Joe Cabot (Lawrence Tierney), um chefe mafioso, reúne meia dúzia de criminosos para fazer um "simples" assalto a uma ourivesaria. Desconhecidos entre eles, decidem continuar a manter o anonimato recorrendo a nomes peculiares: Mr. White (Harvey Keitel), Mr. Blonde (Michael Madsen), Mr. Orange (Tim Roth), Mr. Brown (Quentin Tarantino), Mr. Pink (Steve Buscemi), Mr. Blue (Edward Bunker [ele próprio um verdadeiro insider do mundo do crime; foi condenado por vários assaltos e outros crimes]). E ainda há um Nice Guy Eddie (Chris Penn). O que parecia ser um golpe fácil e certo, dá para o torto. Para piorar a situação, os assaltantes começam a desconfiar que há um polícia infiltrado... E então tudo se torna num pandemónio sanguinário.
Escrito e realizado pelo então estreante Quentin Tarantino, Reservoir Dogs é um potente soco no estômago. Para filme de estreia de um realizador é simplesmente brilhante. Demonstra claramente que não é preciso um grande orçamento para fazer um bom filme. O que é necessário é essencialmente um bom guião, bons actores e um bom realizador com uma visão diferente. Só com estes três elementos consegue-se fazer uma obra intemporal. Visto em 1992, foi uma coisa... inesperada. Nessa altura não havia outros Tarantinos. Foi algo completamente diferente e original.
Sou grande fã do Tarantino e dos seus filmes. E por isso vou lendo umas coisas para além dos próprios filmes. Desde o início da carreira que vejo o Tarantino a ser acusado de copiar ideias, conceitos e partes inteiras de outros filmes. Podem ligar-se todos os filmes do Tarantino a géneros que foram populares nos anos 60, 70 e algumas coisas dos anos 80. Sejam os filmes de "assaltos", o blaxploitation, os spaghetti western ou os filmes de artes marciais dos 80's, simplesmente está lá tudo. Alguém que tenha visto muitos filmes destas décadas - o que é o meu caso - encontra facilmente montes de cenas que parecem copiadas ou que estão na base dos filmes Tarantino. Acho normal. Quer uma pessoa queira, quer não, quando se vê muitos filmes, mentalmente começam a ficar arquivadas tantas coisas, que eventualmente acabam por sair outra vez, de uma forma quase inconsciente e não propositada.
Toda a gente sabe que Tarantino, antes de se tornar realizador, trabalhou num videoclube. Mas o que poucas pessoas sabem é que foi lá que ele escreveu uns guiõezitos de filmes como True Romance, Natural Born Killers... ou o Reservoir Dogs. Menos pessoas sabem ainda que quando o clube fechou em 1994, o Tarantino comprou todos os 8000 filmes, para servirem de uma espécie de streaming à moda antiga. Já falei disso por aqui. A diferença entre o novíssimo streaming e o velhinho videoclube, é que antes, um gajo tinha de levantar o cu para ver os filmes. E para além disso, o catálogo disponível nos videoclubes era absolutamente gigantesco quando comparado com as plataformas digitais... E estou a divagar novamente... Este tema fica para outra altura...
Só para resumir: este efeito-cópia que normalmente é associado ao Tarantino é fruto de uma longuíssima pesquisa pessoal por todos os filmes, bons e maus, dos mais variados temas e linguagens, que basicamente eram aquela amálgama gigantesca de filmes lançados na era do VHS. Toda esta questão para justificar o facto do Reservoir Dogs ser muitas vezes referido com uma cópia descarada de City on Fire (1987), um típico filme de acção policial de Hong Kong dos anos 80. Eu também vi muitos outros filmes policiais asiáticos nos anos 80 (estavam a fazer a transição das artes marciais [começavam a perder popularidade] para os policiais) e também entre eles, muitos me pareciam cópias ou ter elementos copiados uns dos outros. Há uma citação dele que acho que resume perfeitamente este sentimento e justifica tudo: Quando lhe perguntaram se tinha frequentado uma escola de cinema, a resposta dele foi: "Não, fui ver filmes". Acho que está tudo dito. Propositadamente copiado ou não, Reservoir Dogs é um filme novo. Tem todos os elementos que mais tarde seriam a marca do Tarantino, que é esta mistura estranha de homenagem, monólogos, mesclagem, violência, linguagem não-linear e música. Música muito boa. E com isso, ele conseguiu criar um género totalmente novo, o "Tarantino". E isso não foi copiado de lado nenhum, portanto estamos conversados...
