Num futuro próximo, o Reino Unido entra numa espécie de Guerra Fria com a China. Para tentar resolver o conflito, é desenvolvido um projecto de inteligência artifical radical: criar uma máquina que simule perfeitamente um ser humano. Nasce a Máquina. No cerne da investigação está um génio de AI que pretende usar o poder da máquina para curar a doença da filha. Pelo meio, percebe-se que a máquina saiu tão perfeita que pensa que é humana e isso vai fazer soar as campainhas de alarme do governo que obviamente vai tentar destruí-la. Resta a grande questão: afinal, o que é ser humano?
Toda esta história soa familiar? Pois soa. É mais um entre dezenas de filmes em que máquinas "pensam" que são humanos e os humanos com medo, querem destruí-las. Para mim, a grande questão é: quantos mais filmes com a mesma história é possível fazer?
Este filme só tem duas coisas positivas: um bom realizador, Caradog W. James, que consegue dar um bom ritmo a um filme de minúsculo orçamento com uma realização muito linear; e um bom actor, Toby Stephens, o único do elenco que "suporta" verdadeiramente o filme. É muito pouco. Pouco mais há a dizer sobre The Machine: a história já toda a gente a conhece e acaba tudo mais ou menos bem... como as restantes histórias do género. O trailer parece bom, mas é um engano. O filme é muito fraco. ●○○○○

Há filmes que são tão maus que de alguma forma se tornam bons. É o caso de Armageddon (1998). Um asteróide vai explodir com a Terra dentro de pouco tempo e nada vai sobreviver. Esperamos pelo destino final? Não. A NASA tem um plano. Decide recrutar uma série de loucos perfuradores de petróleo para irem até ao asteróide, furá-lo, meter-lhe uma bomba nuclear e rebentar com o dito cujo. Sendo um filme do Michael Bay, toda a gente sabe o que o espera: cores estremamente carregadas a puxar para o teledisco, muitas cenas em câmara lenta e rotações a 360º, explosões a cada 30 segundos, muitas bandeiras americanas ao vento, heroísmo a rodos e um final feliz em que alguém se sacrifica pelo grupo. Nesse aspecto, o filme não desilude. Está lá tudo.
Estranhamente, é para aí a quinta vez que vejo o filme, mesmo achando que não presta para nada. É a vantagem deste tipo de filmes: esquecem-se rapidamente. Quando o comecei a rever até pensei que nunca o tinha visto pois era tudo novidade. E como há "n" de outros filmes-catástrofe com um iminente fim do mundo, uma pessoa fica sempre na dúvida.
Nem tudo é negativo neste filme. Quer se queira, quer não, Michael Bay conseguiu cunhar um estilo muito próprio de cinema. Um pouco "azeiteiro", mas um estilo próprio. E isso é positivo. Depois é uma autêntica parada de estrelas: Bruce Willis, Billy Bob Thornton, Ben Affleck e Steve Buscemi, só para mencionar alguns dos bons actores. Como é uma enorme produção (suportada pelo Jerry Bruckheimer), os efeitos especiais são do melhor que há e o ritmo frenético do filme deixa-me sempre colado ao sofá.
Tudo é exagerado neste filme: as explosões, as cenas de acção, os twists no argumento, os sons do asteróide, as contagens decrescentes, as personagens sempre aos gritos, os estereótipos vincados, a quantidade de piadas metidas à força e até a duração do filme. É tudo um enorme exagero. O que de mais positivo tem este filme é isto: mesmo sendo tão mau e vazio, se estiver a dar num canal qualquer, eu não resisto e volto a vê-lo. Não percebo esta minha reacção. Alguma coisa deve ter de bom. Só por isso se torna num filme com sinal positivo. ●●●○○

