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Em 01/05 de 2020 finalmente este blog atingiu as míticas 10.000 visualizações. Pode parecer muito mas se se pensar que criei o blog em junho de 2010 basta uma conta simples de merceeiro para perceber que precisei de 10 anos para chegar a esta marca. 1000 visualizações por ano. Ok, mas também só em outubro de 2012 é que comecei a publicar coisas... O que é que isso interessa? Praticamente nada. Mas é triste. Ou talvez não. Sinceramente, criei o blog não para ter seguidores ou milhões de visualizações, mas sim para servir de repositório a todos os filmes que vi. Um dia, espero eu, estarei a criar a entrada para o meu filme 10.000. Pelo andar da carruagem ainda vai demorar bastante tempo. Foram precisos oito longos anos para conseguir introduzir "apenas" cerca de 600 filmes. É que isto dá trabalho. Não é só chegar aqui e debitar texto (por acaso até é...) ou fazer copy paste de outros sites. Não. Bem, isso quer dizer que devo precisar de uns 100 anos para listar os restantes 5000 filmes que devo ter visto até agora... Humm! Muito provavelmente não vou ter tempo para isto tudo. Mas também não interessa. O que interessa verdadeiramente são os filmes. E pensando bem, o sucesso é uma coisa relativa...

Foi exactamente há um ano que deixei de publicar aqui no Blogger. Curiosamente, este texto também tem 1 ano de idade. Escrevi-o nesse dia em que decidi deixar o o blogger para trás. Nessa altura descobri uma nova forma, muito mais fácil e imediata, de "indexar" todos os filmes que vi. Isto aconteceu porque o blogger decidiu mudar o backoffice. Estava tudo mais ou menos bem e apesar da trabalheira que isto me dava fazia-o com gosto. Mas o blogger decidiu reinventar a forma como se publica e de certa forma a coisa ia ser ainda mais trabalhosa. Entretanto descobri que havia um sítio (Letterboxd) onde podia fazer praticamente a mesma coisa e com muito menos trabalho. Juntando as duas coisas, a escolha foi óbvia e rápida. Passei para lá. Decidi que iria manter o site por aqui, mas apenas dedicado a temas específicos que não dão para fazer no tal site ou para falar sobre que filmes que me marcaram. E também sobre filmes que não sendo propriamente bons, me levam para outras questões paralelas que ultrapassam os limites do próprio filme. Entretanto... o mundo decidiu também mudar... e eu mudo constantemente com ele. Vamos a ver se não há mais alterações. Provavelmente sim. Deve ser por isso que eu gosto de arquivar coisas. As coisas mudam tanto com o passar do tempo, que a melhor forma de avaliar essas mesma mudanças é compará-las com o tempo passado... Pronto! Já estou novamente a divagar. É exactamente por causa disto que decidi voltar aqui ao site. Às vezes gosto de simplesmente divagar para outros temas começando por um filme...

A partir deste momento, este blog deixa de ser uma site em que publico todos os filmes que vi e torna-se num espaço de reflexão pessoal sobre o mundo, sobre as pessoas sobre tudo o resto, tendo sempre como ponto de partida um filme. Obviamente que as coisas podem descambar para outras vertentes que nada têm que ver com o mundo do cinema. Eu mudo constantemente. Este site simplesmente tenta acompanhar-me... Veremos no que isto dá e por quanto tempo se mantém assim. 

Durante muitos anos ouvi e li sobre este The Omen. Era suposto ser um filme terrorífico... mas não é. Este é um dos problemas de ver os filmes fora de tempo. Em 1976 imagino que deve ter gerado um escândalo do tamanho do mundo. Mas agora, no contexto actual, admito que perdeu um pouco de "poder de fogo"...
The Omen conta uma história bizarra. O embaixador americano em Roma (Gregory Peck) e a esposa (Lee Remick) têm uma vida do melhor que a vida tem para oferecer. Mas falta-lhes algo muito importante: um filho. Há muito tempo que pensam ter filhos, mas parece que nunca se vai tornar realidade, por motivos vários. Mas um dia lá acaba por acontecer e a Katharine vai finalmente ter o tão desejado filho. No entanto, a criança morre à nascença no hospital e Robert em desespero decide seguir a sugestão de um padre e adoptar uma criança nascida exactamente no mesmo momento, mas cuja mãe morreu em trabalho de parto. Mas para complicar todo este assunto, Robert omite essa importante parte à esposa...
Depois de se mudarem para Londres, estranhos acontecimentos começam a persegui-los. Para piorar ainda mais a situação, Robert começa a ser perseguido por um padre que sabe da situação da troca dos bebés e lhe confidencia que o seu filho, é nada mais nada menos que o próprio Anticristo...
