É véspera de Ano Novo e o primeiro dia de trabalho no Hotel Mon Signor para o paquete Ted (também conhecido como Ted, the Bellhop [para mim será sempre o Ted, the Bellboy]). Sozinho no trabalho, Ted vai-se cruzar com a gente mais estranha que se pode imaginar.
Four Rooms é uma rara colaboração de quatro realizadores que dão quatro histórias (muito) diferentes com a excepcional personagem de Ted (Tim Roth) a servir de continuidade. Allison Anders realizou "The Missing Ingredient", Alexandre Rockwell realizou "The Wrong Man", Robert Rodriguez realizou "The Misbehavers" e Quentin Tarantino realizou "The Man from Hollywood"
Podia ter saído um bom filme, mas não foi o caso. De relevo só mesmo a parte do Tarantino. O resto é dispensável. O filme do Rodriguez ainda escapa, mas os dois primeiros deviam ter ficado no chão da sala de montagem.
A parte do Tarantino é um livro de estilo e um exemplo de como fazer um bom filme usando apenas os actores e a história. Hoje em dia, parece que se esqueceu que é assim que se fazem filmes. É de nota 5.
Os actores são muitos e variados: Valeria Golino, Madonna, Jennifer Beals, Antonio Banderas, Quentin Tarantino, Marisa Tomei e Bruce Willis só para mencionar os mais conhecidos. Mas tudo fica em segundo plano comparado com a verdadeira estrela deste filme: Tim Roth. Nunca percebi porque é que não pegaram na personagem e a "expandiram" para uma verdadeira longa metragem. É uma personagem tão única, excêntrica e cómica que merecia muito mais "tempo de antena". É uma pena.
Como o Tarantino é grande adepto das antiguidades, faço figas para que um dia, quando se chatear dos westerns, volte a ligar o VHS (aposto que ele usa VHS e não Beta [desculpa Sony!]), meta lá as cassetes de filmes dos anos 90 e volte à carga com o Ted, the Bellhop. ●●○○○


CONTINUA DAQUI...

Ao longo do tempo, em conversas sobre filmes, fui-me apercebendo que toda a gente já tinha visto o Jaws. Mas fiquei sempre surpreendido por perceber que muita gente não sabia que tinha existido uma sequela. Na realidade são três. Melhor dizendo, duas sequelas e uma coisa meio roubada que tem algo que ver com tubarões. O Jaws 2 é o menos mau de todas as sequelas. Os outros dois são filmes horripilantes e cópias do primeiro. O Jaws 3-D é especialmente mau porque é do tempo das primeiras experiências revolucionárias do cinema 3D, juntamente com uma (aparente) dose de amadorismo?! Nem sei muito bem o que dizer. É preciso ver para acreditar. Mas o pior de todos é mesmo o Jaws 4, de seu nome verdadeiro Jaws: The Revenge. É mesmo muito mau. A única coisa de positivo que posso dizer sobre este filme é que foi o último filme que vi no extinto cinema Águia D'ouro, mesmo antes de fechar. E sim, já houve uma altura em que de facto existiram cinemas no Porto. Parece incrível, mas é verdade.

Jaws 2
Contrariando a onda de fiascos relacionados com sequelas de grandes filmes icónicos, Jaws 2 até nem é assim tão mau. O cast é quase todo o mesmo do filme original e deve ser por isso que o filme se aguenta. A história é mais ou menos a mesma do primeiro, mas continua a haver tensão. O filme até tem excelentes momentos de cinema que nem parecem fazer parte do filme. Se uma pessoa conseguir ultrapassar o facto de ser uma cópia do primeiro, até é um filme que se vê bastante bem. ●●○○○

 
Jaws 3-D
É incrível de tão mau. Só vendo se consegue perceber. É um insulto a todos os amantes de cinema. Tem alturas em que parece quase um filme amador.
Pode parecer estranho mas o 3D já esteve na moda há uns anos atrás. Este é o Jaws 3-D e não o Jaws 3. Aliás, parece que nem tem nada a ver com os restantes filmes. Parece que aproveitaram a febre de monstros aquáticos e usaram a designação Jaws 3-D para enganar as pessoas. É inacreditável. Pior que isso é o próprio filme. É praticamente todo filmado num parque aquático, portanto está tudo dito.Tem o Dennis Quaid num dos seus primeiros papéis, mas tenho a certeza que ele não estará muito orgulhoso desta participação. Jaws 3-D: pior que isto é (quase) impossível. É um autêntico filme de série C. ○○○○○


Jaws: The Revenge
O nome diz tudo: este é o filme que retrata a vingança do primeiro tubarão que foi morto no filme original. Provavelmente está chateado da vida por ter sido morto no primeiro filme e portanto voltou para infernizar a família Brody. Não é nenhuma piada. É mesmo verdade. Este Jaws: The Revenge é sobre a vingança do tubarão. É uma questão pessoal, como diz no trailer. Só há uma palavra para isto: patético. Tem o Michael Caine que segundo o que li, aproveitou o facto de estarem a filmar no Hawai para ir passar umas belas férias pagas e a Lorraine Gary do filme original. ○○○○○


 
Há filmes de tal forma especiais que acabam por se tornar icónicos. Jaws é um deles. Nem vale a pena alongar-me muito. Já foi tudo dito. Quem nunca viu o Jaws? Quem não conhece o poster? Quem é que não conhece "aquela" música do John Williams? Exacto.
Jaws é um filme muito especial por várias razões. É um dos primeiros filmes (quase uma estreia) de Steven Spielberg, um dos meus realizadores favoritos de sempre. (Meu, e de muita gente). Depois, Jaws, praticamente inventou o conceito de blockbuster de Verão, mudando a própria história do cinema. (ironicamente, há pouco tempo, li um artigo com uma entrevista ao Spielberg em que ele dizia que os blockbusters acabarão por ditar o fim do cinema actual)
Por fim, Jaws é especial porque é um daqueles filmes de nota 6. O tempo não os afecta. Quem viu o filme em 1975 saiu tão afectado do cinema como uma pessoa que o veja hoje. Mesmo passado tanto tempo, tudo é actual. Os efeitos especiais continuam impressionantemente realistas, mas especialmente porque o medo é intemporal, principalmente o medo do desconhecido...
Pessoalmente, Jaws foi um trauma. Vi-o muito novo e estive muito tempo sem passar da borda da água no mar com medo que um tubarão aparecesse e me comesse um pé. Mas é isso que uma pessoa espera de um grande filme de terror, não é? Qual é o interesse de ver filmes de terror e sair a rir de uma sala de cinema? Spielberg fez uma jogada de mestre ao esconder o "monstro". O grande tubarão branco não aparece na maior parte do tempo. É o método mais infalível para meter medo. É não ver o perigo, mas saber que ele existe. Mesmo hoje, se estou a nadar mais longe da praia e algo me toca debaixo de água, a primeira coisa que me vem à cabeça é... Tubarão!
Jaws não tem uma história do "outro mundo". É totalmente linear mas sem falhas. É mesmo "só" um tubarão a atacar veraneantes. (Se o Peter Benchley lê isto dá-me uma sova). A forma como é contada é que está espectacular. Tem qualquer coisa de Moby Dick. É simples, mas tem algo de clássico ao mesmo tempo. Como se costuma dizer, a simplicidade é a derradeira sofisticação. Pensando bem, Jaws resume-se mesmo assim: simples mas sofisticado. Deve ser por isso que não passa de moda.
Também ajuda ter actores muito bons. Roy Scheider, Robert Shaw e Richard Dreyfuss estão exemplares e são todos tão antagónicos que isso reflecte-se nas próprias personagens.
A conversa entre os três, numa noite calma, dentro barco que por acaso de chama Orca (as orcas atacam os tubarões), apesar de simples é excelente. É tão calma que uma pessoa instintivamente sente que algo de grave vai acontecer. Jaws está repleto destes pormenores de classe. Como por exemplo a morte de Quint que é das mais violentas que já vi no ecrã. O homem está literalmente a ser comido por um tubarão. E está espectacularmente bem feito. Como tudo resto. Para mim, Jaws é um dos melhores filmes de sempre. É o protótipo do filme perfeito. ●●●●● + ●

Depois da desilusão total que foi Elysium, esperava imenso de Neill Blomkamp e deste Chappie. Quando acabei de o ver, tive com uma sensação esquisita: fiquei com mix reviews... Gostei e ao mesmo tempo não gostei. Gostei da aproximação dada à história, mas por vezes pareceu-me algo infantil, quase cómica. Gostei de rever o Dev "Slumdog Millionaire" Patel e a Sigourney Weaver, mas não consegui superar aquele cabelo demasiado estranho do Hugh Jackman.
A nível técnico, Chappie é 5 estrelas. Houve momentos em que me esqueci totalmente que o robot é uma criação digital. Enquanto via o filme, não conseguia deixar de pensar que em termos tecnológicos, no campo dos efeitos visuais, está quase a passar-se aquela fasquia em que o efeito digital passa perfeitamente por realidade. É todo um mundo novo que se abre para o cinema. Se for bem aproveitado, claro está...
Chappie tem algumas cenas excelentes, em que se ganha verdadeiramente empatia pela personagem do robot. Já para não falar das cenas em que parece que o robot se comporta mesmo como uma pessoa. É mesmo, mesmo estranho. E em certa parte, um pouco assustador.
A parte boa do filme é quase exclusivamente a parte técnica. A história e o "fecho" até foram bem tratados, tudo é perfeitamente lógico e plausível, mas apesar de ter uma aproximação diferente do habitual... é novamente um filme sobre Inteligência Artificial... Mais um.
A parte má é que é mais um filme à Blomkamp. Adorei o District 9, mas também não é preciso exagerar. É necessário dizer isto: Blomkamp é um bom realizador, mas está sempre a fazer o mesmo filme! A história muda, mas tudo o resto (visualmente) é tão igual, que parece que uma pessoa está sempre a ver o District 9. Chappie é "interpretado" por Sharlto Copley, o excelente Wikus Van De Merwe de District 9. Isto já não é só um fetiche: é pura reciclagem. Sinceramente, já me começa a chatear. Já li que Blomkamp vai realizar um novo Alien. Tenho um bocado de medo que a história se desenrole (novamente) numa espelunca qualquer na África do Sul e que seja muito parecido com... Bem, já deu para perceber...
Se quisesse ser simpático diria que Chappie "não é inesquecível, mas acaba por ser um bom filme de acção/ficção científica". Mas sinceramente, o que apetece dizer é: "Neill Blomkamp, acorda para vida, porque Chappie parece novamente o District 9, mas com robots no lugar de aliens..." ●●○○○

