0094 Control


Control é um filme extremamente "polido" e muito bom. Tanto em termos de construção da narrativa, como obviamente de imagem. Vindo de Anton Corbijn, um dos melhores fotógrafos do mundo da música, não é de estranhar que Control tenha uma fotografia espectacular. A opção estética do preto e branco foi muito bem conseguida e encaixa-se perfeitamente no retrato trágico duma história como esta.
Baseado no livro da mulher de Ian Curtis, a história de Control conta o percurso do líder dos Joy Division, desde os tempos da escola, passando pelos meandros da inspiração, construção e sucesso da banda e das suas músicas, até ao final prematuro e trágico aos 23 anos, e espelha muito bem o desmorenamento e as divisões internas do vocalista.
Sou um grande fã da música dos Joy Division. Até gostava da banda ainda antes de conhecer a música propriamente dita. É estranho, eu sei, mas, os Joy Division, precisamente pela história que rodeia a banda, têm uma áurea estranha e depressiva que aproxima sempre os adolescentes. E eu não fui excepção. Quando uma pessoa é mais nova e ouve alguém a dizer que há uma banda muito boa, em que o vocalista se suicidou, há imediatamente uma ligação e uma pessoa tem que a ouvir e conhecer melhor. Foi o que aconteceu. Por acaso quando ouvi os primeiros discos nem sequer gostei muito. Só mais tarde é que consegui encaixar a sonoridade muito particular dos Joy Division que é uma música fora do normal e demasiado adulta, tanto na sonoridade como nas letras para ser entendida por adolescentes... É muito atmosférica mas ao mesmo tempo frenética. Tem muita pedalada, como se diz na gíria. É um bocado como o próprio Ian Curtis e a sua história pessoal e artística. Se o filme o retrata correctamente, trata-se de uma pessoa numa viagem de montanha russa, alternando, entre altos muito altos e baixos muitos baixos. Passa-se rapidamente dum imobilismo depressivo para uma eufórica velocidade da luz.
Li algumas coisas sobre o assunto e sempre se falou em epilepsia e bipolaridade. Umas vezes estamos bem e outras estramos mal. Mas a vida não é mesmo assim? A diferença é que algumas coisas tem "poder de encaixe" para essas mudanças abruptas e outras nem por isso. Tal como tantos outros, lidar com a fama, o protagonismo e ser a cara duma grande banda, reconhecido e adorado por milhões, deve dar um bocado cabo do miolo. Presumo que isso deve mexer com tudo cá dentro. Há quem viva para isso, mas também dá para perceber que há quem não aguente e acabe por mergulhar na depressão. E a conhecida disponibilidade de drogas, álcool e afins nos bastidores do mundo da música também não deve ajudar nada...
Já não é a primeira vez que um líder de uma banda icónica acaba desta maneira. Deve ser sina dos grandes autores. Ou então é isso que os põe na galeria dos "grandes". Morrer jovem e no pico da carreira musical é o primeiro passo para se tornar numa lenda. Jim Morrison, Kurt Cobain, Michael Hutchence, Ian Curtis e a lista continua... Mas isto é outro assunto...
Para além da fotografia e da realização estilizada de Corbijn, o que mais gostei em Control foi o ritmo. O filme consegue retratar na perfeição os altos e baixos de Curtis e está sempre muito bem encaixado nos grandes temas dos Joy Division. Se o filme pudesse ser comparado a uma música, seria sem dúvida a Transmission. Mas também podia ser a Atmosphere. Ou Love Will Tear Us Apart. O filme está tão bem feito que se calhar até podiam ser todas.
Mas acima de tudo, o filme vale pela brilhante interpretação de Sam Riley. Excelente. Posso dizer que até me mete impressão. Quem conhece as actuações de Ian Curtis fica arrepiado. A forma como Riley consegue replicar todos aqueles tiques estranhos, os movimentos frenéticos, o olhar e até as expressões é absolutamente impressionante. Fica a pergunta: onde é que desencantam estes actores desconhecidos? Dificilmente outro actor conseguiria fazer melhor.
Control é um bom filme para fãs dos Joy Division, do Ian Curtis e não só. É um filme para quem gosta de bons filmes. ●●●●○

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