0305 Dune

"Estás prestes a entrar num mundo onde o inesperado, o desconhecido e o inacreditável se encontram. Um mundo onde os reinos são construídos em terras movediças, e os céus estão cheios de fogo. Um mundo que contém o maior tesouro da criação ... e os maiores terrores. Um mundo onde o poder, a loucura e o fantástico enfrentam-se numa batalha final. Uma viagem espetacular através das maravilhas do espaço e dos mistérios do tempo, desde os limites do incrível até as fronteiras do impossível. Um mundo onde minhocas da areia com mil metros de comprimento guardam o maior tesouro da criação - a especiaria que prolonga a vida - que permite que a mente dobre o espaço e atrase o tempo. Onde uma profecia será cumprida. É o campo de batalha onde um jovem líder emergirá para comandar um exército de cinco milhões de guerreiros contra a força tirânica que ameaça escravizar o universo. O planeta chama-se Dune. O evento cinematográfico de 1984."

Acho que esta descrição do Dune - na realidade é uma adaptação livre das taglines do filme - assenta-lhe que nem uma luva. Se tivesse que resumir Dune a única palavra, a primeira coisa que vem à cabeça é... estranho. É estranho, de facto, mas bom... É tão único e estranho que ao longo do tempo percebi que este é um filme que as pessoas ou adoram ou detestam. Por várias razões, incluo-me no primeiro grupo, se bem que tenha algumas reservas.
É um filme de David Lynch, por muito que ele diga que não gosta da sua obra, que este foi o maior falhanço da sua carreira e inclusivé que se recuse a falar dele. Nota-se a quilómetros. É negro, distorcido e cheio daquelas "coisas" estranhas à maneira de Lynch. E isto, misturado com a própria estranheza da história dá um resultado final absolutamente marado. Daí que muita gente não o consiga suportar. Ainda "é" demasiado à frente no tempo, quanto mais no longínquo ano de 1984.

Há duas versões do filme e por acaso já consegui ver as duas. Uma versão mais curta, assinada por Lynch e outra, com mais minutos e uma introdução diferente que conta a história anterior ao próprio filme para contextualizar, assinada por Alan Smithee. Para quem não sabe, Alan Smithee (li que é um anagrama do título "The Alias Men") é um pseudónimo normalmente usado pelos realizadores que não querem o seu nome associado ao filme que realizaram. Isto pode parecer estranho, mas acontece. Neste caso, David Lynch não quis ter o nome associado à versão "maior" de Dune, porque não concordava com a edição final. Aliás, pelo que dá para perceber, ele nem sequer quer ter o nome em nenhuma das versões. Ele lá deve saber o porquê, mas conhecendo as ingerências normais dos estúdios no trabalho dos realizadores, dá para perceber que a "visão" Lynch deve ter sido um bocado "condicionada". Imagino só o que seria o Dune com Lynch à frente e total liberdade criativa. É provável que tivesse saído uma obra prima ou então algo completamente impossível de ver... e perceber. Se calhar foi melhor assim...

Seja qual a for a versão (e eu gosto mais da "versão do realizador"), Dune é mesmo um evento cinematográfico. Não que tenha grandes inovações tecnológicas ou revolucionários efeitos especiais, mas simplesmente por causa da história. É tão diferente de tudo o que já vi, que é por si só um marco. Eu sei que a história original vem dos livros de Frank Herbert, mas a forma como Lynch a visualiza é absolutamente única. É o David Lynch, lá está. Poderia dizer que é o Twin Peaks no espaço, ou o Game of Thrones sob a influência de psicotrópicos, mas é muito mais que isso.
A história tem lugar no inimaginável ano de 10191, numa realidade tão distante do que conhecemos, que roça a magia. Na versão "longa", a história é contextualizada através de ilustrações, para mostrar um pouco como se chegou até ali. Ao longo do tempo, o homem e a tecnologia evolui para um ponto tal, que máquinas pensantes começaram a reinar sobre o universo e mais importante ainda, sobre o próprio Homem, o que levou a uma revolta contra as máquinas e estabeleceu toda a estranha ordem de castas e as suas escolas que agora se degladiam pelo controlo e pelo poder do Universo e da Especiaria. A Especiaria é um elemento que só existe no planeta Arrakis e é crucial para as viagens do tempo e para prolongar a vida. O resto é tão estranho e fantástico que só mesmo vendo.
O casting é enorme e conta com Sean Young, Brad Dourif, José Ferrer, Linda Hunt, Jürgen Prochnow, Virginia Madsen, Jack Nance, Max von Sydow, Dean Stockwell, Patrick Stewart e até Sting, entre muitos outros, e em estreia, um jovem e desconhecido actor de nome Kyle MacLachlan, que apareceria muitas vezes nos trabalhos seguintes de Lynch.
Dune não é para todos os estômagos, nem para todos os cérebros. É mesmo um mundo para além da imaginação, num lugar além dos sonhos, onde a loucura, o fantástico, o inesperado, o desconhecido e o inacreditável se encontram. Uma viagem espetacular através das maravilhas do espaço e dos mistérios do tempo, desde os limites do incrível até as fronteiras do impossível. É realmente alternativo e um dos trabalhos que mais gosto de Lynch. Uma trip unica que convém ver. ●●●●○

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