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Em 01/05 de 2020 finalmente este blog atingiu as míticas 10.000 visualizações. Pode parecer muito mas se se pensar que criei o blog em junho de 2010 basta uma conta simples de merceeiro para perceber que precisei de 10 anos para chegar a esta marca. 1000 visualizações por ano. Ok, mas também só em outubro de 2012 é que comecei a publicar coisas... O que é que isso interessa? Praticamente nada. Mas é triste. Ou talvez não. Sinceramente, criei o blog não para ter seguidores ou milhões de visualizações, mas sim para servir de repositório a todos os filmes que vi. Um dia, espero eu, estarei a criar a entrada para o meu filme 10.000. Pelo andar da carruagem ainda vai demorar bastante tempo. Foram precisos oito longos anos para conseguir introduzir "apenas" cerca de 600 filmes. É que isto dá trabalho. Não é só chegar aqui e debitar texto (por acaso até é...) ou fazer copy paste de outros sites. Não. Bem, isso quer dizer que devo precisar de uns 100 anos para listar os restantes 5000 filmes que devo ter visto até agora... Humm! Muito provavelmente não vou ter tempo para isto tudo. Mas também não interessa. O que interessa verdadeiramente são os filmes. E pensando bem, o sucesso é uma coisa relativa...

Foi exactamente há um ano que deixei de publicar aqui no Blogger. Curiosamente, este texto também tem 1 ano de idade. Escrevi-o nesse dia em que decidi deixar o o blogger para trás. Nessa altura descobri uma nova forma, muito mais fácil e imediata, de "indexar" todos os filmes que vi. Isto aconteceu porque o blogger decidiu mudar o backoffice. Estava tudo mais ou menos bem e apesar da trabalheira que isto me dava fazia-o com gosto. Mas o blogger decidiu reinventar a forma como se publica e de certa forma a coisa ia ser ainda mais trabalhosa. Entretanto descobri que havia um sítio (Letterboxd) onde podia fazer praticamente a mesma coisa e com muito menos trabalho. Juntando as duas coisas, a escolha foi óbvia e rápida. Passei para lá. Decidi que iria manter o site por aqui, mas apenas dedicado a temas específicos que não dão para fazer no tal site ou para falar sobre que filmes que me marcaram. E também sobre filmes que não sendo propriamente bons, me levam para outras questões paralelas que ultrapassam os limites do próprio filme. Entretanto... o mundo decidiu também mudar... e eu mudo constantemente com ele. Vamos a ver se não há mais alterações. Provavelmente sim. Deve ser por isso que eu gosto de arquivar coisas. As coisas mudam tanto com o passar do tempo, que a melhor forma de avaliar essas mesma mudanças é compará-las com o tempo passado... Pronto! Já estou novamente a divagar. É exactamente por causa disto que decidi voltar aqui ao site. Às vezes gosto de simplesmente divagar para outros temas começando por um filme...

A partir deste momento, este blog deixa de ser uma site em que publico todos os filmes que vi e torna-se num espaço de reflexão pessoal sobre o mundo, sobre as pessoas sobre tudo o resto, tendo sempre como ponto de partida um filme. Obviamente que as coisas podem descambar para outras vertentes que nada têm que ver com o mundo do cinema. Eu mudo constantemente. Este site simplesmente tenta acompanhar-me... Veremos no que isto dá e por quanto tempo se mantém assim. 

The Artist é uma homenagem a um tempo de Hollywood tão distante que a maior parte das pessoas já nem sonha que existiu. A história é sobre o actor George Valentin, uma ubíqua e famosa estrela de filmes mudos que, ao mesmo tempo que se enamora com uma jovem dançarina, começa também a ver a sua carreira entrar em declínio devido ao aparecimento dos filmes "falados".
Homenagem talvez não seja a palavra mais apropriada para classificar The Artist. Acho que reflexão seria a palavra mais indicada. É neste período que se dá uma cisão muito grande no cinema, entre o status quo do mudo e a novidade dos filmes sonoros. Se para os estúdios foi uma oportunidade de inovar e assim chamar novos clientes, para os actores foi uma revolução demasiado disruptiva. Toda a forma de actuar teve de mudar e aconteceu quase da noite para o dia. Estrelas mundialmente estabelecidas como Douglas Fairbanks e Mary Pickford de um momento para o outro ficaram quase no desemprego e e até lendas como Charlie Chaplin se ressentiram. Volátil como sempre, o público queria coisas novas e o novo era o sonoro. O cinema mudo estava condenado juntamente com todas as equipas de produção, estúdios, actores e técnicos que não fizessem (ou não conseguissem) a passagem para o som. Aquele jeito de actuação teatral, tipo pantomina, tinha chegado ao fim...
A personagem de George Valentin é nitidamente Douglas Fairbanks. Aliás, no auge da sua depressão, enquanto vê uns filmes antigos com aventuras do Zorro, na realidade o que se está ver é um filme de Douglas Fairbanks, mas com algumas cenas de close up protagonizadas por George Valentin.
Num filme mudo, a performance dos actores é radicalmente diferente. Tem de ser mais dramática, exagerada e, por vezes, até caricatural porque sem palavras (nem outro som qualquer) é obviamente muito mais difícil de chegar ao público e transmitir emoções. A actuação é uma mistura de emoções físicas que apenas a música de fundo pode acentuar. Não digo que seja mais difícil ou mais fácil, mas parece-me que é outra coisa completamente diferente. E por isso tenho que destacar Jean Dujardin, que sendo obviamente um actor moderno parece ter vindo directamente do tempo do cinema mudo. Está tão perfeito que se fosse possível recuar no tempo e inseri-lo na altura do filmes mudos, acho que o público nunca notaria a diferença. De certa forma é Jean Dujardin desta forma tão verosímil, tão anos 20, tão silencioso e emotivo que dá a sensação de se estar realmente a ver um filme da era do cinema mudo. Está tudo muito bem feito neste The Artist, mas Jean Dujardin é 50% do sucesso do filme. Uma performance que merece todos os prémios e mais alguns.
No sentido contrário, o resto do casting não salta tanto à vista. Bérénice Bejo, John Goodman, James Cromwell e Penelope Ann Miller servem bem como actores de suporte mas não passam muito disso. No caso de Bérénice Bejo o caso é ainda mais gritante, porque é peça fundamental do argumento. Não é que Bejo esteja mal, mas simplesmente não se sente a química nem o romance entre os dois actores. Há muito mais química negativa entre Jean Dujardin e Penelope Ann Miller em breves minutos (que era a intenção do argumento, num casamento em decadência) do que química positiva entre os dois amantes durante o filme todo. A discrepância entre Bérénice Bejo e Jean Dujardin é tão grande que para mim é mesmo a grande falha do filme. E claro que não podia deixar passar em branco a minúscula participação de Malcolm McDowell.
O filme é muito fiel àquela altura do cinema e muito pormenorizado (até tecnicamente) ao ponto de ser filmado com menos frames para dar aquele look acelerado tão típico dos filmes da era muda e até na própria proporção do ecrã que usa. Não fazia muito sentido simular um filme mudo sem ser naquele enquadramento 4:3 meio "quadrado", pois não?
The Artist é uma pequena pérola que, passado o impacto e choque inicial de se perceber que o filme vai ser totalmente mudo, irá deliciar a maior parte do público. A música não começa muito bem (parece algo dessincronizada da acção), mas depois ajusta-se perfeitamente para suportar emocionalmente todas as cenas. A história de decadência, regresso e reatamento amoroso é universal, por isso nunca falha. E aquele final simpático a fazer a transição para os grandes filmes musicais dos anos 30 e 40 (grande cena de dança, já agora) é simplesmente perfeito. Nota-se que foi um filme muito bem pensado mesmo antes de chegar a ser filmado e daí um enormíssimo destaque para Michel Hazanavicius, quer seja pela realização, pela preparação ou pela escrita. Até no pormenor de a primeira palavra a ser proferida em todo o filme ser "cut" e a última a ser "action" para dar uma continuidade pós-filme. Muito bom. Muito bem pensado. The Artist vê-se muitíssimo bem e é totalmente recomendado. ●●●


