Um homem é acusado de violação por uma miúda rica e a sua amiga dos trailers. O polícia que investiga o caso começa a suspeitar de fraude e é obrigado a entrar numa teia de crimes, mentiras, enganos e traições para tentar chegar à verdade. Mas não vai ser fácil, porque nem tudo é o que parece.
Wild Things é um thriller à "moda antiga" de John McNaughton, em que a acção está no guião e não nas explosões. Grande realização, com grande envolvência, numa história cheia de surpresas e twists que vai obrigar a ver o genérico até ao fim para ver se não acontece mais alguma coisa... Muito bom. Excelentes prestações de Kevin Bacon, Matt Dillon, Neve Campbell e Denise Richards, mas ainda há Robert Wagner e Bill Murray como secundários. Apesar de ser um filme com pouco mais de 20 anos, parece ter saído de um passado profundo; não porque o filme esteja datado no tempo, mas porque hoje em dia (praticamente) não se fazem filmes assim. É incrível. O cinema mudou muito em 20 anos, mas isso é outra história. Por isso mesmo, Wild Things está recomendadíssimo. ●●●●○

Robin Williams: Come Inside My Mind é um grande documentário da HBO, realizado por Marina Zenovich. Está repleto de filmagens nunca antes vistas do lendário comediante e de certa forma mostra como Robin passou da euforia total para uma mortífera depressão motivada por uma doença degenerativa. Sinceramente não sei como fizeram isto. A locução é do próprio e parece relatar toda a sua vida até ao ponto final da morte. Para mim, Robin Williams foi um génio da comédia e um dos melhores de sempre. É absolutamente lendário. Era alguém que nitidamente tinha muitas pessoas lá dentro. Muitas pessoas cómicas, mas também alguns demónios.
Tem também a participação de praticamente todos os grandes gajos da comédia dos últimos anos e cujos nomes dispensam apresentações como Roseanne Barr, John Belushi, Lewis Black, Jim Carrey ou Billy Crystal. Mas todo o documentário está repleto de homenagens e testemunhos de outros grandes nomes de Hollywood como Steve Allen, Robert Altman, Kate Capshaw, George Carlin ou Johnny Carson. É um trabalho de produção incrível, e a sensação que fiquei é que realmente dá a ideia de entrar literalmente dentro da cabeça do Robin Williams e perceber o que aconteceu até ao trágico desfecho. Mas para mim, o que fica é a homenagem a um dos grandes actores cómicos (e não só, porque também era excepcional no drama) de sempre e a um dos gajos que mais gostava no cinema. Grande, Grande Robin Williams. É uma pena que já cá não esteja. É um dos pouco gajos neste mundo que me fazia rir compulsivamente. Um verdadeiro génio. ●●●●○

Peyton é um cientista que tenta produzir pele sintética. Um dia, é atacado por gangsters e acaba terrivelmente desfigurado devido a queimaduras e deixado para morrer. Pelo caminho perde a capacidade de sentir dor, o que lhe dá uma força sobre-humana. Usando a sua nova pele sintética, pode-se então disfarçar de qualquer pessoa e assim começa a congeminar um plano de vingança. E assim nasce Darkman. Parece saído de uma BD ou um super-herói menos conhecido da Marvel, mas é "apenas" uma criação de Sam Raimi. Não sei se é propositado ou não, mas parece uma espécie de homenagem à época dourada dos filmes de terror e monstros da Universal nos anos 30. É como se juntasse o Frankenstein, o Fantasma da Ópera e outros, tudo numa roupagem moderna de acção.
Darkman é o típico filme do anti-herói em busca de vingança. É um bom filmito. Um mini-clássico, digamos assim. Está muito bem feito para os anos que tem. Bem escrito, bem realizado e bem interpretado por Liam Neeson, Frances McDormand, Colin Friels e Larry Drake. Bruce "Ash" Campbell, um actor relativamente desconhecido da maioria do público mas que sempre fez percurso junto com Sam Raimi (desde os míticos Evil Dead) aparece mesmo no final. Liam Neeson, devido ao tamanho e aparência dura, é neste momento um dos grandes heróis de acção, mas foi aqui, e logo na estreia, que tudo começou. Os irmãos Coen (amigos de longa data de Raimi) têm uma participação "ao de leve", e talvez seja por causa disso que Darkman é um pouco melhor que a média: complementaram o guião, participaram na montagem e se se reparar bem, até aparecem brevemente a passear num Oldsmobile. Sam Raimi provou aqui que podia claramente pegar numa super-produção e fazer algo de bom. Mais tarde pegaria no Spider-Man com os resultados que se conhecem. E ainda bem. Presumo que mais cedo ou mais tarde, o próprio Raimi irá fazer um remake. Já merecia... ●●●○○

John Wick é um daqueles filmitos de acção que é um clássico instantâneo. Depois de se retirar, um hitman é obrigado a voltar ao serviço para se vingar de gangsters que lhe mataram o cão e roubaram o carro. Grande e pesada banda sonora a servir de suporte para excelentes coreografias de porrada. É um pouco à semelhança do Payback com Mel Gibson, mas John Wick tem os seus méritos próprios. É um bom filme de pancada e acção, com bons actores (Keanu Reeves, Michael Nyqvist, Alfie "Greyjoy" Allen e Willem Dafoe) e muito bem dirigido por Chad Stahelski, que curiosamente foi o duplo de Reeves no Matrix. Vale a pena ver porque não é totalmente desmiolado, como é normal neste género de filmes. Gostei. Terá obrigatoriamente uma sequela. ●●●○○

