Normalmente nunca diria isto, mas vou ter de o dizer... Idiocracy é um dos piores filmes que já vi na minha vida... mas que vale a pena dar uma vista de olhos. Por muito estranho que pareça é mesmo verdade. Apesar do filme ser mesmo mau, o cerne do filme merece uma reflexão, nem que seja só por 10 minutos.
Um soldado americano (Luke Wilson) é escolhido para uma experiência secreta envolvendo hibernação prolongada. Ele foi escolhido por ser um gajo absolutamente mediano e sem ligações familiares. Junto com ele vai também participar uma prostituta (Maya Rudolph), "emprestada" pelo seu chulo a troco de favores. A experiência acaba por correr mal devido a uma escândalo com o chulo, e o que deveria ser uma coisa com duração de um ano, acaba por ser esquecida e prolongar-se por 500 anos. Quando o soldado mediano finalmente acorda no futuro, 500 anos mais tarde, descobre que a inteligência foi extinta e que a América é uma sociedade tão estupidificada que ele é seguramente o humano mais inteligente à face da Terra. É então escolhido para resolver uma série de problemas... resultado de causas verdadeiramente estúpidas.
Idiocracy está num limbo. Teoricamente é uma comédia de ficção científica, mas na realidade nem é uma coisa nem outra. Como comédia é um contrassenso pois para além de não ser nada cómico, ainda por cima é um tipo de comédia que só é apelativo para o tipo de pessoal que está literalmente a criticar. Como ficção cientifica é mesmo só porque se passa no futuro, porque nem a história é nova (ou original) nem sequer o tema é muito aprofundado para além dos óbvios sketches. Para além disto, o próprio filme esteve envolvido numa disputa bastante feia com os estúdio da Fox. O que é absolutamente compreensível vendo o teor do filme. Até a Foz News é descaradamente gozada... Os estúdios ficaram com o filme completamente feito em carteira durante um ano e só o distribuíram em meia dúzia de cinema, sem promoção nenhuma, sem trailers, sem nada. Foi mesmo só para cumprir o contrato que previa a estreia em cinema. E depois o filme desapareceu do público... Idiocracy merece destaque precisamente por causa disto tudo. Como é possível que um filme que é essencialmente mal feito, sem distribuição, sem marketing, sem trailer e que quase caiu no esquecimento se torna uma referência da comédia politica entre os críticos e o público e ainda arranja o "título" de filme de culto? É um mistério.
Mas se há uma resposta certa, acho que é por o filme tocar num ponto muito sensível, e basicamente, por apontar para o elefante no meio da sala da América... A estupidez. Não vale a pena estar aqui com grandes rodeios. A América, outrora o grande centro de mentes brilhantes está a tornar-se cada vez mais estúpida. Uma maioria de pessoas elegeu o Donald Trump como presidente, portanto está tudo dito. Não é por nada que Mike Judge, o realizador que já tem créditos como o criador, produtor e dono das vozes de Beavis and Butt-Head, tem sido referido como um grande profeta. Depois de Donald Trump como presidente, acho que ninguém estranharia muito se agora fosse eleito um wrestler (como a personagem de Terry Crews) ou um culturista sem qualquer formação política ou social. De certa forma o filme é premonitório por ir mais além do racional e mostrar que o ridículo se pode tornar realidade, e também porque sendo uma comédia pode brincar com todos estes temas muito sérios. Muita vezes vi referida até a expressão: "o filme que lentamente se vai tornando num documentário social"... É estranho, mas é verdade. A linguagem utilizada, já muito longe do inglês, cheia de jargão e siglas... Uma comunidade manipulada e controlada por grandes corporações que apenas querem que a sociedade seja uma população de consumidores acéfalos... As séries e filmes sem continuidade tipo jackass que estreiam em primeiro lugar nos cinemas americanos... A omnipresente hipersexualização... de tudo, basicamente... As pilhas de lixo infindáveis provocadas por um consumismo desenfreado... Enfim... a realidade que ninguém quer ver ou admitir...
A realidade é que esta ficção é bem mais real e muito menos futurista e utópica do que parece. Este tema do homem que acorda no futuro para perceber que a humanidade se estupidificou ao ponto de quase se aniquilar não é nova. No Time Machine do H.G. Wells isto já é em parte mencionado. No conto The Marching Morons de Cyril Kornbluth também já se trata da temática sobre o que é que acontece quando se tem uma sociedade em que a população se expande exponencialmente e ao mesmo tempo há uma uma falta de pressão evolucionária...
Falar da estupidez crescente na sociedade daria para uma site completo porque as razões são imensas e muito interligadas. E aí tenho que dar o braço a torcer porque Idiocracy toca em quase tudo de uma forma muito leviana, mas ao mesmo tempo muito acertada. Vai desde o pormenor da Fox News com os seus apresentadores musculados e apresentadoras quase de mamas à mostra, passando pela crítica a uma sociedade dominada pelo marketing das grandes empresas que diz que "os electrólitos são tão bons que substituem a água simples" e que assim levam a uma catástrofe ecológica. E quem diz electrólitos, poderia dizer L. Casei Imunitass...
E se se avançar um pouco mais no tempo, ainda temos as redes sociais que têm sido o grande megafone desta estupidez crescente e alarmante que muita gente já percebeu que vai acabar mal. Mas não se pode dizer mal das redes sociais nem dos seus malefícios... porque gera imensa receita ("i love money, don't you?" deve ser a expressão que aparece mais vezes no filme...) e imensa gente adora as redes sociais e já nem sequer conseguem viver sem elas. Se este tema entrasse no filme (ainda nem sequer tinham grande expressão na altura da estreia), seguramente o filme teria mais 1 hora de duração... Pode ser que Mike Judje volte ao tema mais tarde... ou se calhar é melhor não o deixar dizer mais nada para não tocar novamente em pontos sensíveis...
De certa forma, Idiocracy é um olhar satírico para dentro. É como uma parte da América se revê e como tem noção de como o mundo começa a ver a própria América. E têm razão. Não tenho dúvida nenhuma, que cada vez mais, o mundo olha para a América, não como a grande super-potência de outros tempos, mas como o grande centro exportador de estupidez para o resto do mundo...
Estupidez é uma coisa aparentemente hereditária e altamente contagiosa. Isto fica bem demonstrado nos geniais primeiros minutos. E, cada vez mais me apercebo, que afinal pode não ter cura. E isto sou eu a ser um bocadinho optimista, porque na realidade o meu cérebro pessimista o que me diz é que a estupidez não tem cura e que eventualmente vamos estar bem fodidos por não tratarmos deste problema a tempo... Este tema da estupidez chateia-me. Fico com comichões e dá-me vontade de bater em alguém... é melhor ficar por aqui e não me alongar mais... ...