Alguns factos curiosos que encontrei nas minhas pesquisas. Este foi apenas o segundo filme mudo a ganhar prémios nos Óscares. O primeiro tinha sido Wings em 1927. A última vez que um filme totalmente a preto e branco tinha ganho o maior galardão de Hollywood tinha sido em 1960 com The Apartment. Se as referências a antigas estrelas do cinema mudo são constantes, elas chegaram aos rcenários. A casa da personagem de Peppy Miller é na realidade a antiga casa de Mary Pickford que mais tarde viria a casar com Douglas Fairbanks, uma lenda do cinema mudo, cuja vida e carreira, sem dúvida nenhuma é a base para este The Artist. Entre outros pormenores, notei também naquela cena aberta da escadaria, que havia ali algo familiar; descobri que aquela enorme construção metálica de escadas é nada mais nada menos que o átrio do Prédio Bradbury... onde foram filmadas algumas das cenas mais icónicas de Blade Runner... há coisas que não consigo mesmo esquecer... Mas para mim, o facto mais curioso de todos, foi ter sido necessário uma equipa europeia, fazer um filme europeu (é tudo francês...) para mostrar uma faceta de Hollywood de uma forma que Hollywood nunca teve capacidade de fazer. Isso sim, é que é curioso...
A apresentação de provas terminou e o juiz acaba de instruir os jurados. Eles terão de se reunir e decidir literalmente sobre a vida ou a morte de um jovem acusado da morte do pai. As provas parecem apontar inequivocamente para a culpa do jovem e a reunião dos 12 jurados parece apenas uma formalidade jurídica. No entanto, quando tudo apontava para uma conclusão rápida, a situação dá uma volta inesperada quando um dos jurados declara que o jovem é inocente porque tem dúvidas sobre o caso. A polémica estala entre os jurados... Uma sala pequena, abafada, quente e 12 homens a decidirem sobre a vida ou a morte de um jovem. Eis a premissa de 12 Angry Men.
Aos poucos, vai-se sabendo mais das particularidades dos caso, mas também se vai conhecendo melhor a personalidade dos jurados e porque é que eles pensam da forma que pensam. Tudo se resume, literalmente, ao esgrimir de argumentos entre estes 12 actores: Martin Balsam, John Fiedler, Lee J. Cobb, E.G. Marshall, Jack Klugman, Edward Binns, Jack Warden, Henry Fonda, Joseph Sweeney, Ed Begley, George Voskovec, Robert Webber. Todos têm tempo de antena, todos são importantes para o desenrolar da história e todos merecem o mesmo destaque.
Esta foi a estreia bombástica Sidney Lumet, numa produção do próprio Henry Fonda. Lumet conseguiu fazer um filme numa mísera sala e ainda assim construir todo um mundo de personagens. Não é coincidência que só saiba o nome de dois dos jurados (Davis e McCardle). Os restantes só são conhecidos pelas suas profissões. Os nomes não são importantes... O importante é o que eles significam, pois todos são um género de estereótipo da sociedade americana. Não é uma coisa muito perceptível, mas é mais um excelente pormenor a juntar ao resto. Acho que poucos filmes conseguem uma simplicidade tão brilhante quanto este. Um guião absolutamente sem falhas, grandes diálogos dramáticos e uma ambiência quase de suspense, que deixa um gajo agarrado à cadeira à espera de novos desenvolvimentos na história. E quando uma pessoa pensa que aquilo vai bloquear numa situação, somos logo confrontados com uma reviravolta...
Este é um dos grande filmes de sempre. Posso ir mais longe e afirmar que 12 Angry Men resume toda a essência do cinema: uma boa história, bons actores, um cenário e um realizador com capacidade para misturar isto tudo. E esta é talvez, a mais perfeita mistura com o mínimo possível de ingredientes. Um caso de estudo sobre como fazer um filme perfeito. Nada a apontar. Um dos grandes filmes da história do cinema. Absolutamente obrigatório. ●●●●●

Honey Whitlock é uma grande estrela de Hollywood. Mas é também um produto de estúdio, e portanto uma fachada de falsidade. É então que entra em cena um grupo de cinema de guerrilha independente, liderados pelo realizador louco Cecil B. Demented. O plano é raptar a grande actriz de Hollywood e obrigá-la a ser a estrela de um filme independente.
Apesar de ser um nome reconhecido, John Waters não é de todo um nome cómodo no meio do cinema. Abertamente anti-sistema e um fazedor de "obras-primas de mau gosto", Waters sempre primou por deitar abaixo o status quo dos estúdios de Hollywood. E a coisa é mais ou menos recíproca. Aliás, aqui ele deita abaixo todo o sistema de Hollywood, incluindo agentes e actores.
Cecil B. Demented é uma "coisa" estranha. Devo já dizer que não sou grande fã do John Waters. Aquela coisa da javardice e do mau-gosto não é para mim, mas reconheço-lhe algum valor. Mas apesar disso não gostei nada deste filme. Percebo a crítica aos grandes estúdios, aos grandes blockbusters, e à lógica da fachada extremamente polida mas falsa das grandes estrelas. E por contra-ponto também percebo a crítica à falta de espaço para os filmes de menor dimensão, dos independentes e dos mais experimentais, assim como à falta de espaço de distribuição e divulgação destes filmes, que assim, muitas vezes morrem logo à nascença sem terem hipótese de sequer ser detestados pelo público. É que nem saem das mesas de montagem para os cinemas. Às vezes dá mesmo vontade de raptar alguém e fazer uma espécie de cinema de guerrilha para chamar a atenção das discrepâncias entre os dois tipos de cinema.
O título do filme não é inocente. Cecil B. Demented é obviamente uma sátira ao lendário Cecil B. DeMille, um dos maiores realizadores/produtores de sempre, comummente reconhecido como um dos fundadores da indústria cinematográfica de Hollywood e um dos homens comercialmente mais bem sucedido da história do cinema. Cecil B. Demented é a perfeita antítese. Sem dinheiro, sem valor e sem reconhecimento.
Stephen Dorff dá corpo a Cecil e na sua equipa de renegados há nomes Alicia Witt, Eric Roberts, Michael Shannon and Maggie Gyllenhaal. Também há Melanie Griffith, mas faz o seu próprio papel...
Gostei do olhar, da crítica incisiva e de um ou outro pormenor, mas no geral não gostei assim tanto de Cecil B. Demented como pensei que ia gostar... ○○○

Another 48 Hours tentou capitalizar o enorme sucesso que foi o 48 Hours. Cai em termos de qualidade, porque é mais do mesmo, excluindo tudo o que eram bons pormenores do primeiro filme. Não houve progressão. Foi quase como um novo episódio da série. Está à vista que isto foi uma manobra de estúdio: Vamos fazer uma sequela e vender mais bilhetes, e não uma questão de haver mais alguma coisa para contar ou acrescentar. Do ponto de vista da intenção do estúdio foi uma estupidez porque entretanto passaram-se 8 anos entre os dois filmes. O público provavelmente já nem era o mesmo do primeiro filme. Basicamente, criaram aqui um episódio seguinte, um bocado como acontece hoje em dia. Mas no principio dos anos 90 o público não estava para estas coisas. O pessoal queria ver coisas novas e não repetições ou continuações de histórias. E não perdoava. A dupla acabou, mas ficou o conceito e ainda não parou de ser explorado. Se no primeiro filme elogiei todas as pessoas envolvidas acho que é justo virar o argumento ao contrário e não atirar todas as culpas para a ganancia infinita dos estúdios. Walter Hill, Eddie Murphy, Nick Nolte e toda a restante equipa estiveram mal. Foram simplesmente atrás do dinheiro e pronto, foi isso. Portanto vou dar todo o destaque para os secundários Brion James, Kevin Tighe e Ed O'Ross, gajos que nunca tiveram protagonismo, mas que sempre reconheci como muito bons actores. Entretanto esquecidos pelo tempo, estes três acompanharam-me ao longo de anos e junto têm mais de 300 filmes no currículo. Três pancadas no peito para os grandes secundários do mundo do cinema e de Hollywood.
Another 48 Hours é a sequela típica, precursora dos fenómenos comerciais de hoje em dia: sem nada para acrescentar, sem nada de novo, apenas uma reciclagem de uma fórmula anterior que teve sucesso. Fraquinho, mas ainda se vê. ○○○

