Algures no futuro, depois de uma III Guerra Mundial que quase eliminou a Humanidade, um regime fascista usa como pretexto para a eliminação da guerra a supressão de todas as emoções, assim como tudo que possa fazê-las aparecer no ser humano: arte, livros, música. Para além deste "conteúdo sensitivo" que é totalmente proibido, também os sentimentos são punidos por lei. Na utópica metrópole reconstruída de Libria, para eliminar as emoções, todas as pessoas tomam um medicamento chamado Prozium. Os Clerics são a força policial de elite que implementa esta nova mentalidade.
Quando um desses agentes deixa de tomar a sua dose diária, começa a perceber que nem tudo é o que parece e torna-se o único capaz de derrubar o regime.
Não sendo nada de novo (ou se calhar é mesmo por causa disso), Equilibrium, realizado por Kurt Wimmer, é bastante... mediano. Para um filme de ficção científica/pancadaria é bem bom. Pareceu-me uma mistura da lógica política de controlo mental do 1984 com as cenas de porrada/tiroteio e o aspecto cool de Matrix. O que não é nada mau.
Christian Bale, Sean Bean (a aparecer e a morrer, como de costume), Emily Watson, Angus Macfadyen e William Fichtner ajudam à festa porque são todos muito bons actores. Também ajuda muito aquele look cinzento misturado num design de produção a ir buscar muito ao clássico intemporal Metropolis.
Não tenho nada contra com o ir buscar inspiração aos grandes clássicos, desde que sejam os bons. Mas fico sempre com aquela sensação de déjà vu... Passei metade do filme distraído a tentar perceber de que filme é que tinham tirado ideias, iluminação ou planos de filmagem...
Por estranho que possa parecer, não percebi foi o título do filme: Equilibrium? Porquê? A cidade chama-se Libria, o medicamento é Prozium (um óbvio Prozac com Valium), a parte da organização quase religiosa é o Tetragrammaton e também há os agentes que são os Clerics... Não percebi. Devo ter saltado alguma parte... Não interessa. Tem algum "miolo" e não é só porrada. Vê-se bem. ●●○○○

Muito antes de haver blockbusters de verão/natal, existiam os filmes catástrofe. The Towering Inferno é um dos primeiros exemplos desta classe de filmes já extinta. Sendo uma super-produção da altura (uma rara co-produção entre estúdios concorrentes [20th Century Fox e Warner Brothers]), juntaram-se os melhores dos melhores de forma a fazer o "maior" filme possível. Estes filmes eram grandes em tudo: no orçamento, nos efeitos, nos sets, na quantidade de grandes estrelas de Hollywood e até na duração do filme!
Era nesta altura que os estúdios, realizadores e técnicos muitas vezes criavam novos conceitos e efeitos especiais para deixarem o público de boca aberta e com o coração aos pulos.
A escala de The Towering Inferno é absolutamente gigante para os parâmetros da altura. Tudo se passa num enorme arranha-céus de escritórios, com centenas de andares, onde, devido à má construção, deflagra um incêndio que deixa refém toda a comitiva VIP que estava na cerimónia de inauguração no topo da torre. E não há saída possível... É uma espécie de Titanic vertical, mas com fogo em vez de água.
A história, composta por pequenas histórias laterais e as suas personagens - entretanto banalizada por inúmeras cópias - era simples mas deixava o público em suspense.
Tudo em The Towering Inferno parecia verdadeiro. Estávamos em 1974. O mundo era diferente e as pessoas eram muito mais credíveis no que diz respeito ao cinema. Vi este filme (e outros do mesmo género como Earthquake e The Poseidon Adventure) quando ainda era miúdo e lembro-me perfeitamente que as pessoas mais velhas ficavam impressionadas pelos actores estarem no meio do fogo ou porque tinham caído do prédio em chamas. Eu sonhava com este tipo de filmes e imaginava cenários gigantes com imensa acção. Estes filmes catástrofe eram poucos mas bons. Também não havia mais nada do género...
Apesar de ser uma "velharia" é uma boa "velharia". Ainda se vê muito bem, mas está demasiado "marcado" pelo tempo. É mais uma peça de museu que outra coisa. É uma oportunidade única de ver "história do cinema" em acção, assim como a oportunidade para ver verdadeiros "monstros" do cinema como Steve McQueen, Paul Newman, William Holden, Faye Dunaway, Fred Astaire, Richard Chamberlain, Robert Vaughn, Robert Wagner, entre outros. Até o O.J. Simpson está lá...
Tirando o evidente factor "tempo", The Towering Inferno é um filme que faz parte da história do cinema e toda a gente que gosta da "arte" tem de o ver obrigatoriamente. Mesmo sendo uma relíquia e uma peça de museu. ●●●●●

Hitchcock não é um biopic de Alfred Hitchcock. É sobre a vida de Hitchcock enquanto filmava o clássico de terror Psycho, uma adaptação do livro de Robert Bloch, que por sua vez era baseado no serial-killer verdadeiro, Ed Gein. Só por curiosidade: Gein, além de ser a inspiração para a personagem de Norman Bates, também o foi para outras personagens sinistras como o Leatherface do ínfame Texas Chainsaw Massacre e o Buffalo Bill do Silence of the Lambs... que nesse filme, por acaso, tinha uma personagem muito conhecida, chamada Hannibal Lecter, que foi interpretada por... Anthony Hopkins. Curioso, não é? Realmente, as coisas acabam por dar a volta...
Alfred Hitchcock tinha acabado de estrear North by Northwest e era considerado o maior realizador da altura.  Mas como já estava um bocado farto de intrigas internacionais e espiões em apuros, decide procurar inspiração noutros campos mais negros e é aí que entra o livro Psycho de Robert Bloch. Contra tudo e contra todos, Hitchcock decide mergulhar no mundo do terror pela primeira vez e causa um turbilhão nos estúdios e no seu casamento.
Mesmo não estando 100% correcto historicamente (e pensando bem, também o que é que está?) é sempre bom perceber o que se passa durante a rodagem dos filmes. E no caso de um dos melhores filmes de sempre, então ainda melhor.
Hitchcock é um filme que se mantém equilibrado nas emoções: tem um bom "mood" (o que não será alheio o sentido de humor muito próprio de Hitchcock) e não é excessivamente dramático. O que traduzido quer dizer que não esteve a tentar "tirar um prémio de óscar" para figurar na capa do DVD ou no cartaz de cinema. (Nem o verdadeiro Alfred Hitchcock conseguiu ganhar um Óscar, o que demonstra bem a capacidade de avaliação de Hollywood)
O casting é muito bom. Anthony Hopkins é um grande, grande actor. As parecenças físicas com Hitchcock não são muitas por isso teve de levar com toneladas de make-up para ficar mais parecido. Mas os maneirismos e a forma de falar é excepcional. Por vezes até me esqueci que não era o Anthony Hopkins que ali estava. Se bem que por vezes também me pareceu uma mistura de Alfred Hitchcock com Hannibal Lecter. (há coisas nas personagens que parece que ficam "coladas" nos actores) Ainda assim, muito bom. Helen Mirren no papel da mulher, Alma Reville, está muito... A Helen Mirren está sempre excelente seja em que filme for. É a septuagenária mais sexy do mundo.
Ainda tem Scarlett Johansson como Janet Leigh, Michael Wincott como Ed Gein e um James D'Arcy arrepiantemente parecido com o Anthony Perkins. E ainda há uma legião de secundários muito bons como Danny Huston, Toni Collette, Jessica Biel e Kurtwood Smith. Um destaque para a música bem encaixada de Danny Elfman.
Filmado em apenas 35 dias (!) e realizado pelo estreante Sasha Gervasi, Hitchcock é um filme muito competente, como se costuma dizer na crítica profissional. Gostei. ●●●○○

