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Um jovem vai entregar um carro de um stand ao dono e para isso vai ter de conduzir longas horas de um estado americano para outro. Entediado com a longa viagem solitária, oferece boleia a um desconhecido numa noite de chuva intensa. A viagem é longa e feita pelo meio do deserto onde abundam estradas intermináveis. Os problemas começam de imediato quando ele descobre que o homem da boleia é na realidade um assassino em série que tem cometido crimes horríveis por aquela estrada fora. Para além de o perseguir, o assassino acaba também por incriminá-lo de vários crimes, levando-o a ser confrontado e perseguido pela polícia... A sua única ajuda é uma simples empregada de restaurante...
Um gato persegue as suas presas e brinca com elas até as matar. O prazer do gato nunca está na perseguição... está no doce sabor do medo. É assim que eu vejo este The Hitcher. Um perseguição infindável, cheia de cantos obscuros, reviravoltas e volte faces inesperados, em que o actor principal é manipulado pelo vilão e não parece ter saída possível do pesadelo em que caiu...
The Hitcher está muito bem feito e muito bem realizado por Robert Harmon. Tem uma grande fotografia cheia de planos enormes do deserto com aquelas excelente cores de fundo. As poucas, mas fantasticamente bem filmadas e intensas cenas de acção, estão muito bem equilibradas com as cenas calmas de suspense... um gajo nunca sabe quando o assassino vai aparecer para infernizar a vida do jovem condutor...
Grande performance dos dois actores principais (C. Thomas Howell encarna muito bem a personagem que entre numa espiral descendente), mas facilmente se destaca o Rutger Hauer que aqui está quase no nível mítico do Blade Runner. As nuances, as expressões... Sem dizer uma única palavra, Hauer consegue transmitir perigo e loucura em cada imagem. Um dos filmes pelo qual será sempre recordado. Aqui criou-se um dos grandes vilões do cinema. Uma palavrinha para Jennifer Jason Leigh numa das primeiras aparições em cinema e que só acrescenta qualidade ao casting.
Na altura que o vi, há muitos anos atrás, The Hitcher era teoricamente um "típico" filme de videoclube dos anos 80 (estava no lote daqueles filmes a granel de que nunca tinha ouvido falar e não esperava que fossem sequer bons), mas que se revelaria como uma enorme surpresa. Um gajo aluga um filmito e espera umas cenas básicas de acção e terror e acabar por lhe sair um dos grandes thrillers do cinema... Recomendado. ●●●

Nesta altura de pandemia em que o cinema literalmente parou é uma boa altura para ir ao baú e desenterrar os clássicos. E nada melhor para isso que revisitar uma dos grandes clássicos da ficção científica, The Day the Earth Stood Still, que só pelo título seria um dos melhores filmes para descrever a situação actual.
A história passa-se na altura da Guerra Feira, quando um objecto voador misterioso é detectado a viajar a velocidades impossíveis pela atmosfera da Terra. Para surpresa de todos, o OVNI aterra gentilmente num parque em Washington. O pânico instala-se. Rodeado por forças militares fortemente armadas e hostis, do OVNI acaba por sair o que aparenta ser um homem "normal", acompanhado por um robot. O extraterrestre de forma humana chama-se Klaatu e o seu fiel e robusto robot dá pelo nome de GORT. Apesar da mensagem do extraterrestre ser de que vem em paz, o primeiro contacto entre as duas civilizações é muito pouco encorajador e não corre nada bem, já que um dos militares, em pânico, dispara contra ele. Isto faz com que percebam o enorme poder destrutivo do misterioso robot que o acompanha. Afinal, o que quer Klaatu? Será ele o mensageiro da esperança para um mundo em constante conflito? Ou será apenas o derradeiro ponto final da Humanidade?
The Day the Earth Stood Still é mesmo um dos grandes clássicos de sempre. A mensagem é tão actual agora como o era na época do embate surdo entre as duas super-potências nucleares. É inegável que este filme é um reflexo do seu tempo (a proliferação de armas nucleares), mas a história funciona bem em qualquer altura. Pensando bem, duma forma ou de outra, a humanidade parece que está sempre em conflito. Seja como for, a história é excelente. É baseado no conto de Harry Bates, Farewell to the Master, que diga-se recebeu apenas 500 dólares pelos direitos de autor. Outros tempos, sem dúvida. Não obstante este pormenor, a adaptação para cinema difere do conto: no original, o robot chama-se GNUT e no final revela que ele é que é o mestre do humanóide (que não passa de um clone com pouco tempo de vida) e não o contrário; daí o título original.
Michael Rennie como Klaatu, Patricia Neal como a compreensiva companheira humana e Hugh Marlowe no papel do homem intolerante, tratam dos principais papéis. Mas apesar de estarem todos bem, sinceramente, aqui o principal papel vai mesmo para as implicações de toda a história. Apesar das falhas cientificas (Klaatu diz que vem das profundezas do universo, mas a distancia fornecida é do interior do sistema Solar) que demonstram uma enorme inocência e desconhecimento científico tanto da produção como do próprio publico, The Day the Earth Stood Still tem uma simbologia muito própria que não é visível logo à primeira vista. Por exemplo, o nome terrestre que Klaatu adopta para se misturar com os humanos é "Carpenter" (Carpinteiro) numa clara alusão ao cristianismo que não pára por aqui. O facto de aparecer misteriosamente com uma mensagem de paz, aviso e conciliação; a personagem feminina chama-se "Mary"; e até o facto de Klaatu a determinada altura morrer e ressuscitar também não pode ser coincidência. É uma coisa engraçada que estes filmes antigolas têm: parece que há sempre um segundo sentido para além do que se está a ver.
Na cadeira do realizador está um senhor do cinema que dispensa apresentações, Robert Wise, que fez filmes de todos os estilos e para todos os gostos... e prémios. Para não ser maçador, apenas alguns exemplos para se perceber o calibre do homem: The Sound of Music, The Andromeda Strain, Star Trek: The Motion Picture, The Haunting e West Side Story. Acho que não é possível ser mais ecléctico. No lado sonoro, outra lenda, Bernard Herrmann, o mestre das orquestrações "estranhas". Aqui, o uso do teremim (um instrumento totalmente electrónico) ajudou a cimentar aquela que é "a" música da ficção científica...
The Day the Earth Stood Still continua a ser interessante hoje em dia, mesmo que tenha perdido uma parte da envolvência histórica daquele período marcante da história. Merece pelo menos, um lugar de destaque junto de outros grandes clássicos da ficção científica. ●●●

The Artist é uma homenagem a um tempo de Hollywood tão distante que a maior parte das pessoas já nem sonha que existiu. A história é sobre o actor George Valentin, uma ubíqua e famosa estrela de filmes mudos que, ao mesmo tempo que se enamora com uma jovem dançarina, começa também a ver a sua carreira entrar em declínio devido ao aparecimento dos filmes "falados".
Homenagem talvez não seja a palavra mais apropriada para classificar The Artist. Acho que reflexão seria a palavra mais indicada. É neste período que se dá uma cisão muito grande no cinema, entre o status quo do mudo e a novidade dos filmes sonoros. Se para os estúdios foi uma oportunidade de inovar e assim chamar novos clientes, para os actores foi uma revolução demasiado disruptiva. Toda a forma de actuar teve de mudar e aconteceu quase da noite para o dia. Estrelas mundialmente estabelecidas como Douglas Fairbanks e Mary Pickford de um momento para o outro ficaram quase no desemprego e e até lendas como Charlie Chaplin se ressentiram. Volátil como sempre, o público queria coisas novas e o novo era o sonoro. O cinema mudo estava condenado juntamente com todas as equipas de produção, estúdios, actores e técnicos que não fizessem (ou não conseguissem) a passagem para o som. Aquele jeito de actuação teatral, tipo pantomina, tinha chegado ao fim...
A personagem de George Valentin é nitidamente Douglas Fairbanks. Aliás, no auge da sua depressão, enquanto vê uns filmes antigos com aventuras do Zorro, na realidade o que se está ver é um filme de Douglas Fairbanks, mas com algumas cenas de close up protagonizadas por George Valentin.
Num filme mudo, a performance dos actores é radicalmente diferente. Tem de ser mais dramática, exagerada e, por vezes, até caricatural porque sem palavras (nem outro som qualquer) é obviamente muito mais difícil de chegar ao público e transmitir emoções. A actuação é uma mistura de emoções físicas que apenas a música de fundo pode acentuar. Não digo que seja mais difícil ou mais fácil, mas parece-me que é outra coisa completamente diferente. E por isso tenho que destacar Jean Dujardin, que sendo obviamente um actor moderno parece ter vindo directamente do tempo do cinema mudo. Está tão perfeito que se fosse possível recuar no tempo e inseri-lo na altura do filmes mudos, acho que o público nunca notaria a diferença. De certa forma é Jean Dujardin desta forma tão verosímil, tão anos 20, tão silencioso e emotivo que dá a sensação de se estar realmente a ver um filme da era do cinema mudo. Está tudo muito bem feito neste The Artist, mas Jean Dujardin é 50% do sucesso do filme. Uma performance que merece todos os prémios e mais alguns.
No sentido contrário, o resto do casting não salta tanto à vista. Bérénice Bejo, John Goodman, James Cromwell e Penelope Ann Miller servem bem como actores de suporte mas não passam muito disso. No caso de Bérénice Bejo o caso é ainda mais gritante, porque é peça fundamental do argumento. Não é que Bejo esteja mal, mas simplesmente não se sente a química nem o romance entre os dois actores. Há muito mais química negativa entre Jean Dujardin e Penelope Ann Miller em breves minutos (que era a intenção do argumento, num casamento em decadência) do que química positiva entre os dois amantes durante o filme todo. A discrepância entre Bérénice Bejo e Jean Dujardin é tão grande que para mim é mesmo a grande falha do filme. E claro que não podia deixar passar em branco a minúscula participação de Malcolm McDowell.
O filme é muito fiel àquela altura do cinema e muito pormenorizado (até tecnicamente) ao ponto de ser filmado com menos frames para dar aquele look acelerado tão típico dos filmes da era muda e até na própria proporção do ecrã que usa. Não fazia muito sentido simular um filme mudo sem ser naquele enquadramento 4:3 meio "quadrado", pois não?
The Artist é uma pequena pérola que, passado o impacto e choque inicial de se perceber que o filme vai ser totalmente mudo, irá deliciar a maior parte do público. A música não começa muito bem (parece algo dessincronizada da acção), mas depois ajusta-se perfeitamente para suportar emocionalmente todas as cenas. A história de decadência, regresso e reatamento amoroso é universal, por isso nunca falha. E aquele final simpático a fazer a transição para os grandes filmes musicais dos anos 30 e 40 (grande cena de dança, já agora) é simplesmente perfeito. Nota-se que foi um filme muito bem pensado mesmo antes de chegar a ser filmado e daí um enormíssimo destaque para Michel Hazanavicius, quer seja pela realização, pela preparação ou pela escrita. Até no pormenor de a primeira palavra a ser proferida em todo o filme ser "cut" e a última a ser "action" para dar uma continuidade pós-filme. Muito bom. Muito bem pensado. The Artist vê-se muitíssimo bem e é totalmente recomendado. ●●●


