James Ivory decidiu embrenhar pelo mundo dos artistas e não se deu nada bem. Surviving Picasso retrata um período da vida de Picasso em que ele se apaixona por Françoise Gilot, uma jovem pintora que acabou por ser a única mulher forte e capaz o suficiente para "sobreviver" ao portento criativo de Pablo Picasso. Não só lhe sobreviveu como também foi a única capaz de o deixar e continuar com a sua vida...
Nos principais papéis há Anthony Hopkins como Pablo Picasso, Natascha McElhone como Françoise Gilot e depois há também em papéis mais secundários, nomes como Julianne Moore, Joss Ackland e um novíssimo e quase irreconhecível Dominic West como Paulo Picasso.
Surviving Picasso é muito fraquinho. Logo à partida há uma enorme falha que é a ausência das obras de Picasso. Acho incompreensível fazer o que quer que seja minimamente relacionado com Picasso e não mostrar um único quadro do mestre... No entanto, há uma razão para isso. Não existia uma autorização expressa para se poder mostrar as obras de Picasso. A família opôs-se ao filme e não autorizou que se usassem reproduções das obras. Só isto retira muita estética ao filme, já para não dizer que se perde imenso valor estético e uma parte substancial da história. Até porque existe uma relação quase simbiótica entre as mulheres e os períodos estéticos de Picasso...
Mas para além disso, o filme é relativamente inócuo. A fotografia é fraca, não tem nenhum pormenor relevante na realização, a banda sonora é quase inexistente... Não quero estar aqui a bater mais no ceguinho...
Não fosse as boas interpretações dos actores principais e este Surviving Picasso teria sido uma desgraça total. Parece um daqueles biopics feitos para televisão. Não gostei nada. Se a intenção era mostrar um pouco mais Gilot para além de Picasso fizeram-lhe um muito mau serviço. O filme serve acima de tudo para mostrar como Picasso tudo dominava e ninguém saia incólume da relação... que é exactamente o oposto daquilo a que se propunha. Apesar da premissa, o retrato de Françoise Gilot figura mais como acompanhante de Picasso do que peça principal... é um falhanço total para James Ivory. Acontece aos melhores... ●○○○○
Durante muitos anos ouvi e li sobre este The Omen. Era suposto ser um filme terrorífico... mas não é. Este é um dos problemas de ver os filmes fora de tempo. Em 1976 imagino que deve ter gerado um escândalo do tamanho do mundo. Mas agora, no contexto actual, admito que perdeu um pouco de "poder de fogo"...
The Omen conta uma história bizarra. O embaixador americano em Roma (Gregory Peck) e a esposa (Lee Remick) têm uma vida do melhor que a vida tem para oferecer. Mas falta-lhes algo muito importante: um filho. Há muito tempo que pensam ter filhos, mas parece que nunca se vai tornar realidade, por motivos vários. Mas um dia lá acaba por acontecer e a Katharine vai finalmente ter o tão desejado filho. No entanto, a criança morre à nascença no hospital e Robert em desespero decide seguir a sugestão de um padre e adoptar uma criança nascida exactamente no mesmo momento, mas cuja mãe morreu em trabalho de parto. Mas para complicar todo este assunto, Robert omite essa importante parte à esposa...
Depois de se mudarem para Londres, estranhos acontecimentos começam a persegui-los. Para piorar ainda mais a situação, Robert começa a ser perseguido por um padre que sabe da situação da troca dos bebés e lhe confidencia que o seu filho, é nada mais nada menos que o próprio Anticristo...
Richard Donner realizou um dos grandes filmes de terror de sempre. E é tudo por causa da história que é mesmo totalmente bizarra. Será que a criança é mesmo o Anticristo? Será que o embaixador estará apenas a alucinar? A paranóia e dúvida são constantes até determinado ponto do filme. É um retrato realista de uma família em crise e à beira de um ataque de nervos. A atmosfera muda completamente quando se percebe que toda aquela história estranha é mesmo verdade e aí o filme torna-se numa perseguição até à morte. The Omen tem uma constante aura carregada e vai-se tornando cada vez mais alucinante até culminar naquele momento icónico de termos o pai, num altar a sacrificar o filho possuído... Será que ele consegue ter força mental suficiente para matar mesmo o miúdo?...
Talvez o melhor do filme esteja mesmo na parte final e naquele sorriso verdadeiramente maléfico de Damien. Mas curiosamente, na versão original do argumento a história termina de forma diferente. Foi a MPAA (Motion Picture Association of America, que durante muito tempo foi a responsável pelos ratings etários dos filmes e por tabela "mandava" nos filmes) que decidiu que o final original era demasiado chocante... e que deveria acabar como aparece na versão final. Não deixa de ser irónico pensar que se o bem vence é chocante, mas é totalmente aceitável que o mal triunfe... Estranho, não é? ●●●○○
P.S. Sempre que se fala neste tipo de filmes de terror, mais espiritual, parece que têm sempre uma maldição associada para além da sua mitologia sinistra. Acredite quem quiser... Gregory Peck e o argumentista David Seltzer foram atingidos por raios nos seus aviões quando voltavam para filmagens no Reino Unido.... O produtor Harvey Bernhard quase foi atingido por um raio em Roma... Os rottweilers que foram usados no filme atacaram violentamente os seus próprios tratadores... O hotel onde Richard Donner estava hospedado foi bombardeado pelo IRA... e para além disso foi atropelado nas filmagens... Depois das filmagens, Gregory Peck ia para Israel de avião, mas teve de cancelar a viagem. O avião onde deveria ir cai e não houve sobreviventes... No primeiro dia de filmagens, várias pessoas envolvidas na rodagem do filme sobreviveram a um acidente grave de carro. Já na pós-produção do filme, John Richardson dos efeitos especiais, teve também um acidente de carro grave, e a namorada foi decapitada... É a velha questão... Não acredito nas bruxas, mas...
O famoso escritor de livros de crime e mistério, Harlan Thrombey (Christopher Plummer) é encontrado morto na sua casa. Logo após fazer 85 anos, para grande surpresa de todos os familiares, ele suicida-se sem nenhuma razão aparente... Paralela e misteriosamente, o conhecido detective Benoit Blanc (Daniel Craig) é convencido por um desconhecido a resolver este enigma que parece mais um assassinato premeditado do que um suicídio casual. Começando com esta premissa, Blanc vai conhecendo aos poucos a família disfuncional do velhote. E, de repente, todos parecem de alguma forma culpados do suposto crime... Knives Out é um filmito de detectives escrito e realizado por Rian Johnson - muito ao estilo de Hercule Poirot -, e é totalmente aceitável. Nada de novo, nada de muito surpreendente, mas muito aceitável. O enredo é algo básico e a partir de determinado momento até se torna previsível, mas consegue "agarrar". Os actores são todos muito bons (Chris Evans, Ana de Armas, Jamie Lee Curtis (que classe... uma lady em qualquer filme), Michael Shannon (sempre muitíssimo bem), Don Johnson (regressado ao mundo dos vivos...) e Toni Collette (nunca falha esta mulher...) e isso ajuda bastante. Só não percebi aquele sotaque estranho na personagem de Daniel Craig. Será para o descolar da pele de James Bond? Pois não sei...Knives Out tem o seu quê de inteligência e suspense, misturado com alguns momentos de comédia e por isso vê-se bem e não chateia. É esquecível, mas não chateia nada. ●●○○○
O livro da Agatha Christie, Murder on the Orient Express é vagamente inspirado no famoso caso Lindbergh, que envolveu raptos e mortes. Se a história real já é mais estranha que a ficção, o livro da Agatha Christie sublima ainda mais o enredo. É das melhores e mais bem construídas histórias policiais que conheço. Não admira que já vá para aí na quarta adaptação. Mas tudo começou aqui com este Murder on the Orient Express realizado por Sidney Lumet.
Mas antes de mais nada tenho de afirmar que este livro nunca mais devia ser adaptado para cinema. Quer dizer, "nunca mais" também é um bocado radical. Uma adaptação de dez em dez, ou vinte em vinte anos, apenas para uma nova geração de espectadores que não se dão ao trabalho de ir ver o que está para trás. Esta história em particular não deixa margem de manobra para nada. O final é tão epicamente surpreendente que é impossível de ser mudado. E um realizador que pegue novamente na história vai estar sempre preso a ele. Se não muda o filme, vai de encontro a todas as outras adaptações já feitas, mas se muda alguma coisa, irá estar a desvirtuar a história, e ainda por cima não estou a ver em que é que possa ser melhorada. É a velha questão de ser preso por ter cão e ser preso por não ter...
