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Indiana Jones (Harrison Ford) volta a defrontar os Nazis, mas para além do habitual artefacto mítico que é o centro da aventura, desta vez a questão é bem mais pessoal. O desaparecimento do seu pai, Henry Jones, Sr (Sean Connery) que procurava o Santo Graal para um rico industrial (Julian Glover), desencadeia uma série de acontecimentos, acção e aventuras sem paralelo. Há perseguições para todos os gostos, desde aviões, carros, motas, barcos, a pé e até de comboio. Ah! E também há cavalos e tanques de guerra! É só escolher. Dá-me a impressão que depois do desagrado generalizado com o anterior Temple of Doom, Steven Spielberg e George Lucas tentaram compensar o público com o máximo de diversão possível. E verdade seja dita, conseguiram-no totalmente, pois esta é a maior e a mais completa aventura do Indiana Jones. Só não suplanta o original, porque lá está... é o original.
Logo à partida nota-se uma carga muito mais positiva em torno de todo o filme. A fotografia é mais ampla e mais luminosa também. E depois a história centra-se mais entre o Jones, Pai e filho que é obviamente uma história de reconciliação, tema omnipresente no cinema de Spielberg. Antes mesmo de entrar na narrativa e nesta história de busca pela vida eterna que o Santo Graal pode proporcionar, há até um pequeno bónus para mostrar como um jovem intrépido se irá transformar no Indiana Jones (um saudoso River Phoenix) que todos conhecemos. Com isso ficamos a saber mais alguns segredos de como Jones se tornou Indiana Jones e assim fortalece e dá mais "chão" a umas das melhores personagens ficcionais de todo o cinema. The Last Crusade é uma saca cheia de prendas para os fãs. Têm-se acesso à história, aos questões pessoais, à família e vai até ao pormenor de dar a conhecer o porquê do "apelido" Indiana. Se Raiders of The Lost Ark, criou a figura e o mito Indiana Jones, The Last Crusade cristalizou-o na mente do público e fez-lhe um pequeno pedestal. Acho que se pode dizer que foram claramente estes dois filmes que realmente criaram o "universo" Indiana Jones e que os outros dois filmes são apenas interlúdios e pequenas aventuras secundárias...
Steven Spielberg quase que dá a mão à palmatória e presenteia toda a gente com o máximo de trabalho e truques possível. Dificilmente um filme de acção e aventura pode ser melhor que este. Não parece, mas este ainda um produto dos anos 80. Hoje em dia, num qualquer cinema, dificilmente alguém conseguiria identificar o ano de produção deste filme porque na realidade (como aconteceu tantas outras vezes com o cinema de SpielbergThe Last Crusade é um filme "moderno"... parece que estreou a semana passada.
Para além da presença de Alison Doody no papel de belísima mas dúbia agente secundária, ainda temos o regresso de algum do casting original (Denholm Elliott, John Rhys-Davies) que para além de lhe dar uma credibilidade ainda traz uma carga light e quase cómica. Foi uma excelente escolha e muito bem pensado. Não há praticamente nada a apontar como negativo neste filme. A par do primeiro filme, The Last Crusade é o meu preferido nesta saga Indiana Jones. Um remate perfeito para uma trilogia (quase) perfeita. ●●●●●

Mason Storm é um detective durão que investiga a ligação entre a máfia, a polícia e políticos corruptos. Para o afastarem da investigação, os mauzões matam-lhe a família toda e, para todos os efeitos, ele também é morto. Mas o que os mauzões não sabem é que Storm não morre assim com tanta facilidade. Não é por levar com dois tiros de caçadeira à queima-roupa que ele se vai abaixo. Storm fica em coma durante uns sete anos e depois de fugir do hospital, vai fazer uma cura asiática milagrosa e sai em busca de vingança... Dito assim, parece estúpido. E em parte, até é um bocadinho. Mas na realidade, esta é a mesma história do Kill Bill... Dá que pensar, não é verdade? A (grande) diferença está na forma como se mostram e se contam as histórias. Bruce Malmuth, por exemplo, é um realizador de TV e pouco mais. Obviamente que isso faz toda a diferença. Não vai inventar nada de novo. Seguiu os trâmites normais dos filmes de acção dos anos 80 e pronto. Introdução, porrada, tiros, um pouco de história, muita porrada, cena de perseguição automóvel, mais um pouco de história, tiros, cena final de porrada e vingança épica consumada, The end.
Desde que me lembro, Steven Seagal faz sempre o mesmo papel em todos os filmes. Deve ser caso único no cinema. Só por isso merece toda a minha admiração. A isto é que se chama consistência. No início da carreira, era grande fã do Seagal. Aqueles movimentos de artes marciais que só ele tinha, as deixas típicas do herói... Apesar de ter aparecido mais tarde que os restantes (só dos anos 90 para a frente), Steven Seagal é um verdadeiro herói de acção e está ao mesmo nível que os míticos heróis da porrada dos anos 80. Claro que ao fim de 7 ou 8 filmes todos iguais, sempre com a mesma personagem, e sempre com a mesma aparência, a coisa começou a cansar-me. Já chegava...
No casting, entre outros, pode-se ver em acção a Kelly LeBrock, "a mulher de vermelho" (se é que alguém ainda se lembra da referência...) que na altura era casada com o Steven Seagal. Também se pode ver o William Sadler, um excelente actor que fazia quase sempre de mau e Frederick Coffin, um outro excelente actor que fazia quase sempre de bom.
Não sei porquê, mas gosto de alguns destes filmes "maus". Há qualquer coisa neles que me fascina. E é preciso entender que estes filmes são assim fraquitos, mas há condicionantes por trás. Os filmes tinham de ser condensados nos 90 minutos habituais da altura. Ninguém via filmes mais compridos em termos de duração, isso era para os filmes intelectuais... O resto simplesmente tinha de sair fora. Na melhor das hipóteses ficava para o trailer, e por isso é que nos anos 90, muitas cenas que se viam nos trailers depois não apareciam nos filmes... Tempos estranhos... Na pior das hipóteses era cortado e se a história ficasse com falhas no argumento... who cares? O importante eram as cenas de porrada e acção. Alguém queria lá saber da história para alguma coisa...
Hard to Kill é mais um filmito de acção e porrada entre muitos outros da altura, mas que eu gosto por qualquer motivo estranho. É nitidamente mais um caso de puro saudosismo... (2)