Diz-se que o Futuro não existe. O Futuro é aquilo que se vai construindo, vivendo o presente. Assim sendo, e não entrando nos complexos e estranhos campos da futurologia e das viagens no tempo, é possível ir recolhendo algumas indicações actuais, sempre alicerçadas em acontecimentos passados, para tentar prever o que se irá passar a seguir ou qual o caminho que se está a desenrolar. Se calhar até é este tipo de acção que faz com que o futuro se vá concretizando a partir do presente. Quem sabe? Ao longo dos tempos, muitos o têm feito em muitos campos. No campo das artes, esta acção ganha especial relevância no cinema. A grande vantagem do cinema em relação às restantes artes, é que permite ter uma visão quase-real do futuro. Literalmente, é possível ver e ouvir um futuro, uma hipotética realidade, ou seja, uma utopia. Ainda ninguém respondeu conclusivamente - nem responderá, digo eu - à  derradeira pergunta: é a vida que imita a arte ou a arte que imita a vida?, mas seja qual for a resposta, ela será sempre preocupante. E por uma razão simples. Nas visões hipotéticas do cinema, o Futuro é sempre negro.
Mesmo as (raras) utopias mais idílicas têm uma tendência natural para a distopia. Não é por nada que a utopia é considerada como um não-lugar, ou um lugar onde apenas se almeja chegar sem nunca lá chegar efectivamente. O Cinema apresenta o Futuro como invariavelmente decadente, perverso, destruído, desumano e sempre mais perto da imagem típica do Inferno do que do Paraíso. Independentemente de ser um Futuro tecnologicamente avançado ou em retrocesso, o Futuro é sempre negativo, com os homens obsessivamente a tentarem subjugar tudo ao seu domínio, mantendo tudo sobre um apertado controlo, incluindo como é óbvio, outros homens. No Cinema recente, as referências originais são cada vez menores. A necessidade de receita de bilheteira - não convém esquecer que o cinema é uma indústria, dinheiro, acções, investimentos, empréstimos, etc... - tornou o estilo apenas numa enorme montra de efeitos digitais e segue o rumo de quanto mais fogo-de-artifício melhor, porque se o pessoal paga para ver, é porque quer ver espectáculo desenfreado, perseguições espectaculares e explosões enormes. Se calhar por isso, a produção recente passa mais pelo remake do que outra coisa, aproveitando as boas histórias antigas e apresentando maiores e melhores efeitos especiais. Também não será de descartar o facto de até há pouco tempo se viver num "tempo de prosperidade" e por isso mesmo, o público estar mais inclinado para as comédias românticas do que em versões utópicas (ou distópicas?) do mundo.
Talvez por falta de referências recentes e pela aproximação muito virada para o espalhafato visual, o tema da Ficção Científica/Futuro/Distopia é necessariamente um género menor, e com tendência para se ir degradando cada vez mais. No entanto, existem inúmeros exemplos "antigos", só que estão escondidos pelo tempo, esmagados pela avalanche produtiva da indústria do cinema actual e, de certa forma, diminuídos por efeitos visuais/especiais já muito ultrapassados. É a chamada ironia do destino!
De certa forma, a imaginação do "cinema das utopias" é uma excelente ferramenta para visualizar o que poderá acontecer no futuro, ainda que tudo não seja mais que uma mera hipótese saída dum guião escrito para o ecrã. Quanto mais não fosse, muitas destas utopias são excelentes filmes e alguns verdadeiras obras de arte em movimento.
Mas independentemente da qualidade do filme ou da utopia apresentada ser ou não verosímel ou compatível com a realidade do momento, a grande questão é: será possível que alguma das utopias/distopias do cinema possam vir a concretizar-se?
Respondendo à questão anterior: Aparentemente sim. Brazil (1985) é talvez o melhor filme para ilustrar como a ficção pode imaginar correctamente uma realidade futura. Pensando bem, vivemos agora mesmo, numa realidade que não existia há 20 anos, mas que no entanto foi previsto como um possível culminar do que era a sociedade em 1985... Senão vejamos se as coisas não batem mais ou menos certo: Tudo se passa numa sociedade livre mas estatalmente opressiva, omnipresente e hiper-burocrática, tão sofisticadamente evoluída ao ponto de a própria tecnologia ser incompreensível, quase mágica e que parece sempre obsoleta.
Aqui vive o (anti) herói que tem ironicamente um emprego no Estado por apontamento directo da influente mãe que mal o conhece e que é viciada - tal como todas as "amigas" - em operações plásticas para manter uma impossível juventude, sempre motivada por um cirurgião plástico sem escrúpulos.