Alguns factos curiosos que encontrei nas minhas pesquisas. Este foi apenas o segundo filme mudo a ganhar prémios nos Óscares. O primeiro tinha sido Wings em 1927. A última vez que um filme totalmente a preto e branco tinha ganho o maior galardão de Hollywood tinha sido em 1960 com The Apartment. Se as referências a antigas estrelas do cinema mudo são constantes, elas chegaram aos rcenários. A casa da personagem de Peppy Miller é na realidade a antiga casa de Mary Pickford que mais tarde viria a casar com Douglas Fairbanks, uma lenda do cinema mudo, cuja vida e carreira, sem dúvida nenhuma é a base para este The Artist. Entre outros pormenores, notei também naquela cena aberta da escadaria, que havia ali algo familiar; descobri que aquela enorme construção metálica de escadas é nada mais nada menos que o átrio do Prédio Bradbury... onde foram filmadas algumas das cenas mais icónicas de Blade Runner... há coisas que não consigo mesmo esquecer... Mas para mim, o facto mais curioso de todos, foi ter sido necessário uma equipa europeia, fazer um filme europeu (é tudo francês...) para mostrar uma faceta de Hollywood de uma forma que Hollywood nunca teve capacidade de fazer. Isso sim, é que é curioso...
Dog Day Afternoon é baseado numa história real que se passou nos anos 70, quando dois homens assaltam uma sucursal do banco Chase Manhattan, em Brooklyn e acabam por se meter numa situação de reféns, ficando cercados pela polícia durante horas. Para piorar ainda mais o assunto, o banco quase não tem dinheiro... Como a realidade é mais estranha que a ficção, durante o impasse veio-se a saber que o propósito por detrás do assalto seria arranjar dinheiro para que um dos assaltantes conseguisse pagar a operação de mudança de sexo do namorado (wtf?!?)... Se fosse escrito assim, num guião, seria considerado certamente uma história absurda, mas lá está... a realidade é mais estranha que a ficção. E esse é um dos pontos que fica bem marcado neste argumento. A história vacila entre o drama, o thriller e a comédia. Tudo é tão despropositado e inverosímil que descontado o estado de total saturação e exaustão das personagens, Dog Day Afternoon mais parece uma comédia absurda. Mas a mão de Sidney Lumet é implacável e memorável. Conseguir aguentar um filme de duas horas neste tipo de tensão, sem nunca parecer cansativo ou repetitivo é obra de génio. Há sempre uma surpresa e um novo desenvolvimento que impele a história e o filme para a frente. Há um constante avolumar e depois um suprimir de emoções. Há sempre coisas novas a acontecer e há sempre um acontecimento ou um diálogo memorável à espera. Sidney Lumet é um mestre neste tipo de cinema "parado" e muito baseado nos actores e nos diálogos. Com uma lente objectiva e crítica, para além da temática homossexual e da mudança de sexo (muito à frente do seu tempo, diga-se), Lumet ainda consegue mostrar as distorções provocadas pelos media no público que rapidamente transforma um vilão no herói e vice-versa conforme a situação descai para um lado ou outro...
Em Dog Day Afternoon tudo pode parecer obra do acaso - como o rapaz da pizza a festejar por aparecer na TV - mas nota-se nos pormenores, que apesar do aparente improviso nos diálogos, tudo foi muito bem pensado e delineado. Vê-se isso, por exemplo, na banda sonora... que não existe. Dog Day Afternoon raramente tem música e pode-se dizer que não tem uma banda sonora porque assim adensa a tensão realista, retira o dramatismo artificial "dos filmes" e ainda lhe acrescenta um tom mais documental. É nestes pormenores que eu vejo a qualidade de um filme...
Falando em qualidade há que mencionar os actores. E não há outra hipótese que não seja destacar o Al Pacino. Que tour-de-force... Uma performance para ficar na história. Aquele aspecto e olhar tresloucado mas ao mesmo tempo tão objectivo. Neste filme, Pacino respira e transpira representação... e cinema. Aqui, mesmo sem abrir a boca, Pacino consegue dizer mais coisas com os olhos e com a alma (como por exemplo, nos dramáticos e angustiantes 15 minutos finais) que muitos actores numa carreira inteira. Brilhante. Sem Al Pacino naquele "ponto de rebuçado", Dog Day Afternoon nunca seria Dog Day Afternoon... E já agora, aquele grito para a multidão "Attica! Attica!" foi improvisado... Só por aqui se vê o nível de envolvimento do homem...
Os restantes actores estão também em grande nível. E não há um que se destaque pela negativa. Podia mencionar também John Cazale, Penelope Allen, Sully Boyar, James Broderick, Charles Durning, Chris Sarandon ou Lance Henriksen que só aparece uns minutos mas é determinante no desfecho da história. Todos os actores estão muito bem, porque nitidamente são bons e acima de tudo foram muito bem dirigidos por Lumet.
Apesar de ser baseado numa história real, as coisas em Dog Day Afternoon foram ligeiramente adulteradas. O incidente original foi tão marcante que ficou a fazer parte do treino policial quando confrontados com uma situação de reféns e multidões incontroláveis. No cinema, este género de "assalto a bancos que corre mal e acaba com uma situação de reféns" não é propriamente novo. Mas com esta vitalidade, com este guião fantástico e com este calibre de actores não é fácil de encontrar. Foi preciso recuar a 1975 para encontrá-lo...
Após o desfecho dramático, no epílogo fica-se a saber que Sonny foi preso após o assalto falhado e que cumpre 20 anos de numa prisão federal. Fica-se também a saber que Leon (mais tarde, Elizabeth) sempre acabou por fazer a operação e mudar de sexo. No entanto, a operação não foi paga com o dinheiro do assalto... A operação só foi paga quando o verdadeiro Sonny vendeu os direitos de autor da história para que se fizesse este mesmo filme. É estranho, mas o filme que é uma adaptação mais ou menos livre da história, acaba por ser o verdadeiro epilogo da história original... Estranho, não é? Acho que já disse isto algumas vezes, mas a realidade é mesmo mais estranha que a ficção... ●●●