Richard Donner realizou um dos grandes filmes de terror de sempre. E é tudo por causa da história que é mesmo totalmente bizarra. Será que a criança é mesmo o Anticristo? Será que o embaixador estará apenas a alucinar? A paranóia e dúvida são constantes até determinado ponto do filme. É um retrato realista de uma família em crise e à beira de um ataque de nervos. A atmosfera muda completamente quando se percebe que toda aquela história estranha é mesmo verdade e aí o filme torna-se numa perseguição até à morte. The Omen tem uma constante aura carregada e vai-se tornando cada vez mais alucinante até culminar naquele momento icónico de termos o pai, num altar a sacrificar o filho possuído... Será que ele consegue ter força mental suficiente para matar mesmo o miúdo?...
Talvez o melhor do filme esteja mesmo na parte final e naquele sorriso verdadeiramente maléfico de Damien. Mas curiosamente, na versão original do argumento a história termina de forma diferente. Foi a MPAA (Motion Picture Association of America, que durante muito tempo foi a responsável pelos ratings etários dos filmes e por tabela "mandava" nos filmes) que decidiu que o final original era demasiado chocante... e que deveria acabar como aparece na versão final. Não deixa de ser irónico pensar que se o bem vence é chocante, mas é totalmente aceitável que o mal triunfe... Estranho, não é? ●●●○

P.S. Sempre que se fala neste tipo de filmes de terror, mais espiritual, parece que têm sempre uma maldição associada para além da sua mitologia sinistra. Acredite quem quiser... Gregory Peck e o argumentista David Seltzer foram atingidos por raios nos seus aviões quando voltavam para filmagens no Reino Unido.... O produtor Harvey Bernhard quase foi atingido por um raio em Roma... Os rottweilers que foram usados no filme atacaram violentamente os seus próprios tratadores... O hotel onde Richard Donner estava hospedado foi bombardeado pelo IRA... e para além disso foi atropelado nas filmagens... Depois das filmagens, Gregory Peck ia para Israel de avião, mas teve de cancelar a viagem. O avião onde deveria ir cai e não houve sobreviventes... No primeiro dia de filmagens, várias pessoas envolvidas na rodagem do filme sobreviveram a um acidente grave de carro. Já na pós-produção do filme, John Richardson dos efeitos especiais, teve também um acidente de carro grave, e a namorada foi decapitada... É a velha questão... Não acredito nas bruxas, mas...
Normalmente nunca diria isto, mas vou ter de o dizer... Idiocracy é um dos piores filmes que já vi na minha vida... mas que vale a pena dar uma vista de olhos. Por muito estranho que pareça é mesmo verdade. Apesar do filme ser mesmo mau, o cerne do filme merece uma reflexão, nem que seja só por 10 minutos.
Um soldado americano (Luke Wilson) é escolhido para uma experiência secreta envolvendo hibernação prolongada. Ele foi escolhido por ser um gajo absolutamente mediano e sem ligações familiares. Junto com ele vai também participar uma prostituta (Maya Rudolph), "emprestada" pelo seu chulo a troco de favores. A experiência acaba por correr mal devido a uma escândalo com o chulo, e o que deveria ser uma coisa com duração de um ano, acaba por ser esquecida e prolongar-se por 500 anos. Quando o soldado mediano finalmente acorda no futuro, 500 anos mais tarde, descobre que a inteligência foi extinta e que a América é uma sociedade tão estupidificada que ele é seguramente o humano mais inteligente à face da Terra. É então escolhido para resolver uma série de problemas... resultado de causas verdadeiramente estúpidas.
Idiocracy está num limbo. Teoricamente é uma comédia de ficção científica, mas na realidade nem é uma coisa nem outra. Como comédia é um contrassenso pois para além de não ser nada cómico, ainda por cima é um tipo de comédia que só é apelativo para o tipo de pessoal que está literalmente a criticar. Como ficção cientifica é mesmo só porque se passa no futuro, porque nem a história é nova (ou original) nem sequer o tema é muito aprofundado para além dos óbvios sketches. Para além disto, o próprio filme esteve envolvido numa disputa bastante feia com os estúdio da Fox. O que é absolutamente compreensível vendo o teor do filme. Até a Foz News é descaradamente gozada... Os estúdios ficaram com o filme completamente feito em carteira durante um ano e só o distribuíram em meia dúzia de cinema, sem promoção nenhuma, sem trailers, sem nada. Foi mesmo só para cumprir o contrato que previa a estreia em cinema. E depois o filme desapareceu do público... Idiocracy merece destaque precisamente por causa disto tudo. Como é possível que um filme que é essencialmente mal feito, sem distribuição, sem marketing, sem trailer e que quase caiu no esquecimento se torna uma referência da comédia politica entre os críticos e o público e ainda arranja o "título" de filme de culto? É um mistério.
