Quase 15 anos depois do sucesso do primeiro filme, eis que chega aos cinemas The Incredibles 2. Acho que não vou conseguir deixar passar este tema que me parece estar relacionado. Na sequência da temática feminista recentemente generalizada pelo movimento #MeToo, o novo guião reflecte uma mudança significativa na família: agora é o homem que fica em casa a tomar conta dos filhos e é a super-mulher que vai salvar o mundo. A Elastigirl vai ter de enfrentar um novo super-vilão que tem a capacidade de manipular mentes. A crítica subjacente em The Incredibles 2 seria supostamente aos media e ao público passivo que se deixa facilmente dominar, mas parece que as questões de igualdade de género estão tão prevalentes que ficaram com os holofotes todos. Mas também posso ser eu a ver coisas onde elas não existem e a tentar tirar grandes significados de coisas menores. Não era a primeira vez e não há-de ser a última...
A equipa original é a mesma: Brad Bird na realização, e Craig T. Nelson, Holly Hunter e Samuel L. Jackson dão as vozes. E desta vez, entre outros, até tem a voz de Isabella Rossellini, que apesar do pequeno papel secundário, é uma actriz que é um verdadeiro ícone para mim. Praticamente nada mudou, mas o filme é substancialmente pior. Continua a ter piada e nem tem propriamente nada de mal, mas a realidade é que nota-se um decréscimo qualitativo. Porque é que isto acontece? Acho que é a lógica inerente à sequela. O primeiro filme foi um sucesso, logo, e obrigatoriamente, tem de haver uma sequela. E quando as coisas "nascem" por obrigação, para além da originalidade, de certa forma perdem também um pouco da "alma". Neste caso até foi estranho, porque isso só aconteceu 14 anos depois, o que diga-se de passagem, é algo completamente anormal. Neste caso, para além das questões financeiras, acho mesmo que foi também um aproveitamento do momentum "feminista" de Hollywood proporcionado pelo movimento #MeToo e de uma certa "aceitação obrigatória" do tema por parte do público em geral. Estas são as únicas justificações lógicas que eu encontrei para que se faça uma sequela tantos anos depois. Nestes anos todos, o que é se tornou relevante? O que é que mudou? O que é que está na moda? Acho que a resposta dos estúdios foi evidente. São muitos os exemplos do girl power no cinema recente, mas pensei que isso não chegasse aos filmes de animação. Não sei se isto foi perceptível para as outras pessoas, mas eu percebi a mensagem assim. E como não acredito em coincidências... Outra coisa... Sendo que os miúdos não vão estar propriamente muito atentos a estes pormenores sociológicos, acho que isto pelo menos prova que na génese de muitos filmes de animação, há um cinema "oculto" para adultos.
The Incredibles 2 perdeu bastante em termos gerais, mas continua a ser um entretenimento razoável, na onda dos grandes blockbusters de super-heróis do momento. Mais leve, mais previsível, mais comercial, mas ainda assim algo que se vê bem. ○○○

Nos últimos anos, parece que a única forma de um adulto ver comédias em condições é assistir a filmes de desenhos animados. Ironicamente, são os filmes para miúdos, os que têm as piadas mais inteligentes.
The Incredibles foi o sexto filme a ser lançado pela Pixar, mas foi o primeiro a ter personagens humanas. Todos os anteriores eram sobre a perspectiva de animais ou de monstros. Apesar deste pormenor, a qualidade dos filmes esteve sempre intocável e este não é excepção. Não sendo totalmente original, é muito bom. E digo que não é totalmente original porque as semelhanças dos Incredibles com os Fantastic Four da Marvel são demasiado óbvias para serem ignoradas: Super-força? Elasticidade? Invisibilidade? Alguém que se transforma numa tocha humana? Super-rapidez? Não há coincidências. Até a fatiota (apesar de vermelha) faz lembrar os Fantastic Four. Mas eu não tenho nenhum problema com isso, até porque só no ano seguinte à estreia dos Incredibles é que a Marvel decidiu pegar nos seus quatro heróis e levá-los ao "cinema".
The Incredibles são uma família de super-heróis na "reforma" que vivem disfarçados a tentar viver uma vida normal nos subúrbios, depois de décadas nas primeiras capas dos jornais. Mas quando um super-vilão ameaça o mundo, eles terão de voltar a revelar os seus poderes e as suas identidades e salvar a humanidade. Mais que uma história de super-heróis, é uma história de família.
Brad Bird é um dos grandes nomes da animação moderna. Já não bastava ter feito The Iron Giant (um dos meus filmes de animação favoritos) ainda me proporciona um filme como The Incredibles. O detalhe na arquitectura, na música (do John Barry, do James Bond - On Her Majesty's Secret Service) e nas roupas dos anos 60 é apenas um dos pormenor que mais salta à vista. Craig T. Nelson, Holly Hunter e Samuel L. Jackson são as vozes principais e são perfeitos. Só mesmo grandes actores podem "estar lá" sem sequer aparecerem...
Gosto mesmo deste filme. Tem imensa piada, tem acção e tem aventura... Entretenimento no seu melhor. ●●●○

Um jovem casal faz o negócio da sua vida quando compra uma bela mansão por um preço ridiculamente baixo. Mas depois descobre que a casa afinal não está assim em tão bom estado. Ainda assim, decidem fazer umas obras de remodelação e transformá-la na casa dos seus sonhos. Obviamente, as coisas não vão correr bem.
Sendo vagamente uma comédia romântica de situação, The Money Pit é um daqueles exemplos em que uma comédia vai mais além. Para lá das gargalhadas fáceis e do slapstick é também sobre o relacionamento a dois, sobre o casamento e sobre como o amor triunfa perante a adversidade.
Richard Benjamin, sendo um gajo relativamente desconhecido do grande público é um gajo à maneira e isso nota-se como torna um filme "banal" numa obra equilibrada e muito bem ritmada. E também tem uma boa carreira como actor em filmes como Deconstructing Harry ou no mítico Westworld. Mas o foco está evidentemente virado para Tom Hanks, que na altura era o expoente máximo das comédias. Para um público mais recente, deve ser estranho ver o Tom Hanks a não fazer papéis dramáticos, mas na realidade, acho que a comédia até é o seu melhor registo. Há qualquer coisa de intrinsecamente cómico nele. Aliás, se me perguntassem qualquer era a cena cómica que imediatamente me vem à cabeça, eu teria de mencionar aquela cena da banheira e o ataque de riso do Tom Hanks. Shelley Long, mais longe do registo cómico, acaba por ser um bom equilíbrio nesta dupla e faz uma espécie de "polícia mau", que propositado ou não, faz com que o filme nunca descambe totalmente para a palhaçada excessiva. Alexander Godunov, um gajo que parecia destinado a grandes voos mas que nunca descolou, é o outro brilhante contraponto da comédia. Joe Mantegna e Philip Bosco são secundários de luxo.
Música de Beethoven, motoqueiros dos Hell's Angels, situações hilariantes e algumas boas gargalhadas... The Money Pit tem isto tudo e muito mais. Mesmo não sendo uma obra-prima do género, The Money Pit é uma das minhas comédias favoritas. ●●●○

PS: Apesar de sempre o ter considerado como original, na realidade é um remake de Mr. Blandings Builds His Dream House, um filme de 1948 com Cary Grant e Myrna Loy. Gostava de ver as diferenças, mas sendo tão antigo, acho que dificilmente vou ter oportunidade de o ver. 