Os elementos clássicos foram associados aos conceitos de terra, água, ar e fogo, para tentar explicar a imensa complexidade da natureza. A dedução parece lógica quando associada aos estados físicos da matéria: a terra para o sólido, a água para o líquido, o ar para o gasoso e o fogo para o volátil visível. Mas para além destes elementos sempre houve uma quase necessidade de um "quinto elemento", uma "quinta-essência" que seria um elemento "perfeito", estando ao nível do plano não-terrestre. Em tempo idos era normalmente associado ao éter, mas na realidade poderia ser qualquer coisa intangível mas extremamente poderoso.
Luc Besson pegou nestes conceitos e desenvolveu uma história simples mas extremamente coesa. No século XXIII, todo o universo vê-se confrontado com o Mal em estado puro. Para se defender desta força esmagadora, a Humanidade depende do Quinto Elemento, que de 500 em 500 anos aparece na Terra como protector dos restantes quatro elementos. Mas depois também há um taxista irascível chamado Korben Dallas...
Sendo um filme de ficção cientifica de acção, The Fifth Element não entra em grandes questões filosóficas. Quando Leeloo (Milla Jovovich), o "ser perfeito", cai literalmente do céu para o banco de trás deste taxista de muito mau humor (Bruce Willis), o universo vai ficar totalmente de cabeça para baixo...
O futuro apresentado aqui por Luc Besson não tem propriamente uma história muito original... mas isso também não interessa muito, porque virtualmente todas as cenas de The Fifth Element são muito boas. Logo para começar o look do filme e todo o design de produção, com um aspecto meio colorido, meio kitsch, é diferente de toda a restante da temática da ficção cientifica, que invariavelmente descamba no escuro e frio lado tecnológico da coisa... Depois as fatiotas estranhas mas muitos fixes de Jean-Paul Gaultier completam perfeitamente os sets extravagantes. As personagens são todas memoráveis mas há duas que se destacam: Zorg (Gary Oldman) como uma mistura de ditador maléfico e dandy ultra-capitalista e Ruby Rhod (Chris Tucker), uma espécie de celebridade entertainer futurista tão hilariante como irritante. Os actores estão tão à vontade na pele das suas personagens que numa das cenas até é capaz de se notar o Bruce Willis a tentar não se desmanchar a rir com a performance over the top de Chris Tucker.
The Fifth Element está repleto de bons pormenores. Desde os actores (Ian Holm, Luke Perry, Brion James), à realização cristalina de Luc Besson, passando pelo inteiro design de produção colorido, pela montagem rápida que dá um ritmo excelente ao filme até aos excelentes efeitos especiais que não se sobrepõe um guião consistente e tão coeso que parece à prova de bala. Há coisas que eu vejo e percebo logo que um filme é diferente (para melhor) do que é habitual. Apesar de ser um filme "comercial de efeitos e acção", por exemplo, aquela coisa já banal e quase obrigatória de haver um confronto final entre o "bom" e o "mau" aqui não acontece. Aliás, os dois antagonistas apenas se cruzam (literalmente) um única vez e por breves segundos.
Nota-se perfeitamente que Luc Besson queria fazer algo diferente. E isso até se nota no facto de nunca ter caído na tentação (e no erro) de fazer um sequela. Este é um projecto único e pessoal e isso transpira originalidade e alma. É puramente criativo e é diferente de quase tudo o que já vi nesta temática. E por isso mesmo é um dos meus filmes favoritos. Acho que é uma opinião partilhada por muito mais gente... Altamente recomendado. ●●●

It Might Get Loud é um documentário sobre três gerações de guitarristas. O "novo" Jack White, o "velho" The Edge e a "lenda" Jimmy Page. Apesar de não ser uma referência na área dos documentários, é uma excelente oportunidade para entrar na cabeça destes três guitarristas. Na parte do documentário propriamente dito, não há muito a dizer. Está muito bem feito, muito bem montado e nota-se que tem uma gigantesca produção por trás. A recolha de informação e a construção do background destes três artistas é muito boa. Do ponto de vista técnico é irrepreensível. Para mim só peca é por defeito, mas não é um problema do documentário em si. É muito restritivo mas é totalmente compreensível. Nota-se que a lógica foi tentar abarcar um período grande o suficiente para poder mostrar o mais possível do fantástico instrumento que é a guitarra eléctrica. Compreendo perfeitamente. Para demonstrar o desenvolvimento artístico ao longo dos tempos e de, pelo menos, os intérpretes mais reconhecidos, o mínimo que se poderia fazer era uma série com para aí uns 20 episódios. O problema não está no documentário propriamente dito, o problema é que a guitarra eléctrica já tem demasiada história para poder condensar em apenas 90 minutos. Se Davis Guggenheim (que já tem no currículo o excelente An Inconvenient Truth) fizesse uma série de documentários, sempre com três "convidados", teria material de trabalho para muitos anos. Mas também seria necessário que os intervenientes quisessem participar e, também, obviamente, que estivessem vivos. É por isso que me soube a pouco.
Para quem gosta de rock and roll, para quem gosta de uma grande guitarrada, para quem gosta do som da guitarra eléctrica, das distorções e dos efeitos das pedaleiras, este é um dos documentários obrigatórios. Como gosto de White Stripes, U2 e especialmente de Led Zeppelin, foi um gosto enorme ver este It Might Get Loud. Gosto das guitarradas meio punk, meio blues do Jack White, da mesma forma como gosto do som extremamente polido e agudo do The Edge... mas nada bate o velho mestre Jimmy Page. E poder vê-lo ainda a dar umas guitarradas valentes é um privilégio. E a parte em que Page está a curtir o Rumble On de Link Wray... é um momento simplesmente brilhante.
Para mim, a grande vantagem dos documentários em relação ao cinema convencional é que se aprendem mesmo coisas. Factos, quero eu dizer. Os documentários abrem horizontes e aguçam a curiosidade. É outro tipo de cinema, mas para mim é cinema na mesma. Aprendi mais uma série de coisas sobre guitarras e guitarristas, e aumentei substancialmente o meu leque de história, músicos e músicas de rock and roll. Nem que fosse só por isso, já valeu a pena. Muito bom. ●●●

Jordan Benedict (Rock Hudson) é um rancheiro do Texas que está de visita a Maryland para comprar um garanhão para as suas propriedades. Enquanto negoceia a compra do animal com o dono, acaba por se cruzar com a filha dele (Elizabeth Taylor) e apaixona-se perdidamente. O amor é recíproco entre Leslie e Jordan, o que leva a que os dois se casem imediatamente, mudando-se para a gigantesca propriedade de Jordan no Texas. Aí encontram o cowboy Jett Rink (James Dean), que terá um papel bastante incisivo na história da família.
Vi algures num cartaz promocional do filme que dizia que Giant é um filme tão grande como o próprio Texas. Não conheço o Texas, mas posso dizer que Giant é mesmo... gigante. É um épico maciço de 200 minutos de filme. Não seria para menos. Não só esta é a história de um triângulo estranho de amores e desavenças entre os três protagonistas, como também abarca praticamente três gerações da família Benedict. Desde os tempos iniciais do casamento, ao aparecimento dos primeiros filhos, passando pela divergência com Jett Rink, há muita história para contar. Se fosse hoje, para além do filme, esta história daria uma série para aí com umas três temporadas. E como para além da parte do rancho, esta história também tem que ver com o famoso petróleo do Texas, não me admiraria que tivesse sido a base de inspiração para a série Dallas e restantes soap operas americanas com magnatas do petróleo. Jett Rink no Giant? J.R. Ewing no Dallas? Não me parece que tivesse sido coincidência... Mas adiante.
Apesar das mais de três horas de filme, Giant não é massudo. A realização ampla e muito fluída de George Stevens, mas principalmente o argumento de Fred Guiol e Ivan Moffat fazem toda a diferença. Há sempre coisas novas a acontecer, há sempre reviravoltas e há sempre acção e emoções ao rubro. Está muito bem escrito. A presença no ecrã de verdadeiros monstros do cinema como Rock Hudson, Elizabeth Taylor e James Dean também ajudam. Não é todos os dias que se pode ver um filme em que os actores são verdadeiras lendas. Estes estatutos não se ganham só porque sim. Estes três, especialmente, têm de facto uma auréola. Há qualquer coisa neles que é magnético e inexplicável. E depois, em tanta história para contar, ainda há um rol infindável de excelentes actores como Mercedes McCambridge, Dennis Hopper (não sabia que ele alguma vez tinha sido novo...), Rod Taylor ou Carroll Baker. Tudo prestações clássicas de Hollywood.
Já queria ver este Giant há muitos anos. Tive agora a oportunidade numa reposição em TV. E queria vê-lo porque estava em falta na minha "trilogia James Dean". Os outros dois filmes dele são fantásticos e tinha muita curiosidade em ver Dean neste que foi o seu último papel. Não estando mal na personagem, James Dean foi quem mais me decepcionou. Estava à espera de outra coisa... Acho que foi mais um caso de altas expectativas não correspondidas... Não sei se foi a prestação, se foi a personagem, mas sei que algo não funcionou bem. Acho que aquela personagem com um lado marcadamente mau e ressentido não lhe assentou bem e por isso a performance também acabou por sair estranha. Toda a prestação tem uma aura muito estranha e diferente das anteriores. Jett Rink/James Dean acaba por destoar não só do restante elenco, como até do próprio filme...
O que sei é que para além de serem antagónicos no filme, James Dean e Rock Hudson também se deram bastante mal fora das filmagens. São conhecidas inúmeras situações em que Dean deu uma de bad boy durante a rodagem de Giant, ao ponto de boicotar as filmagens. Pelo que li Dean deu-se mal com toda a gente, inclusive com George Stevens, sendo que a única pessoa com quem se dava bem era precisamente com Elizabeth Taylor. Tudo isto é muito estranho porque basicamente é o guião do próprio filme. Terá sido mais um actor a levar longe demais o papel? Não sei. Mas que é estranho, é.
Precisamente devido ao James Dean, este filme está repleto de mística. No último dia de filmagens, Dean recebeu o célebre Porsche Spyder no cenário. Uma semana depois James Dean teria um acidente fatal. E assim nascia um mito. Um gigante do cinema. Algumas das suas cenas tiveram que ser cortadas e outras tiveram de ser dobradas sonoramente para poderem chegar à versão final de Giant. O filme não se ressentiu e ganhou o estatuto de mítico.
Este épico familiar continua ainda hoje a ter vivacidade, e de certa forma, tem um ar moderno e  contemporâneo porque aborda algumas das mesmas questões fracturantes. As diferença do Texas para com o "mundo exterior". A riqueza e a opulência em confronto com o respeito e a vulgaridade. A interferência da guerra no contexto familiar. A luta pela igualdade e contra o racismo. As personalidades vincadas mas humanamente flexíveis de cada uma das personagens ao longo do tempo. Giant é mesmo grande em tudo. Apesar da pouca visibilidade mediática quando comparado com outros épicos da mesma altura, Giant é um dos marcos do cinema de Hollywood. Um clássico obrigatório. ●●●