Durante muito anos, ouvi falar de um filme de guerra que supostamente era o melhor de sempre. Tive a sorte e o privilégio de poder assistir a uma reposição numa sala de cinema. Ia com a expectativa no máximo, o que nunca é bom, porque pode facilmente derrapar para a decepção. Na realidade, o filme é bastante longo e lento, mas isso já sabia. Como tinha a sensação que ia ser uma visualização dura, preparei-me mentalmente, mais como se fosse encaminhado para um experiência nova do que para ir ver um "simples" filme.
Um filme de guerra baseado em eventos verídicos, passado na Bielorrússia, onde durante a II Guerra Mundial, um quarto da população daquele país foi chacinada pelos nazis, e tudo isto observado, durante mais de 2 horas, pelos olhos de um adolescente, eu já sabia que não ia ser fácil de ver. O filme começou e para ser totalmente sincero, ao fim de 30 minutos já começava a pensar que tinha sido enganado. O filme é absurdamente lento parece que não tem uma direcção definida e as personagens parecem todas meio loucas. A história parecia que não ia passar daquilo. Ao fim de quase uma hora de filme estive quase a desistir. As performances hiper-exageradas dos actores, mais teatrais que outra coisa, o contínuo do som estridentemente irritante e a lentidão exacerbante da narrativa estavam a dar cabo de mim, tanto mentalmente, mas até fisicamente. Tinha dores nas costas e estava irrequieto numa sala de cinema reconhecida pelas suas cadeiras desconfortáveis. Mas então, tal como as bombas que repentinamente caiam sobre as personagens, de repente, as coisas mudaram.
Vem e Vê (Idi i smotri, no título original) começa verdadeiramente a ganhar tração. Todo aquele tempo, que pareceu desperdiçado, era uma espécie de preparação mental para o que vinha a seguir. A partir daí, começa a entrar nos campos do sublime. A loucura toma conta do filme e a determinada altura, esqueci-me que estava a ver uma peça cinematográfica. Tornou-se verdadeiramente numa experiência. Entra-se num cenário de guerra. Sente-se o terror. Cheira-se a loucura. O zumbido constante torna-se numa linha de continuidade a que uma pessoa se quer agarrar.
Vem e Vê é um dos poucos filmes de guerra em que se começa a detestar a guerra. Ela não é dramatizada ou glorificada; é odiada. Por isso é que Vem e Vê é um dos grande clássicos do cinema. É um filme de guerra potente porque Elem Klimov nos" obriga" a olhar para o ecrã, para aquelas atrocidades todas e a pensar que aquilo não é natural; aquilo não deveria existir. Como é que situações daquelas foram possíveis? Vem e Vê mexe com o cérebro de uma pessoa. É um daqueles filmes que não se esquece porque é como estar a ver o Inferno na Terra. Tecnicamente é irrepreensível, mas a nível dos actores é algo do outro mundo. É duma intensidade que dá arrepios na espinha. Aleksey Kravchenko. Uou! Que tour-de-force. Que coisa espantosa para um miúdo. Uma actuação única e para a história. Nem parece verdade. Parece que o miúdo não está a representar um papel num filme. A determinada altura, parece que ele viveu mesmo todos aqueles momentos horrendos. Ao seu lado, um fantasma. Não sei a experiência foi demasiado perturbadora, mas Olga Mironova não fez mais filmes depois deste. E mesmo com a net intrusiva que temos hoje em dia, boa sorte a tentar encontrar uma biografia. Um mistério...
E depois, o final. Um dos melhores finais de todos os tempos. Quando uma pessoa, começa finalmente a respirar de alívio porque percebe que o filme caminha para o seu términus, Vem e Vê pega nos nossos neurónios e leva-nos a dar uma volta fantasiosa para trás no tempo. Depois põe-me em lágrimas com a música mais bela e triste de sempre e impõe uma questão bastante pertinente: e se pudéssemos voltar atrás no tempo para evitar tudo aquilo que se acabou de ver? E se para isso fosse preciso fazer "aquilo"? (não quero estragar o final, porque esta é a melhor parte). E é essa questão que ainda permanece em disputa na minha cabeça, tanto tempo depois de ver o filme. Há muito poucos filmes que me põe realmente a pensar e em que eu não tenho uma reposta concreta e absoluta. Vem e Vê é um deles. Confrontado com aquela situação final, o que faria eu? Sinceramente não sei responder e mesmo que conseguisse responder, não sei que o conseguiria concretizar. Este é o poder dos grandes filmes. Perduram nos nossos cérebros para sempre. Vem e Vê muito provavelmente só sairá do meu circuito de neurónios, quando eles deixarem de funcionar. Vem e Vê correspondeu totalmente ao que esperava. É uma obra essencial e obrigatória. ●●●●●

Antonius Block (Max Von Sydow) é um cavaleiro que desembarca numa praia da Suécia após dez anos nas Cruzadas ao serviço da Igreja. Logo na chegada, encontra-se literalmente com a Morte que o desafia para um jogo de xadrez. O resultado final para o cavaleiro é simples: se ganhar, vive; se perder, morre. O jogo começa e vai-se desenrolado lentamente ao longo do filme. No caminho de regresso a casa, o que ele encontra é um país devastado pela Peste Negra. Antonius já tinha a sensação de ter desperdiçado uma vida inteira numa demanda sem sentido. Já tinha perdido a fé em Deus ao ver as atrocidades no campo de batalha. Mas agora, vendo o estado em que se encontra o seu país, com vilas inteiras destruídas pela peste e pela fome, questiona cada vez o papel de Deus na sociedade e a forma como a sociedade se socorre em Deus nas alturas mais desafortunadas. Neste caminho duro, ele e o seu fiel escudeiro encontram uma série de personagens (uma família de nómadas de circo, um casal com problemas matrimoniais e uma jovem que vai ser queimada na fogueira por ter tido contacto com Diabo). Percebendo que não vai conseguir ganhar o tal jogo de xadrez, Antonius arranja uma outra forma de enganar a Morte.
Em termos gerais, é esta a história do filme que os críticos unanimemente consideram uma obra-prima do cinema e muitos, como o melhor filme alguma vez feito. O Sétimo Selo (Det Sjunde Inseglet, no título original) é um daqueles filmes sobre o qual não se pode apontar nada de mal. O que é errado. Permitam-me então discordar.
Apesar de ver muitos filmes, tenho obviamente a minha vidinha para fazer e não posso estar sentado o dia todo a analisar filmes. Para além disso, o acesso a filmes pré-anos 60 é bastante limitado. De uma forma quase geral, todos os filmes que vi reportam desde o meio dos anos 60 até aos dias de hoje. Isto quer dizer que me falta uma fatia gigantesca (e obviamente conhecimento técnico e crítico) de filmes para ver. A minha lista aumenta a cada dia, porque não é fácil para um amador como eu ter acesso aos filmes dos anos 20, 30 ou 40 por exemplo. E parece que não, mas isto é importante. A perspectiva muda e a forma de análise dos filmes muda bastante. Já notei isso quando comecei a alargar o leque de filmes para fora do espectro americano. Quer se queira quer não, o cinema americano é ubíquo e eu, como muita gente, durante muitos anos não tive contacto com filmes de outras origens. Por conseguinte, os filmes americanos eram os melhores do mundo... Até que comecei a ver outro tipo de filmes, de outros países, com outra língua, com outras temáticas e com aproximações radicalmente diferentes da dos americanos. Isso já mudou imenso a minha perspectiva. no entanto, o grosso do meu arquivo cinematográfico ainda continua a ser o cinema americano e ainda continua a ser o meu ponto de comparação.
Não tendo hipóteses de viajar no tempo para analisar se o filme teve um grande impacto na altura da estreia ou se foi revolucionário na forma de mostrar a história ou de qualquer outra forma, a única forma que tenho para balancear o impacto deste filme é comparar com outros filmes do mesmo período. Por exemplo em 1956 estreou The Ten Commandments, Invasion of the Body Snatchers e o Giant. No mesmo ano (1957), por exemplo há o Paths of Glory, o The Incredible Shrinking Man e Twelve Angry Men. No ano seguinte chegaram aos cinemas filmes como Touch of Evil, Cat on a Hot Tin Roof ou o Vertigo. Isto são só exemplos do que se fazia e se via na altura. Comparativamente... acho que nenhum dos anteriores filmes fica atrás do Sétimo Selo, e alguns aco que até são superiores. Portanto... como assim? Melhor filme de sempre? Não me parece.
Apesar de todos os bons pormenores, O Sétimo Selo não me impressionou. Foi mais um caso de expectativas artificialmente elevadas. Tem obviamente momentos brilhantes. Por exemplo, a cinematografia a preto e branco é muito boa. Tem momentos que, se se parasse a imagem, parecem obras de arte. A cena da marcha de penitentes que irrompe pela vila é absolutamente brilhante. Tem pormenores de realização que nitidamente foram copiados "n" de vezes em variadíssimos filmes futuros. A imagem icónica da Morte de capuz preto a jogar xadrez com Antonius na praia é de antologia. O grande suporte do filme é a lógica filosófica de que está revestido. Claro que está rodeado de grandes pensamentos filosóficos e questões humanas profundas. É um filme que nos deixa a pensar no assunto de Deus e da Morte durante algum tempo. Mas o desenvolvimento narrativo do filme em si não é assim tão profundo. As questões do cavaleiro são as mesmas que qualquer pessoa, a determinado ponto da vida, de uma forma ou outra, acaba por ter. Não é um pensamento assim tão radical. O que me parece é que O Sétimo Selo é um exercício de pensamento do próprio Ingmar Bergman. Uma forma de expiação. Uma procura de respostas. E a resposta implícita é de que não vale a pena recorrer a algo superior. A salvação está garantida, não porque se acredita num ser superior, mas pelo sacrifico pessoal e por actos solidários para com os outros. É assim que Antonius engana a Morte. Quer dizer, ele não engana a Morte para seu benefício, mas distraindo a Morte e salvando as outra pessoas. Acho que é nesta "resposta" em que me parece que O Sétimo Selo se torna intocável em termos de crítica: no mínimo é um filme agnóstico, no máximo é um filme ateu. Se o cavaleiro conseguisse enganar a Morte com recurso à devoção a Deus, o filme seria assim tão bem cotado por parte dos críticos? Aposto que não. Obviamente não tenho nada que segure esta minha opinião, mas é um feeling que tenho... Para além disso, e mais importante ainda, é que acho que ninguém querer ir contra o status que o filme já adquiriu. Basicamente ninguém quer dizer algo contrário ao que todos dizem há tantos anos. É por isso que há uma tão grande unanimidade na crítica do filme. Tentei encontrar críticas com menos de máxima cotação e é quase impossível. É algo que me atordoa. Não desgostei do filme e acho que tem muitas coisas excelentes. Mas tal como tudo na vida, tem de haver um equilíbrio e em O Sétimo Selo há outros pormenores para além dos bons, que lhe tiram valor. Ignorar esses aspectos é simplesmente falsear o resultado final. Lido assim, parece que O Sétimo Selo é um mau filme. Não é verdade. É um excelente filme, apenas não me "encheu as medidas". Tinha era que lhe apontar as falhas, já que por todo o lado, estão apenas as coisas boas. Se quiserem saber tudo o que de bom o filme tem, por favor, ler a crítica especializada.  
Max Von Sydow faz um papel excepcional como Antonius Block. Mas até aqui tenho críticas a fazer, porque por contra-ponto, talvez o papel principal seja mesmo o de Gunnar Björnstrand, Jöns o escudeiro. É ele que tem as melhores deixas e parece que o filme está mais centrado no seu jargão filosófico do que propriamente nas questões existenciais de Antonuis ou na presença de Bengt Ekerot a representar a Morte. Diga-se que Bengt Ekerot aparece muito menos do que aquilo que se possa pensar. Acho até que tem um papel demasiado minúsculo para uma personagem que é tão central na história. Nils Poppe, Bibi Andersson e tal como tantos outros, têm papéis exigentes porque as personagens são demasiado teatrais. Aliás, a determinado ponto, O Sétimo Selo, mais que um filme, pareceu-me uma muito elaborada peça de teatro. Tenho de dizer que este tipo de aproximação e este tipo de representação não é nada do meu agrado.
Apesar de lhe reconhecer muitos méritos, O Sétimo Selo foi um pouco decepcionante. Anos e anos a ler críticas fantásticas que o classificavam "como o melhor filme alguma vez feito", elevaram demasiado a fasquia. Mais do que as grandes dúvidas existencialistas que (supostamente) o filme levanta, a grande marca do O Sétimo Selo é deixar uma mensagem que toda a gente já percebeu, que é intrínseca a todos os seres humanos, mas que (infelizmente) uma pessoa não dedica muito tempo a pensar: a Morte está sempre à espera. Chegar ao final do jogo é apenas uma questão de tempo. É uma inevitabilidade da própria vida. Por isso, aproveitem o tempo que resta e façam alguma coisa de bom com ela. ●●●●○

