Tom of Finland é na realidade o nome verdadeiro de Touko Laaksonen. Esta mudança de nome deriva em parte da perseguição de que foi alvo devido às suas preferência homossexuais. Se mesmo hoje em dia, a homossexualidade ainda é vista pela maioria com alguma desconfiança (para não dizer outras coisas), imagine-se a mesma situação nas décadas de 40, 50 ou 60. Para piorar ainda mais a situação, Touko era um exímio desenhador da figura humana e, obviamente, face à pressão social (e policial) começou a projectar (às escondidas) as suas fantasias, mas mais importante, a sua arte, em pequenos desenhos homoeróticos que mais tarde lhe valeriam o reconhecimento geral. É a grande ironia da coisa: se não fosse perseguido no seu país de origem, muito provavelmente não teria tanta projecção internacional... Na verdade, é daí que conheço Tom of Finland. Presumia que fosse gay, mas pouco ou nada conhecia da personagem. Só conheci os seus trabalhos na década de 90 e como me pareciam tão modernos, sempre imaginei que seriam dessa altura. Errado. "Nasceram" muitas décadas antes, o que positivamente ainda me surpreendeu mais. Apesar de não ser grande adepto de todo aquele enquadramento explicitamente homossexual, é inegável a qualidade do desenho e da interpretação figurativa. Nos tempos mais recentes é provavelmente o melhor gajo que encontrei a desenhar a lápis. A força daquele preto-grafite e a perfeição técnica dos corpos são absolutamente soberbos. Melhor é difícil de encontrar.
Vou ser sincero. Tinha mais curiosidade em ver o filme para saber mais sobre a obra do que propriamente sobre o autor. Só que Tom of Finland (o filme e o homem) trocou-me as voltas. O filme foca-se quase exclusivamente no autor mas acabei por nem sentir a falta dos desenhos. A história é tão comprida, complexa e preenchida que quase nem "precisei" da componente artística. Há uma aura de tensão constante à volta da comunidade gay daquela altura que é quase palpável através do filme. Importante para mim também foi o pormenor do filme "ser" gay mas não ostensivamente gay, pois não senti (o que já aconteceu noutros filmes com a mesma temática) que entrasse no campo da propaganda. É simplesmente um filme muito bem feito ao ponto de o tornar realista, em torno de uma enorme personagem que por mero acaso era gay. Um grande aplauso para Dome Karukoski por todo o trabalho de criação e realização desta pequena jóia.
Tom of Finland acaba por se tornar um tributo merecido a um gajo de tomates numa altura de extrema intolerância, e que praticamente sozinho, moldou toda a imagética e a fantasia gay do mundo inteiro...
Tom of Finland é um filme muito bom, como já não via à algum tempo. Um filme meticulosamente montado como se fosse uma obra de artesanato. Tudo é pensando ao pormenor e encaixa perfeitamente. É mesmo o meu tipo de filme. Desde os pormenores da música e da roupa que mostram o passar do tempo e em que época é que a história se desenrola, assim como a montagem não linear que une pontos da história longe no tempo mas que em termos de contexto fazem todo o sentido juntos. Não me canso de dizer: muito bom.
Os actores são todos excelentes (Lauri Tilkanen, Jessica Grabowsky, Taisto Oksanen) mas o grande destaque é mesmo do Pekka Strang, que neste caso mereceria levar para casa uns três Óscares. Não consigo encontrar uma forma de "melhorar" este Tom of Finland. Tudo me pareceu perfeito. Altamente recomendado e com nota máxima. ●●●●●