Em 2005 um grupo de investigadores financeiros apercebe-se de uma série de falhas graves no sistema americano de crédito à habitação. Para além das dívidas dos americanos serem impagáveis, o grupo apercebe-se da corrupção e da estupidez que gere este mercado escondido e decide apostar tudo o que têm na queda do próprio mercado. Os grandes banqueiros não percebem a jogada e inclusive ajudam-nos a angariar fundos para apostar contra os seus próprios clientes, julgando que estavam a fazer negócio com investidores estúpidos... O resto é história. E como a realidade é sempre mais estranha que a ficção, esta é uma história verídica. Os nomes foram alterados, mas as personagens são verdadeiras. Toda a história é verdadeira. Não parece verdade que haja pessoas na penumbra a ganhar rios de dinheiro com a pobreza dos outros, mas a realidade é o que é...
Alguém por aqui sabe-me explicar o que são derivativos, dívida subprime, credit default swaps, obrigações de dívida colaterizada (CDOs), CDOs sintéticos ou outras destas "cenas" técnico-financeiras? Pois... não é fácil. Até mesmo para quem as criou e lucra com isso. O panorama, a desregularização sistemática e o ecossistema financeiro surreal criado à volta das dívidas "quase" eternas das pessoas comuns levaram a um descontrolo total, que levou ao colapso de economias inteiras. O mais inacreditável é que depois de tudo isto começar a arder, os gajos que criaram o fogo safaram-se sem culpa, atirando-a para cima das pessoas normais, e mais importante, no final, receberam ajudas gigantescas dos Estados (que ele detestam visceralmente) e ainda lucraram com isso. Nesse aspecto é notável a história contada no filme de como o Goldman Sachs atrasou o colapso financeiro o suficiente para vender activos tóxicos aos seus próprios clientes mais desatentos e apostar que eles iam perder dinheiro... tirando lucro disso mesmo. Um autêntico canibalismo financeiro em que nada, mas mesmo nada tem valor... a não ser fazer dinheiro. Inacreditável a lata destes gajos. E uma pessoa pergunta-se? Mas porque é que as pessoas não se revoltam como este tipo de situações? Acho que a resposta está nos parágrafos acima... ninguém faz a mínima ideia do que se passa atrás da cortina onde esta gente se move. Só mesmo quando há um fogo e o fumo chega perto é que as "pessoas normais" têm noção de que existe uma outra realidade para além da vidinha normal de pagar as dívidas no final do mês. E para aprofundar ainda mais as crises sociais, como parece que uma parte do pessoal que por cá anda é meio estúpida, passado pouco tempo, estão todos a atirar culpas uns para outros e os verdadeiros responsáveis, para além de se safarem sem verem as caras expostas nas primeiras páginas, vão para os seus iates beberem umas margaritas de borla... A verdade é que cada um tem o o que merece... Bem, parece que estou novamente a divagar...
Poderia aproveitar a oportunidade de falar deste The Big Short, para relembrar o perigo iminente das dívidas do subprime, dos derivativos, dos MBSs ou das CDOs, mas acho que não é preciso. Uma das coisas que The Big Short tem de bom é que para além de ser um bom filme, também é uma excelente aula de finanças avançadas. Explicam isto tudo muito bem explicado. Um gajo até começa a ter ideias malucas e a penasr se não seria melhor vestir um fatinho, meter uma "forca ao pescoço" e atirar-se de cabeça num destes esquemas financeiros marados... Adam McKay fez um trabalho soberbo, mas também tem de se dar os parabéns ao argumento que está espectacularmente bem escrito. Não é nada fácil criar uma narrativa assim com base em acontecimentos tão surreiais e tão repleto de terminologia que parece saído de um filme de ficção científica...
Está tão bem escrito que decidi guardar para mim uma citação do filme que acho que é absolutamente fantástica e que em certa parte acho que resume bem o mundo em que vivemos... "A verdade é como a poesia. E a maior parte das pessoas está-se a cagar para a poesia"... tradução livre, obviamente.
Para além de ser um grande filme, The Big Short junta outros pontos positivos como estar espectacularmente bem escrito, muito bem dirigido e ser interpretado por uma trupe de excelentes actores (Christian Bale, Steve Carell, Ryan Gosling e Brad Pitt) que verdadeiramente sabem o que estão a fazer. Mas a verdadeira importância do filme não está no filme propriamente dito: toda a importância está na mensagem. E a mensagem é muito simples: algures, por aí, por trás da cortina, há uma série de abutres financeiros que vão tramar toda a gente com a sua ganancia estúpida. E quando isto acontecer, toda a gente vai ficar pobre (outra vez) e estes gajos vão ficar (ainda) mais ricos. O sistema está mal construído e estas pessoas aproveitam-se disso, até porque são elas próprias que, à partida, constroem estas falhas no próprio sistema, para lucrarem com isso mesmo que toda a gente perca. Estas pessoas são perigosas porque só têm um propósito: fazer dinheiro. Tudo o resto é... nada. Zero. Nicles. Não interessa para nada... É por isso que The Big Short é tão importante. Quando acontecer outra vez, e vai acontecer outra vez (a vergonha juntamente com a ganância nunca termina - Greed is good! ...alguém ainda se lembra da frase?) é bom (re)ver o filme e perceber o que raios acabou de acontecer... novamente. ●●●

Anda meio mundo a sugerir coisas para se ver durante esta pandemia. E o pessoal está todo em casa a ver séries sobre pandemias e filmes sobre reclusão forçada em casa, por isso acho que o melhor é arranjar umas alternativas diferentes... Que sejam, digamos assim, mais emocionantes...
Craig T. Nelson e JoBeth Williams são casal normal, com uma vida rotineira que acabam de se mudar para uma casa nova. Os três filhos também não têm nada de especialmente relevante para contar. São miúdos normais. Como tantas vezes acontece com os amigos imaginários, um dia, a miúda mais pequena começa a falar com a estática da televisão... Os pais não ligam muito ao assunto, mas do dia para noite, os móveis começam a mexer-se sozinhos, ao mesmo tempo que estranhos e inexplicáveis fenómenos começam a acontecer... Os pais contratam uma série de especialistas paranormais (Beatrice StraightZelda Rubinstein) para resolver o assunto, mas tudo descamba para o terror quando a miúda (Heather O'Rourke) é raptada e levada pelos "seres da TV" para uma dimensão paralela...
Apesar de ser um filme de terror, na verdade ninguém morre. Acho que o pássaro da família morre, mas já não tenho a certeza. É um filme de terror com a marca Steven Spielberg portanto ninguém se magoa definitivamente. Mas também é um filme Tobe Hooper, o que quer dizer que muitas cenas são absolutamente assustadoras. Não é por nada que ainda hoje perdura a questão da autoria do filme. Spielberg ou Hooper? Conhecendo o trabalho dos dois, este parece mesmo um filme feito a quatro mãos. Apesar de ser nitidamente um filme Spielberg, não se pode menosprezar Poltergeist como sendo pouco terrorífico. Quando o vi em miúdo, assustou-me até ao tutano. Na altura as emissões de televisão tinham um fim e podia-se ver realmente a estática assim que a emissão acabava, algo que, estranhamente, quase ninguém tem noção do que é. Mas nessa altura, eu tinha medo da estática. Muito medo. Se apanhava a televisão nesse estado, corria para a desligar. Foi esse o efeito Poltergeist. É um dos grandes filmes de terror do cinema. A história é muito boa, cheia de pormenores que ficaram para posteridade. Os actores também estão muito bem. Mas há que destacar os efeitos especiais que na altura deixavam um gajo de boca aberta. Poltergeist foi um dos primeiros filmes que vi e muito provavelmente o primeiro filme de terror. Se me afastou da temática, por medo, durante muito tempo, estranhamente também teve o efeito contrário. Passado o efeito "real" da coisa, ou seja, quando finalmente cresci e percebi que do outro lado da câmara estava uma equipa de filmagem, isso deixou-me imensamente intrigado: como é que faziam aquilo? como é que punham as coisas a mexer-se sozinhas? E os raios? E a árvore? E o palhaço? Porra para o palhaço. As cenas com o palhaço aterrador devem ter traumatizado milhões de pessoas ao longo dos tempos... Acho que actualmente as pessoas têm problemas com palhaços e isso em parte deve-se ao Poltergeist...
Para além do currículo de sucesso que o filme carrega consigo, também existe uma carga muito negativa associada. Coincidência ou não, uma série de eventos trágicos têm percorrido a franchise ao longo dos tempos. Pouco depois da estreia, Dominique Dunne que fazia de filha mais velha, foi morta à porta de casa por um ex-namorado. A miúda mais nova (Heather O'Rourke) também morreu na rodagem do 3.º filme e ainda há a reportar a morte repentina de mais actores, assim como uma serie de acidentes e coisas inexplicáveis... É a chamada Maldição do Poltergeist. Há uma teoria que diz que tudo acontece porque no final deste primeiro Poltergeist foram usado esqueletos verdadeiros. Sim, esqueletos de pessoas verdadeiras para as filmagens. Em 1982 se era para atingir um grau de veracidade nos efeitos, recorria-se a tudo. E pior, a actriz (Jobeth Williams) nessa cena não sabia que os esqueletos eram verdadeiros; pensava que eram simples adereços... Weird shit...
Poltergeist foi um dos grandes sucessos de bilheteira naquele ano e um filme que marcou uma série de gente. Se em algumas situações acaba por estar um pouco datado, em muitas coisas continua a ser verdadeiramente aterrador. Até já me deu aqueles arrepios esquisitos na nuca... ●●●

