Um jovem vai entregar um carro de um stand ao dono e para isso vai ter de conduzir longas horas de um estado americano para outro. Entediado com a longa viagem solitária, oferece boleia a um desconhecido numa noite de chuva intensa. A viagem é longa e feita pelo meio do deserto onde abundam estradas intermináveis. Os problemas começam de imediato quando ele descobre que o homem da boleia é na realidade um assassino em série que tem cometido crimes horríveis por aquela estrada fora. Para além de o perseguir, o assassino acaba também por incriminá-lo de vários crimes, levando-o a ser confrontado e perseguido pela polícia... A sua única ajuda é uma simples empregada de restaurante...
Um gato persegue as suas presas e brinca com elas até as matar. O prazer do gato nunca está na perseguição... está no doce sabor do medo. É assim que eu vejo este The Hitcher. Um perseguição infindável, cheia de cantos obscuros, reviravoltas e volte faces inesperados, em que o actor principal é manipulado pelo vilão e não parece ter saída possível do pesadelo em que caiu...
The Hitcher está muito bem feito e muito bem realizado por Robert Harmon. Tem uma grande fotografia cheia de planos enormes do deserto com aquelas excelente cores de fundo. As poucas, mas fantasticamente bem filmadas e intensas cenas de acção, estão muito bem equilibradas com as cenas calmas de suspense... um gajo nunca sabe quando o assassino vai aparecer para infernizar a vida do jovem condutor...
Grande performance dos dois actores principais (C. Thomas Howell encarna muito bem a personagem que entre numa espiral descendente), mas facilmente se destaca o Rutger Hauer que aqui está quase no nível mítico do Blade Runner. As nuances, as expressões... Sem dizer uma única palavra, Hauer consegue transmitir perigo e loucura em cada imagem. Um dos filmes pelo qual será sempre recordado. Aqui criou-se um dos grandes vilões do cinema. Uma palavrinha para Jennifer Jason Leigh numa das primeiras aparições em cinema e que só acrescenta qualidade ao casting.
Na altura que o vi, há muitos anos atrás, The Hitcher era teoricamente um "típico" filme de videoclube dos anos 80 (estava no lote daqueles filmes a granel de que nunca tinha ouvido falar e não esperava que fossem sequer bons), mas que se revelaria como uma enorme surpresa. Um gajo aluga um filmito e espera umas cenas básicas de acção e terror e acabar por lhe sair um dos grandes thrillers do cinema... Recomendado. ●●●●○
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Apesar de todas as polémicas recentes, continuo a ser um apreciador dos trabalhos de Lars Von Trier. As borboletas entram em histeria no meu estômago antes de ver um "Von Trier", mas mesmo assim não resisto a ver. É um daqueles prazeres obscuros que é mais forte que eu. Quando li que o Lars ia fazer um filme sobre um psicopata, entrar dentro da sua mente e mostrar o crescimento de um assassino em série, pensei para mim: "Bem é melhor ir reforçar o meu stock de protector gástrico. Isto vai ser dureza...". Fui então ver The House That Jack Built, mas estranhamente, não aconteceu nada disso. Até é um filme relativamente "mole" (vindo de quem vem)... apesar de continuar a ser um filme "difícil" de ver...
É mais uma belíssima composição visual com fantásticos diálogos. Excelente realização como sempre, com actores de outro nível como o grande Matt Dillon, o grande Bruno Ganz e a grande Uma Thurman, entre tantos outros. Tudo muito bom e não me desiludiu nada. Mas o que mais estranhei foi ser um filme do Lars Von Trier. Por outro lado (e posso estar a imaginar coisas) tudo me pareceu extremamente críptico e cheio de segundos significados.
Após as recentes polémicas, parece que Lars Von Trier está a dar sinais exteriores. Às acusações constantes de misógino, ele arranjou uma solução óbvia: um serial killer à "maneira clássica de Hollywood". Pode parecer contraditório, mas quem o vai criticar por isso, quando o cinema moderno está hiper-povoado de serial killers que perseguem criancinhas e mulheres indefesas? Quem o criticasse pela escolha, teria de "enterrar" milhares de slashers e filmes de culto dos mais prestigiados realizadores que ao longo dos anos levaram milhões de pessoas às salas de cinema. Esta escolha por um serial killer não me parece nada inocente. Depois há, aparentemente, uma mensagem "interna". Parece que está a criar um novo manifesto, mas desta vez anti-Dogma95. Parece-me que ou quer acabar, ou quer questionar o seu próprio manifesto. Ou também pode-se dar o caso de estar a ficar sem financiamento e a tentar piscar o olho ao pessoal do dinheiro e dizer que também consegue fazer uns filmes mais ou menos "normais" em que o público não saia a correr deprimido ou a vomitar da sala de cinema. A inclusão constante de Fame de David Bowie pode ser a maior pista disto mesmo (o manifesto supostamente não permitia a inclusão de músicas na pós-produção), mas os efeitos especiais no final e uma série de outros pormenores indiciam que Von Trier se chateou com o grupo que ele próprio ajudou a criar. Ou então, lá está, como dizem os americanos, "money talks, bullshit walks". Não sei. Sinceramente, acho que o problema não é dinheiro. Acho que o problema é o carácter redutor do próprio manifesto e Von Trier já anda a lutar com ele há muitos anos. Parece-me é que decidiu agora dar-lhe a machadada final. Mas isto já são questões laterais...
