Quando se trata de filmes épicos há um que me preenche logo o cérebro: The Ten Commandments. Uma temática religiosa, a gigantesca histórica da vida de Moisés e até os 220 minutos de filme, acho que são os principais atributos para classificar uma verdadeira obra prima épica. 14.000 extras. 15.000 animais. Só a quantidade e o tamanho impressionam. E também torna muito difícil falar sobre o filme. A extensão, a complexidade, as implicações religiosas e a horda de técnicos e actores... É tanta coisa que o filme já tem a sua própria mitologia associada. É material que daria para encher vários livros... E depois ainda há a questão da transversalidade do público... Devido às constantes reposições, acho que dos 7 aos 700 anos, toda a gente já viu pelo menos uma vez o The Ten Commandments.
Toda a história se centra na mítica figura de Moisés e da libertação do povo judeu que se encontra escravizado pelos poderosos egípcios. A história é longa e complexa demais para ser aqui resumida, até porque tem muitas reviravoltas, mas vou tentar.... Após ter sido apanhado nas margens do Nilo, Moisés é adoptado pela irmã do Faraó e torna-se um dos príncipes do Egipto. No entanto, a história dá uma volta de 180 graus quando se descobre que as suas origens são judias e é expulso pelo novo Faraó, sendo encaminhado para uma morte certa no deserto... No caminho, Moisés encontra Deus que o incumbe de voltar ao Egipto para libertar os judeus da longa e penosa escravatura a que estiveram sujeitos...
A história é bíblica e como tal é naturalmente épica. E longa. Com uma história deste calibre na base, The Ten Commandments só poderia ocupar o panteão dos grandes filmes do cinema. Tudo aqui tem proporções enormes. Do tamanho gigante dos cenários ao número e qualidade dos actores. Charlton Heston, Yul Brynner, Anne Baxter, Edward G. Robinson, Yvonne De Carlo, Debra Paget, John Derek, Cedric Hardwicke, Nina Foch... a lista é interminável, tal é a quantidade de personagens que povoam esta história. Até Vincent Price e John Carradine aparecem por aqui. Mas entre todos há dois nomes que brilham com mais intensidade: Charlton Heston e Yul Brynner. Não consigo separar um do outro e a culpa será sempre deste filme. Sou um fã incondicional destes dois monstros do cinema. São duas lendas eternas. Juntamente com eles, há que destacar outra figura mítica: o produtor e realizador Cecil B. DeMille que festejou os seus 75 anos durante a filmagem, tornando-se na altura, o mais velho realizador em actividade. Este seria também o seu último filme, mas deixaria para trás uma carreira de 80 filmes (WTF?!) que ainda me esforço por arranjar e conseguir ver. Isto quer dizer que DeMille conseguiu fazer algo que mais nenhum realizador conseguiu: ter no seu último filme a sua maior e mais cara produção e ao mesmo tempo o maior sucesso de bilheteira da carreira. É obra. Não só o filme é mítico e os actores lendários como também o realizador é de outro calibre que não se encontra hoje em dia. Cecil B. DeMille sofreu um enfarte durante a produção. Foi ao hospital para ser tratado e voltou dois dias depois para completar o filme. Mítico é a única coisa que se pode dizer.
Como toda a gente já viu o The Ten Commandments (provavelmente mais que uma vez), acho que não vale muito a pena falar sobre o filme. Há muitos outros pormenores para além disso. Como por exemplo a voz omnipresente de Deus que não está creditada a nenhum actor. Apesar dos muitos efeitos que tornam a identificação quase impossível, ao longo dos anos tem-se especulado que o realizador ou o Charlton Heston tenham sido os donos da voz. Também se pode referir que na realidade, The Ten Commandments é um remake... do filme original de 1923 realizado por... Cecil B. DeMille.
Um outro pormenor que sempre adorei é a introdução que o próprio DeMille faz do filme, saindo de trás das cortinas para apresentar a história e questionar as pessoas: "O tema deste filme é se os homens devem ser governados pela lei de Deus ou pelos caprichos de ditadores como Ramsés. Serão os homens propriedade do estado ou serão almas livres perante Deus? Esta mesma dúvida e batalha continua ainda hoje em dia por todo o mundo. A nossa intenção não foi a de criar uma história, mas sim de ser dignos desta história divinamente inspirada, e que foi criada há três mil anos atrás. Esta história demorará três horas e trinta e nove minutos para se desenrolar. Haverá um intervalo. Obrigado pela vossa atenção." Uma apresentação deste género é verdadeiramente... épica.
Apesar de ser uma obra cinematograficamente intocável, não é absolutamente perfeito. Se os efeitos especiais (que são uma parte importante de todo o enredo) eram absolutamente bombásticos na altura e deixavam toda a gente de boca aberta, hoje deixam um sorriso melancólico quando vistos com olhos actuais. Nestes aspectos mais técnicos, obviamente ficou datado, mas até isso acaba por funcionar bem, porque lhe confere uma certa "antiguidade". Se os efeitos fossem muito mais "modernos" acho que até seria mais prejudicial. O problema não foram os efeitos, mas pequenas coisas espalhadas pelo filme. Não consigo deixar de mencionar que, por exemplo, no final, aquele envelhecimento muito mal concebido e aquelas barbas ostensivamente falsas e postiças do Moisés. São coisinhas minúsculas deste género, que não acho que mereçam ser muito pormenorizadas, mas que obviamente marcam-me. Até me sinto mal por estar a apontar isto a uma obra da dimensão de The Ten Commandments, mas a verdade é que alguns pequenos pormenores afectam negativamente a perfeição total do filme... Mas lá está, isto é estar a ver as coisas ao microscópio e ir ao mais ínfimo pormenor. Quando isto acontece é porque tudo o resto é mesmo muito bom e muito bem feito. Epicamente bem feito. The Ten Commandments é verdadeiramente a personificação do filme épico e garantiu consensualmente um lugar na história do cinema. É parte essencial do meu imaginário cinematográfico. Completamente obrigatório. ●●●●●
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Normalmente nunca diria isto, mas vou ter de o dizer... Idiocracy é um dos piores filmes que já vi na minha vida... mas que vale a pena dar uma vista de olhos. Por muito estranho que pareça é mesmo verdade. Apesar do filme ser mesmo mau, o cerne do filme merece uma reflexão, nem que seja só por 10 minutos.
Um soldado americano (Luke Wilson) é escolhido para uma experiência secreta envolvendo hibernação prolongada. Ele foi escolhido por ser um gajo absolutamente mediano e sem ligações familiares. Junto com ele vai também participar uma prostituta (Maya Rudolph), "emprestada" pelo seu chulo a troco de favores. A experiência acaba por correr mal devido a uma escândalo com o chulo, e o que deveria ser uma coisa com duração de um ano, acaba por ser esquecida e prolongar-se por 500 anos. Quando o soldado mediano finalmente acorda no futuro, 500 anos mais tarde, descobre que a inteligência foi extinta e que a América é uma sociedade tão estupidificada que ele é seguramente o humano mais inteligente à face da Terra. É então escolhido para resolver uma série de problemas... resultado de causas verdadeiramente estúpidas.
Idiocracy está num limbo. Teoricamente é uma comédia de ficção científica, mas na realidade nem é uma coisa nem outra. Como comédia é um contrassenso pois para além de não ser nada cómico, ainda por cima é um tipo de comédia que só é apelativo para o tipo de pessoal que está literalmente a criticar. Como ficção cientifica é mesmo só porque se passa no futuro, porque nem a história é nova (ou original) nem sequer o tema é muito aprofundado para além dos óbvios sketches. Para além disto, o próprio filme esteve envolvido numa disputa bastante feia com os estúdio da Fox. O que é absolutamente compreensível vendo o teor do filme. Até a Foz News é descaradamente gozada... Os estúdios ficaram com o filme completamente feito em carteira durante um ano e só o distribuíram em meia dúzia de cinema, sem promoção nenhuma, sem trailers, sem nada. Foi mesmo só para cumprir o contrato que previa a estreia em cinema. E depois o filme desapareceu do público... Idiocracy merece destaque precisamente por causa disto tudo. Como é possível que um filme que é essencialmente mal feito, sem distribuição, sem marketing, sem trailer e que quase caiu no esquecimento se torna uma referência da comédia politica entre os críticos e o público e ainda arranja o "título" de filme de culto? É um mistério.
Mas se há uma resposta certa, acho que é por o filme tocar num ponto muito sensível, e basicamente, por apontar para o elefante no meio da sala da América... A estupidez. Não vale a pena estar aqui com grandes rodeios. A América, outrora o grande centro de mentes brilhantes está a tornar-se cada vez mais estúpida. Uma maioria de pessoas elegeu o Donald Trump como presidente, portanto está tudo dito. Não é por nada que Mike Judge, o realizador que já tem créditos como o criador, produtor e dono das vozes de Beavis and Butt-Head, tem sido referido como um grande profeta. Depois de Donald Trump como presidente, acho que ninguém estranharia muito se agora fosse eleito um wrestler (como a personagem de Terry Crews) ou um culturista sem qualquer formação política ou social. De certa forma o filme é premonitório por ir mais além do racional e mostrar que o ridículo se pode tornar realidade, e também porque sendo uma comédia pode brincar com todos estes temas muito sérios. Muita vezes vi referida até a expressão: "o filme que lentamente se vai tornando num documentário social"... É estranho, mas é verdade. A linguagem utilizada, já muito longe do inglês, cheia de jargão e siglas... Uma comunidade manipulada e controlada por grandes corporações que apenas querem que a sociedade seja uma população de consumidores acéfalos... As séries e filmes sem continuidade tipo jackass que estreiam em primeiro lugar nos cinemas americanos... A omnipresente hipersexualização... de tudo, basicamente... As pilhas de lixo infindáveis provocadas por um consumismo desenfreado... Enfim... a realidade que ninguém quer ver ou admitir...
A realidade é que esta ficção é bem mais real e muito menos futurista e utópica do que parece. Este tema do homem que acorda no futuro para perceber que a humanidade se estupidificou ao ponto de quase se aniquilar não é nova. No Time Machine do H.G. Wells isto já é em parte mencionado. No conto The Marching Morons de Cyril Kornbluth também já se trata da temática sobre o que é que acontece quando se tem uma sociedade em que a população se expande exponencialmente e ao mesmo tempo há uma uma falta de pressão evolucionária...
Falar da estupidez crescente na sociedade daria para uma site completo porque as razões são imensas e muito interligadas. E aí tenho que dar o braço a torcer porque Idiocracy toca em quase tudo de uma forma muito leviana, mas ao mesmo tempo muito acertada. Vai desde o pormenor da Fox News com os seus apresentadores musculados e apresentadoras quase de mamas à mostra, passando pela crítica a uma sociedade dominada pelo marketing das grandes empresas que diz que "os electrólitos são tão bons que substituem a água simples" e que assim levam a uma catástrofe ecológica. E quem diz electrólitos, poderia dizer L. Casei Imunitass...
E se se avançar um pouco mais no tempo, ainda temos as redes sociais que têm sido o grande megafone desta estupidez crescente e alarmante que muita gente já percebeu que vai acabar mal. Mas não se pode dizer mal das redes sociais nem dos seus malefícios... porque gera imensa receita ("i love money, don't you?" deve ser a expressão que aparece mais vezes no filme...) e imensa gente adora as redes sociais e já nem sequer conseguem viver sem elas. Se este tema entrasse no filme (ainda nem sequer tinham grande expressão na altura da estreia), seguramente o filme teria mais 1 hora de duração... Pode ser que Mike Judje volte ao tema mais tarde... ou se calhar é melhor não o deixar dizer mais nada para não tocar novamente em pontos sensíveis...
De certa forma, Idiocracy é um olhar satírico para dentro. É como uma parte da América se revê e como tem noção de como o mundo começa a ver a própria América. E têm razão. Não tenho dúvida nenhuma, que cada vez mais, o mundo olha para a América, não como a grande super-potência de outros tempos, mas como o grande centro exportador de estupidez para o resto do mundo...
Estupidez é uma coisa aparentemente hereditária e altamente contagiosa. Isto fica bem demonstrado nos geniais primeiros minutos. E, cada vez mais me apercebo, que afinal pode não ter cura. E isto sou eu a ser um bocadinho optimista, porque na realidade o meu cérebro pessimista o que me diz é que a estupidez não tem cura e que eventualmente vamos estar bem fodidos por não tratarmos deste problema a tempo... Este tema da estupidez chateia-me. Fico com comichões e dá-me vontade de bater em alguém... é melhor ficar por aqui e não me alongar mais... ...
Sinto-me muito dividido em relação a este Idiocracy. Nunca o veria novamente de tão mau que é, mas sou obrigado a recomendá-lo pela reflexão que obriga a fazer... ●○○○○ - ●●●●●
Um soldado americano (Luke Wilson) é escolhido para uma experiência secreta envolvendo hibernação prolongada. Ele foi escolhido por ser um gajo absolutamente mediano e sem ligações familiares. Junto com ele vai também participar uma prostituta (Maya Rudolph), "emprestada" pelo seu chulo a troco de favores. A experiência acaba por correr mal devido a uma escândalo com o chulo, e o que deveria ser uma coisa com duração de um ano, acaba por ser esquecida e prolongar-se por 500 anos. Quando o soldado mediano finalmente acorda no futuro, 500 anos mais tarde, descobre que a inteligência foi extinta e que a América é uma sociedade tão estupidificada que ele é seguramente o humano mais inteligente à face da Terra. É então escolhido para resolver uma série de problemas... resultado de causas verdadeiramente estúpidas.
Idiocracy está num limbo. Teoricamente é uma comédia de ficção científica, mas na realidade nem é uma coisa nem outra. Como comédia é um contrassenso pois para além de não ser nada cómico, ainda por cima é um tipo de comédia que só é apelativo para o tipo de pessoal que está literalmente a criticar. Como ficção cientifica é mesmo só porque se passa no futuro, porque nem a história é nova (ou original) nem sequer o tema é muito aprofundado para além dos óbvios sketches. Para além disto, o próprio filme esteve envolvido numa disputa bastante feia com os estúdio da Fox. O que é absolutamente compreensível vendo o teor do filme. Até a Foz News é descaradamente gozada... Os estúdios ficaram com o filme completamente feito em carteira durante um ano e só o distribuíram em meia dúzia de cinema, sem promoção nenhuma, sem trailers, sem nada. Foi mesmo só para cumprir o contrato que previa a estreia em cinema. E depois o filme desapareceu do público... Idiocracy merece destaque precisamente por causa disto tudo. Como é possível que um filme que é essencialmente mal feito, sem distribuição, sem marketing, sem trailer e que quase caiu no esquecimento se torna uma referência da comédia politica entre os críticos e o público e ainda arranja o "título" de filme de culto? É um mistério.
Mas se há uma resposta certa, acho que é por o filme tocar num ponto muito sensível, e basicamente, por apontar para o elefante no meio da sala da América... A estupidez. Não vale a pena estar aqui com grandes rodeios. A América, outrora o grande centro de mentes brilhantes está a tornar-se cada vez mais estúpida. Uma maioria de pessoas elegeu o Donald Trump como presidente, portanto está tudo dito. Não é por nada que Mike Judge, o realizador que já tem créditos como o criador, produtor e dono das vozes de Beavis and Butt-Head, tem sido referido como um grande profeta. Depois de Donald Trump como presidente, acho que ninguém estranharia muito se agora fosse eleito um wrestler (como a personagem de Terry Crews) ou um culturista sem qualquer formação política ou social. De certa forma o filme é premonitório por ir mais além do racional e mostrar que o ridículo se pode tornar realidade, e também porque sendo uma comédia pode brincar com todos estes temas muito sérios. Muita vezes vi referida até a expressão: "o filme que lentamente se vai tornando num documentário social"... É estranho, mas é verdade. A linguagem utilizada, já muito longe do inglês, cheia de jargão e siglas... Uma comunidade manipulada e controlada por grandes corporações que apenas querem que a sociedade seja uma população de consumidores acéfalos... As séries e filmes sem continuidade tipo jackass que estreiam em primeiro lugar nos cinemas americanos... A omnipresente hipersexualização... de tudo, basicamente... As pilhas de lixo infindáveis provocadas por um consumismo desenfreado... Enfim... a realidade que ninguém quer ver ou admitir...