Não sou um grande fã de remakes. Mas por vezes, passam tantos anos desde que o filme original saiu que é quase uma obrigação refazê-lo. No entanto, quando se toca num clássico como The War of the Worlds é preciso ter muita atenção como se vai pegar na coisa. Dou graças por ter sido o Steven Spielberg a pegar no filme original e dar-lhe uma nova roupagem para o século XXI. Apenas uma pessoa naturalmente talentosa para o cinema e que tem grande respeito pelos filmes, é que poderia pegar nisto em condições. E Spielberg foi muito inteligente na forma como o fez.
Não só pegou na história original do livro e foi buscar os elementos que só poderiam ser criados visualmente agora, como foi buscar também todos os melhores elementos do filme original, mesmo os que não sendo da história, de certa forma foram marcantes. Seria engraçado ver os dois filmes lado a a lado, juntamente com uma leitura do livro para perceber isto melhor. Gene Barry e Ann Robinson, os actores originais do primeiro filme têm um pequeno papel no final deste, e isso só prova o quanto Spielberg elogia o filme original. Respeito é uma coisa muito bonita. Cenas inteiras, como por exemplo aquela com um Tim Robbins deliciosamente paranóico numa cave, foram recreadas magistralmente. A juntar a esta prova de inteligência cinematográfica, há um leque de muito bons actores e os melhores efeitos especiais que o dinheiro consegue comprar actualmente... dificilmente esta nova versão poderia ser má.
Steven Spielberg é um gajo que dispensa apresentações. Durante muito tempo, achei que era o melhor realizador do mundo. São tantos os êxitos e tantas as criações originais que facilmente é um gajo para ficar na história. Mas para além das questões técnicas e da visão que ele tem do cinema, há que ressalvar o pormenor de ser um dos gajos mais eclécticos da história do cinema. Vai do drama familiar às invasões extraterrestres com a mesma mestria. Neste caso, até misturou as duas e juntou um dos temas mais transversais dos seus filmes: a separação familiar.
Ray (Tom Cruise) é um trabalhador das docas, divorciado de Mary (Miranda Otto) e que fica no fim de semana com os dois filhos (Dakota Fanning e Justin Chatwin). A relação de Ray com os filhos não é das melhores, mas vai ficar ainda pior quando uma gigantesca tempestade se abate sobre a vizinhança. As coisas ficam ainda piores quando uma série de naves robóticas gigantes irrompem do chão e desatam a destruir tudo e a matar toda a gente. É o início de uma invasão extraterrestre em larga escala. O plano de Ray é levar os filhos para a segurança da casa da mãe, mas essa não vai ser um tarefa fácil, num país em total estado de guerra aberta. Pelo caminho, as relações entre o trio vão ser levadas ao limite.
Esta parte mais familiar foi a contribuição de Spielberg para esta nova versão de War of the Worlds. É uma mistura de novos elementos, partes icónicas do primeiro filme e a base estrutural do livro. Está muito bem feito a todos os níveis. O design das naves, os efeitos especiais, o som, a musica de John Williams, o ritmo da montagem do filme, as implicações sociais duma invasão deste género, a estrutura familiar em stress, o suspense e o (quase) terror quando tem de ser... War of the Worlds é mais um excelente acto de malabarismo de um mestre do cinema. Um novo clássico e um excelente cartão de visita para os remakes. Muito bom. ●●●

Acho que toda a gente conhece o livro do H. G. Wells, The War of the Worlds. Mesmo para quem não leu, como é o meu caso (falha que pretendo resolver muito em breve), acaba por ser um daqueles títulos que parece que existe desde sempre e que é do conhecimento geral. Quando saiu em 1898, foi um dos primeiros livros com a temática do conflito entre humanos e uma outra raça que veio do espaço. Com uma premissa tão potente era uma questão de tempo até que chegasse ao grande ecrã. A Paramount comprou os direitos em 1924, mas só em 1953 é que o filme veria a luz do dia.
Para isso, o estúdio juntou um dos grandes nomes da altura da ficção cientifica, George Pal e deu-lhe liberdade criativa. A realização ficou a cargo de Byron Haskin, um realizador profícuo das décadas de 40 e 50, mas também um dos grandes nomes dos efeitos especiais da época. Teria mesmo de ser um equipa assim, pois The War of the Worlds era o blockbuster de acção e efeitos especiais daquela altura.
Tal como acontece hoje em dia, a acção e os efeitos especiais são os verdadeiros actores principais do filme. Gene Barry e Ann Robinson formam o par romântico, mas as personagens não têm muito relevância na história. A título de curiosidade... Tanto Gene Barry como Ann Robinson contracenaram novamente no remake de Steven Spielberg do The War of the Worlds, interpretando os papéis dos avós dos miúdos, na versão de 2005. É um pormenor importante, porque nota-se que Spielberg fez uma nova versão mais fiel do livro em relação à história original, mas no entanto usou muitos elementos deste filme. Mas isso é outra história.
Pelo que li, o filme tem algumas diferenças em relação ao livro, sendo que isso aconteceu não só por motivos de adaptar a história para o século XX e para o perigo latente da Guerra Fria, mas também porque haviam problemas técnicos caso a adaptação fosse literal. Por exemplo, os célebres tripods foram substituídos pelas máquinas de guerra marcianas porque não havia forma de pôr as máquinas a andar; assim optou-se pelas máquinas voadoras. Também a inclinação para um contexto mais religioso, e o uso da bomba atómica foram uma novidade do filme. No campo técnico, mesmo que os efeitos especiais pareçam amadores ou risíveis, nos anos 50 eram o supra-sumo da arte. Na adaptação do guião, nota-se uma tentativa da produção em ser o mais fiel possível ao livro, mas também se nota uma modernização da história, por forma a ir de encontro com a realidade daquele momento, sendo que o pormenor mais gritante é facto de se estar a entrar num período agudo da Humanidade, como foi o caso da Guerra Fria (entre americanos e russos na sequência do pós-guerra mundial). A própria questão da invasão alienígena não é um mero pormenor, numa América paranóica, em suspense, à espera duma invasão repentina por parte dos russos...
No início do filme é bastante gritante o enquadramento quando mencionam a I e a II Guerra Mundial. Agora a Humanidade seria confrontada com uma nova guerra, mais uma invasão, mas por parte de um inimigo aparentemente invencível. E essa é uma perspectiva totalmente nova.
Por outro lado... os marcianos. Toda esta história acontece, porque os habitantes de Marte têm o seu planeta em perigo. Esgotados os recursos do seu planeta, os marcianos avaliam todos os outros corpos celestes do sistema solar, mas chegam à conclusão que o melhor e mais dotado de todos, é a Terra. E é então que decidem invadir. Dotados de melhores armas, mais inteligentes e em maior número, invadem a Terra, eliminando facilmente qualquer ameaça dos humanos. Quando tudo parecia perdido, eis que a Natureza, mais precisamente a natureza microscópica salva a Humanidade, quando todo o poderio militar nem um dano conseguiu infligir à força invasora.
Acho que é por causa destes pormenores que The War of the Worlds é um história que nunca passa de moda. Para todos os efeitos é um conto moralista que encosta a fanfarronice militar às cordas e nos lembra do nosso tamanho e lugar na vastidão do Universo. É uma história de alerta para a constante arrogância humana e para a nossa forma estúpida de tentar resolver tudo, construindo uma bomba maior que a do vizinho...
Mas não consigo deixar de pensar numa coisa. Numa altura de pandemia, em que um vírus minúsculo, tão minúsculo que é invisível a olho nu, põe literalmente a humanidade de joelhos, à espera em casa, sinceramente pensei que tanto o livro, como este filme voltassem a estar na ordem do dia. De certa forma, nesta nova versão moderna que vivemos hoje, não seremos nós a espécie invasora? Dá que pensar... ●●●