Se há filme que merece a classificação de clássico intemporal é Blade Runner. É um prodígio técnico e estético. Acho que mais nenhum filme foi tão à frente no aspecto futurista (ou retro-futurista) como este. É bom lembrar que este é um filme de 1982. É tão antigo que os cartazes promocionais ainda eram pintados! Para quem vê o filme agora não tem noção do que era mundo em 1982 em termos de noções tecnológicas e até estéticos. O mundo era todo colorido e este era um filme negro. O principal responsável é o visionário Syd Mead com o seu "retro-futurismo" que tenho a certeza foi ao futuro e voltou com esquissos. É quase impossível que não tenha sido assim. Foi um filme que me marcou profundamente. Ainda hoje ecoam no meu cérebro frases como "I’ve seen things you people wouldn’t believe", "all those moments will be lost in time, like tears in rain", "Too bad she won’t live. But then again, who does?", "I want more life, fucker!", ou "Quite an experience to live in fear, isn't it? That's what it is to be a slave". A partir do dia em que o vi, todos os outros filmes que já tinha visto tornaram-se "piores" e os que vieram a seguir precisavam de chegar a um fasquia muito mais alta para os considerar "bons". A história, o visual, a música de Vangelis, o estilo dos actores, aquela ambiência húmida, escura e mesclada de culturas, tudo. Mudou-me mesmo! Fez o meu cérebro começar a pensar de uma forma diferente. Pôs-me a pensar como eram ridículos muitos outros filmes que já vira sobre o "futuro".
Mas por muito que se diga bem deste filme, é impossível não mencionar a questão do gosto do público num determinado momento e a apreciação (e interferência) feita pelos estúdios. Infelizmente nunca vi o Blade Runner numa sala de cinema. Espero pacientemente que um dia o reponham, já que agora é um "clássico intemporal". Mas nem sempre foi assim. Muito já li sobre as diversas versões do filme (para além do "original", já vi um Director's Cut, um Final Cut e outras duas versões com algumas mudanças pelo meio e no final) e como isso foi influenciado pelas decisões de executivos de estúdio que obviamente apenas estão interessados no resultado de bilheteira e não nas questões estéticas ou autorais. É a mesma guerra de sempre. Curiosamente, a versão que me ficou no cérebro - e até é a de que gosto mais - é precisamante a versão "cortada" pelo estúdio, provavelmente porque foi a primeira que vi e também a que vi mais vezes. Não sei quantas vezes terei visto o Blade Runner, mas deve andar na casa das dezenas. Sou capaz de reconhecer frames isolados do filme e é provável que saiba os diálogos de cor. Eu sei que é um bocado freak da minha parte, mas isto tem que ver com o VHS. Isto deve ser estranho para algumas pessoas de agora, mas houve uma altura em que se alugava filmes em cassetes, com uma fita magnética que rodava lá dentro do invólucro preto. É estranho mas verdade. Mas o que poderá ser mais estranho é que alugar um filme, queria dizer que se tinha 24 horas para o ver de depois devolvê-lo. Rebobinado. Quer isto dizer que chegando ao fim do filme (e da bobine de fita) era preciso voltar a pô-la no início. Pagava-se uma penalização se não fosse entregue assim! Pode não parecer, mas o mundo era algo totalmente diferente. Questões técnicas à parte, esta questão dos alugueres de 24 horas levava a que freaks como eu que gostavam muito de um filme, a única coisa que podiam fazer era alugá-lo de novo (muito difícil, porque era caro!) ou em alternativa vê-lo várias vezes no mesmo dia, o que também não era fácil. Arranjar outro vídeo para fazer uma cópia directa (o antepassado da actual pirataria) era quase impossível devido ao preço e fragilidade dos VHS's. A única solução era esperar que desse na TV e gravá-lo. Foi o que aconteceu. E como as cassetes "virgens" também eram raras e caras, um gajo tinha de ser muito selectivo, por isso só tinha para aí uns 5 filmes que via insistentemente. Posso dizer que vi dezenas de vezes o Blade Runner e o mesmo se passa com o Mad Max, Raiders of the Lost Ark e o Enter the Dragon. Durante muito tempo foram os únicos filmes que "possuía" e portanto os únicos que podia rever. Bem, estou a divagar para o saudosismo... Seguindo em frente...
Como já disse, Blade Runner nem sempre foi um "clássico". Muito pelo contrário. Quando o aluguei pela primeira vez em cassete, fiquei imediatamente "maluco". Nunca tinha visto nada assim. Pensei que era algo que toda a gente já tinha visto e adorava. Para surpresa minha, ninguém conhecia o filme. E já estou a falar de finais de 80's, princípios de 90's. O filme já tinha 10 anos e ninguém o conhecia. Como é que isso podia ser? Como é que uma obra-prima tinha caído no esquecimento? Eu tenho uma pequena enciclopédia editada nos anos 90 - "Os melhores filmes de todos os tempos" - e o filme nem sequer é mencionado!! Aliás, nessa altura, o Blade Runner nem sequer se chamava só Blade Runner; tinha um sub-título muito sugestivo para ser "comercial": Blade Runner - Perigo Eminente!
(um pequeno à parte relacionado com o título. Desde sempre me intrigou o facto do título nada ter que ver com o filme. Só muito mais tarde li que apesar do filme ser baseado no livro de Philip K. Dick "Do Androids Dream of Electric Sheep", o título vem de um livro de Alan Nourse chamado "The Bladerunner". Mas o título ainda tem uma história mais rocambolesca. O William Burroughs pegou no livro de Nourse e escreveu uma peça chamada "Blade Runner: A Movie" em que descreve o blade runner com uma pessoa que vende instrumentos cirúrgicos ilegais numa sociedade sem direito a cuidados médicos. O Ridley Scott gostou tanto do título que comprou apenas os direitos do título mas não do livro. E fez ele muito bem porque é perfeito.)
Por tudo isto dá para perceber duas coisas muito importantes. A primeira é de que a interferência dos estúdios no corte final do filme não é, para mim, uma coisa necessariamente má; a segunda é que a aceitação (ou não) do público é uma questão bipolar e não é obrigatoriamente um garante de sucesso. Mas chega de "histórias secundárias".
Blade Runner é único e muito à frente do seu tempo. Presumo que esteja para aparecer uma edição especial qualquer porque o filme passa-se no "futuro", mais precisamente em Novembro de 2019. Estamos quase lá. E se alguém tinha dúvidas que mostrava o futuro "correctamente" deixo aqui uma parte da história e o seu enquadramento. Tudo se passa numa decadente cidade de Los Angeles, cheia de poluição e consumismo desenfreado dominada por gigantescas corporações empresariais. O controlo policial é omnipresente. Toda a gente quer sair dali, indo à procura de colonizar outros planetas, pois este já nada de bom tem para oferecer. Tecnologicamente, os humanos são muito evoluídos, dominando completamente a engenharia genética, chegando ao ponto de replicar perfeitamente todos os animais que entretanto se percebe que foram extintos, assim como toda a vida natural. Parece algo assim tão distante e inverosímil? Em 1982, talvez. Hoje em dia já não parece assim uma história tão negra e estranha, não é verdade? Parece que isto está prestes a acontecer...
Mas se as questões sociais e ambientais são tratadas com uma "leveza" quase implícita, a questão filosófica do que é ser humano é tratado mais profundamente. No primeiro plano estão os Replicantes, cópias perfeitas dos humanos, usados como ferramentas para os trabalhos mais duros fora da Terra. Os Replicantes são tão perfeitamente humanos que se tornou necessário criar testes de empatia para distingui-los dos restantes humanos. É interessante que os testes se baseiem essencialmente no tratamento de animais, ou seja, são o indicador principal do que é ser "humano". A dúvida permanece durante todo o filme. Quem é mais humano? Quem tem mais empatia? Será Deckard mesmo humano? Ou apenas uma experiência nova, mais evoluída como a Rachel?
Não me canso de elogiar este filme. É tão complexo e tão pormenorizado que era capaz de estar aqui todo o dia a falar dele, das divergências criativas com o estúdio, do casting que se dava mal e dos problemas na produção, por isso vou fazer uma auto-censura e ficar por aqui. Apenas vou mencionar os actores que lhe deram corpo: Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young, Edward James Olmos, M. Emmet Walsh, Daryl Hannah, William Sanderson, Brion James e Joe Turkel. Encarnaram tão perfeitamente estas personagens que nem sequer imagino outros actores. Apesar de todos os problemas (e ironicamente são sobejamente conhecidos os problemas entre todos eles durante a rodagem) acho que foi mesmo a melhor escolha de sempre num casting. Perfeito.
Blade Runner é uma obra prima intemporal que toda a gente deveria ver. Em Novembro de 2019 vou seguramente vê-lo outra vez. ●●●●● + ●


Até os trailers evoluíram desde o lançamento original desta obra-prima. Eis a nova versão que mostra como hoje as coisas são vistas de uma forma totalmente diferente...

Depois do enorme sucesso que foi La Femme Nikita, a história ruma aos Estados Unidos com uma ligeira variante. Em Léon, um hitman profissional "adopta" uma miúda de 12 que ficou sem a família numa guerra de drogas e que por isso procura vingança. É um bom filme de acção, um mix explosivo de acção à "americana," com o "comedimento", realismo e drama francês. O responsável é o mais americano de todos os gauleses, Luc Besson.
Nos principais papéis, um excelente leque de actores que na altura eram ainda relativamente "secundários": Jean Reno, Gary Oldman, Natalie Portman e Danny Aiello. Aqui o destaque - para além de Jean "Victor, the Cleaner" Reno - tem de ir para o genial Gary Oldman movido a benzodiazepina, que apesar de não ter muito tempo de antena, rouba totalmente o protagonismo, e para a estreante Natalie Portman que aos 11 anos (apesar da personagem ter 12) mostra que já era tão boa actriz como é agora. É mais um bom filmito de acção, recheado de bons momentos e pormenores e que ainda por cima tem uma excelente finalização. Uma inspiração e um exemplo para muitos outros filmes do género. ●●●○○

Não tinha grandes expectativas com este Revenge. Principalmente porque apenas tinha visto um trailer durante breve segundos. Mas alguma coisa me chamou a atenção e tive de o ver. A primeira surpresa imediata foi perceber que o filme não era americano, mas sim francês. A surpresa seguinte foi o exagero sanguinário, por vezes totalmente gore, com muitos ferimentos violentos e sangue a rodos. Tanto que é um exagero, mas pareceu-me uma óbvia sátira à mulher de armas americana e às "Lara Crofts" do cinema. De uma forma estranha, Matilda Lutz encaixa tão bem na personagem-bimba como no personagem-rambo.
Após ter sido violada por três homens e deixada para morrer no deserto era miraculosamente sobrevive aos impossíveis ferimentos e regressa com sede de vingança. Dito assim, parece uma coisa estúpida, mas de alguma forma, isto até funciona.
Revenge é um filme sobre vingança, mas nitidamente, também é uma crítica sagaz aos filmes de acçao americanos. É quase como que dizer: "ai querem sangue? Então vão ter sangue. Gostam de violência? Então é mesmo isso que vão ter..."
Excelentes actores (Vincent Colombe, Guillaume Bouchède), com principal destaque para Kevin Janssens que tem tanto carisma que é impossível perceber porque ainda não é uma estrela de Hollywood. O pessoal dos estúdios "oficiais" anda um bocadinho cegueta com as super-estrelas dos super-heróis. Olhem que anda para aí pessoal excepcional a representar e vocês nem os veem a passar mesmo à frente dos olhos. É pena.
Escrito e realizado por Coralie Fargeat, Revenge roça o ridículo e o estúpido, mas de alguma forma esquisita consegue ao mesmo tempo ser crítico e brilhante. Só visto para perceber. Coralie Fargeat é um nome que vou ter debaixo de olho nos próximos tempos. ●●●○○

