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Apesar de ter a noção que o filme era muito conceituado, nunca tinha visto o Breakfast at Tiffany's por inteiro. Apenas tinha visto umas partes aqui e outras ali. E as partes que vi não me suscitaram grande interesse. Tal como me acontece com outros filmes, e por nenhuma explicação lógica, nunca me puxou para vê-lo. Feelings... No entanto, numa reposição recente na TV decidi vê-lo e perceber se o meu feeling estava correcto. E tenho de dizer que estava totalmente errado. Breakfast at Tiffany's é muito bom. É, de facto, um dos grandes clássicos. Holly Golightly é uma personagem muito à frente do seu tempo. Já vi alguns filmes da mesma altura e a figura de Audrey Hepburn destaca-se mesmo pela diferença. As voluptuosas protagonistas daquela altura não têm nada a ver com a figura esguia e felina de Hepburn. George Peppard é um verdadeiro galã. Um figurão físico, clássico, mas também um figurão no que diz respeito ao actor. Juntos fazem uma combinação que é totalmente moderna. E perfeita. Os "secundários" como Martin Balsam e Patricia Neal são perfeitos. Para ser absolutamente perfeito, só faltava aqui a presença de Peter Sellers. Eu vejo-o perfeitamente a fazer o papel interpretado por Mickey Rooney, até porque é, infelizmente, o único ponto negativo de todo o filme. Não propriamente pela actuação de Rooney, mas porque que a personagem é demasiado estereotipada, goofy e em certa parte parece fugiu daqueles antigos cartoons da Warner Brothers para aqui. Só um actor absolutamente genial poderia salvar aquela personagem. Daí o "meu" Peter Sellers, o gajo mais naturalmente cómico que já pisou este planeta.
A narrativa de Breakfast at Tiffany's é elaborada e desenrola-se num ritmo do tipo avanço rápido,pausa; avanço rápido,pausa, dando a conhecer a cada novo acto, um dado novo que baralha totalmente a história anterior e acrescenta camadas de complexidade à figura de Lula Mae / Holly Golightly. A viagem emocional da personagem vai oscilando entre o drama e a comédia, mas nunca se fixa em nenhuma temática. A mestria de Blake Edwards é evidente. Não só pela forma como dirige os actores, mas também como imprime um ritmo imparável ao filme, tipo montanha-russa que vai do drama chuvoso ao romance meloso em 4 segundos.
E depois há toda uma história cheia de pormenores que brilham como diamantes na montra da Tiffany's como por exemplo um gato que se chama... Gato e um brasileiro abastado chamado José da Silva Pereira, entre muitos outros. Basear filmes em obras de autores de calibre como Truman Capote tem as suas vantagens. Ideias e bons pormenores nunca faltam.
Destaque óbvio também para a música original "Moon River", um ícone sonoro reconhecido mundialmente que ficou para a posteridade. Henry Mancini compôs a música especificamente para Audrey Hepburn. Henry Mancini, Blake Edwards (e pensei eu: Peter Sellers)??? Pink Panther? Será? Muito provavelmente começou aqui qualquer coisa...
Normalmente não é um item que as pessoas destaquem num filme, mas para mim, a fotografia é algo muito importante. Aquelas cores Eastman Kodak, o Tecnhicolor e essas tecnicidades todas que dão origem àquelas cores tão características dos filmes dos anos 60... Para mim, essas são as cores do cinema. Aqueles vermelhos profundos e os azuis vibrantes. O grão da película; aqueles crepúsculos e os amanheceres como o do início do filme... para mim, essas são as texturas e as verdadeiras cores do cinema. E já agora, que se está a falar da imagem, mais uma pequena coisinha... Aquele poster do Robert McGinnis merecia um prémio. É o design gráfico no seu melhor. Não há muito a dizer. Até as coisas que orbitam o filme são muito boas. Breakfast at Tiffany's é irrepreensível. Define muito bem o que é um verdadeiro clássico. Altamente recomendado. Obrigatório. ●●●●●


Uma das grandes vantagens de ser "crítico amador" é poder ser totalmente imparcial.  Para explicar melhor este raciocínio existe... Cobra (o acrescento da tradução portuguesa "O braço forte da lei" ainda dá mais ao brilho ao título). Qualquer "crítico profissional" despreza o Cobra. É "obrigado" a fazê-lo. É um filme que tem todos os clichés possíveis e imaginários, que rouba mais ideias do que inspira e que tem prestações de actores que chegam a ser confrangedoras. Tirando isso, Cobra é um filme excelente.