Mas se há uma resposta certa, acho que é por o filme tocar num ponto muito sensível, e basicamente, por apontar para o elefante no meio da sala da América... A estupidez. Não vale a pena estar aqui com grandes rodeios. A América, outrora o grande centro de mentes brilhantes está a tornar-se cada vez mais estúpida. Uma maioria de pessoas elegeu o Donald Trump como presidente, portanto está tudo dito. Não é por nada que Mike Judge, o realizador que já tem créditos como o criador, produtor e dono das vozes de Beavis and Butt-Head, tem sido referido como um grande profeta. Depois de Donald Trump como presidente, acho que ninguém estranharia muito se agora fosse eleito um wrestler (como a personagem de Terry Crews) ou um culturista sem qualquer formação política ou social. De certa forma o filme é premonitório por ir mais além do racional e mostrar que o ridículo se pode tornar realidade, e também porque sendo uma comédia pode brincar com todos estes temas muito sérios. Muita vezes vi referida até a expressão: "o filme que lentamente se vai tornando num documentário social"... É estranho, mas é verdade. A linguagem utilizada, já muito longe do inglês, cheia de jargão e siglas... Uma comunidade manipulada e controlada por grandes corporações que apenas querem que a sociedade seja uma população de consumidores acéfalos... As séries e filmes sem continuidade tipo jackass que estreiam em primeiro lugar nos cinemas americanos... A omnipresente hipersexualização... de tudo, basicamente... As pilhas de lixo infindáveis provocadas por um consumismo desenfreado... Enfim... a realidade que ninguém quer ver ou admitir...
A realidade é que esta ficção é bem mais real e muito menos futurista e utópica do que parece. Este tema do homem que acorda no futuro para perceber que a humanidade se estupidificou ao ponto de quase se aniquilar não é nova. No Time Machine do H.G. Wells isto já é em parte mencionado. No conto The Marching Morons de Cyril Kornbluth também já se trata da temática sobre o que é que acontece quando se tem uma sociedade em que a população se expande exponencialmente e ao mesmo tempo há uma uma falta de pressão evolucionária...
Falar da estupidez crescente na sociedade daria para uma site completo porque as razões são imensas e muito interligadas. E aí tenho que dar o braço a torcer porque Idiocracy toca em quase tudo de uma forma muito leviana, mas ao mesmo tempo muito acertada. Vai desde o pormenor da Fox News com os seus apresentadores musculados e apresentadoras quase de mamas à mostra, passando pela crítica a uma sociedade dominada pelo marketing das grandes empresas que diz que "os electrólitos são tão bons que substituem a água simples" e que assim levam a uma catástrofe ecológica. E quem diz electrólitos, poderia dizer L. Casei Imunitass...
E se se avançar um pouco mais no tempo, ainda temos as redes sociais que têm sido o grande megafone desta estupidez crescente e alarmante que muita gente já percebeu que vai acabar mal. Mas não se pode dizer mal das redes sociais nem dos seus malefícios... porque gera imensa receita ("i love money, don't you?" deve ser a expressão que aparece mais vezes no filme...) e imensa gente adora as redes sociais e já nem sequer conseguem viver sem elas. Se este tema entrasse no filme (ainda nem sequer tinham grande expressão na altura da estreia), seguramente o filme teria mais 1 hora de duração... Pode ser que Mike Judje volte ao tema mais tarde... ou se calhar é melhor não o deixar dizer mais nada para não tocar novamente em pontos sensíveis...
De certa forma, Idiocracy é um olhar satírico para dentro. É como uma parte da América se revê e como tem noção de como o mundo começa a ver a própria América. E têm razão. Não tenho dúvida nenhuma, que cada vez mais, o mundo olha para a América, não como a grande super-potência de outros tempos, mas como o grande centro exportador de estupidez para o resto do mundo...
Estupidez é uma coisa aparentemente hereditária e altamente contagiosa. Isto fica bem demonstrado nos geniais primeiros minutos. E, cada vez mais me apercebo, que afinal pode não ter cura. E isto sou eu a ser um bocadinho optimista, porque na realidade o meu cérebro pessimista o que me diz é que a estupidez não tem cura e que eventualmente vamos estar bem fodidos por não tratarmos deste problema a tempo... Este tema da estupidez chateia-me. Fico com comichões e dá-me vontade de bater em alguém... é melhor ficar por aqui e não me alongar mais... ...