Val Waxman é um realizador nova-iorquino que vê a sua carreira passar do estrelato dos anos 80 para a decadência de estar a fazer anúncios de TV na entrada do novo milénio. Quando tem a oportunidade de fazer um regresso em grande com uma película de grande produção, tudo começa a correr mal. A ex-mulher casou-se com o produtor daquele que será o seu filme, o novo cameraman é um chinês inflexível e irascível que precisa de andar sempre com um tradutor, a vida pessoal está uma desgraça e o regresso do filho totalmente antagónico levam a que no dia anterior às primeiras filmagens, Waxman desenvolva uma espécie de cegueira histérica. Mas Waxman não desiste e vai tentar fazer o filme mesmo assim. É a receita para o desastre... e para a comédia.
Hollywood Ending, escrito e realizado pelo mestre, é um Woody Allen vintage. Mesmo não tendo a chama de outros tempos, é tudo bom. Os actores Téa Leoni, Bob Dorian, George Hamilton e Treat Williams, para além do próprio Woody Allen, são todos óptimos. Nota-se que são dirigidos com precisão quase matemática. São obrigados a entrar no universo Alleniano e entram mesmo noutro modo de representar completamente diferente. Apesar de não deslumbrar, Hollywood Ending é um filmito perfeito, uma forma de Allen passar a mensagem e mandar umas boquitas internas para os grandes estúdios de Hollywood. Hollywood Ending tem a óbvia marca "Woody Allen" e talvez seja o último filme que verdadeiramente gostei deste mítico realizador. ●●●○○

Desde sempre que houve um género de filme que explora um baixo orçamento para tentar maximizar o número na plateia e a consequente receita de bilheteira. Há uns anos atrás eram "série B" e os "slashers", depois passaram para o gore e agora são claramente os "filmes de horror/demónios". Neste campo também entram os "siege movies" que pelas razões óbvias (mínimo de actores, poucos cenários e exteriores, facilidade de filmar em espaços fechados e controlados) também têm sido bastantes explorados, especialmente os mais violentos. Todos eles têm um público específico, o target "jovem", que por natureza se sente atraído para estes filmes, onde se podem ver coisas... "diferentes", digamos assim.
São às carradas e é-me impossível vê-los todos, até porque nem me apetece. Já tive a minha dose. Com as devidas diferenças, são sempre a mesma coisa. É quase uma regra. No entanto, há sempre aquela pequena excepção que confirma a regra. The Purge, realizado por James DeMonaco, é uma dessas excepções.
Primeiro parece um filme de terror/gore para adolescentes, mas depois passa para um "filme de cerco" muito bem arranjado e montado para adultos. A premissa é estranha: em 2022 (muitas vezes aparece esta data em cenas distópicas...) a América está devastada pelo crime descontrolado e com as cadeias a transbordar decide auto regular-se, permitindo que num período anual de 12 horas, todo o crime sem excepção saia sem punição. As ajudas da polícia e dos hospitais estão suspensas, portanto é a selvajaria total. O melhor é arranjar abrigo e esperar que passe. Uma família de classe média americana faz isso mesmo, mas as coisas nunca correm como planeado... Isto faz-me lembrar mesmo alguns filmes antigolas dos anos 70/80, tipo John Carpenter e afins.
The Purge vê-se bem e o que mais se destaca são os actores principais (os sempre ótimos Ethan Hawke e Lena Headey) e a consistência geral da coisa, que descamba para um bom thriller à moda antiga. Muito melhor do que esperava. Uma agradável surpresa. ●●○○○

An Inconvenient Sequel: Truth to Power é a sequela de An Inconvenient Truth. É um pouco mais "deslavado" que o primeiro porque já não tem tanto impacto, mas é um bom ponto de partida para uma conversa séria sobre o ambiente.
Depois de mais de 10 anos de alertas sobre questões climáticas e desequilíbrios naturais provocados pelo Homem, o que realmente mudou? Quase nada. Vendem-se mais painéis solares e agora há o hype dos carros eléctricos. Estranhamente, isto vai de encontro a esta sequela, Truth to Power. Ainda não percebi muito bem porquê, mas parece que a mensagem climática e do planeta moribundo, não tem sido bem transmitida. Para além de ter de "lutar" contra a estupidez e os "Trumps" deste "mundus econominus", parece que não temos de regredir no impacto, mas apenas tornar esse impacto "mais verde" ou "eléctrico". Fico com a ideia de que, mais do que resolver os problemas, estamos a tentar contorná-los. Parece que a salvação para este autêntico Apocalipse em câmara lenta reside no activismo, nas eólicas, nas apps, nos híbridos, em Marte e na quinoa. Não percebo o que é que se passa. A devastação neste planeta é tão grande, que sinceramente acho que já não temos salvação. Faço a minha vidinha e tento não pensar muito no assunto porque senão entro logo em depressão. Já nem consigo ver um documentário do mundo natural.
Para quem estiver desse lado do blog a pensar: "mas quem é este palhaço para vir para aqui com esta treta? Já fizeste palestras? O que é que fazes para resolver a questão? Qual é a tua solução mágica para resolver este enorme problema?", eu poderia responder de uma forma "verde", inocente e politicamente correcta: ando sempre a pé; consumo o mínimo possível; evito ao máximo o plástico; reutilizo ao máximo e reciclo tudo; e muito importante, apenas "dou" o meu dinheiro a quem causa o mínimo de impactos no planeta. Mas especialmente, aprendi a partilhar este mundo com os animais e as plantas, cada um no seu espaço, porque isto também é deles. E sei que sem eles, nós não conseguimos viver cá. Mas actualmente a minha resposta é outra. Não é fácil de ouvir - e ainda por cima ninguém a quer aceitar -, mas é muito simples: temos de ser todos pobres. Ou pelo menos viver como tal, com o mínimo de coisas e consumo. Não há outra forma. Aliás, isso é o que vai inevitavelmente acontecer se não houver uma ruptura violenta e completa na forma como vivemos. Mas, ei!, quem sou eu para fazer previsões e dizer aos restantes o que fazer? Ninguém muito relevante. Ninguém precisa de seguir os meus conselhos. Afinal sou só mais um anónimo qualquer, um "gajo normal", que escreve num blog sobre filmes. As minhas convicções são muito fáceis de desmontar. É só deixar o tempo passar e esperar para ver. Falamos novamente daqui a 10 anos. Se ainda estivermos cá todos... (sem nota)

An Inconvenient Truth é um documentário de Davis Guggenheim sobre alterações climáticas. Apesar de ter ganho o Óscar para Melhor Documentário quem ficou com os créditos foi o Al Gore. Ainda hoje há quem pense que o Al Gore ganhou um Óscar. É compreensível. A forma apaixonada como Al Gore apresentou os factos científicos e alertou o público desatento do que se passava no mundo levou muita gente a pensar que ele era o grande mastermind por detrás da criação deste documentário. Mas isso é apenas um pormenor. Aqui a verdadeira importância vai para a questão climática, as suas causas, os desequilíbrios e os efeitos no planeta. O documentário é muito bom e está muito bem escrito, sendo que neste aspecto os louros vão mesmo para o Al Gore.
No que toca às questões ambientais todas as chamadas de atenção merecem relevância. Há muito tempo que a classe científica tem vindo a alertar que estamos a danificar de tal forma o funcionamento natural do planeta que eventualmente teremos de sofrer as consequências. Estranhamente, isto já está amplamente à vista de todos, mas parece que o melhor é ignorar e que não se passa (quase) nada. Acho que isso acontece porque por um lado, tem implicações económicas e na "Santa Economia" ninguém pode mexer. "Se o dinheiro pára, o que será de nós?", é esta a lógica do momento. Este é um dos grandes problemas do mundo e, ninguém tenha dúvidas, o dinheiro literalmente "manda" neste mundo. Por outro lado - que se calhar até mais grave -, temos os maluquinhos "negacionistas" - apoiados e impulsionados pelos senhores da economia, que sabem que perderiam as suas fortunas se isto mudasse para um mundo verdadeiramente "verde" - que simplesmente acham que os problemas ambientais do mundo são "normais", "são culpa do sol", "já aconteceram antes" ou que são "tangas inventadas por governos comunistas ou proto-totalitários".
Sinceramente, acho que temos em mãos um problema pior que as alterações climáticas, que, quer queiramos quer não, irão ser corrigidas à força: a estupidez. Ou como lhe chamam agora, a desinformação, se bem que não é bem a mesma coisa. A desinformação pode ser combatida, já a estupidez é incurável. Porque pensando bem, não é preciso ser nenhum cientista para perceber o que se está a fazer de errado. Quando se lançam toneladas de pesticidas sintéticos num campo, isso é errado. Quando se lançam toneladas de plásticos no mar, isso é errado. Quando se consome o dobro do que se precisa, isso é errado. Quando se chacina animais e ecossistemas inteiros até à extinção, isso é errado. Quando se manipula geneticamente milhões de anos de evolução em favor do presente, isso é errado. Quando se queimam milhões de toneladas de combustíveis fósseis para a atmosfera, isso é errado. E os exemplos não param. O que é que é difícil de perceber aqui? É assim tão difícil de perceber que nós não podemos ir a um sítio, chegar lá, foder aquilo tudo e depois não querer que o sítio se vire contra nós? E esse sítio é a Terra e é única. Se existissem mais 10 planetas iguais ao nosso, de certa forma até conseguiria entender. Agora fazer isto na única "casa" que temos? É incompreensível este suicídio coletivo. Sinceramente, não entendo. Acho que é uma forma de provar que o ser humano é simplesmente uma criança estúpida que vai perceber da pior maneira que não pode fazer tudo o que lhe vai na tola. É triste, mas é a verdade. E acho que esta é que é mesmo a Verdade Inconveniente. Bem, já estou a divagar novamente.
Não faço grandes comentários ao documentário propriamente dito, porque nesta matéria acaba por ser irrelevante. Este, ou outro documentário qualquer, é sempre importante para alertar e consciencializar as pessoas e mereceria da minha parte a classificação máxima. Isto ultrapassa as questões técnico-cinematográficas e afins. Isto é sobre a preservação da vida na Terra como a conhecemos. Não só do maravilhoso mundo natural como do próprio Homem. Obrigatório. (sem nota)

