Num futuro próximo, o Reino Unido entra numa espécie de Guerra Fria com a China. Para tentar resolver o conflito, é desenvolvido um projecto de inteligência artifical radical: criar uma máquina que simule perfeitamente um ser humano. Nasce a Máquina. No cerne da investigação está um génio de AI que pretende usar o poder da máquina para curar a doença da filha. Pelo meio, percebe-se que a máquina saiu tão perfeita que pensa que é humana e isso vai fazer soar as campainhas de alarme do governo que obviamente vai tentar destruí-la. Resta a grande questão: afinal, o que é ser humano?
Toda esta história soa familiar? Pois soa. É mais um entre dezenas de filmes em que máquinas "pensam" que são humanos e os humanos com medo, querem destruí-las. Para mim, a grande questão é: quantos mais filmes com a mesma história é possível fazer?
Este filme só tem duas coisas positivas: um bom realizador, Caradog W. James, que consegue dar um bom ritmo a um filme de minúsculo orçamento com uma realização muito linear; e um bom actor, Toby Stephens, o único do elenco que "suporta" verdadeiramente o filme. É muito pouco. Pouco mais há a dizer sobre The Machine: a história já toda a gente a conhece e acaba tudo mais ou menos bem... como as restantes histórias do género. O trailer parece bom, mas é um engano. O filme é muito fraco. ●○○○○

Há filmes que são tão maus que de alguma forma se tornam bons. É o caso de Armageddon (1998). Um asteróide vai explodir com a Terra dentro de pouco tempo e nada vai sobreviver. Esperamos pelo destino final? Não. A NASA tem um plano. Decide recrutar uma série de loucos perfuradores de petróleo para irem até ao asteróide, furá-lo, meter-lhe uma bomba nuclear e rebentar com o dito cujo. Sendo um filme do Michael Bay, toda a gente sabe o que o espera: cores estremamente carregadas a puxar para o teledisco, muitas cenas em câmara lenta e rotações a 360º, explosões a cada 30 segundos, muitas bandeiras americanas ao vento, heroísmo a rodos e um final feliz em que alguém se sacrifica pelo grupo. Nesse aspecto, o filme não desilude. Está lá tudo.
Estranhamente, é para aí a quinta vez que vejo o filme, mesmo achando que não presta para nada. É a vantagem deste tipo de filmes: esquecem-se rapidamente. Quando o comecei a rever até pensei que nunca o tinha visto pois era tudo novidade. E como há "n" de outros filmes-catástrofe com um iminente fim do mundo, uma pessoa fica sempre na dúvida.
Nem tudo é negativo neste filme. Quer se queira, quer não, Michael Bay conseguiu cunhar um estilo muito próprio de cinema. Um pouco "azeiteiro", mas um estilo próprio. E isso é positivo. Depois é uma autêntica parada de estrelas: Bruce Willis, Billy Bob Thornton, Ben Affleck e Steve Buscemi, só para mencionar alguns dos bons actores. Como é uma enorme produção (suportada pelo Jerry Bruckheimer), os efeitos especiais são do melhor que há e o ritmo frenético do filme deixa-me sempre colado ao sofá.
Tudo é exagerado neste filme: as explosões, as cenas de acção, os twists no argumento, os sons do asteróide, as contagens decrescentes, as personagens sempre aos gritos, os estereótipos vincados, a quantidade de piadas metidas à força e até a duração do filme. É tudo um enorme exagero. O que de mais positivo tem este filme é isto: mesmo sendo tão mau e vazio, se estiver a dar num canal qualquer, eu não resisto e volto a vê-lo. Não percebo esta minha reacção. Alguma coisa deve ter de bom. Só por isso se torna num filme com sinal positivo. ●●●○○

Diz-se que o Futuro não existe. O Futuro é aquilo que se vai construindo, vivendo o presente. Assim sendo, e não entrando nos complexos e estranhos campos da futurologia e das viagens no tempo, é possível ir recolhendo algumas indicações actuais, sempre alicerçadas em acontecimentos passados, para tentar prever o que se irá passar a seguir ou qual o caminho que se está a desenrolar. Se calhar até é este tipo de acção que faz com que o futuro se vá concretizando a partir do presente. Quem sabe? Ao longo dos tempos, muitos o têm feito em muitos campos. No campo das artes, esta acção ganha especial relevância no cinema. A grande vantagem do cinema em relação às restantes artes, é que permite ter uma visão quase-real do futuro. Literalmente, é possível ver e ouvir um futuro, uma hipotética realidade, ou seja, uma utopia. Ainda ninguém respondeu conclusivamente - nem responderá, digo eu - à  derradeira pergunta: é a vida que imita a arte ou a arte que imita a vida?, mas seja qual for a resposta, ela será sempre preocupante. E por uma razão simples. Nas visões hipotéticas do cinema, o Futuro é sempre negro.
