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Em Who's Minding the Store?, Jerry Lewis é Norman Phiffier, um moço trapalhão que namora com Barbara, uma simples ascensorista numa grande loja, tipo centro comercial. Mas como é óbvio isto não podia ser assim tão simples. Na realidade, Barbara não é uma simples ascensorista... Ela é sim a filha da riquíssima dona da cadeia de lojas com quem não se dá nada bem, e que trabalha lá só para chatear a mãe... A senhora Tuttle, a mãe odiosa não concorda com o namoro e por isso giza um plano para afastá-los: contratar Phiffier para trabalhar na mesma loja onde Barbara trabalha e fazer-lhe a vida negra para ele se despedir e acabar também com o romance indesejado. Mas Norman é tão trapalhão quanto obstinado o que faz com que o resultado final possa não ser o desejado...
Para além de Jerry Lewis também se pode ver Jill St. John como Barbara Tuttle, John McGiver como o pai, John P. Tuttle, e Ray Walston como Mr. Quimby, mas o destaque só poderia ir para Agnes Moorehead que no papel da maléfica Phoebe Tuttle, mais parece uma Cruella DeVil em carne e osso.
Jerry Lewis faz novamente de... Jerry Lewis, mas desta vez numa loja! Há muita confusão, muitos tombos, muitas caretas e muita coisa a partir-se, mas para mim há pouca comédia... A única cena que me ficou verdadeiramente na memória é uma em que Lewis faz um truque de mímica com uma máquina de escrever ao som de música... Achei simplesmente brilhante. Na cadeira de realizador está mais uma vez Frank Tashlin, uma presença habitual nos filmes com a marca Jerry Lewis. Who's Minding the Store? é mesmo só para coleccionadores e apreciadores... ○○○

Vi o Parasitas (Gisaengchung, no impronunciável título original) antes de ter vencido uma porrada de Óscares e tinha-o aqui de parte para poder escrever um pouco mais quando tivesse mais tempo livre porque é um filme que justifica. É uma excelente e complexa crítica social. Mas também é uma comédia e um drama. E um thriller também. Parasitas está numa classe totalmente à parte dos filmes que um gajo normalmente vê. Se me perguntassem como é que o classificava ou com o que é parecido... Teria que fazer uma pausa ainda longa e só poderia dizer que é uma estranha mistura asiática resultante da combinação de um "Tarantino" com um "irmãos Coen". Ou seja, tudo está bem até que tudo corre horrivelmente mal.
Parasitas conta a história dos Kims, uma família sul-coreana pobre que vive numa sub-cave e sobrevive fazendo pequenos trabalhos como dobrar caixas de pizza. Mas um acaso do destino acaba por levar a que filho mais novo se relacione com uma família muito rica, entrando pela porta dos fundos como empregado. Primeiro, o filho pobre começa a dar explicações à filha rica, mas depois, tal como um parasita infecta e se multiplica no corpo do seu hospedeiro, toda a restante família começa a entrar sorrateiramente na rotina da casa, sempre com recurso a estratagemas mais ou menos complexos. Curiosamente, a certo ponto, começa a fazê-lo à custa da empregada residente (também ela pobre) que trata de todas as lides da casa. Aliás, a "família" da empregada é tão pobre que ela tem o marido... bem, não vou prosseguir para não estragar a surpresa. Até porque este é um dos grandes pontos fortes da história e de todo o filme, que são as constantes mudanças bruscas na narrativa e os inesperados twists.
O tom de Parasitas é constantemente crítico mas também é nitidamente satírico. E de certa forma é justo na aproximação e não entre nos estereótipos do costume. Nem os pobres são uns coitadinhos, oprimidos ou inocentes, nem os ricos são o diabo com o coração empedernido. De certa forma, Bong Joon Ho atira para os dois lados e não deixa ninguém incólume. Acho que esse é o grande trunfo de toda a narrativa e a mensagem subjacente: seja rico ou seja pobre, um gajo vai fazer tudo ao seu alcance para ter uma vida melhor. Inevitavelmente isso acabará por atropelar outras pessoas, sejam ricas ou pobres. E é aqui que se faz a separação com base na empatia: os "bons" percebem que a determinada altura vão ter de parar; os "maus", nem por isso.
Os actores, sem excepção, são soberbos (Kang-ho Song [sinceramente, o único que conheço], Sun-kyun Lee, Yeo-jeong Jo, Woo-sik Choi, So-dam Park, Jeong-eun Lee) como é costume nos castings asiáticos, mas também são ajudados pelas personagens memoráveis.
Apesar de todos os prémios que arrecadou nunca diria que Parasitas é o melhor filme de Bong Joon Ho que já vi. Gostei tanto deste como gostei do Okja ou do The Host. Acho que simplesmente, Parasitas arrecadou prémios e impactou tanto a opinião pública porque teve o condão de tocar num ponto muito actual (o das desigualdades sociais e económicas), na altura certa. Já para não falar na questão muito criticada da (pouca) multiculturalidade na atribuição dos próprios Óscares.
Seja como for, Bong Joon Ho continua sempre em crescendo e continua a surpreender-me sempre pela positiva. Grande realização e também excelente música e fotografia. Tem momentos absolutamente geniais como por exemplo aquela cena da enxurrada no final. Brilhante. Apesar de todos os prémios que arrecadou, tenho que dizer que não foi o melhor filme que vi no ano passado. Houve um filme ainda melhor, mas isso fica para outra altura... Mas pela diferença, pela surpresa constante e por ser um filme feito de forma muito inteligente, acho muito bem que Parasitas tenha ganho o Óscar para melhor filme. ●●●●○