Pandorum é uma "pequena" produção de ficção científica. Pelo que percebi é uma produção alemã, com uma mãozinha "por trás" de Paul W. Anderson. Não é de estranhar que o filme seja tão parecido com o muito bom Event Horizon. Apesar de ser um bocado dejá vu, eu acho sempre muito positivo ver como é possível fazer um filme de ficção científica relativamente jeitoso, sem gastar centenas de milhões de dólares. Hoje em dia, parece que é obrigatório gastar rios de dinheiro para fazer um filmito em condições. Pandorum, apesar de ser um "filme de efeitos", centra-se mais na história (muito bem escrita), no suspense e no trabalho dos actores do que propriamente nos efeitos. E os efeitos até foram entregues ao estúdio lendário do Stan Winston. É uma das poucas oportunidades para ver efeitos "reais", tipo Face/Off (a série de make up do SyFy, não o filme...)
Tudo é competente em Pandorum: desde a realização de Christian Alvart, até ao trabalho dos actores, com destaque para o Dennis Quaid. Foi uma boa surpresa. A grande falha de Pandorum é tentar por todos os meios assemelhar-se às grandes produções de Hollywood. Se se mantivesse mais fiel a si próprio poderia ter ido muito mais longe. ●●○○○

3000 Miles to Graceland tinha tudo para ser um filme fixe: um bando de ex-condenados (Kurt Russell, Kevin Costner, Christian Slater, David Arquette) a fazer um assalto arrojado a um casino de Las Vegas (o gerente é o Paul Anka) durante uma convenção de sósias do Rei, Elvis Presley. Mas infelizmente, este não é um bom filme. Para já, porque vai no caminho de todos os filmes de assaltos; o assaltante "bom" envolve-se com uma moça gira, Courteney Cox, que acaba por ser envolvida numa teia de enganos e traições. E depois, porque 3000 Miles to Graceland é um filme... meio maluco. Pensando bem, é demasiado maluco: começa no genérico "estranho", passa por cenas que não têm nada que ver com nada (o Ice-T aparece no filme durante uns 2 minutos para fazer papel de palerma) e acaba da forma mais clichê possível. Os actores - que são muito bons - foram nitidamente tão enganados como eu fui... ●○○○○

Depois dos filmes baseados em livros de sucesso, tinham de aparecer os filmes baseados em jogos de grande sucesso. Resident Evil é sem dúvida um desses jogos e tem uma gigantesca legião de fãs. Era inevitável o filme... Eu até sou um grande fã de jogos, mas nunca gostei muito do Resident Evil. Mas o que importa aqui são os filmes. Uma série de filmes quase infindável: Resident Evil, Resident Evil: Apocalypse, Resident Evil: Extinction, Resident Evil: Afterlife e Resident Evil: Retribution. Se visse tudo de seguida, de certeza que tinha um aneurisma...
Enquanto der lucro na bilheteira, continuarão a chegar às salas de cinema mais Resident Evil's. E como parece que são grandes sucessos na venda de bilhetes...
Tirando o primeiro filme, que ganha qualquer coisita porque vive do efeito novidade, os restantes filmes são sempre iguais: grandes cenas de porrada, efeitos digitais marados, zombies, mutantes, zombies mutantes, mutantes zombies e a Milla Jovovich. (por vezes, também aparece a Michelle Fast n'Furious Rodriguez e o Iain Game of Thrones Glen) Como o argumento se apoia na luta contra zombies, cenas esquisitas biotecnologicamente manipuladas e uma pérfida Inteligência Artificial, tudo criações secretas de uma (mais uma) malvada mega-corporação global que domina tudo e todos (onde é que já vi isto?), o manancial de sequelas é praticamente infinito. E se a Umbrella Corporation desenvolver uma máquina do tempo e fizer sucessivos reboots à série de filmes, então o número de sequelas é mesmo infinito. Aliás, já deve estar mais uma no "forno"... E desta vez, para ser diferente (até porque já passou de moda) não é em 3D: é em 4D. E a sequela seguinte vai ser com "aromas"... (como é que chamarão a essa "nova" tecnologia? AromaScope? ScentCinema? Smell-O-Rama?...)
Quem se safou bem com toda esta situação foi Paul W. Anderson, que pode estar sempre a fazer o mesmo filme e ganhar uma carrada de pasta... A vida nos grandes estúdios de cinema é mesmo assim. Anderson esteve de descanso em dois filmes da série e "passou a pasta" ao novato Alexander Witt e ao "velhote" Russell Mulcahy.
Para terminar, fica a pergunta no ar. Será mesmo possível distinguir uns filmes dos outros só pelo trailer? Eu não consigo... ●○○○○


Seven é um filme excelente. Não consigo ser mais sintético. É um dos melhores policiais que já vi envolvendo o tema sempre magnético dos serial killers. Desde o genérico inicial até aos créditos finais, nota-se que cada cena foi pensada e executada ao pormenor. Seven é o filme que todos os realizadores gostariam de ter feito: é simples mas ao mesmo tempo é complexo. Tem um aspecto decadente, mas também é esteticamente belo. É um drama. Um policial negro. Um filme de suspense que também está repleto de acção.
Tecnicamente é irrepreensível. Tem a música de Howard Shore que é sempre óptima e dá uma ambiência decadente e quase mística ao filme. Mas não é só a música. Tudo está primoroso em Seven: o som, a iluminação, a montagem... Tudo perfeitamente consistente. O facto de David Fincher ser um gajo dos telediscos poderia ter destruído o filme. A anterior experiência de realização tinha sido um fracasso relativo (Alien3), mas foi mais por culpa da estrutura do próprio filme do que do Fincher. (E já agora, o Alien3 só não é o melhor de todos os Alien, porque existe um Aliens do Jim Cameron...). David Fincher surpreendeu-me imenso e tornou-se imediatamente num dos meus realizadores de eleição, precisamente por ter pegado em toda a experiência visual dos telediscos e ter transformado um policial que poderia ser banal numa quase obra prima. Mas a palavra-chave aqui não é visual. É consistência. Tudo está perfeitamente unido. É um puzzle gigante em que no final todas as peças soltas encaixam na perfeição. Lembro-me perfeitamente do detective Somerset dizer algures no meio do filme que a história não ia acabar bem...
Em termos de argumento, Seven é como um relógio suíço. É uma obra de precisão meticulosamente manufacturada em que o autor está atento ao mais ínfimo pormenor. E ainda por cima está repleto de considerações acutilantes ao funcionamento da sociedade actual, que uma pessoa sabe que são verdadeiras, mas não tem coragem de as afirmar. Sendo que a base do argumento são os 7 pecados capitais, não dar uma "tacadas moralistas", seria perder uma oportunidade de ouro, não é verdade?
Nos papéis principais, estão dois excelente actores no "pico de forma" que são tão diferentes e antagónicos que só podiam funcionar bem juntos: Morgan Freeman e Brad Pitt. Gwyneth Paltrow num papel mais secundário do que habitual como a super fragilizada mulher de Pitt está perfeita, mas quem rouba o show é sem dúvida Kevin Spacey (John Doe é sem dúvida um dos melhores serial killers da história do cinema) que apesar de só aparecer durante poucos minutos consegue ter tanto impacto no filme quando os outros actores. Muito bom.
Seven é daqueles filmes que não preciso de rever, se bem que o faço sempre que dá na TV. Não consigo resistir. Vi-o no cinema na altura da estreia. . Não sabia ao que ia. Tinha gostado imenso do filme de estreia do Fincher e fiquei curioso para ver o que iria apresentar. Logo no aspecto inicial dos créditos percebi que ia ver algo especial. Quando comecei a ouvir e a musica era NIN eu soube que vinha aí algo de único. E não me enganei-me. Mais: suplantou todas as minhas expectativas. Levei uma autêntica "pancada" na cabeça. E foi espectacular. Saí da sala de cinema e só me apetecia voltar e rever o filme... Tem cenas tão brutais, únicas e inesperadas que ficam gravadas na memória. Não é preciso lembrar ninguém do salto que deram na cadeira quando o Victor (um esquelético, mas "verdadeiro" Michael Reid MacKay) repentinamente se começa mexer naquela cama suja, pois não? Ou daquela caixa no final...
Mas como todos os filmes que são excelentes, Seven tinha de ter o final perfeito. Para mim, tem um dos melhores finais que já vi. É difícil rematar bem uma história, principalmente quando ela se vai desenvolvendo em crescendo: é preciso um daqueles finais bombásticos. Seven cumpre totalmente. Tem o remate perfeito. Seven é um daqueles raros filmes que uma pessoa tem mesmo de ver. ●●●●●

Pequena coleção de filmes medianamente jeitosos dentro da temática utópicos. Ou melhor, fazem parte daquela categoria muito boa que começa por: what if...?