Uma série de eventos leva a que o executivo Nick Halloway (Chevy Chase) fique acidentalmente invisível. Apercebendo-se do potencial para suas as investigações, David Jenkins (Sam Neill) um obstinado agente da CIA persegue-o sem tréguas. Nick recorre à ajuda de Alice Monroe (Daryl Hannah) para permanecer em fuga. Em termos gerais, é esta a história de Memoirs of an Invisible Man. Vindo de quem vem, o filme deveria chamar-se John Carpenter's Memoirs of an Invisible Man. Mas nota-se que este não é um filme do John Carpenter. É mais um filme do Chevy Chase. Está mais a tombar para o romance cómico do que para a ficção científica. O guião pega na temática do homem invisível mas leva o filme noutra direcção completamente diferente.
Se tivesse que escolher uma palavra para classificar este filme acho que seria... difuso. Tal como as moléculas do Nick Halloway, tudo no filme parece desagregado e fora do sítio. O Carpenter a fazer uma espécie de comédia. O Chase a fazer uma espécie de ficção científica. No geral, nem parece uma coisa nem outra. Faz-me lembrar aqueles filmes que são para adultos mas têm demasiada fantasia ou aqueles outros que são para crianças mas são demasiado assustadores e depois não agradam ao público dos miúdos nem dos graúdos. Este Memoirs of an Invisible Man sofre do mesmo mal. Demasiadas cabeças a pensar (e a mandar) normalmente causam tantos danos como muito poucas. Até eu já começo a ficar meio confuso com isto... Adiante.
Chevy Chase, um gajo que nunca foi propriamente do meu agrado, e que normalmente está associado à comédia de palhaçada, aparece aqui mais comedido e mais sério. A Daryl Hannah estava no apogeu de tudo, e portanto não preciso de dizer mais nada. E o Sam Neil é um daqueles gajos que dispensa apresentações e que simplesmente nunca está mal.
Memoirs of an Invisible Man não é um clássico, mas é um filme que me ficou na memória. Em 1992 não havia assim tantos filmes de efeitos especiais aceitáveis e os que havia eram sempre bem-vindos. Mas apesar do pessoal dos efeitos se ter esmerado, já na altura, Memoirs of an Invisible Man pareceu algo fora de tempo, como se tivesse sido feito uns anos antes. Gosto sempre de rever o Memoirs of an Invisible Man, mas é apenas por puro saudosismo. ○○○

O piloto Hal Jordan é um desordeiro natural e vai contra todas as ordens, como é normal na caracterização dos anti-heróis. Tal como acontece nos filmes de super-heróis, Hal faz um achado que o leva a ter super-poderes, neste caso um anel verde. Podiam ter sido raios gama, uma aranha atómica ou outra coisa qualquer. Não interessa. O que interessa é que o herói, tal como todos os guiões de filmes de super-heróis, segue o mesmo padrão até ao final: herói ganha poderes; herói aprende a dominar poderes; o mau aparece mas já com poderes dominados; o herói não quer os poderes: o mau magoa os amigos do herói: o herói finalmente usa os poderes para matar o mau. O agora super-herói fica com a rapariga. Depois do filme acabar, o mau mexe um músculo do dedo mindinho para mostrar que o super-herói vai regressar para a sequela. Bem, na realidade, esta parte do dedo mindinho não está no filme. Sou só eu a dramatizar, mas costuma ser prática comum. 
Ryan Reynolds faz de Green Lantern e é obrigado a humilhar-se com aquela máscara ridícula. Não sei se foi por causa da máscara, mas Reynolds publicamente detestou e criticou o filme e isso nota-se. Nos dois Deadpool em que participou já são célebres as piadas auto-infligidas. Em termos dos outros actores, é um grande casting de bons nomes (Blake Lively, Peter Sarsgaard, Mark Strong, Tim Robbins entre outros), mas como sempre acontece neste tipo de filmes, estão todos em serviços mínimos. O actor principal é a acção, os secundários são os efeitos especiais.
Na cadeira do realizador esteve Martin Campbell, um gajo que até admiro por ter feito, por exemplo, o Casino Royale (talvez um dos melhores James Bond...) Mas o que dizer aqui? Não sei responder. Não estava à vontade no género de filme de super-heróis? Terá sido o tal problema on set com o Ryan Reynolds? Interferência do estúdio no cut final? Faltou-lhe a inspiração? É uma dúvida que vai permanecer...
Green Lantern é igual a tudo o resto no mundo dos filmes de super-heróis. A história e o desfecho são iguais aos outros. Tudo é igual e previsível. É absolutamente maçador. ●○○○○

Não vale a pena estar aqui a partir muito a cabeça para escrever algo de positivo sobre este Green Hornet. Até porque não há. Já começa a ser a norma nos filmes de acção e comédia. A única coisa positiva que me vem à cabeça é que lembra vagamente a série televisiva dos anos 60 e nela entrava ao Bruce Lee. Tirando isso... acho que não há mais nada. Ok. O carro também é catita...
Michel Gondry, um realizador de telediscos, e que em tempos passados fez um trabalho soberbo em Eternal Sunshine of the Spotless Mind e outros, está na lista de créditos como realizador, mas não vejo como é que isso é possível.
Seth Rogen está lá, apesar de ser um gajo que não entendo como é que tem papéis principais, Jay Chou está lá para lembrar o Bruce LeeCameron Diaz faz o papel feminino e Tom Wilkinson faz um papel masculino. Christoph Waltz é o "mau" de serviço e com este filme quase derrubou uma carreira sólida nos filmes dramáticos. Green Hornet é mais um filme de acção, porrada em time-lapse, explosões e perseguições de carros. Um óptimo filme para ver em quarentena, a acompanhar umas pipocas caseiras, mas só a partir do momento em que já não houver mais nada para ver... ○○○

Estou a fazer um exercício de memória e a tentar lembrar-me de filmes bons para confinamento obrigatório. Não sei explicar porquê, mas veio-me à cabeça este: The Second Best Exotic Marigold Hotel. É um daqueles filmes que tem uma sensação de conforto igual a um bom cobertor polar. É um filme óptimo para se desfrutar no sofá com uma chávena de chá de menta a fumegar...
Espera... Estou a ter um fortíssimo sentimento de déjà vu... Não. É uma sequela...
The Second Best Exotic Marigold Hotel é sobre o grupo de velhotes ingleses que ficaram para trás, fizeram a viagem espiritual e agora vivem no hotel do primeiro filme. John Madden volta a dirigir o anterior elenco de luxo: Judi Dench, Bill Nighy, Maggie Smith e David Strathairn. Os produtores tentaram contratar um nome de peso para esta sequela, mas após o sucesso estrondoso de Eat Pray Love, Julia Roberts decidiu fazer toda a viagem espiritual a pé e portanto ainda não estava disponível. Tiveram de se contentar com Richard Gere. O papel do vilão (re)caiu novamente em Dev Patel. Estava a brincar. Dev Patel é um gajo tão agradável e dança tão bem que nunca poderia fazer de vilão. Aliás, ele merece ter um segundo hotel...
The Second Best Exotic Marigold Hotel oferece todos os condimentos do primeiro e ainda tem o bónus Richard Gere. Devido ao sucesso do primeiro filme, suspeito que este filme foi feito pela Associação da Hotelaria e Turismo da Índia... ●○○○○

Estou a fazer um exercício de memória e a tentar lembrar-me de filmes bons para confinamento obrigatório. Não sei explicar porquê, mas veio-me à cabeça este: The Best Exotic Marigold Hotel. É um daqueles filmes que tem uma sensação de conforto igual a um bom cobertor polar. É um filme óptimo para se desfrutar no sofá com uma chávena de chá de menta a fumegar...
The Best Exotic Marigold Hotel é sobre um grupo de velhotes ingleses que para se esquecerem ou superarem dos seus problemas mundanos, vão de férias para a Índia (ou vão-se reformar-se?!? Já não me lembro bem...) Logo após a chegada, a comitiva começa a questionar a qualidade do resort onde ficarão alojados, o que resulta em cenas britanicamente divertidas. No entanto, e como é um sintoma comum a todas as pessoas que visitam a Índia, lentamente, os protagonistas largam as vicissitudes da vida quotidiana e começam uma viagem de amor e auto-descoberta.
John Madden dirige um elenco de luxo que inclui nomes conceituados como Judi Dench, Tom Wilkinson, Bill Nighy e Maggie Smith, que estão tão à vontade que parece que estão de férias. O papel do vilão cai que nem uma luva a Dev Patel. Estava a brincar. Patel é o empregado/dono do hotel foleiro que, por qualquer motivo sobrenatural, faz com que as pessoas embarquem numa viagem espiritual.
Amor em idades avançadas, frases feitas tiradas de posters auto-motivacionais espalhados pela net, todos os clichés do mundo do cinema, um bocadinho de drama para não ser tão cor-de-rosa e a celebração da vida e das cores. É por isto que Love Actually é um filme super-fofo e comovente que no final, deixa uma sensação de bem-estar e conforto. Perdão... É por isto que The Best Exotic Marigold Hotel é um filme super-fofo e comovente que no final, deixa uma sensação de bem-estar e conforto. Suspeito que este filme foi feito pela British Airways para entreter o pessoal até chegar à Índia... ●○○○○

