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Juntar Martin Scorcese, Robert De Niro e Jerry Lewis num só filme deveria ser um festim para mim. São três "instituições" que fazem parte do meu imaginário cinematográfico e são nomes que com cresci e evolui a ver a filmes. Mas nem sempre as coisas saem bem quando se mistura tudo o que gostamos...
Rupert Pupkin (Robert De Niro) tem uma ideia e uma obsessão. A ideia é a de que ele pode ser o novo Rei da Comédia. A obsessão é o seu grande ídolo Jerry Langford (Jerry Lewis), o famoso apresentador de um talk show com stand-up. Após um incidente em que Rupert salva Jerry de uma fã enlouquecida, os dois conhecem-se e Jerry incentiva-o a seguir uma carreira na comédia. Mas quando Jerry o relega para um plano secundário e o rejeita, Pupkin decide uma abordagem mais radical: com a ajuda da psicótica Masha (Sandra Bernhard) vai raptar o apresentador e exigir como resgate uma actuação de stand-up a solo no seu programa.
Tenho de admitir que vejo qualquer coisa com o selo Martin Scorcese. Para mim é uma marca de qualidade e sei logo à partida que vou ver uma coisa em condições. No entanto, Scorcese devido à sua elasticidade de temas, já me deu alguns amargos de vista. The King of Comedy foi um desses amargos. O que não deixa de ser estranho porque vejo sempre o filme muito bem referenciado, com muito boas críticas tanto do público como dos especialistas. Tenho de admitir que não gostei nada disto. Acho que se ficou pelo meio do caminho. Nem consegue ser cómico, nem consegue ser dramático. Fica ali num limbo que nem é carne nem peixe. Apesar da boa actuação, até o próprio Robert De Niro, parece perdido num jogo de personagens onde não se sente à vontade.
Obviamente tem os seus pontos positivos, principalmente ao nível dos pormenores de realização de Scorcese e da excelente fotografia. O filme não me cativou e acabei por me distrair... Isto aconteceu em particular com o facto de não conseguir desligar do facto de como este filme é parecido com o novo Joker e não só porque partilha uma história muito similar. Estive a ler umas coisas sobre o filme e descobri que uma das ideias propostas (pelo Jerry Lewis) era de que no final, Pupkin devia matar o Langford no seu show final. Scorcese achou que era demasiado violento e deixou a ideia de fora. Estranho, não é?
Se eu me distraio com um filme, isso normalmente quer dizer que lhe falta qualquer coisa. No caso de The King of Comedy acho que lhe falta mais comédia e mais intensidade dramática. Aliás, acho que lhe falta muita coisa. A personagem de Pupkin é detestável no mau sentido. Apesar de se compreender a obsessão nunca causa nenhuma empatia. O tema central que é objectivamente o culto da personalidade, da pessoa famosa, nunca é o ponto central. Os pontos positivos (todos técnicos) atenuam estas falhas, o que faz com que The King of Comedy seja perfeitamente "visível" mas que não "marque" tão profundamente como outros Scorceses... Foi uma decepção inesperada... ●●

Joker é um excelente filme e foi totalmente inesperado. Mas também é um filme perigoso. E é perigoso porque em traços muito gerais diz: matem os ricos. O dinheiro é a raiz de todos os males e os ricos, porque têm muito dinheiro, são as folhas que brotam da raiz do mal. Não é por nada que após a estreia do filme, venderam-se milhares de máscaras do Joker e elas apareceram misturadas em manifestações juntamente com a máscara também icónica do Guy Fawkes. De certo forma, elas representam a mesma coisa: a oposição à massa elitista e reinante que menospreza o "pequeno e anónimo cidadão", que não é mais que um "criado" destinado a servir o "amo". Joker tornou-se imediatamente num símbolo. Aquele look tornou-se numa máscara para representar os oprimidos... Pensando um bocado no estado do mundo, cheira-me que, mais cedo ou mais tarde, vamos ver muitas máscaras destas por aí...