Não sei muito bem porquê, mas sempre gostei quando os realizadores incorporam stock-footage nos filmes. Isso acontece muito por aqui. Mas há uma parte no final em que o stock-footage é de outros filmes do Lars Von Trier como Europa, Breaking the Waves, Dogville e outros. Apesar de ser mais uma das reflexões internas do Jack sobre a arquitetura e a arte, para mim soou-me a outra coisa. Vendo bem, todo filme é tratado como uma nova e estranha versão da Divina Comédia. A presença de Verge (Virgílio) não é coincidência. Jack comete os crimes e comenta-os com Verge que contra-argumenta ao mesmo tempo que lentamente o encaminha para o Inferno.
Estranhamente fiquei com a ideia de que este Jack é de alguma forma o próprio Lars Von Trier. Ele fez o seu próprio caminho de crimes (os filmes) e agora dirige-se para um Inferno de não-criação onde já não é mais possível criar sem entrar pelo circuito comercial, simbolizado pela recorrente Fame do David Bowie... Não sei... Se calhar estou a ver coisas onde elas não existem e a tirar significados que... Bem, acho que estou a divagar novamente. E demais.
Em relação a The House That Jack Built, a única coisa que posso dizer é que gostei sem ficar deslumbrado. Até gosto deste tom negro, que para além de não ser tão avassalador como seria de esperar, até tem uma qualidade mais refinada, mais polida. Em uma ou outra situação, entra até num tom irónico, quase cómico, o que diga-se, foi uma coisa estranhíssima. Para além de dores de barriga e desconforto, nunca na minha vida pensei esboçar um mini-sorriso a ver um filme do Von Trier.
Só há duas formas de apreciar os trabalhos do Lars: ou se gosta ou se detesta. Não há meio termo. Estou há muitos anos no primeiro grupo. The House That Jack Built, nem é dos meus filmes preferidos, mas veio cimentar - mais uma vez - Lars Von Trier como um dos melhores realizadores das últimas décadas. Muitíssimo recomendado. ●●●●○
É mais uma belíssima composição visual com fantásticos diálogos. Excelente realização como sempre, com actores de outro nível como o grande Matt Dillon, o grande Bruno Ganz e a grande Uma Thurman, entre tantos outros. Tudo muito bom e não me desiludiu nada. Mas o que mais estranhei foi ser um filme do Lars Von Trier. Por outro lado (e posso estar a imaginar coisas) tudo me pareceu extremamente críptico e cheio de segundos significados.
Após as recentes polémicas, parece que Lars Von Trier está a dar sinais exteriores. Às acusações constantes de misógino, ele arranjou uma solução óbvia: um serial killer à "maneira clássica de Hollywood". Pode parecer contraditório, mas quem o vai criticar por isso, quando o cinema moderno está hiper-povoado de serial killers que perseguem criancinhas e mulheres indefesas? Quem o criticasse pela escolha, teria de "enterrar" milhares de slashers e filmes de culto dos mais prestigiados realizadores que ao longo dos anos levaram milhões de pessoas às salas de cinema. Esta escolha por um serial killer não me parece nada inocente. Depois há, aparentemente, uma mensagem "interna". Parece que está a criar um novo manifesto, mas desta vez anti-Dogma95. Parece-me que ou quer acabar, ou quer questionar o seu próprio manifesto. Ou também pode-se dar o caso de estar a ficar sem financiamento e a tentar piscar o olho ao pessoal do dinheiro e dizer que também consegue fazer uns filmes mais ou menos "normais" em que o público não saia a correr deprimido ou a vomitar da sala de cinema. A inclusão constante de Fame de David Bowie pode ser a maior pista disto mesmo (o manifesto supostamente não permitia a inclusão de músicas na pós-produção), mas os efeitos especiais no final e uma série de outros pormenores indiciam que Von Trier se chateou com o grupo que ele próprio ajudou a criar. Ou então, lá está, como dizem os americanos, "money talks, bullshit walks". Não sei. Sinceramente, acho que o problema não é dinheiro. Acho que o problema é o carácter redutor do próprio manifesto e Von Trier já anda a lutar com ele há muitos anos. Parece-me é que decidiu agora dar-lhe a machadada final. Mas isto já são questões laterais...
Não sei muito bem porquê, mas sempre gostei quando os realizadores incorporam stock-footage nos filmes. Isso acontece muito por aqui. Mas há uma parte no final em que o stock-footage é de outros filmes do Lars Von Trier como Europa, Breaking the Waves, Dogville e outros. Apesar de ser mais uma das reflexões internas do Jack sobre a arquitetura e a arte, para mim soou-me a outra coisa. Vendo bem, todo filme é tratado como uma nova e estranha versão da Divina Comédia. A presença de Verge (Virgílio) não é coincidência. Jack comete os crimes e comenta-os com Verge que contra-argumenta ao mesmo tempo que lentamente o encaminha para o Inferno.
Estranhamente fiquei com a ideia de que este Jack é de alguma forma o próprio Lars Von Trier. Ele fez o seu próprio caminho de crimes (os filmes) e agora dirige-se para um Inferno de não-criação onde já não é mais possível criar sem entrar pelo circuito comercial, simbolizado pela recorrente Fame do David Bowie... Não sei... Se calhar estou a ver coisas onde elas não existem e a tirar significados que... Bem, acho que estou a divagar novamente. E demais.
Em relação a The House That Jack Built, a única coisa que posso dizer é que gostei sem ficar deslumbrado. Até gosto deste tom negro, que para além de não ser tão avassalador como seria de esperar, até tem uma qualidade mais refinada, mais polida. Em uma ou outra situação, entra até num tom irónico, quase cómico, o que diga-se, foi uma coisa estranhíssima. Para além de dores de barriga e desconforto, nunca na minha vida pensei esboçar um mini-sorriso a ver um filme do Von Trier.