Que grande complicação mental é este Enemy. Não o conhecia e acabei por o ver na altura errada (depois de um dia de trabalho muuuuuito longo e duro e estava totalmente "roto", física e mentalmente) e isso pode ter alterado a minha percepção.
Enemy é um daqueles filmes metafísico/simbólico/não-lineares, cheio de pistas que levam (ou podem levar) a que no final se entenda minimamente o seu significado. É um autêntico exercício mental para o espectador. É um puzzle temporal que necessita muita atenção para ser interligado. Tem muitos parêntesis... É complicado...
Adam (Jake Gyllenhaal) que tem uma relação instável como Mary (Mélanie Laurent) está ver um filme e encontra um actor que é exactamente igual a si e torna-se um obsessão encontrar essa "sósia". Anthony, o elusivo "homem duplicado" do filme está numa relação com Helen (Sarah Gadon) que por acaso se cruza com Adam e por coincidência é muito parecida com a sua própria mulher...
Mas é muito mais complicado que isto. É sobre dupla personalidade (?), realidades alternativas (?), sentimentos possessivos (?), medo de compromisso pessoal (?) e aranhas gigantescas (?). Mas também podem ser outras coisas... ou não (?).
Enemy tem como base O Homem Duplicado do José Saramago, mas como não li o livro (ainda) não sei se é fiel ou simplesmente um adaptação livre, mas suspeito que seja mais a segunda hipótese. A realização de Denis Villeneuve é muito "tensa" e fria (por vezes parece um filme distópico/futurista) mas é irrepreensível. Muito boa. Não sei se é por ser do Canadá, mas lembrou-me muito os primeiros filmes de David Cronenberg. O que tem de negativo é uma fotografia que detesto: tem uma coloração meio acastanhada que transforma tudo numa imensa mancha de poluição. Enquanto via o filme só me vinha à cabeça a expressão... "filtro de urina". Eu sei que é uma expressão merdosa, mas sinceramente é o que pensava... Gostos são gostos e até percebo a lógica (a sensação de distanciamento e "desumanismo") e reconheço um certo estilo na "coisa". Mas não gosto na mesma... Em sentido completamente contrário vai a banda sonora que é muito boa.
Interpretações, alusões, dicas, traições, pistas dúbias e muito espaço para especulação é assim este Enemy. Foi o primeiro filme de Denis Villeneuve que vi e fiquei bem impressionado logo à primeira. Fixei o nome e ainda não me arrependi. Neste momento, é mesmo "o" grande nome na cadeira de realizador.
Há ainda uma participação breve da "senhora" Isabella Rossellini, uma hipótese rara de rever uma autêntica diva do cinema.
Nota-se que Enemy está destinado a tornar-se (lentamente) num filme de culto, mas para já ainda está na penumbra. Para ver com atenção. ●●●○○

Los Últimos Días é um filme espanhol de ficção científica. Ou será um filme apocalíptico espanhol? O mais correcto será dizer que é um filme espanhol muito bem feito sobre os últimos dias da Humanidade.
Sem recorrer ao habitual foguetório de Hollywood, este filme da dupla de irmãos David/Alex Pastor consegue mostrar de forma muito verosímil o que acontecerá se se der um colapso mundial. (nunca passei por uma situação dessas, mas imagino que seja algo semelhante) Neste caso, provocado por ataques de pânico em massa, uma espécie de histeria colectiva faz com que todas as pessoas tenham pânico de sair à rua e consequentemente o mundo acaba por parar. A única solução é movimentar-se por túneis de metro de forma a evitar pôr um pé na rua. Se isso acontece, inexplicavelmente, as pessoas veem-se confrontadas com uma espécie de agorafobia e acabam por morrer de ataques de coração ou por puro pânico. Porque é que isso acontece? Ninguém sabe ao certo.
Pode ter sido um agente patogénico libertado no ar, alienígenas escondidos ou pode ter sido o "governo". Quem sabe? Ninguém. E tem toda a lógica. Se acontecesse um colapso civilizacional abrupto, o mais provável era a informação deixar de circular, tal como tudo o resto. A explicação nunca seria totalmente objectiva e isso passa bem no filme. Isto mostra como Los Últimos Días foi bem escrito e especialmente bem dirigido.
A história é simples: dois homens (Quim Gutiérrez e José Coronado) têm de chegar aos seus destinos: um quer ver o pai que ficou retido num hospital, o outro quer ver a namorada (Marta Etura) que ficou em casa. Numa realidade normal, seria uma tarefa fácil, mas quando não se pode andar a céu aberto, até atravessar uma rua é um feito heróico. A história é contada com recurso a flashbacks e, em termos de montagem, está excelente.
Apesar de não ser o típico filme apocalíptico de acção, Los ultimos Dias nunca pára. É uma sucessão de acontecimentos muito bem encaixados uns nos outros, uma espécie de tapete rolante que os protagonistas têm de acompanhar ou então ficam para trás.
A única coisa verdadeiramente negativa é uma rídicula e completamente desnecessária luta com um urso. (?!) Nitidamente, foi um piscar de olhos ao cinema blockbuster de Hollywood. E isso leva-me à questão fundamental: não estarão os efeitos digitais e a facilidade que os realizadores têm à disposição para incorporar qualquer elemento (como o urso), a "matar" a criatividade de Hollywood no que diz respeito às histórias? Para mim, a resposta é sim.
Este filme em particular vem provar essa teoria. Se David/Alex Pastor em vez de uma produção espanhola de 5 milhões, tivessem à disposição uma produção "de Hollywood" com recursos muito maiores, Los Últimos Días seria um filme melhor? Com uma história mais desenvolvida? Não me parece. Acho seria exactamente ao contrário e caminharia para o "costume": mais umas explosões, uns cenários apocalípticos digitais mais prolongados e "espectaculares", o que tornaria o filme noutro 2012 ou noutro San Andreas. Provavelmente a história nem precisaria de tanto enredo nem tanto background, porque estaria cheio de cenas de acção e perseguições. E em vez de uma cena com um urso, se calhar seria com o zoo inteiro. E estou a especular...
Los Últimos Días vê-se bem. ●●○○○

Se Apocalypse Now é o melhor filme de guerra que alguma vez vi (e de um modo geral, um dos melhores de sempre), então Hearts of Darkness é o melhor documentário sobre cinema. E também sobre quão difícil é todo o processo criativo que está por trás de um filme, desde os primeiros passos na escrita do guião até à tela gigante de cinema. Fiquei um bocado marcado quando vi este documentário. A partir de determinado ponto deixei de conseguir dissociar um do outro.
Sempre que via o Apocalypse Now intrigava-me a construção do próprio filme. É tão denso, real (na sua surrealidade muito particular), cru e verdadeiro que sempre achei que o processo criativo devia ser algo estranho. Já tinha lido bastantes coisas sobre a forma caótica como Francis Ford Coppola dirigiu toda a operação (e também como foi sendo "dirigido" por acontecimentos bizarros). E era mesmo uma operação, quase militar. Ali não haviam fundos azuis ou efeitos especiais. Quando era necessário que aparecessem helicópteros ou uma gigantesca explosão, tinham mesmo de estar lá helicópteros militares ou uma gigantesca explosão para se poder filmar. Num filme com a escala de Apocalypse Now é quase mirabolante imaginar como foi possível filmar tudo aquilo.
Nesse aspecto, Hearts of Darkness é uma dádiva para os amantes do cinema. Uma rara oportunidade de ver um artista a trabalhar na cadeira de realizador, de ver artistas como Marlon Brando a criar uma personagem como Kurtz, de ver um filme desta envergadura ser construído peça a peça como se fosse um gigantesco puzzle. É um documentário brilhante e único. Até no pormenor de ter sido feito a três mãos: Fax Bahr, George Hickenlooper e Eleanor Coppola. Mesmo como peça "solta", Hearts of Darkness é excelente e muito completo. As entrevistas, as revelações e o método dos actores, as imagens por detrás da câmara, as dificuldades contra os elementos, a luta quase corpo a corpo para se conseguir juntar todas as peças, está lá tudo. E assim percebe-se um pouco porque Apocalypse Now é o filme que é. Fazê-lo, foi em si mesmo, uma guerra contra tudo e todos.