Mas deixando as questões das desigualdades económicas e sociológicas para outra altura, a personagem do Joker é talvez o melhor vilão de sempre. Já é a terceira vez que faz aparições memoráveis. Jack Nicholson (como sempre a fazer dele próprio, que é como quem diz, excepcional), Heath Legder (sem dúvida nenhuma, o melhor de todos) e agora Joaquin Phoenix (noutro registo completamente diferente). Três grandes actores a darem corpo a uma personagem que tem lentamente evoluído para algo muito maior que simplesmente ser o "mau" que se opõe ao Batman. Como personagem, a vantagem de Joker em relação a outras personagens da BD é que ele não tem uma história de fundo. Não existe a históoria de como surgiu o Joker. Cada um pode imaginar o que quiser. É por isso que ao longo do tempo, e conforme o filme em questão, Joker tem vários nomes e nunca ninguém percebeu muito bem porque é que ele é assim, porque é que tem aquela aparência ou porque é que ele tem os impulsos maníacos que tem. É um vilão sem amarras e sem história. O que o torna no mais perigoso de todos.
Mas neste filme, o Joker é muito mais que um vilão. Aqui, nem sequer parece fazer parte do universo DC Comics e do mundo fantástico dos super-heróis e super-vilões. Aqui, Joker é um gajo "normal". Ele não quer dominar o mundo, tornar-se líder do sub-mundo do crime ou perseguir os bons da fita porque é o "vilão" e é isso que uma pessoa espera. Joker é simplesmente uma figura que tenta fazer pela vida, que quer ter uma vida normal, mas que é menosprezada, espancada, espezinhada e posta de parte da sociedade, porque é diferente dos restantes. E quando uma personagem destas se "passa" da cabeça e consegue ganhar algum protagonismo e poder, eventualmente, alguém vai pagá-las. Por isso é que eu disse que Joker é um filme perigoso. É que isto já não é ficção. Isto já não é um super-vilão. Isto já alcança a realidade do dia-a-dia e isto revê-se na actualidade. De certa forma, está implícito que ao virar de uma qualquer esquina pode aparecer o próximo Joker. E pode vir armado. Ou vir acompanhado com outros Jokers. Por isso, Joker não só é um filme perigoso, como é complexo na forma como vê e mostra a sociedade e por causa disso vai ser sempre polémico. Ultrapassa a ficcionalidade do cinema e ocupa as ruas.
Não deixa de ser curioso que seja um realizador de comédia a pegar no Joker desta forma. Faz todo o sentido. Não há nada pior que um palhaço frustrado e humilhado. Acho que Todd Phillips deu um salto épico em frente, na forma como pegou no tema. O filme é excepcional pela intensidade e pela tensão constante. Muito rapidamente uma pessoa se apercebe que está a ver um drama moderno e não um vulgar filme de super-vilões.
A ambiência do filme é do melhor que já tenho visto e isso em parte é devido à banda sonora original de Hildur Guðnadóttir que é excepcional. A música é tão importante neste filme porque ela foi criada à posteriori para que pudesse dar o tom certo às próprias filmagens. E mesmo a música que não foi composta para o filme foi espectacularmente bem escolhida. Aquele Joker completamente fora da realidade, a dançar a escadaria ao som daquela música imaginária que só passa na sua cabeça... Já é uma cena icónica do cinema. Não é todos os dias que se vê uma coisa dessas acontecer. É preciso ver muitos filmes para encontrar momentos únicos deste género. Mas os pontos positivos são muitos mais. A cinematografia e a estética visual tem óbvias influências dos filmes "violentos" de rua da Nova York dos anos 70, como o Death Wish, o The French Connection ou o Taxi Driver. Foi mais uma excelente escolha, porque cria um ambiente que é imediatamente reconhecível.
O casting é todo muito bom (Zazie Beetz, Frances Conroy, Brett Cullen e com Robert De Niro à cabeça porque já é uma lenda viva), mas como é óbvio todo o destaque tem de ir para Joaquin Phoenix, porque simplesmente rouba todo o show. É mais uma daquelas interpretações que vai ficar para a história. Não só pela questão física (Phoenix absolutamente esquelético e quase irreconhecível) mas principalmente pela carga psicológica que consegue transmitir e que passa para a tela. Genial. Acho que é mais uma performance que vai deixar marcas no actor. Nota-se que aquilo foi tão emotivo, tão visceralmente profundo, que Phoenix ficará marcado pelo Joker para sempre. Há alturas que eu noto que o "Método" leva o actores um pouco longe demais; vão tão para dentro das personagens, que quando saem, um pouco da personagem vem com eles: acho que este é mais um dos casos. Mas também o Joaquin Phoenix sempre teve aquele crazy eye característico... e sempre achei que vivia muito mais gente dentro daquela cabeça. Joaquin Phoenix é um gajo à maneira...
