Já deixei de ver filmes de animação há alguns anos. Chateia-me a vertente puramente comercial deste tipo de filmes que acabam por ficar todos iguais, pois têm como base os guiões pré-formatados do sucesso anterior. Vendo um, já nem preciso de ver os restantes. É sempre a mesma coisa, tirando o novo vilão e a nova namorada do "artista". No entanto, volta e meia, lá vou vendo uns filmitos a contra-gosto, porque há sempre as excepções que confirmam a regra.
Kubo and the Two Strings, dos Estúdios Laika é uma dessas excepções. A primeira palavra que me vem à cabeça para descrever este Kubo é... lindo. É um filme esteticamente perfeito. As cores, as sombras, os origamis, os desenhos, os modelos, as animações, os sons... tudo perfeitamente interligado e harmonioso. Visualmente, não alteraria nada neste filme. Tecnicamente, é um prodígio, feito com recurso ao stop-motion animation, o que lhe retira o tom artificial e "plástico" habitual e lhe dá sempre aquele ar mais "verdadeiro". Grande mestria e total mérito para Travis Knight, que na estreia como realizador já marcou uma excelente posição. É um realizador para ter debaixo de olho.
A história é de uma imaginação prodigiosa e exemplarmente bem escrita. Apesar de ir a "decrescer"- só porque o inicio é bom demais -, é verdadeiramente divertido (e não só) assistir a tudo o que acontece às (excelentes) personagens nesta aventura mágica. Uma pérola nos dias actuais. Conta com as vozes de Charlize Theron, Art Parkinson, Ralph Fiennes e Matthew McConaughey, entre muitos outros.
O melhor elogio que posso fazer a Kubo and the Two Strings, é que durante 100 minutos repôs a minha esperança na humanidade. ●●●●○

Robots gigantes, monstros extraterrestres gigantes, lutas gigantes com contentores a fazerem de luvas de boxe, petroleiros a servir de arma de arremesso, arranha-céus a serem despedaçados como se fossem feitos de papel... Pacific Rim é o filme de sonho para qualquer miúdo de 12 anos.
É um bom filmito de acção/ficção científica em tamanho XXL, com uma história original muito bem escrita, com algum "miolo" e ainda por cima, está muito bem feito.
Pacific Rim tem acção, tem drama, tem comédia, e não é imbecil como é norma nos filmes de entretenimento total. Está muito bem feito. Para o tipo de filme que é, está muito bom. O design da produção está excelente e até a música original é boa.
Bons actores ajudam sempre (Charlie Hunnam, Idris Elba, Rinko Kikuchi, Ron Perlman) e uma grande direcção de Guillermo del Toro (como já é normal) ajuda ainda mais. Uma agradável surpresa. É mais que óbvio que terá pelo menos mais uma sequela... ●●●○○

Black Hawk Down é bom filme de guerra e retrata um episódio marcante do exército americano, no início dos anos 90. Numa incursão na Somália para capturar um senhor da guerra local, uma série de Rangers acaba por ficar presa numa zona extremamente hostil e sofre pesadas baixas às mãos de milícias armadas. É baseado numa história verídica. Lembro-me bastante bem do incidente original, bastante gráfico e macabro (com pilotos a serem mortos, corpos mutilados e arrastados pelas ruas de Mogadíscio) e que foi amplamente divulgado nos noticiários de todo o mundo.
O filme acaba por passar bastante bem a tensão daqueles momentos e gosto especialmente da forma como Ridley Scott conta a história sem tomar partidos, nem fazer exercícios de moralidade. Normalmente, no cinema americano, há uma tendência para embelezar o soldado americano e transformar o inimigo num demónio. Não é o que acontece aqui. A história incide sobretudo no sofrimento dos soldados, na desorientação, na violência do conflito e no caos da guerra, mais do que tentar justificar acções "boas" ou diabolizar acções "más". Nesse aspecto, está muito bem escrito. É sempre de louvar.
Black Hawk Down tem muitos e bons actores (Josh Hartnett, Ewan McGregor, Tom Sizemore, Eric Bana, Ewen Bremner, entre outros) e muita intensidade e realismo por parte de Ridley Scott, que, provavelmente, tem aqui um dos seus melhores filmes, apesar de não ter tido nem muito boa receção, nem o respectivo sucesso de bilheteira. ●●●○○