Depois de ver Kong: Skull Island (de Jordan Vogt-Roberts) só tinha duas palavras a ecoarem na minha cabeça: gigante e verborreia. Gigante, por causa da escala da coisa. Não sei o que se passa hoje em dia com os filmes de monstros, mas tudo é absolutamente gigante. é que nem cabe no ecrã. O Kong aqui tem dezenas de metros de altura e acho que até mesmo maior que o próprio Empire State Building. Gigante também é o vazio que é este filme. Não tem nada que se aproveite. A história é alternativa ao original e está colada a cuspo e entremeada por gigantescas explosões. É simplesmente um espectáculo IMAX e mais nada.
A verborreia é digital. Desde que descobriram que podiam fazer uns "bonecos" verosimeis num computador, isto tem sido um descalabro. É um exagero. Lá está. Uma autênctica verborreia de fundos verdes e efeitos digitais que só lá estão... porque sim. Porque é giro. Não sei. Não entendo esta cena.
Os actores (Tom Hiddleston, Samuel L. Jackson, Brie Larson, John C. Reilly, John Goodman) pouco ou nada podem (ou têm para) fazer, a não ser representar estereótipos chatos e previsíveis. Isso e ir morrendo ao longo do filme conforme o seu ranking: primeiro os extras, depois os secundários, até chegar aos principais. Mas só do lado "mau", porque os "bons" não morrem. Quer dizer, às vezes morrem, mas só se for a sacrificarem-se por outros "bons".
Prevê-se mais um franchise, agora com monstros gigantes, se se levar em conta o "pós-genérico". Sinceramente, espero que fique por aqui. Aproveitem o dinheiro para fazer coisas novas. Fixes. Assim, como uma invasão de insectos gigantes, por exemplo. Há anos que ando para ver um filme com insectos gigantes... ●○○○○

Ronin é um samurai sem amo. Fiquei a saber isto ao ver o 47 Ronin. Pensava que ronin significava que um samurai se tinha revoltado contra o seu amo, mas pensando bem isso seria quase impossível visto os samurais se regerem por um código de honra bastante rígido. Quer dizer, isto é o que aparece sempre nos filmes. Presumo que tenha uma base de verdade. Seja com for, faz sentido. Aliás, esse código é a base da história deste 47 Ronin. Depois do seu amo ser morto traiçoeiramente, os samurais quebram a lei, revoltam-se e procuram vingança, mesmo sabendo que o seu destino está tragicamente traçado.
Apesar de ser uma novidade para mim, já é a sétima vez que esta história dos 47 Ronin chega às salas de cinema. Esteve sempre nas "mãos japonesas", daí que dificilmente um gajo "normal" consiga ver estes filmes... E lá está: nunca os consegui ver. No entanto, esta é apenas a primeira vez que Hollywood pega no tema. Dá que pensar.
Honra, lutas de espada, traição, vingança e o Keanu Reeves a destacar-se demasiado num casting totalmente oriental (Hiroyuki Sanada, Ko Shibasaki, Tadanobu Asano, Min Tanaka), são os condimentos principais. É um bom filmito, ainda por cima baseado numa história real. Bem escrito, medianamente bem realizado (Carl Rinsch) e com ação q.b, polvilhado por dispensáveis criaturas digitais como é obrigatório em qualquer filme aspirante a blockbuster. Apesar da pouca chama, 47 Ronin é um filme simpático... dentro do género. ●●○○○

O enredo de Life é bastante simples: a bordo da Estação Espacial, um grupo de cientistas faz a descoberta científica do século: uma forma de vida - uma única célula, proveniente de Marte. É a primeira vez na história da Humanidade que se encontra vida fora da Terra.
Os aspectos filosóficos e implicações sociais da descoberta são totalmente descartados. Esta é, sem dúvida, a maior falha do filme. Era uma premissa demasiado "pesada" e morosa, por isso entendo que toda a atenção tenha ficado centrada na acção. Depois de um início muito prometedor, Life transforma-se no Alien. Outra versão do Alien. Aliás podia muito bem ter sido a base do Prometheus e se calhar até tinha mais nexo. Se Life não é um filme melhor é exactamente por causa disto: deixa uma sensação de dejá-vu. Uma forma de vida extraterrestre, altamente agressiva, a atacar um grupo de astronautas numa estação espacial? É que só faltavam ser 7 tripulantes a bordo! Espera! Uff! Afinal são "só" seis... sendo que os principais são o Jake Gyllenhaal, o Ryan Reynolds e a Rebecca Ferguson, mas o resto do casting também é fixe.
Mas apesar da falta de originalidade do guião, está tudo muito bem feito (bem realizado por Daniel Espinosa) e por isso vê-se bem. Tem um final à moda dos grandes filmes de ficção científica dos anos 70 - se é que me entendem - e, isso é mesmo a melhor parte de todo o filme. ●●●○○