A realidade é que esta ficção é bem mais real e muito menos futurista e utópica do que parece. Este tema do homem que acorda no futuro para perceber que a humanidade se estupidificou ao ponto de quase se aniquilar não é nova. No Time Machine do H.G. Wells isto já é em parte mencionado. No conto The Marching Morons de Cyril Kornbluth também já se trata da temática sobre o que é que acontece quando se tem uma sociedade em que a população se expande exponencialmente e ao mesmo tempo há uma uma falta de pressão evolucionária...
Falar da estupidez crescente na sociedade daria para uma site completo porque as razões são imensas e muito interligadas. E aí tenho que dar o braço a torcer porque Idiocracy toca em quase tudo de uma forma muito leviana, mas ao mesmo tempo muito acertada. Vai desde o pormenor da Fox News com os seus apresentadores musculados e apresentadoras quase de mamas à mostra, passando pela crítica a uma sociedade dominada pelo marketing das grandes empresas que diz que "os electrólitos são tão bons que substituem a água simples" e que assim levam a uma catástrofe ecológica. E quem diz electrólitos, poderia dizer L. Casei Imunitass...
E se se avançar um pouco mais no tempo, ainda temos as redes sociais que têm sido o grande megafone desta estupidez crescente e alarmante que muita gente já percebeu que vai acabar mal. Mas não se pode dizer mal das redes sociais nem dos seus malefícios... porque gera imensa receita ("i love money, don't you?" deve ser a expressão que aparece mais vezes no filme...) e imensa gente adora as redes sociais e já nem sequer conseguem viver sem elas. Se este tema entrasse no filme (ainda nem sequer tinham grande expressão na altura da estreia), seguramente o filme teria mais 1 hora de duração... Pode ser que Mike Judje volte ao tema mais tarde... ou se calhar é melhor não o deixar dizer mais nada para não tocar novamente em pontos sensíveis...
De certa forma, Idiocracy é um olhar satírico para dentro. É como uma parte da América se revê e como tem noção de como o mundo começa a ver a própria América. E têm razão. Não tenho dúvida nenhuma, que cada vez mais, o mundo olha para a América, não como a grande super-potência de outros tempos, mas como o grande centro exportador de estupidez para o resto do mundo...
Estupidez é uma coisa aparentemente hereditária e altamente contagiosa. Isto fica bem demonstrado nos geniais primeiros minutos. E, cada vez mais me apercebo, que afinal pode não ter cura. E isto sou eu a ser um bocadinho optimista, porque na realidade o meu cérebro pessimista o que me diz é que a estupidez não tem cura e que eventualmente vamos estar bem fodidos por não tratarmos deste problema a tempo... Este tema da estupidez chateia-me. Fico com comichões e dá-me vontade de bater em alguém... é melhor ficar por aqui e não me alongar mais... ...
Sinto-me muito dividido em relação a este Idiocracy. Nunca o veria novamente de tão mau que é, mas sou obrigado a recomendá-lo pela reflexão que obriga a fazer... ●○○○○ - ●●●●●
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Um dos primeiros filmes de mafiosos que vi foi o Scarface com a mirabolante e inesquecível personagem de Tony Montana. Acho que os mafiosos daquele tempo não se comportavam daquela maneira romantizada, no entanto acho que efectivamente a ficção acabou por moldar a realidade. Mesmo que não seja verdade, o públicoede cinema e não só, apenas consegue ver um mafioso desta maneira. E de uma forma estranha, acho que qualquer mafioso só se consegue ver retratado assim. Violento, ganancioso e apenas com um objectivo: chegar ao topo da escada e ser o rei absoluto de tudo.
Scarface é exactamente isto. É o percurso de Tony Montana, um cubano exilado em Miami na década de 80, que com a ajuda do seu inseparável amigo Manny, violentamente vai subindo os degraus da hierarquia mafiosa. Dos "pequenos", sanguinários e sujos trabalhos iniciais contra os cartéis colombianos de droga a mando do grande figurão de Frank Lopez e Omar, o seu irascível capataz, até lhes tirar o tapete debaixo dos pés (e a tosse) e conseguir finalmente chegar ao topo do pirâmide. Mas um percurso assim tão violento e traiçoeiro vai ter obviamente consequências trágicas e o império da droga de Tony Montana pode ruir a qualquer instante.
Este excelente Scarface de Brian De Palma é na realidade um remake do clássico Scarface de 1932. Mas aqui, o detalhe de ser um remake é mesmo apenas um detalhe histórico. Não tem nada de pejorativo. O filme é tão bom e "original" na concepção (mais um argumento fantástico de Oliver Stone) que só pode ser considerado um remake porque tem a mesma figura central como protagonista e estrutura narrativa de base. Se no original a base é a proibição do álcool e os seus meandros ilegais, nesta adaptação é o tráfico de droga e tudo o que se conhece em torno no negócio. As diferenças na história são irrelevantes porque o núcleo não é propriamente a ilegalidade do negócio, mas sim a ganância do protagonista. Sendo Brian De Palma um mestre incontestado, Scarface é um daqueles filmes inesquecíveis.
Mas muita da força do filme vem dos actores. Steven Bauer, Michelle Pfeiffer, Mary Elizabeth Mastrantonio, Robert Loggia e F. Murray Abraham não são só secundários. São verdadeiras personagens, com estruturas robustas e grande personalidade que enchem a tela e enriquecem todo o filme. Mas o destaque principal tinha mesmo de ir para Al Pacino. Aquela mistura de cómico louco e gangster cubano é irrepetível. Tal como disse no início, acho que esta performance acabou por cristalizar na mentalidade colectiva a aparência, os trejeitos e o comportamento do típico mafioso. Não se consegue olhar para um mafioso e vê-lo de forma diferente do Tony Montana. Um mafioso tem realmente de ser assim para ser considerado um mafioso de jeito. Tem de ser ganancioso e violento, sem empatia, mas por outro lado tem de ser sensível e aberto às coisas belas da vida. Tony Montana é uma mistura estranha que deveria fazer um gajo virar a cara, mas estranhamente tem uma certa atracção. Não sei explicar muito bem isto. Ou se calhar até sei... Por exemplo, desde o primeiro contacto visual, Tony procura incessantemente por Elvira mesmo que esta o mande dar uma volta constantemente. Ele é tão insistente que acaba por casar com ela, mas durante todo o filme não se lhes vê um único momento de intimidade. Até o beijo no final do casamento é quase invisível com aquele véu impenetrável. De certa forma, o encanto e a atracção de Tony Montana existe porque ele é um símbolo do eterno desejo de se ter o que não se tem. E depois, quando consegue o que quer, parte para outra demanda em busca de outra coisa qualquer que não tem... É complicado...
Scarface é um dos meus filmes favoritos e Tony Montana é uma das personagens que me ficou para sempre. Obrigatório. ●●●●●
Scarface é exactamente isto. É o percurso de Tony Montana, um cubano exilado em Miami na década de 80, que com a ajuda do seu inseparável amigo Manny, violentamente vai subindo os degraus da hierarquia mafiosa. Dos "pequenos", sanguinários e sujos trabalhos iniciais contra os cartéis colombianos de droga a mando do grande figurão de Frank Lopez e Omar, o seu irascível capataz, até lhes tirar o tapete debaixo dos pés (e a tosse) e conseguir finalmente chegar ao topo do pirâmide. Mas um percurso assim tão violento e traiçoeiro vai ter obviamente consequências trágicas e o império da droga de Tony Montana pode ruir a qualquer instante.
Este excelente Scarface de Brian De Palma é na realidade um remake do clássico Scarface de 1932. Mas aqui, o detalhe de ser um remake é mesmo apenas um detalhe histórico. Não tem nada de pejorativo. O filme é tão bom e "original" na concepção (mais um argumento fantástico de Oliver Stone) que só pode ser considerado um remake porque tem a mesma figura central como protagonista e estrutura narrativa de base. Se no original a base é a proibição do álcool e os seus meandros ilegais, nesta adaptação é o tráfico de droga e tudo o que se conhece em torno no negócio. As diferenças na história são irrelevantes porque o núcleo não é propriamente a ilegalidade do negócio, mas sim a ganância do protagonista. Sendo Brian De Palma um mestre incontestado, Scarface é um daqueles filmes inesquecíveis.
Mas muita da força do filme vem dos actores. Steven Bauer, Michelle Pfeiffer, Mary Elizabeth Mastrantonio, Robert Loggia e F. Murray Abraham não são só secundários. São verdadeiras personagens, com estruturas robustas e grande personalidade que enchem a tela e enriquecem todo o filme. Mas o destaque principal tinha mesmo de ir para Al Pacino. Aquela mistura de cómico louco e gangster cubano é irrepetível. Tal como disse no início, acho que esta performance acabou por cristalizar na mentalidade colectiva a aparência, os trejeitos e o comportamento do típico mafioso. Não se consegue olhar para um mafioso e vê-lo de forma diferente do Tony Montana. Um mafioso tem realmente de ser assim para ser considerado um mafioso de jeito. Tem de ser ganancioso e violento, sem empatia, mas por outro lado tem de ser sensível e aberto às coisas belas da vida. Tony Montana é uma mistura estranha que deveria fazer um gajo virar a cara, mas estranhamente tem uma certa atracção. Não sei explicar muito bem isto. Ou se calhar até sei... Por exemplo, desde o primeiro contacto visual, Tony procura incessantemente por Elvira mesmo que esta o mande dar uma volta constantemente. Ele é tão insistente que acaba por casar com ela, mas durante todo o filme não se lhes vê um único momento de intimidade. Até o beijo no final do casamento é quase invisível com aquele véu impenetrável. De certa forma, o encanto e a atracção de Tony Montana existe porque ele é um símbolo do eterno desejo de se ter o que não se tem. E depois, quando consegue o que quer, parte para outra demanda em busca de outra coisa qualquer que não tem... É complicado...
Scarface é um dos meus filmes favoritos e Tony Montana é uma das personagens que me ficou para sempre. Obrigatório. ●●●●●
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Indiana Jones (Harrison Ford) volta a defrontar os Nazis, mas para além do habitual artefacto mítico que é o centro da aventura, desta vez a questão é bem mais pessoal. O desaparecimento do seu pai, Henry Jones, Sr (Sean Connery) que procurava o Santo Graal para um rico industrial (Julian Glover), desencadeia uma série de acontecimentos, acção e aventuras sem paralelo. Há perseguições para todos os gostos, desde aviões, carros, motas, barcos, a pé e até de comboio. Ah! E também há cavalos e tanques de guerra! É só escolher. Dá-me a impressão que depois do desagrado generalizado com o anterior Temple of Doom, Steven Spielberg e George Lucas tentaram compensar o público com o máximo de diversão possível. E verdade seja dita, conseguiram-no totalmente, pois esta é a maior e a mais completa aventura do Indiana Jones. Só não suplanta o original, porque lá está... é o original.
Logo à partida nota-se uma carga muito mais positiva em torno de todo o filme. A fotografia é mais ampla e mais luminosa também. E depois a história centra-se mais entre o Jones, Pai e filho que é obviamente uma história de reconciliação, tema omnipresente no cinema de Spielberg. Antes mesmo de entrar na narrativa e nesta história de busca pela vida eterna que o Santo Graal pode proporcionar, há até um pequeno bónus para mostrar como um jovem intrépido se irá transformar no Indiana Jones (um saudoso River Phoenix) que todos conhecemos. Com isso ficamos a saber mais alguns segredos de como Jones se tornou Indiana Jones e assim fortalece e dá mais "chão" a umas das melhores personagens ficcionais de todo o cinema. The Last Crusade é uma saca cheia de prendas para os fãs. Têm-se acesso à história, aos questões pessoais, à família e vai até ao pormenor de dar a conhecer o porquê do "apelido" Indiana. Se Raiders of The Lost Ark, criou a figura e o mito Indiana Jones, The Last Crusade cristalizou-o na mente do público e fez-lhe um pequeno pedestal. Acho que se pode dizer que foram claramente estes dois filmes que realmente criaram o "universo" Indiana Jones e que os outros dois filmes são apenas interlúdios e pequenas aventuras secundárias...
Steven Spielberg quase que dá a mão à palmatória e presenteia toda a gente com o máximo de trabalho e truques possível. Dificilmente um filme de acção e aventura pode ser melhor que este. Não parece, mas este ainda um produto dos anos 80. Hoje em dia, num qualquer cinema, dificilmente alguém conseguiria identificar o ano de produção deste filme porque na realidade (como aconteceu tantas outras vezes com o cinema de Spielberg) The Last Crusade é um filme "moderno"... parece que estreou a semana passada.
Para além da presença de Alison Doody no papel de belísima mas dúbia agente secundária, ainda temos o regresso de algum do casting original (Denholm Elliott, John Rhys-Davies) que para além de lhe dar uma credibilidade ainda traz uma carga light e quase cómica. Foi uma excelente escolha e muito bem pensado. Não há praticamente nada a apontar como negativo neste filme. A par do primeiro filme, The Last Crusade é o meu preferido nesta saga Indiana Jones. Um remate perfeito para uma trilogia (quase) perfeita. ●●●●●
Logo à partida nota-se uma carga muito mais positiva em torno de todo o filme. A fotografia é mais ampla e mais luminosa também. E depois a história centra-se mais entre o Jones, Pai e filho que é obviamente uma história de reconciliação, tema omnipresente no cinema de Spielberg. Antes mesmo de entrar na narrativa e nesta história de busca pela vida eterna que o Santo Graal pode proporcionar, há até um pequeno bónus para mostrar como um jovem intrépido se irá transformar no Indiana Jones (um saudoso River Phoenix) que todos conhecemos. Com isso ficamos a saber mais alguns segredos de como Jones se tornou Indiana Jones e assim fortalece e dá mais "chão" a umas das melhores personagens ficcionais de todo o cinema. The Last Crusade é uma saca cheia de prendas para os fãs. Têm-se acesso à história, aos questões pessoais, à família e vai até ao pormenor de dar a conhecer o porquê do "apelido" Indiana. Se Raiders of The Lost Ark, criou a figura e o mito Indiana Jones, The Last Crusade cristalizou-o na mente do público e fez-lhe um pequeno pedestal. Acho que se pode dizer que foram claramente estes dois filmes que realmente criaram o "universo" Indiana Jones e que os outros dois filmes são apenas interlúdios e pequenas aventuras secundárias...
Steven Spielberg quase que dá a mão à palmatória e presenteia toda a gente com o máximo de trabalho e truques possível. Dificilmente um filme de acção e aventura pode ser melhor que este. Não parece, mas este ainda um produto dos anos 80. Hoje em dia, num qualquer cinema, dificilmente alguém conseguiria identificar o ano de produção deste filme porque na realidade (como aconteceu tantas outras vezes com o cinema de Spielberg) The Last Crusade é um filme "moderno"... parece que estreou a semana passada.