Há filmes que me marcaram e dos quais nunca mais esqueci, nem que seja apenas porque uma cena foi tão surpreendente que ficou cá para sempre. An American Werewolf in London, filme mítico dos anos 80 (devido aos efeitos especiais; ganhou o primeiro Óscar para esta categoria!), é um desses casos. Revi-o há pouco tempo, porque não me lembrava bem do filme. Só me lembrava daquela transformação de homem em lobisomem. Foi espectacular e algo nunca antes visto.
Para além dessa cena brutal, An American Werewolf in London é um filme muito particular, diria mesmo, estranhíssimo para os padrões actuais. Nem sei se teria algum sucesso hoje em dia, ou sequer se passaria num cinema comercial. É de uma espécie diferente: é um filme de terror com algum gore à mistura, e uma comédia com algum power sexual. Basta ver que a derradeira cena do filme se passa num cinema porno recheado de mortos-vivos que parecem saídos do videoclip de Thriller. (Que por acaso até foi realizado pelo mesmo John Landis. Li que depois de ver o filme, Michael Jackson ficou tão impressionado que decidiu contratar Landis para o dirigir o também mítico clip.)
A história é do mais simples e directo que existe. Dois amigos (David Naughton e Griffin Dunne) viajam de mochila às costas pelas zonas rurais inglesas quando são atacados por um lobisomem. Um deles morre e transforma-se num zombie (que só pode ser visto por lobisomens [??!]) e o outro, após conhecer uma enfermeira sexy (para os padrões da altura...) (Jenny Agutter) e um longo processo de transformação, torna-se num lobisomem sedento de presas e sangue...
An American Werewolf in London é um filme vintage. É uma raridade. É mais um dos grandes representantes dos filmes do anos 80, com a vincada característica dos filmes (e não só) dessa altura, em que tudo parecia possível, tudo parecia permitido. Simplesmente não havia limites. O pessoal queria ver algo novo e diferente. E com An American Werewolf in London foi exactamente isso que tiveram. Apesar de toda a estranheza e sanguinolência é imperdível. ●●○○○

Dark Angel é mais pérola dos anos 80. Vê-se logo pelo cartaz. É impagável! Apesar de ter estreado em 1990, continua com a mesma lógica de filme de acção e porrada, meio nonsense e cheio de maus actores. Os duplos tinham trabalho com fartura e o CD era uma inovação tecnológica avançadíssima e estava na berra.
Dolph Lundgren, um dos grandes bons/maus actores de acção faz o papel de um detetive durão (em parceria forçada [como também era normal] com Brian Benben) que tem de enfrentar um extraterrestre (!?) que vem à Terra com a intenção de obter uma droga tão rara que só se encontra nos seres humanos. O que começa por ser uma investigação sobre homicídios rapidamente se transforma numa caça ao extraterrestre, repleta de explosões, perseguições automóveis, muita porrada e "bocas" com piadas secas... É... É um filme de acção dos anos 80/90... Tudo era permitido, tudo podia acontecer... e acontecia mesmo. Por isso é que estes filmes eram sempre fixes, mesmo sendo maus.
Dark Angel é o título original que sempre conheci, que mais tarde foi "renomeado" para "I Come in peace" para não entrar em conflito com mais uns filmes que também têm o mesmo nome. Diga-se de passagem que "I Come in peace" é provavelmente o título mais horrível que já vi darem a um filme.
Apesar de todas as atrocidades cinematográficas normais nestes filmes dos 80's e 90's, a história de base até nem é má, como é costume. A falta de recursos financeiros normalmente obrigava a que se esmerassem um bocado mais na história. É pena que se esquecessem de tudo o resto... Podia-se facilmente limar umas arestas num remake e ficar com um bom filmito. Só o trailer diz tudo... ●○○○○

"Estás prestes a entrar num mundo onde o inesperado, o desconhecido e o inacreditável se encontram. Um mundo onde os reinos são construídos em terras movediças, e os céus estão cheios de fogo. Um mundo que contém o maior tesouro da criação ... e os maiores terrores. Um mundo onde o poder, a loucura e o fantástico enfrentam-se numa batalha final. Uma viagem espetacular através das maravilhas do espaço e dos mistérios do tempo, desde os limites do incrível até as fronteiras do impossível. Um mundo onde minhocas da areia com mil metros de comprimento guardam o maior tesouro da criação - a especiaria que prolonga a vida - que permite que a mente dobre o espaço e atrase o tempo. Onde uma profecia será cumprida. É o campo de batalha onde um jovem líder emergirá para comandar um exército de cinco milhões de guerreiros contra a força tirânica que ameaça escravizar o universo. O planeta chama-se Dune. O evento cinematográfico de 1984."