Após o imenso sucesso comercial que foram os Ghostbusters era obrigatório uma sequela. E ela chegou 5 anos depois, o que seria impensável hoje em dia. O mundo cinematográfico mudou imenso...
Nesta nova aventura, com o passar dos anos, os Ghostbusters perderam a credibilidade e vivem dispersos, tendo outras profissionais diferentes dos famosos caçadores de fantasmas. Mas quando Dana e o seu bebé têm um novo encontro com o paranormal, os Ghostbusters são novamente chamados para salvar o mundo.
Como dá logo pode perceber, Ghostbusters 2 é um pouco mais fraco que o original, mas ainda assim aguenta-se bastante bem. Apesar de estar tudo bem feito, não deixa de ser demasiado "colado" em termos de estrutura ao sucesso que foi o primeiro filme. Mais uma prova evidente que mais meios, mais dinheiro na produção e melhores efeitos especiais não fazem necessariamente um filme melhor. Vi uma entrevista em que Bill Murray se queixava precisamente disso.
Aos Ghostbusters originais (Bill Murray, Dan Aykroyd, Harold Ramis, Ernie Hudson, Rick Moranis, Annie Potts, Sigourney Weaver) junta-se agora Peter MacNicol, que não lhes fica em nada atrás, como o capataz de Vigo. Já agora, referência também para Max von Sydow que dá a voz ao vilão da história. Uma curiosidade: tal como aconteceu noutras situações, a personagem (Vigo) foi interpretada por um actor (Wilhelm von Homburg), mas sem saber foi dobrado por outro. Como é óbvio, o actor original detestou a opção. Acontece.
Apesar de ser só um pormenor, acaba por resumir um pouco este Ghostbusters 2. Estão lá todos os elementos originais, actores incluídos, mas de alguma forma, no geral não funciona tão bem, quase como se fosse uma música com playback. Será porque perde a originalidade? Será porque a espontaneidade já não está presente? Será porque os efeitos especiais "tomam conta" do filme? Será por ser muito mais "polido" e "infantil"? Será porque o público já não é o mesmo? Não sei responder. O que sei é que enquanto o original Ghostbusters é uma referência a tantos níveis, esta sequela é apenas um filme... que se vê bem... ○○○


Quando o filme é Ghostbusters, eu poderia estar aqui uma tarde inteira a escrever. Tem tantos pormenores e tanta coisa boa para se falar que dava uma enciclopédia. A música original de Ray Parker Jr.; os excelentes efeitos especiais (para a altura), numa lógica de verdadeira magia do cinema; as figuras icónicas em que se transformaram os próprios Ghostbusters; o Stay-Puft Marshmallow Man gigante e o Slime verde; a carrinha branca e aquele som único da sirene. Poderia falar de todos estes pormenores, mas acho que nem vale a pena. São tão icónicos e imediatamente reconhecidos que seria redundante. Tudo isto já faz parte da cultura geral.
Acho simplesmente que é a mistura tão bem construída de comédia e terror (para 1984; hoje seria considerado mais fantasia do que terror), que o torna num filme perfeito. Parabéns ao Ivan Reitman por ter dado vida a estas personagens e por feito um filme que é uma referência para mim. E não só. Acho que é um filme intemporal. Nunca está desactualizado e nu sai de moda.
Foi muito provavelmente o primeiro filme que vi num cinema. Para um miúdo, foi uma experiência avassaladora, num misto de medo e diversão, tudo ao mesmo tempo. Foi espectacular. Perdi a noção da quantidade de vezes que vi os Ghostbusters, mas já foram muitas. Ainda há pouco tempo estava a dar na TV e não consegui resistir. Tive de o ver outra vez.
Bill Murray, Dan Aykroyd, Harold Ramis e Ernie Hudson serão os Ghostbusters para sempre. Apesar da fatia maior de mérito ser obviamente do Dan Aykroyd e do Harold Ramis (por causa do guião), é obviamente o Bill Murray que rouba todo o protagonismo. É um dos gajos mais naturalmente cómicos que algum vez vi. Um dos meus gajos favoritos de sempre. Sigourney Weaver, Rick Moranis, Annie Potts e William Atherton fazem a melhor conjugação secundária que me lembro. Todos têm deixas memoráveis e inesquecíveis. O que é incrível, se se pensar que a maior parte do guião original não foi respeitado. Grande parte dos diálogos foram improvisados, o que é incrível.
Para mim, Ghostbusters é o protótipo do derradeiro filme de família. Perfeito. Fantástico. Surpreendente. Cómico. Melhor é impossível. ●●●●●

Por vezes é bom ver qualquer coisa sem queimar muito os neurónios e simplesmente passar um bom momento. Foi por isso que se inventaram as comédias, não é verdade?
O professor Julius Kelp é um génio da química, mas no que diz respeito a relacionamentos sociais é um verdadeiro desastre. é introvertido, desastrado e entra em parafuso quando tem que lidar com outros seres humanos... Decidido a mudar esta situação, Kelp recorre à ciência e inventa uma poção que o altera radicalmente. Tal como na história de Dr. Jekyll e Mr. Hyde, depois de tomar a fórmula mágica, Julius Kelp transforma-se em Buddy Love, um machão irritante cheio de auto-confiança. Claro que, sendo The Nutty Professor uma comédia, as transformações vão sempre ocorrer na pior e mais inoportuna altura.
Realizado e duplamente interpretado por Jerry Lewis, The Nutty Professor é o protótipo das comédias dos anos 60: leves, inteligentes e originais. Acima de tudo, originais. Apesar de não ser grande adepto das comédias, são grande fã do Jerry Lewis. Cresci a ver os filmes dele e continua a ser o meu standard para avaliar todas as comédias. Tenho um especial apreço pelo Jim Carey precisamente porque me lembra sempre o Jerry Lewis. Com as devidas diferenças, é como se fosse uma nova versão moderna do velho mestre.
Em termos de actores, para além do Jerry Lewis, também há Stella Stevens e Del Moore, mas o meu destaque vai para Kathleen Freeman, umas daquelas actrizes que tem décadas e décadas de trabalho como secundário. Acho que é sempre bom mencionar os actores de suporte porque muitas vezes são eles que seguram o filme para além do casting principal.
The Nutty Professor pode ser considerado uma paródia, uma comédia, um romance e, esticando muito o género, um filme de ficção científica. Bem, se calhar estou a exagerar um pouco... Mas seja como for, mesmo estando bastante marcado pelo tempo, acima de tudo, é um filme com o Jerry Lewis, um gajo que será sempre totalmente à maneira. Isso para mim basta. ●●○
PS: Há uns anos saiu um remake com o Eddie Murphy.
PS2: Este pedido peculiar do trailer, para não se revelar o meio do filme é uma brincadeira com o trailer de Psico, de Alfred Hitchcock que na altura pedia para se ver o filme apenas do início. Quem chegasse mais tarde à sala de cinema não poderia entrar...

Como estamos numa altura de recolhimento forçado em que o ideal é estar em casa, convém ver uns filmitos. E, como é fim de semana, nada melhor que uma comédia romântica para adormecer... perdão para ver. Como em tudo na vida, há o bom e o mau. Este What Happens in Vegas até nem é muito mau. Dá para rir um bocadito e tem sempre um tom agradável mas com alguma substância... dentro do possível. What Happens in Vegas é (mais) uma comédia romântica de situação, mas que até alguns bons momentos cómicos.
Depois de uma noite pesada de copos em Las Vegas, um homem e uma mulher descobrem ao acordar que estão casados e ainda por cima ganharam um prémio enorme no jackpot. O problema é que não se suportam enquanto estão sóbrios. O problema torna-se ainda maior quando são obrigados a viver como um verdadeiro casal para poderem reclamar o prémio...
Cameron Diaz e Ashton Kutcher têm uma química estranhamente negativa que é perfeita para os papéis. Depois também há Rob Corddry, Treat Williams e Dennis Farina, um actor que conheço há anos dos filmes policiais, gangsters e mafiosos, mas que encaixa perfeitamente bem na comédia. What Happens in Vegas (de Tom Vaughan) vê-se bem e não chateia. ○○○

