Sad Hill Unearthed é um dos documentário mais estranhos que já vi. Não por ser propriamente estranho (nem sequer é muito bom) mas porque me deu a conhecer (e perceber que existe) uma outra perspectiva sobre o cinema: a arqueológica. E proporcionou-me uma enorme surpresa.
Em Espanha, mais propriamente em Burgos, um grupo de fãs do magnífico filme "The Good, the Bad and the Ugly" desenterraram o cenário onde foi filmada a icónica cena final no cemitério. Apesar do sítio ter sido construído de raiz (5000 campas em formato circular [único e espectacular]) foi abandonado logo após as filmagens e deixado ao abandono durante quase 50 anos. Obviamente pouco restou, e nada restaria, não fosse este grupo de amigos (inicialmente) e uma série de fãs malucos (no bom sentido) que conseguiram resgatá-lo do esquecimento. Apesar de já ter visto o filme "n" de vezes, não conheço muito bem a história behind the scenes, e portanto não fazia ideia que tinha sido filmado tão perto. Uma gigantesca surpresa. Não fazia ideia. Fiquei boquiaberto e muito entusiasmado.
Tem a contribuição de Ennio Morricone, James Hetfield (sim, dos Metallica), Joe Dante, Álex de la Iglesia, Clint Eastwood e do próprio mestre Sergio Leone, entre outros.
The Good the Bad and the Ugly é um filme que me é muito especial, mas quanto a isso, terá o seu próprio espaço. Dou os meus parabéns aos gajos que descobriram isto e a todos os que não deixaram morrer uma parte importante da história do cinema. Os meus sinceros parabéns ao Guillermo de Oliveira pelo esforço de pesquisa e também pelo documentário. Fica a promessa de um dia ir lá visitar o local pessoalmente. ●●●○○

Em 1990, já tinha visto umas centenas largas de filmes. Provavelmente já iria na casa do milhar, provavelmente, não. Sinceramente, não consigo quantificar. Mas sei que devido à pouca idade e experiência, tinha uma perspetiva muito limitada e estereotipada do cinema. Nessa altura, havia três formas de ver filmes. No cinema, em que via os filmes americanos, que apesar de diferentes dos dias de hoje, eram mais os menos a mesma coisa: acçao e efeitos. Em casa, na tv, por um lado, via os filmes portugueses a preto e branco, do tempo da "outra senhora", westerns (maioritariamente americanos) que ainda rodavam com alguma frequência, mas por outro lado via os "filmes de seca", os "intelectuais", e os "estranhos" do então "elitista" segundo canal da TV, que quase ninguém via (acho que isso ainda se mantém nos dias de hoje...). Normalmente, filmes europeus, maioritariamente franceses, que na altura eram uma seca monumental porque, tal como dizem os miúdos hoje em dia, eram só "gajos a falar"... Não acontecia nada... Não havia acção, não havia efeitos especiais... Nada. Só gajos a falar de coisas da vida... E quando parecia que ia começar a interessar... acabava! E eu não percebia nada daquilo. Simplesmente não tinha massa intelectual suficiente para entender aqueles filmes. Muito provavelmente foi isso que me levou a criar a ideia que os filmes franceses eram um seca. E criei um rótulo na minha cabeça. O que levou a criar a fantasia de que francês (ou outro europeu qualquer) e acção simplesmente não eram conceitos que pudessem ser misturados. No entanto, começava a cristalizar-se outro conceito de consumo de filmes: os videoclubes. Era a Netflix da altura. Pensando bem, era mais ou menos a mesma coisa, menos a comodidade. Vendo bem, a grande diferença desse tempo para agora é que os videoclubes não faziam documentários e filmes próprios. Tirando isso, e o facto de um gajo não ter de ir lá à loja buscar o filme e depois entregá-lo no dia seguinte rebobinado. Mas adiante...