Já tudo foi dito sobre o Reservoir Dogs. É um daqueles filmes que não é possível ficar a meio: ou se ama ou se detesta. Eu estou claramente no primeiro grupo. Um filme perfeito. ●●●●●
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As coisas mudam muito rapidamente hoje em dia. Abro assim porque queria falar dum filme que vi recentemente. Mute é um filme que dava texto para dois volumes. Apesar do filme ser esquecível (e até mau em muitos aspectos), tem muitos pormenores interessantes. Primeiro porque é um filme Netflix e isso leva-nos para outra discussão totalmente diferente. O que é um estúdio de cinema? O que é um filme de estúdio? Quais as diferenças entre eles? Muitos realizadores conceituados têm-se mandado ao ar e rasgam as vestes em público a propósito dos novos serviços de streaming concorrerem a prémios junto com os "filmes de estúdio". Mas sendo um filme, porque é que não deveria concorrer? Há alguma diferença que seja assim tão marcante que impeça isso? É por causa do sítio onde os vemos, no cinema ou em casa, na TV ou no browser? Na minha opinião, não. Porque isso quereria dizer que um excelente telefilme não pode ser posto em pé de igualdade com uma porcaria qualquer hiper-produzida de super-heróis que passa nas salas de cinema. E convém ressalvar que durante anos, a principal receita proveniente dos filmes era o "Home Video" (VHS para os mais velhotes...) e não a sala de cinema. E isso não os impedia de concorrer e/ou receber prémios. Na altura, quem fazia isso eram... os próprios estúdios. Acho que esta é uma falsa questão e principalmente acho que é uma grande dor de corno por parte dos estúdios que veem é uma parte do lucro migrar para outras paragens. Tal como os estúdios "verdadeiros", os estúdios de streaming são um negócio com base no entretenimento. A grande diferença é que começando por baixo, de raiz, os streamings conceberam um plano de médio e longo prazo para tirar o negócio (ou pelo menos uma grande parte) dos chamados "grandes estúdios". O que deixa os estúdios lixados é que está mesmo a funcionar. E funciona devido a duas grandes razões: Plano e Preguiça. O plano (dos streamings) era simples: primeiro conquistar o público e a crítica com documentários (mais baratos de produzir; maior probabilidade de lucro em caso de sucesso) e depois passar às longas-metragens (nos últimos tempos só tenho visto documentários Netflix e Hulu e são quase todos muito bons). A Preguiça (dos estúdios) fez o resto, como previsto. Os grandes estúdios adormeceram à sombra da grande bananeira dos blockbusters/super-heróis e contaram com a aparentemente infindável avidez (e estupidez) do público devorador de pipocas para perpetuar os seus impérios de filmes desmiolados e repetitivos. Mas tudo isto não quer dizer que esta guerra vá resultar em melhores filmes no futuro. Ou novos filmes com novas ideias. Acho até que (como sempre) o dinheiro vai falar mais alto e assim que os streamings tenham uma considerável fatia do negócio vão-se tornar exactamente iguais aos grandes estúdios.
Não me vou alongar mais nesta questão, porque queria falar um pouco sobre este Mute, para além do facto de ser uma produção Netflix e como, em certa parte, confirma as minhas suspeitas. Este Mute é uma emulação" barata" dos blockbusters "oficiais" e um prenúncio do que está para vir. É um claro exemplo do que aconteceria se alguém pegasse na ideia base do grande blockbuster de ficção cientifica do momento mas lhe retirasse 100 milhões de dólares de valor produção. Efeitos especiais mais antigos, menos "nomes sonantes de cartaz" e uma produção obviamente mais fraca. Mas tudo isto não faz necessariamente um mau filme. Tem é que ser feito por alguém que perceba as limitações do orçamento, do casting e arranje alternativas.