Para além da presença de Alison Doody no papel de belísima mas dúbia agente secundária, ainda temos o regresso de algum do casting original (Denholm Elliott, John Rhys-Davies) que para além de lhe dar uma credibilidade ainda traz uma carga light e quase cómica. Foi uma excelente escolha e muito bem pensado. Não há praticamente nada a apontar como negativo neste filme. A par do primeiro filme, The Last Crusade é o meu preferido nesta saga Indiana Jones. Um remate perfeito para uma trilogia (quase) perfeita. ●●●●●
A apresentação de provas terminou e o juiz acaba de instruir os jurados. Eles terão de se reunir e decidir literalmente sobre a vida ou a morte de um jovem acusado da morte do pai. As provas parecem apontar inequivocamente para a culpa do jovem e a reunião dos 12 jurados parece apenas uma formalidade jurídica. No entanto, quando tudo apontava para uma conclusão rápida, a situação dá uma volta inesperada quando um dos jurados declara que o jovem é inocente porque tem dúvidas sobre o caso. A polémica estala entre os jurados... Uma sala pequena, abafada, quente e 12 homens a decidirem sobre a vida ou a morte de um jovem. Eis a premissa de 12 Angry Men.
Aos poucos, vai-se sabendo mais das particularidades dos caso, mas também se vai conhecendo melhor a personalidade dos jurados e porque é que eles pensam da forma que pensam. Tudo se resume, literalmente, ao esgrimir de argumentos entre estes 12 actores: Martin Balsam, John Fiedler, Lee J. Cobb, E.G. Marshall, Jack Klugman, Edward Binns, Jack Warden, Henry Fonda, Joseph Sweeney, Ed Begley, George Voskovec, Robert Webber. Todos têm tempo de antena, todos são importantes para o desenrolar da história e todos merecem o mesmo destaque.
Esta foi a estreia bombástica Sidney Lumet, numa produção do próprio Henry Fonda. Lumet conseguiu fazer um filme numa mísera sala e ainda assim construir todo um mundo de personagens. Não é coincidência que só saiba o nome de dois dos jurados (Davis e McCardle). Os restantes só são conhecidos pelas suas profissões. Os nomes não são importantes... O importante é o que eles significam, pois todos são um género de estereótipo da sociedade americana. Não é uma coisa muito perceptível, mas é mais um excelente pormenor a juntar ao resto. Acho que poucos filmes conseguem uma simplicidade tão brilhante quanto este. Um guião absolutamente sem falhas, grandes diálogos dramáticos e uma ambiência quase de suspense, que deixa um gajo agarrado à cadeira à espera de novos desenvolvimentos na história. E quando uma pessoa pensa que aquilo vai bloquear numa situação, somos logo confrontados com uma reviravolta...
Este é um dos grande filmes de sempre. Posso ir mais longe e afirmar que 12 Angry Men resume toda a essência do cinema: uma boa história, bons actores, um cenário e um realizador com capacidade para misturar isto tudo. E esta é talvez, a mais perfeita mistura com o mínimo possível de ingredientes. Um caso de estudo sobre como fazer um filme perfeito. Nada a apontar. Um dos grandes filmes da história do cinema. Absolutamente obrigatório. ●●●●●
Aos poucos, vai-se sabendo mais das particularidades dos caso, mas também se vai conhecendo melhor a personalidade dos jurados e porque é que eles pensam da forma que pensam. Tudo se resume, literalmente, ao esgrimir de argumentos entre estes 12 actores: Martin Balsam, John Fiedler, Lee J. Cobb, E.G. Marshall, Jack Klugman, Edward Binns, Jack Warden, Henry Fonda, Joseph Sweeney, Ed Begley, George Voskovec, Robert Webber. Todos têm tempo de antena, todos são importantes para o desenrolar da história e todos merecem o mesmo destaque.
Esta foi a estreia bombástica Sidney Lumet, numa produção do próprio Henry Fonda. Lumet conseguiu fazer um filme numa mísera sala e ainda assim construir todo um mundo de personagens. Não é coincidência que só saiba o nome de dois dos jurados (Davis e McCardle). Os restantes só são conhecidos pelas suas profissões. Os nomes não são importantes... O importante é o que eles significam, pois todos são um género de estereótipo da sociedade americana. Não é uma coisa muito perceptível, mas é mais um excelente pormenor a juntar ao resto. Acho que poucos filmes conseguem uma simplicidade tão brilhante quanto este. Um guião absolutamente sem falhas, grandes diálogos dramáticos e uma ambiência quase de suspense, que deixa um gajo agarrado à cadeira à espera de novos desenvolvimentos na história. E quando uma pessoa pensa que aquilo vai bloquear numa situação, somos logo confrontados com uma reviravolta...
Este é um dos grande filmes de sempre. Posso ir mais longe e afirmar que 12 Angry Men resume toda a essência do cinema: uma boa história, bons actores, um cenário e um realizador com capacidade para misturar isto tudo. E esta é talvez, a mais perfeita mistura com o mínimo possível de ingredientes. Um caso de estudo sobre como fazer um filme perfeito. Nada a apontar. Um dos grandes filmes da história do cinema. Absolutamente obrigatório. ●●●●●
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Joker é um excelente filme e foi totalmente inesperado. Mas também é um filme perigoso. E é perigoso porque em traços muito gerais diz: matem os ricos. O dinheiro é a raiz de todos os males e os ricos, porque têm muito dinheiro, são as folhas que brotam da raiz do mal. Não é por nada que após a estreia do filme, venderam-se milhares de máscaras do Joker e elas apareceram misturadas em manifestações juntamente com a máscara também icónica do Guy Fawkes. De certo forma, elas representam a mesma coisa: a oposição à massa elitista e reinante que menospreza o "pequeno e anónimo cidadão", que não é mais que um "criado" destinado a servir o "amo". Joker tornou-se imediatamente num símbolo. Aquele look tornou-se numa máscara para representar os oprimidos... Pensando um bocado no estado do mundo, cheira-me que, mais cedo ou mais tarde, vamos ver muitas máscaras destas por aí...
Mas deixando as questões das desigualdades económicas e sociológicas para outra altura, a personagem do Joker é talvez o melhor vilão de sempre. Já é a terceira vez que faz aparições memoráveis. Jack Nicholson (como sempre a fazer dele próprio, que é como quem diz, excepcional), Heath Legder (sem dúvida nenhuma, o melhor de todos) e agora Joaquin Phoenix (noutro registo completamente diferente). Três grandes actores a darem corpo a uma personagem que tem lentamente evoluído para algo muito maior que simplesmente ser o "mau" que se opõe ao Batman. Como personagem, a vantagem de Joker em relação a outras personagens da BD é que ele não tem uma história de fundo. Não existe a históoria de como surgiu o Joker. Cada um pode imaginar o que quiser. É por isso que ao longo do tempo, e conforme o filme em questão, Joker tem vários nomes e nunca ninguém percebeu muito bem porque é que ele é assim, porque é que tem aquela aparência ou porque é que ele tem os impulsos maníacos que tem. É um vilão sem amarras e sem história. O que o torna no mais perigoso de todos.
Mas neste filme, o Joker é muito mais que um vilão. Aqui, nem sequer parece fazer parte do universo DC Comics e do mundo fantástico dos super-heróis e super-vilões. Aqui, Joker é um gajo "normal". Ele não quer dominar o mundo, tornar-se líder do sub-mundo do crime ou perseguir os bons da fita porque é o "vilão" e é isso que uma pessoa espera. Joker é simplesmente uma figura que tenta fazer pela vida, que quer ter uma vida normal, mas que é menosprezada, espancada, espezinhada e posta de parte da sociedade, porque é diferente dos restantes. E quando uma personagem destas se "passa" da cabeça e consegue ganhar algum protagonismo e poder, eventualmente, alguém vai pagá-las. Por isso é que eu disse que Joker é um filme perigoso. É que isto já não é ficção. Isto já não é um super-vilão. Isto já alcança a realidade do dia-a-dia e isto revê-se na actualidade. De certa forma, está implícito que ao virar de uma qualquer esquina pode aparecer o próximo Joker. E pode vir armado. Ou vir acompanhado com outros Jokers. Por isso, Joker não só é um filme perigoso, como é complexo na forma como vê e mostra a sociedade e por causa disso vai ser sempre polémico. Ultrapassa a ficcionalidade do cinema e ocupa as ruas.
Não deixa de ser curioso que seja um realizador de comédia a pegar no Joker desta forma. Faz todo o sentido. Não há nada pior que um palhaço frustrado e humilhado. Acho que Todd Phillips deu um salto épico em frente, na forma como pegou no tema. O filme é excepcional pela intensidade e pela tensão constante. Muito rapidamente uma pessoa se apercebe que está a ver um drama moderno e não um vulgar filme de super-vilões.
A ambiência do filme é do melhor que já tenho visto e isso em parte é devido à banda sonora original de Hildur Guðnadóttir que é excepcional. A música é tão importante neste filme porque ela foi criada à posteriori para que pudesse dar o tom certo às próprias filmagens. E mesmo a música que não foi composta para o filme foi espectacularmente bem escolhida. Aquele Joker completamente fora da realidade, a dançar a escadaria ao som daquela música imaginária que só passa na sua cabeça... Já é uma cena icónica do cinema. Não é todos os dias que se vê uma coisa dessas acontecer. É preciso ver muitos filmes para encontrar momentos únicos deste género. Mas os pontos positivos são muitos mais. A cinematografia e a estética visual tem óbvias influências dos filmes "violentos" de rua da Nova York dos anos 70, como o Death Wish, o The French Connection ou o Taxi Driver. Foi mais uma excelente escolha, porque cria um ambiente que é imediatamente reconhecível.
O casting é todo muito bom (Zazie Beetz, Frances Conroy, Brett Cullen e com Robert De Niro à cabeça porque já é uma lenda viva), mas como é óbvio todo o destaque tem de ir para Joaquin Phoenix, porque simplesmente rouba todo o show. É mais uma daquelas interpretações que vai ficar para a história. Não só pela questão física (Phoenix absolutamente esquelético e quase irreconhecível) mas principalmente pela carga psicológica que consegue transmitir e que passa para a tela. Genial. Acho que é mais uma performance que vai deixar marcas no actor. Nota-se que aquilo foi tão emotivo, tão visceralmente profundo, que Phoenix ficará marcado pelo Joker para sempre. Há alturas que eu noto que o "Método" leva o actores um pouco longe demais; vão tão para dentro das personagens, que quando saem, um pouco da personagem vem com eles: acho que este é mais um dos casos. Mas também o Joaquin Phoenix sempre teve aquele crazy eye característico... e sempre achei que vivia muito mais gente dentro daquela cabeça. Joaquin Phoenix é um gajo à maneira...
Nos últimos tempos, não me lembro de ter visto um filme que me enchesse tanto as medidas como este Joker. Brilhante. Surpreendente. Faltam-me adjectivos. Não estava nada à espera desta pancada. Pensei que ia ver um filme normal e sem dúvida nenhuma, acabei por ver o melhor filme de 2019. We are all clowns. Obrigatório. ●●●●●
Mas deixando as questões das desigualdades económicas e sociológicas para outra altura, a personagem do Joker é talvez o melhor vilão de sempre. Já é a terceira vez que faz aparições memoráveis. Jack Nicholson (como sempre a fazer dele próprio, que é como quem diz, excepcional), Heath Legder (sem dúvida nenhuma, o melhor de todos) e agora Joaquin Phoenix (noutro registo completamente diferente). Três grandes actores a darem corpo a uma personagem que tem lentamente evoluído para algo muito maior que simplesmente ser o "mau" que se opõe ao Batman. Como personagem, a vantagem de Joker em relação a outras personagens da BD é que ele não tem uma história de fundo. Não existe a históoria de como surgiu o Joker. Cada um pode imaginar o que quiser. É por isso que ao longo do tempo, e conforme o filme em questão, Joker tem vários nomes e nunca ninguém percebeu muito bem porque é que ele é assim, porque é que tem aquela aparência ou porque é que ele tem os impulsos maníacos que tem. É um vilão sem amarras e sem história. O que o torna no mais perigoso de todos.
Mas neste filme, o Joker é muito mais que um vilão. Aqui, nem sequer parece fazer parte do universo DC Comics e do mundo fantástico dos super-heróis e super-vilões. Aqui, Joker é um gajo "normal". Ele não quer dominar o mundo, tornar-se líder do sub-mundo do crime ou perseguir os bons da fita porque é o "vilão" e é isso que uma pessoa espera. Joker é simplesmente uma figura que tenta fazer pela vida, que quer ter uma vida normal, mas que é menosprezada, espancada, espezinhada e posta de parte da sociedade, porque é diferente dos restantes. E quando uma personagem destas se "passa" da cabeça e consegue ganhar algum protagonismo e poder, eventualmente, alguém vai pagá-las. Por isso é que eu disse que Joker é um filme perigoso. É que isto já não é ficção. Isto já não é um super-vilão. Isto já alcança a realidade do dia-a-dia e isto revê-se na actualidade. De certa forma, está implícito que ao virar de uma qualquer esquina pode aparecer o próximo Joker. E pode vir armado. Ou vir acompanhado com outros Jokers. Por isso, Joker não só é um filme perigoso, como é complexo na forma como vê e mostra a sociedade e por causa disso vai ser sempre polémico. Ultrapassa a ficcionalidade do cinema e ocupa as ruas.
Não deixa de ser curioso que seja um realizador de comédia a pegar no Joker desta forma. Faz todo o sentido. Não há nada pior que um palhaço frustrado e humilhado. Acho que Todd Phillips deu um salto épico em frente, na forma como pegou no tema. O filme é excepcional pela intensidade e pela tensão constante. Muito rapidamente uma pessoa se apercebe que está a ver um drama moderno e não um vulgar filme de super-vilões.
A ambiência do filme é do melhor que já tenho visto e isso em parte é devido à banda sonora original de Hildur Guðnadóttir que é excepcional. A música é tão importante neste filme porque ela foi criada à posteriori para que pudesse dar o tom certo às próprias filmagens. E mesmo a música que não foi composta para o filme foi espectacularmente bem escolhida. Aquele Joker completamente fora da realidade, a dançar a escadaria ao som daquela música imaginária que só passa na sua cabeça... Já é uma cena icónica do cinema. Não é todos os dias que se vê uma coisa dessas acontecer. É preciso ver muitos filmes para encontrar momentos únicos deste género. Mas os pontos positivos são muitos mais. A cinematografia e a estética visual tem óbvias influências dos filmes "violentos" de rua da Nova York dos anos 70, como o Death Wish, o The French Connection ou o Taxi Driver. Foi mais uma excelente escolha, porque cria um ambiente que é imediatamente reconhecível.
O casting é todo muito bom (Zazie Beetz, Frances Conroy, Brett Cullen e com Robert De Niro à cabeça porque já é uma lenda viva), mas como é óbvio todo o destaque tem de ir para Joaquin Phoenix, porque simplesmente rouba todo o show. É mais uma daquelas interpretações que vai ficar para a história. Não só pela questão física (Phoenix absolutamente esquelético e quase irreconhecível) mas principalmente pela carga psicológica que consegue transmitir e que passa para a tela. Genial. Acho que é mais uma performance que vai deixar marcas no actor. Nota-se que aquilo foi tão emotivo, tão visceralmente profundo, que Phoenix ficará marcado pelo Joker para sempre. Há alturas que eu noto que o "Método" leva o actores um pouco longe demais; vão tão para dentro das personagens, que quando saem, um pouco da personagem vem com eles: acho que este é mais um dos casos. Mas também o Joaquin Phoenix sempre teve aquele crazy eye característico... e sempre achei que vivia muito mais gente dentro daquela cabeça. Joaquin Phoenix é um gajo à maneira...