E se por acidente alguém encontrasse dragões (dos "verdadeiros") e os despertasse, o que aconteceria ao mundo? A resposta está em Reign of Fire. O melhor vem do trio de actores (Christian Bale, Matthew McConaughey e Izabella Scorupco) e do uso q.b. de efeitos especiais. O pior é a total previsibilidade do argumento. É daquelas histórias sempre em frente. É um filme fixe com dragões (o que não é fácil de encontrar), mas não tem nada de novo. ●●○○○


E se por acaso, inexplicavelmente, todas as mulheres ficassem inférteis? O que aconteceria ao mundo? Uma resposta parece ser Children of Men de Alfonso Cuarón. Sem dúvida, o melhor desta tripla de filmes. Bem engendrado, bem interpretado (Michael Caine, Clive Owen e Julianne Moore) e com muito bom andamento. Se o filme não é melhor, é talvez porque é um filme em decrescendo: começa a abrir, promete imenso com uma premissa verdadeiramente original, mas facilmente se percebe que vai perdendo gás. Precisava de um bocado mais de temperos e passava logo para outro nível. ●●●○○


Por fim, e se se inventasse uma persona robótica que fizesse de substituto social de cada pessoa? O que aconteceria? Aparentemente, em Surrogates (com Bruce Willis e Rosamund Pike), o crime desaparece e tudo fica perfeito. Até que por fim o crime volta novamente... Este é o mais fraco destes filmes. É feito de propósito para ter o máximo de cenas de acção possíveis e usar as potencialidades dos efeitos digitais sem ligar grande importância à história. É um frankenstein: uma mistura retalhada de I, Robot com outros filmes futuristas. Filme para domingo à tarde... se não estiver a dar mais nada de jeito. ●○○○○

Rush Hour, Rush Hour 2 e Rush Hour 3 são filmes que podem ser resumidos em quatro palavras: Jackie Chan, Chris Tucker, pancadaria-em-estilo-artes-marciais-mais-ou-menos-engraçadas-e-pouco-violentas-para-os-filmes-poderem-ser-classificados-como-filmes-de-família e bloopers (verdadeiramente cómicos) nos créditos finais. É isto. ●○○○○



Sabia que este filme era um remake de um filme sueco de grande sucesso, baseado numa trilogia de livros também de grande sucesso. (Tanto sucesso junto põe-me logo de pé atrás) Mas depois quando vi que era realizado pelo David Fincher e como não costuma falhar, fiquei logo mais sossegado. Infelizmente, The Girl with the Dragon Tattoo foi mais uma decepção. Não é que o filme seja mau, eu é que pelos vistos tenho expectactivas muito elevadas quando vejo o nome dos realizadores. Desde o início da carreira que Fincher me enche totalmente as medidas. Mas também é verdade que após alguns filmes e mais recentemente, a coisa tem vindo a descambar... Estranhei imediatamente quando vi aquele genérico "maluco" plastificado com música de Led Zeppelin/Trent Reznor. Eu até gosto bastante de Led Zeppelin e de NIN, mas... o que é aquilo? O que é aquele genérico tem que ver com o resto do filme? Não percebi...
A história bem construída, dividida entre o policial negro e o thriller é pouco usual para o "standard americano" recente e por isso é muito fixe. O James Bond Daniel Craig está ok, assim como a Rooney Mara, o Christopher Plummer, o Stellan Skarsgård e o restante pessoal. Mas tudo isto se eclipsou na minha cabeça... É que continuo a questionar-me: onde é que está o antigo David Fincher? ●●○○○


Uma das grandes vantagens de ser "crítico amador" é poder ser totalmente imparcial.  Para explicar melhor este raciocínio existe... Cobra (o acrescento da tradução portuguesa "O braço forte da lei" ainda dá mais ao brilho ao título). Qualquer "crítico profissional" despreza o Cobra. É "obrigado" a fazê-lo. É um filme que tem todos os clichés possíveis e imaginários, que rouba mais ideias do que inspira e que tem prestações de actores que chegam a ser confrangedoras. Tirando isso, Cobra é um filme excelente.
Para já, faz parte do meu imaginário. Quando era miúdo adorava o Sylvester Stallone (e o Schwarzenegger também [aliás, qualquer gajo que desse porrada nos "maus" e tivesse alguma massa muscular relevante]). Mas especialmente adorava o Cobra e o seu estilo tipo "lobo solitário" justiceiro. Não sendo um feito de que me orgulhe muito, vi este filme até à exaustão. Não conseguia deixar de ver. Tinha algo magnético que não conseguia explicar. Ainda há pouco tempo apanhei-o aí num canal de cabo e não resisti... vi-o outra vez.
Cobra é um filme que está mal rotulado. Teoricamente é um filme de acção em que o protagonista é um detective durão que faz os "trabalhos sujos" que ninguém quer fazer. Mas está errado. Este é um filme de acção em que o protagonista é um super-herói chamado Cobra que por acaso tem como disfarce fazer de detective durão. Ele não se chama Cobra, esse é o "nome de código", tipo Batman. O verdadeiro nome é Marion Cobretti, tipo Bruce Wayne... A diferença é que Cobra não aparece quando vê um sinal luminoso nos céus, mas quando ouve o grito dos inocentes na rua... Vá lá, quem é que usa aqueles óculos à "police", t-shirt preta super-justa e um palito no canto da boca? Só mesmo uma personagem tipo super-herói! O Cobra até tem uma arma personalizada, já para não falar do carrão kitado com nitro e uma matrícula personalizada... "AWSOM50"! O homem vive sozinho no seu covil, perto de pulhas (gosto desta palavra: pulhas) sul-americanos o que é bastante conveniente para mostrar como ele está tão "dentro do sistema" como perto da marginalidade. Brilhante. O homem até corta piza aquecida no microondas com
uma tesoura...
Só havia uma pessoa que podia interpretar correctamente a personagem de CobraSylvester Stallone. Nunca ninguém vai conseguir imitar aqueles trejeitos todos do Stallone. É simplesmente impossível porque Cobra é um gajo que fala pouco. É daqueles gajos que quando abre a boca só diz punch-lines: "You're a disease; and I'm the cure", "You know that's bad for your health? Me!", "This is where the law stops and I start - sucker!", "I don't deal with psychos. I put 'em away.". Tudo isto só tem algum sentido se for sussurrado pelo canto da boca à Stallone. E só Stallone consegue efectivamente fazer isso.
Cobra tem mais elementos do filme de super-herói do que do filme de detective. O mauzão é o mauzão logo à primeira imagem. O vilão é um gajo com tão mau aspecto, que uma pessoa só precisa de ver a cara para perceber. E é verdade. O actor que faz de mau (um excelente Brian Thompson), mais parece uma máscara maléfica que outra coisa. Mete respeito e mete muito medo. Se me cruzasse com ele na rua à noite, mudava de passeio sem pensar uma única vez. Mais gritante ainda é a personagem memorável de Brigitte Nielsen (quando uma pessoa a vê a tentar representar nunca mais se esquece): é a típica Lois Lane, sempre em apuros, sempre a ser salva pelo "super-homem". E o Cobra é de facto um "super-homem"! Luta pela justiça e é imune a socos, navalhadas, explosões e rajadas de balas. Aparentemente não pode ser morto com armas humanas. E é por causa disto tudo que gosto de Cobra: é tão mau que acaba por ser bom.
Mas há mais. Cobra ainda é um filme "inocente". Os transeuntes são "inocentes". Os actores secundários são "inocentes".  É inocente até na violência que mostra. Tem uma das mortes mais violentas que já vi no cinema "normal" e mesmo assim a cena é tratada como se nada de anormal se tratasse.
Passando para outro plano completamente diferente. Já ouvi muita gente a dizer: "Ah! Os anos 80! Foi uma época do caraças e mais não sei o quê...". Se alguém quer conhecer melhor o que foram os anos 80 não vejam documentários do National Geografic: vejam o Cobra que é muito mais completo. Tem tudo: os cabelos, as roupas, os tiques, o look, as cores, os néons, a maneira de viver, a tecnologia estranha...
Cobra é um esquema completo do que foram os anos 80. Até no próprio cinema. George P. Cosmatos conseguiu resumir tudo num só filme. Está tudo aqui: a forma como eram filmadas as perseguições, as lutas, o tratamento da cor e do som, a forma de montagem, a construção das personagens, os estereótipos bons e maus, o andamento da narrativa, o culminar da história e até os próprios posters e trailers... Está tudo aqui. Não é de estranhar que Nicolas Winding Refn tenha vindo buscar tanta inspiração para o Drive... (aquele palito não engana ninguém)
Cobra, mais que um grande filme, é um caso de estudo. Como se costuma dizer na crítica profissional: "Imperdível!" "Dois polegares para cima!" ●●●●○

Apesar de já ter visto muitos filmes de zombies nunca fui grande fã, por isso vou ser rápido: Maggie foi uma desilusão esperada. Hoje em dia, com a febre por zombies (apesar de ninguém lhes chamar zombies, mas sim walkers, zekes, etc..) que por aí anda, é difícil ser surpreendido. Quando vejo que vai sair (mais) um filme de mortos-vivos, sei logo que vou ficar desapontado. São sempre iguais: há zombies e pessoas a fugir dos zombies, mas no final, o pior de tudo são mesmo as pessoas... é sempre igual. Mas desta vez era zombies e Arnold Schwarzenegger na mesma frase. Pensei logo: ou seria uma surpresa boa ou seria uma surpresa "tipo Avillez" numa combinação improvável de omolete e beterraba. (não foi muito boa esta comparação, mas foi o que me apareceu na cabeça...)
Comecei por ficar bem impressionado por ver o tema mil vezes batido dos zombies ser tratado de uma forma diferente do típico "apocalipse incontrolável". Acho que se pode dizer que Maggie é um drama com zombies. Esta parte é uma relativa novidade. O problema é que o filme começa lento e acaba mesmo por ficar preso: na premissa original, no tom arrastado da narrativa e no tom deslavado da fotografia. (É curioso: em quase todos os filmes de zombies a cor desaparece até ficar tudo meio acinzentado... [já não suporto tanta lividez]) Pior que isso é encravar no final. Aliás, a grande desilusão é mesmo a previsibilidade do final. As partes boas do filme são os papeis "sérios" de Schwarzenegger e Joely Richardson (sempre impecável) e a forma como o filme foi abordado de início. Tirando isso, é mais do mesmo: zombies... e pessoas piores que zombies. ●○○○○