Sam Lowry (Jonathan Pryce) é um funcionário público que tenta corrigir um erro na pesada e (quase) infalível máquina tecno-burocrática do Estado, causado ironicamente pela morte de uma simples mosca. Este erro insignificante faz com que um sapateiro, - Mr. Buttler - seja injustamente preso em vez de Mr. Tuttle, um trabalhador freelance que é Engenheiro de Aquecimento e considerado um terrorista perigoso... porque foge à avalanche de impostos do Estado. No seu monótono emprego - em que todos os colegas fingem que trabalham apenas quando o superior aparece - é a grande ajuda do chefe da secção que sendo mais velho, não se entende com o trabalho moderno e com as restantes modernices tecnológicas. Na sua demanda por corrigir o erro, envolve-se com uma terrorista anti-Estado, que é também a mulher dos seus sonhos, onde voa para lá das nuvens e luta com um guerreiro gigante (presume-se, o próprio Estado). Toda esta aventura e romance impossíveis resultam na sua transformação em terrorista por cumplicidade amorosa. O terrorismo é uma peça importante neste filme e está presente em muitas cenas. Enquanto Sam almoça com a mãe num restaurante exclusivo, irrompe uma cena de explosões terroristas, mas o acontecimento é já tão banal que nem perturba a refeição dos clientes. Na cena inicial do filme, uma loja de venda de TV's explode no exacto momento em que passa um anúncio que apela à troca das velhas condutas de aquecimento por umas novas que são rigorosamente iguais às anteriores, seguida de uma declaração de um Ministro sobre o actual combate ao terrorismo. O terrorista que o Estado quer apanhar (Mr. Tuttle) é na verdade mais uma espécie de trabalhador-terrorista que tem de trabalhar às escondidas, fazendo biscates, totalmente dissimulado, para não ser apanhado nas malhas dos impossíveis impostos que não lhe permitem ficar com nenhum do dinheiro que ganha. Mr. Tuttle (Robert De Niro) tem a particularidade de conseguir desaparecer num tornado de papéis...
Totalmente embrenhado no "lado de lá da barricada", perseguido pelo próprio Estado empregador e com a vida em perigo, a única porta de saída possível, é fugir para uma terra verdejante, natural, idílica e utópica de que toda a gente fala, chamada de Brazil; o exacto oposto da complexidade em que vive e das megas construções de cimento que o rodeia no dia-a-dia. Mas essa possível realidade de fuga pode ser bem mais cinzenta do que imagina... Fica a frase que resume o filme: suspicion breeds confidence... Está tudo dito.
Como filme, há que admitir que Brazil é um pouco desequilibrado. Por exemplo, os estranhos sonhos de Sam destacam-se demasiado; parecem que fazem parte de outro filme. Também o tom (demasiado) satírico prejudica a excelente visão objectiva que o filme e o argumento mereceriam. Se calhar, o filme não tem um status maior, precisamente devido a esta clivagem estética e narrativa. Mas a visão crítica à sociedade está bem actual, o que torna o filme extremamente pertinente. Tecnologia que já ultrapassou a compreensão dos utilizadores, a necessidade de fuga do betão ao encontro da natureza, controlo pessoal constante e excessivo por parte do Estado, manutenção social do status quo, burocracia maciça, ausência e/ou superficialidade de relações pessoais, a procura sem limites pela beleza e juventude, a estética levada ao ridículo e até, o que acho de maior relevo, o terrorismo dentro do próprio Estado, quase como uma inevitabilidade da opressão e a insinuação de que a existência do terrorismo é até benéfica para o próprio Estado manter os cidadãos controlados e do seu lado. O realizador, Terry Gilliam - o americano mais inglês de todos - não renega as suas raízes Monty Phyton (quem não se lembra das animações esquisitas com os pés?) e leva as coisas um pouco para a brincadeira e para o nonsense. Talvez por causa disso, o filme tenha sido um flop comercial e talvez por causa disso, ainda hoje permaneça algo esquecido e desvalorizado. Mas também pode ter sido por estar demasiado avançado para o seu tempo. No entanto, e isso é que é importante, as previsões lançadas no já longínquo ano de 1985 têm vindo a concretizar-se nos dias de hoje e algumas delas são até situações vulgares do dia-a-dia, sem que se perceba que há 20 anos atrás eram apenas a imaginação desvairada de um realizador. Este é um filme único e obrigatório para quem gosta de cinema e merece a classificação máxima. Falta-lhe "um bocadinho assim" para ser uma obra-prima. O melhor é mesmo esperar mais uns anos, rever, e tenho quase a certeza que chega lá. ●●●●●