Sempre que revejo o Hearts of Darkness fico com a sensação que Eleanor Coppola, quando começou a filmar, percebeu imediatamente que este seria um filme muito difícil de fazer e por isso seria necessário registar tudo para a posteridade, como uma prova do valor e perseverança de Francis Ford Coppola. E é preciso dizer-lo: só mesmo alguém tão brilhante como o Coppola conseguiria montar uma produção desta envergadura, mandar tudo de avião para o meio da floresta nas Filipinas e fazer o Apocalypse Now.
Até hoje, é simplesmente o melhor documentário que vi sobre a concepção de um filme. E acaba também por ser um tributo à genialidade de Francis Ford Coppola. Para quem gosta de cinema, Hearts of Darkness é absolutamente obrigatório. ●●●●●

Baseado no best-seller de Cormac McCarthy (No Country for Old Men), The Road conta a história de um pai e o filho na sua longa e lenta viagem até ao mar. A viagem vai ser dura porque terão de atravessar um mundo pós-apocalítico, destruído, sem vida, cinzento, repleto de canibais, malfeitores e pessoas que lutam a qualquer custo pela sua sobrevivência.
Se há filmes que me surpreendem pela positiva, há outros..., lá está, que é exactamente o oposto. Neste caso, foi com The Road, realizado por John Hillcoat. O filme não tem propriamente nada de mal feito. Acho que neste caso, o problema foram as expectativas demasiado elevadas. Já antes sequer de haver um trailer, ouvia falar do The Road como "o grande", "o melhor", "o derradeiro" filme apocalíptico. Isto não ajuda nada. Estive "em pulgas" para o ver, e quando finalmente isso aconteceu... decepcionou-me. Fiquei com a sensação que podia ser melhor. Ou pelo menos, não era assim tão bom quanto tinha lido noutras críticas. É... Acho que foram as expectativas altas.
Fora isso, até escapa bastante bem. Uma colecção de bons actores (Viggo Mortensen, Charlize Theron, Robert Duvall e Guy Pearce), com uma boa realização e uma história que é, de facto, diferente do habitual festim de fim do mundo de Hollywood. Vê-se bem, apesar de achar que as críticas foram demasiado positivas para o filme que é. ●●○○○

Há filmes que nos surpreendem sem deslumbrar. Cypher é um desses filmes. É um thriller de ficção científica muito kafkiano (é mais fácil de escrever do que "Philip K. Dickiano"...) sobre espionagem industrial/tecnológica que acaba por descambar numa espécie de lavagens cerebrais em que a dúvida se instala, as motivações verdadeiras das personagens estão constantemente a serem alteradas, sobre quem é, de facto, quem diz ser. Muita paranóia, desconfiança, mas também muito bem escrito e realizado.
Vindo de Vincenzo Natali, o realizador do megaconhecido sucesso Cube, não é de estranhar. E nota-se que parte da mesma mente criativa. Com os semi-desconhecidos Jeremy Northam, Nigel Bennett e Lucy Liu em início de carreira no cinema. É mais uma produção pequena (mínuscula, comparando aos dias de hoje), mas bem conseguida. Vê-se bem. ●●○○○

The Numbers Station, realizado por Kasper Barfoed, com John Cusack, Malin Akerman e Liam Cunningham é um filme mediano.
Tem por base uma teoria da conspiração pouca conhecida, em que emissões de rádio de origem desconhecida transmitem aleatórias listas de números (às vezes através de voz sintetizada, outras vezes de código morse). Já li algumas coisas sobre o assunto e é de facto intrigante. Os teoristas da conspiração asseguram que são mensagens codificadas para espiões e que só existem após a Segunda Guerra Mundial. Mas isso é outra história.
Inicialmente, foi essa teoria que me levou a ver The Numbers Station. Queria ver como pegavam no assunto e o adaptavam para filme. Não está mau. É um thriller de acção com espionagem e agentes duplos à mistura e... alguma substância. Nota-se bem que não é uma produção de Hollywood. Sem ser memorável, vê-se bem. ●●○○○

Deep Web é um documentário sobre a dark web e sobre a perseguição a Ross Ulbricht, supostamente o fundador da Silk Road, uma parte (quase) inacessível da internet, um mercado onde tudo pode ser comprado e vendido, desde drogas, armas e até assassinatos a soldo, para não falar de coisas mais estranhas e exóticas.
Não sou conhecedor do meio, por isso fiquei curioso. Pelo sistema e pelo ecossistema. Chegar a este mundo é quase como entrar na Matrix. É necessário um nível de conhecimento técnico bastante elevado e a partir daí entra-se numa outra realidade paralela e exclusiva. Com o tempo hei-de lá chegar. Ou então talvez não... Para já, fico-me pelo documentário e pela história kafkiana de Ross Ulbricht e da sua luta com as autoridades.
Como documentário de TV, Deep Web não é brilhante mas está bem feito, bem escrito (por Alex Winter), bem montado e bem narrado. Mas ainda assim pareceu-me excessivamente centrado no caso Silk Road. Nesse aspecto, enganou-me um bocado. Mas fiquei a saber mais e por isso recomenda-se uma vista de olhos com atenção. A narração só podia estar a cargo de Keanu "Neo" Reeves. ●●○○○

Quando li que o Alex Proyas ia fazer um filme sobre os deuses e mitologia egípcia fiquei curioso e empolgado. É óbvio o potencial cinematográfico da mitologia e dos antigos deuses como equivalência aos super-heróis modernos/mutantes. E para quem não tem "acesso" ao universo infindável da Marvel ou DC Comics, as mitologias são uma excelente base, com muita continuidade.
Mas como hoje em dia os realizadores e os estúdios não resistem à facilidade de "dourar a pílula" com os efeitos especiais em detrimento de tudo o resto, fico sempre apreensivo... e com medo.
E foi exactamente isso que aconteceu com Gods of Egypt. E ainda por cima com o Proyas na cadeira de realizador, um gajo que tenho em alta consideração desde o tempo dos excelentes The Crow e Dark City. Infelizmente, também tem vindo a descambar, filme após filme, e a sucumbir à febre dos efeitos digitais. Mais uma vez, um filme que até tinha imenso potencial de personagens e história, fica reduzido a colagens sucessivas de acção, explosões e efeitos digitais de fogo-de-artifício... É pena não ter mesmo mais nada. Falha até na coisa mais básica de todas que é ter uma história em que os deuses "imortais" morrem como tordos, de todas as maneiras e feitios. Se calhar até morrem mais facilmente que os próprios humanos... "mortais". Não entendo. Mas esta gente não vê a Guerra dos Tronos?
Bem, até devem ter visto porque está lá o Jamie Lannister (Nikolaj Coster-Waldau), mas devem ter passado à frente toda a parte da história que não tem lutas, monstros ou efeitos... Nem sequer a presença de bons actores como Gerard Butler, Geoffrey Rush ou Rufus Sewell salvam este filme. Aliás, parece até que estão um pouco constrangidos. Entendo-os perfeitamente.
Fico com muita pena quando vejo os "meus" realizadores de eleição reduzidos a meros tarefeiros dos estúdios e a funcionarem como comerciais de efeitos especiais e vendedores de pipocas... Desilusão total. ○○○○○

Get the Gringo é um filme com Mel Gibson a fugir de Mel Gibson. É essencialmente isto: depois de momentos muito delicados e conturbados numa carreira que quase desapareceu por motivos pessoais extra-cinema, Gibson volta a um papel que lhe assenta que nem uma luva. Foi como um reiniciar da carreira, e ainda bem que o fez, porque é um gajo à "maneira". Detestaria vê-lo na prateleira ou a receber um prémio honorário quando já fosse velhinho demais para causar polémica...
Não é coincidência que o realizador (Adrian Grunberg) é o seu ex-realizador da segunda unidade / assistente de Apocalypto, um gajo já com muita experiência no ramo do cinema de acção. E nota-se bem que é muito competente.
O filme não é propriamente mau nem bom, é daqueles... medianos. Nem sequer é uma novidade. É a história tradicional do dinheiro perdido e das atribulações para o recuperar. Neste caso, um americano preso no México (o "gringo") vai contar com a ajuda de um miúdo e da sua mãe (Kevin Hernandez e Dolores Heredia). Muita acção e porrada (às vezes até um bocado violento demais) bem misturado num argumento sólido e com muita piada à mistura. Está bonzito porque está bem equilibrado.
Mel Gibson é aquela "máquina" do costume. As rugas vão-se aprofundando, mas aquele crazy eye simplesmente não desaparece. É sempre um prazer sentir aquela dualidade comédia/violência que pode emanar do Mel Gibson a qualquer momento. É uma referência.
Não podia esquecer o sempre cool Peter Stormare, um dos gajos mais fixes que andam por aí. Apesar de ser um daqueles filmes que cairia no esquecimento (ou nem faria distribuição em cinema) se não tivesse o Mel Gibson como cabeça de cartaz, Get the Gringo vê-se bastante bem. ●●○○○