As coisas mudam muito rapidamente hoje em dia. Abro assim porque queria falar dum filme que vi recentemente. Mute é um filme que dava texto para dois volumes. Apesar do filme ser esquecível (e até mau em muitos aspectos), tem muitos pormenores interessantes. Primeiro porque é um filme Netflix e isso leva-nos para outra discussão totalmente diferente. O que é um estúdio de cinema? O que é um filme de estúdio? Quais as diferenças entre eles? Muitos realizadores conceituados têm-se mandado ao ar e rasgam as vestes em público a propósito dos novos serviços de streaming concorrerem a prémios junto com os "filmes de estúdio". Mas sendo um filme, porque é que não deveria concorrer? Há alguma diferença que seja assim tão marcante que impeça isso? É por causa do sítio onde os vemos, no cinema ou em casa, na TV ou no browser? Na minha opinião, não. Porque isso quereria dizer que um excelente telefilme não pode ser posto em pé de igualdade com uma porcaria qualquer hiper-produzida de super-heróis que passa nas salas de cinema. E convém ressalvar que durante anos, a principal receita proveniente dos filmes era o "Home Video" (VHS para os mais velhotes...) e não a sala de cinema. E isso não os impedia de concorrer e/ou receber prémios. Na altura, quem fazia isso eram... os próprios estúdios. Acho que esta é uma falsa questão e principalmente acho que é uma grande dor de corno por parte dos estúdios que veem é uma parte do lucro migrar para outras paragens. Tal como os estúdios "verdadeiros", os estúdios de streaming são um negócio com base no entretenimento. A grande diferença é que começando por baixo, de raiz, os streamings conceberam um plano de médio e longo prazo para tirar o negócio (ou pelo menos uma grande parte) dos chamados "grandes estúdios". O que deixa os estúdios lixados é que está mesmo a funcionar. E funciona devido a duas grandes razões: Plano e Preguiça. O plano (dos streamings) era simples: primeiro conquistar o público e a crítica com documentários (mais baratos de produzir; maior probabilidade de lucro em caso de sucesso) e depois passar às longas-metragens (nos últimos tempos só tenho visto documentários Netflix e Hulu e são quase todos muito bons). A Preguiça (dos estúdios) fez o resto, como previsto. Os grandes estúdios adormeceram à sombra da grande bananeira dos blockbusters/super-heróis e contaram com a aparentemente infindável avidez (e estupidez) do público devorador de pipocas para perpetuar os seus impérios de filmes desmiolados e repetitivos. Mas tudo isto não quer dizer que esta guerra vá resultar em melhores filmes no futuro. Ou novos filmes com novas ideias. Acho até que (como sempre) o dinheiro vai falar mais alto e assim que os streamings tenham uma considerável fatia do negócio vão-se tornar exactamente iguais aos grandes estúdios.
Não me vou alongar mais nesta questão, porque queria falar um pouco sobre este Mute, para além do facto de ser uma produção Netflix e como, em certa parte, confirma as minhas suspeitas. Este Mute é uma emulação" barata" dos blockbusters "oficiais" e um prenúncio do que está para vir. É um claro exemplo do que aconteceria se alguém pegasse na ideia base do grande blockbuster de ficção cientifica do momento mas lhe retirasse 100 milhões de dólares de valor produção. Efeitos especiais mais antigos, menos "nomes sonantes de cartaz" e uma produção obviamente mais fraca. Mas tudo isto não faz necessariamente um mau filme. Tem é que ser feito por alguém que perceba as limitações do orçamento, do casting e arranje alternativas.
Aqui, a alternativa foi partir de uma história que fosse totalmente diferente do habitual. E eu diria que seria a única coisa em condições neste filme. Mas nem isso aconteceu e tudo o resto é para esquecer. O filme é esquisito como o caraças. Como é que o caracterizaria? Como uma espécie de Blade Runner esquizofrénico em que duas histórias simultâneas acabam por se juntar no fim... sem grande nexo. Aliás, toda a construção do filme que se  movimenta entre a comédia duvidosa, o drama e o gore parece ter sido feita com recurso a drogas potentes. Nada faz sentido e é tudo muito confuso. A acção passa-se no futuro, numa Alemanha (produtor oblige?) que se depreende que invadiu mais uma vez os restantes países, mas a figura principal é um amish (será holandês?!?) que trabalha como barista num clube de strip (ou semelhante) manhoso que parece saído do Miami Vice. Não se percebe bem de onde é que terá vindo esta ideia... Ah! E para além disso, o personagem principal é mudo (daí o nome Mute [ah-ah!], mas que não tem relevância absolutamente nenhuma para filme). Começa como uma história de amor entre personagens muito diferentes, mas depois passa para uma cena de luta de gangsters russos e uma história confusa com médicos/militares americanos retidos em solo alemão.. What?!? Hã? Ou não era assim? Já não sei. É muito confuso e principalmente muito difuso. As duas histórias oscilam tanto que às vezes estava a ver uma delas e esquecia-me da outra. Destaque ainda para o facto estranho de ter uma das personagens principais que é ostensivamente pedófilo. É muito estranho e dispensável. Resumindo: isto não está nada bem feito. É mau. Por vezes, muito mau, quase a roçar o amador. Mas paradoxalmente gostei da inicial aproximação low-cost, uma espécie de moderno filme série B. Estranho, dispensável e esquecível, mas ainda assim uma experiência que teve alguns momentos interessantes como as prestações do actores (Alexander Skarsgård, Seyneb Saleh, Paul Rudd e Justin Theroux) e breves momentos de realização (Duncan Jones já fez muito melhor com muito menos em Moon).
Parece-me óbvio que este Mute é o prenúncio do futuro dos filmes de streaming. Falta-lhes o dinheiro para as grandes produções mas já não lhes deve faltar todo. Só lhes falta mesmo um gigantesco sucesso de bilheteira para dar um boost inicial, e inevitavelmente isso irá acontecer. Se alguém esperava uma grande mudança no mundo dos filmes está bem enganado. Tudo vai acabar por confluir para os mesmos blockbusters, as mesmas cenas repetitivas de super-heróis e as adaptações da treta dos livros de teenagers, pois são facturação garantida de bilheteira e pipocas. Posso estar enganado, mas acho que não. Mas também é fácil de tirar a dúvida. É só uma questão de chegar ao "longo prazo", que nos dias de hoje - em que as coisas mudam tão rapidamente -, é para aí daqui a três semanas... ●○○○○

Uns anos depois da Terra ser invadida por extraterrestres, um jornalista perdido pelo continente sul-americano decide ajudar uma turista americana a voltar em segurança para casa.
Por vezes dou classificações altas a filmes medianos apenas porque são feitos com muito amor pela arte e praticamente nenhuns recursos. Um desses exemplos é este Monsters. Um filme quase a fazer lembrar um road movie, mas que também é um drama, um thriller e um excelente filme de ficção científica. Rodado completamente "on location", com diálogos praticamente improvisados e em que os extras são pessoas verdadeiras que simplesmente estavam ali na sua vida (basicamente é para isso que contratam extras). O realismo da coisa dá um salto qualitativo enorme. A juntar a isto, para além de realizar, Gareth Edwards criou também todos os efeitos especiais do filme... no seu computador em casa com programas que se podem comprar na net.
Isto tinha todos os condimentos para dar uma salgalhada tipo "Série C" da pior espécie, mas é precisamente assim que se separa o "trigo do joio". Gareth Edwards é muito bom e Monsters também. É uma óptima história, com dois protagonistas muito bem dirigidos (Scoot McNairy e Whitney Able), com poucos, mas bons efeitos especiais, mas especialmente um óptimo filme que gostei muito de ver. Esta é a prova de que com muito pouco se consegue fazer muito boas coisas, se se tiver o talento suficiente. Parabéns ao Gareth Edwards pela audácia, pelo empenho e por Monsters. ●●●●○


At Eternity's Gate, de Julian Schnabel, é um filme medianamente bom com uma história alternativa à história oficial (mas turva) do pintor Vincent Van Gogh nos seus últimos anos de vida. Considero-o mediano porque conheço bastante bem a obra e vida do Van Gogh. Um génio e ao mesmo tempo um louco (como todos os grande génios, não é verdade?) que teve um grande impacto no mundo da pintura e que ao contrário de muitos autores tinha a vida e obra exemplarmente catalogada. Mesmo ao nível do pensamento, tudo está muito bem documentado na correspondência com o irmão. Daí que um biopic sobre Van Gogh tem de ser mesmo potente, porque quase tudo pode ser confirmado. Isso não acontece aqui. O timeline dos acontecimentos parece baralhado e muitas vezes até omisso de pormenores de grande relevância. Mas se calhar também estou a ser exigente demais...
O filme tem alguns bons pormenores (a cena a preto e branco para mostrar a pintura com textura típica de Van Gogh é de antologia) e não chateia mas também nunca descola do essencial e do seguro. Por vezes tem um aspecto quase de telefilme que não me agrada nada, se bem que encaixa muito bem no tom por vezes quase teatral. O melhor de todo o filme é mesmo o Willem Dafoe que se torna literalmente no Van Gogh. Está absolutamente perfeito. Mais uma grande prestação deste grande actor "esquecido" que conta com a prestação tímida dos excelentes "secundários" Rupert Friend, Oscar Isaac e Mads Mikkelsen. Não é memorável, mas vê-se bem. E se o voltar a ver será pela interpretação do Willem Dafoe. ●●○○○

Pfiu, pfiu, squash, bum, pau, bang, taooosssshhhh, piada, explosão, soco, soco, dubstep, pfiu, pfiu, squash, super slow-motion, bum, bang, taooosssshhhh, piada, fim, the end... é isto. E não há mais nada a dizer. Aquaman é o típico filme do super-herói que descobre que é um super-herói mas que não quer ser até que lhe fazem mal a alguém da família e ele é obrigado a ser um super-herói. É óptimo para quando uma pessoa não quer ver realmente um filme, mas apenas distrair-se da realidade. James Wan realiza e Jason Momoa, Amber Heard, Willem Dafoe, Patrick Wilson, Nicole Kidman e Dolph Lundgren dão corpo a personagens que enchem o tempo de antena para o pessoal dos efeitos especiais ter tempo de folga. Não sei se sou eu que estou farto destas cenas ou se os filmes de super-heróis estão a ficar cada vez piores, mas de certeza que deve ser uma das duas... ●○○○○