Acho que esta descrição do Dune - na realidade é uma adaptação livre das taglines do filme - assenta-lhe que nem uma luva. Se tivesse que resumir Dune a única palavra, a primeira coisa que vem à cabeça é... estranho. É estranho, de facto, mas bom... É tão único e estranho que ao longo do tempo percebi que este é um filme que as pessoas ou adoram ou detestam. Por várias razões, incluo-me no primeiro grupo, se bem que tenha algumas reservas.
É um filme de David Lynch, por muito que ele diga que não gosta da sua obra, que este foi o maior falhanço da sua carreira e inclusivé que se recuse a falar dele. Nota-se a quilómetros. É negro, distorcido e cheio daquelas "coisas" estranhas à maneira de Lynch. E isto, misturado com a própria estranheza da história dá um resultado final absolutamente marado. Daí que muita gente não o consiga suportar. Ainda "é" demasiado à frente no tempo, quanto mais no longínquo ano de 1984.

Há duas versões do filme e por acaso já consegui ver as duas. Uma versão mais curta, assinada por Lynch e outra, com mais minutos e uma introdução diferente que conta a história anterior ao próprio filme para contextualizar, assinada por Alan Smithee. Para quem não sabe, Alan Smithee (li que é um anagrama do título "The Alias Men") é um pseudónimo normalmente usado pelos realizadores que não querem o seu nome associado ao filme que realizaram. Isto pode parecer estranho, mas acontece. Neste caso, David Lynch não quis ter o nome associado à versão "maior" de Dune, porque não concordava com a edição final. Aliás, pelo que dá para perceber, ele nem sequer quer ter o nome em nenhuma das versões. Ele lá deve saber o porquê, mas conhecendo as ingerências normais dos estúdios no trabalho dos realizadores, dá para perceber que a "visão" Lynch deve ter sido um bocado "condicionada". Imagino só o que seria o Dune com Lynch à frente e total liberdade criativa. É provável que tivesse saído uma obra prima ou então algo completamente impossível de ver... e perceber. Se calhar foi melhor assim...

Seja qual a for a versão (e eu gosto mais da "versão do realizador"), Dune é mesmo um evento cinematográfico. Não que tenha grandes inovações tecnológicas ou revolucionários efeitos especiais, mas simplesmente por causa da história. É tão diferente de tudo o que já vi, que é por si só um marco. Eu sei que a história original vem dos livros de Frank Herbert, mas a forma como Lynch a visualiza é absolutamente única. É o David Lynch, lá está. Poderia dizer que é o Twin Peaks no espaço, ou o Game of Thrones sob a influência de psicotrópicos, mas é muito mais que isso.
A história tem lugar no inimaginável ano de 10191, numa realidade tão distante do que conhecemos, que roça a magia. Na versão "longa", a história é contextualizada através de ilustrações, para mostrar um pouco como se chegou até ali. Ao longo do tempo, o homem e a tecnologia evolui para um ponto tal, que máquinas pensantes começaram a reinar sobre o universo e mais importante ainda, sobre o próprio Homem, o que levou a uma revolta contra as máquinas e estabeleceu toda a estranha ordem de castas e as suas escolas que agora se degladiam pelo controlo e pelo poder do Universo e da Especiaria. A Especiaria é um elemento que só existe no planeta Arrakis e é crucial para as viagens do tempo e para prolongar a vida. O resto é tão estranho e fantástico que só mesmo vendo.
O casting é enorme e conta com Sean Young, Brad Dourif, José Ferrer, Linda Hunt, Jürgen Prochnow, Virginia Madsen, Jack Nance, Max von Sydow, Dean Stockwell, Patrick Stewart e até Sting, entre muitos outros, e em estreia, um jovem e desconhecido actor de nome Kyle MacLachlan, que apareceria muitas vezes nos trabalhos seguintes de Lynch.
Dune não é para todos os estômagos, nem para todos os cérebros. É mesmo um mundo para além da imaginação, num lugar além dos sonhos, onde a loucura, o fantástico, o inesperado, o desconhecido e o inacreditável se encontram. Uma viagem espetacular através das maravilhas do espaço e dos mistérios do tempo, desde os limites do incrível até as fronteiras do impossível. É realmente alternativo e um dos trabalhos que mais gosto de Lynch. Uma trip unica que convém ver. ●●●●○

 
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