Só há duas formas de apreciar os trabalhos do Lars: ou se gosta ou se detesta. Não há meio termo. Estou há muitos anos no primeiro grupo. The House That Jack Built, nem é dos meus filmes preferidos, mas veio cimentar - mais uma vez - Lars Von Trier como um dos melhores realizadores das últimas décadas. Muitíssimo recomendado. ●●●●○
A minha relação com Saw é um pouco estranha e esotérica. Digamos que um dia chego a casa e encontro uma caixa de dvd sem capa. Dentro da caixa suspeita, um disco com um filme de título Saw - Enigma Mortal, que tem uma imagem do que parece ser um pé ensanguentado. Isto pode parecer tudo tanga, mas é verídico. Ainda hoje não sei quem me deixou o filme em casa. É um mistério que provavelmente nunca irei resolver. Ainda por cima, porque não tinha qualquer informação, nem nenhuma expectativa, o filme foi um estrondo.
Saw é um marco dentro do género de terror. Começou a revelar-me um tipo de filmes que nunca tinha visto antes: pequenas produções, muito bem feitas, com muito pouco dinheiro (um milhão e pico de dólares e filmado em menos de um mês), com poucas (ou nenhumas) "estrelas de cinema", que essencialmente, se faziam valer duma história muito bem criada e muito bem escrita, que prendia uma pessoa à cadeira com surpresas constantes durante o filme todo, até ao twist final.
O responsável por este mega-sucesso é James Wan, que consegue a proeza de fazer praticamente um filme inteiro dentro numa casa de banho degradante. E fá-lo de uma forma excitante, pois há imensa acção, resultante dos flashbacks e dos constantes elementos que vão sendo acrescentados à trama.
É interessante perceber que, tal como Jigsaw, o serial killer da história, James Wan mostra uma grande dose de voyeurismo... assim como todos os que vêm o filme. Ficamos todos ao mesmo nível, sentadinhos e confortáveis, a ver pelo ecrã, o sangrento desenrolar dos acontecimentos, acompanhando a história macabra daqueles dois desconhecidos que acordam presos numa casa de banho sem saberem o motivo do seu encarceramento.
E não há dúvidas, Saw é sangrento. Vai direitinho para a categoria de gore. Há um cadáver com a cabeça desfeita mesmo no meio daquela casa de banho, há pés e membros cortados e sanguinolências de toda a espécie durante os flashbacks que contam o resto da história que se passa paralelamente àquela cena na casa de banho.
O casting é estranho mas funciona: um desconhecido (Leigh Whannell), um actor que normalmente faz comédia (Cary Elwes) e uma "antiga estrela" dos grandes filmes de acção dos 80's (Danny Glover). Além de outros secundários, ainda há Michael Emerson que é um gajo que gosto, que está sempre muito bem e acho que até merecia maiores voos.
Há muitas coisas fixes neste Saw... Há aquele boneco assustador no triciclo, que dá a cara pelo verdadeiro serial killer, e que já se tornou icónico, ficando para a posteridade. Há a novidade de ter um serial killer, que na realidade não mata ninguém, mas faz jogos mortais com as vítimas. Mas principalmente, há uma história muito boa, muito bem contada, muito bem realizada e fotografada. E apesar de em termos de argumento, haver pequenas falhas óbvias durante o filme, tudo fica desculpado por aquele final totalmente inesperado e bombástico, que, há que dizê-lo, é inesquecível.
Como seria de esperar, Saw foi um sucesso gigantesco, gerou uma quantidade enorme de fãs e fez aparecer uma série interminável de sequelas que tentei (e felizmente consegui) evitar a todo o custo para não baixar a minha (boa) percepção que tinha do filme original. ●●●○○
Saw é um marco dentro do género de terror. Começou a revelar-me um tipo de filmes que nunca tinha visto antes: pequenas produções, muito bem feitas, com muito pouco dinheiro (um milhão e pico de dólares e filmado em menos de um mês), com poucas (ou nenhumas) "estrelas de cinema", que essencialmente, se faziam valer duma história muito bem criada e muito bem escrita, que prendia uma pessoa à cadeira com surpresas constantes durante o filme todo, até ao twist final.
O responsável por este mega-sucesso é James Wan, que consegue a proeza de fazer praticamente um filme inteiro dentro numa casa de banho degradante. E fá-lo de uma forma excitante, pois há imensa acção, resultante dos flashbacks e dos constantes elementos que vão sendo acrescentados à trama.
É interessante perceber que, tal como Jigsaw, o serial killer da história, James Wan mostra uma grande dose de voyeurismo... assim como todos os que vêm o filme. Ficamos todos ao mesmo nível, sentadinhos e confortáveis, a ver pelo ecrã, o sangrento desenrolar dos acontecimentos, acompanhando a história macabra daqueles dois desconhecidos que acordam presos numa casa de banho sem saberem o motivo do seu encarceramento.
E não há dúvidas, Saw é sangrento. Vai direitinho para a categoria de gore. Há um cadáver com a cabeça desfeita mesmo no meio daquela casa de banho, há pés e membros cortados e sanguinolências de toda a espécie durante os flashbacks que contam o resto da história que se passa paralelamente àquela cena na casa de banho.
O casting é estranho mas funciona: um desconhecido (Leigh Whannell), um actor que normalmente faz comédia (Cary Elwes) e uma "antiga estrela" dos grandes filmes de acção dos 80's (Danny Glover). Além de outros secundários, ainda há Michael Emerson que é um gajo que gosto, que está sempre muito bem e acho que até merecia maiores voos.