As grandes histórias estão sempre a vir à baila. É o caso de Murder on the Orient Express de Agatha Christie. Mas antes de dizer mais alguma coisa, deixo a pergunta no ar: justifica-se uma nova investida em "velhas" histórias? Não há mais histórias para adaptar? Vamos ficar eternamente presos neste loop de remakes, readaptações, re-, re-, re-...? Já estou um bocadinho farto... Dito isto, esta nova adaptação, com as devidas ressalvas, é totalmente aceitável. Sobejamente conhecida por ser uma excelente história de crime e mistério com um grande final, leva a que o filme perca algum interesse porque já a vi uma porrada de vezes. Fica preso entre dois mundos: refazer a história tal como ela é e uma pessoa já sabe qual o final ou então inventar uma nova história, mas aí deixa de ser o Crime no Expresso do Oriente, não é?
Kenneth Branagh é a grande força motriz do filme. Atrás das câmaras tem uma prestação segura e faz uma boa realização sem exageros; como nova encarnação de Hercule Poirot também não desaponta e até lhe incute algum vigor e dualidade que não existia na icónica (e incontornável) personagem de David Suchet, aliás, o único, eterno e verdadeiro Poirot...
O grupo de actores é extenso e como não podia deixar de ser só acrescenta valor: Penélope Cruz, Johnny Depp, Judi Dench, Willem Dafoe, Michelle Pfeiffer, entre outros.
Branagh foi muito inteligente em pegar nos contos de Agatha Christie: se isto correr bem - e aparentemente correu -, tem aqui um filão cinematográfico para durar anos. Parece-me óbvio que Murder on the Orient Express terá sequela obrigatória. Como está bem feito, não me desagrada a ideia... ●●●○○

Numa qualquer cidade anónima nas profundezas da América vive um gajo normal de seu nome Odd Thomas. Cozinheiro de profissão mas clarividente por natureza. Apesar de toda a sua normalidade aparente, ele tem um segredo paranormal: consegue ver as forças do mal que nos rodeiam a todo o instante. Um dia, quando um estranho entra no seu restaurante rodeado de demónios da pior espécie, Odd Thomas sabe que tem de entrar numa luta épica para fazer com que o Bem consiga derrotar o Mal.
Realizado pelo homem das "múmias", Stephen Sommers, Odd Thomas é um filmito de fantasia, pontilhado de comédia que entra na classe de "perfeitamente aceitável". Destaque para Anton Yelchin que manifestamente era um bom actor e isso faz muito diferença. Willem Dafoe é e será sempre um gajo porreiro em qualquer filme. Odd Thomas é estranho pela mistura de conceitos e acaba por se encostar muito àquela aparência estereotipada Disney/teenager (para captar público, será?), mas vê-se bem. Bom para miúdos. ●●○○○

A Guerra Civil Americana continua a mastigar homens nos campos de batalha. No meio de toda esta carnificina, o presidente americano, Abraham Lincoln, tem a sua própria luta interna: emancipar os escravos e acabar constitucionalmente com a escravatura. Para isso tem de conseguir os votos sufucientes dos adeversários assim como do seu próprio partido.
Este é o ponto de partida de Lincoln, mais uma super-produção de Steven Spielberg, agora em versão biográfica. Lincoln entra directamente na minha categoria de mixed-feelings. Apesar de muito bem feito, acho-o demasiado denso, lento e meloso para o meu gosto. Ainda que tenha alguns fogachos de emoção, são demasiado poucos. Com os actores que tem (Daniel Day-Lewis, Sally Field, Tommy Lee Jones [só aqui um triunvirato que grita para prémio de Óscares], Joseph Gordon-Levitt, James Spader) podia e deveria ter muito mais intensidade. Fica-se "apenas" por um biopic extremamente bem escrito e realizado.