Esta adaptação de Sidney Lumet, surpreendentemente (vindo de quem vem) nem é grande espiga, apesar de estar tudo muito bem feito. Na altura da estreia foi um sucesso precisamente por ter sido a primeira adaptação, mas tirando isso, não é um filme muito satisfatório. O look anos 70 também não ajuda. A história da Agatha Christie é espectacular, mas o twist final só funciona uma vez. E de cada vez que vejo um nova versão acabo por me entediar... É basicamente o que dizia no início... É a verdadeira faca de dois gumes. Estranhamente isto também se aplica neste filme, porque entretanto já vi todos os outros filmes antes deste. Para uma pessoa que veja o filme agora, pela primeira vez, ele acaba por funcionar como mais uma versão da história.
Ainda por cima esta primeira tentativa cinematográfica não tem uma estética forte e aquelas carruagens e cenários exíguos também não davam muita margem de manobra para uma grande realização. Quer dizer, Lumet realizou um dos grandes thrilllers do cinema apenas numa sala... Bem, mesmo os grandes realizadores têm os seus maus momentos... O grande apelo do filme acaba por residir nos actores. E nesse aspecto é um festim de lendas do cinema... Albert Finney, Lauren Bacall, Ingrid Bergman, Jacqueline Bisset, Jean-Pierre Cassel (pai do Vincent Cassel), Sean Connery, John Gielgud, Anthony Perkins, Vanessa Redgrave, Michael York... e a lista continua... Tudo muito bem, com um pequeno reparo... Albert Finney como Hercule Poirot... não!. Reconheço o esforço na criação da persona, mas não. Aquele não é o Poirot que existe na mentalidade colectiva. Tem a sua piada de vez em quando, mas acho que está desfasado da "realidade". Não "é" o Poirot... é um actor a esforçar-se ao máximo para tentar ser o mais parecido possível com "o" Poirot, que como toda a gente sabe foi encarnado no eterno David Suchet.
Esta primeira versão de Murder on the Orient Express não está má, mas podia ter sido muito melhor. Digamos que foi uma boa primeira tentativa... ●●●○○
PS: Sem querer estregar o filme, fica apenas a informação que dos mais de 70 livros que Agatha Christie escreveu, este é o único em que no final o verdadeiro assassino não é levado à justiça... Mas só vendo para se perceber como a justiça acaba por realmente ser bem empregue... A última vez que Agatha Christie apareceu ao público foi para ver este filme na estreia... Curioso, não é?...
Um satélite cai numa zona remota dos Estados Unidos, perto de uma pequena povoação. Quase imediatamente, toda a população do local morre. Há apenas dois sobreviventes, o bêbado da zona e um bebe recém-nascido. Porque é que apenas estes dois não foram afectados? O que é que podem ter em comum que os torna imunes? É um mistério... O satélite com a misteriosa doença é levado para umas instalações secretas de máxima segurança onde será minuciosamente analisado por um grupo de cientistas de topo que tentarão perceber o que causa a morte a quem entra em contacto com o satélite. Como se não fosse já stressante o suficiente estar metido debaixo de terra com uma arma biológica que ninguém entende como mata, ainda por cima, as próprias instalações acrescentam um nível extra de stress. As instalações têm um sistema de segurança extremo: se houver uma fuga de material biológico, as instalações entram automaticamente em auto-destruição nuclear e há apenas uma pessoa com capacidade de anular a destruição... e tem apenas 5 minutos para o fazer. The Andromeda Strain não é fantástico mas roça o muito bom. Os cenários futuristas... muito bons. Aqueles split screens da acção com fotos dos acontecimentos... mítico. Mas principalmente destaco a base cientifica (e especulativa) que é muito boa. É um filme que se nota que teve muito cuidado na preparação e na concepção. A demonstração científica de como se faz toda a descontaminação e o estudo de um acontecimento hipotético deste género é muito bom. O facto de tentar induzir um grau de realismo, quase documental a todo o filme, é excepcional. Para isso também ajuda um casting de actores com muito pouca projecção internacional e que vinham essencialmente das produções de TV da altura (Arthur Hill, David Wayne, James Olson e Kate Reid), que transmitem a sensação de estarmos mesmo a ver cientistas a trabalhar, ao invés de estar a ver o "grande nome" de Hollywood a fazer exemplarmente de "cientista". Muito inteligente esta aproximação.
Não se pode esconder que este The Andromeda Strain está muito datado no tempo, mas isso não lhe retira nenhum mérito. Grita por um remake que até já recebeu o apelo dos produtores Ridley e Tony Scott, que adaptaram o romance de Michael Crichton para um mini série de dois episódios em 2008. A nova história é pouco difere desta, o que prova que o original já tinha todos os condimentos modernos de um muito bom techo-thriller. Robert Wise é um mestre à frente do seu tempo. Há por aqui coisas que são ficção científica mas com o passar do tempo se tornaram em facto científico. E o cerne de toda a questão - uma nova forma de vida biológica proveniente do espaço, tipo vírus - continua a não ser desenvolvida em nenhum meio actual, o que demonstra que o pessoal antigo tinha muito mais imaginação e tomates para pegarem em temas deste género, comparativamente ao pessoal de agora, que tem todos os meios possíveis e imaginários para fazer coisas deste género... The Andromeda Strain é um clássico da ficção científica altamente recomendado, principalmente nesta altura estranha do mundo envolto em pandemia... ●●●○○
Rodin foca-se na vida do famoso escultor num específico espaço de tempo e eventos. O momento é o da criação da famosa estátua de Balzac, na altura muito mal recebida, mas que agora é reconhecida como uma das obras mais importantes da escultura moderna. O evento é o romance tórrido e conturbado com Camille Claudel e a posterior separação entre ambos. Em pano de fundo surge também, uma obra escultórica que teve influência directa dos dois artistas, A Porta do Inferno, baseada na obra de Dante.
A premissa e o núcleo central do enredo são muito bons, os intervenientes têm muita coisa para dizer e mostrar, mas no geral, o filme acaba por ser uma decepção. Por muito que goste de Rodin - e é sem dúvida um dos meus artistas favoritos - é preciso compreender que a maior parte do público não conhece a personagem. Quem tiver pouco conhecimento da vida e da obra do mestre escultor nunca vai perceber o filme e vai literalmente estar a olhar para uma tela "vazia" a tentar perceber o que é que se passa. Neste caso, uma escultura em fase de criação... Bastava uma pequena introdução para dar um melhor contexto ao filme. Auguste Rodin, apesar de ser unanimemente considerado o percursor da escultura moderna, era na realidade um homem "comum". Tentou por três vezes ingressar na Faculdade de Belas Artes e por três vezes foi recusado, o que exemplifica bem o quanto o ensino artístico tem para oferecer e reconhecer em termos de conhecimento estético... Mas isso é outra história... Rodin era efectivamente um autodidacta. Não aprendeu com ninguém. "Ensinou-se", no seu próprio estilo. Acho que meia dúzia de linhas no início do filme a explicar quem é o protagonista, permitiriam entrar melhor no mundo de Rodin e Claudel. Sem esta introdução, uma pessoa fica algo perdida na história, como se entrasse a meio do filme sem perceber nada do que aconteceu antes...
Mas esse nem é o principal problema deste Rodin. O problema está em tudo o resto. A realização de Jacques Doillon é fraca, dura e seca como um pedaço de pedra antes de ser trabalhado por um escultor. Percebo a lógica (se é que ela existe), mas não gosto do tom demasiado cru e austero. É um filme que parece uma adoração a uma fotografia antiga e acinzentada de uma estátua. Há uma música deslavada no início e outra no fim, perto dos créditos. Pelo meio, sempre os mesmos planos fixos envoltos em silêncio. As obras dos dois artistas que deveriam na realidade ser a grande mais valia, pouco ou quase nada são intervenientes... Não gostei nada disto. Rodin é um dos meus artistas favoritos e por isso acho que este filme fez-lhe pouca ou nenhuma justiça... Vale a interpretação de Vincent Lindon e Izïa Higelin e pouco mais. Não há tensão, não há carga emocional... Tudo é uma estátua de pedra sólida neste filme. Estaria de acordo com esta aproximação, não fosse o tema central deste tal "momento" o romance de Rodin e Claudel... É um contrasenso... Tudo junto, parece um daqueles telefilmes ou documentários que recriam a vida de uma pessoa famosa... Uma decepção enorme. ●○○○○
Um jovem vai entregar um carro de um stand ao dono e para isso vai ter de conduzir longas horas de um estado americano para outro. Entediado com a longa viagem solitária, oferece boleia a um desconhecido numa noite de chuva intensa. A viagem é longa e feita pelo meio do deserto onde abundam estradas intermináveis. Os problemas começam de imediato quando ele descobre que o homem da boleia é na realidade um assassino em série que tem cometido crimes horríveis por aquela estrada fora. Para além de o perseguir, o assassino acaba também por incriminá-lo de vários crimes, levando-o a ser confrontado e perseguido pela polícia... A sua única ajuda é uma simples empregada de restaurante... Um gato persegue as suas presas e brinca com elas até as matar. O prazer do gato nunca está na perseguição... está no doce sabor do medo. É assim que eu vejo este The Hitcher. Um perseguição infindável, cheia de cantos obscuros, reviravoltas e volte faces inesperados, em que o actor principal é manipulado pelo vilão e não parece ter saída possível do pesadelo em que caiu... The Hitcher está muito bem feito e muito bem realizado por Robert Harmon. Tem uma grande fotografia cheia de planos enormes do deserto com aquelas excelente cores de fundo. As poucas, mas fantasticamente bem filmadas e intensas cenas de acção, estão muito bem equilibradas com as cenas calmas de suspense... um gajo nunca sabe quando o assassino vai aparecer para infernizar a vida do jovem condutor...