Sinto-me muito dividido em relação a este Idiocracy. Nunca o veria novamente de tão mau que é, mas sou obrigado a recomendá-lo pela reflexão que obriga a fazer... ●○○○○ - ●●●●●
Quando era miúdo adorava o Jerry Lewis. Era o gajo mais cómico que alguma vez tinha visto. Era quase como ver um desenho animado. Facto para o qual muito contribui a parceira com o realizador Frank Tashlin. Não é coincidência esta maratona de filmes realizados por Tashlin com Jerry Lewis no principal papel. Tashlin fez grande parte da carreira como realizador de desenhos animados daí que o tom notoriamente cartoon dos filmes assente que nem uma luva com as personagens caricaturais de Lewis. Na realidade, Jerry Lewis fez sempre o mesmo papel... o papel de Jerry Lewis, o trapalhão de bom coração que contra todas as expectativas e todas as rasteiras das personagens "más", acaba sempre por triunfar no final feliz.
The Disorderly Orderly é outro filme de Jerry Lewis, igual em quase tudo a todos os outros e em que apenas muda o cenário e a profissão do personagem principal. Aqui, Lewis é Jerome Littlefield, um empregado de hospital naturalmente desastrado e sempre a meter-se em situações caricatas. Jerome queria ser médico mas é impedido porque tem uma doença rara e muito especial: empatia a mais. Todas as doenças que os pacientes têm, ele acaba por sentir os mesmos sintomas. Relegado para um mero interno, acaba por ficar encarregue dos trabalhos mais chatos. E cómicos... E sempre que mete água é salvo pela compreensiva responsável superior (Glenda Farrell). Pelo meio, descobre que uma antiga paixão do secundário está lá internada com uma depressão (Susan Oliver) e também há uma enfermeira que está apaixonada por ele (Karen Sharpe). No papel da enfermeira mais "chata" e que grita mais alto, há novamente Kathleen Freeman, uma presença habitual nas produções Jerry Lewis.
Apesar de um ou outro bom pormenor, como por exemplo o quebrar da quarta parede, The Disorderly Orderly é mais do mesmo. Mas mesmo sendo uma repetição de uma repetição de uma repetição, os filmes de Jerry Lewis têm sempre uma carga tão positiva, verdadeira e inocente que não consigo deixar de os ver. ●●○○○
The Disorderly Orderly é outro filme de Jerry Lewis, igual em quase tudo a todos os outros e em que apenas muda o cenário e a profissão do personagem principal. Aqui, Lewis é Jerome Littlefield, um empregado de hospital naturalmente desastrado e sempre a meter-se em situações caricatas. Jerome queria ser médico mas é impedido porque tem uma doença rara e muito especial: empatia a mais. Todas as doenças que os pacientes têm, ele acaba por sentir os mesmos sintomas. Relegado para um mero interno, acaba por ficar encarregue dos trabalhos mais chatos. E cómicos... E sempre que mete água é salvo pela compreensiva responsável superior (Glenda Farrell). Pelo meio, descobre que uma antiga paixão do secundário está lá internada com uma depressão (Susan Oliver) e também há uma enfermeira que está apaixonada por ele (Karen Sharpe). No papel da enfermeira mais "chata" e que grita mais alto, há novamente Kathleen Freeman, uma presença habitual nas produções Jerry Lewis.
Apesar de um ou outro bom pormenor, como por exemplo o quebrar da quarta parede, The Disorderly Orderly é mais do mesmo. Mas mesmo sendo uma repetição de uma repetição de uma repetição, os filmes de Jerry Lewis têm sempre uma carga tão positiva, verdadeira e inocente que não consigo deixar de os ver. ●●○○○
Um dos primeiros filmes de mafiosos que vi foi o Scarface com a mirabolante e inesquecível personagem de Tony Montana. Acho que os mafiosos daquele tempo não se comportavam daquela maneira romantizada, no entanto acho que efectivamente a ficção acabou por moldar a realidade. Mesmo que não seja verdade, o públicoede cinema e não só, apenas consegue ver um mafioso desta maneira. E de uma forma estranha, acho que qualquer mafioso só se consegue ver retratado assim. Violento, ganancioso e apenas com um objectivo: chegar ao topo da escada e ser o rei absoluto de tudo.
Scarface é exactamente isto. É o percurso de Tony Montana, um cubano exilado em Miami na década de 80, que com a ajuda do seu inseparável amigo Manny, violentamente vai subindo os degraus da hierarquia mafiosa. Dos "pequenos", sanguinários e sujos trabalhos iniciais contra os cartéis colombianos de droga a mando do grande figurão de Frank Lopez e Omar, o seu irascível capataz, até lhes tirar o tapete debaixo dos pés (e a tosse) e conseguir finalmente chegar ao topo do pirâmide. Mas um percurso assim tão violento e traiçoeiro vai ter obviamente consequências trágicas e o império da droga de Tony Montana pode ruir a qualquer instante.
Este excelente Scarface de Brian De Palma é na realidade um remake do clássico Scarface de 1932. Mas aqui, o detalhe de ser um remake é mesmo apenas um detalhe histórico. Não tem nada de pejorativo. O filme é tão bom e "original" na concepção (mais um argumento fantástico de Oliver Stone) que só pode ser considerado um remake porque tem a mesma figura central como protagonista e estrutura narrativa de base. Se no original a base é a proibição do álcool e os seus meandros ilegais, nesta adaptação é o tráfico de droga e tudo o que se conhece em torno no negócio. As diferenças na história são irrelevantes porque o núcleo não é propriamente a ilegalidade do negócio, mas sim a ganância do protagonista. Sendo Brian De Palma um mestre incontestado, Scarface é um daqueles filmes inesquecíveis.