Há milhares de filmes por aí que nunca vi. Alguns são muito bons e passam despercebidos à maior parte das pessoas. Isso acontece porque são de pequenos estúdios sem grande capacidade de distribuição ou porque não têm actores de renome ou porque pura e simplesmente acabam esamagados pela avalanche de novos lançamentos. Para os encontrar, uso a Técnica Intensiva, que consiste em ver muitos filmes, mesmo aqueles que me são totalmente desconhecidos. Por vezes, pelo meio, surgem verdadeiras pérolas, mas na maior parte das vezes, os filmes não valem nada, tal como esperava. São só película editada, com um nome conhecido de Hollywood para dar alguma credibilidade e/ou visibilidade e praticamente mais nada que se aproveite. É o caso desta meia dúzia que se segue.

O primeiro que vi foi Alex Cross. Um policial com Mathew Fox a fazer de mauzão e a tentar descolar-se do papel de bonzinho da série Lost. Tem umas explosões, umas perseguições rápidas e... pouco mais. Supostamente, este filme seria uma extensão dos filmes da "série Alex Cross", anteriormente interpretado por Morgan Freeman, mas sinceramente não consigo ver a ligação. Vê-se e esquece-se. Fraquinho. ●●○○○



A seguir, arrisquei tudo e decidi ver Doomsday. Nunca tinha ouvido falar deste filme, por isso suscitou-me curiosidade. Ainda por cima, a temática era boa e actual: pandemia e isolamento. Quando o comecei a ver fiquei com a estranha sensação que estava a ver bocados de outros filmes. Há cenas que parecem copiadas do Aliens de James Cameron. Os maus da fita parecem saídos do Mad Max. Todo o filme parece uma mistura moderna do Braveheart (tudo se passa na Escócia isolada em quarentena forçada pelo governo inglês), do Mad Max (o estilo dos sobreviventes anárquicos) e do 28 Dias Depois (tudo acontece devido a uma misteriosa doença contagiosa). No mínimo, as semelhanças são estranhas. Do meio do cast semi-desconhecido, saltam à vista o Bob Hoskins e o Malcolm McDowell, que nitidamente estão ali só para dar nomes sonantes ao trailer... aparecem 5 minutos cada um. Não é horrível mas também não é filme para se rever. O trailer é muito melhor que o filme. ●●○○○



Por vezes, atiro-me de cabeça para filmes, só porque conheço o realizador ou um actor. Foi o caso deste Soldier. Gosto muito do Event Horizon (uma pequena pérola que descobri acidentalmente) e desde então fico sempre curioso com os filmes do Paul W. Anderson. E como também gosto do Kurt Russell arrisquei novamente as fichas todas. E perdi. É daqueles filmes que só consegue ser bom por ser tão mau. No futuro, soldados super-preparados para a batalha desde a nascença são mais tarde substituídos por outros mais recentes e capazes, blá, blá, blá, e no fim o soldado obsoleto derrota o adversário mauzão... Mais um para esquecer... ●○○○○



Depois veio Gamer com o Gerard Butler. Nunca vi um filme assim; parece um videoclip gigante. Só tem duas velocidades, frenético e super-slow motion. É garantido uma dor de cabeça gigante no final. A premissa é interessante, misturando a realidade física com a realidade virtual dos videojogos. O resto do filme é que não é nada de novo. Aliás, toda a força motriz do argumento - lutar pela sobrevivência para uma audiência global - já recua aos tempos do The Running Man. Fugir dum cativeiro opressivo para recuperar o filho que está preso pelo mau da fita então deve ser das coisas mais batidas do cinema. A única coisa que se safa neste filme é o Michael C. Hall que tem uma excelente cena musical ao som de "I've Got You Under My Skin". ●●○○○



Legion é mais um daqueles filmes em parece que fizeram o trailer e depois o insuflaram para ter um filme completo de longa duração. Já conheço a técnica e só acedi a ver porque tinha lá o nome do Dennis Quaid e do Charles S. Dutton e porque a temática eram os anjos. Mais outro engano cinéfilo. Não vale o tempo que se perde a vê-lo. Arrisquei e perdi 2 horas da minha vida. É melhor ficar só pelo trailer... ●○○○○



Por fim, Hitman 47. Por norma, os filmes adaptados de grandes sucessos de video jogos são maus. Não sei porque é que isso acontece, mas é verdade. Este não foge à regra. Não quer dizer que o filme seja propriamente mau, mas não deixa de ser mais um filme de acção que não acrescenta absolutamente nada. É isso mesmo; apenas mais um filme de acção. Os actores são bonzitos (tem uma ex-Bond Girl) e o filme até não tem grandes falhas e é equilibrado. Simplesmente é mais um filme que aproveita o argumento vindo dos jogos, acrescenta explosões, perseguições e mais nada. Ainda assim, vê-se bem e consegue ser melhor que a molhada de filmes que me obriguei a ver... ●●○○○

