0154 Cobra
Posted by artzzz333
Posted on 23:59
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Uma das grandes vantagens de ser "crítico amador" é poder ser totalmente imparcial. Para explicar melhor este raciocínio existe... Cobra (o acrescento da tradução portuguesa "O braço forte da lei" ainda dá mais ao brilho ao título). Qualquer "crítico profissional" despreza o Cobra. É "obrigado" a fazê-lo. É um filme que tem todos os clichés possíveis e imaginários, que rouba mais ideias do que inspira e que tem prestações de actores que chegam a ser confrangedoras. Tirando isso, Cobra é um filme excelente.
Para já, faz parte do meu imaginário. Quando era miúdo adorava o Sylvester Stallone (e o Schwarzenegger também [aliás, qualquer gajo que desse porrada nos "maus" e tivesse alguma massa muscular relevante]). Mas especialmente adorava o Cobra e o seu estilo tipo "lobo solitário" justiceiro. Não sendo um feito de que me orgulhe muito, vi este filme até à exaustão. Não conseguia deixar de ver. Tinha algo magnético que não conseguia explicar. Ainda há pouco tempo apanhei-o aí num canal de cabo e não resisti... vi-o outra vez.
Cobra é um filme que está mal rotulado. Teoricamente é um filme de acção em que o protagonista é um detective durão que faz os "trabalhos sujos" que ninguém quer fazer. Mas está errado. Este é um filme de acção em que o protagonista é um super-herói chamado Cobra que por acaso tem como disfarce fazer de detective durão. Ele não se chama Cobra, esse é o "nome de código", tipo Batman. O verdadeiro nome é Marion Cobretti, tipo Bruce Wayne... A diferença é que Cobra não aparece quando vê um sinal luminoso nos céus, mas quando ouve o grito dos inocentes na rua... Vá lá, quem é que usa aqueles óculos à "police", t-shirt preta super-justa e um palito no canto da boca? Só mesmo uma personagem tipo super-herói! O Cobra até tem uma arma personalizada, já para não falar do carrão kitado com nitro e uma matrícula personalizada... "AWSOM50"! O homem vive sozinho no seu covil, perto de pulhas (gosto desta palavra: pulhas) sul-americanos o que é bastante conveniente para mostrar como ele está tão "dentro do sistema" como perto da marginalidade. Brilhante. O homem até corta piza aquecida no microondas com
uma tesoura...
Só havia uma pessoa que podia interpretar correctamente a personagem de Cobra: Sylvester Stallone. Nunca ninguém vai conseguir imitar aqueles trejeitos todos do Stallone. É simplesmente impossível porque Cobra é um gajo que fala pouco. É daqueles gajos que quando abre a boca só diz punch-lines: "You're a disease; and I'm the cure", "You know that's bad for your health? Me!", "This is where the law stops and I start - sucker!", "I don't deal with psychos. I put 'em away.". Tudo isto só tem algum sentido se for sussurrado pelo canto da boca à Stallone. E só Stallone consegue efectivamente fazer isso.
Cobra tem mais elementos do filme de super-herói do que do filme de detective. O mauzão é o mauzão logo à primeira imagem. O vilão é um gajo com tão mau aspecto, que uma pessoa só precisa de ver a cara para perceber. E é verdade. O actor que faz de mau (um excelente Brian Thompson), mais parece uma máscara maléfica que outra coisa. Mete respeito e mete muito medo. Se me cruzasse com ele na rua à noite, mudava de passeio sem pensar uma única vez. Mais gritante ainda é a personagem memorável de Brigitte Nielsen (quando uma pessoa a vê a tentar representar nunca mais se esquece): é a típica Lois Lane, sempre em apuros, sempre a ser salva pelo "super-homem". E o Cobra é de facto um "super-homem"! Luta pela justiça e é imune a socos, navalhadas, explosões e rajadas de balas. Aparentemente não pode ser morto com armas humanas. E é por causa disto tudo que gosto de Cobra: é tão mau que acaba por ser bom.
Mas há mais. Cobra ainda é um filme "inocente". Os transeuntes são "inocentes". Os actores secundários são "inocentes". É inocente até na violência que mostra. Tem uma das mortes mais violentas que já vi no cinema "normal" e mesmo assim a cena é tratada como se nada de anormal se tratasse.
Passando para outro plano completamente diferente. Já ouvi muita gente a dizer: "Ah! Os anos 80! Foi uma época do caraças e mais não sei o quê...". Se alguém quer conhecer melhor o que foram os anos 80 não vejam documentários do National Geografic: vejam o Cobra que é muito mais completo. Tem tudo: os cabelos, as roupas, os tiques, o look, as cores, os néons, a maneira de viver, a tecnologia estranha...
Cobra é um esquema completo do que foram os anos 80. Até no próprio cinema. George P. Cosmatos conseguiu resumir tudo num só filme. Está tudo aqui: a forma como eram filmadas as perseguições, as lutas, o tratamento da cor e do som, a forma de montagem, a construção das personagens, os estereótipos bons e maus, o andamento da narrativa, o culminar da história e até os próprios posters e trailers... Está tudo aqui. Não é de estranhar que Nicolas Winding Refn tenha vindo buscar tanta inspiração para o Drive... (aquele palito não engana ninguém)
Cobra, mais que um grande filme, é um caso de estudo. Como se costuma dizer na crítica profissional: "Imperdível!" "Dois polegares para cima!" ●●●●○
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