Nos últimos tempos, não me lembro de ter visto um filme que me enchesse tanto as medidas como este Joker. Brilhante. Surpreendente. Faltam-me adjectivos. Não estava nada à espera desta pancada. Pensei que ia ver um filme normal e sem dúvida nenhuma, acabei por ver o melhor filme de 2019. We are all clowns. Obrigatório. ●●●●●
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Durante muito anos, ouvi falar de um filme de guerra que supostamente era o melhor de sempre. Tive a sorte e o privilégio de poder assistir a uma reposição numa sala de cinema. Ia com a expectativa no máximo, o que nunca é bom, porque pode facilmente derrapar para a decepção. Na realidade, o filme é bastante longo e lento, mas isso já sabia. Como tinha a sensação que ia ser uma visualização dura, preparei-me mentalmente, mais como se fosse encaminhado para um experiência nova do que para ir ver um "simples" filme.
Um filme de guerra baseado em eventos verídicos, passado na Bielorrússia, onde durante a II Guerra Mundial, um quarto da população daquele país foi chacinada pelos nazis, e tudo isto observado, durante mais de 2 horas, pelos olhos de um adolescente, eu já sabia que não ia ser fácil de ver. O filme começou e para ser totalmente sincero, ao fim de 30 minutos já começava a pensar que tinha sido enganado. O filme é absurdamente lento parece que não tem uma direcção definida e as personagens parecem todas meio loucas. A história parecia que não ia passar daquilo. Ao fim de quase uma hora de filme estive quase a desistir. As performances hiper-exageradas dos actores, mais teatrais que outra coisa, o contínuo do som estridentemente irritante e a lentidão exacerbante da narrativa estavam a dar cabo de mim, tanto mentalmente, mas até fisicamente. Tinha dores nas costas e estava irrequieto numa sala de cinema reconhecida pelas suas cadeiras desconfortáveis. Mas então, tal como as bombas que repentinamente caiam sobre as personagens, de repente, as coisas mudaram.
Vem e Vê (Idi i smotri, no título original) começa verdadeiramente a ganhar tração. Todo aquele tempo, que pareceu desperdiçado, era uma espécie de preparação mental para o que vinha a seguir. A partir daí, começa a entrar nos campos do sublime. A loucura toma conta do filme e a determinada altura, esqueci-me que estava a ver uma peça cinematográfica. Tornou-se verdadeiramente numa experiência. Entra-se num cenário de guerra. Sente-se o terror. Cheira-se a loucura. O zumbido constante torna-se numa linha de continuidade a que uma pessoa se quer agarrar.
Vem e Vê é um dos poucos filmes de guerra em que se começa a detestar a guerra. Ela não é dramatizada ou glorificada; é odiada. Por isso é que Vem e Vê é um dos grande clássicos do cinema. É um filme de guerra potente porque Elem Klimov nos" obriga" a olhar para o ecrã, para aquelas atrocidades todas e a pensar que aquilo não é natural; aquilo não deveria existir. Como é que situações daquelas foram possíveis? Vem e Vê mexe com o cérebro de uma pessoa. É um daqueles filmes que não se esquece porque é como estar a ver o Inferno na Terra. Tecnicamente é irrepreensível, mas a nível dos actores é algo do outro mundo. É duma intensidade que dá arrepios na espinha. Aleksey Kravchenko. Uou! Que tour-de-force. Que coisa espantosa para um miúdo. Uma actuação única e para a história. Nem parece verdade. Parece que o miúdo não está a representar um papel num filme. A determinada altura, parece que ele viveu mesmo todos aqueles momentos horrendos. Ao seu lado, um fantasma. Não sei a experiência foi demasiado perturbadora, mas Olga Mironova não fez mais filmes depois deste. E mesmo com a net intrusiva que temos hoje em dia, boa sorte a tentar encontrar uma biografia. Um mistério...
E depois, o final. Um dos melhores finais de todos os tempos. Quando uma pessoa, começa finalmente a respirar de alívio porque percebe que o filme caminha para o seu términus, Vem e Vê pega nos nossos neurónios e leva-nos a dar uma volta fantasiosa para trás no tempo. Depois põe-me em lágrimas com a música mais bela e triste de sempre e impõe uma questão bastante pertinente: e se pudéssemos voltar atrás no tempo para evitar tudo aquilo que se acabou de ver? E se para isso fosse preciso fazer "aquilo"? (não quero estragar o final, porque esta é a melhor parte). E é essa questão que ainda permanece em disputa na minha cabeça, tanto tempo depois de ver o filme. Há muito poucos filmes que me põe realmente a pensar e em que eu não tenho uma reposta concreta e absoluta. Vem e Vê é um deles. Confrontado com aquela situação final, o que faria eu? Sinceramente não sei responder e mesmo que conseguisse responder, não sei que o conseguiria concretizar. Este é o poder dos grandes filmes. Perduram nos nossos cérebros para sempre. Vem e Vê muito provavelmente só sairá do meu circuito de neurónios, quando eles deixarem de funcionar. Vem e Vê correspondeu totalmente ao que esperava. É uma obra essencial e obrigatória. ●●●●●
Um filme de guerra baseado em eventos verídicos, passado na Bielorrússia, onde durante a II Guerra Mundial, um quarto da população daquele país foi chacinada pelos nazis, e tudo isto observado, durante mais de 2 horas, pelos olhos de um adolescente, eu já sabia que não ia ser fácil de ver. O filme começou e para ser totalmente sincero, ao fim de 30 minutos já começava a pensar que tinha sido enganado. O filme é absurdamente lento parece que não tem uma direcção definida e as personagens parecem todas meio loucas. A história parecia que não ia passar daquilo. Ao fim de quase uma hora de filme estive quase a desistir. As performances hiper-exageradas dos actores, mais teatrais que outra coisa, o contínuo do som estridentemente irritante e a lentidão exacerbante da narrativa estavam a dar cabo de mim, tanto mentalmente, mas até fisicamente. Tinha dores nas costas e estava irrequieto numa sala de cinema reconhecida pelas suas cadeiras desconfortáveis. Mas então, tal como as bombas que repentinamente caiam sobre as personagens, de repente, as coisas mudaram.
Vem e Vê (Idi i smotri, no título original) começa verdadeiramente a ganhar tração. Todo aquele tempo, que pareceu desperdiçado, era uma espécie de preparação mental para o que vinha a seguir. A partir daí, começa a entrar nos campos do sublime. A loucura toma conta do filme e a determinada altura, esqueci-me que estava a ver uma peça cinematográfica. Tornou-se verdadeiramente numa experiência. Entra-se num cenário de guerra. Sente-se o terror. Cheira-se a loucura. O zumbido constante torna-se numa linha de continuidade a que uma pessoa se quer agarrar.
Vem e Vê é um dos poucos filmes de guerra em que se começa a detestar a guerra. Ela não é dramatizada ou glorificada; é odiada. Por isso é que Vem e Vê é um dos grande clássicos do cinema. É um filme de guerra potente porque Elem Klimov nos" obriga" a olhar para o ecrã, para aquelas atrocidades todas e a pensar que aquilo não é natural; aquilo não deveria existir. Como é que situações daquelas foram possíveis? Vem e Vê mexe com o cérebro de uma pessoa. É um daqueles filmes que não se esquece porque é como estar a ver o Inferno na Terra. Tecnicamente é irrepreensível, mas a nível dos actores é algo do outro mundo. É duma intensidade que dá arrepios na espinha. Aleksey Kravchenko. Uou! Que tour-de-force. Que coisa espantosa para um miúdo. Uma actuação única e para a história. Nem parece verdade. Parece que o miúdo não está a representar um papel num filme. A determinada altura, parece que ele viveu mesmo todos aqueles momentos horrendos. Ao seu lado, um fantasma. Não sei a experiência foi demasiado perturbadora, mas Olga Mironova não fez mais filmes depois deste. E mesmo com a net intrusiva que temos hoje em dia, boa sorte a tentar encontrar uma biografia. Um mistério...
E depois, o final. Um dos melhores finais de todos os tempos. Quando uma pessoa, começa finalmente a respirar de alívio porque percebe que o filme caminha para o seu términus, Vem e Vê pega nos nossos neurónios e leva-nos a dar uma volta fantasiosa para trás no tempo. Depois põe-me em lágrimas com a música mais bela e triste de sempre e impõe uma questão bastante pertinente: e se pudéssemos voltar atrás no tempo para evitar tudo aquilo que se acabou de ver? E se para isso fosse preciso fazer "aquilo"? (não quero estragar o final, porque esta é a melhor parte). E é essa questão que ainda permanece em disputa na minha cabeça, tanto tempo depois de ver o filme. Há muito poucos filmes que me põe realmente a pensar e em que eu não tenho uma reposta concreta e absoluta. Vem e Vê é um deles. Confrontado com aquela situação final, o que faria eu? Sinceramente não sei responder e mesmo que conseguisse responder, não sei que o conseguiria concretizar. Este é o poder dos grandes filmes. Perduram nos nossos cérebros para sempre. Vem e Vê muito provavelmente só sairá do meu circuito de neurónios, quando eles deixarem de funcionar. Vem e Vê correspondeu totalmente ao que esperava. É uma obra essencial e obrigatória. ●●●●●
Joe Cabot (Lawrence Tierney), um chefe mafioso, reúne meia dúzia de criminosos para fazer um "simples" assalto a uma ourivesaria. Desconhecidos entre eles, decidem continuar a manter o anonimato recorrendo a nomes peculiares: Mr. White (Harvey Keitel), Mr. Blonde (Michael Madsen), Mr. Orange (Tim Roth), Mr. Brown (Quentin Tarantino), Mr. Pink (Steve Buscemi), Mr. Blue (Edward Bunker [ele próprio um verdadeiro insider do mundo do crime; foi condenado por vários assaltos e outros crimes]). E ainda há um Nice Guy Eddie (Chris Penn). O que parecia ser um golpe fácil e certo, dá para o torto. Para piorar a situação, os assaltantes começam a desconfiar que há um polícia infiltrado... E então tudo se torna num pandemónio sanguinário.
Escrito e realizado pelo então estreante Quentin Tarantino, Reservoir Dogs é um potente soco no estômago. Para filme de estreia de um realizador é simplesmente brilhante. Demonstra claramente que não é preciso um grande orçamento para fazer um bom filme. O que é necessário é essencialmente um bom guião, bons actores e um bom realizador com uma visão diferente. Só com estes três elementos consegue-se fazer uma obra intemporal. Visto em 1992, foi uma coisa... inesperada. Nessa altura não havia outros Tarantinos. Foi algo completamente diferente e original.
Sou grande fã do Tarantino e dos seus filmes. E por isso vou lendo umas coisas para além dos próprios filmes. Desde o início da carreira que vejo o Tarantino a ser acusado de copiar ideias, conceitos e partes inteiras de outros filmes. Podem ligar-se todos os filmes do Tarantino a géneros que foram populares nos anos 60, 70 e algumas coisas dos anos 80. Sejam os filmes de "assaltos", o blaxploitation, os spaghetti western ou os filmes de artes marciais dos 80's, simplesmente está lá tudo. Alguém que tenha visto muitos filmes destas décadas - o que é o meu caso - encontra facilmente montes de cenas que parecem copiadas ou que estão na base dos filmes Tarantino. Acho normal. Quer uma pessoa queira, quer não, quando se vê muitos filmes, mentalmente começam a ficar arquivadas tantas coisas, que eventualmente acabam por sair outra vez, de uma forma quase inconsciente e não propositada.
Toda a gente sabe que Tarantino, antes de se tornar realizador, trabalhou num videoclube. Mas o que poucas pessoas sabem é que foi lá que ele escreveu uns guiõezitos de filmes como True Romance, Natural Born Killers... ou o Reservoir Dogs. Menos pessoas sabem ainda que quando o clube fechou em 1994, o Tarantino comprou todos os 8000 filmes, para servirem de uma espécie de streaming à moda antiga. Já falei disso por aqui. A diferença entre o novíssimo streaming e o velhinho videoclube, é que antes, um gajo tinha de levantar o cu para ver os filmes. E para além disso, o catálogo disponível nos videoclubes era absolutamente gigantesco quando comparado com as plataformas digitais... E estou a divagar novamente... Este tema fica para outra altura...
Só para resumir: este efeito-cópia que normalmente é associado ao Tarantino é fruto de uma longuíssima pesquisa pessoal por todos os filmes, bons e maus, dos mais variados temas e linguagens, que basicamente eram aquela amálgama gigantesca de filmes lançados na era do VHS. Toda esta questão para justificar o facto do Reservoir Dogs ser muitas vezes referido com uma cópia descarada de City on Fire (1987), um típico filme de acção policial de Hong Kong dos anos 80. Eu também vi muitos outros filmes policiais asiáticos nos anos 80 (estavam a fazer a transição das artes marciais [começavam a perder popularidade] para os policiais) e também entre eles, muitos me pareciam cópias ou ter elementos copiados uns dos outros. Há uma citação dele que acho que resume perfeitamente este sentimento e justifica tudo: Quando lhe perguntaram se tinha frequentado uma escola de cinema, a resposta dele foi: "Não, fui ver filmes". Acho que está tudo dito. Propositadamente copiado ou não, Reservoir Dogs é um filme novo. Tem todos os elementos que mais tarde seriam a marca do Tarantino, que é esta mistura estranha de homenagem, monólogos, mesclagem, violência, linguagem não-linear e música. Música muito boa. E com isso, ele conseguiu criar um género totalmente novo, o "Tarantino". E isso não foi copiado de lado nenhum, portanto estamos conversados...
Já tudo foi dito sobre o Reservoir Dogs. É um daqueles filmes que não é possível ficar a meio: ou se ama ou se detesta. Eu estou claramente no primeiro grupo. Um filme perfeito. ●●●●●
Escrito e realizado pelo então estreante Quentin Tarantino, Reservoir Dogs é um potente soco no estômago. Para filme de estreia de um realizador é simplesmente brilhante. Demonstra claramente que não é preciso um grande orçamento para fazer um bom filme. O que é necessário é essencialmente um bom guião, bons actores e um bom realizador com uma visão diferente. Só com estes três elementos consegue-se fazer uma obra intemporal. Visto em 1992, foi uma coisa... inesperada. Nessa altura não havia outros Tarantinos. Foi algo completamente diferente e original.
Sou grande fã do Tarantino e dos seus filmes. E por isso vou lendo umas coisas para além dos próprios filmes. Desde o início da carreira que vejo o Tarantino a ser acusado de copiar ideias, conceitos e partes inteiras de outros filmes. Podem ligar-se todos os filmes do Tarantino a géneros que foram populares nos anos 60, 70 e algumas coisas dos anos 80. Sejam os filmes de "assaltos", o blaxploitation, os spaghetti western ou os filmes de artes marciais dos 80's, simplesmente está lá tudo. Alguém que tenha visto muitos filmes destas décadas - o que é o meu caso - encontra facilmente montes de cenas que parecem copiadas ou que estão na base dos filmes Tarantino. Acho normal. Quer uma pessoa queira, quer não, quando se vê muitos filmes, mentalmente começam a ficar arquivadas tantas coisas, que eventualmente acabam por sair outra vez, de uma forma quase inconsciente e não propositada.
Toda a gente sabe que Tarantino, antes de se tornar realizador, trabalhou num videoclube. Mas o que poucas pessoas sabem é que foi lá que ele escreveu uns guiõezitos de filmes como True Romance, Natural Born Killers... ou o Reservoir Dogs. Menos pessoas sabem ainda que quando o clube fechou em 1994, o Tarantino comprou todos os 8000 filmes, para servirem de uma espécie de streaming à moda antiga. Já falei disso por aqui. A diferença entre o novíssimo streaming e o velhinho videoclube, é que antes, um gajo tinha de levantar o cu para ver os filmes. E para além disso, o catálogo disponível nos videoclubes era absolutamente gigantesco quando comparado com as plataformas digitais... E estou a divagar novamente... Este tema fica para outra altura...