Mas muita da força do filme vem dos actores. Steven Bauer, Michelle Pfeiffer, Mary Elizabeth Mastrantonio, Robert Loggia e F. Murray Abraham não são só secundários. São verdadeiras personagens, com estruturas robustas e grande personalidade que enchem a tela e enriquecem todo o filme. Mas o destaque principal tinha mesmo de ir para Al Pacino. Aquela mistura de cómico louco e gangster cubano é irrepetível. Tal como disse no início, acho que esta performance acabou por cristalizar na mentalidade colectiva a aparência, os trejeitos e o comportamento do típico mafioso. Não se consegue olhar para um mafioso e vê-lo de forma diferente do Tony Montana. Um mafioso tem realmente de ser assim para ser considerado um mafioso de jeito. Tem de ser ganancioso e violento, sem empatia, mas por outro lado tem de ser sensível e aberto às coisas belas da vida. Tony Montana é uma mistura estranha que deveria fazer um gajo virar a cara, mas estranhamente tem uma certa atracção. Não sei explicar muito bem isto. Ou se calhar até sei... Por exemplo, desde o primeiro contacto visual, Tony procura incessantemente por Elvira mesmo que esta o mande dar uma volta constantemente. Ele é tão insistente que acaba por casar com ela, mas durante todo o filme não se lhes vê um único momento de intimidade. Até o beijo no final do casamento é quase invisível com aquele véu impenetrável. De certa forma, o encanto e a atracção de Tony Montana existe porque ele é um símbolo do eterno desejo de se ter o que não se tem. E depois, quando consegue o que quer, parte para outra demanda em busca de outra coisa qualquer que não tem... É complicado...
Scarface é um dos meus filmes favoritos e Tony Montana é uma das personagens que me ficou para sempre. Obrigatório. ●●●●●
Scarface é exactamente isto. É o percurso de Tony Montana, um cubano exilado em Miami na década de 80, que com a ajuda do seu inseparável amigo Manny, violentamente vai subindo os degraus da hierarquia mafiosa. Dos "pequenos", sanguinários e sujos trabalhos iniciais contra os cartéis colombianos de droga a mando do grande figurão de Frank Lopez e Omar, o seu irascível capataz, até lhes tirar o tapete debaixo dos pés (e a tosse) e conseguir finalmente chegar ao topo do pirâmide. Mas um percurso assim tão violento e traiçoeiro vai ter obviamente consequências trágicas e o império da droga de Tony Montana pode ruir a qualquer instante.
Este excelente Scarface de Brian De Palma é na realidade um remake do clássico Scarface de 1932. Mas aqui, o detalhe de ser um remake é mesmo apenas um detalhe histórico. Não tem nada de pejorativo. O filme é tão bom e "original" na concepção (mais um argumento fantástico de Oliver Stone) que só pode ser considerado um remake porque tem a mesma figura central como protagonista e estrutura narrativa de base. Se no original a base é a proibição do álcool e os seus meandros ilegais, nesta adaptação é o tráfico de droga e tudo o que se conhece em torno no negócio. As diferenças na história são irrelevantes porque o núcleo não é propriamente a ilegalidade do negócio, mas sim a ganância do protagonista. Sendo Brian De Palma um mestre incontestado, Scarface é um daqueles filmes inesquecíveis.
Mas muita da força do filme vem dos actores. Steven Bauer, Michelle Pfeiffer, Mary Elizabeth Mastrantonio, Robert Loggia e F. Murray Abraham não são só secundários. São verdadeiras personagens, com estruturas robustas e grande personalidade que enchem a tela e enriquecem todo o filme. Mas o destaque principal tinha mesmo de ir para Al Pacino. Aquela mistura de cómico louco e gangster cubano é irrepetível. Tal como disse no início, acho que esta performance acabou por cristalizar na mentalidade colectiva a aparência, os trejeitos e o comportamento do típico mafioso. Não se consegue olhar para um mafioso e vê-lo de forma diferente do Tony Montana. Um mafioso tem realmente de ser assim para ser considerado um mafioso de jeito. Tem de ser ganancioso e violento, sem empatia, mas por outro lado tem de ser sensível e aberto às coisas belas da vida. Tony Montana é uma mistura estranha que deveria fazer um gajo virar a cara, mas estranhamente tem uma certa atracção. Não sei explicar muito bem isto. Ou se calhar até sei... Por exemplo, desde o primeiro contacto visual, Tony procura incessantemente por Elvira mesmo que esta o mande dar uma volta constantemente. Ele é tão insistente que acaba por casar com ela, mas durante todo o filme não se lhes vê um único momento de intimidade. Até o beijo no final do casamento é quase invisível com aquele véu impenetrável. De certa forma, o encanto e a atracção de Tony Montana existe porque ele é um símbolo do eterno desejo de se ter o que não se tem. E depois, quando consegue o que quer, parte para outra demanda em busca de outra coisa qualquer que não tem... É complicado...
Scarface é um dos meus filmes favoritos e Tony Montana é uma das personagens que me ficou para sempre. Obrigatório. ●●●●●
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Juntar Martin Scorcese, Robert De Niro e Jerry Lewis num só filme deveria ser um festim para mim. São três "instituições" que fazem parte do meu imaginário cinematográfico e são nomes que com cresci e evolui a ver a filmes. Mas nem sempre as coisas saem bem quando se mistura tudo o que gostamos...
Rupert Pupkin (Robert De Niro) tem uma ideia e uma obsessão. A ideia é a de que ele pode ser o novo Rei da Comédia. A obsessão é o seu grande ídolo Jerry Langford (Jerry Lewis), o famoso apresentador de um talk show com stand-up. Após um incidente em que Rupert salva Jerry de uma fã enlouquecida, os dois conhecem-se e Jerry incentiva-o a seguir uma carreira na comédia. Mas quando Jerry o relega para um plano secundário e o rejeita, Pupkin decide uma abordagem mais radical: com a ajuda da psicótica Masha (Sandra Bernhard) vai raptar o apresentador e exigir como resgate uma actuação de stand-up a solo no seu programa.
Tenho de admitir que vejo qualquer coisa com o selo Martin Scorcese. Para mim é uma marca de qualidade e sei logo à partida que vou ver uma coisa em condições. No entanto, Scorcese devido à sua elasticidade de temas, já me deu alguns amargos de vista. The King of Comedy foi um desses amargos. O que não deixa de ser estranho porque vejo sempre o filme muito bem referenciado, com muito boas críticas tanto do público como dos especialistas. Tenho de admitir que não gostei nada disto. Acho que se ficou pelo meio do caminho. Nem consegue ser cómico, nem consegue ser dramático. Fica ali num limbo que nem é carne nem peixe. Apesar da boa actuação, até o próprio Robert De Niro, parece perdido num jogo de personagens onde não se sente à vontade.