As frases seguintes estão na parte de trás da edição em DVD de Last Days: "É um filme sobre as últimas horas de uma estrela rock, dedicado ao maior ícone do movimento grunge, Kurt Cobain, líder dos Nirvana". É verdade, concordo. Diz também que "...é a evocação dos últimos dias de Cobain e é também um dos melhores filmes de rock da história". Bem, aqui já não concordo nada. Não concordo sequer que seja um filme sobre rock, nem que seja bom. Aliás, nem sequer é um filme sobre Kurt Cobain, mas antes uma personagem ficcional (Blake) muito, muito parecida, um "cliché do rock & roll", ou seja, o gajo adorado por todos, mas detestado por ele próprio e que acaba por se suicidar jovem para se tornar numa lenda intemporal.
Vou ser directo: não gostei nada de Last Days. É um filme sobre a solidão e depressão de um gajo que por acaso é uma sósia do Cobain e que também tem como actividade profissional ser músico. É excessivamente pesado, introspectivo e lento. É quase como estar a ver alguém a meditar.
Gosto muito do Gus Van Sant. É um dos meus realizadores de referência, mas depois de ver o Last Days não consegui deixar de ficar com a sensação de ter sido enganado. Fiquei com ideia de que só fez o filme para aproveitar o público que gosta dos Nirvana.
Mas o meu principal problema com este filme, é que não percebi a lógica criativa por trás. Se não queria fazer um biopic do Cobain, porquê fazer uma personagem exactamente igual, que se comporta da mesma forma, mas que não é o Cobain? E porquê o elaborar de uma história que não é a verdadeira, mas que termina da mesma forma, com o mesmo desfecho conhecido? Acho que esta é uma forma muito errada de fazer um filme, mas principalmente de contar uma história. Ou é verdadeira ou é ficcional. Acho que não se deve misturar as duas facetas na mesma história, principalmente quando ela direcionada para os muitos fãs da personagem verdadeira. Fiquei muito decepcionado quando o vi, até porque na altura foi divulgado como um filme sobre os últimos dias do Kurt Cobain.
Apesar disto tudo, Gus Van Sant continua a ser muito bom atrás das câmaras, se bem que para mim exagerou um bocadito no quão longos os planos podem ser. Confirmei também o Michael Pitt como um bom actor, com muito crazy eye. Também por lá andam o Lukas Haas, a Asia Argento e até a Kim Gordon dos Sonic Youth. De resto, nada mais se destaca. ●●○○○

Este Outcast, de Nick Powell, é um filme estranho... e mau. Logo para começar é realizado por um coordenador de duplos... E isso nota-se bastante, mas enfim... Se alguém quiser que também realize um filme - apesar de não estar tecnicamente dentro do assunto -, por favor dar uma apitadela para o número de telemóvel seguinte...
Depois, a história é um bocadito confusa. Outcast começa nas conquistas dos templários no Médio Oriente. Nicolas Cage e Hayden Christensen são bons com as espadas, mas desentendem-se a meio de uma luta e separam-se. A seguir o filme passa para uma sucessão de trono chinesa conturbada em que o filho mais novo do imperador começa a ser perseguido pelo outro irmão mais velho que deseja o trono. Em fuga com a irmã, os dois jovens acabam por encontrar o templário Hayden Christensen refugiado num bar. Este acede em ajudá-los numa longa viagem até... já nem sei muito bem onde. Mas também não interessa. É confuso.
Aliás, a palavra que melhor caracteriza Outcast é mesmo confusão. Metade do filme é passado em ritmo de confusão: ou há lutas corpo-a-corpo muito perto da câmara e não se consegue ver nada, ou o Hayden Christensen está a desmaiar (ou a acordar de um desmaio) com a vista desfocada, ou então está a alucinar (desfocando a imagem) com o consumo de ópio. Está sempre tudo muito turvo, muito confuso. Pelo meio, tem uns episódios de luta que não acrescentam nada à história e parece que só estão lá para o filme não ser uma curta metragem.
E no final lá volta a aparecer o Nicolas Cage, como templário transformado em guru/ninja proscrito (?!) mas que estranhamente parece um actor Syfy, com uma cicatriz no olho, obviamente falsa. Não sei o que se passa com o Nicolas Cage. Deve ter feito uma maldade muito grande com o seu agente. Aparece em cada barracada que não se entende...
Até havia aqui uma boa ideia de base, mas perdeu-se tudo na... confusão. É o que dá fazer filmes em co-produções do género "visto gold"... Salva-se o Hayden Christensen (até está mais ou menos bem, quando está consciente), e a fotografia que é muito boa. De resto, é para esquecer. ●○○○○

Tenho um vício desde os tempos em que existiam vídeo clubes e o sistema VHS. Como nessa altura longínqua não existia internet nem a profusão de trailers por todo o lado que existe hoje, a escolha certeira para o aluguer dos filmes (que era caro para um adolescente) baseava-se em três factores principais: a qualidade da ilustração da capa, o actor principal e o realizador. Por exemplo, quando via que determinado filme era do realizador X, que eu já conhecia, e gostava dos seus filmes, nem sequer pensava mais: a escolha estava feita.
Os trailers ajudaram durante um tempo. Agora, estão todos tão iguais e massificados de tal forma que já não são um elemento de escolha. As capas/posters dos filmes, idem aspas. Os actores ainda são um dos elementos decisivos nas minhas escolhas à priori. Por exemplo o Josh Brolin: sei que nunca faz filmes de treta. Nem chicletes. Sei que quando ele é mencionado no casting, eu vou ver um filmito em condições. O outro factor também ainda decisivo é o realizador.
Neste caso, o Denis Villeneuve. Tinha visto um filme muito, muito, muito jeitoso chamado Enemy, baseado no livro do José Saramago, "O Homem Duplicado". E a partir daí deixei como referência o nome de Villeneuve, pois nunca o tinha visto antes. E foi assim que cheguei até Sicario.
Não fazia a mínima ideia do que se tratava o filme: não vi trailer nem posters, nada... só conhecia o nome. Mas a velha técnica de escolha no vídeo clube não me enganou. Sicario é um excelente filme. Ponto final. Não há nada de mal a apontar.
É um excelente filme de acção... sem acção, explosões ou perseguições. Bem, há uma explosão, mas é só uma mesmo. Há uma tensão inacreditável durante todo o filme. É um verdadeiro thriller. É um daqueles filmes que só não nos faz estar constantemente a roer as unhas, porque estamos agarrados com força à cadeira durante todo o tempo. E quando termina, a cadeira fica lá com as marcas dos dedos. É muito bom. Muito tenso. Imparável. Sicario é tecnicamente perfeito. Fotografia, música, realização, montagem... Nada falha.
Grande argumento acerca do combate aos cartéis de droga na fronteira dos Estados Unidos e o México, repleta de personagens no limite, fortes, dúbias e memoráveis, onde nunca se sabe quem são os amigos ou os inimigos.
A juntar a tudo isto, actores excepcionais. Emily Blunt, perfeitamente bem escolhida para um papel de agente policial idealista mas inexperiente, Josh Brolin, um gajo sempre impecável, e especialmente Benicio Del Toro que aqui até mete medo. De certeza que Del Toro não fez a formação de actor num cartel de droga sul-americano qualquer? Mas não tenho dúvidas que é um dos melhores actores da actualidade.
Denis Villeneuve é de facto um gajo a ter em atenção. é o gajo que melhores filmes faz e é um dos grandes realizadores do momento. Fico ansiosamente à espera dos novos filmes... ●●●●●

Li algures aí pela net que Leonardo da Vinci inventou as tesouras. E que também levou dez anos a pintar os lábios da Mona Lisa....
Sinceramente, até acredito que tivesse inventado as tesouras. Mas dez anos para pintar os lábios da Mona Lisa e esquecer-se de pintar as sobrancelhas? Acho difícil de acreditar.
Mas ainda tive mais dificuldade em acreditar neste The Three Musketeers. Só pensava: porquê? É para ter uma hipótese de filmar algo em 3D? Havia uma lacuna de mercado para histórias com mosqueteiros e lutas com espadas? Alguém queria destruir a excelente história de Dumas com desnecessários efeitos digitais? Seria preciso um concorrente aos Piratas das Caraíbas? Não faço a mínima ideia...
O que sei é isto: The Three Musketeers é mau. Muito mau. Tem a acção do costume, cenas de espadas, uns navios-balão digitais, a presença da heroína do Resident Evil (Milla Jovovich) e uma cópia descarada da música dos Piratas das Caraíbas. Uma das personagens até aparece e tudo (Orlando Bloom). E como este é (ou parece) um filme para miúdos, o D'Artagnan é um miúdo que ficou conhecido por entrar noutro filme para miúdos (Logan Lerman). Volta e meia aparecem por lá uns actores que até são bastante jeitosos (Luke Evans, Mads Mikkelsen, Christoph Waltz), mas é só de vez em quando.
Penso que a intenção de Paul W. Anderson não era estragar totalmente a enésima versão deste clássico. Mas conseguiu-o... Apesar de reconhecer todo o aparato técnico e humano envolvido na criação dum filme destes, já não consigo suportar estes filmes-chiclete... ●○○○○