Por vezes parece demasiado encenado como que a piscar o olho à Academia, e como se costuma dizer, "sem sair da zona de conforto". É esse mesmo o principal problema: Spielberg não quer confrontar nenhuma ideia nem nenhuma opinião e por isso mantém-se sempre a uma distância teatral de qualquer futuro problema que o filme lhe pudesse causar. Não quis tomar partido e assim não tomou rigorosamente nada. Fica uma obra para a posteridade que soa a perfeito, mas insípida e algo "oca". Ligeiramente desapontante... Desapontantemente ligeira. ●●●○○

E agora, algo totalmente diferente. Guernica é uma curta-metragem de Emir Kusturica, baseada num conto de Antonije Iskovic. Foi a sua prova de licenciatura na Academia de Artes Interpretativas e com ela recebeu o primeiro prémio no Festival de Cinema checo Karlovy Vary.
Um miúdo contempla pela primeira vez a Guernica de Picasso e pergunta ao pai o que é ser judeu. A resposta evasiva é que a diferença visível está nos narizes grandes.
Visto pela perspectiva inocente de um miúdo, a solução passa por recortar todos os narizes das fotos de família como forma de contornar a perseguição, criando assim a sua própria (e ainda mais distorcida) Guernica. Muito bem pensado e muito bem feito. ●●●○○
Estava aqui a pensar... estou-me a tornar muito repetitivo. Não vou falar outra vez de pipocas ou que este Skyscraper é um filme recheado de clichés atrás de clichés com a mesma estrutura narrativa de um video-jogo ou que só se consegue ver sem adormecer porque há explosões e tiroteios de 5 em 5 minutos. Não! Como estou cheio de frio a escrever estas linhas, estava aqui a pensar em chá muito quente... Mas que chá? Estou a olhar para um pequeno vaso de orégãos a definhar e penso se dará para fazer chá com orégãos. E cominhos? Será que dá para fazer chá? Chá de cominhos?! Será bom? Será enjoativo? Será demasiado esquisito por lembrar caril ou bifanas? Não sei. Vou experimentar... De certeza que não é pior que ver o Die Hard, perdão, o Skyscraper. ●○○○○


No seu dormitório em Harvard, o estudante Mark Zuckerberg e uns amigos criam uma rede social para o "engate" e classificação de miúdas, tipo o Hi5 da altura... Com mais visão de futuro que o restante pessoal, Zuckerberg transforma a plataforma naquilo que mais tarde seria o Facebook mas é processado pelos irmãos Cameron e Tyler Winklevoss por roubo da ideia. É... Tal como estava escrito no cartaz promocional do filme "não se pode fazer 600 milhões de amigos sem fazer alguns inimigos". Agora, como são para aí uns 3 mil e 600 milhões de amigos, presumo que Zuckerberg esteja ainda mais amargurado que no início e com mais alguns inimigos... 

Não tenho Facebook e não pretendo ter. Já lá estive em tempos, mas desisti da coisa por não lhe ver grande utilidade e o mesmo acontece agora. Os meus vizinhos das traseiras são bastante "abertos para a comunidade" e por isso sempre que tenho necessidade cuscar a vida de alguém vou para a varanda ouvir o pessoal a "lavar roupa suja", tirar fotografias à comida e restantes coisas que se fazem no Facebook. Assim ainda poupo nos dados móveis e na bateria do telemóvel. Mas não vou falar muito mal do Facebook porque eles dominam a internet e como têm os dados de toda gente... é melhor não dizer nada. Aliás, pelo que se tem visto, nem sequer é preciso: já sabem o que vou dizer, como vou dizer, quando e a quem.. Não quero confusões. Para isso já tenho a minha vida particular...

Fico-me por dizer que The Social Network é um bom filmito, uma espécie de biopic não autorizado, com bons actores e muitíssimo bem escrito. Jesse Eisenberg dá (e muito bem) corpo e alma a Zuckerberg, ajudado por alguns secundários de luxo como Rooney Mara e Andrew Garfield. Também há Justin Timberlake, Armie Hammer e uma breve aparição de Aaron Sorkin. Fica a ressalva de que não tem a chama que se esperava (e pedia) de David Fincher, algo que já vem acontecendo nos últimos tempos. Aceitável. ●●●○○