Há muitas coisas fixes neste Saw... Há aquele boneco assustador no triciclo, que dá a cara pelo verdadeiro serial killer, e que já se tornou icónico, ficando para a posteridade. Há a novidade de ter um serial killer, que na realidade não mata ninguém, mas faz jogos mortais com as vítimas. Mas principalmente, há uma história muito boa, muito bem contada, muito bem realizada e fotografada. E apesar de em termos de argumento, haver pequenas falhas óbvias durante o filme, tudo fica desculpado por aquele final totalmente inesperado e bombástico, que, há que dizê-lo, é inesquecível.
Como seria de esperar, Saw foi um sucesso gigantesco, gerou uma quantidade enorme de fãs e fez aparecer uma série interminável de sequelas que tentei (e felizmente consegui) evitar a todo o custo para não baixar a minha (boa) percepção que tinha do filme original. ●●●○○
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Perfume: The Story of a Murderer conta a história de um perfumista. Isto é a descrição resumida. A descrição completa é muito mais estranha. Nos finais do século XVIII, nasce Jean-Baptiste Grenouille, literalmente no meio de cabeças de peixe podre, debaixo da bancada de trabalho da mãe. Abandonado à nascença, pois a mãe é morta por uma multidão em fúria, Grenouille é entregue num orfanato. Talvez por ter nascido no meio da pestilência e da sujidade, ele desenvolve um excepcional sentido de olfacto. Ao mesmo tempo que o ostraciza do contacto pessoal, este quase super-poder, leva-o ao mundo exclusivo dos perfumistas. Aí aprende a requintada arte dos perfumes e dos aromas com um antigo artificie famoso mas agora caído em desgraça e esquecimento.
Mas o propósito de Grenouille não é a criação do melhor perfume, algo que consegue fácil e instintivamente. Ele procura a derradeira fragrância, aquele aroma que quem o cheirar, entrará imediatamente num êxtase absoluto e se sentirá como se estivesse no Paraíso. Para isso terá de capturar um elusivo aroma apenas presente nas jovens mulheres... Mas como é dito frequentemente, o caminho para o Paraíso passa pelo Inferno...
A história de Perfume: The Story of a Murderer, sobre cheiros e aromas que pairam invisíveis para os comuns mortais excepto para um assassino "ingénuo" que tenta capturar a verdadeira alma das coisas, é estranha o suficiente para que muita gente ou a deteste ou a adore. Estou no segundo grupo. Nos últimos anos, é das histórias mais originais que me lembro de ver em filme. Adaptado do livro de Patrick Süskind, Perfume é um dos meus filmes favoritos e por várias razões. Pela realização extremamente cuidada de Tom Tykwer, pela música perfeitamente integrada e, obviamente pela história excepcional. E ainda tem actores muito bons como Alan Rickman, Rachel Hurd-Wood, Dustin Hoffman e a voz inconfundível de John Hurt como narrador. Destaque principal para um actor pouco conhecido, Ben Whishaw, que tem aqui, provavelmente, a performance de uma vida. Não estou a ver outro actor naquele papel. É daquelas situações em que o actor se mistura com a personagem.
Perfume: The Story of a Murderer, uma das maiores produções alemãs de sempre, apesar de se tratar de perfumes e aromas, lembra-me sempre uma lâmina de barbear: muito leve, mas extremamente cortante. Não é daqueles filmes únicos que levaria para uma ilha deserta, mas pela sua singularidade, Perfume: The Story of a Murderer ficou-me para sempre gravado na memória. ●●●●○
Mas o propósito de Grenouille não é a criação do melhor perfume, algo que consegue fácil e instintivamente. Ele procura a derradeira fragrância, aquele aroma que quem o cheirar, entrará imediatamente num êxtase absoluto e se sentirá como se estivesse no Paraíso. Para isso terá de capturar um elusivo aroma apenas presente nas jovens mulheres... Mas como é dito frequentemente, o caminho para o Paraíso passa pelo Inferno...
A história de Perfume: The Story of a Murderer, sobre cheiros e aromas que pairam invisíveis para os comuns mortais excepto para um assassino "ingénuo" que tenta capturar a verdadeira alma das coisas, é estranha o suficiente para que muita gente ou a deteste ou a adore. Estou no segundo grupo. Nos últimos anos, é das histórias mais originais que me lembro de ver em filme. Adaptado do livro de Patrick Süskind, Perfume é um dos meus filmes favoritos e por várias razões. Pela realização extremamente cuidada de Tom Tykwer, pela música perfeitamente integrada e, obviamente pela história excepcional. E ainda tem actores muito bons como Alan Rickman, Rachel Hurd-Wood, Dustin Hoffman e a voz inconfundível de John Hurt como narrador. Destaque principal para um actor pouco conhecido, Ben Whishaw, que tem aqui, provavelmente, a performance de uma vida. Não estou a ver outro actor naquele papel. É daquelas situações em que o actor se mistura com a personagem.
Perfume: The Story of a Murderer, uma das maiores produções alemãs de sempre, apesar de se tratar de perfumes e aromas, lembra-me sempre uma lâmina de barbear: muito leve, mas extremamente cortante. Não é daqueles filmes únicos que levaria para uma ilha deserta, mas pela sua singularidade, Perfume: The Story of a Murderer ficou-me para sempre gravado na memória. ●●●●○
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Seven é um filme excelente. Não consigo ser mais sintético. É um dos melhores policiais que já vi envolvendo o tema sempre magnético dos serial killers. Desde o genérico inicial até aos créditos finais, nota-se que cada cena foi pensada e executada ao pormenor. Seven é o filme que todos os realizadores gostariam de ter feito: é simples mas ao mesmo tempo é complexo. Tem um aspecto decadente, mas também é esteticamente belo. É um drama. Um policial negro. Um filme de suspense que também está repleto de acção.