E agora, algo completamente diferente... Maria, uma call girl, é contratada por Mouros para seduzir Meireles, o presidente da Câmara de Vilanova, para que ele quebre as regras e autorize a construção de um empreendimento de luxo. Uma temática muito portuguesa, portanto. Como sempre, a PJ investiga. As coisas complicam-se ainda mais quando o inspector responsável pela combate à corrupção descobre que Maria é uma antiga namorada.
Indo directo ao assunto, Call Girl é um filme bastante aceitável. Foi muito bem realizado por António-Pedro Vasconcelos, um dos poucos realizadores portugueses que faz filmes "comerciais" sem que se pareçam com telenovelas quitadas. Um dos grandes pontos positivos do filme é a história de corrupção que está muito bem construída. E nem seria preciso puxar muito pelos neurónios. É uma história tão presente no imaginário e no quotidiano português que poderia muito bem ser o tema principal do Telejornal.
O outro ponto muito positivo é o leque de actores, que é provavelmente o melhor casting luso que vi reunido nos últimos tempos. Impecável. Destaque para a Soraia Chaves, que para além de preencher o imaginário de qualquer "macho latino", também é uma excelente actriz. Nicolau Breyner é excelente, Joaquim de Almeida dispensa elogios porque nitidamente é de outro nível totalmente à parte. Destaque também para e uma pequena participação de Virgílio Castelo que foi absolutamente hilariante. Joaquim Leitão e Raul Solnado também aparecem. Maria João Abreu e Custódia Gallego nos papéis da mulher e da amante são muito boas. Ivo Canelas e o José Raposo também estão ao melhor nível.
Call Girl é do melhor que tenho visto nas produções nacionais. Um autêntico textbook de como fazer um bom filme sem entrar em cenas pseudo-intelectuais do costume e que apenas têm o condão de afastar os espectadores do cinema português. Só peca por perder-se um pouco no final e tirar a Soraia Chaves do filme de uma forma algo inglória, mas mesmo assim consegue terminar relativamente bem. Há limitações óbvias que são nitidamente falta de orçamento, mas estão bem dissimuladas e são bem compensadas. No geral, Call Girl é um filme português bem jeitoso. Vê-se muito bem.
Ele: O que é que você faz? Tudo, responde ela. Muito bom. ○○○

Não é fácil escrever sobre um filme do Quentin Tarantino. Fazer bons filmes não é tarefa para todos. Estar para aqui a criticar o trabalho de um mestre do cinema é um trabalho que também tem as suas dificuldades. Especialmente se for para criticar negativamente. E há muitos pontos negativos neste Once Upon a Time... in Hollywood. No final, deixou-me um pequeno amargo de boca. Pronto. Vou ser sincero. No final, deixou-me um grande amargo de boca.
A parte boa de Once Upon a Time... in Hollywood é que é um filme realizado por Tarantino. Tem aquela fluidez típica, com uma montagem muito rápida mas que ao mesmo tempo dá espaço para as personagens poderem desenvolver-se e respirar. Tem tudo o que é típico de Tarantino, mas (e é um grande mas) tudo parece diluído. Como se o efeito Tarantino se estivesse a dissipar. Depois, vem tudo o que não está bem... e é muita coisa. Logo à partida não entendi a aproximação estranha sobre uma história alternativa mas baseada em personagens e factos verdadeiros. Muito antes de ver o filme já tinha lido bastantes coisas e tudo incidia sobre os acontecimentos em volta da Sharon Tate e do Charles Manson e do seu tresloucado bando de psicopata. Foi só uma questão marketing a funcionar? Não sei. O que sei é que o filme apenas vagamente está relacionado com os assuntos. Parece-me até que... Bem, nem sei muito bem o que pensar. A história está tão confusa e desequilibrada, que parece que foi desenvolvida no sentido do actor de westerns que vai perdendo protagonismo na "nova Hollywood" (Leonardo DiCaprio) e que foi sendo montada para encaixar a história da Sharon Tate no final. Que grande confusão. Se Tarantino sempre se deu com histórias complexas e com muitas personagens interligadas, neste caso falhou redondamente. Basta ver a discrepância entre o tempo de filme dedicado ao western e à carreira do Rick Dalton e do seu duplo Cliff Booth, e os acontecimentos em Cielo Drive que são de facto o motor do filme.
Outra coisa que sempre diferenciou os filmes de Tarantino é a intensidade dos diálogos. Aqueles gigantescos e míticos monólogos que funcionam quase como grandes solos de guitarra eléctrica... desapareceram. Os poucos que ainda apareceram são enfadonhos e simplesmente... longos monólogos. Poderia estar aqui toda a tarde a apontar defeitos ao Once Upon a Time... in Hollywood. O que não é nada normal, porque em todos os anteriores filmes do Tarantino, a minha dificuldade sempre foi tentar arranjar novos e bons adjectivos. É que nem o Brad Pitt se safa com aquele ar meio ganzado, meio hiper-sapiente de quem esteve 6 horas a conversar com o "The Dude"... Margot Robbie, por exemplo, quase não aparece e a personagem é a peça fundamental da fábula. Qual é grande deixa ou a relevância das personagens de Kurt RussellDamian Lewis, Timothy Olyphant ou Al Pacino? Continuo sem perceber o que se passou aqui.
Tarantino criou na sua filmografia, uma mitologia muito própria, e por causa disso dou-lhe todo o mérito do mundo. É um dos gajos que mais aprecio como realizador. Mas agora parece ter ficado preso na sua própria mitologia. Para mim não é coincidência que o filme se chama Once Upon a Time... in Hollywood; é  uma referência directa ao Once Upon a Time... in America, que vem de um dos melhores realizadores de westerns de sempre, Sergio Leone. Não sei. Estou a conjecturar. Pode ser ou não. Mas o que é realidade é que Tarantino parece ter ficado preso na temática dos westerns e isso está a consumi-lo. Não é coincidência. Os últimos três filmes foram... nazis e westerns. Que filmes é que Rick Dalton faz? Filmes com nazis e... westerns.
Pouco depois da estreia de Once Upon a Time... in Hollywood, vi uma entrevista em que ele explica a sua maneira peculiar (que eu já desconfiava) de construir os filmes. Sendo um aficionado dos discos de vinil (tem milhares), ele senta-se, ouve as músicas e a partir daí o filme vai-lhe "nascendo" na cabeça, sem ter uma história previamente delineada. Faz todo o sentido porque uma das grandes marcas de Tarantino sempre foram as portentosas bandas sonoras que, por si só, são excelentes. Parece-me que ultimamente tem variado muito pouco nos vinis. E eu pergunto: qual é o impacto da banda sonora de Once Upon a Time... in Hollywood? Há alguma daquelas músicas à Tarantino? Alguém se lembra de alguma música em particular? Pois eu não...
Não adianta estar com meias medidas. Se este fosse um filme de um gajo qualquer que estivesse a agora a estrear-se na cadeira de realizador, eu diria: tem bons pormenores e este gajo promete. Vou ficar de olho nele. No entanto, este um filme do Quentin Tarantino. Já vem com uma carga subjacente muito pesada e uma pessoa apenas espera o melhor do melhor. Mesmo sendo muito melhor que grande parte dos filmes que normalmente vejo, Once Upon a Time... in Hollywood (mesmo com todos os seus méritos, que obviamente tem) é provavelmente o pior Tarantino que já vi. Uma decepção inesperada. ●●●○