Grande performance dos dois actores principais (C. Thomas Howell encarna muito bem a personagem que entre numa espiral descendente), mas facilmente se destaca o Rutger Hauer que aqui está quase no nível mítico do Blade Runner. As nuances, as expressões... Sem dizer uma única palavra, Hauer consegue transmitir perigo e loucura em cada imagem. Um dos filmes pelo qual será sempre recordado. Aqui criou-se um dos grandes vilões do cinema. Uma palavrinha para Jennifer Jason Leigh numa das primeiras aparições em cinema e que só acrescenta qualidade ao casting.
Na altura que o vi, há muitos anos atrás, The Hitcher era teoricamente um "típico" filme de videoclube dos anos 80 (estava no lote daqueles filmes a granel de que nunca tinha ouvido falar e não esperava que fossem sequer bons), mas que se revelaria como uma enorme surpresa. Um gajo aluga um filmito e espera umas cenas básicas de acção e terror e acabar por lhe sair um dos grandes thrillers do cinema... Recomendado. ●●●●○
Se há filmes que me marcaram profundamente, este é certamente um deles. Umas semanas antes de ver o filme, estava eu a ler o livro "Wild at Heart - The Story of Sailor and Lula" do Barry Gifford. Depois do filme, cheguei à estranha conclusão de não perceber quem adaptou o quê: se o filme adaptou o livro, se o livro adaptou o filme. É que o livro varreu-se da mente. Já o filme ainda aqui está... É estranho, eu sei. Mas o David Lynch não é propriamente um gajo normal. Mexe com o cérebro de uma pessoa.
Em Wild at Heart, Lula e Sailor estão louca e perdidamente apaixonados. Parecem certos um para o outro mas há um entrave pelo meio: Marietta Fortune, a mãe psicótica de Lula que enlouquece um pouco mais sempre que imagina os dois juntos. Ela tem um breve momento de sossego quando Sailor, num acto tresloucado, à frente de toda a gente, esmaga a cabeça de um assassino contratado para o matar. (Que abertura de filme!...) Assim que sai da prisão, Sailor volta para os braços de Lula e acabam por fugir para a Califórnia... mas Marietta contrata um novo assassino para os perseguir. Indiferentes a tudo isto, os dois amantes seguem estrada fora... até que passam por acidente de automóvel e assistem à morte duma jovem. Aí percebem que algo vai correr muito mal com eles.
A viagem de Sailor e Lula é povoada pela criaturas e personagens mais maradas e estranhas que se possam imaginar. Saído da mente perturbada e negra de David Lynch é exactamente isso que se espera. Aquela belíssima negritude... Aquela "estranheza" estranhamente atraente... O seja, o mundo de David Lynch... Bobby Peru, por exemplo, é uma das personagens mais nojentas, odiosas e maradas que me lembro de ver num filme. É tão asqueroso e tão estranho que nunca mais me saiu da cabeça... Mas é por isso mesmo que se vê um filme do Lynch, não é verdade? Há por ali coisas que não se vê em mais lado nenhum. Nicolas Cage é Sailor Ripley e Laura Dern é Lula, e juntos fazem um dos casais do cinema mais "fora" que me lembro. Acho que se pode dizer claramente que Cage tem aqui o seu melhor papel e melhor interpretação de toda a carreira... Como as personagens são todas muito boas, os actores têm muita margem de manobra para brilhar. Willem Dafoe como Bobby Peru é inesquecível. Mas há muito mais: J.E. Freeman, Isabella Rossellini, Harry Dean Stanton, Pruitt Taylor Vince, David Patrick Kelly, Jack Nance (o actor fetiche de Lynch) e as jovens Sheryl Lee e Sherilyn Fenn que se tornariam estrelas mundialmente conhecidas graças a... Twin Peaks. Nicolas Cage e Laura Dern são obviamente as figuras centrais da história, mas a Marietta Fortune interpretada pela excepcional Diane Ladd está no mesmo nível de loucura e intensidade dramática. Ainda por cima se pensarmos que Diane Ladd é na realidade a mãe de... Laura Dern. Tudo aqui são coisas estranhas... Wild at Heart ainda é para mim o melhor filme de Lynch. O mais estranho, o mais violento e o mais fantástico e simbólico de todos. É aquele universo negro trágico e de alguma forma, cómico ao mesmo tempo. Tudo é simbólico, tudo é relativo e tudo pode significar outra coisa qualquer. Wild at Heart não é um filme fácil de ver. É graficamente violento e sexualmente explícito. Tem um banda sonora absolutamente espectacular, mas da pesada que não será de certeza do agrado da maior parte do público. É uma mistura psicotrópica entre a Alice no País das Maravilhas e o Feiticeiro de Oz. Wild at Heart é todas estas histórias estranhas para crianças como se elas fossem originalmente feitas para adultos.
Este foi o primeiro 'Lynch' que vi na minha vida e marcou-me para sempre e ainda por cima numa verdadeira sala de cinema, o que ainda magnificou mais o efeito. Aquelas músicas... As imagens... As chamas num fundo negro... O sangue... Desde esse momento - que se pode considerar como traumático -, nunca mais vi o filme. Mas na realidade, o "corte" mental foi tão profundo que ele nunca mais de cá saiu. Wild at Heart é mais que um filme. É uma experiência cinematográfica que dificilmente se esquece. Para mim, é uma referência. Um dos meus filmes preferidos de todos os tempos. ●●●●● + ●
Quando se trata de filmes épicos há um que me preenche logo o cérebro: The Ten Commandments. Uma temática religiosa, a gigantesca histórica da vida de Moisés e até os 220 minutos de filme, acho que são os principais atributos para classificar uma verdadeira obra prima épica. 14.000 extras. 15.000 animais. Só a quantidade e o tamanho impressionam. E também torna muito difícil falar sobre o filme. A extensão, a complexidade, as implicações religiosas e a horda de técnicos e actores... É tanta coisa que o filme já tem a sua própria mitologia associada. É material que daria para encher vários livros... E depois ainda há a questão da transversalidade do público... Devido às constantes reposições, acho que dos 7 aos 700 anos, toda a gente já viu pelo menos uma vez o The Ten Commandments.
Toda a história se centra na mítica figura de Moisés e da libertação do povo judeu que se encontra escravizado pelos poderosos egípcios. A história é longa e complexa demais para ser aqui resumida, até porque tem muitas reviravoltas, mas vou tentar.... Após ter sido apanhado nas margens do Nilo, Moisés é adoptado pela irmã do Faraó e torna-se um dos príncipes do Egipto. No entanto, a história dá uma volta de 180 graus quando se descobre que as suas origens são judias e é expulso pelo novo Faraó, sendo encaminhado para uma morte certa no deserto... No caminho, Moisés encontra Deus que o incumbe de voltar ao Egipto para libertar os judeus da longa e penosa escravatura a que estiveram sujeitos...