Obviamente tem os seus pontos positivos, principalmente ao nível dos pormenores de realização de Scorcese e da excelente fotografia. O filme não me cativou e acabei por me distrair... Isto aconteceu em particular com o facto de não conseguir desligar do facto de como este filme é parecido com o novo Joker e não só porque partilha uma história muito similar. Estive a ler umas coisas sobre o filme e descobri que uma das ideias propostas (pelo Jerry Lewis) era de que no final, Pupkin devia matar o Langford no seu show final. Scorcese achou que era demasiado violento e deixou a ideia de fora. Estranho, não é?
Se eu me distraio com um filme, isso normalmente quer dizer que lhe falta qualquer coisa. No caso de The King of Comedy acho que lhe falta mais comédia e mais intensidade dramática. Aliás, acho que lhe falta muita coisa. A personagem de Pupkin é detestável no mau sentido. Apesar de se compreender a obsessão nunca causa nenhuma empatia. O tema central que é objectivamente o culto da personalidade, da pessoa famosa, nunca é o ponto central. Os pontos positivos (todos técnicos) atenuam estas falhas, o que faz com que The King of Comedy seja perfeitamente "visível" mas que não "marque" tão profundamente como outros Scorceses... Foi uma decepção inesperada... ●●○○○
Rupert Pupkin (Robert De Niro) tem uma ideia e uma obsessão. A ideia é a de que ele pode ser o novo Rei da Comédia. A obsessão é o seu grande ídolo Jerry Langford (Jerry Lewis), o famoso apresentador de um talk show com stand-up. Após um incidente em que Rupert salva Jerry de uma fã enlouquecida, os dois conhecem-se e Jerry incentiva-o a seguir uma carreira na comédia. Mas quando Jerry o relega para um plano secundário e o rejeita, Pupkin decide uma abordagem mais radical: com a ajuda da psicótica Masha (Sandra Bernhard) vai raptar o apresentador e exigir como resgate uma actuação de stand-up a solo no seu programa.
Tenho de admitir que vejo qualquer coisa com o selo Martin Scorcese. Para mim é uma marca de qualidade e sei logo à partida que vou ver uma coisa em condições. No entanto, Scorcese devido à sua elasticidade de temas, já me deu alguns amargos de vista. The King of Comedy foi um desses amargos. O que não deixa de ser estranho porque vejo sempre o filme muito bem referenciado, com muito boas críticas tanto do público como dos especialistas. Tenho de admitir que não gostei nada disto. Acho que se ficou pelo meio do caminho. Nem consegue ser cómico, nem consegue ser dramático. Fica ali num limbo que nem é carne nem peixe. Apesar da boa actuação, até o próprio Robert De Niro, parece perdido num jogo de personagens onde não se sente à vontade.
Obviamente tem os seus pontos positivos, principalmente ao nível dos pormenores de realização de Scorcese e da excelente fotografia. O filme não me cativou e acabei por me distrair... Isto aconteceu em particular com o facto de não conseguir desligar do facto de como este filme é parecido com o novo Joker e não só porque partilha uma história muito similar. Estive a ler umas coisas sobre o filme e descobri que uma das ideias propostas (pelo Jerry Lewis) era de que no final, Pupkin devia matar o Langford no seu show final. Scorcese achou que era demasiado violento e deixou a ideia de fora. Estranho, não é?
Se eu me distraio com um filme, isso normalmente quer dizer que lhe falta qualquer coisa. No caso de The King of Comedy acho que lhe falta mais comédia e mais intensidade dramática. Aliás, acho que lhe falta muita coisa. A personagem de Pupkin é detestável no mau sentido. Apesar de se compreender a obsessão nunca causa nenhuma empatia. O tema central que é objectivamente o culto da personalidade, da pessoa famosa, nunca é o ponto central. Os pontos positivos (todos técnicos) atenuam estas falhas, o que faz com que The King of Comedy seja perfeitamente "visível" mas que não "marque" tão profundamente como outros Scorceses... Foi uma decepção inesperada... ●●○○○
Em Who's Minding the Store?, Jerry Lewis é Norman Phiffier, um moço trapalhão que namora com Barbara, uma simples ascensorista numa grande loja, tipo centro comercial. Mas como é óbvio isto não podia ser assim tão simples. Na realidade, Barbara não é uma simples ascensorista... Ela é sim a filha da riquíssima dona da cadeia de lojas com quem não se dá nada bem, e que trabalha lá só para chatear a mãe... A senhora Tuttle, a mãe odiosa não concorda com o namoro e por isso giza um plano para afastá-los: contratar Phiffier para trabalhar na mesma loja onde Barbara trabalha e fazer-lhe a vida negra para ele se despedir e acabar também com o romance indesejado. Mas Norman é tão trapalhão quanto obstinado o que faz com que o resultado final possa não ser o desejado...
Para além de Jerry Lewis também se pode ver Jill St. John como Barbara Tuttle, John McGiver como o pai, John P. Tuttle, e Ray Walston como Mr. Quimby, mas o destaque só poderia ir para Agnes Moorehead que no papel da maléfica Phoebe Tuttle, mais parece uma Cruella DeVil em carne e osso.
Jerry Lewis faz novamente de... Jerry Lewis, mas desta vez numa loja! Há muita confusão, muitos tombos, muitas caretas e muita coisa a partir-se, mas para mim há pouca comédia... A única cena que me ficou verdadeiramente na memória é uma em que Lewis faz um truque de mímica com uma máquina de escrever ao som de música... Achei simplesmente brilhante. Na cadeira de realizador está mais uma vez Frank Tashlin, uma presença habitual nos filmes com a marca Jerry Lewis. Who's Minding the Store? é mesmo só para coleccionadores e apreciadores... ●○○○○
Para além de Jerry Lewis também se pode ver Jill St. John como Barbara Tuttle, John McGiver como o pai, John P. Tuttle, e Ray Walston como Mr. Quimby, mas o destaque só poderia ir para Agnes Moorehead que no papel da maléfica Phoebe Tuttle, mais parece uma Cruella DeVil em carne e osso.
Jerry Lewis faz novamente de... Jerry Lewis, mas desta vez numa loja! Há muita confusão, muitos tombos, muitas caretas e muita coisa a partir-se, mas para mim há pouca comédia... A única cena que me ficou verdadeiramente na memória é uma em que Lewis faz um truque de mímica com uma máquina de escrever ao som de música... Achei simplesmente brilhante. Na cadeira de realizador está mais uma vez Frank Tashlin, uma presença habitual nos filmes com a marca Jerry Lewis. Who's Minding the Store? é mesmo só para coleccionadores e apreciadores... ●○○○○
Jerry Lewis é um daqueles gajos que fazem parte do meu imaginário cinematográfico e eu nem sequer sou fã de comédias. Acho até que a comédia desta altura (anos 60) está tão datada que nem sequer faz sentido hoje em dia... Mas também posso estar enganado... Bem, não interessa....