E agora, algo totalmente diferente. Guernica é uma curta-metragem de Emir Kusturica, baseada num conto de Antonije Iskovic. Foi a sua prova de licenciatura na Academia de Artes Interpretativas e com ela recebeu o primeiro prémio no Festival de Cinema checo Karlovy Vary.
Um miúdo contempla pela primeira vez a Guernica de Picasso e pergunta ao pai o que é ser judeu. A resposta evasiva é que a diferença visível está nos narizes grandes.
Visto pela perspectiva inocente de um miúdo, a solução passa por recortar todos os narizes das fotos de família como forma de contornar a perseguição, criando assim a sua própria (e ainda mais distorcida) Guernica. Muito bem pensado e muito bem feito. ●●●○○

Se o primeiro Kingsman (The Secret Service) era "comestível", o segundo é, como de costume, pior. Kingsman: The Golden Circle é a confirmação do padrão: um filmito (o primeiro) mais ou menos engraçado, bem escrito e com algum nexo, que depois do sucesso de bilheteira, leva com a inevitável sequela e é literalmente afogado em patetices, explosões, perseguições e porrada. As cenas de acção são o melhor do filme, mas acabam por se tornarem repetitivas e entediantes porque são imensas!!! Um gajo para ir à casa de banho, tem de se envolver numa luta! Um gajo vai ao frigorífico buscar um iogurte... tem de haver uma perseguição com pelo menos duas lutas. É a demência total em cinema. Parece até que os actores se sentem constrangidos em participar. O Colin Firth, por exemplo, parece estar no filme contrariado, como se estivesse ali apenas a cumprir um contrato de trabalho e a pensar como não pagar tantos impostos... Channing Tatum, Halle Berry, só aparecem para ser chamariz de cartaz... Elton John entra apenas para ser ridicularizado... Uma panóplia de bons actores (Mark Strong, Taron Egerton, Julianne Moore, Michael Gambon, Jeff Bridges, Pedro Pascal) desperdiçados num guião vazio e num filme que... Oh! Não vale a pena. Nem sequer vou perder mais tempo a escrever sobre isto... É estúpido o que fazem com (est)as sequelas e, pior que tudo, é entediante. ●○○○○

Ouvi alguns zunzuns sobre um filme chamado Baby Driver e fiquei naturalmente curioso. Isto acontece-me muitas vezes e como tem (quase) sempre com o mesmo resultado, já ia de "pé atrás" para não me desiludir. Nesse aspecto, não desiludiu... já sabia ao que ia. É um filme de hype. É aquela cena do momento. Como é que se diz agora? É uma cena viral. Toda a gente fala, toda a gente gosta, é a melhor cena do mundo... e passado uma semana, já ninguém se lembra do que era... É o Baby Driver...
Depois de perder parcialmente a audição num acidente de viação em que também perde os pais, um miúdo torna-se (ironicamente) num às do volante - muito útil nas cenas de fuga, enquanto trabalha para um meticuloso chefe criminoso que se dedica a assaltos elaborados -, desde que tenha sempre o, phones nos ouvidos em alta rotação para não interferir com um zumbido proveniente do acidente ou lá o que era. Não interessa. Tem é que ter os phones sempre a "bumbar".
É um bom pretexto para ter sempre música a rolar durante todo o filme. Adoro música e por isso não tenho problema nenhum com isso. Mas é assim: a banda sonora não é a melhor (pelo menos para mim), e até é um filme que tem bons pormenores, mas achei um exagero estar sempre a dar na música. Nunca pára. Nunca, nunca, nunca. Faz sentido, quando enquadrado na história, mas mesmo assim é um exagero. Chega a ser maçador. E, por vezes, até irritante. Aqui, para além da música, o som é tudo. Até os tiros das metralhadores, das pistolas e do chiar dos pneus estão sincronizados com a música. É um bocadinho de mais para mim...
Mas o que mais estranhei foi mesmo o facto de um filme que tem como base um grande condutor de carros, ter muito poucas perseguições e, segundo os padrões actuais, até são perseguições algo banais. É um filme totalmente desequilibrado. Até no próprio casting: Ansel Elgort, como figura principal com poucas deixas, tem pouquíssima "presença"; Jon Bernthal, Jon Hamm, Eiza González e Lily James, parecem saídos de uma série de TV; e escondido lá para segundo plano nas promoções, a última oportunidade para ver no ecrã um actor "banido" (Kevin Spacey)... Safa-se o Jamie Foxx, que está cada vez melhor.
Baby Driver tinha potencial para muito mais, mas ficou-se pela expectativa e pelo mais óbvio. É um filme bom para fazer um trailer porreiro, mas pouco mais que isso. ●○○○○