A história é bíblica e como tal é naturalmente épica. E longa. Com uma história deste calibre na base, The Ten Commandments só poderia ocupar o panteão dos grandes filmes do cinema. Tudo aqui tem proporções enormes. Do tamanho gigante dos cenários ao número e qualidade dos actores. Charlton Heston, Yul Brynner, Anne Baxter, Edward G. Robinson, Yvonne De Carlo, Debra Paget, John Derek, Cedric Hardwicke, Nina Foch... a lista é interminável, tal é a quantidade de personagens que povoam esta história. Até Vincent Price e John Carradine aparecem por aqui. Mas entre todos há dois nomes que brilham com mais intensidade: Charlton Heston e Yul Brynner. Não consigo separar um do outro e a culpa será sempre deste filme. Sou um fã incondicional destes dois monstros do cinema. São duas lendas eternas. Juntamente com eles, há que destacar outra figura mítica: o produtor e realizador Cecil B. DeMille que festejou os seus 75 anos durante a filmagem, tornando-se na altura, o mais velho realizador em actividade. Este seria também o seu último filme, mas deixaria para trás uma carreira de 80 filmes (WTF?!) que ainda me esforço por arranjar e conseguir ver. Isto quer dizer que DeMille conseguiu fazer algo que mais nenhum realizador conseguiu: ter no seu último filme a sua maior e mais cara produção e ao mesmo tempo o maior sucesso de bilheteira da carreira. É obra. Não só o filme é mítico e os actores lendários como também o realizador é de outro calibre que não se encontra hoje em dia. Cecil B. DeMille sofreu um enfarte durante a produção. Foi ao hospital para ser tratado e voltou dois dias depois para completar o filme. Mítico é a única coisa que se pode dizer.
Como toda a gente já viu o The Ten Commandments (provavelmente mais que uma vez), acho que não vale muito a pena falar sobre o filme. Há muitos outros pormenores para além disso. Como por exemplo a voz omnipresente de Deus que não está creditada a nenhum actor. Apesar dos muitos efeitos que tornam a identificação quase impossível, ao longo dos anos tem-se especulado que o realizador ou o Charlton Heston tenham sido os donos da voz. Também se pode referir que na realidade, The Ten Commandments é um remake... do filme original de 1923 realizado por... Cecil B. DeMille.
Um outro pormenor que sempre adorei é a introdução que o próprio DeMille faz do filme, saindo de trás das cortinas para apresentar a história e questionar as pessoas: "O tema deste filme é se os homens devem ser governados pela lei de Deus ou pelos caprichos de ditadores como Ramsés. Serão os homens propriedade do estado ou serão almas livres perante Deus? Esta mesma dúvida e batalha continua ainda hoje em dia por todo o mundo. A nossa intenção não foi a de criar uma história, mas sim de ser dignos desta história divinamente inspirada, e que foi criada há três mil anos atrás. Esta história demorará três horas e trinta e nove minutos para se desenrolar. Haverá um intervalo. Obrigado pela vossa atenção." Uma apresentação deste género é verdadeiramente... épica.
Apesar de ser uma obra cinematograficamente intocável, não é absolutamente perfeito. Se os efeitos especiais (que são uma parte importante de todo o enredo) eram absolutamente bombásticos na altura e deixavam toda a gente de boca aberta, hoje deixam um sorriso melancólico quando vistos com olhos actuais. Nestes aspectos mais técnicos, obviamente ficou datado, mas até isso acaba por funcionar bem, porque lhe confere uma certa "antiguidade". Se os efeitos fossem muito mais "modernos" acho que até seria mais prejudicial. O problema não foram os efeitos, mas pequenas coisas espalhadas pelo filme. Não consigo deixar de mencionar que, por exemplo, no final, aquele envelhecimento muito mal concebido e aquelas barbas ostensivamente falsas e postiças do Moisés. São coisinhas minúsculas deste género, que não acho que mereçam ser muito pormenorizadas, mas que obviamente marcam-me. Até me sinto mal por estar a apontar isto a uma obra da dimensão de The Ten Commandments, mas a verdade é que alguns pequenos pormenores afectam negativamente a perfeição total do filme... Mas lá está, isto é estar a ver as coisas ao microscópio e ir ao mais ínfimo pormenor. Quando isto acontece é porque tudo o resto é mesmo muito bom e muito bem feito. Epicamente bem feito. The Ten Commandments é verdadeiramente a personificação do filme épico e garantiu consensualmente um lugar na história do cinema. É parte essencial do meu imaginário cinematográfico. Completamente obrigatório. ●●●●●
Normalmente nunca diria isto, mas vou ter de o dizer... Idiocracy é um dos piores filmes que já vi na minha vida... mas que vale a pena dar uma vista de olhos. Por muito estranho que pareça é mesmo verdade. Apesar do filme ser mesmo mau, o cerne do filme merece uma reflexão, nem que seja só por 10 minutos.
Um soldado americano (Luke Wilson) é escolhido para uma experiência secreta envolvendo hibernação prolongada. Ele foi escolhido por ser um gajo absolutamente mediano e sem ligações familiares. Junto com ele vai também participar uma prostituta (Maya Rudolph), "emprestada" pelo seu chulo a troco de favores. A experiência acaba por correr mal devido a uma escândalo com o chulo, e o que deveria ser uma coisa com duração de um ano, acaba por ser esquecida e prolongar-se por 500 anos. Quando o soldado mediano finalmente acorda no futuro, 500 anos mais tarde, descobre que a inteligência foi extinta e que a América é uma sociedade tão estupidificada que ele é seguramente o humano mais inteligente à face da Terra. É então escolhido para resolver uma série de problemas... resultado de causas verdadeiramente estúpidas. Idiocracy está num limbo. Teoricamente é uma comédia de ficção científica, mas na realidade nem é uma coisa nem outra. Como comédia é um contrassenso pois para além de não ser nada cómico, ainda por cima é um tipo de comédia que só é apelativo para o tipo de pessoal que está literalmente a criticar. Como ficção cientifica é mesmo só porque se passa no futuro, porque nem a história é nova (ou original) nem sequer o tema é muito aprofundado para além dos óbvios sketches. Para além disto, o próprio filme esteve envolvido numa disputa bastante feia com os estúdio da Fox. O que é absolutamente compreensível vendo o teor do filme. Até a Foz News é descaradamente gozada... Os estúdios ficaram com o filme completamente feito em carteira durante um ano e só o distribuíram em meia dúzia de cinema, sem promoção nenhuma, sem trailers, sem nada. Foi mesmo só para cumprir o contrato que previa a estreia em cinema. E depois o filme desapareceu do público... Idiocracy merece destaque precisamente por causa disto tudo. Como é possível que um filme que é essencialmente mal feito, sem distribuição, sem marketing, sem trailer e que quase caiu no esquecimento se torna uma referência da comédia politica entre os críticos e o público e ainda arranja o "título" de filme de culto? É um mistério.
Mas se há uma resposta certa, acho que é por o filme tocar num ponto muito sensível, e basicamente, por apontar para o elefante no meio da sala da América... A estupidez. Não vale a pena estar aqui com grandes rodeios. A América, outrora o grande centro de mentes brilhantes está a tornar-se cada vez mais estúpida. Uma maioria de pessoas elegeu o Donald Trump como presidente, portanto está tudo dito. Não é por nada que Mike Judge, o realizador que já tem créditos como o criador, produtor e dono das vozes de Beavis and Butt-Head, tem sido referido como um grande profeta. Depois de Donald Trump como presidente, acho que ninguém estranharia muito se agora fosse eleito um wrestler (como a personagem de Terry Crews) ou um culturista sem qualquer formação política ou social. De certa forma o filme é premonitório por ir mais além do racional e mostrar que o ridículo se pode tornar realidade, e também porque sendo uma comédia pode brincar com todos estes temas muito sérios. Muita vezes vi referida até a expressão: "o filme que lentamente se vai tornando num documentário social"... É estranho, mas é verdade. A linguagem utilizada, já muito longe do inglês, cheia de jargão e siglas... Uma comunidade manipulada e controlada por grandes corporações que apenas querem que a sociedade seja uma população de consumidores acéfalos... As séries e filmes sem continuidade tipo jackass que estreiam em primeiro lugar nos cinemas americanos... A omnipresente hipersexualização... de tudo, basicamente... As pilhas de lixo infindáveis provocadas por um consumismo desenfreado... Enfim... a realidade que ninguém quer ver ou admitir...
A realidade é que esta ficção é bem mais real e muito menos futurista e utópica do que parece. Este tema do homem que acorda no futuro para perceber que a humanidade se estupidificou ao ponto de quase se aniquilar não é nova. No Time Machine do H.G. Wells isto já é em parte mencionado. No conto The Marching Morons de Cyril Kornbluth também já se trata da temática sobre o que é que acontece quando se tem uma sociedade em que a população se expande exponencialmente e ao mesmo tempo há uma uma falta de pressão evolucionária...
