0023 Henry: Portrait of a serial killer

Henry: Portrait of a Serial Killer (1986) é baseado na figura real do assassino em série Henry Lee Lucas (que morreu na prisão em 2001) e do seu companheiro de matanças, Ottis Toole. Contrariamente à  história do verdadeiro duo criminoso, a personagem de Becky é transformada em irmã adulta de Ottis, em vez da sobrinha de 12 anos. Também os crimes retratados no filme são os que Henry confessou como seus (mas que nunca puderam ser comprovados) e não os que foram realmente documentados pela polícia. Graças a esses crimes, e apesar de ter sido condenado à morte, Henry acabou apenas por cumprir prisão perpétua por interferência do então governador do Texas. E o governador era... George W. Bush. Estranho, não? É caso para dizer que a realidade é mais estranha que a ficção...
Revendo o filme muitos anos depois, noto nitidamente que vai perdendo o efeito choque inicial. É normal. Hoje em dia, ninguém sai a correr do cinema se vir pela primeira vez o Psico ou até O Exorcista. Vão sempre aparecendo filmes que suplantam o efeito choque/soco-no-estômago como por exemplo, Irreversível. Quando querem chocar, os filmes conseguem sempre elevar a fasquia. Ou então, são as plateias que entretanto ficaram mais "endurecidas" e precisam de choques cada vez mais violentos...
Na figura principal de Henry, um assassino em série totalmente aleatório, está Michael Rooker, um actor de segunda linha de Hollywood. O que não quer dizer que é mau actor, apenas que não é muito conhecido. Este filme prova que os actores não se medem pela popularidade nem pela quantidade de blockbusters em que participam. Rooker, como excelente actor que é, faz uma excelente representação e não é exagero afirmar que garantiu um espaço ao lado dos grandes psicopatas do cinema como Perkins (Psico) e Hopkins (Silence of the Lambs). Nada mau para o primeiro filme. Li uma história em que se conta que na altura, Rooker trabalhava como contínuo e foi de uniforme que se apresentou nas audições, e assim continuou durante todo o processo de filmagem. Não sei se foi o uniforme ou outra coisa qualquer, mas conseguiu criar na personagem uma dualidade de vadio antipático, de quem sentimos mais pena que repulsa, e com quem se poderia ter um conversa normal sem desconfiar de nada. E, para um papel destes, mais importante que tudo, é a personagem possuir crazy eye. Rooker é irrepreensível nesse aspecto.
A narrativa do filme é monótona e totalmente linear. Poderia ser uma coisa má, mas neste caso até ajuda. Acrescenta tensão durante todo o filme e acaba por adensar ainda mais o ambiente de anormalidade em que os dois loucos vão vagueando sem regras e sem controlo. A filmagem estática, e takes penosamente longos obrigam a uma fixação constante nas imagens e a uma atenção redobrada, levando a um autêntico mergulho no filme e do qual não se consegue escapar com facilidade. Não deixa de ser curioso que esta opção tenha sido um reflexo do baixo orçamento, já que o realizador John McNaughton confirmou que o projecto inicial envolvia toda uma filmagem mais solta, do tipo documental, de câmara ao ombro, que não se concretizou por motivos financeiros e pela perda do director de fotografia. Apesar de tudo, este tipo de filmagem foi explorado ao máximo em duas cenas: uma, crescentemente tensa mas totalmente improvisada pelos três actores principais e outra, numa das cenas mais violentas do filme, em que é filmada uma família a ser brutalmente atacada. No fim de toda a selvajaria envolvendo um casal anónimo e indefeso, apercebe-se que afinal estamos a ver uma repetição gravada na TV; precisamente o mesmo que os dois assassinos estão a fazer. Esta cena obriga a uma reflexão obrigatória. Afinal, porque tanto nos fascina os assassinos em série e os seus actos bárbaros? E, seremos nós, "os normais", assim tão diferentes, para estar a assistir a estas cenas? Quer se queira, quer não, um filme com serial killers é sempre um sucesso de bilheteira e muitos destes filmes são clássicos intemporais. E todos os grandes actores desejam ter no currículo um papel assim. Dá que pensar...
Henry é um daqueles filmes que desmonta a velha teoria que um filme para ser rentável e economicamente viável, precisa de ter um grande orçamento. Filmado em 1986 por 110 mil dólares acabou por render mais de meio milhão quando foi posto a circular no circuito alternativo em 1989. E desde então tem facturado mais milhões. Nada mau para um filme em que os próprios produtores estavam relutantes em libertar para o público (é essa a razão do hiato de 3 anos entre a produção e a exibição), povoado de amigos do realizador e da equipa técnica (para colmatar a falta de actores profissionais), assim como o uso nas filmagens dos seus carros pessoais e até as próprias roupas. Até o produtor executivo contribui na representação, algo impensável hoje em dia. Neste caso, o aspecto quase amador é uma ajuda importante para a textura do filme, conferindo um aspecto totalmente cru e sujo, o que cai optimamente bem no clássico tema dos assassinos em série.
Não haja dúvidas. Este é um filme para os amantes incondicionais de festivais de terror e/ou para quem gosta de ser "agredido" visualmente no conforto do seu sofá. Muitos dos envolvidos no próprio filme, como Tom Towles (Otis) afirmaram que o filme é tão perturbador que só o viram uma vez. Não se fica com uma boa sensação depois de ver Henry, porque este é um daqueles filmes duros de ver. É como ser perseguido por uma figura misteriosa por uma viela imunda e escura numa noite de chuva... E mesmo assim é um filme muito bom. ●●●●○

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