Alfred Borden e a usa mulher são assistentes de Robert Angier, um mágico em ascensão de carreira. Depois de um trágico acidente em que a mulher dele morre, os dois tornam-se inimigos. Com o tempo, tornam-se os dois famosos e disputam o melhor truque de magia, chegando ao ponto de sabotar os truques um do outro. Quando Alfred concebe um truque de magia fantástico, Robert fica obcecado em tentar descobrir o segredo por detrás do truque. Esta obsessão resultará em pesadas e trágicas consequências.
The Prestige é capaz de ser o filme menos conhecido dos irmãos Nolan, mas é um dos meus favoritos. Jonathan Nolan, novamente, escreve um guião fantástico. É um verdadeiro génio na sombra. Christopher Nolan mostra todo o potencial, desta vez, num filme sem grandes efeitos especiais, sem correrias e que no entanto tem tanta acção quanto um filme de super-heróis. Assim, de repente, criaram um clássico instantâneo. Faz-me sempre lembrar aqueles filmes antigos dos anos 20 e 30, com monstros, cientistas loucos e mistério.
Nos papéis principais, um casting de peso: Hugh Jackman, Christian Bale, Andy Serkis, Michael Caine e Scarlett Johansson. Mas o destaque tem de ir para o David Bowie no papel do misterioso Tesla. Para além da carreira na música, Bowie também teve alguns papéis de relevo no mundo do cinema. Não porque fosse um grande actor, mas porque encarnou sempre personagens um pouco à sua imagem: estranhos e misteriosos. Um pequeno à parte sobre a personagem do Nikola Tesla. Um nome agora tão em voga por causa dos carros eléctricos, em 2006 era um perfeito desconhecido. Foi graças a este filme que conheci a figura do mítico cientista e não acreditei que era verdadeira. Era uma figura tão obscura, com tão pouca informação disponível e tão revolucionária no pensamento que pensei que era uma personagem inventada.
The Prestige é uma pequena jóia, já perdida no tempo. Uma mistura improvável de drama, mistério e ficção cientifica, que de certa forma apontou o caminho futuro do melhor realizador do momento que é sem dúvida o Christopher Nolan. O gajo não falha uma. Não me lembro de ver um filme que não tivesse gostado. E isso não é nada fácil. The Prestige é um dos meus filmes preferidos. ●●●

John Murdoch (Rufus Sewell) acorda numa banheira num quarto de hotel, sofrendo de amnésia, apenas para perceber que é um fugitivo, perseguido pelo Inspector Frank Bumstead (William Hurt) e acusado de uma série de crimes brutais. Para além de ser perseguido pela polícia, John também é perseguido por uns seres estranhos que conseguem parar o tempo e alterar a realidade.
Para fugir e tentar encontrar respostas para a sua identidade esquecida vai ter a ajuda do Dr. Daniel Schrebe (Kiefer Sutherland) e da belíssima cantora de bar Emma Murdoch (Jennifer Connelly).
Dark City é o filme apresentado por Alex Proyas depois do imenso sucesso que foi The Crow. Nota-se que o salto visual não foi assim tão grande porque a ambiência negra desse filme ainda parece bastante presente, o que é um factor positivo. Mas está um pequeno degrau abaixo (principalmente por causa de... bem não vou dizer...), mas ainda assim um filme muito bom. Um clássico da ficção científica dos anos 90 e um dos grandes filmes de género. É uma estranha mistura:  busca inspiração na estética e narrativa dos film noir dos anos 40 e 50, mas também vai beber a filosofia da ficção cientifica asiática, tudo envolto numa lógica de acção e mistério. Metrópolis encontra o Akira, é a primeira coisa que me vem à cabeça. A história é muito boa e original, mas vai em decrescendo: ou seja, começa (muito)melhor do que acaba.
Excelente design de produção. Aliás é tão bom que partes do cenário foram transferidas para as filmagens do Matrix. Sem querer misturar os dois conceitos, há uma grande ligação entre os dois filmes. Estreados com um ano de diferença, os dois partilham uma estética "negra" e ambos lidam com a questão da natureza humana e do que é realidade e o que não é. No Matrix as máquinas comandam os seres humanos na sombra que não têm noção da realidade; no Dark City são seres com uma mentalidade colectiva que fazem experiências em humanos e querem descobrir os segredos da alma humana. (Porra! Já falei de mais...) Apesar das diferenças óbvias, pessoalmente, que na altura vi os dois filmes no cinema com pouco tempo de intervalo, nunca consegui verdadeiramente dissociar um filme do outro.
Tem bons actores, excelente fotografia, muito boa realização e especialmente, um grande história. Dark City é um daqueles filmes que me ficaram no cérebro. É tipicamente negro e tipicamente Alex Proyas. Um dos meus filmes preferidos no campo da ficção científica.  ●●●

Os Fratellis, uma perigosa família de mafiosos conseguem escapar-se da prisão. Entretanto, um grupo de miúdos encontra uma antigo mapa que os vai guiar até ao tesouro escondido do famoso pirata "One-Eyed Willie". Como todos estão a gozar os últimos dias juntos, pois vão ter de se mudar para que o seu bairro seja transformado num campo de golfe, os miúdos vêm nesta caça ao tesouro a única forma de salvar as casas e a sua amizade. Para isso vão embarcar numa grande aventura em busca do fantástico tesouro, numa luta contra o tempo, pois ao mesmo tempo têm de evitar que os Fratellis os consigam apanhar.
Um dos meus filmes de aventuras preferido é The Goonies. Tem tudo. Aventura, acção, fantasia e até uns arrepios. É a aventura que qualquer miúdo daquela altura imaginava ter. Por sorte, vi-o na altura em que de facto era um miúdo. E ficou-me marcado para sempre. É fácil uma pessoa identificar-se com alguma das personagens, porque todas elas são uma espécie de estereótipo dos miúdos da altura: o gordinho, o "techie", o tímido ou o gabarolas. Quem é que naquela altura não teve amigos assim?
Toda a gente envolvida na criação do filme merece os parabéns, mas o pessoal do casting merece palmas a dobrar. Os miúdos foram muito bem escolhidos:. Sean Astin, Josh Brolin, Jeff Cohen, Corey Feldman, Kerri Green, Martha Plimpton Ke Huy Quan. Embora a maior parte tenha "desaparecido do mapa" assim que chegaram a adultos (como é normal nos castings juvenis), ainda há pouco tempo podemos ver Sean Astin no Lord of the Rings e, obviamente, Josh Brolin dispensa apresentações: é um dos melhores actores americanos da actualidade. Na parte dos adultos, a escolha também foi muito feliz: Robert Davi e Joe Pantoliano ainda andam na ribalta; Ao fim de tantos anos, alguém teria de "ficar pelo caminho" como é o caso de John Matuszak e Anne Ramsey, que tragicamente morreram pouco tempo depois. O tempo é uma coisa de malucos. já se passaram 35 anos desde a estreia no cinema. Nem parece verdade, até porque lembro-me do filme todo como se o tivesse visto anteontem... Por isso é que o tempo, ou melhor, a persistência no tempo, são uma das minhas formas de classificar um filme. Se me marca é porque é bom. E este ficou agradavelmente marcado no meu cérebro.
Por isso a pergunta impõe-se. Como é que um filme "comercial", uma aventura de miúdos, consegue ser tão bom? Realização de Richard Donner, história de Steven Spielberg e argumento de Chris Columbus. É preciso dizer mais alguma coisa? Tudo pessoal mítico e que sabe muito bem o que faz. Mesmo sem saberem, foram autênticos fazedores de material nostálgico. Um grande abraço e um grande obrigado para todos eles.
É por isso que The Goonies, para mim, é dos melhores filmes com caças ao tesouro que já vi e o derradeiro filme de acção e aventuras para miúdos. E acho que para graúdos também. Uma pequena jóia esquecida no tempo e que não tarda nada estará a ser alvo de um remake. É mais um dos meus feelings... ●●●