Dark Angel é mais pérola dos anos 80. Vê-se logo pelo cartaz. É impagável! Apesar de ter estreado em 1990, continua com a mesma lógica de filme de acção e porrada, meio nonsense e cheio de maus actores. Os duplos tinham trabalho com fartura e o CD era uma inovação tecnológica avançadíssima e estava na berra.
Dolph Lundgren, um dos grandes bons/maus actores de acção faz o papel de um detetive durão (em parceria forçada [como também era normal] com Brian Benben) que tem de enfrentar um extraterrestre (!?) que vem à Terra com a intenção de obter uma droga tão rara que só se encontra nos seres humanos. O que começa por ser uma investigação sobre homicídios rapidamente se transforma numa caça ao extraterrestre, repleta de explosões, perseguições automóveis, muita porrada e "bocas" com piadas secas... É... É um filme de acção dos anos 80/90... Tudo era permitido, tudo podia acontecer... e acontecia mesmo. Por isso é que estes filmes eram sempre fixes, mesmo sendo maus.
Dark Angel é o título original que sempre conheci, que mais tarde foi "renomeado" para "I Come in peace" para não entrar em conflito com mais uns filmes que também têm o mesmo nome. Diga-se de passagem que "I Come in peace" é provavelmente o título mais horrível que já vi darem a um filme.
Apesar de todas as atrocidades cinematográficas normais nestes filmes dos 80's e 90's, a história de base até nem é má, como é costume. A falta de recursos financeiros normalmente obrigava a que se esmerassem um bocado mais na história. É pena que se esquecessem de tudo o resto... Podia-se facilmente limar umas arestas num remake e ficar com um bom filmito. Só o trailer diz tudo... ●○○○○

Um carteirista americano a residir em França mete-se involuntariamente numa cena de terrorismo, o que leva ao envolvimento de um implacável agente da CIA.
Apesar de não ser um filme memorável, Bastille Day, de James Watkins é um filmito de acção e porrada aceitável.
Como é uma produção europeia, tem aquelas cenas de acção e perseguições pouco polidas e menos exageradas que o habitual (logo, mais realistas) e por isso não chateia.
Tem um casting jeitoso com Richard Madden, Charlotte Le Bon, Kelly Reilly e José Garcia, bem liderado pelo cada vez mais carismático Idris Elba. Se nada de estranho acontecer, Idris Elba tem tudo para ser um dos actores mais requisitados dos próximos anos. É um excelente actor e tem um perfil que lhe permite encaixar tanto num filme dramático como no mais banal filme de acção.
Bastille Day vê-se, mas esquece-se facilmente. ●○○○○

Deadfall é um thriller que conta a história de dois irmãos, Addison (Eric Bana) e Lisa (Olivia Wilde) que depois de terem um acidente de carro após um assalto a um casino, decidem que é melhor fugir, seguindo caminhos separados até passarem a fronteira. No final, depois de muitas atribulações, acabam por se juntar num estranho Jantar de Acção de Graças com a família de um pugilista (Charlie Hunnam), também ele fugido da polícia.
Apesar da minha sinopse ser muita confusa, Deadfall até está muito bem escrito. Tudo encaixa perfeitamente. Aliás, o filme é bom, mas falta-lhe qualquer "coisa" que não sei muito bem o que é, para ser muito bom. A história é boa, complexa e bem escrita, tem drama sem ser forçado, a realização é boa (Stefan Ruzowitzky), todos os actores são bons (Kris Kristofferson, Sissy Spacek, Kate Mara, Treat Williams) mas falta-lhe "algo"...
Deadfall fez-me lembrar aquelas alturas em que uma pessoa vai a um restaurante, come uma refeição muito bem confeccionada - como estava à espera -, mas que lhe falta sal... Ou não há sobremesa... Neste caso, não sei bem o que lhe falta, mas vê-se bem. ●●○○○


Neste planeta apenas uma pessoa poderia derrotar o John Rambo; essa pessoa seria John Matrix, a estrela de Commando. Bem, a estrela de Commando é o Terminator..., perdão, Arnold Schwarzenegger, mas é quase a mesma coisa. E está tudo dito. Commando, de Mark L. Lester é o protótipo do filme de acção dos anos 80. Durão, másculo, cheio de armas de todas as formas e feitios, socos, joelhadas e porradas variadas, perseguições inusitadas, violência gratuita, cheio de explosões de gasolina (para dar aquela espectacular "bola de fogo"), duplos que voam e/ou caem de grandes alturas e figurantes repetidos em várias cenas, que só apontam mas nunca falam. Não esquecer a cena obrigatória em que o herói se prepara para a luta final com close-ups das pinturas de guerra e o carregamento de toda a artilharia pesada. Menção também para as típicas "bocas" sarcásticas, tipo: depois de matar um gajo num avião, Matrix avisa a hospedeira para não incomodar o homem porque ele está "morto de cansaço".
Foi este tipo de filmes que construiu a reputação dos grandes heróis de acção dos anos 80. E ainda chegam aos dias de hoje. Aliás, o modelo de filme continua a ser copiado por ser tão simples: raptam alguém da família do herói, normalmente uma filha adolescente (que tem um ar mais indefeso) e o herói persegue os malfeitores, acabando por matá-los a todos, culminando na luta final com o "boss". Também há a variante do herói que foge com a filha adolescente e é perseguido por uma horda de malfeitores, o que invariavelmente acaba na mesma situação anterior. É só o movimento do herói que muda, mas isso não interessa para nada.
Commando é um dos "grandes" filmes de acção dos anos 80. Tinha tudo o que um gajo queria ver quando tinha para aí uns 15 anos de idade: acção contínua, perseguições com carros, porrada da grossa, tiros a todo o minuto, explosões enormes e ainda por cima tinha o Arnold Schwarzenegger que estava no topo de forma. O homem estava com um "cabedal" que até parecia um super-herói. Tinha músculos em todo o lado e conseguia disparar todas as armas existentes no mercado só com uma mão. O resto do elenco tem algum pessoal que é repetente como secundário de outros heróis de acção (David Patrick Kelly, Bill Duke, Vernon Wells, Dan Hedaya) e as "miudas" obrigatórias (Alyssa Milano, Rae Dawn Chong).
Claro que também tenho de mencionar a música. Excelente, ou não fosse música feita nos loucos anos 80. Típico e obrigatório. ●●●○○