Vi o Parasitas (Gisaengchung, no impronunciável título original) antes de ter vencido uma porrada de Óscares e tinha-o aqui de parte para poder escrever um pouco mais quando tivesse mais tempo livre porque é um filme que justifica. É uma excelente e complexa crítica social. Mas também é uma comédia e um drama. E um thriller também. Parasitas está numa classe totalmente à parte dos filmes que um gajo normalmente vê. Se me perguntassem como é que o classificava ou com o que é parecido... Teria que fazer uma pausa ainda longa e só poderia dizer que é uma estranha mistura asiática resultante da combinação de um "Tarantino" com um "irmãos Coen". Ou seja, tudo está bem até que tudo corre horrivelmente mal.
Parasitas conta a história dos Kims, uma família sul-coreana pobre que vive numa sub-cave e sobrevive fazendo pequenos trabalhos como dobrar caixas de pizza. Mas um acaso do destino acaba por levar a que filho mais novo se relacione com uma família muito rica, entrando pela porta dos fundos como empregado. Primeiro, o filho pobre começa a dar explicações à filha rica, mas depois, tal como um parasita infecta e se multiplica no corpo do seu hospedeiro, toda a restante família começa a entrar sorrateiramente na rotina da casa, sempre com recurso a estratagemas mais ou menos complexos. Curiosamente, a certo ponto, começa a fazê-lo à custa da empregada residente (também ela pobre) que trata de todas as lides da casa. Aliás, a "família" da empregada é tão pobre que ela tem o marido... bem, não vou prosseguir para não estragar a surpresa. Até porque este é um dos grandes pontos fortes da história e de todo o filme, que são as constantes mudanças bruscas na narrativa e os inesperados twists.
O tom de Parasitas é constantemente crítico mas também é nitidamente satírico. E de certa forma é justo na aproximação e não entre nos estereótipos do costume. Nem os pobres são uns coitadinhos, oprimidos ou inocentes, nem os ricos são o diabo com o coração empedernido. De certa forma, Bong Joon Ho atira para os dois lados e não deixa ninguém incólume. Acho que esse é o grande trunfo de toda a narrativa e a mensagem subjacente: seja rico ou seja pobre, um gajo vai fazer tudo ao seu alcance para ter uma vida melhor. Inevitavelmente isso acabará por atropelar outras pessoas, sejam ricas ou pobres. E é aqui que se faz a separação com base na empatia: os "bons" percebem que a determinada altura vão ter de parar; os "maus", nem por isso.
Os actores, sem excepção, são soberbos (Kang-ho Song [sinceramente, o único que conheço], Sun-kyun Lee, Yeo-jeong Jo, Woo-sik Choi, So-dam Park, Jeong-eun Lee) como é costume nos castings asiáticos, mas também são ajudados pelas personagens memoráveis.
Apesar de todos os prémios que arrecadou nunca diria que Parasitas é o melhor filme de Bong Joon Ho que já vi. Gostei tanto deste como gostei do Okja ou do The Host. Acho que simplesmente, Parasitas arrecadou prémios e impactou tanto a opinião pública porque teve o condão de tocar num ponto muito actual (o das desigualdades sociais e económicas), na altura certa. Já para não falar na questão muito criticada da (pouca) multiculturalidade na atribuição dos próprios Óscares.
Seja como for, Bong Joon Ho continua sempre em crescendo e continua a surpreender-me sempre pela positiva. Grande realização e também excelente música e fotografia. Tem momentos absolutamente geniais como por exemplo aquela cena da enxurrada no final. Brilhante. Apesar de todos os prémios que arrecadou, tenho que dizer que não foi o melhor filme que vi no ano passado. Houve um filme ainda melhor, mas isso fica para outra altura... Mas pela diferença, pela surpresa constante e por ser um filme feito de forma muito inteligente, acho muito bem que Parasitas tenha ganho o Óscar para melhor filme. ●●●●○

Apesar de ter a noção que o filme era muito conceituado, nunca tinha visto o Breakfast at Tiffany's por inteiro. Apenas tinha visto umas partes aqui e outras ali. E as partes que vi não me suscitaram grande interesse. Tal como me acontece com outros filmes, e por nenhuma explicação lógica, nunca me puxou para vê-lo. Feelings... No entanto, numa reposição recente na TV decidi vê-lo e perceber se o meu feeling estava correcto. E tenho de dizer que estava totalmente errado. Breakfast at Tiffany's é muito bom. É, de facto, um dos grandes clássicos. Holly Golightly é uma personagem muito à frente do seu tempo. Já vi alguns filmes da mesma altura e a figura de Audrey Hepburn destaca-se mesmo pela diferença. As voluptuosas protagonistas daquela altura não têm nada a ver com a figura esguia e felina de Hepburn. George Peppard é um verdadeiro galã. Um figurão físico, clássico, mas também um figurão no que diz respeito ao actor. Juntos fazem uma combinação que é totalmente moderna. E perfeita. Os "secundários" como Martin Balsam e Patricia Neal são perfeitos. Para ser absolutamente perfeito, só faltava aqui a presença de Peter Sellers. Eu vejo-o perfeitamente a fazer o papel interpretado por Mickey Rooney, até porque é, infelizmente, o único ponto negativo de todo o filme. Não propriamente pela actuação de Rooney, mas porque que a personagem é demasiado estereotipada, goofy e em certa parte parece fugiu daqueles antigos cartoons da Warner Brothers para aqui. Só um actor absolutamente genial poderia salvar aquela personagem. Daí o "meu" Peter Sellers, o gajo mais naturalmente cómico que já pisou este planeta.
A narrativa de Breakfast at Tiffany's é elaborada e desenrola-se num ritmo do tipo avanço rápido,pausa; avanço rápido,pausa, dando a conhecer a cada novo acto, um dado novo que baralha totalmente a história anterior e acrescenta camadas de complexidade à figura de Lula Mae / Holly Golightly. A viagem emocional da personagem vai oscilando entre o drama e a comédia, mas nunca se fixa em nenhuma temática. A mestria de Blake Edwards é evidente. Não só pela forma como dirige os actores, mas também como imprime um ritmo imparável ao filme, tipo montanha-russa que vai do drama chuvoso ao romance meloso em 4 segundos.
E depois há toda uma história cheia de pormenores que brilham como diamantes na montra da Tiffany's como por exemplo um gato que se chama... Gato e um brasileiro abastado chamado José da Silva Pereira, entre muitos outros. Basear filmes em obras de autores de calibre como Truman Capote tem as suas vantagens. Ideias e bons pormenores nunca faltam.
Destaque óbvio também para a música original "Moon River", um ícone sonoro reconhecido mundialmente que ficou para a posteridade. Henry Mancini compôs a música especificamente para Audrey Hepburn. Henry Mancini, Blake Edwards (e pensei eu: Peter Sellers)??? Pink Panther? Será? Muito provavelmente começou aqui qualquer coisa...
Normalmente não é um item que as pessoas destaquem num filme, mas para mim, a fotografia é algo muito importante. Aquelas cores Eastman Kodak, o Tecnhicolor e essas tecnicidades todas que dão origem àquelas cores tão características dos filmes dos anos 60... Para mim, essas são as cores do cinema. Aqueles vermelhos profundos e os azuis vibrantes. O grão da película; aqueles crepúsculos e os amanheceres como o do início do filme... para mim, essas são as texturas e as verdadeiras cores do cinema. E já agora, que se está a falar da imagem, mais uma pequena coisinha... Aquele poster do Robert McGinnis merecia um prémio. É o design gráfico no seu melhor. Não há muito a dizer. Até as coisas que orbitam o filme são muito boas. Breakfast at Tiffany's é irrepreensível. Define muito bem o que é um verdadeiro clássico. Altamente recomendado. Obrigatório. ●●●●●

David Cronenberg é neste momento um homem desencantado com Hollywood. Bem, se não é, não percebi bem o filme. Sexo, incesto, morte, traição, drogas e conversas de merda são o dia-a-dia de Hollywood atrás das câmaras. É isso que se deve depreender após visionar Maps to the Stars.
Isto até é o melhor do filme: a história e o guião. Muito bem construído e estruturado em volta de uma série de peculiares personagens que vão do actor adolescente em reabilitação por uso de drogas, da actriz que tendo mais que 40 anos já não tem espaço de representação por ser "demasiado velha", passando pelo "terapeuta" alternativo das celebridades. Todos imprevisíveis, mentalmente instáveis, misturados e ligados por uma história central. Basicamente, a espinha dorsal da anormal "normalidade" de Hollywood...
Os actores são a outra coisa boa e são eles que essencialmente seguram os filme durante os 100 minutos. O miúdo (Evan Bird) parecia desfasado da história, mas depois apercebi-me que era muito bom e, teoricamente, terá um futuro promissor. No geral, (Robert PattinsonMia Wasikowska e John Cusack) são todos muito bons, mas o destaque tem que ser dado à Julianne Moore porque é uma excelente actriz que dá sempre tudo o que tem. É por isso mesmo que Moore é uma das minha actrizes favoritas de sempre. Pequeno destaque para Carrie Fisher que aparece brevemente como ela própria.
No cômputo geral, Maps to the Stars nunca descola totalmente porque parece um telefilme, mais que um filme de cinema. Apesar da violência e da nudez, parece que Cronenberg nunca quis "magoar" ninguém. Este (já) não é o Cronenberg que conheço. Foi tudo demasiado polido para o meu gosto e para o que esperava. O final é poético mas não é apoteótico. Lá está, o filme nunca descola. Mantém um ritmo constante sem nunca ter picos de nada. Se Maps to the Stars estivesse ligado àquelas máquinas de suporte de vida, a única coisa que se ouviria é um som constante sem altos nem baixos: basicamente é um filme em "ponto morto". Seja como for, é sempre bom ver o outro lado de Hollywood nem que seja só para espreitar por detrás da cortina. Especialmente porque vem de uma pessoa que conhece bem o meio e que de certeza conhece ainda melhor os podres. ○○