De todos os vídeos mais consumidos no mundo inteiro, há uns que saltam à vista: são os trailers de filmes. Eles são as melhores ferramentas de promoção que os filmes e os estúdios têm à disposição. Fazem toda a diferença no que toca em chegar ao público e os estúdios sabem muito bem disso. Mas sendo um eterno curioso, sempre me intrigou o nome. Porquê trailer? Tipo, como em "semi-reboque"? Uma coisa que é suposto "vir a seguir a...", mas que aparece "antes de..."? Não me fazia sentido nenhum. Fui então descobrir a origem do humilde, mas omnipresente trailer...
Hoje em dia não preciso partir muito a cabeça à procura das coisas, por isso aqui fica o link. Mas seja como for, um pequeno resumo para mim próprio.
O termo trailer vem do pormenor de terem sido originalmente exibidos no final das longas-metragens (ou seja, a reboque do filme, daí o "trailer"). No entanto, tal como acontece hoje dia, em que ninguém liga ao créditos finais, acabado o filme, o público normalmente abandonava a sala de cinema e então via os trailers. Assim, os trailers passaram para a parte inicial da exibição dos filmes.
Como sempre acontece quando um gajo pesquisa coisas na net, encontra discrepências. Historicamente, há discussões sobre se o primeiro trailer foi do filme The Adventures of Kathlyn, em 1913 ou se foi o Pleasure Seekers de 1912. Questões técnicas à parte, os trailers foram para o início dos filmes e foram-se disseminando como uma parte integrante do próprio cinema. Se bem que ultimamente foram recuperados nos grandes blockbusters da Marvel. O que foi vinculado como uma grande novidade, afinal não é mais que uma repetição... Mas para além desta questões ,alguém consegues imaginar o cinema sem trailers?
Há tantos aspectos nos trailers, tanta história e tanto para falar que acho que conseguia escrever um livro inteiro sobre o tema. Mas vou-me conter e mencionar apenas alguns pormenores que acho relevantes. Logo à partida há os trailers clássicos, que para mim, são aqueles que acho que melhor representam os trailers à moda antiga.



Vendo as coisas em perspectivas, por definição, os primeiros trailers eram na verdade teasers. Pequenos trechos do filme que viria a seguir sem mostrar quase nada do filme, apenas para aguçar a curiosidade. É curioso que isso aconteça porque hoje em dia, o primeiro contacto dos filmes com o público é precisamente com o teaser. Os estúdios lançam "n" de teasers, por vezes, meses antes da estreia e com os filmes ainda na mesa de montagem ou pós-produção, só para manterem o público em contacto e a salivar. Um exemplo recente de um teaser para o lançamento do próprio teaser trailer (!!!) e um exemplo antigo que apostou bastante no efeito surpresa...




Uma das coisas que mais sucesso faz hoje em dia no mundo dos trailers é pegar num filme antigo e fazer-lhe um trailer moderno.  Há que dar todo o mérito a este pessoal com tempo, saber e paciência suficiente para fazer estas coisas. Na maior parte dos casos fazem um trabalho verdadeiramente espectacular. Mas mais importante que esta renovação visual dos filmes antigos, mostram um pormenor importantíssimo: a promoção é tudo! Já não é a primeira vez que noto que o trailer é muito melhor que o filme. Às vezes engana bem o público. O trailer é profissional e tem um tom que o filme, de aspecto às vezes amador, nem lhe chega perto... Mas o mais relevante é o que "amadores" conseguem fazer com o material original...





A recente entrada em acção dos mega-blockbusters, para além de "industrializar" os lançamentos, os argumentos e as próprias estruturas narrativas dos filmes, acabou por contaminar também os próprios trailers. Agora já não são só os filmes que parecem todos iguais; os trailers também são todos iguais. É a derradeira invasão do cliché...




Agora uma homenagem. Eu não sei se isto aconteceu com mais alguém, mas durante anos estranhei o facto de todos os filmes terem a mesma locução. Havia uma série de pessoas com vozes muito parecidas, espectacularmente graves a fazer a narração dos trailers em doses industriais? A resposta é não. Havia apenas um homem. Quando se fala de trailers há um nome que simplesmente não pode ser ignorado. Don Lafontaine. Apesar de ser um ilustre desconhecido, a sua voz é omnipresente. Milhares de trailers, décadas de trabalho, e uma voz profunda e inconfundível nos quatros cantos de mundo fizeram com que gerações inteiras reconheçam este génio na sombra. Merece todo o meu reconhecimento e aplausos porque é parte integrante do mundo do cinema.



E por último, pergunto eu: dada a importância e a omnipresença, não deveria haver um prémio anual, tipo Óscar, para o melhor trailer? Fica aqui a sugestão...
Quando o filme é Ghostbusters, eu poderia estar aqui uma tarde inteira a escrever. Tem tantos pormenores e tanta coisa boa para se falar que dava uma enciclopédia. A música original de Ray Parker Jr.; os excelentes efeitos especiais (para a altura), numa lógica de verdadeira magia do cinema; as figuras icónicas em que se transformaram os próprios Ghostbusters; o Stay-Puft Marshmallow Man gigante e o Slime verde; a carrinha branca e aquele som único da sirene. Poderia falar de todos estes pormenores, mas acho que nem vale a pena. São tão icónicos e imediatamente reconhecidos que seria redundante. Tudo isto já faz parte da cultura geral.
Acho simplesmente que é a mistura tão bem construída de comédia e terror (para 1984; hoje seria considerado mais fantasia do que terror), que o torna num filme perfeito. Parabéns ao Ivan Reitman por ter dado vida a estas personagens e por feito um filme que é uma referência para mim. E não só. Acho que é um filme intemporal. Nunca está desactualizado e nu sai de moda.
Foi muito provavelmente o primeiro filme que vi num cinema. Para um miúdo, foi uma experiência avassaladora, num misto de medo e diversão, tudo ao mesmo tempo. Foi espectacular. Perdi a noção da quantidade de vezes que vi os Ghostbusters, mas já foram muitas. Ainda há pouco tempo estava a dar na TV e não consegui resistir. Tive de o ver outra vez.
Bill Murray, Dan Aykroyd, Harold Ramis e Ernie Hudson serão os Ghostbusters para sempre. Apesar da fatia maior de mérito ser obviamente do Dan Aykroyd e do Harold Ramis (por causa do guião), é obviamente o Bill Murray que rouba todo o protagonismo. É um dos gajos mais naturalmente cómicos que algum vez vi. Um dos meus gajos favoritos de sempre. Sigourney Weaver, Rick Moranis, Annie Potts e William Atherton fazem a melhor conjugação secundária que me lembro. Todos têm deixas memoráveis e inesquecíveis. O que é incrível, se se pensar que a maior parte do guião original não foi respeitado. Grande parte dos diálogos foram improvisados, o que é incrível.
Para mim, Ghostbusters é o protótipo do derradeiro filme de família. Perfeito. Fantástico. Surpreendente. Cómico. Melhor é impossível. ●●●●●

