0457 Mute
Posted by artzzz333
Posted on 18:25
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As coisas mudam muito rapidamente hoje em dia. Abro assim porque queria falar dum filme que vi recentemente. Mute é um filme que dava texto para dois volumes. Apesar do filme ser esquecível (e até mau em muitos aspectos), tem muitos pormenores interessantes. Primeiro porque é um filme Netflix e isso leva-nos para outra discussão totalmente diferente. O que é um estúdio de cinema? O que é um filme de estúdio? Quais as diferenças entre eles? Muitos realizadores conceituados têm-se mandado ao ar e rasgam as vestes em público a propósito dos novos serviços de streaming concorrerem a prémios junto com os "filmes de estúdio". Mas sendo um filme, porque é que não deveria concorrer? Há alguma diferença que seja assim tão marcante que impeça isso? É por causa do sítio onde os vemos, no cinema ou em casa, na TV ou no browser? Na minha opinião, não. Porque isso quereria dizer que um excelente telefilme não pode ser posto em pé de igualdade com uma porcaria qualquer hiper-produzida de super-heróis que passa nas salas de cinema. E convém ressalvar que durante anos, a principal receita proveniente dos filmes era o "Home Video" (VHS para os mais velhotes...) e não a sala de cinema. E isso não os impedia de concorrer e/ou receber prémios. Na altura, quem fazia isso eram... os próprios estúdios. Acho que esta é uma falsa questão e principalmente acho que é uma grande dor de corno por parte dos estúdios que veem é uma parte do lucro migrar para outras paragens. Tal como os estúdios "verdadeiros", os estúdios de streaming são um negócio com base no entretenimento. A grande diferença é que começando por baixo, de raiz, os streamings conceberam um plano de médio e longo prazo para tirar o negócio (ou pelo menos uma grande parte) dos chamados "grandes estúdios". O que deixa os estúdios lixados é que está mesmo a funcionar. E funciona devido a duas grandes razões: Plano e Preguiça. O plano (dos streamings) era simples: primeiro conquistar o público e a crítica com documentários (mais baratos de produzir; maior probabilidade de lucro em caso de sucesso) e depois passar às longas-metragens (nos últimos tempos só tenho visto documentários Netflix e Hulu e são quase todos muito bons). A Preguiça (dos estúdios) fez o resto, como previsto. Os grandes estúdios adormeceram à sombra da grande bananeira dos blockbusters/super-heróis e contaram com a aparentemente infindável avidez (e estupidez) do público devorador de pipocas para perpetuar os seus impérios de filmes desmiolados e repetitivos. Mas tudo isto não quer dizer que esta guerra vá resultar em melhores filmes no futuro. Ou novos filmes com novas ideias. Acho até que (como sempre) o dinheiro vai falar mais alto e assim que os streamings tenham uma considerável fatia do negócio vão-se tornar exactamente iguais aos grandes estúdios. Não me vou alongar mais nesta questão, porque queria falar um pouco sobre este Mute, para além do facto de ser uma produção Netflix e como, em certa parte, confirma as minhas suspeitas. Este Mute é uma emulação" barata" dos blockbusters "oficiais" e um prenúncio do que está para vir. É um claro exemplo do que aconteceria se alguém pegasse na ideia base do grande blockbuster de ficção cientifica do momento mas lhe retirasse 100 milhões de dólares de valor produção. Efeitos especiais mais antigos, menos "nomes sonantes de cartaz" e uma produção obviamente mais fraca. Mas tudo isto não faz necessariamente um mau filme. Tem é que ser feito por alguém que perceba as limitações do orçamento, do casting e arranje alternativas.
Aqui, a alternativa foi partir de uma história que fosse totalmente diferente do habitual. E eu diria que seria a única coisa em condições neste filme. Mas nem isso aconteceu e tudo o resto é para esquecer. O filme é esquisito como o caraças. Como é que o caracterizaria? Como uma espécie de Blade Runner esquizofrénico em que duas histórias simultâneas acabam por se juntar no fim... sem grande nexo. Aliás, toda a construção do filme que se movimenta entre a comédia duvidosa, o drama e o gore parece ter sido feita com recurso a drogas potentes. Nada faz sentido e é tudo muito confuso. A acção passa-se no futuro, numa Alemanha (produtor oblige?) que se depreende que invadiu mais uma vez os restantes países, mas a figura principal é um amish (será holandês?!?) que trabalha como barista num clube de strip (ou semelhante) manhoso que parece saído do Miami Vice. Não se percebe bem de onde é que terá vindo esta ideia... Ah! E para além disso, o personagem principal é mudo (daí o nome Mute [ah-ah!], mas que não tem relevância absolutamente nenhuma para filme). Começa como uma história de amor entre personagens muito diferentes, mas depois passa para uma cena de luta de gangsters russos e uma história confusa com médicos/militares americanos retidos em solo alemão.. What?!? Hã? Ou não era assim? Já não sei. É muito confuso e principalmente muito difuso. As duas histórias oscilam tanto que às vezes estava a ver uma delas e esquecia-me da outra. Destaque ainda para o facto estranho de ter uma das personagens principais que é ostensivamente pedófilo. É muito estranho e dispensável. Resumindo: isto não está nada bem feito. É mau. Por vezes, muito mau, quase a roçar o amador. Mas paradoxalmente gostei da inicial aproximação low-cost, uma espécie de moderno filme série B. Estranho, dispensável e esquecível, mas ainda assim uma experiência que teve alguns momentos interessantes como as prestações do actores (Alexander Skarsgård, Seyneb Saleh, Paul Rudd e Justin Theroux) e breves momentos de realização (Duncan Jones já fez muito melhor com muito menos em Moon).
Parece-me óbvio que este Mute é o prenúncio do futuro dos filmes de streaming. Falta-lhes o dinheiro para as grandes produções mas já não lhes deve faltar todo. Só lhes falta mesmo um gigantesco sucesso de bilheteira para dar um boost inicial, e inevitavelmente isso irá acontecer. Se alguém esperava uma grande mudança no mundo dos filmes está bem enganado. Tudo vai acabar por confluir para os mesmos blockbusters, as mesmas cenas repetitivas de super-heróis e as adaptações da treta dos livros de teenagers, pois são facturação garantida de bilheteira e pipocas. Posso estar enganado, mas acho que não. Mas também é fácil de tirar a dúvida. É só uma questão de chegar ao "longo prazo", que nos dias de hoje - em que as coisas mudam tão rapidamente -, é para aí daqui a três semanas... ●○○○○
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