Neste planeta apenas uma pessoa poderia derrotar o John Rambo; essa pessoa seria John Matrix, a estrela de Commando. Bem, a estrela de Commando é o Terminator..., perdão, Arnold Schwarzenegger, mas é quase a mesma coisa. E está tudo dito. Commando, de Mark L. Lester é o protótipo do filme de acção dos anos 80. Durão, másculo, cheio de armas de todas as formas e feitios, socos, joelhadas e porradas variadas, perseguições inusitadas, violência gratuita, cheio de explosões de gasolina (para dar aquela espectacular "bola de fogo"), duplos que voam e/ou caem de grandes alturas e figurantes repetidos em várias cenas, que só apontam mas nunca falam. Não esquecer a cena obrigatória em que o herói se prepara para a luta final com close-ups das pinturas de guerra e o carregamento de toda a artilharia pesada. Menção também para as típicas "bocas" sarcásticas, tipo: depois de matar um gajo num avião, Matrix avisa a hospedeira para não incomodar o homem porque ele está "morto de cansaço".
Foi este tipo de filmes que construiu a reputação dos grandes heróis de acção dos anos 80. E ainda chegam aos dias de hoje. Aliás, o modelo de filme continua a ser copiado por ser tão simples: raptam alguém da família do herói, normalmente uma filha adolescente (que tem um ar mais indefeso) e o herói persegue os malfeitores, acabando por matá-los a todos, culminando na luta final com o "boss". Também há a variante do herói que foge com a filha adolescente e é perseguido por uma horda de malfeitores, o que invariavelmente acaba na mesma situação anterior. É só o movimento do herói que muda, mas isso não interessa para nada.
Commando é um dos "grandes" filmes de acção dos anos 80. Tinha tudo o que um gajo queria ver quando tinha para aí uns 15 anos de idade: acção contínua, perseguições com carros, porrada da grossa, tiros a todo o minuto, explosões enormes e ainda por cima tinha o Arnold Schwarzenegger que estava no topo de forma. O homem estava com um "cabedal" que até parecia um super-herói. Tinha músculos em todo o lado e conseguia disparar todas as armas existentes no mercado só com uma mão. O resto do elenco tem algum pessoal que é repetente como secundário de outros heróis de acção (David Patrick Kelly, Bill Duke, Vernon Wells, Dan Hedaya) e as "miudas" obrigatórias (Alyssa Milano, Rae Dawn Chong).
Claro que também tenho de mencionar a música. Excelente, ou não fosse música feita nos loucos anos 80. Típico e obrigatório. ●●●○○

Para descrever correctamente Swamp Thing, vou socorrer-me do trailer: agentes do governo, cientistas, soldados, criminosos mascarados, fórmulas secretas, monstros e um anão. Bem, só por aqui já dá para perceber que não é flor que se cheire... E não é mesmo... A melhor parte do filme é... o cartaz.
Wes Craven, gajo que até curto particularmente, pega num dos super-heróis de segunda linha do universo da DC Comics, vai filmar para algo parecido com um pântano, atira para lá o Ray Wise (nunca o tinha visto tão novo; quase não o reconhecia), um Louis Jourdan (já em muito final de carreira) e Adrienne Barbeau (com as maminhas ao léu), e faz um filme tão horrível que mete inveja a qualquer produção (muito baixa) do SyFy. Sangue que parece xarope de groselha, actores inacreditavelmente maus, efeitos de plasticina que parecem ter sido feitos por um miúdo de 7 anos... Enfim... Ser de 1982 não é justificação. Nesse mesmo ano saiu, por exemplo, o Blade Runner, que comparativamente parece um filme realizado 20 anos depois... e noutro planeta. Não há justificação para tanta coisa mal feita e horrível. É mau demais. Lá está, é tão mau, que por vezes chega a ser engraçado. Mas é só por isso. Não tem nada que se aproveite. É pena. Este é um dos poucos filmes que espero que façam mesmo um remake. Tinha toda a lógica, porque afinal, Swamp Thing é um defensor do meio ambiente. Faria todo o sentido reinventá-lo para os dias de hoje. Se alguém tiver o contacto dos senhores da Warner Bros/DC Comics avisem-nos porque têm aqui boa uma oportunidade para fazer algo diferente. ○○○○○

Lost in Translation tem algo que o transcende como filme. Tal como Trainspotting uns anos antes, é mais que um filme, é uma marca geracional. Não é pela história de amor estranha e diferente, não é pela cultura e modo de vida japonês tão próprio, não é pelo contexto de deslocamento, nem é por nada em especial. É por conseguir identificar-se com toda uma geração que nessa altura (2003) também parecia que estava deslocada do seu habitat natural, que estava desiludida com o que tinha à mão deixado por uma incompreensível geração anterior, um futuro incerto sem caminho delineado, a querer o que não podia ter, à espera de algo que nunca chega.
Nos anos 90, Douglas Coupland popularizou o termo Geração X, para identificar um grupo de jovens que estava meio perdido num mundo em mudança acelerada e que queria lutar contra qualquer coisa que não sabia muito bem o que era. Mas nunca fui adepto destas classificações porque são muito estanques, e esta coisa das gerações é muito subjectiva. Mas para mim, Lost in Translation tem um significado especial, porque fecha o ciclo duma geração que tinha visto o mundo mudar radicalmente desde os anos 90. Era altura de deixar de "lutar" contra a desilusão e aceitar a realidade o melhor possível. Lost in Translation também tem qualquer coisa disto à mistura... Estou a divagar...
O mérito vai todo para o génio de Sofia Coppola que conseguiu capturar os pormenores, mais que o the big picture. Muitas vezes ouço dizer que o mais importante é ver o contexto geral, mais isso faz com que estejamos todos muitos distantes, não é verdade? E assim acabamos por não conseguir ver nenhum dos pormenores, que por vezes são muito mais importantes e belos que a imagem no seu todo... E estou a divagar novamente...
Lost in Translation é um filme sem falhas mas de difícil catalogação: é um drama, um romance, uma comédia? Não consigo definir. A história de Coppola é envolvente, humana, dramática, tocante, divertida, romântica e bipolar, tal como a vida é. Tem dois excepcionais actores, Bill Murray e Scarlett Johansson, que são totalmente a "alma" do filme. Fazem o par mais romântico, mas também mais improvável dos últimos anos. São imensamente diferentes um do outro, mas nota-se uma química genuína. Tem uma fotografia lindíssima que dá logo vontade de viajar até Tóquio para cantar karaoke e tem uma banda sonora alternativa (que guardo religiosamente) ainda melhor. Está perfeitamente escrito e realizado por Sofia Coppola. Um clássico instantâneo. Não tenho nada a apontar... Para ver sempre que possível. ●●●●●

A primeira coisa que aparece em Apocalypto é uma frase que diz: "A great civilization is not conquered from without until it has destroyed itself from within", Will Durant
Com base em tudo o que lá li sobre História, parece-me que não podia ser mais verdadeira. Sempre me intrigou a queda dos grandes impérios. Como é possível que os Maias, os Romanos, os Babilónios e outros grandes impérios tenham dominado o seu mundo mas no final tenham sucumbido e praticamente desaparecido da face de Terra? Neste aspecto, e sem ser uma obra filosófica (muito pelo contrário), Apocalypto responde a algumas questões.
No período final da civilização Maia, uma tribo indígena vive os seus dias pacificamente, aproveitando o que a Natureza tem para lhes oferecer. Até ao dia em que são brutalmente atacados, mortos ou levados à força por guerreiros de outro sítio que desconhecem. Arrastados pela floresta densa até uma povoação gigante, mais "citadina", repleta de templos e grandes pirâmides, as mulheres acabam vendidas como escravas e os homens são sacrificados vivos aos deuses Maias. Tudo isto tem uma "razão" de ser: os sacrifícios servem para apaziguar o descontentamento dos deuses que exigem sangue. Na realidade, é mais o descontrolo humano e ambiental, secundado por uma ignorância profunda e por uma necessidade de controlo social.
Entre eles está Jaguar Paw, um jovem que milagrosamente consegue fugir graças a um eclipse solar. Mas a fuga é apenas o primeiro passo. Agora ele tem de regressar à sua vila para salvar a mulher grávida e o filho que escondeu dos guerreiros num buraco profundo. E começa uma perseguição sem descanso pela floresta...
Mais do que dar grandes respostas filosóficas sobre como terminam os impérios, Apocalypto é um filme de acção, que tem como pano de fundo o fim de uma civilização. Até acaba por responder a essas questões, mas acima de tudo é um grande filme de acção. Assim que começa, nunca mais abranda. É rápido, visceral e incrivelmente realista. Excepcionalmente bem dirigido pelo Mel Gibson (mais uma vez), que aqui parece juntar todo o conhecimento técnico, visual e argumentativo de Braveheart e Passion of Christ, muito bem escrito, bem montado, com boa fotografia e grandes prestações de actores amadores/desconhecidos (Rudy Youngblood, Jonathan Brewer e especialmente Raoul Trujillo). Sinceramente, até fiquei na dúvida. Pensei mesmo que eram actores profissionais com próteses ou algo assim do género. Mas não. Provavelmente, é mesmo o melhor filme que já vi com actores totalmente desconhecidos ou amadores. Muito bom. A ver com atenção. ●●●●○