Tecnicamente é irrepreensível. Tem a música de Howard Shore que é sempre óptima e dá uma ambiência decadente e quase mística ao filme. Mas não é só a música. Tudo está primoroso em Seven: o som, a iluminação, a montagem... Tudo perfeitamente consistente. O facto de David Fincher ser um gajo dos telediscos poderia ter destruído o filme. A anterior experiência de realização tinha sido um fracasso relativo (Alien3), mas foi mais por culpa da estrutura do próprio filme do que do Fincher. (E já agora, o Alien3 só não é o melhor de todos os Alien, porque existe um Aliens do Jim Cameron...). David Fincher surpreendeu-me imenso e tornou-se imediatamente num dos meus realizadores de eleição, precisamente por ter pegado em toda a experiência visual dos telediscos e ter transformado um policial que poderia ser banal numa quase obra prima. Mas a palavra-chave aqui não é visual. É consistência. Tudo está perfeitamente unido. É um puzzle gigante em que no final todas as peças soltas encaixam na perfeição. Lembro-me perfeitamente do detective Somerset dizer algures no meio do filme que a história não ia acabar bem...
Em termos de argumento, Seven é como um relógio suíço. É uma obra de precisão meticulosamente manufacturada em que o autor está atento ao mais ínfimo pormenor. E ainda por cima está repleto de considerações acutilantes ao funcionamento da sociedade actual, que uma pessoa sabe que são verdadeiras, mas não tem coragem de as afirmar. Sendo que a base do argumento são os 7 pecados capitais, não dar uma "tacadas moralistas", seria perder uma oportunidade de ouro, não é verdade?
Nos papéis principais, estão dois excelente actores no "pico de forma" que são tão diferentes e antagónicos que só podiam funcionar bem juntos: Morgan Freeman e Brad Pitt. Gwyneth Paltrow num papel mais secundário do que habitual como a super fragilizada mulher de Pitt está perfeita, mas quem rouba o show é sem dúvida Kevin Spacey (John Doe é sem dúvida um dos melhores serial killers da história do cinema) que apesar de só aparecer durante poucos minutos consegue ter tanto impacto no filme quando os outros actores. Muito bom.
Seven é daqueles filmes que não preciso de rever, se bem que o faço sempre que dá na TV. Não consigo resistir. Vi-o no cinema na altura da estreia. . Não sabia ao que ia. Tinha gostado imenso do filme de estreia do Fincher e fiquei curioso para ver o que iria apresentar. Logo no aspecto inicial dos créditos percebi que ia ver algo especial. Quando comecei a ouvir e a musica era NIN eu soube que vinha aí algo de único. E não me enganei-me. Mais: suplantou todas as minhas expectativas. Levei uma autêntica "pancada" na cabeça. E foi espectacular. Saí da sala de cinema e só me apetecia voltar e rever o filme... Tem cenas tão brutais, únicas e inesperadas que ficam gravadas na memória. Não é preciso lembrar ninguém do salto que deram na cadeira quando o Victor (um esquelético, mas "verdadeiro" Michael Reid MacKay) repentinamente se começa mexer naquela cama suja, pois não? Ou daquela caixa no final...
Mas como todos os filmes que são excelentes, Seven tinha de ter o final perfeito. Para mim, tem um dos melhores finais que já vi. É difícil rematar bem uma história, principalmente quando ela se vai desenvolvendo em crescendo: é preciso um daqueles finais bombásticos. Seven cumpre totalmente. Tem o remate perfeito. Seven é um daqueles raros filmes que uma pessoa tem mesmo de ver. ●●●●●
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1995,
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Para ser resumido: The Night of the Hunter é um filme muito bom. Diria ainda mais, é um excelente filme. Pelo que li, na altura da estreia não foi um grande sucesso, num daqueles raros momentos de concordância entre o público e os críticos. Foi um daqueles filmes que foi ganhando "estatuto" com o tempo. Finalmente tive a oportunidade de vê-lo e percebo perfeitamente o porquê do "estatuto".
The Night of the Hunter é um filme muito à frente do seu tempo. Envolve um padre (...é mais um pregador ambulante) psicopata que engana mulheres viúvas para as roubar mas que a determinada altura se transforma num serial killer que não se importa de matar crianças pequenas. Para o ano (e as mentalidades) de 1955 parece-me um bocado puxado. E ainda por cima, o padre louco interpretado por Robert Mitchum, parece que ouve vozes divinas que lhe pedem para cometer os crimes! Mesmo hoje, se num filme aparecessem miúdos a serem ameaçados de morte com uma navalha de ponta e mola por um padre psicopata, era capaz de dar escândalo... só imagino a reacção das pessoas em 1955.
Mas não é só na história e no argumento que o filme está muito à frente do seu tempo. É também na sublime realização e no tom estético tipo expressionismo alemão, tudo delineado a regra e esquadro por Charles Laughton. Muitíssimo bom. É um autêntico manual do realizador. The Night of the Hunter tem imagens fabulosas mas, especialmente, tem uma iluminação das cenas que é absolutamente espantosa. Algumas cenas parecem autênticos quadros. E tudo feito só com a iluminação. Genial. Esteticamente, há muitas cenas que parecem não ser deste filme. Digo isto no bom sentido. Já vi alguns filmes dos anos 40 e 50 e definitivamente não são assim. Resumindo novamente, é tudo muito avançado para o seu tempo. O que torna ainda mais estranho o facto de este The Night of the Hunter ser o único filme de Charles Laughton. Realizou esta autêntica preciosidade e depois não fez mais nenhum filme. Estranho, não?