Sinto-me muito dividido em relação a este Idiocracy. Nunca o veria novamente de tão mau que é, mas sou obrigado a recomendá-lo pela reflexão que obriga a fazer... ○ - ●●●●

The Artist é uma homenagem a um tempo de Hollywood tão distante que a maior parte das pessoas já nem sonha que existiu. A história é sobre o actor George Valentin, uma ubíqua e famosa estrela de filmes mudos que, ao mesmo tempo que se enamora com uma jovem dançarina, começa também a ver a sua carreira entrar em declínio devido ao aparecimento dos filmes "falados".
Homenagem talvez não seja a palavra mais apropriada para classificar The Artist. Acho que reflexão seria a palavra mais indicada. É neste período que se dá uma cisão muito grande no cinema, entre o status quo do mudo e a novidade dos filmes sonoros. Se para os estúdios foi uma oportunidade de inovar e assim chamar novos clientes, para os actores foi uma revolução demasiado disruptiva. Toda a forma de actuar teve de mudar e aconteceu quase da noite para o dia. Estrelas mundialmente estabelecidas como Douglas Fairbanks e Mary Pickford de um momento para o outro ficaram quase no desemprego e e até lendas como Charlie Chaplin se ressentiram. Volátil como sempre, o público queria coisas novas e o novo era o sonoro. O cinema mudo estava condenado juntamente com todas as equipas de produção, estúdios, actores e técnicos que não fizessem (ou não conseguissem) a passagem para o som. Aquele jeito de actuação teatral, tipo pantomina, tinha chegado ao fim...
A personagem de George Valentin é nitidamente Douglas Fairbanks. Aliás, no auge da sua depressão, enquanto vê uns filmes antigos com aventuras do Zorro, na realidade o que se está ver é um filme de Douglas Fairbanks, mas com algumas cenas de close up protagonizadas por George Valentin.
Num filme mudo, a performance dos actores é radicalmente diferente. Tem de ser mais dramática, exagerada e, por vezes, até caricatural porque sem palavras (nem outro som qualquer) é obviamente muito mais difícil de chegar ao público e transmitir emoções. A actuação é uma mistura de emoções físicas que apenas a música de fundo pode acentuar. Não digo que seja mais difícil ou mais fácil, mas parece-me que é outra coisa completamente diferente. E por isso tenho que destacar Jean Dujardin, que sendo obviamente um actor moderno parece ter vindo directamente do tempo do cinema mudo. Está tão perfeito que se fosse possível recuar no tempo e inseri-lo na altura do filmes mudos, acho que o público nunca notaria a diferença. De certa forma é Jean Dujardin desta forma tão verosímil, tão anos 20, tão silencioso e emotivo que dá a sensação de se estar realmente a ver um filme da era do cinema mudo. Está tudo muito bem feito neste The Artist, mas Jean Dujardin é 50% do sucesso do filme. Uma performance que merece todos os prémios e mais alguns.
No sentido contrário, o resto do casting não salta tanto à vista. Bérénice Bejo, John Goodman, James Cromwell e Penelope Ann Miller servem bem como actores de suporte mas não passam muito disso. No caso de Bérénice Bejo o caso é ainda mais gritante, porque é peça fundamental do argumento. Não é que Bejo esteja mal, mas simplesmente não se sente a química nem o romance entre os dois actores. Há muito mais química negativa entre Jean Dujardin e Penelope Ann Miller em breves minutos (que era a intenção do argumento, num casamento em decadência) do que química positiva entre os dois amantes durante o filme todo. A discrepância entre Bérénice Bejo e Jean Dujardin é tão grande que para mim é mesmo a grande falha do filme. E claro que não podia deixar passar em branco a minúscula participação de Malcolm McDowell.
O filme é muito fiel àquela altura do cinema e muito pormenorizado (até tecnicamente) ao ponto de ser filmado com menos frames para dar aquele look acelerado tão típico dos filmes da era muda e até na própria proporção do ecrã que usa. Não fazia muito sentido simular um filme mudo sem ser naquele enquadramento 4:3 meio "quadrado", pois não?