Um corretor da bolsa (ou lá o que é...) riquíssimo e de boas maneiras, é condenado a uma pena de 10 anos de prisão. Percebendo que não vai sobreviver ao ambiente duro da choldra, decide contratar um ajudante, que supostamente já esteve preso, para o preparar para os dias duros que vai passar encarcerado. Esta é uma situação que deveria dar origem a muitas e boas piadas (até pela carga racial, assunto do momento na América), mas não é o caso. Get Hard é um comédia fraquita, mais do género "os ricos vs. os pobres", que outra coisa. Tem algumas piaditas engraçadas e muito punch-line sem grande imaginação. E, basicamente, mais nada. Ah! E, por breves momentos, tem uma grande pila em primeiro plano, mas como é uma comédia é aceitável e normal. É divertido... (e este divertido é totalmente irónico...) Por acaso, é uma tendência que tenho notado ultimamente nas comédias: a incidência de piadas sexuais tem aumentado imenso desde a altura em que via comédias umas atrás das outras, o que diga-se já foi literalmente no outro século!!! Mas também pode ser coincidência... Não vejo muitas comédias. Como normalmente não têm piada nenhuma acaba por ser um pouco embaraçoso. Faço-me entender? Não sei o que acontece com as outras pessoas, mas quando vejo ,por exemplo, uma cena de stand-up e o gajo que está a falar não tem piada e o público está em silêncio sem se rir, eu começo a ficar meio embaraçado e a sentir-me mal pelo gajo que é supostamente cómico. Começo a sentir uma espécie de humilhação empática e tenho logo de mudar de canal. Nos filmes cómicos acontece-me exactamente a mesma coisa. Não é uma boa sensação. Mas também não sou propriamente um gajo normal... Adiante...
Will Ferrell faz sempre o mesmo papel e aqui continua na mesma. Tem o apoio de Kevin Hart (que é até quem traz mais piada para o filme) e Craig T. Nelson também aparece por lá, mas muito pouco. Etan Cohen realiza, mas não confundir com o Ethan Cohen. É que não tem nada a ver... Get Hard é mais uma daquelas comédia do momento: fácil, sofrível mas visível. ●○○○○

An Inconvenient Sequel: Truth to Power é a sequela de An Inconvenient Truth. É um pouco mais "deslavado" que o primeiro porque já não tem tanto impacto, mas é um bom ponto de partida para uma conversa séria sobre o ambiente.
Depois de mais de 10 anos de alertas sobre questões climáticas e desequilíbrios naturais provocados pelo Homem, o que realmente mudou? Quase nada. Vendem-se mais painéis solares e agora há o hype dos carros eléctricos. Estranhamente, isto vai de encontro a esta sequela, Truth to Power. Ainda não percebi muito bem porquê, mas parece que a mensagem climática e do planeta moribundo, não tem sido bem transmitida. Para além de ter de "lutar" contra a estupidez e os "Trumps" deste "mundus econominus", parece que não temos de regredir no impacto, mas apenas tornar esse impacto "mais verde" ou "eléctrico". Fico com a ideia de que, mais do que resolver os problemas, estamos a tentar contorná-los. Parece que a salvação para este autêntico Apocalipse em câmara lenta reside no activismo, nas eólicas, nas apps, nos híbridos, em Marte e na quinoa. Não percebo o que é que se passa. A devastação neste planeta é tão grande, que sinceramente acho que já não temos salvação. Faço a minha vidinha e tento não pensar muito no assunto porque senão entro logo em depressão. Já nem consigo ver um documentário do mundo natural.
Para quem estiver desse lado do blog a pensar: "mas quem é este palhaço para vir para aqui com esta treta? Já fizeste palestras? O que é que fazes para resolver a questão? Qual é a tua solução mágica para resolver este enorme problema?", eu poderia responder de uma forma "verde", inocente e politicamente correcta: ando sempre a pé; consumo o mínimo possível; evito ao máximo o plástico; reutilizo ao máximo e reciclo tudo; e muito importante, apenas "dou" o meu dinheiro a quem causa o mínimo de impactos no planeta. Mas especialmente, aprendi a partilhar este mundo com os animais e as plantas, cada um no seu espaço, porque isto também é deles. E sei que sem eles, nós não conseguimos viver cá. Mas actualmente a minha resposta é outra. Não é fácil de ouvir - e ainda por cima ninguém a quer aceitar -, mas é muito simples: temos de ser todos pobres. Ou pelo menos viver como tal, com o mínimo de coisas e consumo. Não há outra forma. Aliás, isso é o que vai inevitavelmente acontecer se não houver uma ruptura violenta e completa na forma como vivemos. Mas, ei!, quem sou eu para fazer previsões e dizer aos restantes o que fazer? Ninguém muito relevante. Ninguém precisa de seguir os meus conselhos. Afinal sou só mais um anónimo qualquer, um "gajo normal", que escreve num blog sobre filmes. As minhas convicções são muito fáceis de desmontar. É só deixar o tempo passar e esperar para ver. Falamos novamente daqui a 10 anos. Se ainda estivermos cá todos... (sem nota)