Só para resumir: este efeito-cópia que normalmente é associado ao Tarantino é fruto de uma longuíssima pesquisa pessoal por todos os filmes, bons e maus, dos mais variados temas e linguagens, que basicamente eram aquela amálgama gigantesca de filmes lançados na era do VHS. Toda esta questão para justificar o facto do Reservoir Dogs ser muitas vezes referido com uma cópia descarada de City on Fire (1987), um típico filme de acção policial de Hong Kong dos anos 80. Eu também vi muitos outros filmes policiais asiáticos nos anos 80 (estavam a fazer a transição das artes marciais [começavam a perder popularidade] para os policiais) e também entre eles, muitos me pareciam cópias ou ter elementos copiados uns dos outros. Há uma citação dele que acho que resume perfeitamente este sentimento e justifica tudo: Quando lhe perguntaram se tinha frequentado uma escola de cinema, a resposta dele foi: "Não, fui ver filmes". Acho que está tudo dito. Propositadamente copiado ou não, Reservoir Dogs é um filme novo. Tem todos os elementos que mais tarde seriam a marca do Tarantino, que é esta mistura estranha de homenagem, monólogos, mesclagem, violência, linguagem não-linear e música. Música muito boa. E com isso, ele conseguiu criar um género totalmente novo, o "Tarantino". E isso não foi copiado de lado nenhum, portanto estamos conversados...
Já tudo foi dito sobre o Reservoir Dogs. É um daqueles filmes que não é possível ficar a meio: ou se ama ou se detesta. Eu estou claramente no primeiro grupo. Um filme perfeito. ●●●●●
Não sou uma pessoa de riso fácil. Admito isso. E por causa disso pode parecer que não gosto de comédias. Isso não é verdade. O que acontece é que a maioria das comédias modernas, como quase tudo o resto, foram invadidas pelo recente género de youtube-teenage-stupid (inventei a expressão agora mesmo...). No entanto, e para provar que de facto gosto de uma boa comédia, posso dar um exemplo perfeito: Ferris Bueller's Day Off. Um filme "simples", centrado num único dia de três adolescentes que decidem faltar às aulas. Um filme simples, mas brilhante. Um filme que está sempre actual porque toca nas emoções mais básicas: toda gente quer ser livre. Toda a gente quer ter um dia livre para simplesmente fazer o que lhe apetece e soltar-se das amarras sociais do dia-a-dia. Toda a gente quer ser o Ferris Bueller nem que seja apenas por único dia.
Ferris Bueller's Day Off é o protótipo da comédia perfeita. Tem inteligência, tem profundidade, tem algum drama à mistura, mas especialmente faz-me rir. Ao longo dos anos já o devo ter visto uma dúzia de vezes. É um daqueles filmes a que simplesmente não consigo resistir. Estou a aqui a escrever e já me está a dar vontade de o ver novamente. Lembra-me sempre um sítio feliz.
Além de ser um filme consensualmente bem aceite por gerações diferentes, também é um filme que gera discussões e teorias. Uma das teorias que tenho seguido ao longo dos anos é a de Ferris Bueller's Day Off é uma espécie de enredo do tipo Fight Club. Por muito descabido que possa parecer, na realidade, até tem o seu nexo. A estranha teoria suporta-se na ideia de que o Ferris Bueller não existe e é apenas um alter-ego do Cameron Frye. Estranhamente, faz um certo sentido, já que apesar do filme se centrar na figura despreocupada do Ferris, a narrativa segue de igual forma, o despertar do Cameron para uma vida mais relaxada, fora do alcance opressivo dos pais, que culmina na cena da destruição do Ferrari. Pode ser só uma teoria (e eu até acho que é uma simples coincidência), mas é um sinal que um simples filme de adolescentes é muito mais que um "simples filme de adolescentes". Lá está, tem profundidade, as personagens têm camadas, têm substância e fibra. Representam muito mais do que aquilo que se vê.
John Hughes é um mestre neste tipo de filmes. Para além das capacidades na realização, o que sempre gostei no John Hughes é a visão diferente das coisas. Tal como agora, na altura, o teenage movie era uma coisa estúpida. Os adolescentes eram (e são) associados a uma sub-espécie subdesenvolvida mentalmente, burra como uma porta, de moralidade muito duvidosa e que só se conseguem divertir se se estiverem a magoar ou a fazer coisas estúpidas. Apesar de ser o estereótipo comummente aceite, Hughes (e eu partilho a visão) vê os adolescentes de uma forma diferente. Vê-os com as mesmas qualidades emocionais do adulto, mas com a diferença de serem mais rebeldes, mais impulsivos e com uma vontade enorme de serem livres.
E o que dizer do casting? Matthew Broderick "é" o Ferris Bueller e Alan Ruck "é" o Cameron Frye. Nunca poderia ser de outra forma. Às vezes tenho aquela sensação de que o actor "nasceu" para aquele papel. É este o caso. Mas o restante pessoal (Jennifer Grey, Mia Sara) não lhe ficam atrás. As personagens são tão ricas que às vezes só precisam de aparecer 5 minutos para serem memoráveis como Edie McClurg, Charlie Sheen ou Ben Stein. Para além de que nos falam directamente através da tela... E o que dizer de Jeffrey Jones? Hilariante. Aquela cena final no autocarro, já com os créditos a rolar, é das melhores coisas que já vi na minha vida. Aquela miúda com os óculos gigantes e aquela música estranha nunca mais me saiu da cabeça.
Para além de ser um filme que nunca vai "morrer", Ferris Bueller's Day Off é um dos meus filmes favoritos de sempre. Seja por efeitos da nostalgia ou pelo seu próprio valor, coloco-o orgulhosamente ao lado dos grandes clássicos do cinema. E já agora... Save Ferris... ●●●●●
Ferris Bueller's Day Off é o protótipo da comédia perfeita. Tem inteligência, tem profundidade, tem algum drama à mistura, mas especialmente faz-me rir. Ao longo dos anos já o devo ter visto uma dúzia de vezes. É um daqueles filmes a que simplesmente não consigo resistir. Estou a aqui a escrever e já me está a dar vontade de o ver novamente. Lembra-me sempre um sítio feliz.
Além de ser um filme consensualmente bem aceite por gerações diferentes, também é um filme que gera discussões e teorias. Uma das teorias que tenho seguido ao longo dos anos é a de Ferris Bueller's Day Off é uma espécie de enredo do tipo Fight Club. Por muito descabido que possa parecer, na realidade, até tem o seu nexo. A estranha teoria suporta-se na ideia de que o Ferris Bueller não existe e é apenas um alter-ego do Cameron Frye. Estranhamente, faz um certo sentido, já que apesar do filme se centrar na figura despreocupada do Ferris, a narrativa segue de igual forma, o despertar do Cameron para uma vida mais relaxada, fora do alcance opressivo dos pais, que culmina na cena da destruição do Ferrari. Pode ser só uma teoria (e eu até acho que é uma simples coincidência), mas é um sinal que um simples filme de adolescentes é muito mais que um "simples filme de adolescentes". Lá está, tem profundidade, as personagens têm camadas, têm substância e fibra. Representam muito mais do que aquilo que se vê.
John Hughes é um mestre neste tipo de filmes. Para além das capacidades na realização, o que sempre gostei no John Hughes é a visão diferente das coisas. Tal como agora, na altura, o teenage movie era uma coisa estúpida. Os adolescentes eram (e são) associados a uma sub-espécie subdesenvolvida mentalmente, burra como uma porta, de moralidade muito duvidosa e que só se conseguem divertir se se estiverem a magoar ou a fazer coisas estúpidas. Apesar de ser o estereótipo comummente aceite, Hughes (e eu partilho a visão) vê os adolescentes de uma forma diferente. Vê-os com as mesmas qualidades emocionais do adulto, mas com a diferença de serem mais rebeldes, mais impulsivos e com uma vontade enorme de serem livres.
E o que dizer do casting? Matthew Broderick "é" o Ferris Bueller e Alan Ruck "é" o Cameron Frye. Nunca poderia ser de outra forma. Às vezes tenho aquela sensação de que o actor "nasceu" para aquele papel. É este o caso. Mas o restante pessoal (Jennifer Grey, Mia Sara) não lhe ficam atrás. As personagens são tão ricas que às vezes só precisam de aparecer 5 minutos para serem memoráveis como Edie McClurg, Charlie Sheen ou Ben Stein. Para além de que nos falam directamente através da tela... E o que dizer de Jeffrey Jones? Hilariante. Aquela cena final no autocarro, já com os créditos a rolar, é das melhores coisas que já vi na minha vida. Aquela miúda com os óculos gigantes e aquela música estranha nunca mais me saiu da cabeça.
Para além de ser um filme que nunca vai "morrer", Ferris Bueller's Day Off é um dos meus filmes favoritos de sempre. Seja por efeitos da nostalgia ou pelo seu próprio valor, coloco-o orgulhosamente ao lado dos grandes clássicos do cinema. E já agora... Save Ferris... ●●●●●
Quando o filme é Ghostbusters, eu poderia estar aqui uma tarde inteira a escrever. Tem tantos pormenores e tanta coisa boa para se falar que dava uma enciclopédia. A música original de Ray Parker Jr.; os excelentes efeitos especiais (para a altura), numa lógica de verdadeira magia do cinema; as figuras icónicas em que se transformaram os próprios Ghostbusters; o Stay-Puft Marshmallow Man gigante e o Slime verde; a carrinha branca e aquele som único da sirene. Poderia falar de todos estes pormenores, mas acho que nem vale a pena. São tão icónicos e imediatamente reconhecidos que seria redundante. Tudo isto já faz parte da cultura geral.
Acho simplesmente que é a mistura tão bem construída de comédia e terror (para 1984; hoje seria considerado mais fantasia do que terror), que o torna num filme perfeito. Parabéns ao Ivan Reitman por ter dado vida a estas personagens e por feito um filme que é uma referência para mim. E não só. Acho que é um filme intemporal. Nunca está desactualizado e nu sai de moda.
Foi muito provavelmente o primeiro filme que vi num cinema. Para um miúdo, foi uma experiência avassaladora, num misto de medo e diversão, tudo ao mesmo tempo. Foi espectacular. Perdi a noção da quantidade de vezes que vi os Ghostbusters, mas já foram muitas. Ainda há pouco tempo estava a dar na TV e não consegui resistir. Tive de o ver outra vez.
Bill Murray, Dan Aykroyd, Harold Ramis e Ernie Hudson serão os Ghostbusters para sempre. Apesar da fatia maior de mérito ser obviamente do Dan Aykroyd e do Harold Ramis (por causa do guião), é obviamente o Bill Murray que rouba todo o protagonismo. É um dos gajos mais naturalmente cómicos que algum vez vi. Um dos meus gajos favoritos de sempre. Sigourney Weaver, Rick Moranis, Annie Potts e William Atherton fazem a melhor conjugação secundária que me lembro. Todos têm deixas memoráveis e inesquecíveis. O que é incrível, se se pensar que a maior parte do guião original não foi respeitado. Grande parte dos diálogos foram improvisados, o que é incrível.
Para mim, Ghostbusters é o protótipo do derradeiro filme de família. Perfeito. Fantástico. Surpreendente. Cómico. Melhor é impossível. ●●●●●
Acho simplesmente que é a mistura tão bem construída de comédia e terror (para 1984; hoje seria considerado mais fantasia do que terror), que o torna num filme perfeito. Parabéns ao Ivan Reitman por ter dado vida a estas personagens e por feito um filme que é uma referência para mim. E não só. Acho que é um filme intemporal. Nunca está desactualizado e nu sai de moda.
Foi muito provavelmente o primeiro filme que vi num cinema. Para um miúdo, foi uma experiência avassaladora, num misto de medo e diversão, tudo ao mesmo tempo. Foi espectacular. Perdi a noção da quantidade de vezes que vi os Ghostbusters, mas já foram muitas. Ainda há pouco tempo estava a dar na TV e não consegui resistir. Tive de o ver outra vez.
Bill Murray, Dan Aykroyd, Harold Ramis e Ernie Hudson serão os Ghostbusters para sempre. Apesar da fatia maior de mérito ser obviamente do Dan Aykroyd e do Harold Ramis (por causa do guião), é obviamente o Bill Murray que rouba todo o protagonismo. É um dos gajos mais naturalmente cómicos que algum vez vi. Um dos meus gajos favoritos de sempre. Sigourney Weaver, Rick Moranis, Annie Potts e William Atherton fazem a melhor conjugação secundária que me lembro. Todos têm deixas memoráveis e inesquecíveis. O que é incrível, se se pensar que a maior parte do guião original não foi respeitado. Grande parte dos diálogos foram improvisados, o que é incrível.
Para mim, Ghostbusters é o protótipo do derradeiro filme de família. Perfeito. Fantástico. Surpreendente. Cómico. Melhor é impossível. ●●●●●
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Apesar de ter a noção que o filme era muito conceituado, nunca tinha visto o Breakfast at Tiffany's por inteiro. Apenas tinha visto umas partes aqui e outras ali. E as partes que vi não me suscitaram grande interesse. Tal como me acontece com outros filmes, e por nenhuma explicação lógica, nunca me puxou para vê-lo. Feelings... No entanto, numa reposição recente na TV decidi vê-lo e perceber se o meu feeling estava correcto. E tenho de dizer que estava totalmente errado. Breakfast at Tiffany's é muito bom. É, de facto, um dos grandes clássicos. Holly Golightly é uma personagem muito à frente do seu tempo. Já vi alguns filmes da mesma altura e a figura de Audrey Hepburn destaca-se mesmo pela diferença. As voluptuosas protagonistas daquela altura não têm nada a ver com a figura esguia e felina de Hepburn. George Peppard é um verdadeiro galã. Um figurão físico, clássico, mas também um figurão no que diz respeito ao actor. Juntos fazem uma combinação que é totalmente moderna. E perfeita. Os "secundários" como Martin Balsam e Patricia Neal são perfeitos. Para ser absolutamente perfeito, só faltava aqui a presença de Peter Sellers. Eu vejo-o perfeitamente a fazer o papel interpretado por Mickey Rooney, até porque é, infelizmente, o único ponto negativo de todo o filme. Não propriamente pela actuação de Rooney, mas porque que a personagem é demasiado estereotipada, goofy e em certa parte parece fugiu daqueles antigos cartoons da Warner Brothers para aqui. Só um actor absolutamente genial poderia salvar aquela personagem. Daí o "meu" Peter Sellers, o gajo mais naturalmente cómico que já pisou este planeta.
A narrativa de Breakfast at Tiffany's é elaborada e desenrola-se num ritmo do tipo avanço rápido,pausa; avanço rápido,pausa, dando a conhecer a cada novo acto, um dado novo que baralha totalmente a história anterior e acrescenta camadas de complexidade à figura de Lula Mae / Holly Golightly. A viagem emocional da personagem vai oscilando entre o drama e a comédia, mas nunca se fixa em nenhuma temática. A mestria de Blake Edwards é evidente. Não só pela forma como dirige os actores, mas também como imprime um ritmo imparável ao filme, tipo montanha-russa que vai do drama chuvoso ao romance meloso em 4 segundos.