Dos que se podem considerar como filmes distópicos, Mad Max (1979) de George Miller é talvez um dos mais fraquinhos que vi. Por muito que queira puxá-lo para cima, Mad Max não é um grande filme. E então revê-lo tantos anos depois, ainda se torna mais... fraquinho. Mas mesmo com o seu argumento banal, tornou-se uma referência para uma imensidão de filmes que vieram a seguir e foi um sucesso mundial estrondoso. E ainda deu a conhecer um desconhecido australiano - Mel Gibson - que apareceu aqui para dar vida a Max Rockatansky e para se tornar uma estrela mundial. Pessoalmente, este filme tem um sabor especial, pois foi o primeiro filme que aluguei para pôr a rolar nessa maquineta revolucionária dos anos 80 chamada de VHS, informação nada relevante acerca do filme, mas que gostaria de partilhar.
Foi a primeira vez na minha vida que tive controlo sobre os filmes que via. Como tinha pouco ou nenhum dinheiro, só ia ao cinema acompanhado por um familiar, e como é óbvio, ele é que escolhia o filme. Na televisão, a situação era a mesma: quem escolhia o filme era o senhor dono da televisão e eu tinha de me sujeitar. Com a introdução do VHS, tudo mudou: eu é que escolhia o filme que queria ver. E no início dessa mudança, esteve este Mad Max. (É por isso que custa tanto não lhe conseguir dar 6 de classificação...). Quanto ao filme propriamente dito, tem falhas e é demasiado simples, mas ainda se consegue espremer algum "sumo". Para isso é preciso retirar as cenas de acção, que, diga-se de passagem são bastante boas para um filme feito praticamente "em família", com pouquíssimos recursos financeiros e sem efeitos especiais.
Uma pequena curiosidade: como já vi este filme várias vezes, encontrei duas versões. Sendo o filme australiano e interpretado por actores australianos, há uma versão americana que é dobrada para que o "inglês" seja mais perceptível do outro lado do Oceano. 
A história do filme confunde-se com o do personagem principal, Max Rockatansky, que numa espiral de vingança e loucura causados pela morte da mulher e do filho às mãos de um grupo de anarquistas motoqueiros se vai transformando em Mad Max: polícia, advogado, juiz e carrasco, tudo num só fardamento de cabedal. O normal dos filmes de mascar e deitar fora. Numa sociedade sem lei nem ordem, em que a sobrevivência e a violência são os principais motores humanos, a diferença entre os que têm um distintivo e os outros, esbate-se seriamente até se dissipar por completo.
Num aspecto muito pouco visível, mostra uma sociedade australiana distópica, que num futuro próximo, mergulha na violência devido ao fim repentino do petróleo e ao aparecimento de violentos gangues de motoqueiros. Está implícito que a sociedade, tão dependente do recurso-petróleo, implode e desmorona-se perante a sua escassez. A sociedade mantém ainda alguns traços de ordem, a polícia existe, mas é tão brutal e violenta quanto os agentes do caos. A Justiça está ainda presente, mas é pateticamente disfuncional e inoperante. Em detrimento da acção-espectáculo, o resto está omisso, o que é uma pena. Poderia e deveria ter sido mais explorado o tema do fim do petróleo. Mas pensando bem, em 1979, quem é que estava preocupado com estas questões? Se o filme ainda tem alguma credibilidade é precisamente porque o tema de fundo ainda se mantém actual.
Mas este é um filme de acção pensado para levar as pessoas aos cinemas comer pipocas, não é um docu-drama que apela à reflexão interior do cinéfilo sobre os destinos do Mundo e do Homem. No entanto, extrapolando para a realidade actual, não é difícil de imaginar o efeito do desaparecimento repentino do petróleo nas nossas sociedades. Hoje, o fantasma do anunciado fim do petróleo é uma pedra no sapato das nações. Ainda não há muito tempo, uns cêntimos a mais no preço dos combustíveis espalhou o caos, paralisações e protestos um pouco por todo o lado. Não é por nada que o petróleo é um dos principais indicadores económicos e ironicamente, um dos principais factores de desequilíbrio, disputas e guerras no Mundo. Quer se queira, quer não, o "Ouro Negro" continua a impor o andamento da Humanidade. Sabendo que é um recurso finito, falta saber até quando existirá como matéria comercialmente viável e o que acontecerá depois de o deixar de ser.
Mas isto é o plano da realidade que nada tem a ver com o plano do celulóide, onde a luta de Mad Max passa por uma vingança sobre rodas e onde as considerações sobre o futuro da humanidade não fazem sentido. Fraquinho como é, o filme acaba como deveria acabar e como toda gente que gosta de pipocas no cinema goste que acabe: os maus perdem, os bons ganham. Mas o brilho da loucura nos olhos de Mad Max já não se apagará mais.
O filme foi um mega sucesso de bilheteira e esteve até há pouco tempo no Livro do Guiness como o filme mais lucrativo da história do cinema. Teve direito a duas sequelas que apesar de serem financeiramente mais robustas são ainda mais fracas, o que prova que grandes produções nem sempre garantem bons filmes. Conhecendo a indústria do cinema e face à cada vez maior dificuldade em produzir novos argumentos, de certeza que estará para breve mais uma sequela...
Por ter sido inovador no tema, pela descoberta do Mel Gibson, por terem usado inteligentemente e ao máximo o pouco dinheiro da produção e pelas fantásticas perseguições de carros, dou-lhe ●●●●○.