From Dusk Till Dawn é um filme bónus, tipo 2 em 1: é meio filme tipo Tarantino, com gangsters marados em fuga da polícia, mais meio filme de terror/vampiros tipo... Robert Rodriguez?!... Bem, o R. Rodriguez sempre foi sanguinário, mas não me lembro de vampiros... Não interessa.
Este é um filme esquizoide. Tem uma primeira parte muito boa, onde nitidamente o Quentin Tarantino teve muito trabalho, apesar de supostamente só ter escrito o argumento. Depois passa inesperadamente para um filme de vampiros tipo série B. É estranho.
Vi-o praticamente quando estreou e não sabia que era com vampiros. Foi esquisito, mas acima de tudo foi uma grande surpresa. Hoje em dia é praticamente impossível que isto aconteça porque anos antes de um filme estrear, já meio mundo sabe tudo o que vai acontecer. Tenho pena. A surpresa era um factor importante do cinema. O efeito surpresa nos filmes parece que morreu... Pode ser que um dia ainda volte, tipo vampiro...
Os efeitos são do melhor que havia em 1996, mas isso não interessa para nada num série B. O elenco é excelente. Dificilmente se consegue juntar tanto e tão bom pessoal num só filme: George Clooney, Quentin Tarantino, Harvey Keitel, Juliette Lewis, Salma Hayek, os "típicos mexicanos" Cheech Marin e Danny Trejo (apesar de serem americanos de gema...), os "velhadas" Fred Williamson e John Saxon (Tarantino e Rodriguez nunca perdem a oportunidade de homenagear o pessoal que os inspirou) e até um outro realizador/gajo dos efeitos especiais, o quase lendário Tom Savini. ●●○○○

De vez em quando aparecem filmes-pipoca que são inesperadamente agradáveis. É o caso de Kingsman: The Secret Service. É um bom filme de acção com grandes e originais cenas de pancadaria, bom ritmo, mas especialmente tem bons actores (Mark Hamill, Samuel L. Jackson, Michael Caine, Mark Strong e especialmente Colin Firth) que dão corpo a grandes personagens. No cenário actual dos "filmes de porrada" é de louvar.
Não sei se é o aspecto ostensivamente brit, se é por lembrar os filmes originais do James Bond mais a típica cena world domination ou se é por o realizador ter "inclinação" para filmes de super-herói (Matthew Vaughn realizou o X-Men: First Class). O que é certo é que Kingsman é divertido ao mesmo tempo que é violento. Não parece fazer concessões. Se calhar é por causa disso que Kingsman é fixe: parece uma mistura de super-heróis com o James Bond onde os espiões podem finalmente dizer asneiras e cortar os inimigos ao meio... ●●●○○

The Informant! é o típico filme de Steven Soderbergh: muito bem escrito, espectacularmente construído em termos de narrativa, muito bem realizado, banda sonora impecável, sempre tudo muito bem polido, como de costume. É pena que tenha ficado demasiado polido: ficou "monocromático"...
The Informant! conta uma história de corrupção imersa em intrincadas relações empresariais e comerciais, e tem muita, muita conspiração, enganos, mentiras, traições e escutas aos magotes. É uma história louca, tão louca que só podia ser baseada em factos verídicos. No que toca a maluqueiras, nada bate a realidade. Só acho que devia ter sido mais divertida, mas acho que foi o trailer que me enganou... Ainda assim, o absurdo de toda a história acaba por se tornar divertido.
Como costumo dizer, Matt Damon is everywhere. E é verdade. Apesar dos muitos actores, ele praticamente faz o filme sozinho. Soderbergh é daqueles gajos que nitidamente não consegue fazer filmes maus, mas sinceramente já vi melhor. ●●○○○


Há filmes para todos os gostos e de todos os géneros e sub-géneros. Balada da Praia dos Cães, um filme de cariz político da autoria de José Fonseca e Costa, pertence a um sub-sub-género muito específico que é o "esquecido, maltratado e difícil de apanhar". Demorei anos até o conseguir ver, mas finalmente consegui. Vamos por partes.
Baseado no livro de José Cardoso Pires com o mesmo nome, Balada da Praia dos Cães é acima de tudo uma amostra do Portugal dos anos 60: cinzento, bafiento e salazarento. Mas não só. É uma história policial baseada em factos verídicos, intrincada, negra, muitíssimo bem montada e com uma narrativa  moderna, recorrendo com frequência a cenas de flashbacks e sonhos.
Tudo começa numa praia, com a descoberta do corpo em decomposição de um oficial do exército procurado pela polícia política. O responsável pela investigação é Elias Santana, um solitário homem à antiga. Terá que deslindar um caso complexo com a ajuda de Mena, uma misteriosa mulher que entretanto se entrega às autoridades e que tem uma historia incrível para explicar a macabra descoberta. Ao mesmo tempo, Elias combate o poder de sedução de Mena para não cair em tentação...
Quanto mais não fosse, só pelo tratamento dado à história valia a pena ver. Mas depois ainda tem Raul Solnado e Assumpta Serna. Solnado aparece num raro papel sério e está óptimo, ainda que por vezes ficasse com a sensação que ele nunca consegue mesmo ficar sério. Fica aqui provado que Solnado não era "apenas" um homem da comédia: era excelente na representação.
Mas se há um destaque na representação ele tem de ir obrigatoriamente para Assumpta Serna. Fixei automaticamente este nome. Nunca tinha visto esta actriz espanhola e posso dizê-lo que fiquei enfeitiçado, tal como a personagem Elias Santana. Parece que saiu verdadeiramente dum filme dos anos 60. Tem aquela beleza típica do sixties que não se consegue explicar. Mas não é só uma cara bonita; é uma brilhante actriz. Quando fui pesquisar e vi o currículo da mulher fiquei estupefacto. (e pensava eu que sabia muito de cinema...). É um dos pontos de tensão constante do filme: o confronto surdo entre o Solnado como representante antiquado de quem fecha os 50's e a Serna como a mulher moderna que dá inicio aos 60s.
Depois começam os problemas "técnicos".
O filme é muito bom e tem momentos geniais de cinema, só que tem um péssimo som. Parece que o som é projectado do auscultador de um telefone antigo... ao longe. E ainda por cima a música até está presente e é muito boa (do Alberto Iglesias), contrariamente aos outros filmes portugueses que tenho visto, em que o silêncio só é cortado pelo chão a ranger debaixo dos pés dos actores.
Ao irritante problema "som", juntam-se as dobragens que são horríveis. Sim, dobragens. Como o filme é uma produção Portugal-Espanha e o elenco tem actores de várias nacionalidades, optaram pela dobragem. Por muito que se esforçassem, António Feio, Paula Guedes e Mário Viegas nunca conseguiriam fazer esquecer o ridículo que são as dobragens.
Volto ao início, Balada da Praia dos Cães, é um filme "esquecido, maltratado e difícil de apanhar". Há muitos anos que queria ver este filme e finalmente consegui apanhá-lo na RTP Memória. Foi mesmo difícil. Pergunto eu: não há tempo de antena suficiente para ir repondo por aí uns filmes portugueses mais antigolas, mas muito bons, como este?  
Balada da Praia dos Cães parece o filme que quase não existe. Mesmo na vastidão da net, não há disponível um trailer ou um poster. E o IMDB só tem a ficha mínima. É uma pena. Mal tenha oportunidade irei criar um poster em condições. É o mínimo que posso fazer. Este filme merece um tratamento digno.

E faço um apelo sentido aos senhores donos deste filme para que remasterizem este filme e especialmente que tratem daquele som marado. O filme está tão bem feito e é tão moderno que depois podem até reeditá-lo para cinema. Ninguém vai notar. ●●●○○

Outra série de filmes medianos (estes, bem acima da média), desta vez dentro duma temática muito especial: "filmes melhores que a média, vindos de grandes realizadores, mas que de alguma forma não conseguem passar aquela barreira do "muito bom" porque são demasiado perfeitos". É uma temática estranha e muito difícil de explicar. Mas existe. Alexander Payne, Wes Anderson e Baz Luhrmann são todos realizadores excelentes. São nomes a que estou sempre atento e dos quais espero sempre o melhor do melhor. O "pior" que conseguem fazer são estes filmes. Filmes tecnicamente perfeitos, com histórias tratadas de maneira original e com actores muito bem escolhidos e dirigidos. O que falha nestes filmes é pfunfzzz. Aquele kick. É difícil de explicar. É como se faltasse o elemento surpresa, aquela estalada cerebral que uma pessoa leva quando vê aquele filme. Uma pessoa sabe de antemão que vai ver um filme bom e é "apenas" isso: um filme bom. Estranhamente, o que não gosto nestes filmes é que parecem todos... demasiado perfeitos. (É estranho dizer, mas é verdade) Elevar muito a fasquia tem destas coisas. Nestes casos, não consigo deixar de fazer comparações. Election é melhor que About Schmidt? The Grand Budapest Hotel é melhor que The Life Aquatic with Steve Zissou? The Great Gatsby é melhor que Moulin Rouge?