Para já, faz parte do meu imaginário. Quando era miúdo adorava o Sylvester Stallone (e o Schwarzenegger também [aliás, qualquer gajo que desse porrada nos "maus" e tivesse alguma massa muscular relevante]). Mas especialmente adorava o Cobra e o seu estilo tipo "lobo solitário" justiceiro. Não sendo um feito de que me orgulhe muito, vi este filme até à exaustão. Não conseguia deixar de ver. Tinha algo magnético que não conseguia explicar. Ainda há pouco tempo apanhei-o aí num canal de cabo e não resisti... vi-o outra vez.
Cobra é um filme que está mal rotulado. Teoricamente é um filme de acção em que o protagonista é um detective durão que faz os "trabalhos sujos" que ninguém quer fazer. Mas está errado. Este é um filme de acção em que o protagonista é um super-herói chamado Cobra que por acaso tem como disfarce fazer de detective durão. Ele não se chama Cobra, esse é o "nome de código", tipo Batman. O verdadeiro nome é Marion Cobretti, tipo Bruce Wayne... A diferença é que Cobra não aparece quando vê um sinal luminoso nos céus, mas quando ouve o grito dos inocentes na rua... Vá lá, quem é que usa aqueles óculos à "police", t-shirt preta super-justa e um palito no canto da boca? Só mesmo uma personagem tipo super-herói! O Cobra até tem uma arma personalizada, já para não falar do carrão kitado com nitro e uma matrícula personalizada... "AWSOM50"! O homem vive sozinho no seu covil, perto de pulhas (gosto desta palavra: pulhas) sul-americanos o que é bastante conveniente para mostrar como ele está tão "dentro do sistema" como perto da marginalidade. Brilhante. O homem até corta piza aquecida no microondas com
uma tesoura...
Só havia uma pessoa que podia interpretar correctamente a personagem de CobraSylvester Stallone. Nunca ninguém vai conseguir imitar aqueles trejeitos todos do Stallone. É simplesmente impossível porque Cobra é um gajo que fala pouco. É daqueles gajos que quando abre a boca só diz punch-lines: "You're a disease; and I'm the cure", "You know that's bad for your health? Me!", "This is where the law stops and I start - sucker!", "I don't deal with psychos. I put 'em away.". Tudo isto só tem algum sentido se for sussurrado pelo canto da boca à Stallone. E só Stallone consegue efectivamente fazer isso.
Cobra tem mais elementos do filme de super-herói do que do filme de detective. O mauzão é o mauzão logo à primeira imagem. O vilão é um gajo com tão mau aspecto, que uma pessoa só precisa de ver a cara para perceber. E é verdade. O actor que faz de mau (um excelente Brian Thompson), mais parece uma máscara maléfica que outra coisa. Mete respeito e mete muito medo. Se me cruzasse com ele na rua à noite, mudava de passeio sem pensar uma única vez. Mais gritante ainda é a personagem memorável de Brigitte Nielsen (quando uma pessoa a vê a tentar representar nunca mais se esquece): é a típica Lois Lane, sempre em apuros, sempre a ser salva pelo "super-homem". E o Cobra é de facto um "super-homem"! Luta pela justiça e é imune a socos, navalhadas, explosões e rajadas de balas. Aparentemente não pode ser morto com armas humanas. E é por causa disto tudo que gosto de Cobra: é tão mau que acaba por ser bom.
Mas há mais. Cobra ainda é um filme "inocente". Os transeuntes são "inocentes". Os actores secundários são "inocentes".  É inocente até na violência que mostra. Tem uma das mortes mais violentas que já vi no cinema "normal" e mesmo assim a cena é tratada como se nada de anormal se tratasse.
Passando para outro plano completamente diferente. Já ouvi muita gente a dizer: "Ah! Os anos 80! Foi uma época do caraças e mais não sei o quê...". Se alguém quer conhecer melhor o que foram os anos 80 não vejam documentários do National Geografic: vejam o Cobra que é muito mais completo. Tem tudo: os cabelos, as roupas, os tiques, o look, as cores, os néons, a maneira de viver, a tecnologia estranha...
Cobra é um esquema completo do que foram os anos 80. Até no próprio cinema. George P. Cosmatos conseguiu resumir tudo num só filme. Está tudo aqui: a forma como eram filmadas as perseguições, as lutas, o tratamento da cor e do som, a forma de montagem, a construção das personagens, os estereótipos bons e maus, o andamento da narrativa, o culminar da história e até os próprios posters e trailers... Está tudo aqui. Não é de estranhar que Nicolas Winding Refn tenha vindo buscar tanta inspiração para o Drive... (aquele palito não engana ninguém)
Cobra, mais que um grande filme, é um caso de estudo. Como se costuma dizer na crítica profissional: "Imperdível!" "Dois polegares para cima!" ●●●●○

 
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