Aqui, a alternativa foi partir de uma história que fosse totalmente diferente do habitual. E eu diria que seria a única coisa em condições neste filme. Mas nem isso aconteceu e tudo o resto é para esquecer. O filme é esquisito como o caraças. Como é que o caracterizaria? Como uma espécie de Blade Runner esquizofrénico em que duas histórias simultâneas acabam por se juntar no fim... sem grande nexo. Aliás, toda a construção do filme que se movimenta entre a comédia duvidosa, o drama e o gore parece ter sido feita com recurso a drogas potentes. Nada faz sentido e é tudo muito confuso. A acção passa-se no futuro, numa Alemanha (produtor oblige?) que se depreende que invadiu mais uma vez os restantes países, mas a figura principal é um amish (será holandês?!?) que trabalha como barista num clube de strip (ou semelhante) manhoso que parece saído do Miami Vice. Não se percebe bem de onde é que terá vindo esta ideia... Ah! E para além disso, o personagem principal é mudo (daí o nome Mute [ah-ah!], mas que não tem relevância absolutamente nenhuma para filme). Começa como uma história de amor entre personagens muito diferentes, mas depois passa para uma cena de luta de gangsters russos e uma história confusa com médicos/militares americanos retidos em solo alemão.. What?!? Hã? Ou não era assim? Já não sei. É muito confuso e principalmente muito difuso. As duas histórias oscilam tanto que às vezes estava a ver uma delas e esquecia-me da outra. Destaque ainda para o facto estranho de ter uma das personagens principais que é ostensivamente pedófilo. É muito estranho e dispensável. Resumindo: isto não está nada bem feito. É mau. Por vezes, muito mau, quase a roçar o amador. Mas paradoxalmente gostei da inicial aproximação low-cost, uma espécie de moderno filme série B. Estranho, dispensável e esquecível, mas ainda assim uma experiência que teve alguns momentos interessantes como as prestações do actores (Alexander Skarsgård, Seyneb Saleh, Paul Rudd e Justin Theroux) e breves momentos de realização (Duncan Jones já fez muito melhor com muito menos em Moon).
Parece-me óbvio que este Mute é o prenúncio do futuro dos filmes de streaming. Falta-lhes o dinheiro para as grandes produções mas já não lhes deve faltar todo. Só lhes falta mesmo um gigantesco sucesso de bilheteira para dar um boost inicial, e inevitavelmente isso irá acontecer. Se alguém esperava uma grande mudança no mundo dos filmes está bem enganado. Tudo vai acabar por confluir para os mesmos blockbusters, as mesmas cenas repetitivas de super-heróis e as adaptações da treta dos livros de teenagers, pois são facturação garantida de bilheteira e pipocas. Posso estar enganado, mas acho que não. Mas também é fácil de tirar a dúvida. É só uma questão de chegar ao "longo prazo", que nos dias de hoje - em que as coisas mudam tão rapidamente -, é para aí daqui a três semanas... ●○○○○
Não me vou alongar mais nesta questão, porque queria falar um pouco sobre este Mute, para além do facto de ser uma produção Netflix e como, em certa parte, confirma as minhas suspeitas. Este Mute é uma emulação" barata" dos blockbusters "oficiais" e um prenúncio do que está para vir. É um claro exemplo do que aconteceria se alguém pegasse na ideia base do grande blockbuster de ficção cientifica do momento mas lhe retirasse 100 milhões de dólares de valor produção. Efeitos especiais mais antigos, menos "nomes sonantes de cartaz" e uma produção obviamente mais fraca. Mas tudo isto não faz necessariamente um mau filme. Tem é que ser feito por alguém que perceba as limitações do orçamento, do casting e arranje alternativas.
