deserto com aquelas excelente cores de fundo. As poucas, mas fantasticamente bem filmadas e intensas cenas de acção, estão muito bem equilibradas com as cenas calmas de suspense... um gajo nunca sabe quando o assassino vai aparecer para infernizar a vida do jovem condutor...
Grande performance dos dois actores principais (C. Thomas Howell encarna muito bem a personagem que entre numa espiral descendente), mas facilmente se destaca o Rutger Hauer que aqui está quase no nível mítico do Blade Runner. As nuances, as expressões... Sem dizer uma única palavra, Hauer consegue transmitir perigo e loucura em cada imagem. Um dos filmes pelo qual será sempre recordado. Aqui criou-se um dos grandes vilões do cinema. Uma palavrinha para Jennifer Jason Leigh numa das primeiras aparições em cinema e que só acrescenta qualidade ao casting.
Na altura que o vi, há muitos anos atrás, The Hitcher era teoricamente um "típico" filme de videoclube dos anos 80 (estava no lote daqueles filmes a granel de que nunca tinha ouvido falar e não esperava que fossem sequer bons), mas que se revelaria como uma enorme surpresa. Um gajo aluga um filmito e espera umas cenas básicas de acção e terror e acabar por lhe sair um dos grandes thrillers do cinema... Recomendado. ●●●

Se há filmes que me marcaram profundamente, este é certamente um deles. Umas semanas antes de ver o filme, estava eu a ler o livro "Wild at Heart - The Story of Sailor and Lula" do Barry Gifford. Depois do filme, cheguei à estranha conclusão de não perceber quem adaptou o quê: se o filme adaptou o livro, se o livro adaptou o filme. É que o livro varreu-se da mente. Já o filme ainda aqui está... É estranho, eu sei. Mas o David Lynch não é propriamente um gajo normal. Mexe com o cérebro de uma pessoa.
Em Wild at Heart, Lula e Sailor estão louca e perdidamente apaixonados. Parecem certos um para o outro mas há um entrave pelo meio: Marietta Fortune, a mãe psicótica de Lula que enlouquece um pouco mais sempre que imagina os dois juntos. Ela tem um breve momento de sossego quando Sailor, num acto tresloucado, à frente de toda a gente, esmaga a cabeça de um assassino contratado para o matar. (Que abertura de filme!...) Assim que sai da prisão, Sailor volta para os braços de Lula e acabam por fugir para a Califórnia... mas Marietta contrata um novo assassino para os perseguir. Indiferentes a tudo isto, os dois amantes seguem estrada fora... até que passam por acidente de automóvel e assistem à morte duma jovem. Aí percebem que algo vai correr muito mal com eles.
A viagem de Sailor e Lula é povoada pela criaturas e personagens mais maradas e estranhas que se possam imaginar. Saído da mente perturbada e negra de David Lynch é exactamente isso que se espera. Aquela belíssima negritude... Aquela "estranheza" estranhamente atraente... O seja, o mundo de David Lynch... Bobby Peru, por exemplo, é uma das personagens mais nojentas, odiosas e maradas que me lembro de ver num filme. É tão asqueroso e tão estranho que nunca mais me saiu da cabeça... Mas é por isso mesmo que se vê um filme do Lynch, não é verdade? Há por ali coisas que não se vê em mais lado nenhum.
Nicolas Cage é Sailor Ripley e Laura Dern é Lula, e juntos fazem um dos casais do cinema mais "fora" que me lembro. Acho que se pode dizer claramente que Cage tem aqui o seu melhor papel e melhor interpretação de toda a carreira... Como as personagens são todas muito boas, os actores têm muita margem de manobra para brilhar. Willem Dafoe como Bobby Peru é inesquecível. Mas há muito mais: J.E. Freeman, Isabella Rossellini, Harry Dean Stanton, Pruitt Taylor Vince, David Patrick Kelly, Jack Nance (o actor fetiche de Lynch) e as jovens Sheryl Lee e Sherilyn Fenn que se tornariam estrelas mundialmente conhecidas graças a... Twin Peaks. Nicolas Cage e Laura Dern são obviamente as figuras centrais da história, mas a Marietta Fortune interpretada pela excepcional Diane Ladd está no mesmo nível de loucura e intensidade dramática. Ainda por cima se pensarmos que Diane Ladd é na realidade a mãe de... Laura Dern. Tudo aqui são coisas estranhas...
