0056 Lucy


Se alguém estiver à procura de um filme de acção que não seja só uma mostra de efeitos especiais/explosões, e que tenha algum "miolo", Lucy (2014) é a resposta.
Luc Besson construiu um filme muito bem ritmado, com acção constante, incerteza no que vai acontecer a seguir, encaixado numa premissa muito interessante: se só usamos 10% da nossa capacidade cerebral, o que acontecerá se usarmos todo o nosso potencial? O que acontece é Lucy, um mulher vulgar apanhada no meio de um negócio de droga extravagante. Não se trata de uma droga qualquer, mas sim de CPh4 (uma enzima naturalmente encontrada no corpo humano durante a gravidez, que potencia as capacidades cerebrais), sintetizada em grandes quantidades para tráfico.
Um pequeno à parte do filme para referir a questão dos 10% de utilização do cérebro. Eu achava que esta questão já tinha sido desmistificada, mas percorrendo um pouco a internet parece que ainda tem raízes bem sólidas... Tomando a perspectiva da evolução, não faz grande nexo o ser humano ter evoluído, tornar-se a espécie dominante - precisamente devido às suas maiores capacidades cerebrais - mas depois só 10% do cérebro funcionar. Mais do que uma questão em aberto, é uma questão que gera muito mais questões que respostas. O que é que aconteceu? O cérebro percebeu que tinha capacidade a mais e decidiu que só seria necessário usar os tais 10%? E como é que se detectou que só usamos 10%? Para isso não seria necessário identificar os restantes 90% não utilizados? Como só estudo as neurociências ao fim-de-semana, tenho pouca base para responder a estas questões. Mas se nós somos a derradeira máquina, presumo que funcione da mesma forma: para uma parte funcionar - os 10% - se calhar, os outros 90% estão em stand-by. Se calhar, só mesmo 10% funcionam de cada vez, do género, para não queimar... Com tantos estudos sobre o funcionamente humano e o desenvolvimento imparável da tecnologia, presumo que daqui a uns anos já teremos a resposta. Mas isto são questões que nada têm a ver com  filme. Mas é sempre bom quando um filme nos põe a pensar sobre outra coisa que não o próprio filme...
Voltando ao filme. Lucy é recrutada como correio de droga involuntário, mas acaba por "consumir" a tal CPh4 por acidente. Isso faz com que todas as suas capacidades cerebrais adormecidas ganhem vida e ela ganhe quase super-poderes. E então ela decide contra-atacar.
Apesar de tudo isto se passar no campo hipotético, Luc Besson apresenta a história como (mais ou menos) verosímil e ainda melhor encaixada no desenrolar da acção. Notam-se muitos elementos de manga, o que para mim, é óptimo, pois sou fã incondicional e acho que mais ninguém tem tão boas ideias como os criadores deste género peculiar. Não é inocente o facto dos criminosos serem asiáticos, sendo que o destaque óbvio vai para o alucinado personagem de Min-sik Choi... Parece saído do Oldboy. Se calhar ele é mesmo assim. É assustador.
O filme é tão envolvente em termos de história e narrativa que "abafa" um pouco a actuação de Scarlett Johansson e Morgan Freeman (que aparenta já só aparecer para dar credibilidade ao enredo), mas Besson compensa com uma grande realização, especialmente no início, com a inclusão de stock footage. Apesar de se ir desenrolando em tom decrescente, e ter um final repentino demais, continua a ser um bom filme e que vale a pena ver, quanto mais não seja, porque é realmente inovador, o que traduzido quer dizer que foge totalmente à "chapa 4" do cinema de acção de Hollywood. ●●●○○

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