Num futuro próximo, as pessoas podem melhorar os seus corpos recorrendo a órgãos comprados. Um coração, um rim, uns olhos novos ou um fígado podem ser facilmente trocados por uns artificias... desde que se pague. Como a maioria das pessoas não tem dinheiro para as operações, fica eternamente endividado. No caso de dívidas em atraso, as pessoas são perseguidas pelos Repo Men e é lhes retirado, no momento, a sangue frio, os "produtos" da empresa. Obviamente as pessoas morrem ali mesmo, mas isso é irrelevante. É um mundo cão e é uma distopia valente.
A história é boa e o guião até tem algum valor, particularmente devido ao twist final, mas o filme no seu todo, acaba por ter pouca alma. Apesar da premissa ser muito boa, a aproximação poderia, e deveria, ter ido mais longe e mais profundamente. A lógica mega corporativista, as dívidas eternas, o custo de uma vida, já para não falar no facto de um avanço científico bastante significativo, apesar de positivo, ter efeitos perversamente negativos. Havia aqui temas bastante fortes que poderiam ter sido tratados doutra forma, e que me parece terem sido completamente negligenciados em detrimento da acção e do espectáculo. Mas tudo bem. Eu compreendo. Nem todos os filmes têm de ser profundos nem feitos para queimar neurónios... Eu nem consigo imaginar o que, por exemplo, um David Cronenberg teria feito com esta história e com estes elementos. Quer dizer... acho que até consigo.
Jude Law, Forest Whitaker, Alice Braga e Liev Schreiber dão um bom suporte no campo do representação, mas tal como o resto do filme, tudo é levado muito superficialmente. Miguel Sapochnik tem alguns bons momentos na cadeira do realizador mas não deslumbra. E, diga-se, por vezes exagera no gore. Sapochnik que era até este momento um realizador relativamente desconhecido saltou pouco depois para a ribalta quando começou a fazer a já mítica série Game of Thrones.
Repo Men é um filme de acção distópico, levezinho (tirando a parte das sanguinolências exageradas), que tem o seu melhor ponto na premissa. Por isso mesmo vê-se bem e não chateia. ○○○

E agora para algo diferente... Um filmito de acção de outros tempos, com a magia do cinema pelo meio. Depois de décadas como o grande herói de acção da sua geração (e se calhar de sempre), Arnold Schwarzenegger decide lentamente começar a reinventar-se. Os músculos já não estavam no auge (que é como quem diz, não vendia bilhetes), a idade começava a pesar e o público já não era o mesmo. E de uma forma muito inteligente, Schwarzenegger começa a passar do género da acção para outro registo mais leve e consensual, a comédia. De um ponto de vista de carreira, foi um passo muito bem dado e muito bem pensado. Primeiro saltaria para comédia, e um dia quem sabe, quando fosse mais velho e já não pudesse andar aos saltos e aos tiros, poderia enveredar por uma carreira mais dramática. Como se pode comprovar, nunca foi levado assim tão a sério que pudesse saltar para os dramas, mas durante algum tempo Schwarzenegger até deu cartas na comédia. Estranhamente, até é um registo que não lhe fica nada mal. Mas antes disso tudo, decidiu unir as duas coisas, a acção e comédia. Last Action Hero é o exemplo perfeito desta junção. Logo à partida é uma sátira aos próprios filmes à "Schwarzenegger" e são inúmeras as piadas com base na sua figura e até do seu "arqui-inimigo" Silvester Stallone.
Last Action Hero é um bom filmito de acção e comédia, e ainda tem um pozinhos de fantasia à mistura, personificado naquele bilhete mágico que faz desaparecer a fronteira entre a realidade e a ficção. É realizado por um dos mestres do cinema de acção da altura, John McTiernan e isso nota-se perfeitamente no equilíbrio da história e na forma como oscila entre a "realidade real" e o mundo fantasioso e estereotipado do cinema. Também ajuda ter actores como F. Murray Abraham, Tom Noonan e Charles Dance nos papéis mais relevantes para lhe dar alguma estrutura. Aliás, apesar de ser "apenas" um filmito de acção, é um filmito com nomes como Anthony Quinn, Robert Prosky, Frank McRae, Jim Belushi e Ian McKellen. Acho que mesmo hoje em dia, num candidato ao Óscar de melhor Filme não se conseguiria encontrar tantos e bons actores como neste "simples" filme de acção. Mas também são muitos os cameos de famosos. É só estar atento, porque aparece por lá muita gente conhecida, nem que seja por breves instantes... Outros tempos... No casting, talvez o que tenha estragado mais o filme sejam as presenças de Austin O'Brien e Bridgette Wilson, que foram nitidamente um erro enorme. Passados tantos anos, e não sei explicar muito bem porquê, mas o miúdo continua a ser irritante.
Last Action Hero foi um flop na altura, porque aparentemente ainda havia muito público para filmes à "Schwarzenegger" e parece que não estavam preparados para que os seus heróis de acção preferidos desaparecessem. Mas acho que ninguém percebeu mesmo é que era uma sátira aos próprios filmes de acção... O que diz muito da crítica e do público de cinema da altura... Curiosamente, e quase de uma forma quase premonitória, este foi um dos últimos filmes do género com alguma substância digna de relevo. Olhando para trás e visto "daqui", parece que Last Action Hero marcou mesmo o final deste tipo de filmes de acção, tiros e músculos. Mas também já era tempo de mudar. ●○○

