0102 Senna
Posted by artzzz333
Posted on 22:28
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Senna é um documentário sobre a vida e a carreira do mítico piloto de fórmula 1, Ayrton Senna. Vida e carreira? Haverá forma de separar uma coisa da outra? Vendo o documentário, parece que não. A vida de Senna passou-se quase toda num cockpit, ao volante de um carro de corridas. Tal como ele confidencia, correr era uma experiência mística. A condução acontecia num estado de quase inconsciência, automática, em transe, por um túnel de adrenalina. Era pura condução. Mas não era preciso que ele o dissesse. Quem via a competição de fora, percebia que havia ali algo de especial a acontecer entre aquele piloto, o carro e a pista. Senna, notava-se, mais do que correr para viver, vivia para correr.
O documentário foca toda a vida competitiva das corridas motorizadas, as relações familiares, mas especialmente as amizades e os ódios de estimação em pista (especialmente com outro génio do volante, Alain Prost, também conhecido como "o professor") e que culmina na infelizmente célebre prova em Ímola, no Grande Prémio de San Marino. É tudo tão trágico que parece ter saído de um guião de cinema. A realidade, mais uma vez, ultrapassou a ficção.
Grande parte da carreira de Senna também parece saída de um filme. O primeiro grande prémio foi ganho em Portugal em 1985, ao volante de um Lotus, aquele carro icónico preto e dourado.
As contendas com Prost, o piloto pragmático, foram um extra para quem assistia de fora. Os dois pilotos eram tão antagónicos que só poderia dar choque. Apesar da rivalidade, eles acabaram por correr juntos na McLaren e Senna até foi campeao mundial pela primeira vez com Prost como companheiro de equipa. Já não me lembrava nada disto. Mas o mal-estar entre os dois era bem visível. Lembro-me que na altura, ou se puxava pelo Prost ou pelo Senna. Nao havia meio termo. Verdadeiramente digno de filme é a conquista do seu primeiro Campeonato Mundial. No Grande Prémio do Japão de 1988, Senna começa na pole position mas arranca mal e cai para os últimos lugares. Mas não desiste e vai ganhando lugares e, perto do final da corrida, acaba mesmo por ultrapassar Prost e terminar em primeiro. Épico.
Após a conquista de mais dois campeonatos mundiais e inúmeras vitórias em Grandes Prémios, a carreira de Senna termina abruptamente numa curva rápida de Ímola. É daqueles acontecimentos que de alguma forma têm um significado especial, porque quem o viu nunca mais esquece.
Nessa prova, que parecia estar amaldiçoada pelos deuses das corridas, Rubens Barrichello teve um acidente a grande velocidade, fez o carro voar contra um muro, mas saiu milagrosamente incólume. Um outro jovem piloto, o austríaco Roland Ratzenberger morreu nas provas livres e parecia que estava dado o mote da tragédia. Já durante o Grande Prémio, logo no arranque, J.J. Lehto não consegue arrancar e é abalroado a grande velocidade pelo português Pedro Lamy tendo como consequência, alguns feridos nas bancadas com os pneus e detritos que voaram da violenta colisão. Depois de reatada a corrida, na sétima volta, Ayrton Senna é traído pela direcção do seu Williams, indo chocar a alta velocidade no muro da (agora) ínfame curva Tamburello. Tanta incidência, tanta tragédia numa só prova é inacreditável.
Lembro-me de inicialmente pensar que não tinha sido assim tão grave. Já tinha visto choques e acidentes piores e aquele parecia ser apenas mais um. Mas minutos depois, percebeu-se que algo de errado se passava. O errado era Senna não voltar mais à pista. O errado era Senna não voltar para junto dos aficionados. O errado era Senna não voltar com vida. O Mundo esteve todo errado naquele momento. Com esse acidente, Ayrton Senna, ainda um jovem piloto (tinha apenas 34 anos) de uma forma repentina e trágica, pagou o preço da imortalidade. Morreu o homem Ayrton e nasceu a lenda Senna.
Sempre gostei do Ayrton Senna - mesmo sem gostar particularmente de Formula 1 -, porque ele era um piloto que levava o carro aos limites: ultrapassava em sítios que diziam ser impossível, saía de pista por cima da relva, cortava chicanes, a cada curva que fazia parecia que se ia despistar e nunca desistia de querer ser melhor do que o que era. Admiro isso. Apenas conheci a persona mediática do piloto, mas parece-me que era uma boa pessoa. Parecia ser um gajo normal. É uma pena ter ido embora tão cedo...
Mesmo para quem não gosta de desportos motorizados - como é o meu caso - este é um documentário a ver com atenção. Pelo lado desportivo da coisa, sem nunca entrar no campo da especulação ou moralista de tentar culpar A ou B pelo acidente, mas essencialmente pelo lado emotivo e humano do piloto. Usando apenas entrevistas e imagens de arquivo, Senna é uma lição de Asif Kapadia sobre como se deve fazer um documentário emotivamente forte. É um documentário muito, muito bom. Para honrar um dos melhores pilotos de sempre, se não mesmo o melhor, só podia mesmo ser assim. ●●●●○
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