Pensei que ao fim destes anos todos a escrever sobre filmes já estaria numa contagem mais elevada. Nunca imaginei que isto daria tanto trabalho. É difícil e demora muito tempo. Nunca tinha pensado nisso. E já vi tanto filme que acho que vou estar aqui a vida inteira. Dito isto, preciso de acrescentar mais uns títulos sem perder muito tempo, até porque há filmes que não merecem o tempo que um gajo perde. E para acrescentar "numeração" nada melhor que trilogias ou sagas baseadas em livros que foram sucessos de vendas para adolescentes, porque não há muito para dizer. Hunger Games representa muito bem este "esquema" infalível de facturação.
Não vou perder muito tempo a contar a história que toda a gente conhece, por isso vai já uma citação da wikipédia: "Num futuro distópico pós-apocalíptico na nação de Panem, onde miúdos de 12 a 18 anos devem participar dos "Jogos Vorazes" (esta tradução é espectacular!), um evento anual televisivo na qual os "tributos" lutam até a morte até que sobre apenas um, que é coroado vencedor. Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) se voluntaria para tomar o lugar de sua irmã mais nova nos jogos. Ao lado do parceiro masculino do distrito, Peeta Mellark (Josh Hutcherson), Katniss viaja até à Capital para treinar para o evento com a ajuda de Haymitch Abernathy (Woody Harrelson), que já venceu os "Hunger Games" uma vez."
Talvez por causa da novidade, tenho de admitir que a primeira "entrega" me surpreendeu pela positiva. Até nem é assim tão mau. Vê-se perfeitamente e os actores até são bonzitos. Mas isso não interessa para nada; o que interessa nesta questão das sagas é isto; receita de bilheteira: mais ou menos 700 milhões de dólares. ●●○○○




A seguir veio The Hunger Games: Catching Fire a que se juntaram acotres como Stanley Tucci, Donald Sutherland ou Philip Seymour Hoffman (o que uma pessoa tem de fazer por dinheiro!). A aventura continua, a qualidade cai mas a classificação de bilheiteira sobe: 800 milhões de dólares. ●○○○○



Como não podia deixar de ser, e face aos sucessos anteriores, não se podia reduzir o sucesso de bilheteira a apenas uma "entrega final": há-que dividir o final em duas partes e assim multiplicar também por dois a receita de bilheteira: mais 800 milhões de Dólares com a chegada de The Hunger Games: Mockingjay - Part 1. É um filme onde praticamente nada acontece a não ser ganhar momentum para a parte final que chegaria 1 anos depois. ○○○○○




Para delírio dos fãs, finalmente chega The Hunger Games: Mockingjay - Part 2 que é mais outra fraude cinematográfica. Só existe sacar o máximo possível de dinheiro à audiência e dar um pouquinho mais de tempo aos fãs. Na maior parte do tempo não acontece nada e simplesmente está a encher "tempo de antena". Muitas vezes perde-se na sua própria mitologia alimentada por milhões de fãs que querem indefinidamente ver os seus personagens favoritos; então eles, os personagens estão simplesmente no ecrã a dizer e a fazer a mesma coisas repetidamente, vez após vez. Isto dos fãs tem muito que se lhe diga... mas fica para outra altura em que me apeteça insultar pessoas... À parte disto... nada. Rigorosamente nada. Falhas graves de argumento, do género: personagens que estavam ali, mas de repente aparecem aqui sem explicação nenhuma... História inexistente ou risível (a moça-heróina à última da hora decide matar a líder da resistência à frente de toda a gente, mas toda gente ignora esse facto e continuam impávidas e serenas na sua vida...). Enfim...
Estes filmes são tão "bons" que se me varrem completamente da memória. Por muito estranho que pareça, a única coisa que ficou gravada mentalmente foi uma cena completamente inexplicável com um gato que não foge quando a Julianne Moore lhe atira com coisas. Eu tenho e percebo de gatos: portanto, ou o bicho estava colado à bancada da cozinha ou sedado com múltiplas doses de heroína... um pouco na onda dos fãs... pronto! já o disse. não me consegui conter. Estes filmes fazem-me mesmo pensar no futuro da humanidade. Alguém ir ver isto, eu ainda compreendo porque uma pessoa pode ser enganada. Agora gostar disto... é algo verdadeiramente inexplicável. Bilheteira: "apenas" 700 milhões de dólares. ○○○○○




PS. Se alguém quiser ir ter ao hospital com uma embolia cerebral, pode sempre ver tudo de seguida... aviso já que são para aí umas 10 horas de filme, mas que podiam facilmente ser condensadas em 60 minutitos. A única coisa verdadeiramente positiva nesta saga é que... finalmente acabou. Admira-me que ainda não tenha sido transformado numa "de sucesso"...
Um pistoleiro sem nome chega à pequena povoação de Lago e após causar a impressão de durão, é contratado para matar três foras-da-lei que em breve chegarão. Com o tempo percebe-se que esses ladrões foram capturados e presos precisamente porque já lá tinham estado a tentar roubar o ouro e foram denunciados pelos locais. Mas o pistoleiro sem nome e sem medo - será um fantasma, o diabo, um espírito de vingança? - está ali porque tem outras contas para ajustar...
Este High Plains Drifter é um western muito estranho do Clint Eastwood. Apesar do ar clássico e antiquado, tem um tom estranhamente sobrenatural e é... estranho. Eastwood representa mais uma vez o pistoleiro misterioso - aqui nem nome tem - e contracena com Geoffrey Lewis, Mitchell Ryan, Verna Bloom e Marianna Hill. Destaco aqui um gajo que sempre reconheci, especialmente dos westerns - mas não só - por ser sempre um vilão desprezível e oleoso, Anthony James. É daqueles gajos que sempre foi secundário, mas que de alguma forma - e acho que é por causa da cara - sempre retive mentalmente. Tem qualquer coisa que é estranhamente... arrepiante. A realização também é do Eastwood (aqui no seu segundo filme) e de certa forma, parece que está a treinar para os próximos voos. E foi o que se viu...
Apesar de não gostar muito do filme no seu todo - já me fartei um pouco de westerns de vingança - High Plains Drifter tem uma grande mais valia que é a ambiência fantasmagórica e a história que facilmente podia ser adaptada para os dias de hoje. ●●○○○

Não sou grande fã de Turner, mas não consigo resistir a um biopic sobre pintores. Normalmente têm histórias de vida surreais que dão sempre bons filmes. Turner não é excepção. Mr. Turner mostra os últimos anos de vida do excêntrico pintor inglês William Turner, as relações com a empregada de limpeza, a sua senhoria em Chelsea (onde acabaria por morrer) e os efeitos nefastos que sofreu após a morte do pai. Mostra também as suas viagens, as pinturas - e o modo particular de pintar -, a importância da luz e do realismo que empregava nas suas telas e a forma de lá chegar, ao ponto de se amarrar a um mastro de um navio para ver como seria realmente estar no meio de uma tempestade. Amado e odiado de alguma forma pelo público e pela aristocracia, Turner parece um alienado de qualquer realidade.
Tenho de admitir que não sendo fã do Turner deu-se uma sensação de desconhecimento tão grande em relação à personagem que me apeteceu logo ir a correr e comprar um livro para o conhecer melhor e à sua obra. Apercebi-me que um gajo do século XIX que pintava cenas trágico-marítimo se aproximou bastante dos pintores modernos como Mark Rothko, por exemplo. E não fui só eu. Aparentemente, após a exibição do filme, os seus quadros reaparecerem rejuvenescidos no mercado e começaram a ser leiloados atingindo os preços mais elevados de sempre.
Mas se o filme por um lado teve o condão de despertar-me a curiosidade pelo pintor,  por outro quase que me entediou. Apesar da brilhante fotografia, tem um ritmo exageradamente lento e é obviamente longo demais. Mr. Turner podia ter sido um grande filme, mas assim é apenas um bom filmito de Mike Leigh, com uma grande - muito grande -, mas estranha interpretação de Timothy Spall. ●●○○○