Election
Matthew Broderick e Reese Witherspoon enfrentam-se numa eleição escolar e é o caos total. Uma comédia melhor que a média. Muitas observações cáusticas e bicadas ao sistema. Não sei se é por estar lá o Matthew Broderick ou por a história se passar numa escola, mas houve alturas em que parecia que estava a ver uma continuação do Ferris Bueller's Day Off... (E afirmo isto no bom sentido...) ●●●○○



The Grand Budapest Hotel
Uma história rocambolesca sobre o roubo de uma obra de arte num imaginário e luxuoso hotel, na imaginária República de Zubrowk. Um "lendário" porteiro chamado Gustave H (Ralph Fiennes) e o seu fiel amigo, o paquete Zero. A confusão habitual de Wes. O elenco é tão grande e tão recheado de nomes sonantes que precisaria de um dia só para os escrever... (podia fazer copy/paste mas isso perdia toda a piada). ●●●○○



The Great Gatsby
Mais uma adaptação da história do misterioso Jay Gatsby, o manipulador, calculista e eterno optimista que perde tudo no final, como qualquer bom optimista. Também conhecida como a "história que uma pessoa é obrigada a ler nas aulas inglês do secundário". Leonardo DiCaprio está muito fixe e parece que finalmente se conseguiu descolar do "menino bonito". ●●●○○


Como grande parte do pessoal da minha geração sabe, os Nirvana vieram preencher um vazio. No início dos anos 90 parecia que existia uma necessidade no ar. Sentia-se que era preciso power na música. Que era preciso regressar ao low-fi, às guitarras desafinadas e aos rifles potentes. Era preciso que alguém aparecesse em palco e partisse aquela porcaria toda. Era preciso gritar, dar uns berros, partir umas guitarras no amplificador. Era preciso rebentar... O pessoal já estava farto de cabelos com gel, fatiotas a condizer com os sapatos, coreografias bem ensaiadas e músicas pop polidas até à exaustão. O metal não era solução: tinha calças mais justas que collants, cabelos tão bem tratados e longos não era para toda a gente e, além do mais, até o metal tinha baladas... O punk, idem aspas, com a agravante que as considerações estéticas eram ainda mais gritantes e discutíveis, com a excepção das botas pretas de tropa. Era preciso algo novo, mais desleixado, mais cru, mais individual, mas ao mesmo tempo poderoso e libertador. O que apareceu foi o grunge, uma mistura de coisas novas e antigas, que não condizia com nenhum rótulo conhecido. Era um capítulo novo. O grunge parecia-se com muita coisa e com coisa nenhuma. E a primeira banda associada a esse novo estilo que ninguém percebia muito bem o que era (acho que ainda não se percebeu) foi precisamente os Nirvana. Uma banda atípica naquela altura: eram só três elementos, desgrenhados e o vocalista não era "bonito", nem sorria para a câmara. De uma vez só, os Nirvana preencheram todos os vazios. Aquilo era poderoso, cru e, mais importante que tudo, parecia ser verdadeiro. Parecia mesmo uma daquelas bandas de garagem que toda a gente teve ou que o vizinho do lado tinha e um gajo só ia lá para assistir. Não admira que o sucesso tenha sido colossal e imediato. E é preciso relembrar que isto tudo aconteceu num mundo antigo e desconhecido de muita gente, onde ainda não existia internet, ainda se usava o vinil, cassetes (e duplos decks) e o grande hype era... o CD. Era outro mundo totalmente diferente. (Agora senti-me um verdadeiro dinossauro...)
O pessoal queria dar (e levar) umas cotoveladas, mochar um bocado e não cantarolar ao ouvido ou dançar juntinho com a namorada. Só o "dançar" já era algo que estava a mais... Mas claro que não foram só os Nirvana. Foram os Smashing Pumpkins, os Pearl Jam, os Stone Temple Pilots, os Soundgarden, os Nine Inch Nails, os Alice in Chains, os Sonic Youth, os Faith no More e tantos, tantos outros que vieram ao mesmo tempo, sendo que provavelmente muitos nem se encaixam na "categoria oficial" do grunge. Pessoalmente, sempre reconheci mais o grunge como um momento na história, do que propriamente uma "categoria" musical...
Para mim, como para milhões de outros, os Nirvana apareceram exactamente na altura certa. O que lia naquelas letras era mesmo aquilo que sentia e, mais importante, era mesmo aquilo que queria dizer. Foi estranho. Foi uma ligação global instantânea. Ainda hoje, volta e meia, naquelas ocasiões especiais, lá pego no velho CD e dou por mim a ouvir Nirvana. Vai ficar aqui para sempre.
Por causa disto tudo o que enumerei, quando ouvi dizer que ia sair um documentário sobre os Nirvana, fiquei entusiasmado. Gosto muito da música deles, mas dos elementos da banda só sei os nomes e pouco mais.
Cobain: Montage of Heck é uma ode aos Nirvana, embora esteja excessivamente centrado no Kurt, o que não acho nada criticável, pois foi sempre a face mais visível (e visada) da já mítica banda. E, pensando bem, qual é a banda em que o vocalista não é o elemento principal?
Para quem é fã dos Nirvana, muito provavelmente, este documentário é quase um estado de... nirvana. Tem tudo. Tem filmagens desde o nascimento até à morte do Kurt, animações, diagramas, desenhos e depoimentos vários, num dos trabalhos de montagem mais épicos que já vi.
Por outro lado, para quem, como eu, é um grande fã da música dos Nirvana, acaba por ser um bocado decepcionante. Mas também já estou habituado a esta aproximação. Obviamente, não acredito em metade do que é relatado porque simplesmente sei que cada participante ou interveniente na vida do Kurt Cobain vai ter uma opinião diferente, se não mesmo contrária ao que aqui aparece. Não me parece que alguém consiga resumir e mostrar verdadeiramente a "história completa". Nem a própria pessoa visada, quase de certeza teria a capacidade de mostrar a história verdadeira. Não sei se a história foi semelhante ao que aparece no documentário, mas aceito a lógica do guião.
Se se considerar a parte mais técnica do documentário (guião, realização, montagem, fotografia), este Cobain: Montage of Heck é um brilhante documentário, muito provavelmente um dos melhores. Aproveitando o mote do título: "montage of heck" é um documentário com uma "montagem do caraças". Brilhante mesmo. Só poderia ser melhor se estivesse mais virado para o lado da música do que para a parte pessoal, mas compreendo a inclinação...
O documentário não sei se ficará para a história. É provável que fique. Mas tenho uma certeza: os Nirvana já ficaram. Disso não tenho dúvida. Porque sei que daqui a 20, 30 ou 50 anos, um teenager do futuro vai abrir um cd (ou o suporte que se usar nessa altura) do Nevermind e quando ouvir aqueles primeiros acordes do Smells Like Teen Spirit vai-lhe dar uma vontade estranha de vestir camisas de flanela, abanar o capacete e de se atirar para cima de outras pessoas... ●●●●○

Antes de mais queria dizer que não gosto de comédias. Acho-as constrangedoras porque normalmente não me conseguem fazer rir. ...E depois fico com pena dos actores. É verdade. É como aquelas situações em que uma pessoa está a assistir a um show de stand-up, mas a pessoa não tem graça nenhuma... É mais ou menos isso que acontece. No campo da comédia, sou um público muito, muito difícil. As únicas coisas que - nas condições certas - me consegume fazer rir são tombos/malhanços ou argumentos tipo Woody Allen. E é aqui que entra o Jim Carey, o mago das caretas estúpidas e da comédia física, digamos assim. Não sei porquê, mas é dos poucos que consigo suportar (parece-me genuinamente um bom actor, e acho uma pena que não "salte" fora das "comédias de caretas"). Mesmo assim, tenho de estar na disposição para a galhofa...
Vi o Bruce Almighty e achei-o razoavelmente... suportável. O Jim Carrey não faz demasiadas palhaçadas e a história até tem alguma margem para ter piada. Ter uma vida de porcaria e de repente ficar com todos os poderes divinos dá muito jeito para encaixar algumas piadas e foi isso mesmo que aconteceu. Soltei umas gargalhadas, não mais que isso. Lá pelo meio também tem o Steve Carell, que sei que é um actor cómico com muitos fãs, mas que nunca dei muita atenção, lá está, porque não sou entusiasta da comédia. E qualquer filme sai sempre mais elevado com a presença de Morgan Freeman. Ajuda sempre. ●●○○○


É uma sequela? É um spin-off? Não. É o mesmo filme.
No outro dia, estava a vegetar em frente à TV e vejo novamente o Morgan Freeman a fazer o papel do primeiro filme. Pensei que era uma repetição do Bruce Almighty. Mas não reconheci nada, a não ser o Morgan Freeman e o Steve Carell.  Na informação do canal, dava como título do filme Evan Almighty. Pensei que tinha perdido capacidade de memória, porque tinha a certeza que o filme se chamava Bruce Almighty. Ainda por cima, não aparecia o Jim Carrey. Continuei a ver e então percebi que era outro filme. Uma espécie de... Não sei muito bem o que é, mas basicamente é o filme anterior com algumas das personagens anteriores, (Freeman faz a mesma personagem e Carell faz a personagem de Jim Carey) embrulhadas numa história parecida com a anterior. A única diferença em relação ao anterior é este filme ser (ainda) menos cómico. Aguentei ver o filme até ao fim porque estava mesmo muito cansado e não me apeteceu levantar do sofá...
(sim, podia ter mudado de canal, mas fiquei a ver como é que acabava a história... Não costumo deixar filmes a meio. Nem mesmo aquelas comédias que não me conseguem arrancar um único sorriso...) ○○○○○