The Ladies Man é o Jerry Lewis a meter-se em trabalhos como sempre acontece.
Lewis toma o papel de Herbert H. Heebert, um jovem que recentemente acabou o curso na universidade e decide ir trabalhar como servente numa mansão particular. Como é óbvio tinha de haver uma confusão pelo caminho. E a confusão é o facto de Herbert ter uma aversão a mulheres devido a um desgosto amoroso e a tal mansão onde acabou de arranjar trabalho ser na realidade uma espécie de hotel exclusivo para mulheres... Mulheres lindíssimas mas com muitos caprichos, particularidades e excentricidades. Este é o mote para uma série de trapalhadas bem ao jeito Jerry Lewis.
Para além de Jerry Lewis há uma série infindável de actrizes em pequenos papéis, sendo que o destaque tem de ir Helen Traubel como a dona da casa, para Kathleen Freeman como a responsável pela casa e para Buddy Lester que tem provavelmente a cena mais cómica de todo o filme. Também há uma cena com uma filmagem em directo para a televisão que é muito boa. E também há uma cena de dança muito estranha com uma das personagens mais misteriosas que é muito boa... Há alguns bons pormenores por aqui... Um dos destaques tem mesmo de ir para o gigantesco e complexo cenário criado para dar corpo ao filme. Na realidade, quase tudo se passa neste cenário interior, que parece uma casa de bonecas gigante, que é um dos maiores alguma vez construídos.
Para além do papel principal, Jerry Lewis também escreve e realiza este The Ladies Man. Como acumulou várias funções (de actor e realizador), Lewis pediu à produção que junto da câmara de 35 mm lhe juntassem um pequeno monitor de video para poder ir acompanhando as filmagens on-set. Sem querer, Lewis acabou por criar um "assistente de vídeo" que a partir desse momento foi aproveitado por outros realizadores e que acabou por se tornar um standard nas produções até ao dia de hoje.
The Ladies Man é uma comédia de outros tempos. Apesar de ter um ou outro bom pormenor, está muito datada e acho que só agradará aos fãs mais hardcore de Jerry Lewis. Para mim, será sempre puro saudosismo. ●●○○○
The Ladies Man é o Jerry Lewis a meter-se em trabalhos como sempre acontece.
Lewis toma o papel de Herbert H. Heebert, um jovem que recentemente acabou o curso na universidade e decide ir trabalhar como servente numa mansão particular. Como é óbvio tinha de haver uma confusão pelo caminho. E a confusão é o facto de Herbert ter uma aversão a mulheres devido a um desgosto amoroso e a tal mansão onde acabou de arranjar trabalho ser na realidade uma espécie de hotel exclusivo para mulheres... Mulheres lindíssimas mas com muitos caprichos, particularidades e excentricidades. Este é o mote para uma série de trapalhadas bem ao jeito Jerry Lewis.
Para além de Jerry Lewis há uma série infindável de actrizes em pequenos papéis, sendo que o destaque tem de ir Helen Traubel como a dona da casa, para Kathleen Freeman como a responsável pela casa e para Buddy Lester que tem provavelmente a cena mais cómica de todo o filme. Também há uma cena com uma filmagem em directo para a televisão que é muito boa. E também há uma cena de dança muito estranha com uma das personagens mais misteriosas que é muito boa... Há alguns bons pormenores por aqui... Um dos destaques tem mesmo de ir para o gigantesco e complexo cenário criado para dar corpo ao filme. Na realidade, quase tudo se passa neste cenário interior, que parece uma casa de bonecas gigante, que é um dos maiores alguma vez construídos.
Para além do papel principal, Jerry Lewis também escreve e realiza este The Ladies Man. Como acumulou várias funções (de actor e realizador), Lewis pediu à produção que junto da câmara de 35 mm lhe juntassem um pequeno monitor de video para poder ir acompanhando as filmagens on-set. Sem querer, Lewis acabou por criar um "assistente de vídeo" que a partir desse momento foi aproveitado por outros realizadores e que acabou por se tornar um standard nas produções até ao dia de hoje.
The Ladies Man é uma comédia de outros tempos. Apesar de ter um ou outro bom pormenor, está muito datada e acho que só agradará aos fãs mais hardcore de Jerry Lewis. Para mim, será sempre puro saudosismo. ●●○○○
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Em 1951 estreava The Day the Earth Stood Still para espanto dos frequentadores de cinema. Em 2008 chegou aos cinemas um remake com o mesmo título. A história de base para esta nova adaptação vem realmente do filme e não do conto original, o que demonstra que por si só o filme já é uma fonte de inspiração directa e o quanto foi marcante. Apesar de passar mais de 50 anos desde a estreia do original, as alterações na história não são assim tão substanciais, o que demonstra também que há qualquer coisa de universal e intemporal na mensagem do filme.
Tal como no original, uma misteriosa nave, agora uma misteriosa orbe verde, aterra na América no Central Park. Junto com outros especialistas, Helen Benson (Jennifer Connelly) é uma cientista que é chamada de emergência para resolver esta crise repentina e responder a questões prementes. De dentro da nave sai um extraterrestre com forma humana - que mais tarde se saberá que se chama Klaatu (Keanu Reeves) - e junto com ele, vem também um ameaçador robot gigante. À chegada, a mensagem de Klaatu é de paz e ele diz que vem salvar o planeta Terra. O choque entre civilizações não corre bem e Klaatu é preso e levado para interrogatório. Mas Klaatu tem alguns truques na manga e consegue fugir com a ajuda de Helen e revela que vem salvar a Terra... dos humanos que sem consciência ecológica têm vindo a destruir o planeta.