Mesmo as (raras) utopias mais idílicas têm uma tendência natural para a distopia. Não é por nada que a utopia é considerada como um não-lugar, ou um lugar onde apenas se almeja chegar sem nunca lá chegar efectivamente. O Cinema apresenta o Futuro como invariavelmente decadente, perverso, destruído, desumano e sempre mais perto da imagem típica do Inferno do que do Paraíso. Independentemente de ser um Futuro tecnologicamente avançado ou em retrocesso, o Futuro é sempre negativo, com os homens obsessivamente a tentarem subjugar tudo ao seu domínio, mantendo tudo sobre um apertado controlo, incluindo como é óbvio, outros homens. No Cinema recente, as referências originais são cada vez menores. A necessidade de receita de bilheteira - não convém esquecer que o cinema é uma indústria, dinheiro, acções, investimentos, empréstimos, etc... - tornou o estilo apenas numa enorme montra de efeitos digitais e segue o rumo de quanto mais fogo-de-artifício melhor, porque se o pessoal paga para ver, é porque quer ver espectáculo desenfreado, perseguições espectaculares e explosões enormes. Se calhar por isso, a produção recente passa mais pelo remake do que outra coisa, aproveitando as boas histórias antigas e apresentando maiores e melhores efeitos especiais. Também não será de descartar o facto de até há pouco tempo se viver num "tempo de prosperidade" e por isso mesmo, o público estar mais inclinado para as comédias românticas do que em versões utópicas (ou distópicas?) do mundo.
Talvez por falta de referências recentes e pela aproximação muito virada para o espalhafato visual, o tema da Ficção Científica/Futuro/Distopia é necessariamente um género menor, e com tendência para se ir degradando cada vez mais. No entanto, existem inúmeros exemplos "antigos", só que estão escondidos pelo tempo, esmagados pela avalanche produtiva da indústria do cinema actual e, de certa forma, diminuídos por efeitos visuais/especiais já muito ultrapassados. É a chamada ironia do destino!
De certa forma, a imaginação do "cinema das utopias" é uma excelente ferramenta para visualizar o que poderá acontecer no futuro, ainda que tudo não seja mais que uma mera hipótese saída dum guião escrito para o ecrã. Quanto mais não fosse, muitas destas utopias são excelentes filmes e alguns verdadeiras obras de arte em movimento.
Mas independentemente da qualidade do filme ou da utopia apresentada ser ou não verosímel ou compatível com a realidade do momento, a grande questão é: será possível que alguma das utopias/distopias do cinema possam vir a concretizar-se?
Respondendo à questão anterior: Aparentemente sim. Brazil (1985) é talvez o melhor filme para ilustrar como a ficção pode imaginar correctamente uma realidade futura. Pensando bem, vivemos agora mesmo, numa realidade que não existia há 20 anos, mas que no entanto foi previsto como um possível culminar do que era a sociedade em 1985... Senão vejamos se as coisas não batem mais ou menos certo: Tudo se passa numa sociedade livre mas estatalmente opressiva, omnipresente e hiper-burocrática, tão sofisticadamente evoluída ao ponto de a própria tecnologia ser incompreensível, quase mágica e que parece sempre obsoleta.
Aqui vive o (anti) herói que tem ironicamente um emprego no Estado por apontamento directo da influente mãe que mal o conhece e que é viciada - tal como todas as "amigas" - em operações plásticas para manter uma impossível juventude, sempre motivada por um cirurgião plástico sem escrúpulos.