E agora, algo completamente diferente... Maria, uma call girl, é contratada por Mouros para seduzir Meireles, o presidente da Câmara de Vilanova, para que ele quebre as regras e autorize a construção de um empreendimento de luxo. Uma temática muito portuguesa, portanto. Como sempre, a PJ investiga. As coisas complicam-se ainda mais quando o inspector responsável pela combate à corrupção descobre que Maria é uma antiga namorada.
Indo directo ao assunto, Call Girl é um filme bastante aceitável. Foi muito bem realizado por António-Pedro Vasconcelos, um dos poucos realizadores portugueses que faz filmes "comerciais" sem que se pareçam com telenovelas quitadas. Um dos grandes pontos positivos do filme é a história de corrupção que está muito bem construída. E nem seria preciso puxar muito pelos neurónios. É uma história tão presente no imaginário e no quotidiano português que poderia muito bem ser o tema principal do Telejornal.
O outro ponto muito positivo é o leque de actores, que é provavelmente o melhor casting luso que vi reunido nos últimos tempos. Impecável. Destaque para a Soraia Chaves, que para além de preencher o imaginário de qualquer "macho latino", também é uma excelente actriz. Nicolau Breyner é excelente, Joaquim de Almeida dispensa elogios porque nitidamente é de outro nível totalmente à parte. Destaque também para e uma pequena participação de Virgílio Castelo que foi absolutamente hilariante. Joaquim Leitão e Raul Solnado também aparecem. Maria João Abreu e Custódia Gallego nos papéis da mulher e da amante são muito boas. Ivo Canelas e o José Raposo também estão ao melhor nível.
Call Girl é do melhor que tenho visto nas produções nacionais. Um autêntico textbook de como fazer um bom filme sem entrar em cenas pseudo-intelectuais do costume e que apenas têm o condão de afastar os espectadores do cinema português. Só peca por perder-se um pouco no final e tirar a Soraia Chaves do filme de uma forma algo inglória, mas mesmo assim consegue terminar relativamente bem. Há limitações óbvias que são nitidamente falta de orçamento, mas estão bem dissimuladas e são bem compensadas. No geral, Call Girl é um filme português bem jeitoso. Vê-se muito bem.
Ele: O que é que você faz? Tudo, responde ela. Muito bom. ○○○

E agora para algo diferente... Um filmito de acção de outros tempos, com a magia do cinema pelo meio. Depois de décadas como o grande herói de acção da sua geração (e se calhar de sempre), Arnold Schwarzenegger decide lentamente começar a reinventar-se. Os músculos já não estavam no auge (que é como quem diz, não vendia bilhetes), a idade começava a pesar e o público já não era o mesmo. E de uma forma muito inteligente, Schwarzenegger começa a passar do género da acção para outro registo mais leve e consensual, a comédia. De um ponto de vista de carreira, foi um passo muito bem dado e muito bem pensado. Primeiro saltaria para comédia, e um dia quem sabe, quando fosse mais velho e já não pudesse andar aos saltos e aos tiros, poderia enveredar por uma carreira mais dramática. Como se pode comprovar, nunca foi levado assim tão a sério que pudesse saltar para os dramas, mas durante algum tempo Schwarzenegger até deu cartas na comédia. Estranhamente, até é um registo que não lhe fica nada mal. Mas antes disso tudo, decidiu unir as duas coisas, a acção e comédia. Last Action Hero é o exemplo perfeito desta junção. Logo à partida é uma sátira aos próprios filmes à "Schwarzenegger" e são inúmeras as piadas com base na sua figura e até do seu "arqui-inimigo" Silvester Stallone.
Last Action Hero é um bom filmito de acção e comédia, e ainda tem um pozinhos de fantasia à mistura, personificado naquele bilhete mágico que faz desaparecer a fronteira entre a realidade e a ficção. É realizado por um dos mestres do cinema de acção da altura, John McTiernan e isso nota-se perfeitamente no equilíbrio da história e na forma como oscila entre a "realidade real" e o mundo fantasioso e estereotipado do cinema. Também ajuda ter actores como F. Murray Abraham, Tom Noonan e Charles Dance nos papéis mais relevantes para lhe dar alguma estrutura. Aliás, apesar de ser "apenas" um filmito de acção, é um filmito com nomes como Anthony Quinn, Robert Prosky, Frank McRae, Jim Belushi e Ian McKellen. Acho que mesmo hoje em dia, num candidato ao Óscar de melhor Filme não se conseguiria encontrar tantos e bons actores como neste "simples" filme de acção. Mas também são muitos os cameos de famosos. É só estar atento, porque aparece por lá muita gente conhecida, nem que seja por breves instantes... Outros tempos... No casting, talvez o que tenha estragado mais o filme sejam as presenças de Austin O'Brien e Bridgette Wilson, que foram nitidamente um erro enorme. Passados tantos anos, e não sei explicar muito bem porquê, mas o miúdo continua a ser irritante.
Last Action Hero foi um flop na altura, porque aparentemente ainda havia muito público para filmes à "Schwarzenegger" e parece que não estavam preparados para que os seus heróis de acção preferidos desaparecessem. Mas acho que ninguém percebeu mesmo é que era uma sátira aos próprios filmes de acção... O que diz muito da crítica e do público de cinema da altura... Curiosamente, e quase de uma forma quase premonitória, este foi um dos últimos filmes do género com alguma substância digna de relevo. Olhando para trás e visto "daqui", parece que Last Action Hero marcou mesmo o final deste tipo de filmes de acção, tiros e músculos. Mas também já era tempo de mudar. ●○○

Não sendo muito fluente em francês, tive de pesquisar para perceber o que La Jetée queria dizer. La Jetée é aquela plataforma pública dos aeroportos em que se podia assistir às descolagens e aterragens dos aviões. No entanto, no meio das minhas pesquisas por tradutores online, percebi que o título também podia ser interpretado, foneticamente, como "là j'étais", que pode traduzir-se mais ou menos como "eu estava lá". Não sei qual foi a ideia de Chris Marker quando deu este título ao filme, mas a realidade é que funciona bem de qualquer das formas.
Apesar de ser uma curta-metragem a preto e branco, de apenas 28 minutos, La Jetée é um filme complexo. Quer dizer, eu digo que é um filme complexo, mas é apenas por brevíssimos segundos que podemos ver imagens em movimento. Por isso, é difícil qualificá-lo como filme. Como é apresentado apenas com recurso a fotografia estática, visualmente é mais uma novela gráfica que outra coisa. No entanto, a música, a narração e o efeito da montagem com o som, dão-lhe uma continuidade tão fluída que me parece óbvio que se está a assistir verdadeiramente a um filme.
Se a escolha estética da fotografia (em detrimento do movimento) como medium para apresentação visual pode ser considerado com uma "simplicidade", já a história de base é bastante complexa. Algures no futuro, numa distopia em que a humanidade vive em subterrâneos para fugir às consequências letais de um mundo devastado e envenenado pela guerra nuclear, um grupo de cientistas consegue desenvolver um método de viajar no tempo. O objectivo é tentar arranjar ajuda para a questão do presente, indo tanto para o passado como para o futuro. Para isso contam com um homem, o único que consegue física e mentalmente aguentar a "viagem". O homem tem visões de uma mulher que não conhece, e a imagem dela numa gare de aeroporto é recorrente. E é aqui que as viagens no tempo começam a dar a volta ao argumento e entram em paradoxos a que aparentemente não se pode escapar. Aliás, este parece ser o grande significado de La Jetée e a sua grande mensagem, que é sempre actual: pode-se andar para a frente ou para trás no tempo, mas não se consegue escapar ao momento presente.
Pequeno em tamanho, mas muito grande em conteúdo, é assim que eu vejo o La Jetée. Para mim, é um dos marcos incontornáveis do cinema, simplesmente porque é a expressão da máxima estilização possível. Estica todos os limites daquilo que pode ser considerado como um filme. Os actores, por exemplo, estão presentes (Hélène Chatelain, Davos Hanich e Jacques Ledoux), mas não tendo movimento acabam por funcionar quase como adereços da própria história. Por outro lado, a voz do narrador, (Jean Negroni), sendo uma presença incorpórea, acaba por ter mais presença que os outros que de facto aparecem visualmente. Pufff! O cérebro dum gajo explode quando começa pensar nestas coisas... E ainda por cima, num tão curto espaço de tempo consegue concentrar tantos e tão complexos assuntos que sempre me deu a volta à cabeça. Uma preciosidade. Totalmente obrigatório. ●●●●●