As comparações com o filme original são óbvias e o cerne da questão continua a ser o mesmo: o conflito. Mas se no primeiro filme, o conflito era a Guerra Fria e a ameaça era a proliferação das armas nucleares, nesta nova versão, o conflito é ecológico e a ameaça é a obliteração do mundo natural. No resto do filme tudo se mantém mais ou menos igual. Obviamente que tendo as ferramentas digitais ao serviço, Scott Derrickson usou e abusou deste artifício. Até em situações em que não faziam falta nenhuma, mas a necessidade de dar velocidade à acção é quase imperativa hoje em dia. Paradoxalmente é o seu maior problema. Mas por outro lado, ajuda bastante como é o caso do robot GORT que invés de ser uma simples "lata metálica" acaba por aparecer totalmente retransformado e muito mais ameaçador que o original. E muito maior também. E para mim, a grande figura do The Day the Earth Stood Still será sempre aquele robot. Aqui, os upgrades são mais que evidentes. GORT agora é significado de Genetically Organized Robotic Technology, uma espécie de forma biológica composta por milhões de nano-robots devoradores de matéria e auto-replicantes. Uma ideia absolutamente aterradora se pensarmos bem. GORT é tão poderoso, que ao contrário do que aconteceu no primeiro filme em que a electricidade é desactivada temporariamente (daí o dia em que a Terra parou), aqui ela é desactivada mundialmente e de forma definitiva, numa clara alusão à necessidade de refrear o ímpeto de destruição da natureza.
Keanu Reeves encaixa perfeitamente no papel de Klaatu. Reeves nunca foi um actor do meu agrado porque me parece pouco expressivo em termos faciais. Não sei explicar muito bem este fenómeno, mas neste caso (como noutros papéis) acho que fica impecável. Jennifer Connelly é a nova humana "compreensiva" e como actriz, Connelly terá sempre a minha aprovação. O restante pessoal é mesmo muito secundário como é normal nestas produções mais mainstream (Kathy Bates, Jaden Smith e John Cleese) por isso o único destaque terá de ser para o Jon Hamm, não pela performance, mas porque é uma versão moderna do original "Hugh Marlowe", replicando exemplarmente a personagem, ao ponto de copiar inteiramente o look físico original. As personagens são todas muito boas, mas acho que a personagem estereotipada do "humano intolerante e desconfiada" da mudança e da novidade é sempre de realçar...
The Day the Earth Stood Still não sofreu muito com o efeito remake moderno. Continua a ter bons momentos e bons pormenores e acabou por se reinventar com uma nova mensagem anti-conflito, desta vez, enveredando pela questão ecológica e com efeitos mais permanentes. Não afronta o original e vê-se bem. ●●○○○
Tal como no original, uma misteriosa nave, agora uma misteriosa orbe verde, aterra na América no Central Park. Junto com outros especialistas, Helen Benson (Jennifer Connelly) é uma cientista que é chamada de emergência para resolver esta crise repentina e responder a questões prementes. De dentro da nave sai um extraterrestre com forma humana - que mais tarde se saberá que se chama Klaatu (Keanu Reeves) - e junto com ele, vem também um ameaçador robot gigante. À chegada, a mensagem de Klaatu é de paz e ele diz que vem salvar o planeta Terra. O choque entre civilizações não corre bem e Klaatu é preso e levado para interrogatório. Mas Klaatu tem alguns truques na manga e consegue fugir com a ajuda de Helen e revela que vem salvar a Terra... dos humanos que sem consciência ecológica têm vindo a destruir o planeta.
As comparações com o filme original são óbvias e o cerne da questão continua a ser o mesmo: o conflito. Mas se no primeiro filme, o conflito era a Guerra Fria e a ameaça era a proliferação das armas nucleares, nesta nova versão, o conflito é ecológico e a ameaça é a obliteração do mundo natural. No resto do filme tudo se mantém mais ou menos igual. Obviamente que tendo as ferramentas digitais ao serviço, Scott Derrickson usou e abusou deste artifício. Até em situações em que não faziam falta nenhuma, mas a necessidade de dar velocidade à acção é quase imperativa hoje em dia. Paradoxalmente é o seu maior problema. Mas por outro lado, ajuda bastante como é o caso do robot GORT que invés de ser uma simples "lata metálica" acaba por aparecer totalmente retransformado e muito mais ameaçador que o original. E muito maior também. E para mim, a grande figura do The Day the Earth Stood Still será sempre aquele robot. Aqui, os upgrades são mais que evidentes. GORT agora é significado de Genetically Organized Robotic Technology, uma espécie de forma biológica composta por milhões de nano-robots devoradores de matéria e auto-replicantes. Uma ideia absolutamente aterradora se pensarmos bem. GORT é tão poderoso, que ao contrário do que aconteceu no primeiro filme em que a electricidade é desactivada temporariamente (daí o dia em que a Terra parou), aqui ela é desactivada mundialmente e de forma definitiva, numa clara alusão à necessidade de refrear o ímpeto de destruição da natureza.
Keanu Reeves encaixa perfeitamente no papel de Klaatu. Reeves nunca foi um actor do meu agrado porque me parece pouco expressivo em termos faciais. Não sei explicar muito bem este fenómeno, mas neste caso (como noutros papéis) acho que fica impecável. Jennifer Connelly é a nova humana "compreensiva" e como actriz, Connelly terá sempre a minha aprovação. O restante pessoal é mesmo muito secundário como é normal nestas produções mais mainstream (Kathy Bates, Jaden Smith e John Cleese) por isso o único destaque terá de ser para o Jon Hamm, não pela performance, mas porque é uma versão moderna do original "Hugh Marlowe", replicando exemplarmente a personagem, ao ponto de copiar inteiramente o look físico original. As personagens são todas muito boas, mas acho que a personagem estereotipada do "humano intolerante e desconfiada" da mudança e da novidade é sempre de realçar...
The Day the Earth Stood Still não sofreu muito com o efeito remake moderno. Continua a ter bons momentos e bons pormenores e acabou por se reinventar com uma nova mensagem anti-conflito, desta vez, enveredando pela questão ecológica e com efeitos mais permanentes. Não afronta o original e vê-se bem. ●●○○○
Nesta altura de pandemia em que o cinema literalmente parou é uma boa altura para ir ao baú e desenterrar os clássicos. E nada melhor para isso que revisitar uma dos grandes clássicos da ficção científica, The Day the Earth Stood Still, que só pelo título seria um dos melhores filmes para descrever a situação actual.
A história passa-se na altura da Guerra Feira, quando um objecto voador misterioso é detectado a viajar a velocidades impossíveis pela atmosfera da Terra. Para surpresa de todos, o OVNI aterra gentilmente num parque em Washington. O pânico instala-se. Rodeado por forças militares fortemente armadas e hostis, do OVNI acaba por sair o que aparenta ser um homem "normal", acompanhado por um robot. O extraterrestre de forma humana chama-se Klaatu e o seu fiel e robusto robot dá pelo nome de GORT. Apesar da mensagem do extraterrestre ser de que vem em paz, o primeiro contacto entre as duas civilizações é muito pouco encorajador e não corre nada bem, já que um dos militares, em pânico, dispara contra ele. Isto faz com que percebam o enorme poder destrutivo do misterioso robot que o acompanha. Afinal, o que quer Klaatu? Será ele o mensageiro da esperança para um mundo em constante conflito? Ou será apenas o derradeiro ponto final da Humanidade?
