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Em meados de século XVIII, a vila de Gévaudan em França esteve envolvida num mistério macabro. Um monstro andava a matar aldeões indiscriminadamente e a semear o pânico na população da zona. Para resolver o mistério, o rei francês envia Grégoire de Fronsac e Mani, o seu fiel guerreiro Mohawk. O que encontram é surpreendente...
Um bom filmito, este Le Pacte des Loups. Boas cenas de acção, suspense e uns pozinhos de terror,  tudo envolvido numa aura de misticismo. Muito bem realizado por Christophe Gans, assente num guião muito bem escrito. Para o sucesso dum filme destes, assim mais para o comercial, é preciso ter sempre bons actores e nesse caso há a participação (boa) de Samuel Le Bihan, Mark Dacascos, Jérémie Renier, Vincent Cassel e Monica Bellucci, como sempre, a destilar sensualidade para o mundo...
Gostei e recomendo. ●●●○○

É difícil ter acesso às grandes estrelas, sem ser através de um documentário. Este Listen to me Marlon é uma pérola e um privilégio. Com locução do próprio Marlon Brando, com recurso a horas de cassetes gravadas pelo mesmo, é uma oportunidade única para mergulhar no complexo interior da cabeça de um dos melhores actores de sempre. Pioneiro do Método, Marlon é um actor completo e único na história do próprio cinema, mas que também desprezava o próprio trabalho. Para uma pessoa que simplesmente odiava a mentira, representar (que basicamente é mentir propositadamente para uma câmara) foi corroendo-o totalmente por dentro, ao ponto de o levar à reclusão e ao nojo pela própria profissão.
Um génio que se transforma num eremita é basicamente a derradeira definição de... lenda. Que é o que Marlon Brando inegavelmente é.
Apesar de só o "conhecer" muito tarde na carreira (ainda não consegui ver alguns dos seus clássicos mais antigos!), sempre me identifiquei muito com as personagens de Brando. Depois do documentário, identifiquei-me muito mais com o homem. É uma pessoa que está em guerra constante, mas numa busca pela paz. Esta dualidade acaba sempre por fazer mossa, e no caso do super-exposto e super-mediático Marlon foi absolutamente determinante.
De super-estrela a super-odiado, passando pelo regresso no final dos 70's e o auto-exílio, passando pelas grandes turbulências amorosas e tragédias da sua vida pessoal, o afastamento da carreira e as disposições activistas e políticas (até na cerimónia de entrega dos Óscares), tudo é extremamente bem contado e narrado para mostrar como um "simples" actor se transformou numa lenda de Hollywood e do cinema em geral.
Listen to me Marlon é documentário muito bom, muitíssimo bem escrito e enquadrado da autoria de Stevan Riley. Apenas não gostei do tom predominantemente negro, por vezes quase a roçar o documentário de "exploração". Houve ali uma tentaçãozinha de explorar o lado mais escandaloso, mas vá lá, Riley acabou por se conter e fez muitíssimo bem, porque acabou por construir um dos melhores documentários sobre actores que já vi. Absolutamente obrigatório. ●●●●○


Para vingar a morte da irmã, Lee, um exímio lutador, vai ter de se infiltrar numa exclusiva competição de artes marciais patrocinada pelo enigmático e diabólico Han. Na realidade, toda a organização de Han (sediada numa ilha particular muito ao estilo dos vilões do James Bond) é uma fachada para negócios pouco recomendáveis como a produção e tráfico de ópio e a prostituição.
Pode parecer banal, mas a história linear de vingança do Enter the Dragon tornou-se no standard que todos os filmes de porrada dos anos 70 e 80 acabaram por seguir.
(Tenho de me desviar um bocadinho do assunto só para mencionar a qualidade gráfica do cartaz. É simplesmente cool a todos os níveis...)
Aprendi muita coisa com o Enter the Dragon. Fiquei a saber que esta foi a primeira produção de Hollywood de um filme chinês de artes marciais; que o John Saxon (conhecia-o de outros filmes que não eram de porrada) só foi contratado porque era cinturão nego em karaté e finalmente percebi porque o Han (Kien Shih) tinha uma pronúncia tão estranha: na realidade ele não falava inglês, apenas imitava o movimento de lábios e depois teve de ser dobrado... Após muitas visualizações do filme (em miúdo via-o, rebobinava a cassete de VHS e depois via novamente...), até notei que o Jackie Chan aparece em algumas das cenas de porrada.
Outro pormenor que gosto muito é a banda sonora do Lalo Schifrin, que é um gajo que raramente falha. Acompanha perfeitamente todo o filme. Muito boa.
As cenas de acção dirigidas por Robert Clouse não são espectaculares, mas para além de parecem realistas, têm algo de diferente: o Bruce Lee, que é simplesmente uma lenda do cinema. E nota-se porquê: tem aquele carisma natural, tem uma aura de estrela, tem aquela inexplicável atracção e tem uma força na tela que se sente.
Bruce Lee é um daqueles gajos estranhos. É magrito e baixo, mas tem ali um crazy eye qualquer que faz como eu não quisesse pegar-me à porrada com ele. Bruce Lee pertence a uma classe totalmente à parte no cinema. Pertence à classe das grandes estrelas. Das lendas. Dos ícones. Lembro-me de ver um documentário sobre ele e ver as filas intermináveis para assistir à estreia deste filme. Também não será alheio o facto de ele ter morrido umas semanas antes da estreia. Até no pormenor trágico da morte prematura, parece que ele estava destinado ao grande Panteão do Cinema. Foi uma pena. Fui, sou e sempre serei um fã incondicional do Bruce Lee. E fica a pergunta no ar: se não fosse o Bruce Lee e o Enter the Dragon, será que os filmes de artes marciais alguma vez teriam chegado em força ao cinema ocidental? ●●●●○