No futuro, em 2197, o mundo é ostensivamente militar e implicitamente totalitarista. Toda a gente quer ser um "cidadão", mas para isso é preciso passar pelo rigor militar. É uma má altura para isso, pois a humanidade está prestes a entrar em guerra aberta contra um planeta de insectos alienígenas. Eis Starship Troopers.
Quando penso em exagero, um dos primeiros gajos que me vem à cabeça é o Paul Verhoeven. Já vi coisas muito maradas em termos de violência gráfica e gore, mas de alguma forma os filmes de Verhoeven têm qualquer coisa de visceral que me leva sempre a pensar no exagero dos exageros. Acho que é por causa do tom satírico aliado a carradas de sangue, mas sinceramente não sei.
Starship Troopers é um filme que gosto bastante, por muitas razões. Gosto do uso quase subliminar da imagética nazi do lado dos "bons". Gosto de como ele cola rótulos de fascista a montes de instituições sem nunca as apontar. Gosto da achega à comunicação social alarmante e às notícias da net, com aquele "Queres saber mais?". Gosto daquela aproximação "toda sorrisos", tipo Beverly Hills 90210 no espaço militar - se isto não é sátira, não sei o que será. Gosto da forma, como que em tom de brincadeira, Verhoeven sublinha os piores aspectos dos "bons" actuais recorrendo a cenas do futuro. Gosto muito deste filme. Casper Van Dien, Dina Meyer, Denise Richards, Neil Patrick Harris, Michael Ironside estão todos perfeitos nos seus estereótipos profundamente marcados.
Starship Troopers, como tantos outros filmes, apesar de à primeira vista ser uma patetice total - nem tem sequer nenhuma base científica lógica em que se possa pegar -, tem algo que me atrai quase magneticamente. Se estiver a repor em algum canal eu não lhe consigo resistir. Paul Verhoeven deve ter feito alguma coisa muito bem... Sei que fizeram mais uma sequelas, mas não quis estragar as minhas memórias, por isso nunca as vi. E acho que nunca vou ver... ●●●○○

Década de 30. Bonnie Parker é uma empregada de mesa farta da sua vida quotidiana. Clyde Barrow é um criminoso que acaba de cumprir pena e é libertado da prisão. Quando os dois se cruzam, a chama é imediata. A partir daí, juntos, semeiam o pânico e o caos enveredando por uma corrida mortal de assaltos a bancos e assassinato que nunca poderia acabar bem...
Há filmes que são revolucionários e que marcam uma era. Não porque são muito avançados em ideias ou questões técnicas, mas porque dão voz ou se ligam ao público da altura e que por determinados motivos se sente excluído de tudo o resto. Bonnie and Clyde é nitidamente um desses filmes. É um clássico e uma peça de história cinematográfica que, na altura, redefiniu todo o conceito de "filme de Hollywood" para um nova geração de público, que já estava farta dos "velhos" filmes de polícias a perseguir gangsters.
Numa altura em que os estereótipos do "bom" e do "mau" definia quem ia ficar com a rapariga no fim e quem iria morrer, eis que aparece Bonnie and Clyde, muda todos os conceitos e surpreende pela empatia com que põe o público do lado dos supostos maus. Ter o público a "puxar" pelo ladrão e pelos fugitivos, e de alguma forma, os polícias é que são os "maus" que merecem morrer por estarem a interromper o romance maldito deste casal perdido de amores, tornaria Bonnie and Clyde como derradeiro filme anti-establishment. Com todas estas condicionantes, ou seria um flop total ou seria uma referência para próximos filmes e realizadores. Em vez disso, tornou-se num clássico.
Actores monstruosos e icónicos como Warren Beatty, Faye Dunaway, Michael J. Pollard, Gene Hackman (e um novíssimo Gene Wilder, em estreia absoluta) protagonizam um dos grandes filmes do cinema, dirigidos pelo mítico Arthur Penn. Um clássico totalmente obrigatório. ●●●●●

The Shape of Water conta a história de amor entre um ser anfíbio (mitológico?!) preso num laboratório secreto e uma mulher muda que também lá trabalha. Ambientado na década de 60 é uma história estranha e diferente. Acaba por funcionar um pouco como uma homenagem aos grandes monstros clássicos do cinema assim como aos desajustados e outsiders deste mundo.
Gostei do tom geral mas também tenho de dizer que não gostei do início com aquele tom exageradamente sexual. Parece deslocado do resto do filme e inclusive vai decrescendo até desaparecer totalmente. Acho que a lógica dessa inclusão sexual foi uma forma de mandar alguns pais com filhos para fora da sala de cinema. É que o filme tem um tom inegavelmente de fábula e parece que Del Toro quis um público exclusivamente adulto. Por mim, Del Toro, pode fazer o que quiser. Tem crédito para isso, porque é simplesmente o melhor realizador do fantástico do momento. Aliás, já o é há alguns anos. Se ainda existe a temática da fantasia no cinema moderno - sem ser aparvalhado ou disneyficado - isso deve-se em grande parte ao Guillermo del Toro. É um gajo impecável. Tão impecável que foi o primeiro gajo na história a ganhar um Óscar para melhor filme com um filme de ficção científica. Tem uma realização tão segura, de uma precisão e de uma qualidade que é de louvar. Tem sempre uma belíssima história para contar, sempre muito bem escrita e sempre muito contada por excelentes actores. Neste caso o destaque vai para Sally Hawkins, Richard Jenkins e Octavia Spencer, sendo que nunca consigo deixar de mencionar o Michael Shannon como (provavelmente) o melhor actor da actualidade, ou pelo menos, o mais multifacetado.
A única coisa que me "chateou" no Shape of Water é exactamente a personagem do anfíbio. Apesar da negação de Del Toro, não consigo descolar da personagem Abe Sapien do HellBoy. Talvez seja a "fatiota" e a aparência geral, talvez seja porque o actor que lhe dá corpo é o mesmo: Doug Jones. Mas pensando bem, também é muito parecido com a criatura de Creature from the Black Lagoon. Pode ser só coincidência ou apenas uma inspiração inconsciente, mas quem sabe? O que sei é que é bom voltar atrás no tempo, a um altura em que ainda existiam fábulas e fantasia... Não é o melhor filme de sempre - como ouvi muita gente dizer!(?!) - mas é muito bom. ●●●●○

Jesse é uma miúda de grande beleza e inocência. Após completar 16 anos, muda-se para Los Angeles na tentativa de se tornar modelo. toda a gente elhe diz que ela tem todas as qualidades para ser uma estrela. Mas contariamente ao que pensa, Jesse (Elle Fanning) entra num mundo de inveja e vai ter de lutar com as modelos mais veteranas (Abbey Lee, Bella Heathcote), se bem que também vai tendo alguma ajuda (Jena Malone).
Inocência, beleza natural, moda, inveja e canibalismo. Eis The Neon Demon, o novo mundo alucinado de Nicolas Winding Refn, aqui como escritor e realizador. E a normalidade fica-se por aqui. Entra então o horror, a violência, o sangue, o gore, a nudez e cenas de sexo chocante e aberrante com mortos. The Neon Demon é um ovni surrealista. Um objecto estranho do cinema. Uma mistura estranha, por vezes difícil de ver de tão revoltante que é, mas estranhamente apelativa, repleto de grandes imagens e muito, muito simbolismo.
Este é um filme distribuído pelo Amazon Studios, apesar da produção ser externa. Se isto fosse distribuído por um estúdio "normal" não me parece que o corte final do filme fosse o mesmo. Daí que muitos realizadores defendam com unhas e dentes estas novas plataformas de distribuição, porque pela primeira vez em muitos anos, o realizador pode fazer chegar ao publico a sua visão intocada da obra. Não que isso seja totalmente benéfico para um filme. Por vezes, há pessoal que não se consegue conter. Este parece ser um dos casos. Por muito belas imagens que um filme tenha - e até é o caso -, para mim, um filme precisa de uma certa estrutura narrativa que faça sentido. Porque senão é mesmo só isso: um conjunto de belas imagens e som sem muito significado. A determinadas alturas é o que acontece com este Neon Demon, que peca pelo exagero e pela falta de refreio. A história perde-se, confunde-se e acaba por desaparecer, submersa pela estética irrepreensível e pela fantástica e estranha fotografia. Em determinados pontos do filme, Refn parece um cão raivoso que precisa mesmo de ser açaimado para lhe fazer sobressair o "melhor lado" em detrimento do lado profundamente "negro". Sendo eu abertamente anti-interferência dos estúdios no conteúdo autoral dos realizadores, parece estranho estar a dizer isto, mas é o que sinto. Até porque Refn é um dos gajos recentes que mais admiro. Reconheço-lhe as influências "Kubrickianas", "Lynchianas" e outras que povoam as suas obras e desde os primeiros filmes que também lhe reconheço uma certa genialidade na realização e na visão - muito diferente dos restantes contemporâneos -, mas acho que aqui foi um pouco longe demais.
The Neon Demon poderia ter sido muito bom. Assim, só fica na memória pelo choque, se bem que é seguramente um daqueles filmes que vai ter uma legião de fãs incontável e daqui a algum tempo será considerado "filme de culto". Mas antes isso que nada. Nicolas, vai por mim, uma bocadinho de contenção nunca fez mal a ninguém. ●●●○○