The Day the Earth Stood Still é mesmo um dos grandes clássicos de sempre. A mensagem é tão actual agora como o era na época do embate surdo entre as duas super-potências nucleares. É inegável que este filme é um reflexo do seu tempo (a proliferação de armas nucleares), mas a história funciona bem em qualquer altura. Pensando bem, duma forma ou de outra, a humanidade parece que está sempre em conflito. Seja como for, a história é excelente. É baseado no conto de Harry Bates, Farewell to the Master, que diga-se recebeu apenas 500 dólares pelos direitos de autor. Outros tempos, sem dúvida. Não obstante este pormenor, a adaptação para cinema difere do conto: no original, o robot chama-se GNUT e no final revela que ele é que é o mestre do humanóide (que não passa de um clone com pouco tempo de vida) e não o contrário; daí o título original.
Michael Rennie como Klaatu, Patricia Neal como a compreensiva companheira humana e Hugh Marlowe no papel do homem intolerante, tratam dos principais papéis. Mas apesar de estarem todos bem, sinceramente, aqui o principal papel vai mesmo para as implicações de toda a história. Apesar das falhas cientificas (Klaatu diz que vem das profundezas do universo, mas a distancia fornecida é do interior do sistema Solar) que demonstram uma enorme inocência e desconhecimento científico tanto da produção como do próprio publico, The Day the Earth Stood Still tem uma simbologia muito própria que não é visível logo à primeira vista. Por exemplo, o nome terrestre que Klaatu adopta para se misturar com os humanos é "Carpenter" (Carpinteiro) numa clara alusão ao cristianismo que não pára por aqui. O facto de aparecer misteriosamente com uma mensagem de paz, aviso e conciliação; a personagem feminina chama-se "Mary"; e até o facto de Klaatu a determinada altura morrer e ressuscitar também não pode ser coincidência. É uma coisa engraçada que estes filmes antigolas têm: parece que há sempre um segundo sentido para além do que se está a ver.
Na cadeira do realizador está um senhor do cinema que dispensa apresentações, Robert Wise, que fez filmes de todos os estilos e para todos os gostos... e prémios. Para não ser maçador, apenas alguns exemplos para se perceber o calibre do homem: The Sound of Music, The Andromeda Strain, Star Trek: The Motion Picture, The Haunting e West Side Story. Acho que não é possível ser mais ecléctico. No lado sonoro, outra lenda, Bernard Herrmann, o mestre das orquestrações "estranhas". Aqui, o uso do teremim (um instrumento totalmente electrónico) ajudou a cimentar aquela que é "a" música da ficção científica...
The Day the Earth Stood Still continua a ser interessante hoje em dia, mesmo que tenha perdido uma parte da envolvência histórica daquele período marcante da história. Merece pelo menos, um lugar de destaque junto de outros grandes clássicos da ficção científica. ●●●●○
A história passa-se na altura da Guerra Feira, quando um objecto voador misterioso é detectado a viajar a velocidades impossíveis pela atmosfera da Terra. Para surpresa de todos, o OVNI aterra gentilmente num parque em Washington. O pânico instala-se. Rodeado por forças militares fortemente armadas e hostis, do OVNI acaba por sair o que aparenta ser um homem "normal", acompanhado por um robot. O extraterrestre de forma humana chama-se Klaatu e o seu fiel e robusto robot dá pelo nome de GORT. Apesar da mensagem do extraterrestre ser de que vem em paz, o primeiro contacto entre as duas civilizações é muito pouco encorajador e não corre nada bem, já que um dos militares, em pânico, dispara contra ele. Isto faz com que percebam o enorme poder destrutivo do misterioso robot que o acompanha. Afinal, o que quer Klaatu? Será ele o mensageiro da esperança para um mundo em constante conflito? Ou será apenas o derradeiro ponto final da Humanidade?
The Day the Earth Stood Still é mesmo um dos grandes clássicos de sempre. A mensagem é tão actual agora como o era na época do embate surdo entre as duas super-potências nucleares. É inegável que este filme é um reflexo do seu tempo (a proliferação de armas nucleares), mas a história funciona bem em qualquer altura. Pensando bem, duma forma ou de outra, a humanidade parece que está sempre em conflito. Seja como for, a história é excelente. É baseado no conto de Harry Bates, Farewell to the Master, que diga-se recebeu apenas 500 dólares pelos direitos de autor. Outros tempos, sem dúvida. Não obstante este pormenor, a adaptação para cinema difere do conto: no original, o robot chama-se GNUT e no final revela que ele é que é o mestre do humanóide (que não passa de um clone com pouco tempo de vida) e não o contrário; daí o título original.
Michael Rennie como Klaatu, Patricia Neal como a compreensiva companheira humana e Hugh Marlowe no papel do homem intolerante, tratam dos principais papéis. Mas apesar de estarem todos bem, sinceramente, aqui o principal papel vai mesmo para as implicações de toda a história. Apesar das falhas cientificas (Klaatu diz que vem das profundezas do universo, mas a distancia fornecida é do interior do sistema Solar) que demonstram uma enorme inocência e desconhecimento científico tanto da produção como do próprio publico, The Day the Earth Stood Still tem uma simbologia muito própria que não é visível logo à primeira vista. Por exemplo, o nome terrestre que Klaatu adopta para se misturar com os humanos é "Carpenter" (Carpinteiro) numa clara alusão ao cristianismo que não pára por aqui. O facto de aparecer misteriosamente com uma mensagem de paz, aviso e conciliação; a personagem feminina chama-se "Mary"; e até o facto de Klaatu a determinada altura morrer e ressuscitar também não pode ser coincidência. É uma coisa engraçada que estes filmes antigolas têm: parece que há sempre um segundo sentido para além do que se está a ver.
Na cadeira do realizador está um senhor do cinema que dispensa apresentações, Robert Wise, que fez filmes de todos os estilos e para todos os gostos... e prémios. Para não ser maçador, apenas alguns exemplos para se perceber o calibre do homem: The Sound of Music, The Andromeda Strain, Star Trek: The Motion Picture, The Haunting e West Side Story. Acho que não é possível ser mais ecléctico. No lado sonoro, outra lenda, Bernard Herrmann, o mestre das orquestrações "estranhas". Aqui, o uso do teremim (um instrumento totalmente electrónico) ajudou a cimentar aquela que é "a" música da ficção científica...