Wild at Heart ainda é para mim o melhor filme de Lynch. O mais estranho, o mais violento e o mais fantástico e simbólico de todos. É aquele universo negro trágico e de alguma forma, cómico ao mesmo tempo. Tudo é simbólico, tudo é relativo e tudo pode significar outra coisa qualquer. Wild at Heart não é um filme fácil de ver. É graficamente violento e sexualmente explícito. Tem um banda sonora absolutamente espectacular, mas da pesada que não será de certeza do agrado da maior parte do público. É uma mistura psicotrópica entre a Alice no País das Maravilhas e o Feiticeiro de Oz. Wild at Heart é todas estas histórias estranhas para crianças como se elas fossem originalmente feitas para adultos.
Este foi o primeiro 'Lynch' que vi na minha vida e marcou-me para sempre e ainda por cima numa verdadeira sala de cinema, o que ainda magnificou mais o efeito. Aquelas músicas... As imagens... As chamas num fundo negro... O sangue... Desde esse momento - que se pode considerar como traumático -, nunca mais vi o filme. Mas na realidade, o "corte" mental foi tão profundo que ele nunca mais de cá saiu. Wild at Heart é mais que um filme. É uma experiência cinematográfica que dificilmente se esquece. Para mim, é uma referência. Um dos meus filmes preferidos de todos os tempos. ●●●●● + ●

Quando se trata de filmes épicos há um que me preenche logo o cérebro: The Ten Commandments. Uma temática religiosa, a gigantesca histórica da vida de Moisés e até os 220 minutos de filme, acho que são os principais atributos para classificar uma verdadeira obra prima épica. 14.000 extras. 15.000 animais. Só a quantidade e o tamanho impressionam. E também torna muito difícil falar sobre o filme. A extensão, a complexidade, as implicações religiosas e a horda de técnicos e actores... É tanta coisa que o filme já tem a sua própria mitologia associada. É material que daria para encher vários livros... E depois ainda há a questão da transversalidade do público... Devido às constantes reposições, acho que dos 7 aos 700 anos, toda a gente já viu pelo menos uma vez o The Ten Commandments.
Toda a história se centra na mítica figura de Moisés e da libertação do povo judeu que se encontra escravizado pelos poderosos egípcios. A história é longa e complexa demais para ser aqui resumida, até porque tem muitas reviravoltas, mas vou tentar.... Após ter sido apanhado nas margens do Nilo, Moisés é adoptado pela irmã do Faraó e torna-se um dos príncipes do Egipto. No entanto, a história dá uma volta de 180 graus quando se descobre que as suas origens são judias e é expulso pelo novo Faraó, sendo encaminhado para uma morte certa no deserto... No caminho, Moisés encontra Deus que o incumbe de voltar ao Egipto para libertar os judeus da longa e penosa escravatura a que estiveram sujeitos...