Uma vez trouxe do videoclube um filme de acção chamado Nikita sem perceber que estava a levar para casa um filme francês. E, pronto! Mudou totalmente a minha perspetiva. Em duas horas, tive de comer todos os rótulos e estereótipos que tinha colado aos filmes franceses. Pior ainda: tinha descoberto que os franceses (e um filme em língua francesa) conseguia ser melhor, em termos de acção, que os melhores filmes americanos. Como é que isso era possível? A resposta era simples: Luc Besson. Mudou totalmente a minha percepção do cinema. A partir daí abriu-me a mente e comecei a ver os filmes europeus como uma alternativa para melhor ao cinema "americano". Foi uma reviravolta inesperada.
Mas à parte de toda esta questão percepcional, Nikita, a jovem degenerada e drogada, depois transformada em agente de elite dos serviços secretos franceses (uma moderna Cinderela, se quisermos ver isto dum prisma totalmente distorcido...), continua - mesmo depois destes anos todos - a ser um excelente filme de acção e totalmente actual. Apesar de parecer sempre muito crítico relativamente ao género de "acção", é talvez a minha temática favorita logo a seguir à ficção científica. Quem é que não gosta de um bom filme de acção? Acho que toda a gente com menos de 75 anos... Mas tem de ter alguns critérios. Tem de ser comedido, mas ao mesmo tempo explosivo e imprevisível, tem de ter uma boa história e tem de ter obrigatoriamente bons actores e boas representações (como as de Anne Parillaud, Tchéky Karyo, Jean Reno, Jean-Hugues Anglade e Jeanne Moreau). Quem é que não se lembra do Victor? Uma personagem tão impactante que apesar de estar apenas 10 minutos em cena, parece que faz parte do filme todo? Só por este "pormenor" se percebe que se está a ver um bom filme... Mas para mim, a qualidade essencial é que tem de ser "adulto". E tem de ter algum "miolo"... É perceptível, isto do "miolo"?... Basicamente, tem de ter aquilo que falta em quase todos os grandes filmes de acção do momento. Senão, são só explosões e chapadas... Qualquer é o interesse disso?
Pela simplicidade, pela inovação, mas especialmente pela qualidade e intemporalidade, Nikita é altamente recomendado. ●●●●○

Mutação e regeneração, vida e morte, criação e destruição, tudo junto num espaço estranho que não se regra pelas leis universais. Annihilation é um bom filmito de ficção científica, algo raro hoje em dia, em que tudo é filme de acção. No entanto, a partir de determinada altura, começou a ir longe demais no aspecto "intelectual".  Esta não é a minha opinião. Mas pelo que li, estranhamente, foi esta a percepção dos estúdios, o que levou a "disputas criativas", o que por sua vez levou a que o filme fosse distribuído pelo "anticristo" do mundo do cinema que é a Netflix. Só por aqui se percebe bem a excelente jogada destes novos "estúdios" de streaming: "Ó pessoal criativo! Têm problemas com os vossos estúdios? Vinde para cá que aqui ninguém vos chateia; Os estúdios "tradicionais" querem interferir com as vossas veias e perspectivas criativas? Venham para aqui! Têm total liberdade criativa, o corte final e mais, quanto mais chocante e polémico, melhor para todos, é publicidade à borla!...". Para o pessoal proscrito, mais independente, diferente do habitual e/ou com novas ideias é o Paraíso...
Annihilation é mais um vislumbre de como vai ser o cinema nos próximos anos: os mesmos quatro ou cinco realizadores/produtores misturados com tarefeiros quase anónimos a fazerem intermináveis blockbusters, remakes e reboots de blockbusters de "estúdio"; e pequenas (que passarão rapidamente a médias) produções totalmente extravagantes e diferentes vindas dos estúdios de streaming (algo a que decidi agora mesmo começar a chamar de "Streamers"). Por mim, parece-me bem. Quando não me apetecer ver nada e quiser só estar a olhar para as luzes, explosões e sons (basicamente, fogo-de-artifício), vejo um filme de super-heróis pela enésima vez; quando quiser ver um filme de jeito, mudo e vejo algo vindo dos streamers... Parece-me bem. Mas pensando bem, não deixa de ser irónico que apesar de serem consideradas por muitos dos realizadores de renome como um flagelo, este novos streamers, vão acabar por ser a salvação do cinema. Se não existissem os "novos" estúdios, é muito provável que os "velhos" acabassem por ficar indefinidamente em loop, a fazer apenas o blockbuster típico que é receita garantida. Não tardava nada, só iam mesmo existir filmes de super-heróis, franchises e os seus remakes e prequelas... Ia ser a loucura total... Mas adiante, que já estou a divagar novamente...