 
Christine é mais um dos grandes filmes de John Carpenter. Infelizmente, este é um daqueles gajos que só vai ter reconhecimento como grande cineasta que é quando morrer. É verdade que nos últimos anos tem andado desaparecido e quando aparece, os filmes são muito fraquinhos. Mas tem um reportório anterior que mete respeito. Christine é um desses exemplos. Tenho que dizer que a Christine é um carro muito, muito fixe. É verdadeiramente uma personagem. Tudo é fixe neste filme: desde as boas interpretações dum elenco jovem e totalmente desconhecido (Keith Gordon, John Stockwell e Alexandra Paul, ajudados por veteraníssimos como Robert Prosky e Harry Dean Stanton), até à grande banda sonora que acompanha cada momento do filme.
A base é (mais) uma excelente história de Stephen King sobre um carro-assassino-psicopata que aparentemente tem vida própria. Mas é mais do que isso. É sobre a emancipação na adolescência. É sobre despegar-se das rédeas familiares. É sobre o poder que é ter algo verdadeiramente nosso. É sobre a revolta dos nerds. É sobre como o sobrenatural aparece despercebido no quotidiano. Christine tem tudo. Tem cenas verdadeiramente inesquecíveis, como por exemplo a Christine a rolar vagarosamente em chamas numa estrada tipo Lost Highway ou ver o carro a reconstruir-se à frente dos nossos olhos. Agora parece um pouco idiota dizer isto, mas em 1983, sem computadores para gerar efeitos digitais, isso era verdadeiramente cinema sobrenatural. Christine é John Carpenter vintage. Um clássico de terror, "bad to the bone" e muito fixe. ●●●●○

Durante muito tempo fui um maluquinho por Legos. Depois cheguei aos 10 anos de idade e isso passou-me. Por isso mesmo, tinha uma grande curiosidade em ver The Lego Movie. Não desilude muito: é um filme de animação... com legos. Não é aborrecido nem irritante, dá para algumas gargalhadas e tem as vozes de grande actores como Liam Neeson ou o incomparável Morgan Freeman.
Mas o que me chamou à atenção neste filme foi a história. Já não é a primeira vez que vejo filmes de animação em que o ênfase está numa espécie de alerta anti-capitalista. A lógica é sempre a mesma: há um grande homem de negócios que quer acabar com a diversão dos gajos normais para fazer uma treta enfadonha qualquer e restrita a uma elite. Aqui o mauzão de serviço é um boneco chamado Lord Business. Não deixa de ser estranho, se pensar que estes filmes vêm dos grande grupos da indústria do cinema. Irónico, no mínimo. É estranho. Deveria haver uma reflexão profunda sobre o porquê de filmes para crianças incidirem tanto em temas como o capitalismo selvagem ou a crítica social, quando as crianças de certeza que não perceberão a história. Será uma indirecta para os pais que os acompanham? Não sei dizer...
The Lego Movie fica um pouco abaixo do mediano porque não tem nada de novo. A única coisa que o diferencia dos milhões de filmes de animação que são lançados todos os anos é que tem legos. Advinha-se uma sequela, uma prequela e mais dois ou três spin-offs... ●●○○○

Mais três filmes medianos, agora dentro da temática "o mundo está quase a acabar, ou então já acabou e o que vem a seguir pode ser mais ou menos isto"...

Depois do grande sucesso da Cidade de Deus e da passagem muito bem conseguida para o filme "americano" com The Constant Gardener, o brasileiro Fernando Meirelles adapta o livro de Saramago "Ensaio sobre a Cegueira" sobre uma estranha epidemia que torna toda a gente cega. Não li o livro, portanto não posso dizer se o filme lhe faz jus ou não. Mas vi o filme e não gostei muito. A ideia parece-me excelente, mas o desenrolar do filme é muito lento. Começa muito bem e depois vai ficando cada vez mais lento, até que acaba por parar. O casting pareceu-me demasiado heterogéneo (Julianne Moore, Mark Ruffalo, Gael García Bernal, Danny Glover) e se calhar por causa disso aparenta estar desunido. É difícil de explicar mas apesar de ter tudo para que fosse um bom filme (bom realizador, bons actores, boa história), há algo neste Blindness que falha. Deixou-me com uma sensação de ser apenas mais um filme com um tom apocalíptico vulgar. ●●○○○


The Book of Eli é um filme realizado pelos gémeos Hughes Brothers ("donos" de um filme muito engraçado chamado From Hell acerca de Jack the Ripper) passado num daqueles futuros pós-apocalípticos em que não há nada com excepção do caos generalizado, gajos porcos e malucos que parecem saídos do Mad Max e alguns canibais. Pelo meio, há Denzel Washington, uma daquelas personagens pacíficas que só é violento porque o obrigam. Ele protege um livro (uma Bíblia) das más intenções da personagem de Gary Oldman, o vulgar líder super-autoritário de uma povoação algures no meio do deserto. Tem a Jennifer Beals, Michael Gambon e até aparece o Tom Waits, mas não há muito mais que isso. Tem uma história bem contada, algumas boas cenas estilosas de acção/porrada e... vê-se. ●●○○○


Por último, o melhor desta selecção, Snowpiercer de Joon-ho Bong, gajo que desconheço totalmente. Mas é um nome a reter. A história até é relativamente normal (mais uma cena pós-apocalíptica ambiental) para não dizer disparatada (os únicos sobreviventes pós-apocalípticos estão confinados num comboio que viaja a alta velocidade sem parar à volta do mundo [?!?]). Só que Bong conseguiu dar-lhe um toque estranho que de alguma forma cativa. Aliás, tudo é estranho neste filme: é uma adaptação de uma BD francesa (Le Transperceneige) escrita por Jean-Marc Rochette em 1982 (nunca esperaria que a inspiração viesse duma bd francesa tão antiga); depois a estreia e distribuição atribulada do próprio filme, a sair em alguns países para formato DVD ao mesmo tempo que chegou às salas de cinema; e a mistura estranha que é todo o filme: produção da Coreia do Sul, República Checa, América e França.
A história é relativamente básica mas "viciante": o pessoal das carruagens de trás do imenso comboio-salvação revolta-se contra a disparidade em relação às cabines da frente e decide tomar de assalto a locomotiva e o seu misterioso condutor. Apesar de ser mais ou menos descabido, acaba por sintetizar um pouco o próprio mundo e fá-lo de uma forma interessante, porque é quase como ir abrindo uma sucessão de portas para o desconhecido. Claro que há cenas de acção e pancadaria a rodos, mas por acaso até são muito boas, como é costume nos realizadores asiáticos. O papel principal é de Chris Evans, mas os restantes "secundários" são de luxo: Ed Harris, John Hurt e a quase irreconhecível Tilda Swinton.
Vi-o sem grande expectativas (pensava que era só mais um filme de ficção científica/porrada) e acabei por ter uma agradável surpresa. Não é uma pérola, mas é uma pedra (semi) preciosa. ●●●○○

Os filmes, como tudo nesta vida, influenciam e são influenciados pelo dia que um gajo acabou de ter...
Eis alguns exemplos de "filmes medianos" que, se estiver bem disposto, até gosto. Pelo contrário, se estiver num daqueles dias em que o mundo parece que se une para nos atirar ao tapete...
"Filmes medianos" são filmes relativamente bem feitos, bem escritos, com actores que se desenrascam bem,  mas que no geral, - lá está - como tudo na vida, não têm o que é preciso para chegar ao topo. É um filme que não aborrece mas que também não fica para o história. Reveem-se bem passados uns anos.
Nesta segunda incursão, três filmes dentro da temática "porrada velha" que representam bem o que são filmes medianos.

Gosto muito do tipo de realização do Walter Hill e também gosto do Arnold Schwarzenegger e especialmente do James Belushi. Deve ter sido por causa disso que já vi Red Heat para aí uma meia dúzia de vezes. Como em todos os filmes de Hill, o casting é muito bom e por isso ainda há Ed O'Ross, Laurence Fishburne (quando ainda se chamava Larry Fishburne) e a Gina "Bound" Gershon.
Arnold faz de um polícia russo que vai para Chicago atrás dum traficante de droga. As diferenças abismais e as piadas entre ele e o típico americano Belushi até fazem esquecer que este é um filme vulgar de porrada. ●●○○○


Mais recentemente encontrei um filme de porrada muito jeitoso, chamado In Bruges, do totalmente - pelo menos para mim - desconhecido Martin McDonagh. Já o elenco não é nada desconhecido: Colin Farrell, Brendan Gleeson e Ralph Fiennes dão vida a uns mafiosos que se encontram em Bruges. Sim, Bruges, aquela famosíssima cidade belga que ninguém sabe muito bem onde fica. Depois de um golpe falhado em que um inocente morre, Farrell e Gleeson vão "relaxar" (e esconder-se) uns tempos para a Bélgica (!?). Onde, obviamente, tudo começa a correr mal, quando Farrell se envolve com uma actriz e o seu amigo anão. Mesmo com esta história maluca, surpreendentemente, In Bruges é um bom filme, com bons momentos de comédia e grandes momentos de acção e pancadaria. ●●●○○


Por último, uma raridade que merece ser vista, The Raid: Redemption. Vi por mera curiosidade e ia ficando "sem cabeça". Tudo neste filme é um enorme surpresa. O filme é indonésio mas o realizador é um... galês, chamado Gareth Evans! Vendo o filme ninguém diria. É simplesmente espectacular. Tem as melhores cenas de pancadaria que alguma vez vi. Acho que mais real que isto é impossível. Aliás, passei grande parte do filme a tentar perceber se aquilo era encenado ou se o pessoal do filme andava mesmo à pancada. Mas ninguém me tira a ideia que alguns daqueles duplos foram mesmo parar ao hospital com lesões graves. Não consigo entender como é que se filmam coisas assim. É a magia do cinema. Mas o filme não vale só pela porrada. Vale pela simplicidade de processos. É como diz o trailer: um "Ruthless Crime Lord, 20 Elite Cops, 30 Floors of Chaos". É a prova que Hollywood tem vindo a exagerar e que não é preciso gastar biliões de dólares para fazer um simples filme de acção e porrada, embrulhados em guiões hipercomplicados e cheios de clichés. Apenas com 1 milhão de dólares, Gareth Evans, consegui meter no bolso a grande maioria dos filmes de porrada americanos. Só por isso, merece uma grande salva de palmas. Obriga a repensar a forma como os filmes de acção têm sido levados demasiado a sério pela indústria mainstream. O elenco é-me totalmente desconhecido, repleto de nomes como Iko Uwais, Joe Taslim, Donny Alamsyah, Yayan Ruhian, mas isso não faz diferença nenhuma. Proporcionaram-me as melhores cenas de luta que alguma vez vi em cinema. ●●●○○

Os filmes, como tudo nesta vida, influenciam e são influenciados pelo nosso humor...
Estes são exemplos de filmes que, se estiver bem disposto, até gosto. Pelo contrário, se estiver num daqueles dias em que tudo corre mal...
Normalmente, os "filmes medianos" são relativamente bem feitos, bem escritos, têm actores que se desenrascam bem,  mas - lá está - como tudo na vida, não têm o que é preciso para chegar ao topo. Passam por pouco a fasquia do médio ou estão praticamente lá. É um tipo de filme que não aborrece mas também não fica para o história. São medianos, lá está...

