Mostrar mensagens com a etiqueta crise. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta crise. Mostrar todas as mensagens
Alguém ainda se lembra da pandemia de gripe A (ou H1N1 para os mais técnicos...) aí por volta de 2009 ou 2010? Aquela que fez toda a gente enlouquecer e começar a esfregar as mãos com gel desinfectante de cinco em cinco minutos? É provável que não. Foi um frenesim informativo durante algum tempo, mas quase em simultâneo começou a bater forte uma crise financeira, e de um dia para outro toda a gente se marimbou para a gripe suína. Morrer é uma coisa grave, mas perder o dinheiro é muito, muito mais grave...
Influenciado pela realidade, o cinema não deixa estes acontecimentos sem registo. Nessa onda surgiu Contagion, um filme sobre uma hipotética pandemia, mas feito com todos os condimentos da realidade. Ou seja, não é um filme de acção explosivo em que um super-herói tem de lutar contra um super-vilão que quer destruir a Terra com recurso a um vírus altamente contagioso. É apenas um filme onde pessoas falam, pessoas lutam contra adversidades avassaladoras e pessoas morrem sem grande actos de heroísmo. Não é isto que as pessoas querem ver, senhor Steven Soderbergh. Obviamente não teve grande recetividade. Diga-se que não é um filme brilhante, é "apenas" mais um "Soderbergh". Quer isto dizer que está bem feito, bem realizado, bem montado, muito bem escrito e muito bem interpretado.
Steven Soderbergh é um gajo muito particular e não me canso de dizer isto: é provavelmente o gajo que mais facilmente faz filmes. É uma máquina tão bem oleada para a arte, que dá a impressão de um dia acordar com uma ideia e enquanto vai para o trabalho, pega num telefone, liga a meia dúzia de amigos, escreve qualquer "coisita" rápida, manda-lhes um SMS com o guião e depois liga a câmara e faz um filme num instante. É nitidamente um sobredotado da "coisa". E como é óbvio, tudo que é actor quer ser dirigido por ele. Neste caso, um chorrilho de grandes actores: Gwyneth Paltrow, Matt Damon, Laurence Fishburne, Kate Winslet, Jude Law, Marion Cotillard e muitos mais...
Muitas histórias cruzadas, muitas personagens, muito realismo, nenhum heroísmo, nenhuma acção. Apenas e só a realidade a desenrolar-se... Um filme destinado ao insucesso nas bilheteiras. Mas um filmito jeitoso, que apesar de ser "esquecível", vale sempre a pena ver. ●●○○○


Nunca ninguém se reúne numa mesa vazia para conviver. Excepto nos negócios. Mas aí não se convive: maquinam-se estratégias.

Inside Job, traduzido como A Verdade da Crise é um documentário do realizador Charles Fergunson, que mostra a origem da crise económica global que em 2008, de um dia para o outro, apareceu para infernizar a vida de (quase) toda a gente. Narrado por Matt Damon, este é um poderoso documentário e uma denúncia pungente sobre os culpados duma crise ainda sem fim à vista, e que muitos consideram como um gigantesco crime sem castigo. Quanto mais não seja, porque segundo o que se pode constatar, as pessoas envolvidas na origem da crise são precisamente as mesmas responsáveis pela sua resolução.
De uma qualidade excelente a todos os níveis, Inside Job conta com um guião inteligentemente construído, que consegue mostrar a complexidade do sistema financeiro americano - replicado em todo o mundo -, sem entrar em campos demasiados técnicos que dificultariam a compreensão do cidadão comum/pagador de impostos.
Esta lógica simples é muito bem apresentada a dada altura, quando se coloca a questão da ganância incessante e qual a razão porque algumas pessoas não conseguem parar de acumular riqueza, mesmo que isso se torne num prejuízo óbvio para outros. A resposta simples é dada recorrendo áquela velha competição de rapazes, mas que neste caso, não cessa na idade adulta: "o meu é maior que o teu...". Simplesmente genial. É um argumento tão simples e óbvio que nem parece verdadeiro...
É também uma oportunidade única para assistir a mini-entrevistas com Paul Volcker - presidente do Conselho para a Reconstrução Económica e George Soros, magnata da bolsa e presidente da Sociedade Aberta/Fundação Soros, entre muitos outros intervenientes de várias áreas, que de uma forma ou outra estão relacionadas com este descalabro financeiro.
Este documentário mostra também como são estreitas as ligações entre os poderes das finanças privadas e a política, a corrupção em larga escala envolvida nestes meios, os grupos de pressão para desregulamentar o sector financeiro (com os resultados que se conhecem) e mais importante que tudo, como é que os apontados culpados por esta crise ainda conseguiram ganhar dinheiro com ela: daí o quase-paranóico e omnipresente sentimento de inside job...
Duma forma subtil mas assertiva, Inside Job deixa em aberto a hipótese desta crise económica - que segundo os analistas custou 20 triliões de dólares - ser o maior golpe de todos os tempos. E em que ninguém foi, nem será responsabilizado.
Tal como diz o crítico Kenneth Turan do Los Angeles Times, este é "um poderoso documentário que o vai deixar ao mesmo tempo de boca aberta e a ferver de raiva". Tenho de concordar totalmente. Acima de tudo, Inside Job é um fantástico trabalho de pesquisa e estudo, óptimo para compreender uma situação que às vezes parece demasiado abstracta e absurda para ser real e possível. Mas a crise económica é bem real e, aparentemente, está aí para durar e continuar a gerar mais problemas. Para quem quer compreender como se chegou a este período da actualidade em termos económicos e sociais, em que só se fala em subidas de impostos, reduções de direitos adquiridos, dívidas públicas, austeridade e sacrifícios, este documentário é mesmo obrigatório. Vê-lo não faz ninguém ficar mais rico, mas pelo menos fica-se a perceber como se pode ficar mais pobre. ●●●●○

 
Copyright © 2015 todos os filmes que vi
Distributed By Gooyaabi Templates