Sam Lowry (Jonathan Pryce) é um funcionário público que tenta corrigir um erro na pesada e (quase) infalível máquina tecno-burocrática do Estado, causado ironicamente pela morte de uma simples mosca. Este erro insignificante faz com que um sapateiro, - Mr. Buttler - seja injustamente preso em vez de Mr. Tuttle, um trabalhador freelance que é Engenheiro de Aquecimento e considerado um terrorista perigoso... porque foge à avalanche de impostos do Estado. No seu monótono emprego - em que todos os colegas fingem que trabalham apenas quando o superior aparece - é a grande ajuda do chefe da secção que sendo mais velho, não se entende com o trabalho moderno e com as restantes modernices tecnológicas. Na sua demanda por corrigir o erro, envolve-se com uma terrorista anti-Estado, que é também a mulher dos seus sonhos, onde voa para lá das nuvens e luta com um guerreiro gigante (presume-se, o próprio Estado). Toda esta aventura e romance impossíveis resultam na sua transformação em terrorista por cumplicidade amorosa. O terrorismo é uma peça importante neste filme e está presente em muitas cenas. Enquanto Sam almoça com a mãe num restaurante exclusivo, irrompe uma cena de explosões terroristas, mas o acontecimento é já tão banal que nem perturba a refeição dos clientes. Na cena inicial do filme, uma loja de venda de TV's explode no exacto momento em que passa um anúncio que apela à troca das velhas condutas de aquecimento por umas novas que são rigorosamente iguais às anteriores, seguida de uma declaração de um Ministro sobre o actual combate ao terrorismo. O terrorista que o Estado quer apanhar (Mr. Tuttle) é na verdade mais uma espécie de trabalhador-terrorista que tem de trabalhar às escondidas, fazendo biscates, totalmente dissimulado, para não ser apanhado nas malhas dos impossíveis impostos que não lhe permitem ficar com nenhum do dinheiro que ganha. Mr. Tuttle (Robert De Niro) tem a particularidade de conseguir desaparecer num tornado de papéis...
Totalmente embrenhado no "lado de lá da barricada", perseguido pelo próprio Estado empregador e com a vida em perigo, a única porta de saída possível, é fugir para uma terra verdejante, natural, idílica e utópica de que toda a gente fala, chamada de Brazil; o exacto oposto da complexidade em que vive e das megas construções de cimento que o rodeia no dia-a-dia. Mas essa possível realidade de fuga pode ser bem mais cinzenta do que imagina... Fica a frase que resume o filme: suspicion breeds confidence... Está tudo dito.
Como filme, há que admitir que Brazil é um pouco desequilibrado. Por exemplo, os estranhos sonhos de Sam destacam-se demasiado; parecem que fazem parte de outro filme. Também o tom (demasiado) satírico prejudica a excelente visão objectiva que o filme e o argumento mereceriam. Se calhar, o filme não tem um status maior, precisamente devido a esta clivagem estética e narrativa. Mas a visão crítica à sociedade está bem actual, o que torna o filme extremamente pertinente. Tecnologia que já ultrapassou a compreensão dos utilizadores, a necessidade de fuga do betão ao encontro da natureza, controlo pessoal constante e excessivo por parte do Estado, manutenção social do status quo, burocracia maciça, ausência e/ou superficialidade de relações pessoais, a procura sem limites pela beleza e juventude, a estética levada ao ridículo e até, o que acho de maior relevo, o terrorismo dentro do próprio Estado, quase como uma inevitabilidade da opressão e a insinuação de que a existência do terrorismo é até benéfica para o próprio Estado manter os cidadãos controlados e do seu lado. O realizador, Terry Gilliam - o americano mais inglês de todos - não renega as suas raízes Monty Phyton (quem não se lembra das animações esquisitas com os pés?) e leva as coisas um pouco para a brincadeira e para o nonsense. Talvez por causa disso, o filme tenha sido um flop comercial e talvez por causa disso, ainda hoje permaneça algo esquecido e desvalorizado. Mas também pode ter sido por estar demasiado avançado para o seu tempo. No entanto, e isso é que é importante, as previsões lançadas no já longínquo ano de 1985 têm vindo a concretizar-se nos dias de hoje e algumas delas são até situações vulgares do dia-a-dia, sem que se perceba que há 20 anos atrás eram apenas a imaginação desvairada de um realizador. Este é um filme único e obrigatório para quem gosta de cinema e merece a classificação máxima. Falta-lhe "um bocadinho assim" para ser uma obra-prima. O melhor é mesmo esperar mais uns anos, rever, e tenho quase a certeza que chega lá. ●●●●●

 
Copyright © 2015 todos os filmes que vi
Distributed By Gooyaabi Templates