Num futuro não muito distante, a Humanidade vê-se confrontada com a extinção iminente. Apenas sobrevive em subterrâneos para escapar a um vírus mortal que assola a superfície e para o qual não há cura. Numa última tentativa para inverter a situação, um grupo de cientistas desenvolve uma máquina do tempo e envia o soldado James Cole (Bruce Willis) numa missão quase impossível: encontrar o terrível bando dos 12 Macacos (uma organização terrorista liderada por Jeffrey Goines (Brad Pitt), um louco com uma visão fanática da ecologia e anti-corporativista), responsável pela criação e disseminação do vírus que dizimou a maior parte da Humanidade e levar uma amostra para o futuro para tentar desenvolver uma cura. Pelo caminho, apaixona-se por Kathryn (Madeleine Stowe), uma bela mulher que nunca conheceu, mas que no entanto aparece recorrentemente nos seus sonhos.
As premissas do filme são assustadoras. Não é por acaso que a personagem de Madeleine Stowe é apresentada a meio de uma conferência em que o tema é o Complexo de Cassandra. Aqui a temática é de uma verdadeira pandemia mortal, mas sem ter origens naturais como as que temos vivido nos últimos anos. Esta é voluntária, concebida, planeada e executada por um grupo de ecologistas fanáticos que face ao descontrolo e agressão constante ao meio ambiente decide tomar as rédeas dos acontecimentos, "vingar" o planeta e simplesmente erradicar a Humanidade do problema. Em 1995 poderia parecer um tema um pouco para o chalado e completamente fora da caixa, mas agora já não é (infelizmente) assim tão descabido.
Agora vou-me afastar um pouco do filme, porque este é um tema marado. Uma das coisas que sempre me chamou à atenção nos últimos surtos virais recentes foram as teorias da conspiração. Apesar de toda a comunidade cientifica vir a público alertar que o que acontece é resultante exclusivo de factores naturais e que até são cíclicos, uma grande parte da opinião pública arranja sempre uma teoria alternativa que envolve um agressor humano. Antes, os culpados eram o russos, depois passaram a ser os americanos e agora são os chineses. As teorias são constantemente desmontadas como falsas mas no entanto elas andam por aí e cada vez com mais força. E depois ainda há um mundo inteiro que vive com os fantasmas do terrorismo. É só juntar 2+2. Terrorismo e armas biológicas. A única coisa que falta para juntar estas duas forças imensas é a vontade. Num mundo cada vez mais regido por autênticos psicopatas eleitos e apoiados por uma população crescente que parece cada mais estupidificada para lhes dar poder... Não auguro nada de bom para a Humanidade. Voltando ao 12 Monkeys... espero que não venham para aqui tirar ideias... Sinceramente, acho que não. Está a dar para perceber que o impacto económico de uma pandemia pode ser mais devastador que a própria doença. E o que rege o mundo é o dinheiro. Logo, sem pessoas, não há economia e por tabela não há dinheiro. Mas há por esse mundo fora, grupos fundamentalistas para quem o dinheiro não é a prioridade numero um, por isso convém ter este cenário sempre presente. Como dizia o outro: há pessoas que só querem ver o mundo a arder. Não é difícil de imaginar (ou prever) que mais cedo ou mais tarde, intencionalmente ou não, uma doença contagiosa poderá causar imensos danos à Humanidade, até porque já aconteceu algumas vezes na história. Apesar de vivermos numa altura em que parece que estamos acima do mundo natural, na realidade, estamos ao mesmo nível de todos os outros seres vivos deste planeta. A situação actual de pandemia de Covid-19 prova exactamente isso. Espero sinceramente que isto não descambe mais e que se resolva rapidamente com o mínimo de sofrimento humano possível, mas também espero que a Humanidade aproveite esta paragem forçada para corrigir erros e reposicionar-se mais equilibradamente no planeta. De certa forma, eu vejo o que está a acontecer agora como uma espécie de lição planetária. Veremos se alguém aprende alguma coisa com estes acontecimentos dramáticos.
Mas vamos aligeirar um pouco a coisa e voltar ao 12 Monkeys. Um dos meus realizadores preferidos é sem dúvida o Terry Gilliam. Não só pela colaboração com os Monty Python mas principalmente pela carreira posterior a solo. A ligação umbilical aos Python justifica porque muitos filmes estejam imersos na loucura, no entanto, ironicamente, Gilliam criou também alguns dos melhores filmes relacionados com a opressão, a distopia e também a temática pós-apocalíptica. Um dos melhores exemplos tem mesmo de ser o 12 Monkeys, que mistura brilhantemente tudo isto num cocktail explosivo. Não consigo imaginar outra pessoas para além de Gilliam na cadeira do realizador. É o gajo ideal para conseguir misturar todos estes temas bem pesados sem que um gajo fique automaticamente deprimido. Sem ser um filme de acção, 12 Monkeys tem um movimento constante, seja pelas filmagens tipicamente estranhas de Gilliam, seja pelas prestações dos actores que oscilam entre o brilhante e o totalmente louco. O design de produção é excelente e o guião é intocável na sua complexidade. Ainda por cima, quando uma das temáticas envolvidas é a viagem no tempo, o que normalmente resulta numa salgalhada que arruína qualquer filme. Sem ser um remake oficial do francês La Jetée, na verdade parece mais uma extrapolação directa. E aqui há que dividir o mérito pelo David Peoples (mais uma vez aplausos para o guião) que conseguiu expandir 28 minutos do conceito original para a complexidade deste 12 Monkeys, duma forma tão fragmentada, mas ao mesmo tempo tão consistente.
Tenho a certeza que vamos ver um ressurgimento do filme nos próximos tempos. Ainda bem, porque muito para além da temática algo deprimente, 12 Monkeys é um filme muito bem interpretado, muito bem realizado, muito bem escrito e muito bem feito. Um dos meus filmes de ficção cientifica preferidos. Já me está a apetecer revê-lo... novamente. ●●●●○

Não sendo muito fluente em francês, tive de pesquisar para perceber o que La Jetée queria dizer. La Jetée é aquela plataforma pública dos aeroportos em que se podia assistir às descolagens e aterragens dos aviões. No entanto, no meio das minhas pesquisas por tradutores online, percebi que o título também podia ser interpretado, foneticamente, como "là j'étais", que pode traduzir-se mais ou menos como "eu estava lá". Não sei qual foi a ideia de Chris Marker quando deu este título ao filme, mas a realidade é que funciona bem de qualquer das formas.
Apesar de ser uma curta-metragem a preto e branco, de apenas 28 minutos, La Jetée é um filme complexo. Quer dizer, eu digo que é um filme complexo, mas é apenas por brevíssimos segundos que podemos ver imagens em movimento. Por isso, é difícil qualificá-lo como filme. Como é apresentado apenas com recurso a fotografia estática, visualmente é mais uma novela gráfica que outra coisa. No entanto, a música, a narração e o efeito da montagem com o som, dão-lhe uma continuidade tão fluída que me parece óbvio que se está a assistir verdadeiramente a um filme.
Se a escolha estética da fotografia (em detrimento do movimento) como medium para apresentação visual pode ser considerado com uma "simplicidade", já a história de base é bastante complexa. Algures no futuro, numa distopia em que a humanidade vive em subterrâneos para fugir às consequências letais de um mundo devastado e envenenado pela guerra nuclear, um grupo de cientistas consegue desenvolver um método de viajar no tempo. O objectivo é tentar arranjar ajuda para a questão do presente, indo tanto para o passado como para o futuro. Para isso contam com um homem, o único que consegue física e mentalmente aguentar a "viagem". O homem tem visões de uma mulher que não conhece, e a imagem dela numa gare de aeroporto é recorrente. E é aqui que as viagens no tempo começam a dar a volta ao argumento e entram em paradoxos a que aparentemente não se pode escapar. Aliás, este parece ser o grande significado de La Jetée e a sua grande mensagem, que é sempre actual: pode-se andar para a frente ou para trás no tempo, mas não se consegue escapar ao momento presente.
Pequeno em tamanho, mas muito grande em conteúdo, é assim que eu vejo o La Jetée. Para mim, é um dos marcos incontornáveis do cinema, simplesmente porque é a expressão da máxima estilização possível. Estica todos os limites daquilo que pode ser considerado como um filme. Os actores, por exemplo, estão presentes (Hélène Chatelain, Davos Hanich e Jacques Ledoux), mas não tendo movimento acabam por funcionar quase como adereços da própria história. Por outro lado, a voz do narrador, (Jean Negroni), sendo uma presença incorpórea, acaba por ter mais presença que os outros que de facto aparecem visualmente. Pufff! O cérebro dum gajo explode quando começa pensar nestas coisas... E ainda por cima, num tão curto espaço de tempo consegue concentrar tantos e tão complexos assuntos que sempre me deu a volta à cabeça. Uma preciosidade. Totalmente obrigatório. ●●●●●

Como estamos numa altura de pandemia global, convém relembrar alguns filmes em que a temática é pós-apocalíptica e que até isto é uma situação recorrente.
Não sei o que se passou nos anos 70, mas sei que o sentimento latente não deveria ser muito diferente dos dias de hoje, porque muitos dos grande filmes pós-apocalípticos vieram dessa altura. Não é que sejam os melhores ou os mais bem feitos, mas são geralmente os que têm as melhores ideias e alguns até foram estranhamente premonitórios. O que não é o caso deste The Ultimate Warrior, de Robert Clouse.
Apesar de se passar no futuro (se bem que 2012 já parece um passado longínquo, era um ano muito à frente no calendário para uma produção de 1975), The Ultimate Warrior é mais um western que um filme de ficção cientifica. A única premissa "futurista" é a de que o planeta foi dizimado por uma peste misteriosa, a sociedade descambou totalmente e o mundo é agora um sitio sem leis. Ou seja, tornou-se o velho e caótico Oeste, regido à lei da bala e do mais forte. O próprio guião e até a música parecem saídos dum daqueles westerns mais tardios tirando um outro som mais esquisóide e estridente, esse sim bem evocativo do sci-fi dos anos 70 e 80. A história é basicamente a de uma comunidade assolada por um bando de desordeiros e que por isso precisa desesperadamente da protecção de um homem de acção, que neste caso é o carismático Yul Brynner. Diga-se de passagem, que Yul Brynner, tal como muitos outros "cowboys", fizeram uma passagem breve pela ficção cientifica pós-apocalíptica dos anos 70. Mas neste caso, convém ressalvar o pormenor de Brynner, provavelmente ter sido o único a fazer essa passagem sem nunca mudar de vestimenta: manteve sempre a fatiota preta e as texanas! Basta lembrar que também no Westworld ele veste-se da mesma forma... é por estas e outras que o Yul Brynner é um dos meus actores favoritos de sempre. E por falar em actores, há que mencionar Max von Sydow, que foi e sempre será um senhor do cinema. Até numa produção chungosa como esta, Sydow consegue manter a postura. Aliás, são estes dois actores que dão algo de positivo ao filme. Tudo o resto é de uma pobreza constrangedora. Normalmente vejo estes filmes "maus" porque sei que há sempre bons pormenores a reter, porque muitos dos grandes blockbusters buscam aqui inspiração à socapa, ou porque as histórias têm muito potencial. Não é o caso. The Ultimate Warrior é apenas mais uma peça arqueológica sem grande valor. Destaco o espectacular design do poster promocional, que como era (quase) norma da altura, estava muitos pontos acima do próprio filme. ○○○