The Snowman é um filme totalmente bipolar. De início até é um thriller jeitoso. Boa realização (Tomas Alfredson), boa ambiência, bons actores (Michael Fassbender, Rebecca Ferguson, Charlotte Gainsbourg, J.K. Simmons, Chloë Sevigny, entre muitos outros) e uma boa história com um misterioso assassino à solta. Estava empolgado com o desenrolar do filme, mas chegando a meio, a coisa muda totalmente de figura. O filme não se aguenta e não percebi muito bem porquê, descamba totalmente. Ficam partes da história por resolver, há personagens que literalmente caiem no esquecimento e desaparecem, e no geral o desfecho é muito, muito fraco. Foi decepcionante ver um filme crescer e depois definhar desta maneira, ainda por cima porque estava muito bem lançado. Não percebi o que aconteceu e tirando a excelente fotografia das paisagens gélidas de Oslo, já tudo se me varreu da cabeça. Uma pena. ●○○○○

Hoje em dia não é fácil conseguir ver filmes de acção em condições. É tudo clichê, são tudo repetições, reboots, remakes e restantes cenas estúpidas. Às vezes sou surpreendido pela negativa, noutras vezes já sei ao que vou por isso não fico desiludido. E é exactamente aqui que entra The Meg. Resumindo, é um Jaws mas com sabor a bacon... chinês. Sim, os chineses também compram estúdios de cinema e têm-no feito a um ritmo alucinante. Esta é só mais uma das muitas co-produções EUA/China, ainda que o público nem sequer dê por isso. Neste caso, devido ao casting passa menos despercebido (Bingbing Li, Winston Chao, Shuya Sophia Cai)... E já agora, também tem o Jason Statham, que faz de... Jason Statham. As referências ao Jaws são tantas (agora a realidade é esta: quando se copiam coisas no grande ecrã, não são plágios ou cópias, são "homenagens"...) que mais parece um remake sob o efeito de esteróides ou um quizz para testar os nossos conhecimentos do filme original do Spielberg. E nesse aspecto até foi divertido... Tirando isso, não tem mais nada que se aproveite. É o costume: mais um produto de consumo rápido... Mas tudo bem. O público come tudo e paga para isso que é o que interessa. Ó senhor Jon Turteltaub, faça lá as contas de bilheteira e venha de lá o "2" e mais três doses de pipocas com sabor a nachos!... ●○○○○

A figura do Predador é uma das minhas favoritas. Acho que é um dos grandes monstros do cinema e uma das melhores criações originais das últimas décadas. Para mim rivaliza ombro a ombro com o Alien, mas infelizmente tem sido muito maltratado nas sequelas. Pior ainda, de cada vez que lhe "(re)mexem" fazem um filme ainda mais horrível que o anterior. Dito isto, esta nova versão/continuação (ou lá o que é isto...), chamada simplesmente The Predator é uma caríssima brincadeira de mau gosto. É inacreditável os filmes que fazem hoje em dia para vender umas pipocas. Estive quase a desistir quando apareceu um cão-predador, mas consegui aguentar-me... The Predator não tem história, os actores são sofríveis, não há rigorosamente nada que se aproveite nesta porcaria. É muito raro eu detestar um filme ao ponto de lhe dar um zero, mas lá acaba por acontecer. Pela tamanha idiotice e pelo desrespeito à personagem original que é o Predador. ○○○○○

Max Steel é a enésima adaptação de uma bonecada qualquer para o cinema. Mas a pergunta que fica é: quanto mais tempo vai demorar esta coisa do jovem adolescente que descobre que tem poderes e depois tem de lutar contra um mauzão qualquer, salvar a Terra e ficar com a miúda gira no final? É que já não há paciência! Os estúdios pensam que ainda há assim tanto público estúpido para continuarem a perpetuar estas idiotices?
Produto montado por Stewart Hendler, com a participação de Ben Winchell (mau, até mesmo para o standard de teenager movie...), enquanto Maria Bello e Andy Garcia fazem o favor de receber um caché para darem a cara... e alguma credibilidade à coisa.
Uma gigantesca montagem de clichés embrulhada em efeitos CGI. E é isto... ●○○○○

 
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