Vi o Parasitas (Gisaengchung, no impronunciável título original) antes de ter vencido uma porrada de Óscares e tinha-o aqui de parte para poder escrever um pouco mais quando tivesse mais tempo livre porque é um filme que justifica. É uma excelente e complexa crítica social. Mas também é uma comédia e um drama. E um thriller também. Parasitas está numa classe totalmente à parte dos filmes que um gajo normalmente vê. Se me perguntassem como é que o classificava ou com o que é parecido... Teria que fazer uma pausa ainda longa e só poderia dizer que é uma estranha mistura asiática resultante da combinação de um "Tarantino" com um "irmãos Coen". Ou seja, tudo está bem até que tudo corre horrivelmente mal.
Parasitas conta a história dos Kims, uma família sul-coreana pobre que vive numa sub-cave e sobrevive fazendo pequenos trabalhos como dobrar caixas de pizza. Mas um acaso do destino acaba por levar a que filho mais novo se relacione com uma família muito rica, entrando pela porta dos fundos como empregado. Primeiro, o filho pobre começa a dar explicações à filha rica, mas depois, tal como um parasita infecta e se multiplica no corpo do seu hospedeiro, toda a restante família começa a entrar sorrateiramente na rotina da casa, sempre com recurso a estratagemas mais ou menos complexos. Curiosamente, a certo ponto, começa a fazê-lo à custa da empregada residente (também ela pobre) que trata de todas as lides da casa. Aliás, a "família" da empregada é tão pobre que ela tem o marido... bem, não vou prosseguir para não estragar a surpresa. Até porque este é um dos grandes pontos fortes da história e de todo o filme, que são as constantes mudanças bruscas na narrativa e os inesperados twists.
O tom de Parasitas é constantemente crítico mas também é nitidamente satírico. E de certa forma é justo na aproximação e não entre nos estereótipos do costume. Nem os pobres são uns coitadinhos, oprimidos ou inocentes, nem os ricos são o diabo com o coração empedernido. De certa forma, Bong Joon Ho atira para os dois lados e não deixa ninguém incólume. Acho que esse é o grande trunfo de toda a narrativa e a mensagem subjacente: seja rico ou seja pobre, um gajo vai fazer tudo ao seu alcance para ter uma vida melhor. Inevitavelmente isso acabará por atropelar outras pessoas, sejam ricas ou pobres. E é aqui que se faz a separação com base na empatia: os "bons" percebem que a determinada altura vão ter de parar; os "maus", nem por isso.
Os actores, sem excepção, são soberbos (Kang-ho Song [sinceramente, o único que conheço], Sun-kyun Lee, Yeo-jeong Jo, Woo-sik Choi, So-dam Park, Jeong-eun Lee) como é costume nos castings asiáticos, mas também são ajudados pelas personagens memoráveis.
Apesar de todos os prémios que arrecadou nunca diria que Parasitas é o melhor filme de Bong Joon Ho que já vi. Gostei tanto deste como gostei do Okja ou do The Host. Acho que simplesmente, Parasitas arrecadou prémios e impactou tanto a opinião pública porque teve o condão de tocar num ponto muito actual (o das desigualdades sociais e económicas), na altura certa. Já para não falar na questão muito criticada da (pouca) multiculturalidade na atribuição dos próprios Óscares.
Seja como for, Bong Joon Ho continua sempre em crescendo e continua a surpreender-me sempre pela positiva. Grande realização e também excelente música e fotografia. Tem momentos absolutamente geniais como por exemplo aquela cena da enxurrada no final. Brilhante. Apesar de todos os prémios que arrecadou, tenho que dizer que não foi o melhor filme que vi no ano passado. Houve um filme ainda melhor, mas isso fica para outra altura... Mas pela diferença, pela surpresa constante e por ser um filme feito de forma muito inteligente, acho muito bem que Parasitas tenha ganho o Óscar para melhor filme. ●●●●○

Num futuro não muito distante, a Humanidade vê-se confrontada com a extinção iminente. Apenas sobrevive em subterrâneos para escapar a um vírus mortal que assola a superfície e para o qual não há cura. Numa última tentativa para inverter a situação, um grupo de cientistas desenvolve uma máquina do tempo e envia o soldado James Cole (Bruce Willis) numa missão quase impossível: encontrar o terrível bando dos 12 Macacos (uma organização terrorista liderada por Jeffrey Goines (Brad Pitt), um louco com uma visão fanática da ecologia e anti-corporativista), responsável pela criação e disseminação do vírus que dizimou a maior parte da Humanidade e levar uma amostra para o futuro para tentar desenvolver uma cura. Pelo caminho, apaixona-se por Kathryn (Madeleine Stowe), uma bela mulher que nunca conheceu, mas que no entanto aparece recorrentemente nos seus sonhos.
As premissas do filme são assustadoras. Não é por acaso que a personagem de Madeleine Stowe é apresentada a meio de uma conferência em que o tema é o Complexo de Cassandra. Aqui a temática é de uma verdadeira pandemia mortal, mas sem ter origens naturais como as que temos vivido nos últimos anos. Esta é voluntária, concebida, planeada e executada por um grupo de ecologistas fanáticos que face ao descontrolo e agressão constante ao meio ambiente decide tomar as rédeas dos acontecimentos, "vingar" o planeta e simplesmente erradicar a Humanidade do problema. Em 1995 poderia parecer um tema um pouco para o chalado e completamente fora da caixa, mas agora já não é (infelizmente) assim tão descabido.
Agora vou-me afastar um pouco do filme, porque este é um tema marado. Uma das coisas que sempre me chamou à atenção nos últimos surtos virais recentes foram as teorias da conspiração. Apesar de toda a comunidade cientifica vir a público alertar que o que acontece é resultante exclusivo de factores naturais e que até são cíclicos, uma grande parte da opinião pública arranja sempre uma teoria alternativa que envolve um agressor humano. Antes, os culpados eram o russos, depois passaram a ser os americanos e agora são os chineses. As teorias são constantemente desmontadas como falsas mas no entanto elas andam por aí e cada vez com mais força. E depois ainda há um mundo inteiro que vive com os fantasmas do terrorismo. É só juntar 2+2. Terrorismo e armas biológicas. A única coisa que falta para juntar estas duas forças imensas é a vontade. Num mundo cada vez mais regido por autênticos psicopatas eleitos e apoiados por uma população crescente que parece cada mais estupidificada para lhes dar poder... Não auguro nada de bom para a Humanidade. Voltando ao 12 Monkeys... espero que não venham para aqui tirar ideias... Sinceramente, acho que não. Está a dar para perceber que o impacto económico de uma pandemia pode ser mais devastador que a própria doença. E o que rege o mundo é o dinheiro. Logo, sem pessoas, não há economia e por tabela não há dinheiro. Mas há por esse mundo fora, grupos fundamentalistas para quem o dinheiro não é a prioridade numero um, por isso convém ter este cenário sempre presente. Como dizia o outro: há pessoas que só querem ver o mundo a arder. Não é difícil de imaginar (ou prever) que mais cedo ou mais tarde, intencionalmente ou não, uma doença contagiosa poderá causar imensos danos à Humanidade, até porque já aconteceu algumas vezes na história. Apesar de vivermos numa altura em que parece que estamos acima do mundo natural, na realidade, estamos ao mesmo nível de todos os outros seres vivos deste planeta. A situação actual de pandemia de Covid-19 prova exactamente isso. Espero sinceramente que isto não descambe mais e que se resolva rapidamente com o mínimo de sofrimento humano possível, mas também espero que a Humanidade aproveite esta paragem forçada para corrigir erros e reposicionar-se mais equilibradamente no planeta. De certa forma, eu vejo o que está a acontecer agora como uma espécie de lição planetária. Veremos se alguém aprende alguma coisa com estes acontecimentos dramáticos.
Mas vamos aligeirar um pouco a coisa e voltar ao 12 Monkeys. Um dos meus realizadores preferidos é sem dúvida o Terry Gilliam. Não só pela colaboração com os Monty Python mas principalmente pela carreira posterior a solo. A ligação umbilical aos Python justifica porque muitos filmes estejam imersos na loucura, no entanto, ironicamente, Gilliam criou também alguns dos melhores filmes relacionados com a opressão, a distopia e também a temática pós-apocalíptica. Um dos melhores exemplos tem mesmo de ser o 12 Monkeys, que mistura brilhantemente tudo isto num cocktail explosivo. Não consigo imaginar outra pessoas para além de Gilliam na cadeira do realizador. É o gajo ideal para conseguir misturar todos estes temas bem pesados sem que um gajo fique automaticamente deprimido. Sem ser um filme de acção, 12 Monkeys tem um movimento constante, seja pelas filmagens tipicamente estranhas de Gilliam, seja pelas prestações dos actores que oscilam entre o brilhante e o totalmente louco. O design de produção é excelente e o guião é intocável na sua complexidade. Ainda por cima, quando uma das temáticas envolvidas é a viagem no tempo, o que normalmente resulta numa salgalhada que arruína qualquer filme. Sem ser um remake oficial do francês La Jetée, na verdade parece mais uma extrapolação directa. E aqui há que dividir o mérito pelo David Peoples (mais uma vez aplausos para o guião) que conseguiu expandir 28 minutos do conceito original para a complexidade deste 12 Monkeys, duma forma tão fragmentada, mas ao mesmo tempo tão consistente.
Tenho a certeza que vamos ver um ressurgimento do filme nos próximos tempos. Ainda bem, porque muito para além da temática algo deprimente, 12 Monkeys é um filme muito bem interpretado, muito bem realizado, muito bem escrito e muito bem feito. Um dos meus filmes de ficção cientifica preferidos. Já me está a apetecer revê-lo... novamente. ●●●●○

