Mostrar mensagens com a etiqueta depressão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta depressão. Mostrar todas as mensagens
Se há gajo que raramente falha é o Steven Soderbergh. Até num filme menor, como é o caso deste Side Effects. Não vale a pena dourar a pílula: o filme é fracote. Tendo em conta que é um "Soderbergh". Não fossem os actores serem mesmo bons (Rooney Mara, Catherine Zeta-Jones, Channing Tatum, Jude Law), diria que é quase um telefilme. Aliás, em partes da história, pareceu-me quase que estava a ver um episódio da mítica série Alfred Hitchcock Presents.
É o principal problema do filme: a história é confusa e tem demasiados "side effects". O que começa por ser uma história de psicólogo estável /paciente deprimida, rapidamente se torna numa paranóia com medicamentos experimentais e depois passa a drama pessoal/familiar com contornos escondidos... é um bocadinho confuso, mas mais do que isso é incoerente.
Mas o que me ficou mais visível aqui, é a facilidade que o Soderbergh tem em realizar um filme. Até é irritante. Dá a impressão que fez isto num fim-de-semana em que estava aborrecido e sem nada para fazer, lembrou-se: "vou fazer um filmito para me entreter; e vou escrevendo-o à medida que o vou filmando... Depois vê-se no que isto dá..." E, se calhar, até foi mesmo assim que aconteceu... Apesar de todas as falhas, é melhor que muita coisa que tenho visto. ●●○○○

Curtis, um gajo normal, na sua vida normal, começa a ter pesadelos recorrentes e alucinações com uma estranha e gigantesca tempestade que se aproxima. Como pensa que há algo de errado consigo, procura ajuda médica. Não contente com a ajuda despersonalizada que recebe, decide construir um abrigo para tempestades no seu próprio quintal. A sua estranha atitude começa então a ameaçar a sua sanidade e a unidade da família...
Take Shelter é um thriller, dramático, tenso, muito bem feito, e por isso também muito difícil de ver. É mesmo poderoso. É filme muito bom. Tudo nele é ambíguo. Desde as primeiras imagens, ao soberbo final, e até ao próprio tema. Será sobre esquizofrenia? Paranóia? Estranhos eventos que ninguém consegue ver? É difícil de chegar a alguma conclusão. A minha teoria é de que se trata da extrapolação de um assunto bastante actual e complicado: a depressão.
O filme é de 2011, por isso, rodado mesmo em cima do descalabro financeiro que varreu a América (e o mundo). E se já não é fácil de lidar com a ansiedade normal do alucinantemente rápido mundo moderno, com o stress de ter dinheiro contado ao fim do mês para pagar contas, aguentar com a frustração de não ver os seus sonhos realizados, ver a injustiça e a ganância a prevalecerem como normalidade, a violência crescente mas cada vez mais banalizada, a futilidade do momento e se ainda por cima, a isto tudo, juntarmos uma mistura de indefinição, mudança e instabilidade política, social e económica a nível mundial, então está construído um cocktail explosivo para uma depressão profunda. Diria até mesmo, uma depressão profunda colectiva.
O Miguel Esteves Cardoso escreveu um dia que "O Amor é fodido". É capaz de ser verdade. Mas a depressão é muito mais fodida. O amor é bom, recomenda-se e é reconhecido por toda a gente. A depressão é apenas considerada como a doença dos inúteis. Dos que não conseguem superar-se. Dos coitadinhos. Dos que se dizem azarados. Dos que têm baixa autoestima. Pior ainda: dos pessimistas.