A Escócia decidiu há umas semanas atrás referendar a sua presença no Reino Unido. Aproveitando a "onda" de notícias sobre o referendo, o Hollywood decidiu (e muito bem) desenterrar um (já) clássico do cinema: Braveheart, de Mel Gibson, um súbdito de Sua Majestade, mas pelo lado australiano.
É raro encontrar um filme como Braveheart. É um filme perfeito, daqueles que irão figurar em qualquer lista dos melhores filmes. Quem o revê - como foi o caso - perde logo à partida a parte melhor do filme. Tenho a certeza que grande parte das pessoas não são especialistas em História Escocesa, logo, o final é muito mais impactante quando se o vê pela primeira vez. Quem já viu o filme, percebe perfeitamente o que digo.
Ainda assim, mesmo vendo o filme pela terceira vez, não consigo deixar de ficar surpreendido, porque este é um daqueles filmes que parece não ser afectado pelo passar do tempo. Todos os aspectos são excelentes. Desde a realização aos actores, passando pelos aspectos técnicos, nada tem falhas. As cenas de batalhas são óptimas, viscerais e explicitamente realistas e por isso mesmo, marcaram pela diferença relativamente ao que se fazia até ali. Pode parecer estranho, mas cortar pernas e braços não era mainstream em 1995. Os actores são muito bons, com especial referência para o casting. Quando uma personagem entra em cena e uma pessoa "desgosta" logo dela sem que a personagem precise de abrir a boca, isso é um bom casting.
Destaque para o Mel Gibson - sempre o apreciei - que como realizador e actor cumpre sem falhas as duas tarefas. Aliás, o Mel Gibson "é" o William Wallace. Disso não tenho dúvida. Como realizador não há muito para dizer sobre Mel Gibson: conseguiu criar algumas das imagens mais icónicas do cinema no seu filme de estreia. O que mais há para dizer?
Braveheart é um daqueles filmalhaços de quase 3 horas. Podia ser maçudo e moroso de ver, mas não é o caso. Está tão bem equilibrado que se vê "num instante". Rever este filme provoca-me sensações antagónicas. Por um lado, lembra-me tristemente que já passaram quase 20 anos desde a sua estreia, e eu estava algures por aí numa sala de cinema a assistir. Quase que ainda nem existia internet nessa altura. Incrível! Por outro lado, fico muito contente por existirem filmes excelentes como é o caso deste. Braveheart é um dos grandes filmes do cinema para ver e/ou rever. Obrigatório, por isso leva a classificação máxima. ●●●●●+

Adenda:
...e portanto lá vai para 4.ª vez (ou mais) que vejo o Braveheart. É um daqueles filmes que simplesmente não consigo resistir. Se está a dar por aí em algum canal, simplesmente não consigo mudar... Não é que tenha muito mais a acrescentar ao que já disse, mas aproveito para reafirmar que é um daqueles grandes filmes que se tornou num clássico instantâneo e que por direito próprio se mantém totalmente actual e obrigatório.
Esta nova entrada é mais uma oportunidade para tratar doutros temas do que propriamente do filme. Como por exemplo, o facto de avisar que este blog NÃO É uma enciclopédia de cinema, nem todos os dados são totalmente fidedignos (mencionei aqui que erradamente o Mel Gibson é australiano, quando descobri há pouco tempo que tinha nascido na América e depois é que emigrou com 12 anos para a Austrália, ou que o Braveheart era o primeiro filme dirigido pelo Mel Gibson, quando já tinha feito em 1993 o The Man Without a Face),  nem sequer os termos cinematográficos são os mais adequados (os termos usados aqui, são os "meus" termos, como fotografia, realização ou edição). Este blog é a forma como eu vejo os filmes, e não são propriamente críticas ou apreciações científicas ou técnicas dos filmes ou do cinema em geral. Isto é como é eu vejo e sinto os filmes.
Poderia recomendar Eagle Eye, realizado por DJ Caruso e com produção executiva do homem com a fórmula mágica do sucesso, Steven Spielberg. Mas não recomendo. É um filme fraquinho, inserido naquela espécie geralmente denominada como blockbuster. Mesmo antes de o ver, percebe-se logo pelo trailer típico, que é um daqueles filmes com uma produção de milhões de dólares e que vive exclusivamente de perseguições e explosões. O argumento, que até poderia ser interessante, envolvendo uma conspiração muito high-tech, é tão fraco que ao fim de 25 minutos já se sabe tudo o que vai acontecer e como o filme vai acabar. Tirando o habitual twist, como é óbvio. O normal neste tipo de filmes: o bom ganha, o mau perde, coisas explodem durante o filme. Safam-se algumas perseguições, pelo realismo em detrimento do efeito digital e o ritmo totalmente alucinante da acção. Os actores até são bons o que não torna o filme insuportável. Mas além disto, pouco mais há para ver. Eagle Eye é mais uma daquelas "chicletes" para ver enfiado no sofá com as pantufas calçadas durante as tardes cinzentas de Outono. Ou nos feriados.
Com estes argumentos todos, dou-lhe @@/@@@ .