A história é bíblica e como tal é naturalmente épica. E longa. Com uma história deste calibre na base, The Ten Commandments só poderia ocupar o panteão dos grandes filmes do cinema. Tudo aqui tem proporções enormes. Do tamanho gigante dos cenários ao número e qualidade dos actores. Charlton Heston, Yul Brynner, Anne Baxter, Edward G. Robinson, Yvonne De Carlo, Debra Paget, John Derek, Cedric Hardwicke, Nina Foch... a lista é interminável, tal é a quantidade de personagens que povoam esta história. Até Vincent Price e John Carradine aparecem por aqui. Mas entre todos há dois nomes que brilham com mais intensidade: Charlton Heston e Yul Brynner. Não consigo separar um do outro e a culpa será sempre deste filme. Sou um fã incondicional destes dois monstros do cinema. São duas lendas eternas. Juntamente com eles, há que destacar outra figura mítica: o produtor e realizador Cecil B. DeMille que festejou os seus 75 anos durante a filmagem, tornando-se na altura, o mais velho realizador em actividade. Este seria também o seu último filme, mas deixaria para trás uma carreira de 80 filmes (WTF?!) que ainda me esforço por arranjar e conseguir ver. Isto quer dizer que DeMille conseguiu fazer algo que mais nenhum realizador conseguiu: ter no seu último filme a sua maior e mais cara produção e ao mesmo tempo o maior sucesso de bilheteira da carreira. É obra. Não só o filme é mítico e os actores lendários como também o realizador é de outro calibre que não se encontra hoje em dia. Cecil B. DeMille sofreu um enfarte durante a produção. Foi ao hospital para ser tratado e voltou dois dias depois para completar o filme. Mítico é a única coisa que se pode dizer.
Como toda a gente já viu o The Ten Commandments (provavelmente mais que uma vez), acho que não vale muito a pena falar sobre o filme. Há muitos outros pormenores para além disso. Como por exemplo a voz omnipresente de Deus que não está creditada a nenhum actor. Apesar dos muitos efeitos que tornam a identificação quase impossível, ao longo dos anos tem-se especulado que o realizador ou o Charlton Heston tenham sido os donos da voz. Também se pode referir que na realidade, The Ten Commandments é um remake... do filme original de 1923 realizado por... Cecil B. DeMille.
Um outro pormenor que sempre adorei é a introdução que o próprio DeMille faz do filme, saindo de trás das cortinas para apresentar a história e questionar as pessoas: "O tema deste filme é se os homens devem ser governados pela lei de Deus ou pelos caprichos de ditadores como Ramsés. Serão os homens propriedade do estado ou serão almas livres perante Deus? Esta mesma dúvida e batalha continua ainda hoje em dia por todo o mundo. A nossa intenção não foi a de criar uma história, mas sim de ser dignos desta história divinamente inspirada, e que foi criada há três mil anos atrás. Esta história demorará três horas e trinta e nove minutos para se desenrolar. Haverá um intervalo. Obrigado pela vossa atenção." Uma apresentação deste género é verdadeiramente... épica.
Apesar de ser uma obra cinematograficamente intocável, não é absolutamente perfeito. Se os efeitos especiais (que são uma parte importante de todo o enredo) eram absolutamente bombásticos na altura e deixavam toda a gente de boca aberta, hoje deixam um sorriso melancólico quando vistos com olhos actuais. Nestes aspectos mais técnicos, obviamente ficou datado, mas até isso acaba por funcionar bem, porque lhe confere uma certa "antiguidade". Se os efeitos fossem muito mais "modernos" acho que até seria mais prejudicial. O problema não foram os efeitos, mas pequenas coisas espalhadas pelo filme. Não consigo deixar de mencionar que, por exemplo, no final, aquele envelhecimento muito mal concebido e aquelas barbas ostensivamente falsas e postiças do Moisés. São coisinhas minúsculas deste género, que não acho que mereçam ser muito pormenorizadas, mas que obviamente marcam-me. Até me sinto mal por estar a apontar isto a uma obra da dimensão de The Ten Commandments, mas a verdade é que alguns pequenos pormenores afectam negativamente a perfeição total do filme... Mas lá está, isto é estar a ver as coisas ao microscópio e ir ao mais ínfimo pormenor. Quando isto acontece é porque tudo o resto é mesmo muito bom e muito bem feito. Epicamente bem feito. The Ten Commandments é verdadeiramente a personificação do filme épico e garantiu consensualmente um lugar na história do cinema. É parte essencial do meu imaginário cinematográfico. Completamente obrigatório. ●●●●●

 
Copyright © 2015 todos os filmes que vi
Distributed By Gooyaabi Templates