Contrariamente ao que achou o pessoal que manda no dinheiro do estúdio, Annihilation não é obviamente um filme "intelectual". Aliás, começou a prometer imenso e depois até me desiludiu um pouco por se tornar, de certa forma, banal. Quer dizer, banal, talvez seja exagerado. Previsível, se calhar, é o termo mais adequado. Vindo de quem vem, estava à espera de algo mais. Alex Garland é um gajo em que vejo muito potencial. Tenho a certeza que um dia destes vai fazer um daqueles filmalhaços espetaculares. Nota-se que tem todas as "boas referências", se é que me faço entender... Mas desta vez, Garland ficou-se novamente pela "ameaça". O casting também não foi muito feliz. Natalie Portman e Jennifer Jason Leigh são sempre excelentes, mas o restante pessoal (devido às fracas personagens) "desaparecem" do filme demasiado facilmente... Mas o mais importante é que Garland continua a dar bons sinais e é um nome a ter em conta no futuro. Espero com moderada ansiedade pelo próximo projecto. ●●●○○

Bem... Não vou estar com muitos rodeios... Geostorm é a pior borrada que vi nos últimos tempos. Que desperdício de dinheiro e de recursos naturais. Uma chachada pseudo-ecológica de acção e efeitos especiais tão repleta de clichés escusados que até tem a típica cena (metida totalmente à pressão) do miúdo que perde o cão no meio da tempestade, mas que felizmente consegue reavê-lo são e salvo no final, para o público poder aplaudir repleto de júbilo e satisfação... A sério!? Isto para não falar das muitas cenas que foram nitidamente copiadas a régua e esquadro de outros filmes. Quer dizer... O pessoal do estúdios acham que o público é mesmo assim tão estúpido para (re)fazer este tipo de coisas? Não entendo... É uma nulidade completa. Particularmente chateia-me porque nitidamente isto é manobra de estúdio. É um produto de consumo. Isto foi tratado como um nacho que se vende na zona da restauração... Eu percebo a lógica, mas também não é preciso exagerar. Já estou mesmo a ver uma dúzia de engravatadinhos na sua secretária do Conselho de Administração, a fazer contas com a sua folha de Excel® à frente e a ditar o guião: "O pessoal financeiro e os seus estudos de mercado dizem-nos que podemos fazer aqui um dinheirito valente e portanto vamos aproveitar esta coisa das alterações climáticas e fazer um grande blockbuster de acção e efeitos especiais. Olhe lá, ó guionista, aponte aí uns pontos importantes: tem de ter 3 estrelas de Hollywood conhecidas (Gerard Butler, Andy Garcia, Ed Harris), o bom da fita tem de ter uma filha ou um familiar com quem não se dá bem, mas reconcilia-se no final; tem de ter um cena com um miúdo que perde o cão mas depois consegue reavê-lo são e salvo no final; tem de ter uma contagem decrescente que vai até ao 3, porque quando acaba no último segundo os consumidores já não acreditam; Ah! E tem de ter um miúda gira (Abbie Cornish). É sucesso garantido..." A sério?!? Fico com a impressão que estes filmes são feitos ao contrário: primeiro fazem um trailer espetacular com as cenas de efeitos especiais e depois é que tentam encher as restantes duas horas de filme com uma treta qualquer... Ou seja, resumindo, isto é uma coisa tão artificial que é um zero absoluto. Dou-lhe apenas crédito por isso mesmo: não é fácil fazer uma nulidade completa. ○○○○○

 
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