E depois há toda uma história cheia de pormenores que brilham como diamantes na montra da Tiffany's como por exemplo um gato que se chama... Gato e um brasileiro abastado chamado José da Silva Pereira, entre muitos outros. Basear filmes em obras de autores de calibre como Truman Capote tem as suas vantagens. Ideias e bons pormenores nunca faltam.
Destaque óbvio também para a música original "Moon River", um ícone sonoro reconhecido mundialmente que ficou para a posteridade. Henry Mancini compôs a música especificamente para Audrey Hepburn. Henry Mancini, Blake Edwards (e pensei eu: Peter Sellers)??? Pink Panther? Será? Muito provavelmente começou aqui qualquer coisa...
Normalmente não é um item que as pessoas destaquem num filme, mas para mim, a fotografia é algo muito importante. Aquelas cores Eastman Kodak, o Tecnhicolor e essas tecnicidades todas que dão origem àquelas cores tão características dos filmes dos anos 60... Para mim, essas são as cores do cinema. Aqueles vermelhos profundos e os azuis vibrantes. O grão da película; aqueles crepúsculos e os amanheceres como o do início do filme... para mim, essas são as texturas e as verdadeiras cores do cinema. E já agora, que se está a falar da imagem, mais uma pequena coisinha... Aquele poster do Robert McGinnis merecia um prémio. É o design gráfico no seu melhor. Não há muito a dizer. Até as coisas que orbitam o filme são muito boas. Breakfast at Tiffany's é irrepreensível. Define muito bem o que é um verdadeiro clássico. Altamente recomendado. Obrigatório. ●●●●●
A narrativa de Breakfast at Tiffany's é elaborada e desenrola-se num ritmo do tipo avanço rápido,pausa; avanço rápido,pausa, dando a conhecer a cada novo acto, um dado novo que baralha totalmente a história anterior e acrescenta camadas de complexidade à figura de Lula Mae / Holly Golightly. A viagem emocional da personagem vai oscilando entre o drama e a comédia, mas nunca se fixa em nenhuma temática. A mestria de Blake Edwards é evidente. Não só pela forma como dirige os actores, mas também como imprime um ritmo imparável ao filme, tipo montanha-russa que vai do drama chuvoso ao romance meloso em 4 segundos.
E depois há toda uma história cheia de pormenores que brilham como diamantes na montra da Tiffany's como por exemplo um gato que se chama... Gato e um brasileiro abastado chamado José da Silva Pereira, entre muitos outros. Basear filmes em obras de autores de calibre como Truman Capote tem as suas vantagens. Ideias e bons pormenores nunca faltam.
Destaque óbvio também para a música original "Moon River", um ícone sonoro reconhecido mundialmente que ficou para a posteridade. Henry Mancini compôs a música especificamente para Audrey Hepburn. Henry Mancini, Blake Edwards (e pensei eu: Peter Sellers)??? Pink Panther? Será? Muito provavelmente começou aqui qualquer coisa...
Normalmente não é um item que as pessoas destaquem num filme, mas para mim, a fotografia é algo muito importante. Aquelas cores Eastman Kodak, o Tecnhicolor e essas tecnicidades todas que dão origem àquelas cores tão características dos filmes dos anos 60... Para mim, essas são as cores do cinema. Aqueles vermelhos profundos e os azuis vibrantes. O grão da película; aqueles crepúsculos e os amanheceres como o do início do filme... para mim, essas são as texturas e as verdadeiras cores do cinema. E já agora, que se está a falar da imagem, mais uma pequena coisinha... Aquele poster do Robert McGinnis merecia um prémio. É o design gráfico no seu melhor. Não há muito a dizer. Até as coisas que orbitam o filme são muito boas. Breakfast at Tiffany's é irrepreensível. Define muito bem o que é um verdadeiro clássico. Altamente recomendado. Obrigatório. ●●●●●
Não sendo muito fluente em francês, tive de pesquisar para perceber o que La Jetée queria dizer. La Jetée é aquela plataforma pública dos aeroportos em que se podia assistir às descolagens e aterragens dos aviões. No entanto, no meio das minhas pesquisas por tradutores online, percebi que o título também podia ser interpretado, foneticamente, como "là j'étais", que pode traduzir-se mais ou menos como "eu estava lá". Não sei qual foi a ideia de Chris Marker quando deu este título ao filme, mas a realidade é que funciona bem de qualquer das formas.
Apesar de ser uma curta-metragem a preto e branco, de apenas 28 minutos, La Jetée é um filme complexo. Quer dizer, eu digo que é um filme complexo, mas é apenas por brevíssimos segundos que podemos ver imagens em movimento. Por isso, é difícil qualificá-lo como filme. Como é apresentado apenas com recurso a fotografia estática, visualmente é mais uma novela gráfica que outra coisa. No entanto, a música, a narração e o efeito da montagem com o som, dão-lhe uma continuidade tão fluída que me parece óbvio que se está a assistir verdadeiramente a um filme.
Se a escolha estética da fotografia (em detrimento do movimento) como medium para apresentação visual pode ser considerado com uma "simplicidade", já a história de base é bastante complexa. Algures no futuro, numa distopia em que a humanidade vive em subterrâneos para fugir às consequências letais de um mundo devastado e envenenado pela guerra nuclear, um grupo de cientistas consegue desenvolver um método de viajar no tempo. O objectivo é tentar arranjar ajuda para a questão do presente, indo tanto para o passado como para o futuro. Para isso contam com um homem, o único que consegue física e mentalmente aguentar a "viagem". O homem tem visões de uma mulher que não conhece, e a imagem dela numa gare de aeroporto é recorrente. E é aqui que as viagens no tempo começam a dar a volta ao argumento e entram em paradoxos a que aparentemente não se pode escapar. Aliás, este parece ser o grande significado de La Jetée e a sua grande mensagem, que é sempre actual: pode-se andar para a frente ou para trás no tempo, mas não se consegue escapar ao momento presente.
Pequeno em tamanho, mas muito grande em conteúdo, é assim que eu vejo o La Jetée. Para mim, é um dos marcos incontornáveis do cinema, simplesmente porque é a expressão da máxima estilização possível. Estica todos os limites daquilo que pode ser considerado como um filme. Os actores, por exemplo, estão presentes (Hélène Chatelain, Davos Hanich e Jacques Ledoux), mas não tendo movimento acabam por funcionar quase como adereços da própria história. Por outro lado, a voz do narrador, (Jean Negroni), sendo uma presença incorpórea, acaba por ter mais presença que os outros que de facto aparecem visualmente. Pufff! O cérebro dum gajo explode quando começa pensar nestas coisas... E ainda por cima, num tão curto espaço de tempo consegue concentrar tantos e tão complexos assuntos que sempre me deu a volta à cabeça. Uma preciosidade. Totalmente obrigatório. ●●●●●
Apesar de ser uma curta-metragem a preto e branco, de apenas 28 minutos, La Jetée é um filme complexo. Quer dizer, eu digo que é um filme complexo, mas é apenas por brevíssimos segundos que podemos ver imagens em movimento. Por isso, é difícil qualificá-lo como filme. Como é apresentado apenas com recurso a fotografia estática, visualmente é mais uma novela gráfica que outra coisa. No entanto, a música, a narração e o efeito da montagem com o som, dão-lhe uma continuidade tão fluída que me parece óbvio que se está a assistir verdadeiramente a um filme.
Se a escolha estética da fotografia (em detrimento do movimento) como medium para apresentação visual pode ser considerado com uma "simplicidade", já a história de base é bastante complexa. Algures no futuro, numa distopia em que a humanidade vive em subterrâneos para fugir às consequências letais de um mundo devastado e envenenado pela guerra nuclear, um grupo de cientistas consegue desenvolver um método de viajar no tempo. O objectivo é tentar arranjar ajuda para a questão do presente, indo tanto para o passado como para o futuro. Para isso contam com um homem, o único que consegue física e mentalmente aguentar a "viagem". O homem tem visões de uma mulher que não conhece, e a imagem dela numa gare de aeroporto é recorrente. E é aqui que as viagens no tempo começam a dar a volta ao argumento e entram em paradoxos a que aparentemente não se pode escapar. Aliás, este parece ser o grande significado de La Jetée e a sua grande mensagem, que é sempre actual: pode-se andar para a frente ou para trás no tempo, mas não se consegue escapar ao momento presente.
Pequeno em tamanho, mas muito grande em conteúdo, é assim que eu vejo o La Jetée. Para mim, é um dos marcos incontornáveis do cinema, simplesmente porque é a expressão da máxima estilização possível. Estica todos os limites daquilo que pode ser considerado como um filme. Os actores, por exemplo, estão presentes (Hélène Chatelain, Davos Hanich e Jacques Ledoux), mas não tendo movimento acabam por funcionar quase como adereços da própria história. Por outro lado, a voz do narrador, (Jean Negroni), sendo uma presença incorpórea, acaba por ter mais presença que os outros que de facto aparecem visualmente. Pufff! O cérebro dum gajo explode quando começa pensar nestas coisas... E ainda por cima, num tão curto espaço de tempo consegue concentrar tantos e tão complexos assuntos que sempre me deu a volta à cabeça. Uma preciosidade. Totalmente obrigatório. ●●●●●
Como começar a descrever o Delicatessen? Num futuro pós-apocalíptico em que a comida é um bem raro e tardada como se fosse dinheiro, há um prédio nos arredores de Paris em que o talhante do rés-do chão arranja carne... só que não é vaca nem porco... Dito assim, é uma descrição algo pesada, mas na realidade, Delicatessen é uma comédia. Negra, mas para todos os efeitos, uma comédia. Diria mais, uma comédia única, saída das mentes geniais de Marc Caro e Jean-Pierre Jeunet.
Após responder a um estranho anúncio de emprego, um ex-palhaço (Dominique Pinon) apaixona-se pela filha (Marie-Laure Dougnac) do maquiavélico talhante (Jean-Claude Dreyfus). A partir daqui, todo o prédio - que é habitado pelas mais fantásticas personagens que vi nos últimos tempos em filme (como a Aurore e as suas infrutíferas mas engenhosas tentativas de suicídio, o homem rã, o carteiro louco ou o casal Tapioca) - entra num frenesim de acontecimentos cómicos.
Bastante interessante para os dias de hoje, é a batalha implícita entre os comedores de "carne" e os vegetarianos, "gentilmente" apelidados de "trogloditas" pelos carnívoros. Pensando bem, eles poderiam co-exisitir na mesma realidade, mas há de facto uma guerra entre os que querem continuar a comer carne e viver na superfície e os que preferem ficar restritos aos grãos e aos vegetais e por isso são escorraçados para o sub-solo. Como nunca há uma explicação lógica para se chegar ao ponto de existir um "Delicatessen" com aquela carne tão peculiar, eu assumo que o mundo se dividiu (inclusive com guerras à mistura) entre os que querem manter um estilo de vida obviamente insustentável (a não ser à custa do sacrifício de outros) e os que preferem seguir outro rumo, nem que para isso se neguem a uma existência "normal" e tenham de se refugiar debaixo de terra. Na realidade, a história principal de Delicatessen nunca é bem explicada e permanece omissa durante todo o filme. Mas acho que sei porque é que isso aconteceu. Em 1991 falar de ecologia ou ambiente era como falar de hippies ou de cultos estranhos. Nessa altura a única coisa que se falava era do buraco de ozono e mesmo assim ninguém sabia o que era; apenas era melhor usar pouco Óleo Johnson nos dias de praia porque se podia ficar com aquela cor de pele alaranjada como os temidos cremes de cenoura dos anos 80. Isso e a possível falta de pressão nas latas de aerossol. Esta era a principal preocupação da população em relação ao buraco do ozono. Porra, no final da década de 90 é que se começou a equacionar tirar o chumbo dos combustíveis, portanto só por aqui dá para perceber o que significa ecologia naqueles tempos. Portanto, temas como ecologia, sustentabilidade, dietas carnívoras ou vegetarianismo, mesmo sendo um tema subtil, era algo muito à frente do seu tempo e inevitavelmente incompreensível. Diria mesmo que o tema de base do Delicatessen não foi mais desenvolvido, porque o público simplesmente não iria entender. Foda-se, estamos no século XXI e o público ainda não consegue entender, quanto mais nos anos 90... Bem, por muito atrasado que um gajo fosse nos 90's, pelo menos não lhe passaria pela cabeça defender a teoria de que a Terra é plana... Raios parta que o pessoal está a ficar cada vez mais estúpido... Mas pronto... estou a divagar novamente... voltando ao filme...
Delicatessen é uma obra única, meticulosamente criada e montada como um relógio suíço por parte de Caro e Jeunet. E convém ressalvar o pormenor importante de que este foi o filme de estreia desta dupla. Em termos visuais, de trabalho de câmara, música e também na construção e desenvolvimento das personagens é do melhor que há. Só o genérico inicial é uma pequena obra de arte.
Este é um filme que não seria possível hoje em dia. Nem a maioria do público com a mente disneyficada por décadas de filmes de super-heróis e efeitos especiais digitais conseguiria aguentar tanto tempo sentado sem explosões, nem os estúdios poriam um cêntimo que fosse para financiar uma obra destas. Delicatessen não é um filme assim tão antigo, mas já é um clássico e um sinal do que vai acontecer com o cinema para o futuro: uma polarização brutal que provavelmente levará à morte o filme de autor nas salas de cinema. Por muito bom que um filme seja, estará restrito a um serviço de streaming qualquer ou será corrido para um ciclo de cinema que ainda passe filmes não-blockbuster. É uma tristeza, mas é o que é.
Delicatessen é um filme que ainda está presente no meu cérebro. Está tão bem escrito e tão bem filmado que é inesquecível. Tem associado aquele sentimento de uma certa inocência que já raramente se vê. É tão único que tive dificuldade em descrevê-lo de início. Ainda hoje não consigo arranjar equivalência. Se alguém me perguntar de que género é o Delicatessen, vou ter a mesma dificuldade que tinha na altura. É uma comédia? É, mas não é bem. É ficção científica? Sim, mas não é bem isso. Tem números circenses e musicais, mas também parece que vai descambar para o gore sanguinário. Será do tipo comédia negra de ficção científica com inspiração circense?!? Não sei. É difícil de explicar e de qualificar. Delicatessen é apenas igual a... Delicatessen. Lá está: é peça única. Mais que um filme, Delicatessen é uma obra de arte cinematográfica que tem sempre que ser mencionada quando se fala de cinema. Absolutamente essencial. ●●●●●
Após responder a um estranho anúncio de emprego, um ex-palhaço (Dominique Pinon) apaixona-se pela filha (Marie-Laure Dougnac) do maquiavélico talhante (Jean-Claude Dreyfus). A partir daqui, todo o prédio - que é habitado pelas mais fantásticas personagens que vi nos últimos tempos em filme (como a Aurore e as suas infrutíferas mas engenhosas tentativas de suicídio, o homem rã, o carteiro louco ou o casal Tapioca) - entra num frenesim de acontecimentos cómicos.