O que é que acontece com a crítica de cinema num tempo em que o mundo parou e não há estreias de filmes? Penso que esta deve ser a questão do momento para os críticos profissionais. No meu caso, em que a crítica é mais de arquivo que outra coisa, é totalmente irrelevante. Para mim, se o filme saiu agora mesmo, ou há dez anos, vai dar exactamente ao mesmo, até porque já praticamente não vejo filmes no escuro do cinema. Poderia estar aqui a enumerar todos os argumentos que me levaram a afastar do cinema "tradicional", mas isso inevitavelmente levar-me-ia para campos do insulto a uma parte dos espectadores que associam ir ver um filme com a estranha ideia de uma coisa tipo feira popular, em que um gajo vai lá com os amigos para falar, rir, comer umas pipocas ou uns cachorros, situação que a mim me deixa com os cabelos em pé. Também poderia estar a argumentar sobre a paupérrima qualidade da maioria dos filmes exibidos hoje em dia, mas acho que isso já está explícito nas críticas que faço para mim próprio no resto do blog.
Nesta altura de hiato, acho que os críticos, os ditos profissionais, têm aqui uma óptima oportunidade para instruir o público sobre outros aspectos do cinema, que não sejam unicamente "o" filme. Pormenores normalmente descurados e secundarizados como por exemplo a produção, a montagem, a fotografia, a escrita do guião ou os storyboards dão uma perspectiva diferente do cinema daquela que é a passividade do momento (e que tem sido a norma dos últimos anos), em que o espectador está ali apenas sentado, a "consumir" o produto de entretenimento, sem pensar muito no assunto. O resultado desta cumplicidade passiva entre críticos e espectadores está à vista: o cinema dos últimos anos transformou-se numa espécie de parques de entretenimento passivos e os filmes propriamente ditos são meros produtos de consumo descartável.
Este "novo" tempo livre também seria bom para "desenterrar" referências antigas (que normalmente são melhores que as actuais) para assim servirem de futuras referências, até porque o cinema actual vive numa fase de reciclagem contínua. Quando se vê tantos filmes como eu já vi, percebe-se perfeitamente o padrão das coisas. Às vezes parece que estou preso num loop temporal em que estou sempre a ver a mesma coisa. E não é só por causa das constantes sequelas, reboots, remakes e re-coisos. É porque a maior parte do cinema actual assenta numa fórmula mágica de meia dúzia de guiões "infalíveis", constantemente copiados uns dos outros, até à mais completa exaustão. E isto acontece - e acho que vai continuar a acontecer - porque funciona. Acho que neste aspecto, o crítico profissional, tem um papel a desempenhar e pôr o "dedo na ferida". A crítica de cinema não pode estar - como está neste momento - ligada ao sucesso do box office ou aos ratings intencionalmente inflacionados dos agregadores de críticas. Nunca liguei muito aos Óscares, nem nunca fui atrás dos filmes galardoados em certames internacionais de prestígio para ver um bom filme, mas em 2018, quando o Black Panther da Marvel foi indicado para Melhor Filme e as críticas que li davam conta do melhor filme do ano (WTF???), percebi que algo estava muito errado no mundo do cinema, e mais especificamente no da crítica de filmes. Como é que aquilo era possível? O que é que se estava a passar? Estaríamos a ver a mesma coisa? Com as devidas excepções, parece-me que o crítico profissional, neste momento, simplesmente "vai com a onda". Parece que tem medo de se insurgir contra a ditadura da bilheteira e que se determinado filme tem muito sucesso na área da venda de pipocas, isso quer automaticamente dizer que tem algum valor, quando na realidade o que acontece é exactamente o contrário. Acho que os críticos, se calhar, também têm medo da obstinação dos fãs. Ninguém quer mesmo dizer o que realmente sente em relação ao Endgame dos Avengers ou da franchise Twilight quando há fãs malucos por esse mundo fora que eram capazes de vender um rim para poderem ser os primeiros a assistir à ante-estreia dos filmes, pois não? Mas vou deixar esta questão dos fãs para outra altura, até porque salta mais para os campos do marketing, da psicologia de massas e da sociologia do que propriamente falar de cinema...
O cinema celebra este ano 125 anos de existência, se se considerar que de facto "La Sortie de l'usine Lumière à Lyon" dos irmãos Louis e Auguste Lumière foi mesmo o primeiro filme a ser exibido. Mas se foram os Lumière os primeiros a fazê-lo, se foi Louis Le Prince em 1888 ou Eadweard Muybridge, em 1878 com a animação The Horse in Motion, isso é um pouco irrelevante. Acho é que o crítico de cinema profissional, para além do papel habitual de "comentador de bancada" - e até porque imagino que devem ter algum tipo de formação na área - também podem aproveitar o espaço que têm na opinião pública para cultivarem o público, para fomentar outro tipo de conhecimento, mas principalmente para darem a conhecer a história do próprio cinema, da sua evolução e dos seus milhentos intervenientes ao longo de todos estes 125 anos. Há seguramente muito mais cinema para além dos mais de 500.000 filmes que já se fizeram até hoje.
Como pessimista convicto que sou, sinceramente, não estou à espera que as coisas mudem. Este género de aproximação passiva gera imenso dinheiro e por isso mesmo ninguém quer mexer na "equipa ganhadora". Para além de que escrever um texto (ou criar uma parte nova de um programa de TV) sobre a história do cinema também dá muito mais trabalho do que completar os templates habituais da crítica de cinema. Eu que o diga, que estou aqui há horas a escrever este texto. Tal como tantos outros exemplos nesta vida, parece-me que tanto no cinema, como na crítica de cinema, a mentalidade vigente é não mexer muito no status quo e esperar que tudo volte ao "normal". Toda a gente ganha. Apenas o (bom) cinema fica a perder. Está mal, mas as coisas são o que são. Pessoalmente, haja ou não mudanças no mundo do cinema, é-me irrelevante. Vou continuar a ver os meus filmes e vou continuar a fazer o meu arquivo pessoal de crítica. A única coisa que vai mudar, é que provavelmente vou ter mais tempo para dedicar aqui ao blog.



PS: Uma sugestão para as TV's: ponham a rolar umas repetições, que tanto podem ser os grandes clássicos do cinema, como os "ridículos" filmes de série B que têm quase sempre excelentes histórias e são constantemente copiados e reciclados à socapa: não há Educação sem se conhecer a História. E por outro lado, há toda uma nova geração de pessoas que nunca teve oportunidade de ver os filmes intemporais. Já vi muito filme e mesmo assim tenho uma listagem imensa de grandes clássicos que nunca consegui ver porque são dificílimos de encontrar. Uma sugestão para os programas de cinema da TV: aproveitem esta altura de paragem de estreias e apresentem filmes de outros tempos, que apesar de serem antigolas, continuam a ser relevantes e actuais.




PS2: A título de arquivo, fica aqui também a "Saída do Pessoal Operário da Camisaria Confiança", da autoria de Aurélio da Paz dos Reis, um pioneiro do cinema em Portugal. É uma cópia do filme francês, mas ainda assim merece todo o destaque. Podemos não ser os gajos mais originais do mundo, mas também não somos assim tão atrasados como sempre nos foi ensinado... 
Na década de 30, Bobby, um jovem do Bronx muda-se para Hollywood para trabalhar com o tio na produção de filmes e acaba envolvido com a sua secretária que também anda metida com ele. Apesar de ser a típica trama de Woody Allen e quase a fazer lembrar os filmes do "antigo Woody", nota-se que a chama de outros tempos já se foi. Café Society é um filme competente, vindo de uma pessoa que simplesmente respira cinema... mas é relativamente inócuo. A comédia é muito subtil e as típicas "confusões" são já muito previsíveis e sem grande fulgor. Kristen Stewart e Steve Carell fazem os seus papéis num tom muito cinzento e monótono e Jesse Eisenberg é o que destaca mais pela positiva, ainda que mais uma vez numa nova versão moderna de "Woody Allen". Compreendo que Allen tenha uma paixão enorme por fazer filmes e sei que tem mais capacidades de realizador numa só perna do que a maioria dos realizadores tem no corpo todo. É daqueles gajos que consegue escrever um guião num guardanapo enquanto espera pelo hambúrguer e que faz um filme com o telemóvel enquanto espera pela sobremesa. Mas se calhar o Woody Allen devia repensar a sua estratégia de a torto e a direito "despachar" anualmente filmes mediano e se calhar fazer apenas filmes de 3 em 3 anos mas em condições aceitáveis. Ainda assim, não trocava um Woody Allen "mediano" destes por dez filmes de entretenimento da treta... ●●○○

Há anos que ouço falar do "santo graal" dos storyboards. E este não é um documento qualquer. É o storyboard do "maior filme" de ficção científica alguma vez imaginado mas que nunca chegou a ser feito. Isto é Jodorowsky's Dune.
O documentário de Frank Pavich é uma peça importante do mundo do cinema, não porque seja muito bom, porque mostra como algo que nunca chegou a ser filmado, conseguiu influenciar tanta gente e inclusive dar frutos em muitos outros filmes que foram gigantescos sucessos de bilheteira e que ainda hoje fazem parte da cultura pop. Alien por exemplo, veio directamente da ideia maluca do Dune de Jodorowsky e do estranho grupo de pessoas que o rodeou...

Alejandro Jodorowsky é daqueles nomes que ouço falar há anos sem nunca ter visto um único filme. Os meus livros de cinema mencionam-no sempre, assim como os clássicos El Topo e Holy Mountain, que incrivelmente nunca consegui ver. Não é fácil ver um filme psicadélico-alternativo dos anos 70 de um realizador chileno... Mas lá chegarei um dia e os filmes aparecerão aqui com a devida crítica...
Como sempre gostei dos conceitos do Dune e, apesar das críticas negativas gerais, também sempre gostei do Dune do David Lynch, cedo percebi que havia outros planos para a trilogia do Frank Herbert. Um desses planos envolvia o Alejandro Jodorowsky, mas nunca percebi muito bem o que tinha acontecido para o projecto não se ter concretizado, nem sequer o que estava envolvido.