Falar da estupidez crescente na sociedade daria para uma site completo porque as razões são imensas e muito interligadas. E aí tenho que dar o braço a torcer porque Idiocracytoca em quase tudo de uma forma muito leviana, mas ao mesmo tempo muito acertada. Vai desde o pormenor da Fox News com os seus apresentadores musculados e apresentadoras quase de mamas à mostra, passando pela crítica a uma sociedade dominada pelo marketing das grandes empresas que diz que "os electrólitos são tão bons que substituem a água simples" e que assim levam a uma catástrofe ecológica. E quem diz electrólitos, poderia dizer L. Casei Imunitass...
E se se avançar um pouco mais no tempo, ainda temos as redes sociais que têm sido o grande megafone desta estupidez crescente e alarmante que muita gente já percebeu que vai acabar mal. Mas não se pode dizer mal das redes sociais nem dos seus malefícios... porque gera imensa receita ("i love money, don't you?" deve ser a expressão que aparece mais vezes no filme...) e imensa gente adora as redes sociais e já nem sequer conseguem viver sem elas. Se este tema entrasse no filme (ainda nem sequer tinham grande expressão na altura da estreia), seguramente o filme teria mais 1 hora de duração... Pode ser que Mike Judje volte ao tema mais tarde... ou se calhar é melhor não o deixar dizer mais nada para não tocar novamente em pontos sensíveis...
De certa forma, Idiocracy é um olhar satírico para dentro. É como uma parte da América se revê e como tem noção de como o mundo começa a ver a própria América. E têm razão. Não tenho dúvida nenhuma, que cada vez mais, o mundo olha para a América, não como a grande super-potência de outros tempos, mas como o grande centro exportador de estupidez para o resto do mundo...
Estupidez é uma coisa aparentemente hereditária e altamente contagiosa. Isto fica bem demonstrado nos geniais primeiros minutos. E, cada vez mais me apercebo, que afinal pode não ter cura. E isto sou eu a ser um bocadinho optimista, porque na realidade o meu cérebro pessimista o que me diz é que a estupidez não tem cura e que eventualmente vamos estar bem fodidos por não tratarmos deste problema a tempo...Este tema da estupidez chateia-me. Fico com comichões e dá-me vontade de bater em alguém... é melhor ficar por aqui e não me alongar mais... ...
Sinto-me muito dividido em relação a este Idiocracy. Nunca o veria novamente de tão mau que é, mas sou obrigado a recomendá-lo pela reflexão que obriga a fazer... ●○○○○ - ●●●●●
Quando era miúdo adorava o Jerry Lewis. Era o gajo mais cómico que alguma vez tinha visto. Era quase como ver um desenho animado. Facto para o qual muito contribui a parceira com o realizador Frank Tashlin. Não é coincidência esta maratona de filmes realizados por Tashlin com Jerry Lewis no principal papel. Tashlin fez grande parte da carreira como realizador de desenhos animados daí que o tom notoriamente cartoon dos filmes assente que nem uma luva com as personagens caricaturais de Lewis. Na realidade, Jerry Lewis fez sempre o mesmo papel... o papel de Jerry Lewis, o trapalhão de bom coração que contra todas as expectativas e todas as rasteiras das personagens "más", acaba sempre por triunfar no final feliz. The Disorderly Orderly é outro filme de Jerry Lewis, igual em quase tudo a todos os outros e em que apenas muda o cenário e a profissão do personagem principal. Aqui, Lewis é Jerome Littlefield, um empregado de hospital naturalmente desastrado e sempre a meter-se em situações caricatas. Jerome queria ser médico mas é impedido porque tem uma doença rara e muito especial: empatia a mais. Todas as doenças que os pacientes têm, ele acaba por sentir os mesmos sintomas. Relegado para um mero interno, acaba por ficar encarregue dos trabalhos mais chatos. E cómicos... E sempre que mete água é salvo pela compreensiva responsável superior (Glenda Farrell). Pelo meio, descobre que uma antiga paixão do secundário está lá internada com uma depressão (Susan Oliver) e também há uma enfermeira que está apaixonada por ele (Karen Sharpe). No papel da enfermeira mais "chata" e que grita mais alto, há novamente Kathleen Freeman, uma presença habitual nas produções Jerry Lewis.
Apesar de um ou outro bom pormenor, como por exemplo o quebrar da quarta parede, The Disorderly Orderly é mais do mesmo. Mas mesmo sendo uma repetição de uma repetição de uma repetição, os filmes de Jerry Lewis têm sempre uma carga tão positiva, verdadeira e inocente que não consigo deixar de os ver. ●●○○○
Um dos primeiros filmes de mafiosos que vi foi o Scarface com a mirabolante e inesquecível personagem de Tony Montana. Acho que os mafiosos daquele tempo não se comportavam daquela maneira romantizada, no entanto acho que efectivamente a ficção acabou por moldar a realidade. Mesmo que não seja verdade, o públicoede cinema e não só, apenas consegue ver um mafioso desta maneira. E de uma forma estranha, acho que qualquer mafioso só se consegue ver retratado assim. Violento, ganancioso e apenas com um objectivo: chegar ao topo da escada e ser o rei absoluto de tudo. Scarface é exactamente isto. É o percurso de Tony Montana, um cubano exilado em Miami na década de 80, que com a ajuda do seu inseparável amigo Manny, violentamente vai subindo os degraus da hierarquia mafiosa. Dos "pequenos", sanguinários e sujos trabalhos iniciais contra os cartéis colombianos de droga a mando do grande figurão de Frank Lopez e Omar, o seu irascível capataz, até lhes tirar o tapete debaixo dos pés (e a tosse) e conseguir finalmente chegar ao topo do pirâmide. Mas um percurso assim tão violento e traiçoeiro vai ter obviamente consequências trágicas e o império da droga de Tony Montana pode ruir a qualquer instante.
Este excelente Scarfacede Brian De Palma é na realidade um remake do clássico Scarface de 1932. Mas aqui, o detalhe de ser um remake é mesmo apenas um detalhe histórico. Não tem nada de pejorativo. O filme é tão bom e "original" na concepção (mais um argumento fantástico de Oliver Stone) que só pode ser considerado um remake porque tem a mesma figura central como protagonista e estrutura narrativa de base. Se no original a base é a proibição do álcool e os seus meandros ilegais, nesta adaptação é o tráfico de droga e tudo o que se conhece em torno no negócio. As diferenças na história são irrelevantes porque o núcleo não é propriamente a ilegalidade do negócio, mas sim a ganância do protagonista. Sendo Brian De Palma um mestre incontestado, Scarface é um daqueles filmes inesquecíveis.
Mas muita da força do filme vem dos actores. Steven Bauer, Michelle Pfeiffer, Mary Elizabeth Mastrantonio, Robert Loggia e F. Murray Abraham não são só secundários. São verdadeiras personagens, com estruturas robustas e grande personalidade que enchem a tela e enriquecem todo o filme. Mas o destaque principal tinha mesmo de ir para Al Pacino. Aquela mistura de cómico louco e gangster cubano é irrepetível. Tal como disse no início, acho que esta performance acabou por cristalizar na mentalidade colectiva a aparência, os trejeitos e o comportamento do típico mafioso. Não se consegue olhar para um mafioso e vê-lo de forma diferente do Tony Montana. Um mafioso tem realmente de ser assim para ser considerado um mafioso de jeito. Tem de ser ganancioso e violento, sem empatia, mas por outro lado tem de ser sensível e aberto às coisas belas da vida. Tony Montana é uma mistura estranha que deveria fazer um gajo virar a cara, mas estranhamente tem uma certa atracção. Não sei explicar muito bem isto. Ou se calhar até sei... Por exemplo, desde o primeiro contacto visual, Tony procura incessantemente por Elvira mesmo que esta o mande dar uma volta constantemente. Ele é tão insistente que acaba por casar com ela, mas durante todo o filme não se lhes vê um único momento de intimidade. Até o beijo no final do casamento é quase invisível com aquele véu impenetrável. De certa forma, o encanto e a atracção de Tony Montana existe porque ele é um símbolo do eterno desejo de se ter o que não se tem. E depois, quando consegue o que quer, parte para outra demanda em busca de outra coisa qualquer que não tem... É complicado... Scarface é um dos meus filmes favoritos e Tony Montana é uma das personagens que me ficou para sempre. Obrigatório. ●●●●●
Juntar Martin Scorcese, Robert De Niro e Jerry Lewis num só filme deveria ser um festim para mim. São três "instituições" que fazem parte do meu imaginário cinematográfico e são nomes que com cresci e evolui a ver a filmes. Mas nem sempre as coisas saem bem quando se mistura tudo o que gostamos...