Nunca ninguém se reúne numa mesa vazia para conviver. Excepto nos negócios. Mas aí não se convive: maquinam-se estratégias.

Inside Job, traduzido como A Verdade da Crise é um documentário do realizador Charles Fergunson, que mostra a origem da crise económica global que em 2008, de um dia para o outro, apareceu para infernizar a vida de (quase) toda a gente. Narrado por Matt Damon, este é um poderoso documentário e uma denúncia pungente sobre os culpados duma crise ainda sem fim à vista, e que muitos consideram como um gigantesco crime sem castigo. Quanto mais não seja, porque segundo o que se pode constatar, as pessoas envolvidas na origem da crise são precisamente as mesmas responsáveis pela sua resolução.
De uma qualidade excelente a todos os níveis, Inside Job conta com um guião inteligentemente construído, que consegue mostrar a complexidade do sistema financeiro americano - replicado em todo o mundo -, sem entrar em campos demasiados técnicos que dificultariam a compreensão do cidadão comum/pagador de impostos.
Esta lógica simples é muito bem apresentada a dada altura, quando se coloca a questão da ganância incessante e qual a razão porque algumas pessoas não conseguem parar de acumular riqueza, mesmo que isso se torne num prejuízo óbvio para outros. A resposta simples é dada recorrendo áquela velha competição de rapazes, mas que neste caso, não cessa na idade adulta: "o meu é maior que o teu...". Simplesmente genial. É um argumento tão simples e óbvio que nem parece verdadeiro...
É também uma oportunidade única para assistir a mini-entrevistas com Paul Volcker - presidente do Conselho para a Reconstrução Económica e George Soros, magnata da bolsa e presidente da Sociedade Aberta/Fundação Soros, entre muitos outros intervenientes de várias áreas, que de uma forma ou outra estão relacionadas com este descalabro financeiro.
Este documentário mostra também como são estreitas as ligações entre os poderes das finanças privadas e a política, a corrupção em larga escala envolvida nestes meios, os grupos de pressão para desregulamentar o sector financeiro (com os resultados que se conhecem) e mais importante que tudo, como é que os apontados culpados por esta crise ainda conseguiram ganhar dinheiro com ela: daí o quase-paranóico e omnipresente sentimento de inside job...
Duma forma subtil mas assertiva, Inside Job deixa em aberto a hipótese desta crise económica - que segundo os analistas custou 20 triliões de dólares - ser o maior golpe de todos os tempos. E em que ninguém foi, nem será responsabilizado.
Tal como diz o crítico Kenneth Turan do Los Angeles Times, este é "um poderoso documentário que o vai deixar ao mesmo tempo de boca aberta e a ferver de raiva". Tenho de concordar totalmente. Acima de tudo, Inside Job é um fantástico trabalho de pesquisa e estudo, óptimo para compreender uma situação que às vezes parece demasiado abstracta e absurda para ser real e possível. Mas a crise económica é bem real e, aparentemente, está aí para durar e continuar a gerar mais problemas. Para quem quer compreender como se chegou a este período da actualidade em termos económicos e sociais, em que só se fala em subidas de impostos, reduções de direitos adquiridos, dívidas públicas, austeridade e sacrifícios, este documentário é mesmo obrigatório. Vê-lo não faz ninguém ficar mais rico, mas pelo menos fica-se a perceber como se pode ficar mais pobre. ●●●●○

 
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