Tenho andado a pensar numa forma de classificar os filmes. Classificar, não. O termo mais correcto será quantificar os filmes.
Apesar de tudo, a classificação é bem mais fácil. Tirando os problemas óbvios dos filmes que têm vários géneros, é muito mais fácil. Um filme ou é de ficção científica ou um drama, um filme de acção ou um documentário. Há até aqueles filmes feitos especificamente para explorar o gosto do público por determinado género como o blaxpoitation. Há filmes que, apesar de não serem bons, são um marco do cinema precisamente por terem criado um novo género como o spaghetti western, por exemplo. Claro que isto não é assim tão simples. Porque o 2001: Odisseia no Espaço não é apenas um filme de ficção científica, nem o Apocalypse Now é um filme de guerra. Há filmes que pura e simplesmente não se conseguem encaixar num determinado rótulo ou género. Por estranho que possa parecer, normalmente até é o que distingue os grandes filmes dos demais. Mas sempre é mais fácil conseguir encaixar um filme num determinado género (ou vários) do que conseguir mostrar o seu valor.
Por isso é que nos jornais e afins, as atribuições dos críticos são tão díspares. Como se costuma dizer na gíria: "é conforme!". Isto é, depende de quem avalia. Se for um crítico mais "virado" para o cinema europeu, qualquer filme com o selo de Hollywood vai ser uma merda e só tem direito a 1 "estrelinha. Se for um crítico com outro interesse ou outra perspectiva diferente, a avaliação do filme muda. Isto sempre me pareceu demasiado abstracto e subjectivo. Portanto, tenho andado a pensar que tem de haver um método mais objectivo para quantificar um filme.
Primeiro pensei que as matemáticas e as médias seriam um bom método a aplicar, mas depois lembrei-me do Dead Poets Society e do sistema métrico de avaliação de poesia do Dr. J. Evans Pritchard, Ph.D.. Não me parece bem andar de regra e esquadro a fazer gráficos para avaliar o que quer que seja. Desisti dessa ideia e percebi que - mesmo que não se queira - há sempre uma grande dose de subjectividade nestas avaliações. O que não é assim tão negativo quanto pensava. Eu sei que é um contraditório afirmar isto, mas é verdade.
Da mesma forma que sempre achei que quantificar os filmes com 5 "estrelas" era demasiado redutor. Estava enganado outra vez. Após muita reflexão sobre o assunto cheguei à conclusão que É MESMO a melhor forma. (Isto acontece-me muitas vezes, contradizer as minha próprias opiniões). Com um acréscimo: a sexta "estrelinha". A "estrela" que distingue os excelentes filmes, dos filmes "fora da escala". Eis a minha lógica de pensamento.
Percebi que existem 5 tópicos (mais 1 extra) que definem a qualidade de um filme. E para tentar ser o mais objectivo possível, analiso os filmes como tendo o tópico preenchido ou não, de forma a eliminar a subjectividade o mais possível.

Primeiro: a realização geral. Na realização geral incluo a visão estética do filme, a direcção dos actores e a forma como são apresentadas as imagens. Convém não esquecer que um filme é acima de tudo uma mostra gráfica. Uma série de imagens estáticas colocadas em movimento. Neste ponto conta muito toda a equipa "visual" que um realizador junta à sua volta, como o director de fotografia, por exemplo. Mas também a visão particular do realizador. Como é que se apresentam emoções? Qual a melhor forma de mostrar arrependimento? Como se mostra à audiência que algo está para acontecer? Ou pôr-lhe os cabelos em pé? Ou dar-lhe um nó no estômago? Pois. Só um grande realizador sabe compor imagens para responder a isso. Outra coisa que se nota nos grandes realizadores é também um aspecto mais abrangente: domínio sobre o filme. Por isso mesmo, é raro um "assalariado" de estúdio conseguir fazer um grande filme. Um "assalariado" faz demasiadas concessões enquanto um grande realizador tem o filme todo na cabeça e controla todos os aspectos do filme. Isto nota-se num filme. Para o bem e para o mal.