Nos últimos tempos, não me lembro de ter visto um filme que me enchesse tanto as medidas como este Joker. Brilhante. Surpreendente. Faltam-me adjectivos. Não estava nada à espera desta pancada. Pensei que ia ver um filme normal e sem dúvida nenhuma, acabei por ver o melhor filme de 2019. We are all clowns. Obrigatório. ●●●●●



Quando se cria um filme de culto como Taxi Driver, o que é que se faz a seguir? A resposta de Martin Scorsese foi um musical extravagante chamado New York, New York. Saiu (quase) perfeito.
New York, New York (1977) é um filme de 5 estrelas, e para mim, um caso de estudo. Se este filme fosse uma das big bands retratadas no filme, seria uma banda excepcional, extremamente afinada, com um ritmo que obriga a perna a saltitar como um reflexo involuntário, que tem um saxofonista irascível mas genial, uma cantora tão boa que é inacreditável, mas em que o maestro estraga tudo no final; ele até concebeu a peça toda e conduziu-a de forma irrepreensível durante a maior parte do tempo, mas perto do final começou a dispersar-se e ao que parece estava apressado para ir a algum lado e de repente termina com a música. É uma pena. Não sei o que se passou com Scorcese neste filme. Criou um filme genial, mas depois vandalizou-o. No mínimo, é estranho.
New York, New York conta a história do romance(?) conturbado de Jimmy Doyle (Robert De Niro), um saxofonista que tem tanto de naturalmente genial como de alucinado, e Francine Evans (Liza Minnelli) uma cantora que procura reconhecimento para o seu enorme talento. Tudo isto se passa logo a seguir ao final da II Grande Guerra. Isto dá o mote imediato para a euforia que reina durante todo o filme. A guerra tinha acabado, os soldados tinham voltado a casa (Jimmy supostamente é um deles - ou será apenas uma manobra de engate?) e o que toda a gente parecia querer naquele momento era expulsar a euforia da vitória, deixar para trás o negrume da guerra e abraçar tudo o que de bom a vida tem para oferecer.
É assim que começa o épico New york, New York. Jimmy tenta - mas não consegue - seduzir Francine no meio do frenesim duma festa gigante, em que as emoções estão à flor da pele e a excitação é tão grande que tudo se torna tenso.
Pelo desenrolar da história, pensei que o filme ia retratar as origens da música New York, New York. Sempre pensei que a música pertencia ao Frank Sinatra e que era muito mais antiga que o filme.Fui pesquisar e para minha grande surpresa percebi que a música é um original da banda sonora do filme. Melhor que isto é impossível. Criar um ícone planetário, reconhecido em todo o mundo, não é para todos. Só por este pormenor, o filme receberia as 5 estrelas. Mas tudo o resto também é perfeito. Ou melhor dizendo, quase perfeito.
Normalmente os musicais costumam ser melhores que os outros filmes. Não sei porque é que isso acontece, mas é verdade. Só pode ser a atracção subconsciente da música. Scorsese foi extremamente subtil ao transformar um musical num filme sobre músicos e sobre música. Mas já não foi nada subtil no tom musical. O filme quase que me obrigou a mexer-me. Os ritmos frenéticos do jazz, os solistas, os solos possantes. Senti a música quase fisicamente. Muito bom.
Em termos de actores, acho difícil que se volte a reunir uma dupla tão boa como esta. Liza Minneli tem uma performance excepcional. Durante todo o filme é brilhante, mas bastava ter aparecido perto do final para cantar New York, New York para receber todos os melhores elogios. A força, a emoção, o poder são tão grandes naquela última actuação, que aquilo deixa de ser cinema para ser algo totalmente real. Deu-me arrepios na espinha e emocionou-me. Tocou-me em qualquer coisa cá dentro que não se consegue explicar. Não há palavras.
Robert De Niro parece uma mistura de Travis Bickle, do Taxi Driver com James Conway, do Goodfellas. É uma grande performance, mas sinceramente dá um tom tão amargo e tão desconcertante ao filme que quase o estraga. Não sei se a persongaem era para ser mesmo assim ou se De Niro a contruiu, mas o certo é que Jimmy Doyle é uma das personagens mais inquetantes, arreliadoras e psicóticas que já vi. É o tipo de gajo que nunca podemos ter por perto, porque vai arranjar problemas em qualquer sítio. Na gíria diz-se que é um gajo que gosta de armar estrilho. É um guna. Mas um guna genial quando pega no saxofone. É o tipo de homem que bate na mulher grávida, que pede que o matem por ela não aceder a um pedido de casamento repentino, por exemplo. Um verdadeiro pulha que só merece solidão...