A Vida é um Sopro é um documentário mediano mas que acaba por ser bom devido ao entrevistado e às suas obras. E o entrevistado é nem mais nem menos do que o senhor Oscar Ribeiro de Almeida Niemeyer Soares Filho, ou simplesmente, Oscar Niemeyer, o génio.
No mundo da arquitectura, para mim, é simplesmente o melhor. Não só pelo desenho arquitectural, mas também porque tem inerente uma filosofia de vida. Mesmo sem nunca ter visto um documentário, olhando para os edifícios e construções, percebe-se imediatamente que há ali uma linha de pensamento dirigida para a pessoa que olha e usufrui do equipamento. Isto é algo que grande parte da arquitectura dita "modernista" se esquece. Um prédio, mesmo que uma pessoa não o use, não é "só" um prédio; é uma presença na vida das pessoas; interfere com o meio envolvente; mesmo sendo imóvel, interage com a pessoa que vai a passar, mesmo que ela nem olhe para lá. E estas pequenas (ou grandes, conforme a dimensão) interferências na vida quotidiana têm um reflexo, e é esse reflexo que me parece que muitas vezes não é sequer tido em conta. E nem sequer estou a falar na construção comercial, que isso são caixotes-dormitórios para acomodar paletes de pessoas, estou a referir a intervenção arquitectónica urbana que muitas vezes é premiada e reverenciada como o supra-sumo da arquitectura e que para mim, não tendo em conta o impacto da questão social e humana, é - pegando nas palavras do mestre - simplesmente uma merda. Pode ser muito bonito, muito estético e arrojado, mas quando não "pensa" nos impactos, nas pessoas e como isso muda tudo, para mim não vale simplesmente nada. Zero.
Já vi muitas entrevistas, alguns documentários e chego à conclusão que Niemeyer é provavelmente o melhor arquitecto de sempre. E acho isso porque é uma junção de duas coisas inseparáveis: arquitectura e pessoas. Sem uma destas coisas, a outra não faz sentido. Talvez seja a sua queda ideológica para a política mais socialista que mistura tão bem as duas coisas... não sei. O que sei é que o homem concebeu das melhores obras arquitectíonicas do mundo como por exemplo a Catedral de Brasília, o Congresso Nacional do Brasil, o parque urbano de Ibirapuera, a sede da ONU ou o Museu de Arte Contemporânea de Niterói. Arquitectura com décadas que parece saída do futuro. Mais um gajo que estava muito à frente no seu tempo.
Oscar, como gajo que é "gajo", é "simples" e não tem papas na língua. É uma delicia vê-lo a defender o que é bom e bonito, como "a mulhér bonita, o prédio bonito" e a mandar literalmente foder o que é mau e não presta. Sem contemplações, sem merdas. Simples e directo do coração. Oscar Niemeyer, sem dúvida, um dos melhores gajos de sempre.
Como já disse, "A vida é um sopro" é documentário a cair para o fracote. Quer dizer, até me custa dizer "fracote", mas a sensação com que fico é que o Niemeyer é tão bom, que provavelmente ninguém conseguiria fazer um documento à altura do entrevistado. Até tem alguma produção, mas pouca. É mais uma entrevista "quitada" do que propriamente um documentário. Já vi uns quantos documentários sobre arquitectura e (quase) todos cometem o mesmo erro: não mostram os interiores e os pormenores. É quase como se arquitectura fosse apenas a parte exterior da construção. É pena e é um erro. Aposto que se o Niemeyer fizesse um documentário ele mostraria os interiores e como pensou na disposição das casas de banho e porque é que nas áreas comuns usou "aquelas" cores ou "aquela" iluminação em detrimento da outra. Mas pronto, é o que há e é melhor que nada. Podia ser melhor, mas não está mal. E compreendo que a investigação e produção duma cena destas não seja fácil nem barata, portanto o Fabiano Maciel está totalmente desculpado. Pelo menos, reconheceu a genialidade do homem, fez o documentário e eu pude vê-lo, portanto, está tudo bem. Parabéns para o Fabiano. A Vida é um Sopro é muito provavelmente o último registo/entrevista do mestre, e isso, só por si, já merece destaque. Tem também comentários e participações (de arquivo) do Chico Buarque, Le Corbusier, Lúcio Costa, José Saramago e Mário Soares. Oscar Niemeyer continuou a trabalhar até ao dia 5 de dezembro de 2012, contabilizando uns já longos e profícuos 104 anos. Ou como diria o mestre, "nasceu, viveu, se fodeu"... ●●●○○

Venom... Mais um spin-off, mais um derivativo qualquer do universo da BD da não sei das quantas, mais um filme de "bonecada" digital sem o menor pingo de nada... Vale pelo Tom Hardy (gajo que curto valentemente e que não percebo o que está a fazer aqui...) e pouco mais. Andam por lá outros actores (Woody Harrelson, Michelle Williams) mas tudo o resto é acessório. Só conta mesmo a acção e mais nada. É o blockbuster do costume. Bem, não vale a pena gastar o meu latim numa coisa tão fraca. Por isso vou falar de outra coisa.
Numa entrevista após a saída do filme, o co-criador da personagem Todd McFarlane, insurgiu-se com as críticas negativas e disse que os críticos são demasiado velhos para apreciar o filme. Sem ser textual, ele disse que os críticos entram no cinema com os seus 40 e tal anos e depois saem para dizer que o filme foi uma merda. Mas que quando o público tem 16 anos, vai ver o filme e acha um espectáculo. Os miúdos adoram.
É exactamente isso que eu também acho. Se tivesse 16 anos adoraria o filme. Quanto tinha 16 anos, os filmes de entretenimento nem chegavam aos calcanhares destes. Só havia um blockbuster por ano e apenas existiam heróis de acção (nem sequer tinham super-poderes) e um deles era o Van Damme... Puff! Isto agora é mesmo para meninos... Os filmes nem sequer tinham efeitos especiais, meu! Por isso, claro que os miúdos de 16 anos - de agora - adoram o filme. Tem efeitos especiais a rodos, transformações digitais, violência desnecessária, má linguagem aos pontapés, uma história linear - para ser percebida por qualquer miúdo que curta video-jogos (e são quase todos) -, gajos constantemente a voar em todas as direções, pancadaria velha e explosões a cada 3 minutos. Isto de facto, é o que qualquer miúdo de 16 anos adora. Não tenho dúvidas disso. Mas isso não invalida o facto de o crítico ter na mesma os 40 e tal anos, pois não? Nem o facto de ele achar que o filme é de facto uma merda, porque o filme não foi feito para ele; foi feito para o tal miúdo de 16 anos. Pergunta lá ao miúdo de 16 anos o que é que ele achou daquele clássico do Kubrick? Ou do novo filme do Michael Haneke? Aposto que a a resposta seria... "uma merda"! "As pessoas só falam!" "Não há socos e nem uma única explosão!"...
Se se faz um filme exclusivamente para um público não se pode querer agradar ao outro. Não se pode ter o crítico e a bilheteira na mesma mão. Ou se tem uma coisa ou se tem a outra. É tão simples como isso. É a vida. Ou será que ele prefere trocar os 900 milhões de receita de bilheteira por uma excelente crítica reconhecida internacionalmente? Não me parece... ●○○○○

The Proposal é uma comédia romântica e como tal tem uma história bastante simples (não é que isto  queira dizer que todas as comédias românticas têm histórias simplistas [mas sim, é mesmo isso que estou a afirmar]): Sandra Bullock é uma irascível executiva canadiana que tem de casar com o seu submisso assistente (Ryan Reynolds) para poder renovar o visto de permanência no Estados Unidos. A partir daqui é só é explorar a comédia de situação entre duas pessoas que não se dão bem, mas que lentamente se vão apaixonar e casar. Oh! Que fofinhos!... Que adoráveis!...
O que é que posso dizer mais? É uma comédia romântica... É óptima para passar em hospitais ou para acompanhar pessoas que estão de cama com gripe durante o fim de semana. Não é que seja mau, mas... Eu tento... A sério que tento. Eu até vejo estas coisas amorosas, com casamentos e tudo, mas não consigo aguentar. É demasiado "mole" para mim. Não consigo. "Sabe" sempre a artifical. Isto até está bem feito (Anne Fletcher), tem algumas boas piadas e uma série de situações cómicas que tornam o filme suportável, os actores principais são bons, os restantes (Mary Steenburgen, Craig T. Nelson, Betty White) também, mas... não é mesmo para mim. Os sacrifícios que uma pessoa faz pela arte... ●●○○○


 
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