Rupert Pupkin (Robert De Niro) tem uma ideia e uma obsessão. A ideia é a de que ele pode ser o novo Rei da Comédia. A obsessão é o seu grande ídolo Jerry Langford (Jerry Lewis), o famoso apresentador de um talk show com stand-up. Após um incidente em que Rupert salva Jerry de uma fã enlouquecida, os dois conhecem-se e Jerry incentiva-o a seguir uma carreira na comédia. Mas quando Jerry o relega para um plano secundário e o rejeita, Pupkin decide uma abordagem mais radical: com a ajuda da psicótica Masha (Sandra Bernhard) vai raptar o apresentador e exigir como resgate uma actuação de stand-up a solo no seu programa.
Tenho de admitir que vejo qualquer coisa com o selo Martin Scorcese. Para mim é uma marca de qualidade e sei logo à partida que vou ver uma coisa em condições. No entanto, Scorcese devido à sua elasticidade de temas, já me deu alguns amargos de vista. The King of Comedy foi um desses amargos. O que não deixa de ser estranho porque vejo sempre o filme muito bem referenciado, com muito boas críticas tanto do público como dos especialistas. Tenho de admitir que não gostei nada disto. Acho que se ficou pelo meio do caminho. Nem consegue ser cómico, nem consegue ser dramático. Fica ali num limbo que nem é carne nem peixe. Apesar da boa actuação, até o próprio Robert De Niro, parece perdido num jogo de personagens onde não se sente à vontade.
Obviamente tem os seus pontos positivos, principalmente ao nível dos pormenores de realização de Scorcese e da excelente fotografia. O filme não me cativou e acabei por me distrair... Isto aconteceu em particular com o facto de não conseguir desligar do facto de como este filme é parecido com o novo Joker e não só porque partilha uma história muito similar. Estive a ler umas coisas sobre o filme e descobri que uma das ideias propostas (pelo Jerry Lewis) era de que no final, Pupkin devia matar o Langford no seu show final. Scorcese achou que era demasiado violento e deixou a ideia de fora. Estranho, não é?
Se eu me distraio com um filme, isso normalmente quer dizer que lhe falta qualquer coisa. No caso de The King of Comedy acho que lhe falta mais comédia e mais intensidade dramática. Aliás, acho que lhe falta muita coisa. A personagem de Pupkin é detestável no mau sentido. Apesar de se compreender a obsessão nunca causa nenhuma empatia. O tema central que é objectivamente o culto da personalidade, da pessoa famosa, nunca é o ponto central. Os pontos positivos (todos técnicos) atenuam estas falhas, o que faz com que The King of Comedy seja perfeitamente "visível" mas que não "marque" tão profundamente como outros Scorceses... Foi uma decepção inesperada... ●●○○○
Em Who's Minding the Store?, Jerry Lewis é Norman Phiffier, um moço trapalhão que namora com Barbara, uma simples ascensorista numa grande loja, tipo centro comercial. Mas como é óbvio isto não podia ser assim tão simples. Na realidade, Barbara não é uma simples ascensorista... Ela é sim a filha da riquíssima dona da cadeia de lojas com quem não se dá nada bem, e que trabalha lá só para chatear a mãe... A senhora Tuttle, a mãe odiosa não concorda com o namoro e por isso giza um plano para afastá-los: contratar Phiffier para trabalhar na mesma loja onde Barbara trabalha e fazer-lhe a vida negra para ele se despedir e acabar também com o romance indesejado. Mas Norman é tão trapalhão quanto obstinado o que faz com que o resultado final possa não ser o desejado...
Para além de Jerry Lewis também se pode ver Jill St. John como Barbara Tuttle, John McGiver como o pai, John P. Tuttle, e Ray Walston como Mr. Quimby, mas o destaque só poderia ir para Agnes Moorehead que no papel da maléfica Phoebe Tuttle, mais parece uma Cruella DeVil em carne e osso. Jerry Lewis faz novamente de... Jerry Lewis, mas desta vez numa loja! Há muita confusão, muitos tombos, muitas caretas e muita coisa a partir-se, mas para mim há pouca comédia... A única cena que me ficou verdadeiramente na memória é uma em que Lewis faz um truque de mímica com uma máquina de escrever ao som de música... Achei simplesmente brilhante. Na cadeira de realizador está mais uma vez Frank Tashlin, uma presença habitual nos filmes com a marca Jerry Lewis. Who's Minding the Store? é mesmo só para coleccionadores e apreciadores... ●○○○○
Jerry Lewis é um daqueles gajos que fazem parte do meu imaginário cinematográfico e eu nem sequer sou fã de comédias. Acho até que a comédia desta altura (anos 60) está tão datada que nem sequer faz sentido hoje em dia... Mas também posso estar enganado... Bem, não interessa.... The Ladies Man é o Jerry Lewis a meter-se em trabalhos como sempre acontece. Lewis toma o papel de Herbert H. Heebert, um jovem que recentemente acabou o curso na universidade e decide ir trabalhar como servente numa mansão particular. Como é óbvio tinha de haver uma confusão pelo caminho. E a confusão é o facto de Herbert ter uma aversão a mulheres devido a um desgosto amoroso e a tal mansão onde acabou de arranjar trabalho ser na realidade uma espécie de hotel exclusivo para mulheres... Mulheres lindíssimas mas com muitos caprichos, particularidades e excentricidades. Este é o mote para uma série de trapalhadas bem ao jeito Jerry Lewis.
Para além de Jerry Lewis há uma série infindável de actrizes em pequenos papéis, sendo que o destaque tem de ir Helen Traubel como a dona da casa, para Kathleen Freeman como a responsável pela casa e para Buddy Lester que tem provavelmente a cena mais cómica de todo o filme. Também há uma cena com uma filmagem em directo para a televisão que é muito boa. E também há uma cena de dança muito estranha com uma das personagens mais misteriosas que é muito boa... Há alguns bons pormenores por aqui... Um dos destaques tem mesmo de ir para o gigantesco e complexo cenário criado para dar corpo ao filme. Na realidade, quase tudo se passa neste cenário interior, que parece uma casa de bonecas gigante, que é um dos maiores alguma vez construídos.
Para além do papel principal, Jerry Lewis também escreve e realiza este The Ladies Man. Como acumulou várias funções (de actor e realizador), Lewis pediu à produção que junto da câmara de 35 mm lhe juntassem um pequeno monitor de video para poder ir acompanhando as filmagens on-set. Sem querer, Lewis acabou por criar um "assistente de vídeo" que a partir desse momento foi aproveitado por outros realizadores e que acabou por se tornar um standard nas produções até ao dia de hoje. The Ladies Man é uma comédia de outros tempos. Apesar de ter um ou outro bom pormenor, está muito datada e acho que só agradará aos fãs mais hardcore de Jerry Lewis. Para mim, será sempre puro saudosismo. ●●○○○
Em 1951 estreava The Day the Earth Stood Still para espanto dos frequentadores de cinema. Em 2008 chegou aos cinemas um remake com o mesmo título. A história de base para esta nova adaptação vem realmente do filme e não do conto original, o que demonstra que por si só o filme já é uma fonte de inspiração directa e o quanto foi marcante. Apesar de passar mais de 50 anos desde a estreia do original, as alterações na história não são assim tão substanciais, o que demonstra também que há qualquer coisa de universal e intemporal na mensagem do filme.
Tal como no original, uma misteriosa nave, agora uma misteriosa orbe verde, aterra na América no Central Park. Junto com outros especialistas, Helen Benson (Jennifer Connelly) é uma cientista que é chamada de emergência para resolver esta crise repentina e responder a questões prementes. De dentro da nave sai um extraterrestre com forma humana - que mais tarde se saberá que se chama Klaatu (Keanu Reeves) - e junto com ele, vem também um ameaçador robot gigante. À chegada, a mensagem de Klaatu é de paz e ele diz que vem salvar o planeta Terra. O choque entre civilizações não corre bem e Klaatu é preso e levado para interrogatório. Mas Klaatu tem alguns truques na manga e consegue fugir com a ajuda de Helen e revela que vem salvar a Terra... dos humanos que sem consciência ecológica têm vindo a destruir o planeta.