Tal como o amor, a depressão também faz uma pessoa ver coisas que não existem. O tal copo meio vazio em vez do meio cheio. Uma tempestade que se aproxima ao longe mas que mais ninguém vê. É como uma lente escura para o mundo, em que só se consegue ver o lado negro das coisas. É ter na cabeça aquela sensação constante de catástrofe iminente. A depressão é algo que levanta mais perguntas do que dá respostas. Porque é que algumas pessoas são mais propensas que outras? É uma causa de um mundo cada vez mais assimétrico e em constante mudança ou uma consequência de maus e aleatórios acontecimentos quotidianos? Uma questão genética ou biológica? Um distúrbio mental? Não há uma resposta clara ou definitiva... e estou a divagar novamente, ainda por cima, à volta de um tema tão negro. E ninguém gosta de coisas negras, não é verdade?
Apesar de ser um valente e negro "murro no estômago", gostei muito de Take Shelter. Está muito bem escrito e também muito bem realizado por Jeff Nichols. É um gajo para ficar debaixo de olho porque nitidamente tem muito jeito e sabe o que faz. Tem poucos mas excelentes actores como Jessica Chastain e Shea Whigham, mas todo o destaque tem de ir para a extraordinária intensidade de Michael Shannon. É que nem precisa de dizer nada. Só a expressão facial diz tudo. Brilhante desempenho. Mais um gajo a ter em atenção no futuro. Take Shelter é para ver a roer unhas na beirinha do assento e depois rever. ●●●●○

As frases seguintes estão na parte de trás da edição em DVD de Last Days: "É um filme sobre as últimas horas de uma estrela rock, dedicado ao maior ícone do movimento grunge, Kurt Cobain, líder dos Nirvana". É verdade, concordo. Diz também que "...é a evocação dos últimos dias de Cobain e é também um dos melhores filmes de rock da história". Bem, aqui já não concordo nada. Não concordo sequer que seja um filme sobre rock, nem que seja bom. Aliás, nem sequer é um filme sobre Kurt Cobain, mas antes uma personagem ficcional (Blake) muito, muito parecida, um "cliché do rock & roll", ou seja, o gajo adorado por todos, mas detestado por ele próprio e que acaba por se suicidar jovem para se tornar numa lenda intemporal.
Vou ser directo: não gostei nada de Last Days. É um filme sobre a solidão e depressão de um gajo que por acaso é uma sósia do Cobain e que também tem como actividade profissional ser músico. É excessivamente pesado, introspectivo e lento. É quase como estar a ver alguém a meditar.
Gosto muito do Gus Van Sant. É um dos meus realizadores de referência, mas depois de ver o Last Days não consegui deixar de ficar com a sensação de ter sido enganado. Fiquei com ideia de que só fez o filme para aproveitar o público que gosta dos Nirvana.
Mas o meu principal problema com este filme, é que não percebi a lógica criativa por trás. Se não queria fazer um biopic do Cobain, porquê fazer uma personagem exactamente igual, que se comporta da mesma forma, mas que não é o Cobain? E porquê o elaborar de uma história que não é a verdadeira, mas que termina da mesma forma, com o mesmo desfecho conhecido? Acho que esta é uma forma muito errada de fazer um filme, mas principalmente de contar uma história. Ou é verdadeira ou é ficcional. Acho que não se deve misturar as duas facetas na mesma história, principalmente quando ela direcionada para os muitos fãs da personagem verdadeira. Fiquei muito decepcionado quando o vi, até porque na altura foi divulgado como um filme sobre os últimos dias do Kurt Cobain.
Apesar disto tudo, Gus Van Sant continua a ser muito bom atrás das câmaras, se bem que para mim exagerou um bocadito no quão longos os planos podem ser. Confirmei também o Michael Pitt como um bom actor, com muito crazy eye. Também por lá andam o Lukas Haas, a Asia Argento e até a Kim Gordon dos Sonic Youth. De resto, nada mais se destaca. ●●○○○


Control é um filme extremamente "polido" e muito bom. Tanto em termos de construção da narrativa, como obviamente de imagem. Vindo de Anton Corbijn, um dos melhores fotógrafos do mundo da música, não é de estranhar que Control tenha uma fotografia espectacular. A opção estética do preto e branco foi muito bem conseguida e encaixa-se perfeitamente no retrato trágico duma história como esta.