The Day the Earth Stood Still continua a ser interessante hoje em dia, mesmo que tenha perdido uma parte da envolvência histórica daquele período marcante da história. Merece pelo menos, um lugar de destaque junto de outros grandes clássicos da ficção científica. ●●●●○
The Artist é uma homenagem a um tempo de Hollywood tão distante que a maior parte das pessoas já nem sonha que existiu. A história é sobre o actor George Valentin, uma ubíqua e famosa estrela de filmes mudos que, ao mesmo tempo que se enamora com uma jovem dançarina, começa também a ver a sua carreira entrar em declínio devido ao aparecimento dos filmes "falados".
Homenagem talvez não seja a palavra mais apropriada para classificar The Artist. Acho que reflexão seria a palavra mais indicada. É neste período que se dá uma cisão muito grande no cinema, entre o status quo do mudo e a novidade dos filmes sonoros. Se para os estúdios foi uma oportunidade de inovar e assim chamar novos clientes, para os actores foi uma revolução demasiado disruptiva. Toda a forma de actuar teve de mudar e aconteceu quase da noite para o dia. Estrelas mundialmente estabelecidas como Douglas Fairbanks e Mary Pickford de um momento para o outro ficaram quase no desemprego e e até lendas como Charlie Chaplin se ressentiram. Volátil como sempre, o público queria coisas novas e o novo era o sonoro. O cinema mudo estava condenado juntamente com todas as equipas de produção, estúdios, actores e técnicos que não fizessem (ou não conseguissem) a passagem para o som. Aquele jeito de actuação teatral, tipo pantomina, tinha chegado ao fim...
A personagem de George Valentin é nitidamente Douglas Fairbanks. Aliás, no auge da sua depressão, enquanto vê uns filmes antigos com aventuras do Zorro, na realidade o que se está ver é um filme de Douglas Fairbanks, mas com algumas cenas de close up protagonizadas por George Valentin.
Num filme mudo, a performance dos actores é radicalmente diferente. Tem de ser mais dramática, exagerada e, por vezes, até caricatural porque sem palavras (nem outro som qualquer) é obviamente muito mais difícil de chegar ao público e transmitir emoções. A actuação é uma mistura de emoções físicas que apenas a música de fundo pode acentuar. Não digo que seja mais difícil ou mais fácil, mas parece-me que é outra coisa completamente diferente. E por isso tenho que destacar Jean Dujardin, que sendo obviamente um actor moderno parece ter vindo directamente do tempo do cinema mudo. Está tão perfeito que se fosse possível recuar no tempo e inseri-lo na altura do filmes mudos, acho que o público nunca notaria a diferença. De certa forma é Jean Dujardin desta forma tão verosímil, tão anos 20, tão silencioso e emotivo que dá a sensação de se estar realmente a ver um filme da era do cinema mudo. Está tudo muito bem feito neste The Artist, mas Jean Dujardin é 50% do sucesso do filme. Uma performance que merece todos os prémios e mais alguns.
No sentido contrário, o resto do casting não salta tanto à vista. Bérénice Bejo, John Goodman, James Cromwell e Penelope Ann Miller servem bem como actores de suporte mas não passam muito disso. No caso de Bérénice Bejo o caso é ainda mais gritante, porque é peça fundamental do argumento. Não é que Bejo esteja mal, mas simplesmente não se sente a química nem o romance entre os dois actores. Há muito mais química negativa entre Jean Dujardin e Penelope Ann Miller em breves minutos (que era a intenção do argumento, num casamento em decadência) do que química positiva entre os dois amantes durante o filme todo. A discrepância entre Bérénice Bejo e Jean Dujardin é tão grande que para mim é mesmo a grande falha do filme. E claro que não podia deixar passar em branco a minúscula participação de Malcolm McDowell.
O filme é muito fiel àquela altura do cinema e muito pormenorizado (até tecnicamente) ao ponto de ser filmado com menos frames para dar aquele look acelerado tão típico dos filmes da era muda e até na própria proporção do ecrã que usa. Não fazia muito sentido simular um filme mudo sem ser naquele enquadramento 4:3 meio "quadrado", pois não?
The Artist é uma pequena pérola que, passado o impacto e choque inicial de se perceber que o filme vai ser totalmente mudo, irá deliciar a maior parte do público. A música não começa muito bem (parece algo dessincronizada da acção), mas depois ajusta-se perfeitamente para suportar emocionalmente todas as cenas. A história de decadência, regresso e reatamento amoroso é universal, por isso nunca falha. E aquele final simpático a fazer a transição para os grandes filmes musicais dos anos 30 e 40 (grande cena de dança, já agora) é simplesmente perfeito. Nota-se que foi um filme muito bem pensado mesmo antes de chegar a ser filmado e daí um enormíssimo destaque para Michel Hazanavicius, quer seja pela realização, pela preparação ou pela escrita. Até no pormenor de a primeira palavra a ser proferida em todo o filme ser "cut" e a última a ser "action" para dar uma continuidade pós-filme. Muito bom. Muito bem pensado. The Artist vê-se muitíssimo bem e é totalmente recomendado. ●●●●○
Alguns factos curiosos que encontrei nas minhas pesquisas. Este foi apenas o segundo filme mudo a ganhar prémios nos Óscares. O primeiro tinha sido Wings em 1927. A última vez que um filme totalmente a preto e branco tinha ganho o maior galardão de Hollywood tinha sido em 1960 com The Apartment. Se as referências a antigas estrelas do cinema mudo são constantes, elas chegaram aos rcenários. A casa da personagem de Peppy Miller é na realidade a antiga casa de Mary Pickford que mais tarde viria a casar com Douglas Fairbanks, uma lenda do cinema mudo, cuja vida e carreira, sem dúvida nenhuma é a base para este The Artist. Entre outros pormenores, notei também naquela cena aberta da escadaria, que havia ali algo familiar; descobri que aquela enorme construção metálica de escadas é nada mais nada menos que o átrio do Prédio Bradbury... onde foram filmadas algumas das cenas mais icónicas de Blade Runner... há coisas que não consigo mesmo esquecer... Mas para mim, o facto mais curioso de todos, foi ter sido necessário uma equipa europeia, fazer um filme europeu (é tudo francês...) para mostrar uma faceta de Hollywood de uma forma que Hollywood nunca teve capacidade de fazer. Isso sim, é que é curioso...