Crocodile Dundee II é a sequela, diria obrigatória, de Crocodile Dundee. O sucesso do primeiro filme foi tão grande que tinham mesmo de fazer um "II". É igual ao primeiro, mas com o argumento ao contrário. Desta vez, Mick Dundee (Paul Hogan) e Sue (Linda Kozlowski) começam na cidade e depois é que vão para o mato. Para justificar o resto do filme e a acção, inventaram um barão da droga (Hechter Ubarry), secundado pelo típico braço-direito do mal (Juan Fernández), que "caíram" assim na história, sem mais nem menos.
Crocodile Dundee II é mais do mesmo, apesar de ainda ter alguma piada. Mas já tinha perdido o encanto inicial e a surpresa... ●○○○○

Durante a década de 80, uma das grandes "cenas" eram os filmes de aventura com pitadas de romance. Há muitos exemplos disso. Dentro deste género muito específico, um dos maiores sucessos mundiais dessa altura foi, sem dúvida, Crocodile Dundee.
Sue Charlton (Linda Kozlowski), uma repórter americana, viaja até aos confins australianos para conhecer e entrevistar um excêntrico e carismático caçador de crocodilos chamado Michael J. 'Crocodile' Dundee (Paul Hogan). Após uma série de aventuras com Dundee - sempre com o seu fiel, mas desajeitado amigo, Walter Reilly (John Meillon) -, Sue apaixona-se por ele e acaba por o convidar a regressar com ela até Nova York... E a verdadeira comédia começa.
(parece que a parte do romance e do apaixonarem-se não foi só para o filme; pelo que li, eles apaixonaram-se mesmo durante as filmagens, casaram e ainda continuam juntos até hoje. Afinal, não foi só representação...) 
Crocodile Dundee é a típica história do gajo deslocado no espaço que ganha a admiração de todos devido à sua autenticidade. Neste caso, que passa do outback australiano para a selva urbana de Nova York. Vendo bem as coisas, se calhar, os cenários não são assim tão diferentes.... É do género My Fair Lady ou Pretty Woman mas em versão aborígene, com um gajo sem medos, de sotaque australiano pesadíssimo, que anda sempre com o seu grande facalhão do mato, dorme no chão e tem um jeito especial para tratar os animais. É divertido. É inocente. Tem acção. Tem romance. Tem aventura. Tem as fantásticas paisagens australianas. Tem aquelas músicas malucas, mas muito fixes, típicas dos anos 80. O que é que se podia pedir mais naquela altura?
Crocodile Dundee foi um sucesso monumental em todo o mundo. Paul Hogan tornou-se, de um dia para o outro, numa estrela mundial. Ainda bem, Paul Hogan é um gajo fixe. E será sempre o Crocodile Dundee. ●●●○○

I am Number Four é um filme de D.J. Caruso, com e para adolescentes que gostam de romance e seres do espaço. Provavelmente foi feito para colmatar uma lacuna de produto destinada àqueles miúdos que já estão fartos de filmes de adolescentes com a temática do romance e vampiros.
A história é simples. É mais ou menos copiada da do Super-Homem: rapaz com poderes chega à Terra perseguido pelo general Zod... Não é o Zod. É um parecido mas com dentes afiados e tatuagens. Rapaz apaixona-se por rapariga. Rapariga fica em perigo. Rapaz vence o general Zod, salva a rapariga e o mundo. O cãozinho salva-se no final só com uma patinha ferida...
Previsível como tudo. Segue também a lógica de ser baseado num best seller... também para adolescentes. Tem o final em aberto para dar hipótese às respectivas sequelas, mas graças aos céus não deve ter tido muito sucesso. Ufa! Que sorte!
Tem uns miúdos mais velhos a fazerem que têm 15 anos (Alex Pettyfer e Dianna Agron) e dois actores adultos bonzitos (Timothy Olyphant e Kevin Durand) mas que estão lá só para tornar o filme menos medíocre.
Pode ter sido da minha cabeça, mas o que destaco mais neste I am Number Four, é uma muito forte referência sexual, quase subliminar, da descoberta da sexualidade. E não é pela historinha de amor à Twilight. É o aparecimento dos poderes na adolescência (o moço está numa cena sensual com uma miúda na praia e sem saber o que se passa, começa a "jorrar" uma luz das mãos...), a desobediência ao poder superior do protector que o moço trata como "pai"; o aparecimento da loiraça sensual, mais velha, para lhe ensinar uns truques novos... Ou então não... O filme é tão mau, que se calhar estava entretido a tentar encontrar significados para coisas onde elas não existem. Não sei...
Uma perda de tempo. É preferível ver um gelado a derreter ao sol... Se calhar é melhor não. É que isto tem produção do Michael Bay, portanto o gelado estaria a derreter ao pôr-do-sol, em cima do capot de um superdesportivo, cheio de brilhos e lens flare, com a bandeira americana desfraldada ao vento em pano de fundo. É melhor apenas não ver... ○○○○○


Hercule Poirot é um detective privado de nacionalidade belga, mas que passou a maior parte da sua vida radicado em Inglaterra. Isso não o impediu de usar as suas poderosas "pequenas células cinzentas" para investigar e infalivelmente desvendar crimes por toda a Europa, África, Ásia e numa boa parte da América do Sul, juntamente com os seus inseparáveis colegas: Inspector Japp e Capitão Hastings. Poirot é excêntrico, cheio de maneirismos e de obsessões compulsivas. Gosta do estilo Arte Déco, é extremamente pontual e leva tudo ao limite da perfeição obsessiva, como por exemplo a sua conta bancária, onde tem exactamente 444 libras, 4 xelins e 4 pence.
Hercule Poirot é uma personagem ficcional criada por Agatha Christie que... Bem, não vale a pena alongar mais sobre quem é Poirot... Toda a gente sabe quem é. Mesmo quem não é grande apreciador da personagem - como eu - conhece-o e reconhece o valor das histórias de Agatha Christie. E são tantas que também não vale a pena mencioná-las, porque precisaria de outro site só para isso.
Mas sendo uma série de tv, o que está Poirot a fazer num site de cinema? Um pequeno à parte...
Apesar de parecer lógico, não há um termo geral para a definição de longa metragem. Dependendo do local ou de quem avalia, uma projeção para ser considerada como longa metragem terá de ter 40, 70, 80 ou mais minutos de duração. Para mim, parece-me mais lógico o limite dos 70 minutos. E por vezes nem sequer é uma questão de duração, se dá na TV ou passa no cinema, mas sim o contexto ou outros aspectos do filme que o tornam numa longa metragem.
Já vi filmes como La Jetée (de Chris Marker), que não é mais que uma colecção de fotografias narradas com apenas 30 minutos, mas que me parece de facto um filme completo. Ou Un Chien Andalou (de Luis Buñuel) que tem 15 minutos, pela sua importância visual e no desenvolvimento de outros filmes posteriores. Ou ainda Le voyage dans la lune (de Georges Méliès), comummente aceite como um dos primeiros filmes de ficção cientifica, só tem 13 minutos. Apesar de serem tecnicamente curtas metragens, em termos de contexto para a própria história do cinema, acho que estes exemplos mais "curtos" se elevam para verdadeiras longas-metragens. Por outro lado, Modern Times Forever, do grupo de arte dinamarquês Superflex, com 240 horas é actualmente o filme de maior duração. Mas está previsto para 2020, a estreia de Ambiancé, de Andy Weberg com 720 horas. Mas estes exemplos são "instalações" ou documentários artísticos e eu não os consideraria como sendo um "filme de longa metragem", apesar da questão técnica da duração. Estou a divagar...
Voltando a Poirot... Se se considerar os 70 minutos como o primeiro patamar para identificar tecnicamente uma longa metragem, Poirot tem pelo menos 34 "episódios" com mais de 90 minutos e isto "apenas" entre 1989 e 2013. Isto quer dizer que, objectiva e tecnicamente falando, Poirot é a mais longa série de filmes da história!!!
Só para servir de exemplo, a temática James Bond, que é actualmente a saga mais longa - e já cá anda desde os anos 60 - "só" tem 20 e tal distribuições... Coitadito. O James Bond ainda é um "menino" quando comparado o grande Hercule Poirot.
Não se pode mencionar Poirot sem mencionar David Suchet. O detective privado foi interpretado ao longo dos tempos no grande e no pequeno ecrã por uma série de grande actores como José Ferrer, Peter Ustinov, Ian Holm, Kenneth Branagh, Charles Laughton e até Orson Welles fez uma adaptação radiofónica. Mas sem dúvida nenhuma que Hercule Poirot é David Suchet e David Suchet é Hercule Poirot. Há actores que "nascem e vivem" para um papel, e este é um dos casos mais exemplares... Não deixa de ser curioso que Suchet, antes de ser "o" Poirot, tenha interpretado a personagem do Inspector Japp, em Thirteen at Dinner, de 1985, sendo que Peter Ustinov é que ficou com o papel principal... Curioso, não?
Hercule Poirot faleceu em 1949 (ou dependendo da versão, 1975?!) com direito a ser a única personagem de ficção a aparecer no obituário da primeira página do The New York Times., mas o seu legado continua a apaixonar novas gerações. Acho que vai ser assim por muitos mais anos, pois tem algo de estranhamente intemporal.
Por tudo isto, e por ser absolutamente merecido o reconhecimento, como uma das grandes personagens literárias de sempre, a devida e respeitosa vénia para Hercule Poirot e para a maior série de filmes até hoje. ●●●●●