Baseado no livro da mulher de Ian Curtis, a história de Control conta o percurso do líder dos Joy Division, desde os tempos da escola, passando pelos meandros da inspiração, construção e sucesso da banda e das suas músicas, até ao final prematuro e trágico aos 23 anos, e espelha muito bem o desmorenamento e as divisões internas do vocalista.
Sou um grande fã da música dos Joy Division. Até gostava da banda ainda antes de conhecer a música propriamente dita. É estranho, eu sei, mas, os Joy Division, precisamente pela história que rodeia a banda, têm uma áurea estranha e depressiva que aproxima sempre os adolescentes. E eu não fui excepção. Quando uma pessoa é mais nova e ouve alguém a dizer que há uma banda muito boa, em que o vocalista se suicidou, há imediatamente uma ligação e uma pessoa tem que a ouvir e conhecer melhor. Foi o que aconteceu. Por acaso quando ouvi os primeiros discos nem sequer gostei muito. Só mais tarde é que consegui encaixar a sonoridade muito particular dos Joy Division que é uma música fora do normal e demasiado adulta, tanto na sonoridade como nas letras para ser entendida por adolescentes... É muito atmosférica mas ao mesmo tempo frenética. Tem muita pedalada, como se diz na gíria. É um bocado como o próprio Ian Curtis e a sua história pessoal e artística. Se o filme o retrata correctamente, trata-se de uma pessoa numa viagem de montanha russa, alternando, entre altos muito altos e baixos muitos baixos. Passa-se rapidamente dum imobilismo depressivo para uma eufórica velocidade da luz.
Li algumas coisas sobre o assunto e sempre se falou em epilepsia e bipolaridade. Umas vezes estamos bem e outras estramos mal. Mas a vida não é mesmo assim? A diferença é que algumas coisas tem "poder de encaixe" para essas mudanças abruptas e outras nem por isso. Tal como tantos outros, lidar com a fama, o protagonismo e ser a cara duma grande banda, reconhecido e adorado por milhões, deve dar um bocado cabo do miolo. Presumo que isso deve mexer com tudo cá dentro. Há quem viva para isso, mas também dá para perceber que há quem não aguente e acabe por mergulhar na depressão. E a conhecida disponibilidade de drogas, álcool e afins nos bastidores do mundo da música também não deve ajudar nada...
Já não é a primeira vez que um líder de uma banda icónica acaba desta maneira. Deve ser sina dos grandes autores. Ou então é isso que os põe na galeria dos "grandes". Morrer jovem e no pico da carreira musical é o primeiro passo para se tornar numa lenda. Jim Morrison, Kurt Cobain, Michael Hutchence, Ian Curtis e a lista continua... Mas isto é outro assunto...
Para além da fotografia e da realização estilizada de Corbijn, o que mais gostei em Control foi o ritmo. O filme consegue retratar na perfeição os altos e baixos de Curtis e está sempre muito bem encaixado nos grandes temas dos Joy Division. Se o filme pudesse ser comparado a uma música, seria sem dúvida a Transmission. Mas também podia ser a Atmosphere. Ou Love Will Tear Us Apart. O filme está tão bem feito que se calhar até podiam ser todas.
Mas acima de tudo, o filme vale pela brilhante interpretação de Sam Riley. Excelente. Posso dizer que até me mete impressão. Quem conhece as actuações de Ian Curtis fica arrepiado. A forma como Riley consegue replicar todos aqueles tiques estranhos, os movimentos frenéticos, o olhar e até as expressões é absolutamente impressionante. Fica a pergunta: onde é que desencantam estes actores desconhecidos? Dificilmente outro actor conseguiria fazer melhor.
Control é um bom filme para fãs dos Joy Division, do Ian Curtis e não só. É um filme para quem gosta de bons filmes. ●●●●○

 
Copyright © 2015 todos os filmes que vi
Distributed By Gooyaabi Templates