Robert Mitchum, Lillian Gish e Shelley Winters são actores de outro calibre. É o mínimo que se pode dizer. Os três são tão bons, que não precisam de dizer nada para representar. Robert Mitchum, especialmente, consegue de tal forma meter-se na pele do assassino, que as cenas com os miúdos são inacreditavelmente tensas. Já para não falar que esta é uma personagem quase do universo pop, porque vendo bem, quem é que não conhece aquela grande imagem dos nós dos dedos tatuados com as palavras love e hate? Já agora, a história em que o padre explica porque é que tem as tatuagens é excelente. Até neste pormenor é muito "à frente": tatuagens em 1955?...
A única coisa que poderia apontar de "negativo" (e nem sequer é) a The Night of the Hunter é o facto que ser... demasiado heterogéneo. Há momentos em que o filme parece entrecortado por cenas de filmes mais modernos. Fiquei com a sensação de que estava a ver um Lars Von Trier e de repente mudava de canal e estava a dar um David Lynch. E depois voltava para o filme de Charles Laughton... É o que dá ser muito bom: inspira-se outros a fazer parecido... E, para quem ainda não o viu, e não querendo estragar o filme, posso pelo menos dizer que é uma pena aquele final... Tirando isso, The Night of the Hunter é um filme obrigatório para todas as pessoas que gostam de um bom filme. É um clássico puro que fica para a história do cinema. ●●●●●
Wara no tate é um filme japonês, traduzido como Shield of Straw, algo como Escudo de Palha. É um título estranho, mas que bate certo com a história do filme.
Kyomaru, um perverso psicopata mata uma menina de 7 anos e acaba preso. Acontece que essa miúda era neta do homem mais rico do Japão, que imediatamente compra espaços publicitários em todos os jornais do país para ofererer biliões pela cabeça morta de Kyomaru. A proposta é ilegal mas simples: quem matar Kyomaru recebe a recompensa. Está assim aberta a época de caça.
Entre ele e os caçadores de recompensas que pode muito bem ser qualquer pessoa, estão cinco polícias que têm a dura e quase impossível missão de levar Kyomaru até uma esquadra do outro lado da cidade.
Tudo o que é bom no filme, está condensando nesta ideia. O resto desiludiu-me.
Se o filme é melhor do que parece é porque tem um tom engraçado e estranho, mais próximo da áurea esquisita e histérica do anime que outra coisa. Mas provalmente é mesmo só porque o casting é oriental. Nesse aspecto, tenho imensa dificuldade em comentar o que quer que seja. Vejo muito poucos filmes orientais e raramente consigo decorar os nomes dos actores. Já para não falar que também não consigo associar os nomes às caras. Os únicos que reconheci neste filme foram a Nanako Matsushima que já apareceu no filme de culto Ringu, também conhecido como The Ring na versão americana e Tatsuya Fujiwara do clássico Battle Royale. Quanto ao resto do "pessoal" acho que já vi alguns deles noutros filmes, mas sinceramente não os consigo identificar. Na parte da representação propriamente dita, nunca há nada a apontar a actores orientais. Parecem sempre empenhados a 101%...
Shield of Straw tem um boa história por base, mas acaba maltratada. E nem sequer é algo totalmente novo. Lembro-me do velhinho The Gauntlet de 1977, de e com Clint Eastwood. (E, sim, Eastwood já realiza filmes há muitos, muitos anos)
Wara no tate é um filme sobre frieza, vingança, honra e sobre o cumprimento do dever acima de tudo. Algo tipicamente japonês. Mas é mais um chavão para ter nos cartazes do que uma parte da história...
Vi o filme porque tinha como realizador Takashi Miike. E de Miike, lembro-me vagamente de ver Full Metal Yakuza, mas lembro-me muito bem de Audition e de Ichi the Killer, numa daquelas maratonas de filmes orientais do Fantasporto. Para quem não conhece, estes são filmes que fazem revirar as entranhas, engolir em seco e desviar o olhar... Nesse aspecto, este filme surpreendeu bastante: é demasiadamente brando com o espectador. ●●○○○
Kyomaru, um perverso psicopata mata uma menina de 7 anos e acaba preso. Acontece que essa miúda era neta do homem mais rico do Japão, que imediatamente compra espaços publicitários em todos os jornais do país para ofererer biliões pela cabeça morta de Kyomaru. A proposta é ilegal mas simples: quem matar Kyomaru recebe a recompensa. Está assim aberta a época de caça.
Entre ele e os caçadores de recompensas que pode muito bem ser qualquer pessoa, estão cinco polícias que têm a dura e quase impossível missão de levar Kyomaru até uma esquadra do outro lado da cidade.
Tudo o que é bom no filme, está condensando nesta ideia. O resto desiludiu-me.
Se o filme é melhor do que parece é porque tem um tom engraçado e estranho, mais próximo da áurea esquisita e histérica do anime que outra coisa. Mas provalmente é mesmo só porque o casting é oriental. Nesse aspecto, tenho imensa dificuldade em comentar o que quer que seja. Vejo muito poucos filmes orientais e raramente consigo decorar os nomes dos actores. Já para não falar que também não consigo associar os nomes às caras. Os únicos que reconheci neste filme foram a Nanako Matsushima que já apareceu no filme de culto Ringu, também conhecido como The Ring na versão americana e Tatsuya Fujiwara do clássico Battle Royale. Quanto ao resto do "pessoal" acho que já vi alguns deles noutros filmes, mas sinceramente não os consigo identificar. Na parte da representação propriamente dita, nunca há nada a apontar a actores orientais. Parecem sempre empenhados a 101%...