Nesta primeira incursão, três filmes dentro da temática "ficção científica e terror dos 80's" que representam bem o que são filmes medianos. Starman, do mítico John Carpenter e com Jeff Bridges conta a história de um extraterrestre que cai na Terra, assume a forma humana do marido morto da personagem de Karen Allen (sim, a "namorada" do Indiana Jones fez mais filmes...) e que tenta desesperadamente regressar ao seu mundo. Pelo caminho, cruza-se com o nosso lado bom e também com o mau, ficando assim a conhecer um pouco melhor a humanidade. ●●●○○


Mais virado para o terror/gore do que propriamente para a ficção científica é From Beyond, do lendário Stuart Gordon, e com o não menos lendário Jeffrey Combs. From Beyond surge numa altura em que o cinema de terror ganhou uma nova vida e começou a enveredar por caminhos estranhos, digamos assim. Tudo gira em volta de um cientista louco que em busca do derradeiro prazer, decide explorar outras realidades normalmente imperceptíveis e que descobre da pior maneira que há algo mais escondido do "lado de lá"... Mais uma colaboração do produtor Brian Yuzna e das histórias "maradas" de H.P. Lovecraft. Mas cuidado, este é um daqueles filmes macabros, cheio de vísceras e coisas pegajosas que causam mesmo pesadelos. ●●○○○


Por último, The Philadelphia Experiment, uma pérola esquecida dos 80's, realizado por Stewart Raffill. Um filme de ficção científica com bastante "miolo" com Michael Paré e Nancy Allen nos principais papéis. É baseado na suposta "história verídica" de uma experiência secreta do exército americano (só podia...) que tentou fazer com que um navio ficasse invisível aos radares inimigos. A experiência corre mal e o navio de guerra desaparece por completo. Na "realidade", o navio e os tripulantes são projectados para o "futuro" ano de 1984. Apesar de não ser grande adepto da ideia das viagens no tempo, esta é uma das histórias mais consistentes que já vi. Ainda tem um dedinho de John Carpenter, mas desta vez como produtor. Pura ficção científica. ●●●○○


Para ser resumido: The Night of the Hunter é um filme muito bom. Diria ainda mais, é um excelente filme. Pelo que li, na altura da estreia não foi um grande sucesso, num daqueles raros momentos de concordância entre o público e os críticos. Foi um daqueles filmes que foi ganhando "estatuto" com o tempo. Finalmente tive a oportunidade de vê-lo e percebo perfeitamente o porquê do "estatuto".
The Night of the Hunter é um filme muito à frente do seu tempo. Envolve um padre (...é mais um pregador ambulante) psicopata que engana mulheres viúvas para as roubar mas que a determinada altura se transforma num serial killer que não se importa de matar crianças pequenas. Para o ano (e as mentalidades) de 1955 parece-me um bocado puxado. E ainda por cima, o padre louco interpretado por Robert Mitchum, parece que ouve vozes divinas que lhe pedem para cometer os crimes! Mesmo hoje, se num filme aparecessem miúdos a serem ameaçados de morte com uma navalha de ponta e mola por um padre psicopata, era capaz de dar escândalo... só imagino a reacção das pessoas em 1955.
Mas não é só na história e no argumento que o filme está muito à frente do seu tempo. É também na sublime realização e no tom estético tipo expressionismo alemão, tudo delineado a regra e esquadro por Charles Laughton. Muitíssimo bom. É um autêntico manual do realizador. The Night of the Hunter tem imagens fabulosas mas, especialmente, tem uma iluminação das cenas que é absolutamente espantosa. Algumas cenas parecem autênticos quadros. E tudo feito só com a iluminação. Genial. Esteticamente, há muitas cenas que parecem não ser deste filme. Digo isto no bom sentido. Já vi alguns filmes dos anos 40 e 50 e definitivamente não são assim. Resumindo novamente, é tudo muito avançado para o seu tempo. O que torna ainda mais estranho o facto de este The Night of the Hunter ser o único filme de Charles Laughton. Realizou esta autêntica preciosidade e depois não fez mais nenhum filme. Estranho, não?
Robert Mitchum, Lillian Gish e Shelley Winters são actores de outro calibre. É o mínimo que se pode dizer. Os três são tão bons, que não precisam de dizer nada para representar. Robert Mitchum, especialmente, consegue de tal forma meter-se na pele do assassino, que as cenas com os miúdos são inacreditavelmente tensas. Já para não falar que esta é uma personagem quase do universo pop, porque vendo bem, quem é que não conhece aquela grande imagem dos nós dos dedos tatuados com as palavras love e hate? Já agora, a história em que o padre explica porque é que tem as tatuagens é excelente. Até neste pormenor é muito "à frente": tatuagens em 1955?...
A única coisa que poderia apontar de "negativo" (e nem sequer é) a The Night of the Hunter é o facto que ser... demasiado heterogéneo. Há momentos em que o filme parece entrecortado por cenas de filmes mais modernos. Fiquei com a sensação de que estava a ver um Lars Von Trier e de repente mudava de canal e estava a dar um David Lynch. E depois voltava para o filme de Charles Laughton... É o que dá ser muito bom: inspira-se outros a fazer parecido... E, para quem ainda não o viu, e não querendo estragar o filme, posso pelo menos dizer que é uma pena aquele final... Tirando isso, The Night of the Hunter é um filme obrigatório para todas as pessoas que gostam de um bom filme. É um clássico puro que fica para a história do cinema. ●●●●●

Nada escapa à fúria cinematográfica no que toca a adaptações de BD. Nem mesmo Judge Dredd. Não conheço quase nada da BD que deu origem aos filmes, mas conheço a Wikipedia, e por isso fiquei a saber que a personagem teve como "inspiração de base", a personagem de David Carradine no filme de culto, Death Race 2000, onde por acaso, entra o Stallone... É mesmo verdade, isto está tudo ligado...
Já os filmes estão pouco "ligados". Varreram-se-me completamente da memória. São filmes de acção, com um ou outro pormenorzito engraçado aqui e ali... e é isso. Servem para a "contabilidade".

Judge Dredd é o típico filme-pipoca de bons e maus, só que em versão futurista. O que torna ainda mais impressionante a lista de actores: Sylvester Stallone, Armand Assante, Diane Lane e Max von Sydow. Um grande elenco em qualquer filme. Menos em Judge Dredd. Tenho de admitir que já não me lembro absolutamente nada do filme. Muito provavelmente, porque não tem nada para recordar. Existem filmes que vi há décadas atrás e de alguma forma ficam gravados no disco duro cerebral, enquanto que outros... simplesmente são apagados. Presumo que seja para ganhar "espaço em disco" para algo que valha mesmo a a pena... Para além das fatiotas (que em 1995 pareciam muito futuristas), do Sylvester Stallone no auge do seu típico estilo... "Stallone" e duns robots conceptualmente muito fixes, pouco ou nada resta. ●○○○○


Dredd é um filme "mais". Mais uma chiclete futurista de acção, a que se soma o facto de ser mais um remake. Já para não falar que copia descaradamente um filme indonésio de artes marciais verdadeiramente "maluco" (The Raid), além de copiar mais alguns pormenores daqui e dali, como a droga Slo-Mo obviamente tirada do excepcional livro de ficção científica Tower of Glass de Robert Silverberg. Bem, se é para copiar ao menos que se copie dos melhores... O Dredd é interpretado por Karl Urban (um gajo que tenho "debaixo de olho" desde o The Price of Milk), mas nunca se lhe vê a cara. Não entendi. E para os biliões de fãs de Game of Thrones também tem a Lena Cersei Lannister Headey... (ou a Sarah Connor, se alguém ainda for fã do Terminator). ●○○○○

+ Bónus
Quando estava a olhar para os trailers dos Dredd's alguma coisa me soou familiar. Era o Demolition Man. Para além de também ser uma chiclete de acção futurista, também tem o Sylvester Stallone. Mas vendo bem, acho que já percebi onde foram buscar as tais fatiotas futuristas do Dredd original...
O que é estranho é que destes filmes, Demolition Man é o que parece melhorzinho. Não sei se é por ter uma grande carga de sátira social ou pelo design da produção. Provavelmente é por ser um dos filmes onde vi mais futurologia... Parece que o pessoal que escreveu o guião, de facto, se empenhou (e nitidamente se divertiu) a tentar adivinhar o futuro. Num tipo de filme em que o foco normalmente é a acção pura e dura e a espectacularidade dos efeitos especiais, é um pormenor a louvar. ●●○○○