Segundo: actores. O que é um filme sem actores? Nada. É como um actor sem público. Uma das forças motrizes de um bom filme são mesmo os actores. Mas não só. É também a escolha dos próprios actores. Alguém imaginou outro actor que não o Harrison Ford a fazer de Indiana Jones? Outro actor no The Shinning que não o Jack Nicholson? Outro Patton que não o George C. Scott? Pode não parecer, mas a escolha inicial de um determinado actor para um determinado papel é muito importante e decisivo para criar um bom filme. E, como é óbvio, o actor tem de ser mesmo bom e de ter um boa performance. Como se costuma dizer, se o actor fizer um daqueles "papelaços" inesquecíveis, mesmo um filme mediano torna-se logo bom.

Terceiro: a história. Antes de um filme existir visualmente, ele vai nascendo no papel através do seu guião. Não sei avaliar a qualidade técnica de um guião, mas mais importante do que isso é quando o realizador lhe dá vida. Mas começar com uma grande história, um tema totalmente inovador é meio caminho andado para ter em mãos um bom filme. Neste aspecto, saliento sempre um factor muito importante. O final da história. Quem escreve sabe bem que finalizar um boa história é sempre muito mais difícil do que iniciá-la. Não me estou a referir os célebres twists. Estou a referir-me àquela "boa" conclusão. Muitas vezes, os filmes têm boas histórias, desenvolvem-se bem, mas o final do filme deixa um sabor amargo. Finais demasiadamente "em aberto" (à europeu), totalmente previsíveis ou que dão tantas voltas (os tais twists) para baralhar o final óbvio, que acabam por ser novamente previsíveis.

Quarto: os aspectos técnicos. Som, luz, cor e efeitos especiais dão camadas extra a um filme. E se elas forem todas muito boas e equilibradas, a qualidade de um filme aumenta exponencialmente. Isto nota-se, pela negativa nos blockbusters. A camada dos efeitos especiais é tão espessa que por vezes tapa todo o filme. Por isso é que é raro ver um "blockbuster de efeitos" que seja um bom filme. Pelo lado positivo, aspectos técnicos bem concebidos, que ajudem a contar a história e exponenciem o trabalho dos actores, elevam os filmes à categoria de clássicos. É como a construção de um pintura: começa-se pelo esboço a carvão, lima-se os pormenores, acrescentam-se cores e finaliza-se os retoques.

Quinto: ritmo. Um dos elementos menos visível de um filme é a montagem. Pode não parecer, mas saber quando cortar uma cena ou prolongá-la faz toda a diferença. Isto é muito importante porque marca o andamento de um filme. Pode torná-lo hiper-rápido ou insuportavelmente lento. Há aqui um paralelismo directo com a música. Há que saber quando meter as guitarradas estridentes e as melodias calmas. Um bom filme tem um equilíbrio perfeito entre a acção e o diálogo. É como uma música dos Pink Floyd: não se percebe muito bem porquê, mas têm o ritmo perfeito. Um bom filme é igual. Tem de ser consistente, mas conseguir, de tempos a tempos, fazer-nos dar um salto na cadeira.

Por último: a sexta "estrela". A "estrela" que faz toda a diferença. Pensei muito no assunto e reparei que o que faz os grandes filmes é sua durabilidade. Ou seja, a capacidade de resistirem à passagem do tempo. É como toda a restante arte: a que faz a diferença é a que perdura. Fazer um filme perdurar no tempo é talvez o mais difícil. Já me aconteceu "n" de vezes rever um filme que achava excelente, mas que agora noto que ficou "marcado" no tempo. Uma pessoa percebe que aquele filme é da década de 70 ou 80, que os aspectos técnicos estão "marcados" e/ou desactualizados, que a temática só tinha validade num tempo específico ou que era dum determinado género que entretanto passou de moda. Acho que esta última "estrela" é o que faz os bons filmes saltarem para uma classe à parte. A classe dos "intemporais". Por isso é que há tão poucos.

Resumindo. Para um filme ser bom é necessário existir uma grande colaboração de talentos em volta de uma boa história, liderados por um líder exemplar. Mas para um filme ser intemporal (até resistir à crítica) é absolutamente necessário que o "homem do leme" consiga criar "aquela estrelinha" extra para colocar no final. Vou ver um filme qualquer só para experimentar esta nova classificação. Perdão. Quantificação.
 
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