O que é que acontece com a crítica de cinema num tempo em que o mundo parou e não há estreias de filmes? Penso que esta deve ser a questão do momento para os críticos profissionais. No meu caso, em que a crítica é mais de arquivo que outra coisa, é totalmente irrelevante. Para mim, se o filme saiu agora mesmo, ou há dez anos, vai dar exactamente ao mesmo, até porque já praticamente não vejo filmes no escuro do cinema. Poderia estar aqui a enumerar todos os argumentos que me levaram a afastar do cinema "tradicional", mas isso inevitavelmente levar-me-ia para campos do insulto a uma parte dos espectadores que associam ir ver um filme com a estranha ideia de uma coisa tipo feira popular, em que um gajo vai lá com os amigos para falar, rir, comer umas pipocas ou uns cachorros, situação que a mim me deixa com os cabelos em pé. Também poderia estar a argumentar sobre a paupérrima qualidade da maioria dos filmes exibidos hoje em dia, mas acho que isso já está explícito nas críticas que faço para mim próprio no resto do blog.
Nesta altura de hiato, acho que os críticos, os ditos profissionais, têm aqui uma óptima oportunidade para instruir o público sobre outros aspectos do cinema, que não sejam unicamente "o" filme. Pormenores normalmente descurados e secundarizados como por exemplo a produção, a montagem, a fotografia, a escrita do guião ou os storyboards dão uma perspectiva diferente do cinema daquela que é a passividade do momento (e que tem sido a norma dos últimos anos), em que o espectador está ali apenas sentado, a "consumir" o produto de entretenimento, sem pensar muito no assunto. O resultado desta cumplicidade passiva entre críticos e espectadores está à vista: o cinema dos últimos anos transformou-se numa espécie de parques de entretenimento passivos e os filmes propriamente ditos são meros produtos de consumo descartável.
Este "novo" tempo livre também seria bom para "desenterrar" referências antigas (que normalmente são melhores que as actuais) para assim servirem de futuras referências, até porque o cinema actual vive numa fase de reciclagem contínua. Quando se vê tantos filmes como eu já vi, percebe-se perfeitamente o padrão das coisas. Às vezes parece que estou preso num loop temporal em que estou sempre a ver a mesma coisa. E não é só por causa das constantes sequelas, reboots, remakes e re-coisos. É porque a maior parte do cinema actual assenta numa fórmula mágica de meia dúzia de guiões "infalíveis", constantemente copiados uns dos outros, até à mais completa exaustão. E isto acontece - e acho que vai continuar a acontecer - porque funciona. Acho que neste aspecto, o crítico profissional, tem um papel a desempenhar e pôr o "dedo na ferida". A crítica de cinema não pode estar - como está neste momento - ligada ao sucesso do box office ou aos ratings intencionalmente inflacionados dos agregadores de críticas. Nunca liguei muito aos Óscares, nem nunca fui atrás dos filmes galardoados em certames internacionais de prestígio para ver um bom filme, mas em 2018, quando o Black Panther da Marvel foi indicado para Melhor Filme e as críticas que li davam conta do melhor filme do ano (WTF???), percebi que algo estava muito errado no mundo do cinema, e mais especificamente no da crítica de filmes. Como é que aquilo era possível? O que é que se estava a passar? Estaríamos a ver a mesma coisa? Com as devidas excepções, parece-me que o crítico profissional, neste momento, simplesmente "vai com a onda". Parece que tem medo de se insurgir contra a ditadura da bilheteira e que se determinado filme tem muito sucesso na área da venda de pipocas, isso quer automaticamente dizer que tem algum valor, quando na realidade o que acontece é exactamente o contrário. Acho que os críticos, se calhar, também têm medo da obstinação dos fãs. Ninguém quer mesmo dizer o que realmente sente em relação ao Endgame dos Avengers ou da franchise Twilight quando há fãs malucos por esse mundo fora que eram capazes de vender um rim para poderem ser os primeiros a assistir à ante-estreia dos filmes, pois não? Mas vou deixar esta questão dos fãs para outra altura, até porque salta mais para os campos do marketing, da psicologia de massas e da sociologia do que propriamente falar de cinema...
O cinema celebra este ano 125 anos de existência, se se considerar que de facto "La Sortie de l'usine Lumière à Lyon" dos irmãos Louis e Auguste Lumière foi mesmo o primeiro filme a ser exibido. Mas se foram os Lumière os primeiros a fazê-lo, se foi Louis Le Prince em 1888 ou Eadweard Muybridge, em 1878 com a animação The Horse in Motion, isso é um pouco irrelevante. Acho é que o crítico de cinema profissional, para além do papel habitual de "comentador de bancada" - e até porque imagino que devem ter algum tipo de formação na área - também podem aproveitar o espaço que têm na opinião pública para cultivarem o público, para fomentar outro tipo de conhecimento, mas principalmente para darem a conhecer a história do próprio cinema, da sua evolução e dos seus milhentos intervenientes ao longo de todos estes 125 anos. Há seguramente muito mais cinema para além dos mais de 500.000 filmes que já se fizeram até hoje.
Como pessimista convicto que sou, sinceramente, não estou à espera que as coisas mudem. Este género de aproximação passiva gera imenso dinheiro e por isso mesmo ninguém quer mexer na "equipa ganhadora". Para além de que escrever um texto (ou criar uma parte nova de um programa de TV) sobre a história do cinema também dá muito mais trabalho do que completar os templates habituais da crítica de cinema. Eu que o diga, que estou aqui há horas a escrever este texto. Tal como tantos outros exemplos nesta vida, parece-me que tanto no cinema, como na crítica de cinema, a mentalidade vigente é não mexer muito no status quo e esperar que tudo volte ao "normal". Toda a gente ganha. Apenas o (bom) cinema fica a perder. Está mal, mas as coisas são o que são. Pessoalmente, haja ou não mudanças no mundo do cinema, é-me irrelevante. Vou continuar a ver os meus filmes e vou continuar a fazer o meu arquivo pessoal de crítica. A única coisa que vai mudar, é que provavelmente vou ter mais tempo para dedicar aqui ao blog.



PS: Uma sugestão para as TV's: ponham a rolar umas repetições, que tanto podem ser os grandes clássicos do cinema, como os "ridículos" filmes de série B que têm quase sempre excelentes histórias e são constantemente copiados e reciclados à socapa: não há Educação sem se conhecer a História. E por outro lado, há toda uma nova geração de pessoas que nunca teve oportunidade de ver os filmes intemporais. Já vi muito filme e mesmo assim tenho uma listagem imensa de grandes clássicos que nunca consegui ver porque são dificílimos de encontrar. Uma sugestão para os programas de cinema da TV: aproveitem esta altura de paragem de estreias e apresentem filmes de outros tempos, que apesar de serem antigolas, continuam a ser relevantes e actuais.




PS2: A título de arquivo, fica aqui também a "Saída do Pessoal Operário da Camisaria Confiança", da autoria de Aurélio da Paz dos Reis, um pioneiro do cinema em Portugal. É uma cópia do filme francês, mas ainda assim merece todo o destaque. Podemos não ser os gajos mais originais do mundo, mas também não somos assim tão atrasados como sempre nos foi ensinado... 
 
Copyright © 2015 todos os filmes que vi
Distributed By Gooyaabi Templates