As comparações com o filme original são óbvias e o cerne da questão continua a ser o mesmo: o conflito. Mas se no primeiro filme, o conflito era a Guerra Fria e a ameaça era a proliferação das armas nucleares, nesta nova versão, o conflito é ecológico e a ameaça é a obliteração do mundo natural. No resto do filme tudo se mantém mais ou menos igual. Obviamente que tendo as ferramentas digitais ao serviço, Scott Derrickson usou e abusou deste artifício. Até em situações em que não faziam falta nenhuma, mas a necessidade de dar velocidade à acção é quase imperativa hoje em dia. Paradoxalmente é o seu maior problema. Mas por outro lado, ajuda bastante como é o caso do robot GORT que invés de ser uma simples "lata metálica" acaba por aparecer totalmente retransformado e muito mais ameaçador que o original. E muito maior também. E para mim, a grande figura do The Day the Earth Stood Still será sempre aquele robot. Aqui, os upgrades são mais que evidentes. GORT agora é significado de Genetically Organized Robotic Technology, uma espécie de forma biológica composta por milhões de nano-robots devoradores de matéria e auto-replicantes. Uma ideia absolutamente aterradora se pensarmos bem. GORT é tão poderoso, que ao contrário do que aconteceu no primeiro filme em que a electricidade é desactivada temporariamente (daí o dia em que a Terra parou), aqui ela é desactivada mundialmente e de forma definitiva, numa clara alusão à necessidade de refrear o ímpeto de destruição da natureza. Keanu Reeves encaixa perfeitamente no papel de Klaatu. Reeves nunca foi um actor do meu agrado porque me parece pouco expressivo em termos faciais. Não sei explicar muito bem este fenómeno, mas neste caso (como noutros papéis) acho que fica impecável. Jennifer Connelly é a nova humana "compreensiva" e como actriz, Connelly terá sempre a minha aprovação. O restante pessoal é mesmo muito secundário como é normal nestas produções mais mainstream (Kathy Bates, Jaden Smith e John Cleese) por isso o único destaque terá de ser para o Jon Hamm, não pela performance, mas porque é uma versão moderna do original "Hugh Marlowe", replicando exemplarmente a personagem, ao ponto de copiar inteiramente o look físico original. As personagens são todas muito boas, mas acho que a personagem estereotipada do "humano intolerante e desconfiada" da mudança e da novidade é sempre de realçar... The Day the Earth Stood Still não sofreu muito com o efeito remake moderno. Continua a ter bons momentos e bons pormenores e acabou por se reinventar com uma nova mensagem anti-conflito, desta vez, enveredando pela questão ecológica e com efeitos mais permanentes. Não afronta o original e vê-se bem. ●●○○○
Nesta altura de pandemia em que o cinema literalmente parou é uma boa altura para ir ao baú e desenterrar os clássicos. E nada melhor para isso que revisitar uma dos grandes clássicos da ficção científica, The Day the Earth Stood Still, que só pelo título seria um dos melhores filmes para descrever a situação actual.
A história passa-se na altura da Guerra Feira, quando um objecto voador misterioso é detectado a viajar a velocidades impossíveis pela atmosfera da Terra. Para surpresa de todos, o OVNI aterra gentilmente num parque em Washington. O pânico instala-se. Rodeado por forças militares fortemente armadas e hostis, do OVNI acaba por sair o que aparenta ser um homem "normal", acompanhado por um robot. O extraterrestre de forma humana chama-se Klaatu e o seu fiel e robusto robot dá pelo nome de GORT. Apesar da mensagem do extraterrestre ser de que vem em paz, o primeiro contacto entre as duas civilizações é muito pouco encorajador e não corre nada bem, já que um dos militares, em pânico, dispara contra ele. Isto faz com que percebam o enorme poder destrutivo do misterioso robot que o acompanha. Afinal, o que quer Klaatu? Será ele o mensageiro da esperança para um mundo em constante conflito? Ou será apenas o derradeiro ponto final da Humanidade? The Day the Earth Stood Still é mesmo um dos grandes clássicos de sempre. A mensagem é tão actual agora como o era na época do embate surdo entre as duas super-potências nucleares. É inegável que este filme é um reflexo do seu tempo (a proliferação de armas nucleares), mas a história funciona bem em qualquer altura. Pensando bem, duma forma ou de outra, a humanidade parece que está sempre em conflito. Seja como for, a história é excelente. É baseado no conto de Harry Bates, Farewell to the Master, que diga-se recebeu apenas 500 dólares pelos direitos de autor. Outros tempos, sem dúvida. Não obstante este pormenor, a adaptação para cinema difere do conto: no original, o robot chama-se GNUT e no final revela que ele é que é o mestre do humanóide (que não passa de um clone com pouco tempo de vida) e não o contrário; daí o título original. Michael Rennie como Klaatu, Patricia Neal como a compreensiva companheira humana e Hugh Marlowe no papel do homem intolerante, tratam dos principais papéis. Mas apesar de estarem todos bem, sinceramente, aqui o principal papel vai mesmo para as implicações de toda a história. Apesar das falhas cientificas (Klaatu diz que vem das profundezas do universo, mas a distancia fornecida é do interior do sistema Solar) que demonstram uma enorme inocência e desconhecimento científico tanto da produção como do próprio publico, The Day the Earth Stood Still tem uma simbologia muito própria que não é visível logo à primeira vista. Por exemplo, o nome terrestre que Klaatu adopta para se misturar com os humanos é "Carpenter" (Carpinteiro) numa clara alusão ao cristianismo que não pára por aqui. O facto de aparecer misteriosamente com uma mensagem de paz, aviso e conciliação; a personagem feminina chama-se "Mary"; e até o facto de Klaatu a determinada altura morrer e ressuscitar também não pode ser coincidência. É uma coisa engraçada que estes filmes antigolas têm: parece que há sempre um segundo sentido para além do que se está a ver.
Na cadeira do realizador está um senhor do cinema que dispensa apresentações, Robert Wise, que fez filmes de todos os estilos e para todos os gostos... e prémios. Para não ser maçador, apenas alguns exemplos para se perceber o calibre do homem: The Sound of Music, The Andromeda Strain, Star Trek: The Motion Picture, The Haunting e West Side Story. Acho que não é possível ser mais ecléctico. No lado sonoro, outra lenda, Bernard Herrmann, o mestre das orquestrações "estranhas". Aqui, o uso do teremim (um instrumento totalmente electrónico) ajudou a cimentar aquela que é "a" música da ficção científica... The Day the Earth Stood Still continua a ser interessante hoje em dia, mesmo que tenha perdido uma parte da envolvência histórica daquele período marcante da história. Merece pelo menos, um lugar de destaque junto de outros grandes clássicos da ficção científica. ●●●●○
The Artist é uma homenagem a um tempo de Hollywood tão distante que a maior parte das pessoas já nem sonha que existiu. A história é sobre o actor George Valentin, uma ubíqua e famosa estrela de filmes mudos que, ao mesmo tempo que se enamora com uma jovem dançarina, começa também a ver a sua carreira entrar em declínio devido ao aparecimento dos filmes "falados".
Homenagem talvez não seja a palavra mais apropriada para classificar The Artist. Acho que reflexão seria a palavra mais indicada. É neste período que se dá uma cisão muito grande no cinema, entre o status quo do mudo e a novidade dos filmes sonoros. Se para os estúdios foi uma oportunidade de inovar e assim chamar novos clientes, para os actores foi uma revolução demasiado disruptiva. Toda a forma de actuar teve de mudar e aconteceu quase da noite para o dia. Estrelas mundialmente estabelecidas como Douglas Fairbanks e Mary Pickford de um momento para o outro ficaram quase no desemprego e e até lendas como Charlie Chaplin se ressentiram. Volátil como sempre, o público queria coisas novas e o novo era o sonoro. O cinema mudo estava condenado juntamente com todas as equipas de produção, estúdios, actores e técnicos que não fizessem (ou não conseguissem) a passagem para o som. Aquele jeito de actuação teatral, tipo pantomina, tinha chegado ao fim...
A personagem de George Valentin é nitidamente Douglas Fairbanks. Aliás, no auge da sua depressão, enquanto vê uns filmes antigos com aventuras do Zorro, na realidade o que se está ver é um filme de Douglas Fairbanks, mas com algumas cenas de close up protagonizadas por George Valentin.
Num filme mudo, a performance dos actores é radicalmente diferente. Tem de ser mais dramática, exagerada e, por vezes, até caricatural porque sem palavras (nem outro som qualquer) é obviamente muito mais difícil de chegar ao público e transmitir emoções. A actuação é uma mistura de emoções físicas que apenas a música de fundo pode acentuar. Não digo que seja mais difícil ou mais fácil, mas parece-me que é outra coisa completamente diferente. E por isso tenho que destacar Jean Dujardin, que sendo obviamente um actor moderno parece ter vindo directamente do tempo do cinema mudo. Está tão perfeito que se fosse possível recuar no tempo e inseri-lo na altura do filmes mudos, acho que o público nunca notaria a diferença. De certa forma é Jean Dujardin desta forma tão verosímil, tão anos 20, tão silencioso e emotivo que dá a sensação de se estar realmente a ver um filme da era do cinema mudo. Está tudo muito bem feito neste The Artist, mas Jean Dujardin é 50% do sucesso do filme. Uma performance que merece todos os prémios e mais alguns.