A primeira coisa que aparece em Apocalypto é uma frase que diz: "A great civilization is not conquered from without until it has destroyed itself from within", Will Durant
Com base em tudo o que lá li sobre História, parece-me que não podia ser mais verdadeira. Sempre me intrigou a queda dos grandes impérios. Como é possível que os Maias, os Romanos, os Babilónios e outros grandes impérios tenham dominado o seu mundo mas no final tenham sucumbido e praticamente desaparecido da face de Terra? Neste aspecto, e sem ser uma obra filosófica (muito pelo contrário), Apocalypto responde a algumas questões.
No período final da civilização Maia, uma tribo indígena vive os seus dias pacificamente, aproveitando o que a Natureza tem para lhes oferecer. Até ao dia em que são brutalmente atacados, mortos ou levados à força por guerreiros de outro sítio que desconhecem. Arrastados pela floresta densa até uma povoação gigante, mais "citadina", repleta de templos e grandes pirâmides, as mulheres acabam vendidas como escravas e os homens são sacrificados vivos aos deuses Maias. Tudo isto tem uma "razão" de ser: os sacrifícios servem para apaziguar o descontentamento dos deuses que exigem sangue. Na realidade, é mais o descontrolo humano e ambiental, secundado por uma ignorância profunda e por uma necessidade de controlo social.
Entre eles está Jaguar Paw, um jovem que milagrosamente consegue fugir graças a um eclipse solar. Mas a fuga é apenas o primeiro passo. Agora ele tem de regressar à sua vila para salvar a mulher grávida e o filho que escondeu dos guerreiros num buraco profundo. E começa uma perseguição sem descanso pela floresta...
Mais do que dar grandes respostas filosóficas sobre como terminam os impérios, Apocalypto é um filme de acção, que tem como pano de fundo o fim de uma civilização. Até acaba por responder a essas questões, mas acima de tudo é um grande filme de acção. Assim que começa, nunca mais abranda. É rápido, visceral e incrivelmente realista. Excepcionalmente bem dirigido pelo Mel Gibson (mais uma vez), que aqui parece juntar todo o conhecimento técnico, visual e argumentativo de Braveheart e Passion of Christ, muito bem escrito, bem montado, com boa fotografia e grandes prestações de actores amadores/desconhecidos (Rudy Youngblood, Jonathan Brewer e especialmente Raoul Trujillo). Sinceramente, até fiquei na dúvida. Pensei mesmo que eram actores profissionais com próteses ou algo assim do género. Mas não. Provavelmente, é mesmo o melhor filme que já vi com actores totalmente desconhecidos ou amadores. Muito bom. A ver com atenção. ●●●●○


O detective Frank Bullit tem uma missão simples para cumprir: proteger uma testemunha importante e levá-la em segurança até ao julgamento. Mas pouco depois de assumir a missão, a sua testemunha está morta, não deixando mais nada para Bullit fazer a não ser descobrir e perseguir os responsáveis.
A história é bem mais complexa que estas três linhas, mas já tanto foi escrito sobre Bullit que não vale a pena alongar-me mais.
Bullit é um thriller de acção que faz parte da própria história do cinema. E é assim por várias razões. Não é por ser um filme de acção explosivo; visto pela primeira vez nos dias de hoje é provavelmente considerado como um filme parado. Também não é por ser um thriller que nos deixa constantemente na expectativa do que vai acontecer a seguir, ou porque é muito realista e mostra com exactidão todos os procedimentos clínicos ou processuais da polícia; hoje em dia isso é levado à exaustão. É uma peça histórica pela novidade (na altura da estreia - 1968), pela qualidade séria da realização de Peter Yates, pela música tensa de Lalo Schifrin, pela montagem frenética da acção (levou um Óscar), mas também pela "fibra" diferente dos actores: Robert Vaughn, Jacqueline Bisset, Robert Duvall fazem parte de outro nível. Mas o destaque óbvio vai para um dos monstros sagrados do cinema: Steve McQueen, um dos meus actores preferidos de todos os tempos, que provavelmente, é mesmo o melhor de todos. Não porque fosse melhor actor que os outros, mas pela força de presença no ecrã. É difícil de explicar, mas também é difícil de deixar de olhar. Steve McQueen não precisa de diálogos, basta aparecer, olhar para câmara e deixar transparecer carisma. Há ali qualquer coisa de inexplicável. Há ali qualquer coisa de... Steve McQueen. Não é por nada que lhe chamavam Mr. Cool. Steve McQueen, parece ele próprio, uma personagem cool de um qualquer grande filme. Em parte, ele é ambíguo como a própria personagem: há os maus polícias e os bons polícias, mas depois há Bullit...
E depois há aquela épica perseguição de carro pelas ruas de São Francisco. É tão excelente e tão icónica que passou para a cultura geral. Toda a gente a conhece, mesmo que nunca tenha visto o filme. Já foi copiada tantas e tantas vezes, mas nunca igualada.
Bullit não é um filme só para ver; é um filme para guardar e depois ver outra vez. ●●●●●