Um dos grandes destaques vai também para a produção, para os cenários e a para a fotografia. É tudo do melhor e um manual de como fazer as coisas perfeitamente. A inclusão daqueles sets artificiais e o uso da luz, levou-me imediatamente para as grandes produções musicais dos anos 40 e 50. Criam uma envolvência que obriga uma pessoa a mergulhar naquela realidade.
Depois entra a parte estranha. Pensei mesmo que este era um daqueles filmes que têm qualquer coisa mais, que se tornam uma referência, um dos raros filmes de 6 estrelas. Desde o início que se nota que é um filme muito acima da média. Mas perto do final do filme, algo de estranho se passou. Durante todo o filme (que é enorme), Scorsese faz uma apologia dos clubes noturnos, dos grandes musicais americanos e da própria música americana, mesmo mostrando o seu lado mais negro. Mas perto do final, inclui uma cena que parece totalmente desajustada do restante. Mostra Francine como empregada de um cinema, numa espécie de sonho em que imagina que tudo lhe corre pelo melhor, repleta de diamantes e em que culmina a fazer um musical glamoroso chamado "Happy Endings". Afinal ela acorda e percebe que é tudo só um sonho. Quando se vê novamente confrontada com o início do sonho, ela desiste e foge da situação.
Scorsese nitidamente diz-me que está contra estes finais felizes, que eles não acontecem na vida real, que a vida é muito mais dura e injusta, que glamour é uma criação do cinema. Parece que está contra, não só os finais felizes (e o filme não tem um final feliz) como também está contra o glamour, a perfeição, os sorrisos falsos e os brilhos dos antigos filmes. Pode não ter sido a intenção, mas é a sensação com que fiquei. Parece que Scorsese tinha umas contas a ajustar com aquele tipo de cinema e teve de arranjar uma forma de o fazer à força. Um filme é objectivamente é uma opinião muito pessoal e não tenha nada contra isso. Mas neste caso, parece que viu que o filme estava para acabar e não ia ter oportunidade de encaixar aquela cena noutro sítio. Pareceu forçado. Fez mal, porque acho que diminui imensamente o filme ao cortar o ritmo. Para piorar ainda mais, o filme acaba rápido demais. Com aquela situação do sonho dos "Happy Endings", a personagem de De Niro desaparece do filme durante imenso tempo. Regressa praticamente só para ver Francice conseguir tudo o se desejava (ironicamente, o tal "Happy Ending" que ela rejeita na espécie de sonho), tentar um reconciliação (falhada) e para sair de cena "de pés", tal como entrou. É desapontante de tão incoerente.
Depois de ver um filme que é uma autêntica montanha-russa de emoções, que passa da comédia para o drama mais profundo, que tem performances artísticas e músicas inesquecíveis, Scorsese vai-se embora, a encolher os ombros, como se não quisesse saber. Não entendo. É como se Pollock terminasse uma das suas pinturas, mas no canto do quadro escrevesse a letras vermelhas que não é grande fã do abstracto. Não compreendo. Acho que aconteceu qualquer coisa nos últimos tempos de filmagem...
Mas voltando ao lado positivo. New York, New York tem uma história excepcionalmente bem contada, actores no pico de forma, com performances do outro mundo, momentos de cinema de puro génio, e uma das melhores músicas de sempre foi composta de propósito para a banda sonora. Há alguém que nunca tenha ouvido a New York, New York?  Mesmo com as falhas que tem, New York, New York é um filme que merece ser visto, revisto e estar em qualquer lista dos melhores filmes de sempre. Um dos grandes filmes que já vi. ●●●●●

Diz-se que o Futuro não existe. O Futuro é aquilo que se vai construindo, vivendo o presente. Assim sendo, e não entrando nos complexos e estranhos campos da futurologia e das viagens no tempo, é possível ir recolhendo algumas indicações actuais, sempre alicerçadas em acontecimentos passados, para tentar prever o que se irá passar a seguir ou qual o caminho que se está a desenrolar. Se calhar até é este tipo de acção que faz com que o futuro se vá concretizando a partir do presente. Quem sabe? Ao longo dos tempos, muitos o têm feito em muitos campos. No campo das artes, esta acção ganha especial relevância no cinema. A grande vantagem do cinema em relação às restantes artes, é que permite ter uma visão quase-real do futuro. Literalmente, é possível ver e ouvir um futuro, uma hipotética realidade, ou seja, uma utopia. Ainda ninguém respondeu conclusivamente - nem responderá, digo eu - à  derradeira pergunta: é a vida que imita a arte ou a arte que imita a vida?, mas seja qual for a resposta, ela será sempre preocupante. E por uma razão simples. Nas visões hipotéticas do cinema, o Futuro é sempre negro.