Tirando os "clássicos popularuchos" que toda a gente também já viu (e que agora até estão a ser refeitos), não tenho o hábito de ver muitos filmes portugueses. Isto aconteceu porque durante um tempo só apanhei filmes "artísticos", "conceptuais" ou de "intervenção" e detestei-os por serem, basicamente, uma grande seca. E além disso, tal como tantos outros, nasci e cresci com o " vulgar filme americano". Por isso mesmo, ainda hoje, me causa estranheza os filmes não terem legendas ou não serem falados em inglês. Como tudo na vida, isso foi mudando, e desde há alguns anos, tenho-me obrigado a ver mais filmes europeus e em especial, filmes portugueses. Tem sido uma exploração muito satisfatória.
Nessa onda de descobertas, mais uma bela surpresa: Os Maias.
E não, ainda não li "Os Maias". (A minha professoa do secundário que dá uma vista de olhos aqui no blog deve estar furiosa.) Na brincadeira, sempre disse que ia esperar pelo filme. E aqui está ele. E é um bom filme, com uma grande realização de João Botelho.
Esta adaptação de Os Maias está especialmente bem feita. Tem momentos de brilhantismo visual. Ser (também) artista gráfico e ilustrador, de certeza que só ajuda. Os cenários pintados podem ser objecto de um julgamento estético muito subjectivo, mas o que é que não é? Eu gostei do pormenor.
Como é normal nos filmes portugueses, mais uma vez, é uma pena que lhe falte (mais) banda sonora. Houve alturas em que senti que o filme ficou "vazio". A falta da música não só deixa o filme mais fraco, como acaba por deixar os actores desamparados e a parecerem piores do que na realidade são. Na falta de música, fico sempre com a sensação que estou a ver actores de teatro filmados que aparecem numa tela de cinema. À falta de melhor palavra, acho que fica esquisito. Nunca entendi porque é que existe tão pouca música nos filmes portugueses...
Tirando os nomes "pesados" que nunca falham como Rita Blanco e João Perry, os restantes - que me são totalmente desconhecidos -, até estão muito bem. Alguns destacam-se como Pedro Inês a fazer de Ega. A personagem e o actor são tão bons que deveriam ter tido mais "filme".
A história da decadente aristocracia portuguesa do século XIX é excelente, mas aí há que dar os "louros" ao Eça de Queirós. Um visionário, este Eça. Passado tanto tempo, esta história, de alguma forma estranha, ainda se "encaixa" na sociedade portuguesa. É muito fácil ver paralelismos entre o passado e presente. E só um gajo muito bom como o Eça de Queirós podia fazer essa proeza que é ir o mais essencial duma sociedade e extrair-lhe os pormenores que não mudam com o tempo. Perfeito. Além disso, é uma trama muito avançada para o seu tempo ou não tivesse uma paixão entre irmãos como fio condutor duma história familiar que percorre várias gerações da mesma família. É uma história de amor intemporal, dramática até ao tutano, como qualquer história de amor deve ser.
Os Maias, de João Botelho, tem todos os condimentos de um bom filme, e pelo (pouco) que (ainda) conheço do cinema português, é um dos melhores que já vi. Mas a exploração e descoberta do cinema português continua... ●●●○○

Exodus: Gods ans Kings é um filme sobre o qual não quero falar muito, porque foi uma desilusão muito grande. Como sou um fã do Ridley Scott, tinha algumas expectactivas e o espantoso é que conseguiram sair todas furadas. Apesar de ser um grande espectáculo visual, não gostei nada do filme. E, precisamente, por isso mesmo: é apenas e só, mais um enorme espectáculo visual sem nada que o suporte. É caso para dizer: até tu, Ridley Scott? Temo que o Scott já não recupere mais. É que já desde Black Hawk Down que não vejo nada melhor que mediano... Mas vou continuar à espera.
Há duas coisas muito negativas neste filme. Primeiro, tem um conjunto de actores bastante respeitável (Christian Bale, John Turturro, Sigourney Weaver, Ben Kingsley), todos com provas dadas, mas pareceu-me que estavam no filme exactamente por terem "nomes de cartaz"...
Mas o pior de tudo é a história. Ou melhor, a forma como pegaram na história. Posso parecer algo "quadrado" a dizer isto, mas não gosto mesmo nada que peguem na melhor história do mundo e façam adaptações livres. Pior ainda, é refazer uma história destas, dar-lhe uma perspectiva contemporânea e deixar de fora as partes que não podem ser cientificamente explicadas. (Podia ser pior: podiam considerar essas partes "desconfortáveis" como milagres... científicos.) Para mim isso é ridículo. Chamem-me "velhadas", conservador, ou outra coisa, mas não percebo porque é que se pega numa história bíblica tão importante e depois se ignora completamente essa ligação. Isto para não falar do "elemento estranho" no argumento, que é o facto dos dois opositores chegarem a ser inimigos mortais, mas que por qualquer motivo estão sempre a encontrar-se para uma conversa amena, antes que um deles desapareça na escuridão da noite. Mas são muito inimigos... Pior que tudo isto é Moisés e o Faraó levarem com um tsunami (?!) na cabeça (tinha de ser um fenómeno cientificamente reconhecível) e sobreviverem. Sim, a célebre cena do Mar Vermelho, afinal foi um vulgar tsunami...
Como já começa a ser regra hoje em dia, só se safam os efeitos digitais, eles sim, verdadeiramente épicos, mas aí os méritos vão para os geeks que estão meses "agarrados às maquinas" a comporem o espectáculo.
Para mim, Exodus: Gods ans Kings não valeu nada. Fica a pergunta no ar: é este o homem do Blade Runner? Do Alien? ●○○○○



Who Framed Roger Rabbit foi um filme que me enfeitiçou desde a primeira vez que o vi. Mas não foi pelo lado da novidade. Apanhei este filme numa altura em que "devorava" filmes e tentava ver tudo o que pudesse, por isso mesmo, já tinha visto a mistura de desenhos animados e actores de carne e osso. A grande novidade de Roger Rabbit foi ter sido bem feito. Vou reformular. A grande novidade de Roger Rabbit foi ter sido excepcionalmente bem feito. É um filme sem falhas.
Foi um dos últimos filmes que me pôs a pensar: "como é que eles fazem isto?". Pode não parecer, mas esta era uma pergunta importante quando se tinha pela frente um filme de fantasia. Em tempos, eu até já fui um freak dos efeito especiais. Era o mistério de não perceber como tudo aquilo era feito que fazia com que os efeitos especiais me fascinassem. Sempre fui muito curioso e não conseguia deixar de pensar como é que os gajos dos efeitos faziam todas aquelas coisas aparentemente impossíveis. Mas esta é uma conversa do passado. Hoje em dia, não ligo aos efeitos especiais. Aliás, até tem um efeito contrário, porque se um filme tem muitos efeitos acabo por perder o interesse. É que os efeitos especiais, os "verdadeiros", também fazem parte do passado. Ironicamente, foi a ferramenta mais potente ao dispôr dos efeitos -  o digital - que matou a magia do cinema. Hoje em dia, quando algo impossível aparece numa tela de cinema, automaticamente, toda a gente sabe que é feito num computador, não é verdade?
Para mim, Who Framed Roger Rabbit é o último representante da verdadeira magia dos efeitos especiais no cinema. Não sei se é o último e muito provavelmente nem é mesmo, mas se um filme deve ser o símbolo da excepcionalidade técnica sem recurso ao digital, acho que Roger Rabbit merece esse título com toda a justiça. (Não tarda nada, chega às 6 "estrelas"...) A lista de Óscares "técnicos" - os únicos que sempre me interessaram e que (quase) nunca tive oportunidade de ver - é tão extensa que só tem equivalência na quantidade de elogios que se pode fazer ao filme.
Robert Zemeckis, sempre menosprezado, assina mais um portento tecnológico, uma pérola do pré-digital. Pensando bem, acho que Zemeckis para além de conseguir fazer um filme excelente tendo desenhos animados como grande parte do elenco, ainda conseguiu criar uma nova categoria: o thriller cómico. Este gajo é um génio...
Who Framed Roger Rabbit tem um dos inícios mais excelentes que vi, porque me fez lembrar uma altura em que antes da projecção dos filmes passavam desenhos animados, sendo que me lembro especialmente dos da Warner Bros. Não sei porque é que isso acontecia, mas que era muito engraçado, lá isso era. Ainda hoje, por vezes, fico com uma sensação estranha quando um filme começa sem ter dado aqueles 2 ou 3 minutos de "bonecos". Como vivemos num mundo de "modas iô-iô", pode ser que a "moda" dos desenhos animados antes dos filmes também regressem.
Contrariamente ao que pensava, Who Framed Roger Rabbit não é um argumento original. Melhor dizendo, totalmente original. Fiquei a saber que o filme se baseia (muito) vagamente num livro chamado Who Censored Roger Rabbit?, mas que este é muito diferente do filme. Mas independentemente da origem da história, o que é certo é que este Roger Rabbit é, com o passar do tempo, cada vez melhor.
Tem excelentes actores (Christopher Lloyd e Joanna Cassidy, só para mencionar alguns) e excelentes vozes. Bob Hoskins é perfeito. Tão perfeito que parece que sempre fez parte da Toon Town. Não me lembro de melhor escolha para detective privado, mal disposto, alcóolico, antipático e que odeia desenhos. A personagem de Hoskins tem uma boa desculpa para isso: um desenho animado matou o seu irmão atirando-lhe um piano de cima de um prédio. Vindo de um "boneco", só podia...
Os próprios desenhos animados são excepcionais. Em Who Framed Roger Rabbit "nasceram" duas personagens tão memoráveis que parece que existem desde os tempos dos desenhos a preto e branco: o próprio Roger (com voz de Charles Fleischer), e Jessica Rabbit, o desenho animado mais sexy do mundo. Ajuda muito ter aquela voz rouca e sensual da Kathleen Turner.
Who Framed Roger Rabbit tem uma história que gira em torno de crimes, enganos e chantagens mas é mais louco, divertido - chegando a ser hilariante -, musical e surreal que outra coisa. É um clássico instântaneo que ficou imediatamente marcado na história do cinema. ●●●●●

 
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