Aqui, a alternativa foi partir de uma história que fosse totalmente diferente do habitual. E eu diria que seria a única coisa em condições neste filme. Mas nem isso aconteceu e tudo o resto é para esquecer. O filme é esquisito como o caraças. Como é que o caracterizaria? Como uma espécie de Blade Runner esquizofrénico em que duas histórias simultâneas acabam por se juntar no fim... sem grande nexo. Aliás, toda a construção do filme que se movimenta entre a comédia duvidosa, o drama e o gore parece ter sido feita com recurso a drogas potentes. Nada faz sentido e é tudo muito confuso. A acção passa-se no futuro, numa Alemanha (produtor oblige?) que se depreende que invadiu mais uma vez os restantes países, mas a figura principal é um amish (será holandês?!?) que trabalha como barista num clube de strip (ou semelhante) manhoso que parece saído do Miami Vice. Não se percebe bem de onde é que terá vindo esta ideia... Ah! E para além disso, o personagem principal é mudo (daí o nome Mute [ah-ah!], mas que não tem relevância absolutamente nenhuma para filme). Começa como uma história de amor entre personagens muito diferentes, mas depois passa para uma cena de luta de gangsters russos e uma história confusa com médicos/militares americanos retidos em solo alemão.. What?!? Hã? Ou não era assim? Já não sei. É muito confuso e principalmente muito difuso. As duas histórias oscilam tanto que às vezes estava a ver uma delas e esquecia-me da outra. Destaque ainda para o facto estranho de ter uma das personagens principais que é ostensivamente pedófilo. É muito estranho e dispensável. Resumindo: isto não está nada bem feito. É mau. Por vezes, muito mau, quase a roçar o amador. Mas paradoxalmente gostei da inicial aproximação low-cost, uma espécie de moderno filme série B. Estranho, dispensável e esquecível, mas ainda assim uma experiência que teve alguns momentos interessantes como as prestações do actores (Alexander Skarsgård, Seyneb Saleh, Paul Rudd e Justin Theroux) e breves momentos de realização (Duncan Jones já fez muito melhor com muito menos em Moon).
Parece-me óbvio que este Mute é o prenúncio do futuro dos filmes de streaming. Falta-lhes o dinheiro para as grandes produções mas já não lhes deve faltar todo. Só lhes falta mesmo um gigantesco sucesso de bilheteira para dar um boost inicial, e inevitavelmente isso irá acontecer. Se alguém esperava uma grande mudança no mundo dos filmes está bem enganado. Tudo vai acabar por confluir para os mesmos blockbusters, as mesmas cenas repetitivas de super-heróis e as adaptações da treta dos livros de teenagers, pois são facturação garantida de bilheteira e pipocas. Posso estar enganado, mas acho que não. Mas também é fácil de tirar a dúvida. É só uma questão de chegar ao "longo prazo", que nos dias de hoje - em que as coisas mudam tão rapidamente -, é para aí daqui a três semanas... ●○○○○
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Se há uma coisa que os serviços de streaming fazem melhor que qualquer outros "estúdios" é no campo dos documentários. Este Becoming Bond (da Hulu) é mais um desses exemplos e explora a história marada em torno do James Bond mais odiado mas ainda assim, talvez o mais emblemático e carismático de todos: George Lazenby. É um documento surpreendente (num misto de documentário e recriação [Josh Lawson, muito bem no papel de George]) que mostra que a realidade é sempre mais estranha que a ficção. Como é que um mecânico australiano e mais tarde modelo masculino de roupa, sem experiência absolutamente nenhuma como actor, foi escolhido para ser "o" James Bond, e ainda por cima para colmatar a saída de cena do "verdadeiro" Bond, Sean Connery? Não parece possível, mas foi exactamente isso que aconteceu... Revelações surpreendentes estão incluídas, como aquela em que Lazenby diz que após lhe terem oferecido um contrato de 1 milhão de dólares e a hipótese de protagonizar os próximos seis filmes do mais conhecido agente secreto de Sua Majestade, ele simplesmente recusou... porque teve um feeling que aquele não era o caminho que deveria percorrer...
Becoming Bond é um documentário obrigatório para todos os fãs do 007, com a presença ubíqua de Lazenby, the man himself... Vê-se muito bem. ●●●○○
Becoming Bond é um documentário obrigatório para todos os fãs do 007, com a presença ubíqua de Lazenby, the man himself... Vê-se muito bem. ●●●○○
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