Mesmo as (raras) utopias mais idílicas têm uma tendência natural para a distopia. Não é por nada que a utopia é considerada como um não-lugar, ou um lugar onde apenas se almeja chegar sem nunca lá chegar efectivamente. O Cinema apresenta o Futuro como invariavelmente decadente, perverso, destruído, desumano e sempre mais perto da imagem típica do Inferno do que do Paraíso. Independentemente de ser um Futuro tecnologicamente avançado ou em retrocesso, o Futuro é sempre negativo, com os homens obsessivamente a tentarem subjugar tudo ao seu domínio, mantendo tudo sobre um apertado controlo, incluindo como é óbvio, outros homens. No Cinema recente, as referências originais são cada vez menores. A necessidade de receita de bilheteira - não convém esquecer que o cinema é uma indústria, dinheiro, acções, investimentos, empréstimos, etc... - tornou o estilo apenas numa enorme montra de efeitos digitais e segue o rumo de quanto mais fogo-de-artifício melhor, porque se o pessoal paga para ver, é porque quer ver espectáculo desenfreado, perseguições espectaculares e explosões enormes. Se calhar por isso, a produção recente passa mais pelo remake do que outra coisa, aproveitando as boas histórias antigas e apresentando maiores e melhores efeitos especiais. Também não será de descartar o facto de até há pouco tempo se viver num "tempo de prosperidade" e por isso mesmo, o público estar mais inclinado para as comédias românticas do que em versões utópicas (ou distópicas?) do mundo.
Talvez por falta de referências recentes e pela aproximação muito virada para o espalhafato visual, o tema da Ficção Científica/Futuro/Distopia é necessariamente um género menor, e com tendência para se ir degradando cada vez mais. No entanto, existem inúmeros exemplos "antigos", só que estão escondidos pelo tempo, esmagados pela avalanche produtiva da indústria do cinema actual e, de certa forma, diminuídos por efeitos visuais/especiais já muito ultrapassados. É a chamada ironia do destino!
De certa forma, a imaginação do "cinema das utopias" é uma excelente ferramenta para visualizar o que poderá acontecer no futuro, ainda que tudo não seja mais que uma mera hipótese saída dum guião escrito para o ecrã. Quanto mais não fosse, muitas destas utopias são excelentes filmes e alguns verdadeiras obras de arte em movimento.
Mas independentemente da qualidade do filme ou da utopia apresentada ser ou não verosímel ou compatível com a realidade do momento, a grande questão é: será possível que alguma das utopias/distopias do cinema possam vir a concretizar-se?
Respondendo à questão anterior: Aparentemente sim. Brazil (1985) é talvez o melhor filme para ilustrar como a ficção pode imaginar correctamente uma realidade futura. Pensando bem, vivemos agora mesmo, numa realidade que não existia há 20 anos, mas que no entanto foi previsto como um possível culminar do que era a sociedade em 1985... Senão vejamos se as coisas não batem mais ou menos certo: Tudo se passa numa sociedade livre mas estatalmente opressiva, omnipresente e hiper-burocrática, tão sofisticadamente evoluída ao ponto de a própria tecnologia ser incompreensível, quase mágica e que parece sempre obsoleta.
Aqui vive o (anti) herói que tem ironicamente um emprego no Estado por apontamento directo da influente mãe que mal o conhece e que é viciada - tal como todas as "amigas" - em operações plásticas para manter uma impossível juventude, sempre motivada por um cirurgião plástico sem escrúpulos.