Apanhei esta no IMDB: "Henry renasce da condição de morto, sem memória e imediatamente tem de salvar a mulher de um senhor da guerra com poderes telequinéticos (ou serão psicocinéticos?) e um plano maléfico de modificação genética de soldados". Parece um enredo de um jogo de computador? É porque é mesmo. Aliás, todo o filme é um enorme jogo de computador em live action. Por isso é que lá para os 35 minutos começou-me a maçar um bocado. Já cheguei ao fim do filme com um pouco de dores de cabeça, admito. Hardcore Henry é uma cena de acção com 96 minutos! Não há mais para dizer a não ser: visualmente explosivo... Filme de Ilya Naishuller, com Sharlto Copley e tem também o Tim Roth, muito de longe a longe. Leva uma bolinha só pelo aspecto técnico da coisa... ●○○○○

... Mad Max: Fury Road. A palavra restart faz todo o sentido. Um dos primeiros filmes que vi foi precisamente Mad Max. E também um dos primeiros que comentei aqui no blog. Dizia eu desse primeiro filme: "Conhecendo a indústria do cinema e face à cada vez maior dificuldade em produzir novos argumentos, de certeza que estará para breve mais uma sequela...". Bem, em parte, enganei-me. Fury Road não é bem uma sequela. É mais um restart. Quer dizer, não sei muito bem o que é. Parece que é uma espécie de sequela (com outros actores) para quem viu os filmes originais, e uma espécie de restart da franchise para conquistar os novos fãs.
Tenho uma ligação bastante pessoal a estes filmes. Por isso, quando vi este novo filme, fiquei imensamente desapontado. Quase não o conseguir ver até ao fim. Era demasiada pirotecnia para aguentar e muito pouco Mad Max. Queria ir à casa de banho e não conseguia porque a acção decorria sem parar. É um exagero visual e já agora um exagero total. Confirmei isso mais tarde, numa entrevista do George Miller em que ele diz que toda a acção do filme já estava delineada, mesmo antes de haver guião. Isto, porque o filme foi pensado como uma perseguição contínua e sem paragens. E é isso exactamente que o filme é: uma enorme e imparável perseguição. O meu problema com Fury Road é que é "apenas" isso. Não tem mais nada. Um dos pontos mais negativos do filme é o próprio Max. Obviamente que prefiro o Mad Max do Mel Gibson ao do Tom Hardy. Não pelo Tom Hardy em si (que é um dos gajos que mais curto na actualidade), mas porque não é o Mel Gibson. Num restart deste género até acho que fizeram bem em trocar o actor principal, porque o Mel Gibson já está um bocado acabado fisicamente. Mas já não concordo com a quase passagem para segundo plano da personagem principal. Afinal quem é que dá o nome ao filme: o Mad Max ou a (Charlize Theron) Furiosa?
O que salva o filme é precisamente o que tem: a realização das perseguições é excepcional, o som é excelente, a fotografia também e a montagem das cenas é ainda melhor. Isto tudo embrulhado no melhor design de produção dos últimos tempos, dá um excelente filme de acção. Tecnicamente, Mad Max: Fury Road, não tem nada de mal.
O que me deixa chateado neste filme é mais uma questão pessoal do que técnica ou crítica. É o facto de mostar que estou a ficar velho. Os meus filmes de miúdo, os meus filmes e os meus actores de referência, já chegaram ao ponto de precisarem de um restart. Muitos dos filmes que vi já são tão velhos que é preciso fazer novas versões. I'm too old for this shit... ●●●○○