Bastante interessante para os dias de hoje, é a batalha implícita entre os comedores de "carne" e os vegetarianos, "gentilmente" apelidados de "trogloditas" pelos carnívoros. Pensando bem, eles poderiam co-exisitir na mesma realidade, mas há de facto uma guerra entre os que querem continuar a comer carne e viver na superfície e os que preferem ficar restritos aos grãos e aos vegetais e por isso são escorraçados para o sub-solo. Como nunca há uma explicação lógica para se chegar ao ponto de existir um "Delicatessen" com aquela carne tão peculiar, eu assumo que o mundo se dividiu (inclusive com guerras à mistura) entre os que querem manter um estilo de vida obviamente insustentável (a não ser à custa do sacrifício de outros) e os que preferem seguir outro rumo, nem que para isso se neguem a uma existência "normal" e tenham de se refugiar debaixo de terra. Na realidade, a história principal de Delicatessen nunca é bem explicada e permanece omissa durante todo o filme. Mas acho que sei porque é que isso aconteceu. Em 1991 falar de ecologia ou ambiente era como falar de hippies ou de cultos estranhos. Nessa altura a única coisa que se falava era do buraco de ozono e mesmo assim ninguém sabia o que era; apenas era melhor usar pouco Óleo Johnson nos dias de praia porque se podia ficar com aquela cor de pele alaranjada como os temidos cremes de cenoura dos anos 80. Isso e a possível falta de pressão nas latas de aerossol. Esta era a principal preocupação da população em relação ao buraco do ozono. Porra, no final da década de 90 é que se começou a equacionar tirar o chumbo dos combustíveis, portanto só por aqui dá para perceber o que significa ecologia naqueles tempos. Portanto, temas como ecologia, sustentabilidade, dietas carnívoras ou vegetarianismo, mesmo sendo um tema subtil, era algo muito à frente do seu tempo e inevitavelmente incompreensível. Diria mesmo que o tema de base do Delicatessen não foi mais desenvolvido, porque o público simplesmente não iria entender. Foda-se, estamos no século XXI e o público ainda não consegue entender, quanto mais nos anos 90... Bem, por muito atrasado que um gajo fosse nos 90's, pelo menos não lhe passaria pela cabeça defender a teoria de que a Terra é plana... Raios parta que o pessoal está a ficar cada vez mais estúpido... Mas pronto... estou a divagar novamente... voltando ao filme...
Delicatessen é uma obra única, meticulosamente criada e montada como um relógio suíço por parte de Caro e Jeunet. E convém ressalvar o pormenor importante de que este foi o filme de estreia desta dupla. Em termos visuais, de trabalho de câmara, música e também na construção e desenvolvimento das personagens é do melhor que há. Só o genérico inicial é uma pequena obra de arte.
Este é um filme que não seria possível hoje em dia. Nem a maioria do público com a mente disneyficada por décadas de filmes de super-heróis e efeitos especiais digitais conseguiria aguentar tanto tempo sentado sem explosões, nem os estúdios poriam um cêntimo que fosse para financiar uma obra destas. Delicatessen não é um filme assim tão antigo, mas já é um clássico e um sinal do que vai acontecer com o cinema para o futuro: uma polarização brutal que provavelmente levará à morte o filme de autor nas salas de cinema. Por muito bom que um filme seja, estará restrito a um serviço de streaming qualquer ou será corrido para um ciclo de cinema que ainda passe filmes não-blockbuster. É uma tristeza, mas é o que é.
Delicatessen é um filme que ainda está presente no meu cérebro. Está tão bem escrito e tão bem filmado que é inesquecível. Tem associado aquele sentimento de uma certa inocência que já raramente se vê. É tão único que tive dificuldade em descrevê-lo de início. Ainda hoje não consigo arranjar equivalência. Se alguém me perguntar de que género é o Delicatessen, vou ter a mesma dificuldade que tinha na altura. É uma comédia? É, mas não é bem. É ficção científica? Sim, mas não é bem isso. Tem números circenses e musicais, mas também parece que vai descambar para o gore sanguinário. Será do tipo comédia negra de ficção científica com inspiração circense?!? Não sei. É difícil de explicar e de qualificar. Delicatessen é apenas igual a... Delicatessen. Lá está: é peça única. Mais que um filme, Delicatessen é uma obra de arte cinematográfica que tem sempre que ser mencionada quando se fala de cinema. Absolutamente essencial. ●●●●●
Forrest Gump! O que dizer? É um filme perfeito a todos os níveis. É a simplicidade total aliada à genialidade. Nada a apontar. É comovente, inocente, verdadeiro e inspirador. Faz chorar e faz rir. É tão completo quanto uma vida inteira. Uma verdadeira obra-prima. Irrepreensível a todos os níveis. Não tenho mais adjectivos. Em 1994, Robert Zemeckis tinha nas mãos tecnologia digital de ponta e podia, se quisesse, ter feito uma treta qualquer com dragões ou extraterrestres. Mas como é um dos melhores realizadores de sempre (apesar de ninguém o considerar), pegou nessas novas técnicas de filmar e decidiu mostrar os momentos mais marcantes da história dos Estados Unidos nas últimas décadas do século XX. E fê-lo através do olhar e da vida de Forrest Gump. Há quem considere a personagem de Gump como deficiente, autista ou simplesmente um gajo com QI muitíssimo baixo. Acho que não interessa a distinção. Para mim, Forrest Gump, mais que uma personagem assim ou assado, é um símbolo. Um símbolo de generosidade sem esperar retribuição, um símbolo de uma inocência perdida, um símbolo de um tipo de personagem quotidiana que se perdeu no tempo e que já só existe numa certa memória colectiva do passado. E este símbolo, mais do que dar a sua perspectiva diferente dos acontecimentos que toda a gente conhece, transformou Forrest Gump (o filme) num verdadeiro conto moral moderno. Aquelas pessoas no banco, enquanto esperam pelo autocarro, somos nós, as pessoas normais, sou eu, o gajo normal, endurecido pela acelerada e desumanizada vida moderna, a ser confrontado com aquela personagem antiga, aquela visão deturpada mas terna, aquela inocência perdida de um tempo áureo que já não existe. É como quando uma pessoa olha para trás, mesmo para os momentos piores da vida e parece que o que vem imediatamente à cabeça são aquelas partes melhores e mais cómicas... faço-me entender? Se calhar não... Pelo menos, foi o que eu senti na altura, e é o que ainda sinto, quando revejo o Forrest Gump.
Para todos os efeitos, Tom Hanks "é" o Forrest Gump. Zemeckis pode ser a mente de Gump, mas Tom Hanks é que lhe deu corpo, vida e alma. Sally Field, Robin Wright e Gary Sinise podem estar impecáveis, mas Tom Hanks é decididamente o rei da fita. Uma das suas melhores interpretações, se não mesmo a melhor de todas. Forrest Gump é um dos meus filmes preferidos de sempre. Para mim é uma obra-prima moderna, repleta de momentos comoventes, extraordinários e memoráveis. Simplesmente épico e brilhante a todos o níveis. Não só é super-recomendado, como o considero obrigatório. ●●●●●
Para todos os efeitos, Tom Hanks "é" o Forrest Gump. Zemeckis pode ser a mente de Gump, mas Tom Hanks é que lhe deu corpo, vida e alma. Sally Field, Robin Wright e Gary Sinise podem estar impecáveis, mas Tom Hanks é decididamente o rei da fita. Uma das suas melhores interpretações, se não mesmo a melhor de todas. Forrest Gump é um dos meus filmes preferidos de sempre. Para mim é uma obra-prima moderna, repleta de momentos comoventes, extraordinários e memoráveis. Simplesmente épico e brilhante a todos o níveis. Não só é super-recomendado, como o considero obrigatório. ●●●●●
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Quando uma franchise de filmes (e séries) tem fãs de todas as idades, espalhados por todo o mundo, uma pessoa sabe que está a lidar com algo sério. Os trekkies (ou trekkers, como gostam de ser chamados) até já tiveram direito a um documentário próprio com direito a sequela e tudo. Por isso, "this is real business". Mas se existem trekkies é porque ao longo de décadas (desde a série original nos anos 60 até aos dias de hoje) existiram toneladas de filmes, séries, spin-offs, livros, BD's e jogos. Estou a falar de 13 filmes e pelo menos 7 séries, sempre com sucesso suficiente para garantir continuidade. É realmente impressionante.
Quero desde já esclarecer que não sou fã, mas vi todos os filmes e diversos episódios das várias séries porque sou fã, isso sim, da ficção científica e reconheço-lhe esse valor e até o impacto na cultura popular. No entanto, para mim, apenas um dos filmes preenche todos os requisitos. Estou a falar do Star Trek: The Motion Picture, um verdadeiro clássico da ficção científica e até do cinema no geral. Spock, James T. Kirk, Dr. McCoy, Uhura, Scott e Sulu voltam aos seus postos na mítica USS Enterprise para tentar interceptar e parar uma gigantesca e extremamente poderosa nave alienígena que se dirige para a Terra, destruindo tudo à sua passagem.
Aos comandos do filme estava um verdadeiro senhor do cinema chamado Robert Wise, um verdadeiro camaleão que realizou pequenitas coisitas como West Side Story, The Haunting, The Sound of Music, só para citar alguns clássicos... Wise é um eclético mestre artesão do cinema e isso nota-se bastante bem. O tom sereno (e lento) do filme, revestido de uma quase "factualidade" científica, juntamente com os espectaculares (ainda hoje) efeitos especiais do grande mestre da "magia" Douglas Trumbull, criaram uma verdadeira obra-prima da ficção que, para mim, é uma das melhores histórias do género que vi até hoje. O argumento é excepcional e V'Ger é talvez uma das melhores criações da ficção científica até à data. Leonard Nimoy, William Shatner, DeForest Kelley, Nichelle Nichols, James Doohan, George Takei e Walter Koenig voltam para os papéis deixados vagos na série e não desiludem. Star Trek: The Motion Picture é um clássico que merece estar na história do cinema. ●●●●●
Quero desde já esclarecer que não sou fã, mas vi todos os filmes e diversos episódios das várias séries porque sou fã, isso sim, da ficção científica e reconheço-lhe esse valor e até o impacto na cultura popular. No entanto, para mim, apenas um dos filmes preenche todos os requisitos. Estou a falar do Star Trek: The Motion Picture, um verdadeiro clássico da ficção científica e até do cinema no geral. Spock, James T. Kirk, Dr. McCoy, Uhura, Scott e Sulu voltam aos seus postos na mítica USS Enterprise para tentar interceptar e parar uma gigantesca e extremamente poderosa nave alienígena que se dirige para a Terra, destruindo tudo à sua passagem.
Aos comandos do filme estava um verdadeiro senhor do cinema chamado Robert Wise, um verdadeiro camaleão que realizou pequenitas coisitas como West Side Story, The Haunting, The Sound of Music, só para citar alguns clássicos... Wise é um eclético mestre artesão do cinema e isso nota-se bastante bem. O tom sereno (e lento) do filme, revestido de uma quase "factualidade" científica, juntamente com os espectaculares (ainda hoje) efeitos especiais do grande mestre da "magia" Douglas Trumbull, criaram uma verdadeira obra-prima da ficção que, para mim, é uma das melhores histórias do género que vi até hoje. O argumento é excepcional e V'Ger é talvez uma das melhores criações da ficção científica até à data. Leonard Nimoy, William Shatner, DeForest Kelley, Nichelle Nichols, James Doohan, George Takei e Walter Koenig voltam para os papéis deixados vagos na série e não desiludem. Star Trek: The Motion Picture é um clássico que merece estar na história do cinema. ●●●●●
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Na generalidade as séries de TV entediam-me. São lentas no desenvolvimento e são longas demais. Pior ainda, quando são boas, os produtores não conseguem tirar o "doce aos fãs" e acabam por prolongar artificialmente a coisa para lá do aceitável. Por isso, para mim as séries são para evitar porque, ou não acabam ou não acabam quando e como deveriam.
Apesar de este ser um site/blog de filmes - e de eu praticamente nunca ver séries, pelas razões enumeradas anteriormente - de vez em quando há algo que se destaca pela positiva. Neste caso, Chernobyl, um original da HBO. Como este estaminé acaba também por funcionar como um baú do tempo, achei que era justo mencioná-la aqui. Sendo uma mini-série de 5 episódios (logo, o meu tipo de séries) vi-a como se fosse um filme longo que teve de ser cortado em partes. E tenho de dizer que é dez vezes melhor que a maior parte dos filmes que vi ultimamente. Mesmo muito bom. Uma série muito bem feita e com muita atenção ao pormenor. Oscila perfeitamente bem entre a realidade factual da ciência e a realidade virtual da política. Excelente "tensão no ar" do princípio ao fim. Deixou-me agarrado ao sofá, com as duas mãos, noites a fio. E isso não é fácil. Excelente grupo de actores (Jared Harris, Stellan Skarsgård, Adam Nagaitis, Emily Watson e Jessie Buckley, entre tantos outros [não me lembro de ver sequer uma má interpretação de um secundário...]) e muitíssimo bem dirigidos por Johan Renck, em cima de um guião exemplar de Craig Mazin, os masterminds de toda esta espectacular operação de recriar Chernobyl e o maior e mais grave acidente da Humanidade. Sinceramente, fico à espera que esta dupla se volte a encontrar e apareça aí num estúdio para fazer uma longa metragem, porque fiquei muito bem impressionado. Chernobyl é uma das melhores série de TV que já vi. Totalmente recomendado. ●●●●●
Apesar de este ser um site/blog de filmes - e de eu praticamente nunca ver séries, pelas razões enumeradas anteriormente - de vez em quando há algo que se destaca pela positiva. Neste caso, Chernobyl, um original da HBO. Como este estaminé acaba também por funcionar como um baú do tempo, achei que era justo mencioná-la aqui. Sendo uma mini-série de 5 episódios (logo, o meu tipo de séries) vi-a como se fosse um filme longo que teve de ser cortado em partes. E tenho de dizer que é dez vezes melhor que a maior parte dos filmes que vi ultimamente. Mesmo muito bom. Uma série muito bem feita e com muita atenção ao pormenor. Oscila perfeitamente bem entre a realidade factual da ciência e a realidade virtual da política. Excelente "tensão no ar" do princípio ao fim. Deixou-me agarrado ao sofá, com as duas mãos, noites a fio. E isso não é fácil. Excelente grupo de actores (Jared Harris, Stellan Skarsgård, Adam Nagaitis, Emily Watson e Jessie Buckley, entre tantos outros [não me lembro de ver sequer uma má interpretação de um secundário...]) e muitíssimo bem dirigidos por Johan Renck, em cima de um guião exemplar de Craig Mazin, os masterminds de toda esta espectacular operação de recriar Chernobyl e o maior e mais grave acidente da Humanidade. Sinceramente, fico à espera que esta dupla se volte a encontrar e apareça aí num estúdio para fazer uma longa metragem, porque fiquei muito bem impressionado. Chernobyl é uma das melhores série de TV que já vi. Totalmente recomendado. ●●●●●
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Um pianista de bar aspirante a músico de Jazz (Ryan Gosling) e uma jovem actriz (Emma Stone) à procura da sua oportunidade num cenário doce-amargo de Los Angeles. Acho que posso resumir assim La La Land. Esperei muito tempo para ver este filme. Tinha muitas reservas. Quando sinto muito hype em relação a um filme (ainda por cima, um musical), fico sempre de pé atrás, por eleva demasiado a expectiva e normalmente o resultado é uma enorme decepção. Mas não foi o caso. O hype foi totalmente justificado. Se soubesse que o realizador era o Damien Chazelle tinha-o visto mais cedo, porque até hoje nunca me falhou. É um excelente filme. Daqueles sem mácula. As músicas de Justin Hurwitz são soberbas e ficam imediatamente no ouvido. Passaram quase imediatamente a fazer parte da minha playlist regular, o que não é nada fácil de acontecer. La La Land cheira bem. E cheira a novo. Mas também tem aquele cheiro característico dos antigos filmes musicais, verdadeiros, com o Gene Kelly ou o Fred Astaire. É genuíno, faço-me entender? Gostei muito. La La Land começa bem, desenvolve-se em ritmo de crescendo e termina ainda melhor, com aquele final excepcional, tudo no correcto e idílico tom la-la-land. Quando um filme é assim tão bom, não há muito para dizer. O melhor é mesmo ver, ouvir, apreciar e ponto final. ●●●●●
PS: Para além do excelente filme que é, La La Land venceu inúmeros prémios incluindo uma série de Óscares. No entanto, vai ficar ligado a uma das maiores gaffes de sempre. Na apresentação do prémio para melhor filme, um problema com os envelopes levou a que Warren Beatty e Faye Dunaway (os eternos Bonnie and Clyde) erradamente entregassem o prémio a La La Land. Os produtores foram como é normal para o palco fazer os seus discursos, quando se instala a confusão. Afinal, o vencedor era o filme Moonlight e não La La Land. Os produtores devolveram o Óscar e lá saíram calmamente pela lateral do palco para dar lugar aos produtores de Moonlight que lá receberam o prémio de melhor filme. Mas a troca dos envelopes e a apresentação errada do vencedor é que acabou por ficar para a história. De toda esta história rocambolesca, a única coisa que me passou pela cabeça foi que Beatty e Dunaway na realidade nunca largaram os papéis de Bonnie e Clyde. E uma vez gangster, para sempre gangster... Gosto de imaginar que foi assim e não uma simples troca de envelopes. Qual é a graça disso?...