O que descobri neste documentário foi por isso... bombástico.
Só uma pequena amostra. Jean Giraud, mais conhecido no mundo da BD como Moebius e H.R. Giger iriam tratar da parte visual. A banda sonora estaria a cargo dos Pink Floyd. Como se isto fosse pouco, nos actores estariam Salvador Dali como o Imperador, David Carradine como Duke Leto e o Orson Welles seria o Barão... Mas a lista continua e os nomes vão-se avolumando. O mais incrível disto tudo é que Jodorowsky ia falar com estas pessoas e, praticamente sem dinheiro, convencia-as a embarcar no projecto, que a determinada altura era apenas uma ideia sem ter verdadeiramente uma estrutura organizada por detrás... Incrível.
A comprovar esta história bizarra, estão muitos dos intervenientes, assim como comentários mais recentes de Dan O'Bannon, Chris Foss, Gary Kurtz, H.R. Giger, o produtor Michel Seydoux e os realizadores Richard Stanley e Nicolas Winding Refn.
Para além de toda esta situação bizarra e surrealista, o que me ficou mais marcado foi uma grande sensação de injustiça. Como o storyboard obviamente circulou pelos estúdios de Hollywood à procura de financiamento, ninguém pode negar as influências do trabalho de Jodorowsky na criação de muitos dos blockbusters dos anos 80 e por diante, sem que ele fosse creditado pelas ideias. Desde o Star Wars, ao Indiana Jones passando pelo óbvio Alien, muitos outros filmes foram beber de uma forma ou outra à fonte de inspiração que é aquele alucinado storyboard. Alejandro Jodorowsky merecia justiça e outro tipo de destaque, até porque neste momento é um ilustre desconhecido. Da minha parte, já está no patamar que devia. E isto é resultado directo do documentário. Ver este Jodorowsky's Dune é, portanto, um acto de justiça. E é obviamente obrigatório para quem gosta de cinema. ●●●●○

Quando uma franchise de filmes (e séries) tem fãs de todas as idades, espalhados por todo o mundo, uma pessoa sabe que está a lidar com algo sério. Os trekkies (ou trekkers, como gostam de ser chamados) até já tiveram direito a um documentário próprio com direito a sequela e tudo. Por isso, "this is real business". Mas se existem trekkies é porque ao longo de décadas (desde a série original nos anos 60 até aos dias de hoje) existiram toneladas de filmes, séries, spin-offs, livros, BD's e jogos. Estou a falar de 13 filmes e pelo menos 7 séries, sempre com sucesso suficiente para garantir continuidade. É realmente impressionante.
Quero desde já esclarecer que não sou fã, mas vi todos os filmes e diversos episódios das várias séries porque sou fã, isso sim, da ficção científica e reconheço-lhe esse valor e até o impacto na cultura popular. No entanto, para mim, apenas um dos filmes preenche todos os requisitos. Estou a falar do Star Trek: The Motion Picture, um verdadeiro clássico da ficção científica e até do cinema no geral. Spock, James T. Kirk, Dr. McCoy, Uhura, Scott e Sulu voltam aos seus postos na mítica USS Enterprise para tentar interceptar e parar uma gigantesca e extremamente poderosa nave alienígena que se dirige para a Terra, destruindo tudo à sua passagem.
Aos comandos do filme estava um verdadeiro senhor do cinema chamado Robert Wise, um verdadeiro camaleão que realizou pequenitas coisitas como West Side Story, The Haunting, The Sound of Music, só para citar alguns clássicos... Wise é um eclético mestre artesão do cinema e isso nota-se bastante bem. O tom sereno (e lento) do filme, revestido de uma quase "factualidade" científica, juntamente com os espectaculares (ainda hoje) efeitos especiais do grande mestre da "magia" Douglas Trumbull, criaram uma verdadeira obra-prima da ficção que, para mim, é uma das melhores histórias do género que vi até hoje. O argumento é excepcional e V'Ger é talvez uma das melhores criações da ficção científica até à data. Leonard Nimoy, William Shatner, DeForest Kelley, Nichelle Nichols, James Doohan, George Takei e Walter Koenig voltam para os papéis deixados vagos na série e não desiludem. Star Trek: The Motion Picture é um clássico que merece estar na história do cinema. ●●●●●


A Guerra causa-me repulsa, mas ao mesmo tempo atrai-me. Intriga-me todo o desenvolvimento necessário até chegar a um conflito. No caso das Guerras Mundiais, fico pasmado com tudo o que tem de acontecer no passado, para que se chegue a um conflito à escala global. Por causa dos filmes, muito se fala e vê sobre a II Guerra Mundial. Os avanços nas câmaras de filmar, os cineastas que acompanharam in loco o conflito, e mais tarde, o cinema de acção banalizou de tal forma o conceito de guerra, que a II GM ganhou todo o protagonismo quando se fala de um conflito global. Mas para mim, a I Guerra Mundial é não só o ponto mais marcante da História da Guerra, como da História da própria Humanidade. É um momento novo e ao mesmo tempo decisivo na história. Uma mudança completa e imediata de paradigma, que mudou radicalmente o rumo da História, com implicações directas no mundo actual em que vivemos.
A Humanidade e a Guerra parece que sempre co-existiram. O conflito parece ter raízes profundas no próprio ADN humano. Um mundo sem conflitos e sem guerra é quase um conceito distópico. Sempre existiram conflitos e os homens têm-se matado uns aos outros por este ou aquele motivo, desde tempos imemoriais. Milhões de pessoas foram assassinadas da maneira mais cruel, milhões de soldados perderam a vida em milhares de guerras por toda a história do mundo. O que muda então com a I Guerra Mundial? A principal e mais marcante novidade foi a globalização do conflito em si. Mas acrescem pormenores novos como a industrialização da guerra, a transposição do plano de conflito para além da terra, para o mar e até para os céus, a massificação da morte, e mais importante, a normalização da indiferença perante a guerra.
A I Primeira Guerra Mundial mostrou uma nova faceta da maldade humana e não só. A situação desgastante, infernal e desumana das trincheiras e das terras de ninguém que levou a novos píncaros a loucura da guerra. A utilização dos gases venenosos. A indiferença das chefias militares e o desprezo levados a níveis industriais, quando confrontados com o sofrimento dos soldados, traduzido na célebre expressão de carne para canhão. O vazio de emoções, a falta total de empatia, a crueldade e a estupidez humanas levados a novos extremos. O Inferno na Terra.
A guerra que iria acabar com todas as guerras, era tão ilusória que levou o mundo a desintegrar-se, e mergulhou-o anos depois num conflito ainda maior, que não resolvendo nada em definitivo, muito pelo contrário, ainda aprofundou os conflitos anteriores, criou outros novos e mais complexos e, acredito eu, ainda nos levará a um conflito porventura ainda maior que todos os outros anteriores. Tudo estava tão iludido com a magia da nova indústria e do avanço científico que traria um final rápido a qualquer guerra, que ninguém pensou sequer nas consequências do que viria a seguir. Bem, após cem anos de conflitos bélicos por todo o mundo, milhões de mortos militares e civis, divisões profundas entre países e continentes e a recorrente ameaça de erradicação nuclear, o mundo parece estar numa espécie de banho-maria para um futuro mega-conflito planetário. Espero estar enganado, mas infelizmente não me parece que esteja. A ver vamos. Mas adiante.
They Shall Not Grow Old é um documentário sobre a I Guerra Guerra Mundial produzido e realizado por Peter Jackson. O que pode ser uma surpresa para alguns, é que Peter Jackson já tinha feito um outro documentário antes. Forgotten Silver não é bem um documentário, mas antes um documentário falso, encomendado pela TV Neozelandesa, sobre um realizador famoso daquele país que caiu no esquecimento. Tive a sorte de o ver numa edição do Fantasporto (quando o Peter Jackson ainda era o gajo das entranhas, sangue a rodos e muito, muito gore, e não o gajo respeitável do cinema que é hoje...) Apesar de não ter nada a ver com isto, Peter Jackson já tinha os skills necessários para fazer um restauro de uma obra deste género porque já tinha feito o caminho inverso: filmar e envelhecer. Aqui foi pegar nas filmagens originais e restaurá-las. E fez um trabalho técnico absolutamente fabuloso. Já vi muita coisa da I Guerra, mas nada como isto. Foi a primeira vez que tive um vislumbre real do que aconteceu. A cores e com o movimento correcto. Como naquela altura a passagem da bobine de fita era manual e o operador tinha de dar à manivela, a velocidade da imagem saía sempre estranha. Aqui, tudo isso foi corrigido e acrescentado material sonoro para dar mais autenticidade. Apesar de ser uma época tão distante, sei que já nos anos 10 se faziam experiências com cor nos filmes, mas este restauro é outra coisa totalmente diferente. Tecnicamente é absolutamente irrepreensível. Mas como documentário, sinceramente, já vi melhor. Parece-me que o Peter Jackson não se quis alongar nas raízes do próprio conflito e na história complexa (tanto dentro do cenário de guerra e dos seus intervenientes, como nas implicações na vida do cidadão comum fora do conflito directo), mas apenas mostrar como era a vida, sofrimento e morte de um simples soldado inglês nas trincheiras da frente de batalha. Eu entendo isso, mas acaba por ser demasiado redutor. Nesse campo, sinceramente esperava mais, mas tudo bem, entendo... É uma aproximação mais técnica do que propriamente histórica. Por isso mesmo, tenho um feeling que o Peter Jackson ainda vai voltar a este assunto da I Guerra Mundial.
Apesar desta limitação compreensível, They Shall Not Grow Old é um documentário totalmente obrigatório. Primeiro pela questão cinematográfica e técnica (sublime), que é em certa parte, também história do próprio cinema, dos filmes, como eles são feitos e como a parte técnica vai evoluindo ao longo dos tempos. E em segundo, porque é importante não esquecer a história. É um chavão, mas é totalmente verdade. Quem esquece a história, acaba por a repetir, assim como os erros dos passado. No caso de uma guerra com estas proporções e implicações no futuro, isto deveria passar nas escolas. Devia-se mostrar aos miúdos (mas não só, até porque andam por aí muitos adultos com mentalidades de criança...) que um conflito com esta escala de tamanho planetário, crueldade e sofrimento humano nunca pode ser esquecido, mas especialmente, nunca se poderá repetir. ●●●○○