Sam Lowry (Jonathan Pryce) é um funcionário público que tenta corrigir um erro na pesada e (quase) infalível máquina tecno-burocrática do Estado, causado ironicamente pela morte de uma simples mosca. Este erro insignificante faz com que um sapateiro, - Mr. Buttler - seja injustamente preso em vez de Mr. Tuttle, um trabalhador freelance que é Engenheiro de Aquecimento e considerado um terrorista perigoso... porque foge à avalanche de impostos do Estado. No seu monótono emprego - em que todos os colegas fingem que trabalham apenas quando o superior aparece - é a grande ajuda do chefe da secção que sendo mais velho, não se entende com o trabalho moderno e com as restantes modernices tecnológicas. Na sua demanda por corrigir o erro, envolve-se com uma terrorista anti-Estado, que é também a mulher dos seus sonhos, onde voa para lá das nuvens e luta com um guerreiro gigante (presume-se, o próprio Estado). Toda esta aventura e romance impossíveis resultam na sua transformação em terrorista por cumplicidade amorosa. O terrorismo é uma peça importante neste filme e está presente em muitas cenas. Enquanto Sam almoça com a mãe num restaurante exclusivo, irrompe uma cena de explosões terroristas, mas o acontecimento é já tão banal que nem perturba a refeição dos clientes. Na cena inicial do filme, uma loja de venda de TV's explode no exacto momento em que passa um anúncio que apela à troca das velhas condutas de aquecimento por umas novas que são rigorosamente iguais às anteriores, seguida de uma declaração de um Ministro sobre o actual combate ao terrorismo. O terrorista que o Estado quer apanhar (Mr. Tuttle) é na verdade mais uma espécie de trabalhador-terrorista que tem de trabalhar às escondidas, fazendo biscates, totalmente dissimulado, para não ser apanhado nas malhas dos impossíveis impostos que não lhe permitem ficar com nenhum do dinheiro que ganha. Mr. Tuttle (Robert De Niro) tem a particularidade de conseguir desaparecer num tornado de papéis...
Totalmente embrenhado no "lado de lá da barricada", perseguido pelo próprio Estado empregador e com a vida em perigo, a única porta de saída possível, é fugir para uma terra verdejante, natural, idílica e utópica de que toda a gente fala, chamada de Brazil; o exacto oposto da complexidade em que vive e das megas construções de cimento que o rodeia no dia-a-dia. Mas essa possível realidade de fuga pode ser bem mais cinzenta do que imagina... Fica a frase que resume o filme: suspicion breeds confidence... Está tudo dito.
Como filme, há que admitir que Brazil é um pouco desequilibrado. Por exemplo, os estranhos sonhos de Sam destacam-se demasiado; parecem que fazem parte de outro filme. Também o tom (demasiado) satírico prejudica a excelente visão objectiva que o filme e o argumento mereceriam. Se calhar, o filme não tem um status maior, precisamente devido a esta clivagem estética e narrativa. Mas a visão crítica à sociedade está bem actual, o que torna o filme extremamente pertinente. Tecnologia que já ultrapassou a compreensão dos utilizadores, a necessidade de fuga do betão ao encontro da natureza, controlo pessoal constante e excessivo por parte do Estado, manutenção social do status quo, burocracia maciça, ausência e/ou superficialidade de relações pessoais, a procura sem limites pela beleza e juventude, a estética levada ao ridículo e até, o que acho de maior relevo, o terrorismo dentro do próprio Estado, quase como uma inevitabilidade da opressão e a insinuação de que a existência do terrorismo é até benéfica para o próprio Estado manter os cidadãos controlados e do seu lado. O realizador, Terry Gilliam - o americano mais inglês de todos - não renega as suas raízes Monty Phyton (quem não se lembra das animações esquisitas com os pés?) e leva as coisas um pouco para a brincadeira e para o nonsense. Talvez por causa disso, o filme tenha sido um flop comercial e talvez por causa disso, ainda hoje permaneça algo esquecido e desvalorizado. Mas também pode ter sido por estar demasiado avançado para o seu tempo. No entanto, e isso é que é importante, as previsões lançadas no já longínquo ano de 1985 têm vindo a concretizar-se nos dias de hoje e algumas delas são até situações vulgares do dia-a-dia, sem que se perceba que há 20 anos atrás eram apenas a imaginação desvairada de um realizador. Este é um filme único e obrigatório para quem gosta de cinema e merece a classificação máxima. Falta-lhe "um bocadinho assim" para ser uma obra-prima. O melhor é mesmo esperar mais uns anos, rever, e tenho quase a certeza que chega lá. ●●●●●

 
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