PS: Para além do excelente filme que é, La La Land venceu inúmeros prémios incluindo uma série de Óscares. No entanto, vai ficar ligado a uma das maiores gaffes de sempre. Na apresentação do prémio para melhor filme, um problema com os envelopes levou a que Warren Beatty e Faye Dunaway (os eternos Bonnie and Clyde) erradamente entregassem o prémio a La La Land. Os produtores foram como é normal para o palco fazer os seus discursos, quando se instala a confusão. Afinal, o vencedor era o filme Moonlight e não La La Land. Os produtores devolveram o Óscar e lá saíram calmamente pela lateral do palco para dar lugar aos produtores de Moonlight que lá receberam o prémio de melhor filme. Mas a troca dos envelopes e a apresentação errada do vencedor é que acabou por ficar para a história. De toda esta história rocambolesca, a única coisa que me passou pela cabeça foi que Beatty e Dunaway na realidade nunca largaram os papéis de Bonnie e Clyde. E uma vez gangster, para sempre gangster... Gosto de imaginar que foi assim e não uma simples troca de envelopes. Qual é a graça disso?...
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Midnight Express é um daqueles dramalhaços que dispensa apresentações. É um potente soco no estômago do princípio ao fim. Baseado na incrível história de Billy Hayes, um jovem americano que nos politicamente instáveis anos 70 é preso no aeroporto de Istambul na posse de drogas e posteriormente condenado a 40 anos de prisão. Se isso já seria mau o suficiente nos dias de hoje, o caso torna-se ainda mais dramático se se considerar uma prisão turca nos 70's. Ou pelo menos, a prisão do filme, porque nos anos seguintes e até aos dias de hoje, toda a gente envolvida no filme tem vindo constantemente a público desculpar-se pela horrenda imagem que fizeram passar dos turcos e do seu sistema penal e prisional. De facto, há que admitir, que parece que uma pessoa está ver mais uma prisão medieval do que uma prisão nos anos 70. Sinceramente, é-me igual. Nunca iria colar um rótulo tão negativo a uma nação inteira só porque vi um filme que exagera nos acontecimentos e no drama. É um filme, certo? Não é a realidade. Quando bem feito, produz as mesmas emoções que a realidade, mas ainda assim, não é a realidade. Mas essa "realidade" encenada de emoções é que distingue os maus dos bons filmes. E se há coisa que Midnight Express faz muito bem, é despertar emoções. Angústia, raiva, tristeza, revolta, sacrifício... Não são propriamente boas coisas que saem deste filme, mas... é a vida.
Ver a loucura a apoderar-se de um gajo e depois vê-lo a ressurgir dos seus próprios escombros é absolutamente espantoso. Um tour-de-force inesquecível de Brad Davis. O filme é tenso e imensamente dramático. Mas só pelo interpretação soberba de Davis levava um "5" garantido... Seguramente uma das melhores interpretações que já vi. Mas curiosamente, Davis nem sequer foi nomeado para um Óscar. E porquê? Ninguém sabe... Politiquices internas, uma personalidade extravagante e/ou jogos de bastidores, suspeito eu... Mas não posso confirmar nada, por isso mantenho-me na ignorância. Para além de Davis e da sua brilhante performance, também há pessoal de "peso", como Paolo Bonacelli, Paul L. Smith e John Hurt, mas o restante casting não lhe fica atrás. Nada falha neste filme. A música de Giorgio Moroder é sublime e o guião de Oliver Stone, idem aspas. Os dois receberam Óscares como prémio. Mas para mim, o melhor prémio é mesmo poder ver um excelente filme como o Midnight Express. E depois... Alan Parker. Ai Alan Parker, Alan Parker, que saudades eu tenho de realizadores como tu. Um verdadeiro mestre. Um artesão emocional de filmes. O cinema no seu melhor e um dos meus filmes preferidos. Midnight Express é um clássico intemporal e verdadeiramente um filme de culto. ●●●●●
P.S. Não consegui resistir e resolvi dar uma vista de olhos nos comentários de pessoal anónimo e não profissional como eu. Tanto a opinião do crítico de renome como o do vulgar "toino" como eu, tem o mesmo efeito: zero. Lá porque muita gente acha que este filme é uma obra prima ou uma cagada em três actos, para mim é totalmente indiferente. Na realidade, é mesmo isso que acontece. A crítica é extremamente polarizada. Tanto é considerado uma obra-prima, como é uma nociva propaganda racista. No entanto, esta polarização simplesmente não muda a minha opinião. Mas choca-me o facto de ver tanta gente a criticar o filme como sendo uma obra de propaganda anti-islão, ou anti-turca, ou anti-outra coisa qualquer. Deixa-me a pensar. Já estamos assim tão embrenhados no nauseabundo politicamente correcto que não se pode dramatizar, sem cair no exagero de ter sempre uma etiqueta de racista para ser colado em tudo e todos? É que isto assim está a tornar-se perigoso. Qualquer dia eu não posso ver um filme da Leni Riefenstahl - nem que seja só para ver os aspectos técnicos e cinematográficos - sem ser considerado um apologista do nazismo! Ou alguém vai-me acusar de estar fazer propaganda nazi, se eu comentar aqui o filme? Vamos também começar a destruir "carochas" porque foram idealizados por esse regime? Se calhar estou a exagerar nas extrapolações, se calhar não, até porque há uma importante questão em volta deste tema: e se a história de Billy Hayes fosse 100% verídica? Toda a gente ia marchar pelas ruas a pedir o castigo de uma nação que existiu há 30 ou 40 anos atrás? E já agora, vai-se continuar a martelar nos soviéticos da era da Guerra Fria? Nos regimes opressivos pré-civilização moderna? Vamos banir todos os antigos westerns pela forma como retratavam os índios, os verdadeiros americanos? Vamos destruir cópias do Jaws porque fez milhões de pessoas odiarem os tubarões? Aonde é que isto pára?... Mas para mim, começa a ser chocante o facto de tudo ter de ser apolítico, assexuado e sem contornos definidos porque senão ofende sempre alguém e não se pode fazer nem dizer nada.
Já me começa a chatear. Isto é só um filme que, do meu ponto de vista, tenta enfatizar e dramatizar ao máximo o inferno que é estar preso no estrangeiro, no meio de uma cultura e de uma língua diferente e rodeado de tudo o que é estranho. Não é sobre a Turquia, nem sobre a cultura turca, nem sobre as suas pessoas. Não é mais que isto. Acho que o pessoal anda a levar tudo demasiado a sério. E não digo mais nada, porque já me estou a chatear a mim próprio com este assunto...
Ver a loucura a apoderar-se de um gajo e depois vê-lo a ressurgir dos seus próprios escombros é absolutamente espantoso. Um tour-de-force inesquecível de Brad Davis. O filme é tenso e imensamente dramático. Mas só pelo interpretação soberba de Davis levava um "5" garantido... Seguramente uma das melhores interpretações que já vi. Mas curiosamente, Davis nem sequer foi nomeado para um Óscar. E porquê? Ninguém sabe... Politiquices internas, uma personalidade extravagante e/ou jogos de bastidores, suspeito eu... Mas não posso confirmar nada, por isso mantenho-me na ignorância. Para além de Davis e da sua brilhante performance, também há pessoal de "peso", como Paolo Bonacelli, Paul L. Smith e John Hurt, mas o restante casting não lhe fica atrás. Nada falha neste filme. A música de Giorgio Moroder é sublime e o guião de Oliver Stone, idem aspas. Os dois receberam Óscares como prémio. Mas para mim, o melhor prémio é mesmo poder ver um excelente filme como o Midnight Express. E depois... Alan Parker. Ai Alan Parker, Alan Parker, que saudades eu tenho de realizadores como tu. Um verdadeiro mestre. Um artesão emocional de filmes. O cinema no seu melhor e um dos meus filmes preferidos. Midnight Express é um clássico intemporal e verdadeiramente um filme de culto. ●●●●●
P.S. Não consegui resistir e resolvi dar uma vista de olhos nos comentários de pessoal anónimo e não profissional como eu. Tanto a opinião do crítico de renome como o do vulgar "toino" como eu, tem o mesmo efeito: zero. Lá porque muita gente acha que este filme é uma obra prima ou uma cagada em três actos, para mim é totalmente indiferente. Na realidade, é mesmo isso que acontece. A crítica é extremamente polarizada. Tanto é considerado uma obra-prima, como é uma nociva propaganda racista. No entanto, esta polarização simplesmente não muda a minha opinião. Mas choca-me o facto de ver tanta gente a criticar o filme como sendo uma obra de propaganda anti-islão, ou anti-turca, ou anti-outra coisa qualquer. Deixa-me a pensar. Já estamos assim tão embrenhados no nauseabundo politicamente correcto que não se pode dramatizar, sem cair no exagero de ter sempre uma etiqueta de racista para ser colado em tudo e todos? É que isto assim está a tornar-se perigoso. Qualquer dia eu não posso ver um filme da Leni Riefenstahl - nem que seja só para ver os aspectos técnicos e cinematográficos - sem ser considerado um apologista do nazismo! Ou alguém vai-me acusar de estar fazer propaganda nazi, se eu comentar aqui o filme? Vamos também começar a destruir "carochas" porque foram idealizados por esse regime? Se calhar estou a exagerar nas extrapolações, se calhar não, até porque há uma importante questão em volta deste tema: e se a história de Billy Hayes fosse 100% verídica? Toda a gente ia marchar pelas ruas a pedir o castigo de uma nação que existiu há 30 ou 40 anos atrás? E já agora, vai-se continuar a martelar nos soviéticos da era da Guerra Fria? Nos regimes opressivos pré-civilização moderna? Vamos banir todos os antigos westerns pela forma como retratavam os índios, os verdadeiros americanos? Vamos destruir cópias do Jaws porque fez milhões de pessoas odiarem os tubarões? Aonde é que isto pára?... Mas para mim, começa a ser chocante o facto de tudo ter de ser apolítico, assexuado e sem contornos definidos porque senão ofende sempre alguém e não se pode fazer nem dizer nada.
Já me começa a chatear. Isto é só um filme que, do meu ponto de vista, tenta enfatizar e dramatizar ao máximo o inferno que é estar preso no estrangeiro, no meio de uma cultura e de uma língua diferente e rodeado de tudo o que é estranho. Não é sobre a Turquia, nem sobre a cultura turca, nem sobre as suas pessoas. Não é mais que isto. Acho que o pessoal anda a levar tudo demasiado a sério. E não digo mais nada, porque já me estou a chatear a mim próprio com este assunto...
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Jeff é um homem que já correu o mundo como fotógrafo profissional, mas que depois de partir a perna enquanto trabalhava, fica confinado a um cadeira de rodas no seu apartamento em Greenwich Village. Entediado com a situação, decide virar a sua máquina fotográfica para a vida dos vizinhos nas traseiras do pacato bairro. No entanto, fruto da sua cabeça (ou não), presencia alguns acontecimentos que o fazem suspeitar que um dos vizinhos pode ter assassinado a mulher...
Qualquer aspirante a cineasta (e qualquer pessoa que goste verdadeiramente de cinema) deveria ver pelo menostrês vezes o Rear Window. É uma obra-prima consensual entre público e crítica. Mas, mais que isso, é um manual de como fazer um excelente filme com poucos recursos. Analisando bem, é uma gigantesca produção de teatro com base numa história repleta de suspense e intriga, tudo suportado por actores míticos e de calibre superior como James Stewart, Grace Kelly, Thelma Ritter ou Raymond Burr, mas especialmente pela direcção em cena do mestre Alfred Hitchcock. É um thriller à maneira antiga, repleto de suspense e paranoia, cheio de tiques de voyeurismo e tensão romântica, bem à moda de Hitchcock, que tem bem marcado o seu estilo de filmar nos mais pequenos pormenores.
Rear Window é mais um daqueles filmes que tem material para escrever uma enciclopédia inteira e é até provável que já o tenham feito. É uma obra-prima que tem de figurar em qualquer lista dos melhores filmes de sempre. É impressionante o que se consegue fazer com a simplicidade se se for genial o suficiente. E Alfred Hitchcock tinha genialidade para dar e vender... Sobre o mítico Alfred Hitchcock e tudo o que ele representa para o cinema nem sequer me vou alongar, porque ficaria aqui a escrever durante uma semana. Filmagens espetaculares, ângulos de câmara dramáticos, o som ambiente, o uso fantástico da luz e sombra, mas especialmente, o controlo total da percepção que o próprio espectador tem. Apesar de já estar bem longe da magia original do cinema é um digno sucessor e se calhar, o último mágico verdadeiramente moderno dos filmes. Hitchcock é uma figura incontornável do universo cinematográfico e este Rear Window, mesmo tantos anos depois da estreia ainda continua a ser uma prova viva disso mesmo. ●●●●●
Qualquer aspirante a cineasta (e qualquer pessoa que goste verdadeiramente de cinema) deveria ver pelo menostrês vezes o Rear Window. É uma obra-prima consensual entre público e crítica. Mas, mais que isso, é um manual de como fazer um excelente filme com poucos recursos. Analisando bem, é uma gigantesca produção de teatro com base numa história repleta de suspense e intriga, tudo suportado por actores míticos e de calibre superior como James Stewart, Grace Kelly, Thelma Ritter ou Raymond Burr, mas especialmente pela direcção em cena do mestre Alfred Hitchcock. É um thriller à maneira antiga, repleto de suspense e paranoia, cheio de tiques de voyeurismo e tensão romântica, bem à moda de Hitchcock, que tem bem marcado o seu estilo de filmar nos mais pequenos pormenores.
Rear Window é mais um daqueles filmes que tem material para escrever uma enciclopédia inteira e é até provável que já o tenham feito. É uma obra-prima que tem de figurar em qualquer lista dos melhores filmes de sempre. É impressionante o que se consegue fazer com a simplicidade se se for genial o suficiente. E Alfred Hitchcock tinha genialidade para dar e vender... Sobre o mítico Alfred Hitchcock e tudo o que ele representa para o cinema nem sequer me vou alongar, porque ficaria aqui a escrever durante uma semana. Filmagens espetaculares, ângulos de câmara dramáticos, o som ambiente, o uso fantástico da luz e sombra, mas especialmente, o controlo total da percepção que o próprio espectador tem. Apesar de já estar bem longe da magia original do cinema é um digno sucessor e se calhar, o último mágico verdadeiramente moderno dos filmes. Hitchcock é uma figura incontornável do universo cinematográfico e este Rear Window, mesmo tantos anos depois da estreia ainda continua a ser uma prova viva disso mesmo. ●●●●●
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