Shield of Straw tem um boa história por base, mas acaba maltratada. E nem sequer é algo totalmente novo. Lembro-me do velhinho The Gauntlet de 1977, de e com Clint Eastwood. (E, sim, Eastwood já realiza filmes há muitos, muitos anos)
Wara no tate é um filme sobre frieza, vingança, honra e sobre o cumprimento do dever acima de tudo. Algo tipicamente japonês. Mas é mais um chavão para ter nos cartazes do que uma parte da história...
Vi o filme porque tinha como realizador Takashi Miike. E de Miike, lembro-me vagamente de ver Full Metal Yakuza, mas lembro-me muito bem de Audition e de Ichi the Killer, numa daquelas maratonas de filmes orientais do Fantasporto. Para quem não conhece, estes são filmes que fazem revirar as entranhas, engolir em seco e desviar o olhar... Nesse aspecto, este filme surpreendeu bastante: é demasiadamente brando com o espectador. ●●○○○
Henry: Portrait of a Serial Killer (1986) é baseado na figura real do assassino em série Henry Lee Lucas (que morreu na prisão em 2001) e do seu companheiro de matanças, Ottis Toole. Contrariamente à história do verdadeiro duo criminoso, a personagem de Becky é transformada em irmã adulta de Ottis, em vez da sobrinha de 12 anos. Também os crimes retratados no filme são os que Henry confessou como seus (mas que nunca puderam ser comprovados) e não os que foram realmente documentados pela polícia. Graças a esses crimes, e apesar de ter sido condenado à morte, Henry acabou apenas por cumprir prisão perpétua por interferência do então governador do Texas. E o governador era... George W. Bush. Estranho, não? É caso para dizer que a realidade é mais estranha que a ficção...
Revendo o filme muitos anos depois, noto nitidamente que vai perdendo o efeito choque inicial. É normal. Hoje em dia, ninguém sai a correr do cinema se vir pela primeira vez o Psico ou até O Exorcista. Vão sempre aparecendo filmes que suplantam o efeito choque/soco-no-estômago como por exemplo, Irreversível. Quando querem chocar, os filmes conseguem sempre elevar a fasquia. Ou então, são as plateias que entretanto ficaram mais "endurecidas" e precisam de choques cada vez mais violentos...
Na figura principal de Henry, um assassino em série totalmente aleatório, está Michael Rooker, um actor de segunda linha de Hollywood. O que não quer dizer que é mau actor, apenas que não é muito conhecido. Este filme prova que os actores não se medem pela popularidade nem pela quantidade de blockbusters em que participam. Rooker, como excelente actor que é, faz uma excelente representação e não é exagero afirmar que garantiu um espaço ao lado dos grandes psicopatas do cinema como Perkins (Psico) e Hopkins (Silence of the Lambs). Nada mau para o primeiro filme. Li uma história em que se conta que na altura, Rooker trabalhava como contínuo e foi de uniforme que se apresentou nas audições, e assim continuou durante todo o processo de filmagem. Não sei se foi o uniforme ou outra coisa qualquer, mas conseguiu criar na personagem uma dualidade de vadio antipático, de quem sentimos mais pena que repulsa, e com quem se poderia ter um conversa normal sem desconfiar de nada. E, para um papel destes, mais importante que tudo, é a personagem possuir crazy eye. Rooker é irrepreensível nesse aspecto.
A narrativa do filme é monótona e totalmente linear. Poderia ser uma coisa má, mas neste caso até ajuda. Acrescenta tensão durante todo o filme e acaba por adensar ainda mais o ambiente de anormalidade em que os dois loucos vão vagueando sem regras e sem controlo. A filmagem estática, e takes penosamente longos obrigam a uma fixação constante nas imagens e a uma atenção redobrada, levando a um autêntico mergulho no filme e do qual não se consegue escapar com facilidade. Não deixa de ser curioso que esta opção tenha sido um reflexo do baixo orçamento, já que o realizador John McNaughton confirmou que o projecto inicial envolvia toda uma filmagem mais solta, do tipo documental, de câmara ao ombro, que não se concretizou por motivos financeiros e pela perda do director de fotografia. Apesar de tudo, este tipo de filmagem foi explorado ao máximo em duas cenas: uma, crescentemente tensa mas totalmente improvisada pelos três actores principais e outra, numa das cenas mais violentas do filme, em que é filmada uma família a ser brutalmente atacada. No fim de toda a selvajaria envolvendo um casal anónimo e indefeso, apercebe-se que afinal estamos a ver uma repetição gravada na TV; precisamente o mesmo que os dois assassinos estão a fazer. Esta cena obriga a uma reflexão obrigatória. Afinal, porque tanto nos fascina os assassinos em série e os seus actos bárbaros? E, seremos nós, "os normais", assim tão diferentes, para estar a assistir a estas cenas? Quer se queira, quer não, um filme com serial killers é sempre um sucesso de bilheteira e muitos destes filmes são clássicos intemporais. E todos os grandes actores desejam ter no currículo um papel assim. Dá que pensar...
Henry é um daqueles filmes que desmonta a velha teoria que um filme para ser rentável e economicamente viável, precisa de ter um grande orçamento. Filmado em 1986 por 110 mil dólares acabou por render mais de meio milhão quando foi posto a circular no circuito alternativo em 1989. E desde então tem facturado mais milhões. Nada mau para um filme em que os próprios produtores estavam relutantes em libertar para o público (é essa a razão do hiato de 3 anos entre a produção e a exibição), povoado de amigos do realizador e da equipa técnica (para colmatar a falta de actores profissionais), assim como o uso nas filmagens dos seus carros pessoais e até as próprias roupas. Até o produtor executivo contribui na representação, algo impensável hoje em dia. Neste caso, o aspecto quase amador é uma ajuda importante para a textura do filme, conferindo um aspecto totalmente cru e sujo, o que cai optimamente bem no clássico tema dos assassinos em série.