"The truth, however ugly in itself, is always curious and beautiful to the seeker after it."
Hercule Poirot, em The Murder of Roger Ackroyd

Não conhecia muito bem a BD de Dick Tracy criada por Chester Gould. Sabia que era um detective durão que combate o crime organizado numa cidade corrupta, cheia de gangsters e vilões sem escrúpulos. Lembro-me que ele tinha uma série de gadgets como por exemplo, um relógio de pulso com rádio com que comunicava com a Polícia. Isso era muito fixe. Por isso mesmo, parabéns ao Warren Beatty por trazer Dick Tracy para o grande ecrã, para o público em geral e em particular para a minha pessoa que gosta muito de filmes de gangsters...
Em 1990, os filmes de super-heróis/adaptações da BD (re)começavam a surgir no cinema com alguma regularidade, mas ainda estavam numa fase muito embrionária. Na altura, Dick Tracy, foi completamente diferente de tudo o que já tinha visto. Mas ainda hoje, é uma das melhores adaptações da BD para cinema. Continua diferente, absolutamente peculiar e único. Tenho pena que na altura o público não estivesse muito na "onda" e o filme tivesse sido um flop comercial. Mas uma coisa é a parte financeira, outra é o filme como obra de arte e de autor.
Warren Beatty, Madonna, Al Pacino, Dustin Hoffman, James Caan e outros mais secundários, mas não menos excelentes como William Forsythe, Ed O'Ross, Kathy Bates, Paul Sorvino, Dick Van Dyke e mais uma troupe interminável de bons actores. Eis o casting de Dick Tracy. Parece que toda a gente queria entrar neste filme. É normal. Warren Beatty é um gajo com muito currículo em Hollywood e Dick Tracy parecia um filme que iria ficar na história. E até acho que ficou, apesar de estar incompreensivelmente esquecido.
Warren Beatty já tinha todo o crédito cinematográfico do mundo, mas com este filme, conseguiu (re)marcar o seu estatuto como realizador. Apesar de ser um daqueles filmes que se ama ou se odeia, não se lhe consegue ficar indiferente.
Grande destaque para a genial fotografia e para o make-up que literalmente transformou os actores em personagens da BD, mas deixou-lhes margem de manobra para representar. E as cores... do outro mundo. É provavelmente um dos filmes mais coloridos de sempre. E digo isto no bom sentido. Tem uma estética excelente.
Apesar de ser por vezes exageradamente BD, Dick Tracy é um filme que tem mesmo de se ver. ●●●●○

Qualquer semelhança deste Hollow Man com o clássico The Invisible Man é pura coincidência. Uns cientistas que trabalham para o governo em instalações secretas, conseguem fazer com que animais fiquem invisiveis. Tudo se complica quando um deles experimenta em si próprio e não consegue voltar à sua forma visível.
Hollow Man é um filme jeitoso de acção/ficção científica/terror. Quer dizer, não é bem terror, o Paul Verhoeven é que é sempre um bocado violento e visceral, a descair para o gore... Até nos diálogos... Já para não falar nas inúmeras referências sexuais, mais ou menos subtis. Faz parte do seu estilo muito próprio. Sou fã dele exactamente por causa disso. Bom elenco principal com Elisabeth Shue, Kevin Bacon e Josh Brolin e, na altura (se bem que se aguentam muito ainda hoje) com uns efeitos especiais espectaculares.
É absolutamente prevísivel, mas não deixa de ser um bom filmito que se vê bastante bem. E fica a pergunta no ar: o que é que uma pessoa faria se pudesse ficar invisível?... ●●●○○

Baseado numa história verídica, The Elephant Man mostra os últimos capítulos da vida atribulada de John Merrick (apesar do verdadeiro nome ser Joseph Merrick), após ser descoberto pelo médico Frederick Treves que o retira duma vida degradante como atração de circo.
Devido a ter o corpo horrivelmente deformado e em consequência ser rejeitado pela sociedade vitoriana, é usado como mero objecto de demonstração por Bytes, um homem sem escrúpulos. É-lhe negado qualquer tipo de humanidade, conforto ou vislumbre de felicidade.
The Elephant Man é uma história excepcional sobre a elevação do ser humano. É a história da luta da inclusão e do humanismo contra a humilhação, o ódio pela diferença, o medo do desconhecido e principalmente contra a ignorância. Sempre ouvi dizer que a realidade é muito mais estranha que a ficção. The Elephant Man é a prova disso.
Dificilmente conseguiria imaginar outros actores aqui. Tudo verdadeiros "senhores" do cinema: Anthony Hopkins, Anne Bancroft, John Gielgud e Freddie Jones, com o óbvio destaque para o John Hurt, que apesar de não aparecer (na sua forma "original", digamos assim), tornou-se imediatamente num dos meus actores favoritos de sempre.
The Elephant Man é uma obra prima cinematográfica de David Lynch. Parece óbvio que vai buscar muita inspiração visual (e sonora) ao alucinado Eraserhead, feito uns anos antes, como por exemplo a fotografia a preto e branco que é do outro mundo. A música de John Morris encaixa perfeitamente... É uma verdadeira obra de arte audiovisual. Foi nomeado para inúmeros prémios e ganhou outros tantos, desde Óscares a BAFTAS. É muito bom. Gosto imenso do David Lynch e de todos os seus filmes (mesmo que por vezes não os entenda), mas se calhar, elejo este como o melhor. Não consigo apontar-lhe defeitos ou algo que pudesse estar melhor. Intemporal e obrigatório. ●●●●● + ●

Ando com muita sorte no que toca a filmes brasileiros. Quando consigo apanhar um (não é nada fácil), é sempre muito bom.
(Se levantar uma pedra da calçada, é muito provável que encontre lá uns episódios de uma telenovela brasileira qualquer, mas encontrar um filme é muito mais difícil)
O penúltimo que vi foi este Estômago, uma fábula adulta de poder, sexo e gastronomia.
(Já agora, o último que vi, também foi muito bom, mas isso fica para outra altura)
A história de Estômago é a de um gajo que vem do interior brasileiro para a grande cidade, de modos muito simples, chamado Raimundo Nonato que é muito bom a cozinhar. Mas mesmo muito bom. E mesmo sem ser um gajo com muita ambição, consegue sempre o que quer graças ao seu peculiar dom da culinária. É assim que consegue arranjar trabalho, um sítio onde dormir, a companhia de uma prostituta com um apetite insaciável e até a forma de subir na hierarquia da prisão. É preciso ver para perceber, mas é fixe.
Os actores são do melhor. João Miguel (Nonato), Babu Santana (Bujiú) e especialmente Fabiula Nascimento (Íria) interpretaram umas personagens que são absolutamente memoráveis. Tão cedo não me saem da cabeça.
Estômago, muito bem escrito e realizado por Marcos Jorge é divertido, inteligente, espiritual, despreocupado e... saciante. É mesmo! Fez-me lembrar uma daquelas rulotes com aspecto duvidoso na berma da estrada, mas que depois serve uma espectacular comida gourmet. É um filme muito boa onda, com uma história muito fixe, original e repleta de excelentes diálogos.
Mesmo sendo em português (do Brasil) aconselho vivamente a tentarem arranjar uma versão com legendas, porque às vezes os sotaques são cerradíssimos e quase que não se consegue perceber o que dizem...
Recomendadíssimo. "Gorgonzola?" ●●●●○