Uma das grandes vantagens de ser "crítico amador" é poder ser totalmente imparcial.  Para explicar melhor este raciocínio existe... Cobra (o acrescento da tradução portuguesa "O braço forte da lei" ainda dá mais ao brilho ao título). Qualquer "crítico profissional" despreza o Cobra. É "obrigado" a fazê-lo. É um filme que tem todos os clichés possíveis e imaginários, que rouba mais ideias do que inspira e que tem prestações de actores que chegam a ser confrangedoras. Tirando isso, Cobra é um filme excelente.
Para já, faz parte do meu imaginário. Quando era miúdo adorava o Sylvester Stallone (e o Schwarzenegger também [aliás, qualquer gajo que desse porrada nos "maus" e tivesse alguma massa muscular relevante]). Mas especialmente adorava o Cobra e o seu estilo tipo "lobo solitário" justiceiro. Não sendo um feito de que me orgulhe muito, vi este filme até à exaustão. Não conseguia deixar de ver. Tinha algo magnético que não conseguia explicar. Ainda há pouco tempo apanhei-o aí num canal de cabo e não resisti... vi-o outra vez.
Cobra é um filme que está mal rotulado. Teoricamente é um filme de acção em que o protagonista é um detective durão que faz os "trabalhos sujos" que ninguém quer fazer. Mas está errado. Este é um filme de acção em que o protagonista é um super-herói chamado Cobra que por acaso tem como disfarce fazer de detective durão. Ele não se chama Cobra, esse é o "nome de código", tipo Batman. O verdadeiro nome é Marion Cobretti, tipo Bruce Wayne... A diferença é que Cobra não aparece quando vê um sinal luminoso nos céus, mas quando ouve o grito dos inocentes na rua... Vá lá, quem é que usa aqueles óculos à "police", t-shirt preta super-justa e um palito no canto da boca? Só mesmo uma personagem tipo super-herói! O Cobra até tem uma arma personalizada, já para não falar do carrão kitado com nitro e uma matrícula personalizada... "AWSOM50"! O homem vive sozinho no seu covil, perto de pulhas (gosto desta palavra: pulhas) sul-americanos o que é bastante conveniente para mostrar como ele está tão "dentro do sistema" como perto da marginalidade. Brilhante. O homem até corta piza aquecida no microondas com
uma tesoura...
Só havia uma pessoa que podia interpretar correctamente a personagem de CobraSylvester Stallone. Nunca ninguém vai conseguir imitar aqueles trejeitos todos do Stallone. É simplesmente impossível porque Cobra é um gajo que fala pouco. É daqueles gajos que quando abre a boca só diz punch-lines: "You're a disease; and I'm the cure", "You know that's bad for your health? Me!", "This is where the law stops and I start - sucker!", "I don't deal with psychos. I put 'em away.". Tudo isto só tem algum sentido se for sussurrado pelo canto da boca à Stallone. E só Stallone consegue efectivamente fazer isso.
Cobra tem mais elementos do filme de super-herói do que do filme de detective. O mauzão é o mauzão logo à primeira imagem. O vilão é um gajo com tão mau aspecto, que uma pessoa só precisa de ver a cara para perceber. E é verdade. O actor que faz de mau (um excelente Brian Thompson), mais parece uma máscara maléfica que outra coisa. Mete respeito e mete muito medo. Se me cruzasse com ele na rua à noite, mudava de passeio sem pensar uma única vez. Mais gritante ainda é a personagem memorável de Brigitte Nielsen (quando uma pessoa a vê a tentar representar nunca mais se esquece): é a típica Lois Lane, sempre em apuros, sempre a ser salva pelo "super-homem". E o Cobra é de facto um "super-homem"! Luta pela justiça e é imune a socos, navalhadas, explosões e rajadas de balas. Aparentemente não pode ser morto com armas humanas. E é por causa disto tudo que gosto de Cobra: é tão mau que acaba por ser bom.
Mas há mais. Cobra ainda é um filme "inocente". Os transeuntes são "inocentes". Os actores secundários são "inocentes".  É inocente até na violência que mostra. Tem uma das mortes mais violentas que já vi no cinema "normal" e mesmo assim a cena é tratada como se nada de anormal se tratasse.
Passando para outro plano completamente diferente. Já ouvi muita gente a dizer: "Ah! Os anos 80! Foi uma época do caraças e mais não sei o quê...". Se alguém quer conhecer melhor o que foram os anos 80 não vejam documentários do National Geografic: vejam o Cobra que é muito mais completo. Tem tudo: os cabelos, as roupas, os tiques, o look, as cores, os néons, a maneira de viver, a tecnologia estranha...
Cobra é um esquema completo do que foram os anos 80. Até no próprio cinema. George P. Cosmatos conseguiu resumir tudo num só filme. Está tudo aqui: a forma como eram filmadas as perseguições, as lutas, o tratamento da cor e do som, a forma de montagem, a construção das personagens, os estereótipos bons e maus, o andamento da narrativa, o culminar da história e até os próprios posters e trailers... Está tudo aqui. Não é de estranhar que Nicolas Winding Refn tenha vindo buscar tanta inspiração para o Drive... (aquele palito não engana ninguém)
Cobra, mais que um grande filme, é um caso de estudo. Como se costuma dizer na crítica profissional: "Imperdível!" "Dois polegares para cima!" ●●●●○

Wara no tate é um filme japonês, traduzido como Shield of Straw, algo como Escudo de Palha. É um título estranho, mas que bate certo com a história do filme.
Kyomaru, um perverso psicopata mata uma menina de 7 anos e acaba preso. Acontece que essa miúda era neta do homem mais rico do Japão, que imediatamente compra espaços publicitários em todos os jornais do país para ofererer biliões pela cabeça morta de Kyomaru. A proposta é ilegal mas simples: quem matar Kyomaru recebe a recompensa. Está assim aberta a época de caça.
Entre ele e os caçadores de recompensas que pode muito bem ser qualquer pessoa, estão cinco polícias que têm a dura e quase impossível missão de levar Kyomaru até uma esquadra do outro lado da cidade.
Tudo o que é bom no filme, está condensando nesta ideia. O resto desiludiu-me.
Se o filme é melhor do que parece é porque tem um tom engraçado e estranho, mais próximo da áurea esquisita e histérica do anime que outra coisa. Mas provalmente é mesmo só porque o casting é oriental. Nesse aspecto, tenho imensa dificuldade em comentar o que quer que seja. Vejo muito poucos filmes orientais e raramente consigo decorar os nomes dos actores. Já para não falar que também não consigo associar os nomes às caras. Os únicos que reconheci neste filme foram a Nanako Matsushima que já apareceu no filme de culto Ringu, também conhecido como The Ring na versão americana e Tatsuya Fujiwara do clássico Battle Royale. Quanto ao resto do "pessoal" acho que já vi alguns deles noutros filmes, mas sinceramente não os consigo identificar. Na parte da representação propriamente dita, nunca há nada a apontar a actores orientais. Parecem sempre empenhados a 101%... 
Shield of Straw tem um boa história por base, mas acaba maltratada. E nem sequer é algo totalmente novo. Lembro-me do velhinho The Gauntlet de 1977, de e com Clint Eastwood. (E, sim, Eastwood já realiza filmes há muitos, muitos anos)
Wara no tate é um filme sobre frieza, vingança, honra e sobre o cumprimento do dever acima de tudo. Algo tipicamente japonês. Mas é mais um chavão para ter nos cartazes do que uma parte da história...
Vi o filme porque tinha como realizador Takashi Miike. E de Miike, lembro-me vagamente de ver Full Metal Yakuza, mas lembro-me muito bem de Audition e de Ichi the Killer, numa daquelas maratonas de filmes orientais do Fantasporto. Para quem não conhece, estes são filmes que fazem revirar as entranhas, engolir em seco e desviar o olhar... Nesse aspecto, este filme surpreendeu bastante: é demasiadamente brando com o espectador. ●●○○○