Tal como me acontece muitas vezes, estava eu a fazer "zlooping" quando tropeço num filme de animação que tinha esteticamente algo que me lembrou "Monty Phyton", "Yellow Submarine" e coisas do género assim meio surrealistas e/ou psicadélicas. Não sabia o nome do filme nem do que se tratava, mas imediatamente pus a gravar para ver mais tarde. O filme em questão chamava-se The Congress e estranhamente, de início, nem sequer era em animação. Suscitou-me algumas dúvidas se tinha posto a gravar o filme correcto, até porque não estava a perceber a ligação do título com o que estava a ver: uma actriz nos seus 40 e tal anos (uma versão(?) diferente da verdadeira Robin Wright) está com problemas de carreira e a ser criticada pelo seu agente (Harvey Keitel) por não dar o próximo passo que é basicamente ceder eternamente os direitos de imagem para o estúdio poder digitalizá-la completamente e usar dali em diante apenas a sua versão digital. Para isso poder acontecer, ela nunca mais poderia aparecer em palco. É uma decisão difícil para a actriz, mas na realidade, apesar da premissa interessante do filme, eu só pensava onde é que entraria a parte da animação e continuava  sem perceber a lógica do título. Após uma hora (l-e-n-t-a) de filme, finalmente fez-se luz. E o que me parecia ser o início de um excelente filme, lentamente começou a complicar-se e a descambar negativamente. Afinal, a parte de animação é outra coisa completamente diferente e baseada no livro "The Futurological Congress" de Stanislaw Lem. Daí o título. Mas aqui é que começam os problemas.
Acho que Ari Folman foi ambicioso demais. Para além de pegar em temas complexos como o de avatares, identidade e realidades alternativas, ainda quis misturar a questão tecnológica - que está a esmagar a parte humana do cinema, mas não só - e, por tabela, mostrar a sua visão quase neo-fascista dos modernos estúdios de cinema, que ignoram pontos de vista éticos e morais e não olham a meios para conseguir os seus fabulosos lucros, na realidade, o único propósito daquela indústria. Acho que as duas ideias (em separado) são muito boas. Mas também achei que o mix das duas foi muito mal feito. Faz todo o sentido equiparar as duas situações porque na base o conceito é o mesmo: mostrar que as pessoas preferem ignorar a realidade-realidade (mesmo que ela continue a existir como extremamente negra, degradante e destrutiva) e viver numa outra realidade-virtual em que tudo é cor-de-rosa, divertido, positivo e libertário, nem que para isso tenham de abdicar de tudo o que as faz ser realmente humanas. Os dois conceitos são profundos, extremamente distópicos e dão que pensar, porque em certa parte, mesmo hoje em dia, há indícios que isso começa a acontecer, e mais grave ainda, pode mesmo acontecer tal como estas histórias distópicas.
Mas para além dos conceitos - que me dariam horas de divagação - há o filme. E para mim, o filme não funcionou. A mistura dos dois temas foi mal feita, talvez por serem tão complexas e abrangentes, e por tabela as ligações ficaram um pouco desconexas. Para além disso, o ritmo do filme é demasiado lento para o meu gosto, apesar de eu perceber que é propositado e que neste caso está implícito os efeitos da sedação, do "deixar-se ir", do "i don't give a fuck. I prefer the other side, anyway." Percebo, mas não gosto.
O melhor deste The Congress é mesmo a técnica de animação (já tinha saudade de ver coisas não polidas em 3D), mas principalmente os actores (Robin Wright, Harvey Keitel, Danny Huston [brilhante actor e constantemente relegado para papéis secundários, porque tem mais de 16 anos, portanto está praticamente "morto" para o cinema, tal como a lógica do filme...], Paul Giamatti e a voz de Jon Hamm. Comecei muito empolgado pela temática, mas confesso que acabei bastante desiludido com o resultado final. Apesar de tudo, é algo que recomendaria uma visão atenta. ●●●○○

Em 1990, já tinha visto umas centenas largas de filmes. Provavelmente já iria na casa do milhar, provavelmente, não. Sinceramente, não consigo quantificar. Mas sei que devido à pouca idade e experiência, tinha uma perspetiva muito limitada e estereotipada do cinema. Nessa altura, havia três formas de ver filmes. No cinema, em que via os filmes americanos, que apesar de diferentes dos dias de hoje, eram mais os menos a mesma coisa: acçao e efeitos. Em casa, na tv, por um lado, via os filmes portugueses a preto e branco, do tempo da "outra senhora", westerns (maioritariamente americanos) que ainda rodavam com alguma frequência, mas por outro lado via os "filmes de seca", os "intelectuais", e os "estranhos" do então "elitista" segundo canal da TV, que quase ninguém via (acho que isso ainda se mantém nos dias de hoje...). Normalmente, filmes europeus, maioritariamente franceses, que na altura eram uma seca monumental porque, tal como dizem os miúdos hoje em dia, eram só "gajos a falar"... Não acontecia nada... Não havia acção, não havia efeitos especiais... Nada. Só gajos a falar de coisas da vida... E quando parecia que ia começar a interessar... acabava! E eu não percebia nada daquilo. Simplesmente não tinha massa intelectual suficiente para entender aqueles filmes. Muito provavelmente foi isso que me levou a criar a ideia que os filmes franceses eram um seca. E criei um rótulo na minha cabeça. O que levou a criar a fantasia de que francês (ou outro europeu qualquer) e acção simplesmente não eram conceitos que pudessem ser misturados. No entanto, começava a cristalizar-se outro conceito de consumo de filmes: os videoclubes. Era a Netflix da altura. Pensando bem, era mais ou menos a mesma coisa, menos a comodidade. Vendo bem, a grande diferença desse tempo para agora é que os videoclubes não faziam documentários e filmes próprios. Tirando isso, e o facto de um gajo não ter de ir lá à loja buscar o filme e depois entregá-lo no dia seguinte rebobinado. Mas adiante...
Uma vez trouxe do videoclube um filme de acção chamado Nikita sem perceber que estava a levar para casa um filme francês. E, pronto! Mudou totalmente a minha perspetiva. Em duas horas, tive de comer todos os rótulos e estereótipos que tinha colado aos filmes franceses. Pior ainda: tinha descoberto que os franceses (e um filme em língua francesa) conseguia ser melhor, em termos de acção, que os melhores filmes americanos. Como é que isso era possível? A resposta era simples: Luc Besson. Mudou totalmente a minha percepção do cinema. A partir daí abriu-me a mente e comecei a ver os filmes europeus como uma alternativa para melhor ao cinema "americano". Foi uma reviravolta inesperada.
Mas à parte de toda esta questão percepcional, Nikita, a jovem degenerada e drogada, depois transformada em agente de elite dos serviços secretos franceses (uma moderna Cinderela, se quisermos ver isto dum prisma totalmente distorcido...), continua - mesmo depois destes anos todos - a ser um excelente filme de acção e totalmente actual. Apesar de parecer sempre muito crítico relativamente ao género de "acção", é talvez a minha temática favorita logo a seguir à ficção científica. Quem é que não gosta de um bom filme de acção? Acho que toda a gente com menos de 75 anos... Mas tem de ter alguns critérios. Tem de ser comedido, mas ao mesmo tempo explosivo e imprevisível, tem de ter uma boa história e tem de ter obrigatoriamente bons actores e boas representações (como as de Anne Parillaud, Tchéky Karyo, Jean Reno, Jean-Hugues Anglade e Jeanne Moreau). Quem é que não se lembra do Victor? Uma personagem tão impactante que apesar de estar apenas 10 minutos em cena, parece que faz parte do filme todo? Só por este "pormenor" se percebe que se está a ver um bom filme... Mas para mim, a qualidade essencial é que tem de ser "adulto". E tem de ter algum "miolo"... É perceptível, isto do "miolo"?... Basicamente, tem de ter aquilo que falta em quase todos os grandes filmes de acção do momento. Senão, são só explosões e chapadas... Qualquer é o interesse disso?
Pela simplicidade, pela inovação, mas especialmente pela qualidade e intemporalidade, Nikita é altamente recomendado. ●●●●○

 
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