Não haja dúvidas. Este é um filme para os amantes incondicionais de festivais de terror e/ou para quem gosta de ser "agredido" visualmente no conforto do seu sofá. Muitos dos envolvidos no próprio filme, como Tom Towles (Otis) afirmaram que o filme é tão perturbador que só o viram uma vez. Não se fica com uma boa sensação depois de ver Henry, porque este é um daqueles filmes duros de ver. É como ser perseguido por uma figura misteriosa por uma viela imunda e escura numa noite de chuva... E mesmo assim é um filme muito bom. ●●●●○
Revendo o filme muitos anos depois, noto nitidamente que vai perdendo o efeito choque inicial. É normal. Hoje em dia, ninguém sai a correr do cinema se vir pela primeira vez o Psico ou até O Exorcista. Vão sempre aparecendo filmes que suplantam o efeito choque/soco-no-estômago como por exemplo, Irreversível. Quando querem chocar, os filmes conseguem sempre elevar a fasquia. Ou então, são as plateias que entretanto ficaram mais "endurecidas" e precisam de choques cada vez mais violentos...
Na figura principal de Henry, um assassino em série totalmente aleatório, está Michael Rooker, um actor de segunda linha de Hollywood. O que não quer dizer que é mau actor, apenas que não é muito conhecido. Este filme prova que os actores não se medem pela popularidade nem pela quantidade de blockbusters em que participam. Rooker, como excelente actor que é, faz uma excelente representação e não é exagero afirmar que garantiu um espaço ao lado dos grandes psicopatas do cinema como Perkins (Psico) e Hopkins (Silence of the Lambs). Nada mau para o primeiro filme. Li uma história em que se conta que na altura, Rooker trabalhava como contínuo e foi de uniforme que se apresentou nas audições, e assim continuou durante todo o processo de filmagem. Não sei se foi o uniforme ou outra coisa qualquer, mas conseguiu criar na personagem uma dualidade de vadio antipático, de quem sentimos mais pena que repulsa, e com quem se poderia ter um conversa normal sem desconfiar de nada. E, para um papel destes, mais importante que tudo, é a personagem possuir crazy eye. Rooker é irrepreensível nesse aspecto.
A narrativa do filme é monótona e totalmente linear. Poderia ser uma coisa má, mas neste caso até ajuda. Acrescenta tensão durante todo o filme e acaba por adensar ainda mais o ambiente de anormalidade em que os dois loucos vão vagueando sem regras e sem controlo. A filmagem estática, e takes penosamente longos obrigam a uma fixação constante nas imagens e a uma atenção redobrada, levando a um autêntico mergulho no filme e do qual não se consegue escapar com facilidade. Não deixa de ser curioso que esta opção tenha sido um reflexo do baixo orçamento, já que o realizador John McNaughton confirmou que o projecto inicial envolvia toda uma filmagem mais solta, do tipo documental, de câmara ao ombro, que não se concretizou por motivos financeiros e pela perda do director de fotografia. Apesar de tudo, este tipo de filmagem foi explorado ao máximo em duas cenas: uma, crescentemente tensa mas totalmente improvisada pelos três actores principais e outra, numa das cenas mais violentas do filme, em que é filmada uma família a ser brutalmente atacada. No fim de toda a selvajaria envolvendo um casal anónimo e indefeso, apercebe-se que afinal estamos a ver uma repetição gravada na TV; precisamente o mesmo que os dois assassinos estão a fazer. Esta cena obriga a uma reflexão obrigatória. Afinal, porque tanto nos fascina os assassinos em série e os seus actos bárbaros? E, seremos nós, "os normais", assim tão diferentes, para estar a assistir a estas cenas? Quer se queira, quer não, um filme com serial killers é sempre um sucesso de bilheteira e muitos destes filmes são clássicos intemporais. E todos os grandes actores desejam ter no currículo um papel assim. Dá que pensar...
Henry é um daqueles filmes que desmonta a velha teoria que um filme para ser rentável e economicamente viável, precisa de ter um grande orçamento. Filmado em 1986 por 110 mil dólares acabou por render mais de meio milhão quando foi posto a circular no circuito alternativo em 1989. E desde então tem facturado mais milhões. Nada mau para um filme em que os próprios produtores estavam relutantes em libertar para o público (é essa a razão do hiato de 3 anos entre a produção e a exibição), povoado de amigos do realizador e da equipa técnica (para colmatar a falta de actores profissionais), assim como o uso nas filmagens dos seus carros pessoais e até as próprias roupas. Até o produtor executivo contribui na representação, algo impensável hoje em dia. Neste caso, o aspecto quase amador é uma ajuda importante para a textura do filme, conferindo um aspecto totalmente cru e sujo, o que cai optimamente bem no clássico tema dos assassinos em série.
Não haja dúvidas. Este é um filme para os amantes incondicionais de festivais de terror e/ou para quem gosta de ser "agredido" visualmente no conforto do seu sofá. Muitos dos envolvidos no próprio filme, como Tom Towles (Otis) afirmaram que o filme é tão perturbador que só o viram uma vez. Não se fica com uma boa sensação depois de ver Henry, porque este é um daqueles filmes duros de ver. É como ser perseguido por uma figura misteriosa por uma viela imunda e escura numa noite de chuva... E mesmo assim é um filme muito bom. ●●●●○