Tenho de admitir. Speed Racer é melhor do que pensava e muito melhor do que parece no trailer. Não chega aos calcanhares de outros Wachowski, mas até é aceitável.
A história é das típicas... Há uns bons que "têm" de ganhar uma corrida (por um motivo heróico e questões de honra) mas os maus não vão deixar que isso aconteça. É como é típico, os bons acabam por ganhar no fim... O elenco é estranho, mas tem pessoal bom. O papel principal foi deixado ao desconhecido (pelo menos para mim) Emile Hirsch, mas não se nota que está pouco à vontade no papel porque tem "ao lado", uma Christina Ricci a mostrar que uma coisa é a vida pessoal do actor e outra coisa é o trabalho do actor, John Goodman, um gajo que gosto sempre de ver, desde os tempos de Raising Arizona, mas espeialmente uma "senhora" chamada Susan Sarandon, que não me lembro de alguma vez ter uma má prestação. E também por lá aparece o Matthew Fox, porque na altura havia muitos fãs do Lost...
Ao princípio estranhei bastante este Speed Racer. Principalmente porque já vinha muito mal sugestionado por um daqueles trailers que só dão dores de cabeça. E estive quase a desistir quando apareceu o macaco. Não conseguia superar aquela personagem. Em vez de ver o filme, só pensava: porquê? Porquê o macaco? Qual o significado do macaco? Quem é que tem como animal de estimação, um macaco? O macaco não me saía da cabeça. Depois, pela maneira como o filme se desenrolava percebi que aquilo só podia ser anime. Mal terminou o filme fui pesquisar e vi que era de facto inspirado num anime/manga. Foi um alívio... Pensei que o macaco era... Bem, acho que já chega de falar no macaco...
Speed Racer é aceitável, mas é uma quimera. É uma combinação exótica de colossais efeitos digitais dos estúdios de Hollywood, misturado com momentos e cenas de cores carregadas, típicas de Tim Burton vintage, embrulhadas naquela estranhice muito fixe dos animes/mangas. E até ainda tem algumas poeiras de Matrix... Tudo a reluzir sob o efeito de néons psicadélicos.
Para mim, se o filme perde é essencialmente por ser tão absurdo e tão absolutamente hiper-exagerado. Pode ser um reflexo da tentativa de fazer um anime com actores reais, mas também pode ser exagero dos efeitos especiais ou da mente hiperbólica dos irmãos Wachowski. Menos é mais, é daqueles chavões que encaixam perfeitamente bem com Speed Racer. Estranhamente, sinto que com o passar do tempo, acho que é um filme que vai melhorar do lado da crítica. ●●○○○


O polícia Sean Archer (John Travolta) e o criminoso Castor Troy (Nicolas Cage) são inimigos mortais e depois de uma perseguição, Castor acaba em coma. Apenas Pollux (Alessandro Nivola), irmão de Castor sabe a localização de uma bomba química que pode destruir a cidade de Los Angeles. A única solução é recorrer à ficção científica e trocar de cara (!?) para conseguir extrair informações. Assim, Travolta (o bom) troca de lugar com Cage (o mau). As coisas complicam-se quando Troy desperta do coma e assume o lugar de Archer na sua própria vida. É esta troca de lugares que torna Face Off muito interessante.
Os actores principais têm "química" e foram muito bem escolhidos, pois ambos têm imenso "crazy eye". São perfeitos para este tipo de filme. Até John Travolta está bem, o que é uma raridade. E também parece que se divertiram imenso a insultar-se e a gozar com os maneirismos típicos de cada um. Isto forma um veículo perfeito para as cenas de acção cuidadosamente coreografadas, quase como se fossem cenas de um bailado moderno.
Face Off tem tudo para ser uma chachada de acção, perseguições, explosões e porrada, mas de alguma forma, John Woo consegue exagerar de tal forma as coisas que ficam sempre cool. De certa forma até lembra um bocado aquele estilo tipo James Bond. Com tudo o que tem de moralmente discutível, Woo é um dos poucos realizadores que consegue realmente estilizar a violência. Ele e Tarantino, que deve ter visto toneladas de filmes de John Woo. Não é de estranhar que Tarantino tenha ido parar a Reservoir Dogs ou Kill Bill... Mas isso é outra história.
Talvez por causa dessa atenção à estética, Face Off é um grande filme de acção, que sai completamente fora dos parâmetros normais, mesmo tendo por base uma história totalmente disparatada. Mas aqui o importante nem é a história, mas sim o desenrolar da acção. E aí, Woo acertou em cheio.
Quem já viu alguns filmes de John Woo apercebe-se que há particularidades estéticas que são uma autêntica imagem de marca: o uso (exagerado) da câmara lenta; o estilo "mexican standoff", que normalmente envolve dois ou mais protagonistas a apontar armas directamente à cabeça uns dos outros, algo que parece tão Tarantino mas que é na realidade muito Woo; o uso recorrente das pombas brancas (em câmara lenta, claro) antes duma grande cena de acção ou tiroteio; também é normal as personagens usarem sempre duas armas em punho e não conseguirem evitar disparar em vôo.
Mas o mais importante em Face Off até nem são os actores, a história e nem sequer as fantásticas cenas de acção verdadeiras, "à moda antiga", com duplos a sério (às vezes penso se muitos destes duplos não ficam gravemente feridos a fazer algumas cenas). O mais importante neste filme é o contexto.
Face Off foi um sucesso enorme (entre público e crítica especializada, o que é muito raro) e isso deveu-se essencialmente ao facto de ser diferente de todos os outros filmes de acção. É daqueles filmes, que apesar de parecer "normal", acaba por ter qualquer coisa que o torna fixe. Não se nota o que é, mas há algo distinto em Face Off.
Esse factor distintivo é a inspiração "a dar a volta". Este foi o terceiro filme de John Woo em solo americano. Mas quem teve a paciência para ver maratonas de filmes de acção coreanos, chineses ou de Hong Kong, percebe que este não é um filme americano. Woo continuou a filmar como se estivesse em Hong Kong, sendo que a única diferença é que o filme é falado em inglês e feito com actores ocidentais. Mas todas as "regras" são orientais.
Depois de anos a produzir filmes de artes marciais para o mercado ocidental, o cinema oriental mudou e foi buscar inspiração aos sítios mais estranhos como o spaghetti western ou os policiais dos anos 70. Como as produções orientais parece que não existem e não chegam a ser distribuídas nos circuitos ocidentais (tirando, lá está, os filmes de artes marciais), parece que esta mudança nem sequer existiu. Alguém associa o género de ação ou policial ao cinema oriental? Não me parece. Até que John woo chegou a Hollywood e começou a filmar. O resultado são filmes de acção "estranhos" e que apesar de pareceram iguais aos restantes, são muito diferentes do habitual. E essa foi a principal marca que Face Off deixou. Dentro do género dos típicos filmes de "tiros e porrada", Face Off é um dos melhores. Vê-se e revê-se sempre muito bem. ●●●●○