No sentido contrário, o resto do casting não salta tanto à vista. Bérénice Bejo, John Goodman, James Cromwell e Penelope Ann Miller servem bem como actores de suporte mas não passam muito disso. No caso de Bérénice Bejo o caso é ainda mais gritante, porque é peça fundamental do argumento. Não é que Bejo esteja mal, mas simplesmente não se sente a química nem o romance entre os dois actores. Há muito mais química negativa entre Jean Dujardin e Penelope Ann Miller em breves minutos (que era a intenção do argumento, num casamento em decadência) do que química positiva entre os dois amantes durante o filme todo. A discrepância entre Bérénice Bejo e Jean Dujardin é tão grande que para mim é mesmo a grande falha do filme. E claro que não podia deixar passar em branco a minúscula participação de Malcolm McDowell.
O filme é muito fiel àquela altura do cinema e muito pormenorizado (até tecnicamente) ao ponto de ser filmado com menos frames para dar aquele look acelerado tão típico dos filmes da era muda e até na própria proporção do ecrã que usa. Não fazia muito sentido simular um filme mudo sem ser naquele enquadramento 4:3 meio "quadrado", pois não?
The Artist é uma pequena pérola que, passado o impacto e choque inicial de se perceber que o filme vai ser totalmente mudo, irá deliciar a maior parte do público. A música não começa muito bem (parece algo dessincronizada da acção), mas depois ajusta-se perfeitamente para suportar emocionalmente todas as cenas. A história de decadência, regresso e reatamento amoroso é universal, por isso nunca falha. E aquele final simpático a fazer a transição para os grandes filmes musicais dos anos 30 e 40 (grande cena de dança, já agora) é simplesmente perfeito. Nota-se que foi um filme muito bem pensado mesmo antes de chegar a ser filmado e daí um enormíssimo destaque para Michel Hazanavicius, quer seja pela realização, pela preparação ou pela escrita. Até no pormenor de a primeira palavra a ser proferida em todo o filme ser "cut" e a última a ser "action" para dar uma continuidade pós-filme. Muito bom. Muito bem pensado. The Artist vê-se muitíssimo bem e é totalmente recomendado. ●●●●○
Alguns factos curiosos que encontrei nas minhas pesquisas. Este foi apenas o segundo filme mudo a ganhar prémios nos Óscares. O primeiro tinha sido Wings em 1927. A última vez que um filme totalmente a preto e branco tinha ganho o maior galardão de Hollywood tinha sido em 1960 com The Apartment. Se as referências a antigas estrelas do cinema mudo são constantes, elas chegaram aos rcenários. A casa da personagem de Peppy Miller é na realidade a antiga casa de Mary Pickford que mais tarde viria a casar com Douglas Fairbanks, uma lenda do cinema mudo, cuja vida e carreira, sem dúvida nenhuma é a base para este The Artist. Entre outros pormenores, notei também naquela cena aberta da escadaria, que havia ali algo familiar; descobri que aquela enorme construção metálica de escadas é nada mais nada menos que o átrio do Prédio Bradbury... onde foram filmadas algumas das cenas mais icónicas de Blade Runner... há coisas que não consigo mesmo esquecer... Mas para mim, o facto mais curioso de todos, foi ter sido necessário uma equipa europeia, fazer um filme europeu (é tudo francês...) para mostrar uma faceta de Hollywood de uma forma que Hollywood nunca teve capacidade de fazer. Isso sim, é que é curioso...
Vamos já ao cerne da questão: Hotel Artemis não é um grande filme, no entanto tem os seus pontos positivos. Logo para começar tem uma boa história de base, se bem que depois enverede pelo previsível e pelo caminha mais fácil. Tudo se passa num futuro próximo em que a cidade de Los Angeles está a ferro e fogo, cheia de violência e motins a estalar por todo o lado. A razão principal para estes acontecimentos catastróficos foi a privatização da água e o constante aumento do preço que a torna incomportável para os cidadãos. Espero que não seja um acontecimento premonitório... Mas também é uma questão de se esperar e logo se verá... Adiante. No meio de toda esta confusão, uns ladrões decidem aproveitar a oportunidade, já que a polícia está ocupada com os motins, e assaltam um banco. Pelo meio roubam também (sem o saberem) o rei do crime da cidade e metem-se em problemas tanto com a polícia, como também com os mais duros criminosos. As coisas correm mal com a polícia, e como um dos assaltantes fica gravemente ferido, eles vão ter de recorrer ao Hotel Artemis, uma espécie de hospital fora do sistema, criado por criminosos, para tratar criminosos em fuga. A responsável pelo "hotel" é a Jodie Foster que tem a ajuda preciosa do encorpado segurança Dave Bautista.
Se a história começa a ficar cada vez mais "perra" e a entrar em campos mais "negativos" com a desnecessariamente trágica história pessoal da enfermeira, por outro lado temos um ponto muito positivo que é um casting muito jeitoso. Sterling K. Brown, Sofia Boutella, Jeff Goldblum, Zachary Quinto e Charlie Day, para além da eterna Jodie Foster e do surpreendentemente bom actor Dave Bautista. Juntos, dentro do hotel/hospital sitiado, criam uma química engraçada que torna o filme de certa forma estiloso e muito ritmado e fluído. Hotel Artemis (de Drew Pearce) tinha potencial para algo mais mas ficou preso nas rédeas do facilitismo do costume. Não quis fugir do arquétipo do filme de acção e isso quase sempre prejudica a qualidade geral de um filme. Assim, Hotel Artemis, tornou-se apenas em mais um filme, como quase nada de especialmente único, mas que no entanto está bem construído em termos de história e relativamente desenvolvido ao nível da estrutura das personagens. Vê-se bem. ●●○○○
Um história de assaltantes a bancos igual a tantas outras. As coisas correm bem até que correm mal. Den of Thieves parece uma mistura de Sicario, Heat, Training Day com umas pitadas de The Usual Suspects... Nem é bem uma mistura... é mais um best of das melhores cenas destes bons filmes. A partir de determinada altura percebe-se que vai haver um twist mais ou menos previsível mas não se sabe qual nem quando. Enquanto via o filme só pensava: no momento em que se percebe que vai haver um twist, o próprio conceito de twist já está arruinado, não é verdade? Pensei que seria pelo meio do filme mas afinal ele acaba por aparecer mesmo no final. O que acabei de fazer agora mesmo é o perfeito exemplo de um spoiler... Mas também não vale muito a pena pedir desculpas porque o filme nem sequer justifica. Esse é mesmo um dos grande problemas do filme. Para além das referências óbvias a todos os outros filmes referidos antes, é mesmo previsível. Diria mesmo, demasiado previsível. Ainda pensei cá para mim: isto está tão previsível que vai dar aqui uma volta inesperada pelo meio... Mas não... Ainda por cima acrescenta algumas falhas graves de argumento para ligar partes da história, como por exemplo numa cena em que os dois antagonistas se cruzam num quarto de hotel para partilhar uma prostituta... Fiquei literalmente de sobrancelha levantada a pensar: WTF? Como é que...? Porque é que eles não...? Bem. Não interessa.
Dá a impressão que houve um esforço maior por parte de Christian Gudegast em instruir os actores em como pegar e disparar correctamente numa metralhadora do que propriamente o tempo investido na criação de uma boa história e sem falhas. Todo o filme se desenvolve em volta dos dois antagonistas (Gerard Butler e Pablo Schreiber) e reduz o restante casting (O'Shea Jackson Jr., Curtis '50 Cent' Jackson, Maurice Compte, Brian Van Holt) a meros bonecos com grandes armas e músculos que simplesmente acompanham a história até ao confronto final. É gritante a falta de investimento na personagem de O'Shea Jackson Jr., que para todos os efeitos acaba por ser central em toda a história. Não há mesmo muito a dizer sobre este Den of Thieves que até tinha muitos elementos para se poder tornar num bom thriller. A grande coisa positiva foi ter descoberto Pablo Schreiber, um gajo que parece ter um carisma especial e é muito bom actor. Den of Thieves é um bom filme para ver tiros de variadíssimas armas e pouco mais... Vê-se e esquece-se de imediato. ●○○○○
Um gajo normal comenta todos os filmes que viu. É mesmo isso. E porquê? Durante anos andei à procura do melhor filme de sempre. Felizmente, já o encontrei. Serve-me de standard para todos os outros. Agora ando novamente à procura, mas desta vez é para me certificar se não há algum melhor do que o melhor que já encontrei.
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