Senna é um documentário sobre a vida e a carreira do mítico piloto de fórmula 1, Ayrton Senna. Vida e carreira? Haverá forma de separar uma coisa da outra? Vendo o documentário, parece que não. A vida de Senna passou-se quase toda num cockpit, ao volante de um carro de corridas. Tal como ele confidencia, correr era uma experiência mística. A condução acontecia num estado de quase inconsciência, automática, em transe, por um túnel de adrenalina. Era pura condução. Mas não era preciso que ele o dissesse. Quem via a competição de fora, percebia que havia ali algo de especial a acontecer entre aquele piloto, o carro e a pista. Senna, notava-se, mais do que correr para viver, vivia para correr.
O documentário foca toda a vida competitiva das corridas motorizadas, as relações familiares, mas especialmente as amizades e os ódios de estimação em pista (especialmente com outro génio do volante, Alain Prost, também conhecido como "o professor") e que culmina na infelizmente célebre prova em Ímola, no Grande Prémio de San Marino. É tudo tão trágico que parece ter saído de um guião de cinema. A realidade, mais uma vez, ultrapassou a ficção.
Grande parte da carreira de Senna também parece saída de um filme. O primeiro grande prémio foi ganho em Portugal em 1985, ao volante de um Lotus, aquele carro icónico preto e dourado.
As contendas com Prost, o piloto pragmático, foram um extra para quem assistia de fora. Os dois pilotos eram tão antagónicos que só poderia dar choque. Apesar da rivalidade, eles acabaram por correr juntos na McLaren e Senna até foi campeao mundial pela primeira vez com Prost como companheiro de equipa. Já não me lembrava nada disto. Mas o mal-estar entre os dois era bem visível. Lembro-me que na altura, ou se puxava pelo Prost ou pelo Senna. Nao havia meio termo. Verdadeiramente digno de filme é a conquista do seu primeiro Campeonato Mundial. No Grande Prémio do Japão de 1988, Senna começa na pole position mas arranca mal e cai para os últimos lugares. Mas não desiste e vai ganhando lugares e, perto do final da corrida, acaba mesmo por ultrapassar Prost e terminar em primeiro. Épico.
Após a conquista de mais dois campeonatos mundiais e inúmeras vitórias em Grandes Prémios, a carreira de Senna termina abruptamente numa curva rápida de Ímola. É daqueles acontecimentos que de alguma forma têm um significado especial, porque quem o viu nunca mais esquece.
Nessa prova, que parecia estar amaldiçoada pelos deuses das corridas, Rubens Barrichello teve um acidente a grande velocidade, fez o carro voar contra um muro, mas saiu milagrosamente incólume. Um outro jovem piloto, o austríaco Roland Ratzenberger morreu nas provas livres e parecia que estava dado o mote da tragédia. Já durante o Grande Prémio, logo no arranque,  J.J. Lehto não consegue arrancar e é abalroado a grande velocidade pelo português Pedro Lamy tendo como consequência, alguns feridos nas bancadas com os pneus e detritos que voaram da violenta colisão. Depois de reatada a corrida, na sétima volta, Ayrton Senna é traído pela direcção do seu Williams, indo chocar a alta velocidade no muro da (agora) ínfame curva Tamburello. Tanta incidência, tanta tragédia numa só prova é inacreditável.
Lembro-me de inicialmente pensar que não tinha sido assim tão grave. Já tinha visto choques e acidentes piores e aquele parecia ser apenas mais um. Mas minutos depois, percebeu-se que algo de errado se passava. O errado era Senna não voltar mais à pista. O errado era Senna não voltar para junto dos aficionados. O errado era Senna não voltar com vida. O Mundo esteve todo errado naquele momento. Com esse acidente, Ayrton Senna, ainda um jovem piloto (tinha apenas 34 anos) de uma forma repentina e trágica, pagou o preço da imortalidade. Morreu o homem Ayrton e nasceu a lenda Senna.
Sempre gostei do Ayrton Senna - mesmo sem gostar particularmente de Formula 1 -, porque ele era um piloto que levava o carro aos limites: ultrapassava em sítios que diziam ser impossível, saía de pista por cima da relva, cortava chicanes, a cada curva que fazia parecia que se ia despistar e nunca desistia de querer ser melhor do que o que era. Admiro isso. Apenas conheci a persona mediática do piloto, mas parece-me que era uma boa pessoa. Parecia ser um gajo normal. É uma pena ter ido embora tão cedo...
Mesmo para quem não gosta de desportos motorizados - como é o meu caso - este é um documentário a ver com atenção. Pelo lado desportivo da coisa, sem nunca entrar no campo da especulação ou moralista de tentar culpar A ou B pelo acidente, mas essencialmente pelo lado emotivo e humano do piloto. Usando apenas entrevistas e imagens de arquivo, Senna é uma lição de Asif Kapadia sobre como se deve fazer um documentário emotivamente forte. É um documentário muito, muito bom. Para honrar um dos melhores pilotos de sempre, se não mesmo o melhor, só podia mesmo ser assim. ●●●●○

 
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