Death Race (2008) é um filme de Paul W. Anderson, vagamente inspirado no antiguinho clássico Death Race 2000. Pelo que li, é supostamente uma espécie de prequela. Para mim, pareceu-me mais uma mistura de Mad Max e The Running Man, mas tudo bem. Tem Jason Statham a fazer o papel de durão injustiçado, quase um super-herói (é espancado constantemente, mas milagrosamente nunca sai ferido) e Joan Allen a fazer de má que tem o merece e morre no final. Há também carros quitados com armas e explosivos, perseguições alucinantes que acabam invariavelmente em capotanços, explosões e bolas de fogo espectaculares... Reparei que já sairam mais 2 sequelas, mas pelo que vi deste filme, acho que me vou ficar por aqui. ●○○○○


Continuação daqui...

Gosto muito do Nicholas Cage. Não pela performance nestes dois filmes, mas por causa de (grande parte
dos) outros filmes onde já entrou. Sendo que estes filmes giram em torno de um motoqueiro, Peter Fonda, o eterno Easy Rider, claro está, tinha de aparecer. Dito isto, Ghost Ryder e Ghost Rider: Spirit of Vengeance (era impossível um título mais foleiro), é mais do mesmo. Adpatação da BD, capitalização do sucesso de outras adaptações da BD, grandes explosões, grandes perseguições, efeitos digitais q.b. e... mais nada. Dois filmes para ver num domingo à tarde, quando uma pessoa estiver engripada, com uma mantinha nas pernas... ●○○○○

É tão difícil distinguir estes filmes como criticá-los. A crítica é difícil porque estes filmes não valem nada como obra cinematográfica, mas preenchem uma lacuna muito importante. Quem é que não gosta de ver coisas a explodir? Quem é que não gosta de ver perseguições espectaculares? Aposto que até o mais snob dos críticos de cinema se esconde numa sala de cinema para se deliciar com estes filmes. E, tenho que admitir, tecnicamente, estes filmes são um portento. Seja ao nível de efeitos especiais, seja ao nível de som ou montagem, estes filmes são quase perfeitos. O problema é que são sempre a mesma coisa. A história é completamente prescindível e os actores só lá estão para darem boas fotos para os cartazes promocionais. Daqui por uns anos (ou meses), alguém faz outro filme do género e é exactamente a mesma coisa. A única coisa que muda é o tamanho das explosões, porque o público está à espera de algo ainda maior.
Eu vi estes dois filmes mais ou menos na mesma altura e teve imensa dificuldade em distinguir os dois. Estava a ver um filme e parece que estava a ver o outro. Só perguntava porque é que o Gerard Butler tinha deixado de aparecer ou porque é que o Jamie Foxx estava a aparecer noutro filme. Foi confuso. Vendo agora os trailers nem consigo lembrar-me muito bem qual dos filmes estou a comentar. Olympus Has Fallen e White House Down fazem-me lembrar uma altura em que os estúdios disputavam argumentos e todos os anos havia dois filmes com o mesmo tema. Ou eram vulcões ou situações em arranha-céus ou outro filme-catástrofe qualquer. Só mudavam os protagonistas e os cartazes. Parecia que um estúdio descobria que outro estúdio estava a fazer um filme do género x e não queriam ficar atrás. "Quem é que têm no papel principal? É o fulano. Então nós arrajamos o cicrano. E quanto explosões têm? Sete. Ui, então nós temos que ter oito." Parece a típíca competição peniana do secundário, só com a diferença que é tudo medido a película.
Dito isto, nunca consigo resistir ao efeito Roland Emmerich, que é rebentar com o máximo de coisas possível. Também não consigo resistir ao efeito Antoine Fuqua que é espancar o máximo de pessoas possível numa só sala. É por isso que toda a gente vê estes filmes, não é verdade? Ver grandes aviões em chamas e a embaterem no chão, helicópteros a explodir, tiroteios infindáveis, perseguições humanamente impossíveis, cenas de grande pancadaria e os maus a levarem uma grande sova no fim, ou a morrerem de forma atroz no final. É conforme a vontade do realizador. Ou dum painel de estudo de mercado. Ou do estúdio, não se sabe bem. Estes filmes são como um medicamento: preenchem aquela lacuna que é o vazio de acção que há em cada um de nós. São o antídoto possível para a rotina diária. Pessoalmente, mesmo sabendo de antemão que são uma nulidade artística e que não vou encontrar absolutamente nada de novo, eu preciso destes filmes e nunca perco a oportunidade de os ver. E só por causa disso, levam ●●○○○.

 
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