Mesmo com todos os exageros, os anos 80 produziram algumas mais icónicas criações do cinema. Uma das figuras que é impossível não mencionar é o Predador. Nada mau para um "banal" filme de acção e gajos musculados de ginásio... Na realidade, Predator não é assim tão "banal".
Este foi um filme que já vi na fase VHS, ou seja, numa altura em que ver filmes no cinema já era uma coisa rara. Foi pena. Gostava de o ter visto num ecrã a sério e não na Grundig da sala que teria o mesmo tamanho que alguns tablets actuais. Mas isso não invalida que tenha ficado siderado com o filme. Foi uma surpresa total. Numa altura em que os filmes de acção seguiam sempre o mesmo guião e a mesma linha de história (é mais ou menos como hoje em dia: bom contra mau e no final, o mau perde, o bom ganha e fica com a rapariga) ver o Predator a começar assim e lentamente introduzir elementos da ficção científica foi uma enormíssima surpresa. Melhor ainda, o "mau" do filme tornaria-se com o tempo num dos grande ícones do cinema. Nada mau para um "monstro" que só tem para aí uns 8 minutos de tempo de ecrã.
Tal como do Alien (e não faço grande distinção em termos de valor), como sempre fui fã do Predador, ao longo do tempo fui descobrindo umas coisas acerca desta horrenda criação cinematográfica. Por exemplo, descobri que Van Damme foi "o" Predator durante uns 2 dias. Curiosamente, em algumas das primeiras cenas com aquele manto de invisibilidade espacial, é de facto o Van Damme que lá está por baixo da fatiota... O que li acerca da desistência de Van Damme do filme, foi que ele não queira aparecer como "não creditado" e ainda por cima, todo o "monstro" original foi completamente redesenhado, o que levou ao seu abandono das filmagens. Ainda bem, porque já a vi a versão original e era ridícula; já a versão final do monstro tornaria-se lendária. Li também que o mago dos efeitos especiais, Stan Winston, criou o monstro final, mas teve a ajuda de um gajo em particular: James Cameron. Pelos vistos, encontraram-se fortuitamente numa viagem de avião e quando Winston lhe mostrou o novo design do Predator, Cameron sugeriu acrescentar alguns novos pormenores como as mandíbulas extra e aquela fronha horrível. Este pequeno momento resultante de um encontro fortuito, trouxe para o cinema uma das melhores cenas de sempre, que é quando o Predator tira a máscara (também ela muito bem desenhada) e finalmente mostra a face alienígena. Épico e memorável. Goste-se ou não, é muito raro eu encontrar uma pessoa que nunca tenha visto essa cena.
Apesar de ser um "típico" filme de acção, Predator segue as mais as passadas rítmicas do género siege-movie. Uma série de musculados comandos americanos vão sendo caçados um a um e dizimados por uma força desconhecida na densa floresta sul-americana. Um pequeno à parte para dizer que Predator é estranhamente uma co-produção México-americana. O que faz todo o sentido, porque sem os recursos digitais de hoje em dia, quando alguém nos anos 80 queria fazer um filme visualmente verosímil passado numa floresta sul-americana, tinha mesmo de ir filmar para uma floresta sul-americana. Assim, também se percebe um pouco melhor a posição do Van Damme: não deve ser nada fácil andar com uma fatiota hiper-quente numa verdadeira floresta tropical. Consta-se que ele desmaiava com o calor extremo dentro do fato. Não sei se esse parte é verdadeira ou não, mas também não estranharia se o fosse. Outros tempos em que não havia fundos verdes para filmar...
Para Predator, juntaram-se os mais musculados e carismáticos gajos dos filmes de acção da altura: Arnold Schwarzenegger, Carl Weathers, Bill Duke, Jesse Ventura e Sonny Landham. Elpidia Carrillo cria o único elemento de fragilidade em todo o filme, enquanto Kevin Peter Hall cedeu o seu extraordinário tamanho para dar corpo e movimento ao Predator. Mais uma pequena curiosidade: Shane Black aparece numa pequena participação secundária. Não sendo uma personagem muito conhecida do grande público, é um actor e guionista com alguma carreira  (os Lethal Weapons são dele) e iniciou-se há uns anos na realização (Iron Man 3 e a porcaria recente que é The Predator são da sua autoria).
Predator é um must na classe dos filmes de acção. Em cima da acção, ainda posso destacar o suspense e o terror como temáticas onde pode facilmente encaixar. Está muito bem equilibrado por parte do John McTiernan, outro gajo com muito currículo e um gajo que gosto particularmente porque dá sempre um toque especial aos filmes de acção. Até a banda sonora original de Alan Silvestri merece destaque, uma raridade no mundo dos filmes de acção, em que tudo está direccionado para as porradas e as explosões. ●●●●○

PS: Fica aqui a diferença dos trailers actuais versus os trailers da altura. Dá que pensar. Parece que antigamente não ligavam muito aos trailers. Hoje em dia, parece que fazem primeiros os trailers e só depois é que vão preencher as lacunas para dar um filme inteiro... Não admira que antigamente uma pessoa ficasse positivamente surpreendida com os filmes; os trailers eram medonhos e terrivelmente mal feitos.



PS 2: Como não ligo nada a memes e "coisas divertidas" da net, só agora fiquei a saber que um dos memes mais populares de sempre é a frase do Arnold Schwarzenegger tirada do Predator: "Run! Get to the choppa!"... Coisas modernas... Don't get it...
Vi um documentário muito bom na RTP1 sobre o fenómeno cultural que foi (e ainda é) o evento musical de Woodstock. De seu nome completo, Woodstock Music & Art Fair, foi um festival de música (e outros eventos culturais e artísticos) que se realizou na propriedade de Max Yasgur, na cidade de Bethel, no estado de Nova York, entre os dias 15 e 18 de Agosto de 1969. Na realidade, o festival deveria ter acontecido em Wallkill, mas como os moradores locais não aceitaram receber uma quantidade enorme de hippies, o evento foi transferido para a pequena localidade Bethel, a uma hora e meia de distância e a 70 quilômetros da cidade de Woodstock. O festival de música e artes surgiu como uma ideia de Michael Lang, John P. Roberts, Joel Rosenman e Artie Kornfeld, que queriam reproduzir o êxito de outros festivais que tinham frequentado em tempos recentes, com as melhores bandas do momento. Mesmo antes do evento começar foram vendidos 185.000 bilhetes sendo que a organização esperava um público total a rondar as 200.000 pessoas. Contra todas as expectactivas, apareceram mais de meio milhão de pessoas para assistir ao festival, o que obrigou em último caso a que se tornasse num evento gratuito, pois não havia forma de controlar as entradas nem de conter tanta gente num recinto.
Tinha a noção de terem actuado lá as melhores bandas daquele momento, o que na realidade não é verdade. Nomes como Ravi Shankar, Joan Baez, Santana, Grateful Dead, Creedence Clearwater Revival, Janis Joplin, The Who, Jefferson Airplane, Joe Cocker Jimi Hendrix fizeram parte do evento, juntamente com muitos outros nomes da altura. Não sendo um nativo daqueles tempos não tenho a noção da grandeza dos performers nem conheço grande parte deles, tirando os anteriores. Curiosamente, conheço bastante melhor os que ficaram de fora e não actuaram pelas mais diversas razões. Basta pensar que não tocaram em Woodstock bandas como os Rolling Stones, Frank Zappa, Simon & Garfunkel, Bob Dylan, The Byrds, Jethro Tull, Led Zeppelin, The Doors ou The Beatles.
Apesar de ser um documentário para TV, o valor e a profundidade histórica da produção é muito bom. Fiquei a conhecer por dentro um ponto cultural da música moderna, mas também da Humanidade. Dito assim pode parecer um exagero, mas vendo o documentário percebe-se perfeitamente o comentário. Em Agosto de 1969, a América vive em reboliço com a guerra do Vietname em plano de fundo e muitas mudanças sociais, sexuais e de direitos humanos a acontecerem ao mesmo tempo. E este foi um momento chave de afirmação e confronto, a favor e contra todos estes acontecimentos profundos que abalaram a sociedade americana, e tem que se admitir, por contágio, todo o restante mundo ocidental e em especial, a Europa. Não é por nada que o "evento" parece perdurar geração após geração e de alguma forma é absorvido por pessoas que nem sequer eram nascidas quando aconteceu, como é o meu caso.
A produção é enorme e o valor histórico pela recolha de testemunhos e imagens da época é inestimável. Woodstock foi muito bem escrito (por Barak Goodman e Don Kleszy) e muito bem realizado também por Goodman. Uma grande vénia também para o pessoal da produção, pesquisa de material e montagem porque merecem: fizeram uma trabalho excepcional. Um excelente documentário de visualização obrigatória. Totalmente recomendado. ●●●●○

 
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