Antes de mais nada, uma pequena declaração de interesses: sou fã do Paul Thomas Anderson desde o excepcional Boogie Nights e do Daniel Day-Lewis, bem, acho que desde sempre...
Portanto tinha mesmo que ver o There Will Be Blood. Depois de o ver fiquei com um pouco de azia... É que gostei muito de uma parte do filme, mas também não gostei da outra parte. Deixou-me com um sabor agridoce que não estava nada à espera. Acho que tinha as expectativas demasiado elevadas.
A primeira parte do filme em que Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis) anda com o "filho" a lutar incansavelmente pelo seu negócio do "ouro negro", está simplesmente brilhante. Grandes imagens e grandes interpretações em grandes momentos memoráveis de cinema. Mas depois o filme começa a descambar numa trip de seitas religiosas e aí tenho de admitir que me começou a mexer com os nervos. Fiquei nitidamente com a sensação que There Will Be Blood são dois filmes num só: a parte do petróleo e a parte religiosa. Coincidência ou não, o filme seguinte de P.T. Anderson é o The Master que é precisamente um mergulho no mundo... das seitas religiosas. Parece-me que ele ficou demasiado fascinado pela ideia... É pena. Estive uma grande parte do filme à espera que voltasse ao tema inicial.
Nunca poderia dizer que There Will Be Blood tem algo de errado, porque não tem. O que tem é uma inclinação para um tema que me faz alguma impressão. E para piorar a situação, o filme acaba mesmo por ser tomado de assalto pelos gritos histéricos e pela obsessão religiosa.
Umas palavrinhas finais para o Daniel Day-Lewis, que é para mim, sem dúvida nenhuma, o melhor actor da actualidade: uma tela de cinema é demasiado pequena para ele. Até me faz confusão: ele não interpreta, ele literalmente transfigura-se na personagem. É verdadeiramente impressionante. Quer dizer, não ofuscou toda a gente; Paul Dano também merece obviamente destaque. O gajo tem "pinta", tem presença e é um actor excelente.
There Will Be Blood desiludiu-me um bocadito, mas tenho a certeza que o Paul Thomas Anderson no futuro irá compensar com outra das suas obras-primas. ●●●○○

O Conde de Monte Cristo foi um dos primeiros livros que li por vontade própria. Desde então, tornou-se numa das minhas histórias favoritas. É que tem tudo: uma história de amor e traição, acusações infundadas e castigos injustos, reclusão numa ilha isolada, fuga impossível da prisão,  aventura no mar, piratas, caça ao tesouro, sede de vingança e um final como deve ser. Até tem um padre português... Uma história intemporal, e diria mesmo, perfeita do grande Alexandre Dumas.
Em relação a este The Count of Monte Cristo de Kevin Reynolds, a única coisa que posso dizer é que é bastante jeitoso. Jim Caviezel e especialmente Guy Pearce fazem uma dupla de antagonistas muito boa, mas o resto do elenco (Richard Harris, James Frain, Dagmara Dominczyk e o Michael Wincott, gajo muito menosprezado mas que curto bastante) também é bom. O filme "rola" bem e não há propriamente nada que possa apontar como estando mal. Apesar disso, não deixa de ser apenas mais uma versão da história. Torna tudo muito... previsível, não é verdade?
E a única coisa que não gostei foi precisamente a alteração da história. Não é que esteja mal "reajustada", mas neste caso específico, deu-me para o purismo. Não acho que se deva alterar uma história perfeita, mas até pela questão anterior da previsibilidade, compreendo perfeitamente a opção. ●●○○○


Nos anos 80, máquinas extraterrestres pousam em Nova York, numa altura em que a cidade está em grande revolução urbanística. Em particular, pousam num bloco de apartamentos cujos inquilinos se recusam a abandonar, apesar das muitas pressões de um negociador imobiliário sem escrúpulos. Será tudo destruído para ser substituído pela construção de novos blocos mais modernos. (Parece que o problema da gentrificação não é novo...)
Não, não é mais um filme de ficção científica com extraterrestres tão grandes que não cabem na tela de cinema a invadirem ou a destruírem tudo com as suas avançadíssimas armas.
Este é um filme fofo. É a única palavra que me vem à cabeça quando me lembro de *Batteries not included. Fofo.
É o típico filme de família. Os aliens mecânicos são ternurentos, frágeis e amorosos, as personagens (Hume Cronyn, Jessica Tandy, Frank McRae, Elizabeth Peña) são queridas e inocentes e até os vilões são... fofos.
*Batteries not included (traduzido como O Milagre da Rua 8) é um filme para miúdos e as suas famílias, mas está muito bem feito portanto atinge todos os escalões etários. É normal: o realizador é o desconhecido Matthew Robbins, mas a produção é obviamente do Steven Spielberg. Não admira que faça lembrar outras produções memoráveis como ET ou os Goonies... Os efeitos especiais - na altura eram simplesmente espectaculares, agora nem tanto -, a história é tão fixe e a inocência que emana do filme é tão grande (e a nostalgia também) que não consigo deixar de o recomendar. Fofo. ●●●○○


Para vingar a morte da irmã, Lee, um exímio lutador, vai ter de se infiltrar numa exclusiva competição de artes marciais patrocinada pelo enigmático e diabólico Han. Na realidade, toda a organização de Han (sediada numa ilha particular muito ao estilo dos vilões do James Bond) é uma fachada para negócios pouco recomendáveis como a produção e tráfico de ópio e a prostituição.
Pode parecer banal, mas a história linear de vingança do Enter the Dragon tornou-se no standard que todos os filmes de porrada dos anos 70 e 80 acabaram por seguir.
(Tenho de me desviar um bocadinho do assunto só para mencionar a qualidade gráfica do cartaz. É simplesmente cool a todos os níveis...)
Aprendi muita coisa com o Enter the Dragon. Fiquei a saber que esta foi a primeira produção de Hollywood de um filme chinês de artes marciais; que o John Saxon (conhecia-o de outros filmes que não eram de porrada) só foi contratado porque era cinturão nego em karaté e finalmente percebi porque o Han (Kien Shih) tinha uma pronúncia tão estranha: na realidade ele não falava inglês, apenas imitava o movimento de lábios e depois teve de ser dobrado... Após muitas visualizações do filme (em miúdo via-o, rebobinava a cassete de VHS e depois via novamente...), até notei que o Jackie Chan aparece em algumas das cenas de porrada.
Outro pormenor que gosto muito é a banda sonora do Lalo Schifrin, que é um gajo que raramente falha. Acompanha perfeitamente todo o filme. Muito boa.
As cenas de acção dirigidas por Robert Clouse não são espectaculares, mas para além de parecem realistas, têm algo de diferente: o Bruce Lee, que é simplesmente uma lenda do cinema. E nota-se porquê: tem aquele carisma natural, tem uma aura de estrela, tem aquela inexplicável atracção e tem uma força na tela que se sente.
Bruce Lee é um daqueles gajos estranhos. É magrito e baixo, mas tem ali um crazy eye qualquer que faz como eu não quisesse pegar-me à porrada com ele. Bruce Lee pertence a uma classe totalmente à parte no cinema. Pertence à classe das grandes estrelas. Das lendas. Dos ícones. Lembro-me de ver um documentário sobre ele e ver as filas intermináveis para assistir à estreia deste filme. Também não será alheio o facto de ele ter morrido umas semanas antes da estreia. Até no pormenor trágico da morte prematura, parece que ele estava destinado ao grande Panteão do Cinema. Foi uma pena. Fui, sou e sempre serei um fã incondicional do Bruce Lee. E fica a pergunta no ar: se não fosse o Bruce Lee e o Enter the Dragon, será que os filmes de artes marciais alguma vez teriam chegado em força ao cinema ocidental? ●●●●○


Nunca pensei dizer isto, mas vi uma comédia romântica... e até gostei. Bem, Words and Pictures não é bem uma comédia romântica... é mais uma comédia romântica dramática.
Um professor de letras absolutamente irascível entra em confronto ideológico com uma professora de artes, apenas para perceber que encontrou o amor da sua vida. Eles lutam não só um contra o outro, mas também contra eles próprios. Ela tem uma doença degenerativa e ele perde-se no fundo dos copos.
Já tinha o Fred Schepisi debaixo de olho desde a excelente série Empire Falls, mas agora rendi-me totalmente. Excelentes actuações de Clive Owen e Juliette Binoche, que curiosamente são dois actores com quem nem vou muito à bola... A história - uma luta levada ao limite da dureza para perceber o que é mais importante: as letras ou as imagens - é muito boa, bem escrita e os diálogos são inteligentes. Surpreendentemente bom. ●●●○○

 
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