The Artist é uma pequena pérola que, passado o impacto e choque inicial de se perceber que o filme vai ser totalmente mudo, irá deliciar a maior parte do público. A música não começa muito bem (parece algo dessincronizada da acção), mas depois ajusta-se perfeitamente para suportar emocionalmente todas as cenas. A história de decadência, regresso e reatamento amoroso é universal, por isso nunca falha. E aquele final simpático a fazer a transição para os grandes filmes musicais dos anos 30 e 40 (grande cena de dança, já agora) é simplesmente perfeito. Nota-se que foi um filme muito bem pensado mesmo antes de chegar a ser filmado e daí um enormíssimo destaque para Michel Hazanavicius, quer seja pela realização, pela preparação ou pela escrita. Até no pormenor de a primeira palavra a ser proferida em todo o filme ser "cut" e a última a ser "action" para dar uma continuidade pós-filme. Muito bom. Muito bem pensado. The Artist vê-se muitíssimo bem e é totalmente recomendado. ●●●


Alguns factos curiosos que encontrei nas minhas pesquisas. Este foi apenas o segundo filme mudo a ganhar prémios nos Óscares. O primeiro tinha sido Wings em 1927. A última vez que um filme totalmente a preto e branco tinha ganho o maior galardão de Hollywood tinha sido em 1960 com The Apartment. Se as referências a antigas estrelas do cinema mudo são constantes, elas chegaram aos rcenários. A casa da personagem de Peppy Miller é na realidade a antiga casa de Mary Pickford que mais tarde viria a casar com Douglas Fairbanks, uma lenda do cinema mudo, cuja vida e carreira, sem dúvida nenhuma é a base para este The Artist. Entre outros pormenores, notei também naquela cena aberta da escadaria, que havia ali algo familiar; descobri que aquela enorme construção metálica de escadas é nada mais nada menos que o átrio do Prédio Bradbury... onde foram filmadas algumas das cenas mais icónicas de Blade Runner... há coisas que não consigo mesmo esquecer... Mas para mim, o facto mais curioso de todos, foi ter sido necessário uma equipa europeia, fazer um filme europeu (é tudo francês...) para mostrar uma faceta de Hollywood de uma forma que Hollywood nunca teve capacidade de fazer. Isso sim, é que é curioso...
Indiana Jones é um professor universitário de arqueologia mas também é um duro aventureiro que gosta de arregaçar as mangas e se for preciso, partir para a violência. Como é especializado em antiguidades clássicas, o governo americano contrata-o para encontrar a Arca da Aliança e assim assegurar que os Nazis não lhe conseguem deitar a mão e aceder ao seu imenso poder destrutivo. Jones inicia assim uma das maiores aventuras do mundo do cinema e que durará várias décadas...
A personagem e o filme é tão conhecido, tão transversal e tão ubíquo que já faz parte do conhecimento geral. Não faz sentido estar aqui a falar do filme propriamente dito.
A minha ligação com Raiders of the Lost Ark é profunda. O contexto no qual eu vi o filme é radicalmente diferente dos dias de hoje. Vi-o pela primeira vez por volta de 1985, o que quer dizer que o vi numa autêntica realidade alternativa. Nessa altura, quando se queria ver um filme tinha de se ir ao cinema. Mas por outro lado, os VHS começavam a dar os primeiros passos e lentamente começavam a invadir a casa das pessoas. O impacto inicial dos VHS não foi assim tão marcante porque havia muito poucos filmes nesse formato. E é aqui que começa minha ligação quase umbilical ao Indiana Jones. Se já era rara a pessoa que tinha um VHS (ainda existiam inclusive muitas TVs a preto e branco!!!...), mais raro ainda era a pessoa que tinha uma cassete. Note-se que a cassete tinha de ser um original pois não havia forma de fazer cópias. Só em termos comparativos, os preços destas "coisas": uma TV: cerca de 100 contos! Um leitor VHS: cerca de 100 contos! Uma cassete original: cerca de 15 contos! Portanto, era material "profissional" que só existia nos video clubes. No entanto, um tio meu lá perdeu a cabeça e conseguiu comprar uma cassete caríssima do Raiders of the Lost Ark. O filme tinha sido um marco no cinema de acção e um gigantesco sucesso de bilheteira e por isso lembro-me de ouvir os mais velhos a falar de como era espectacular. Da cena da bola, das aranhas, dos nazis e da arca perdida. Muito antes de ver o filme, já o tinha imaginado na minha cabeça. Mas nada me preparou para o impacto de ver o filme com os meus próprios olhos. Siderei completamente, apesar de ter acontecido numa TV minúscula (quanto comparado com os tamanhos XXXL de hoje em dia). Nessa altura, sempre que ia até casa do teu tio (e eram muitas vezes...) obrigatoriamente (re)via o filme. Também não havia alternativa... Eu e o meu primo sabíamos todas as cenas de cor, todos os diálogos, tudo... Devo ter visto o Raiders of the Lost Ark umas 20 ou 30 vezes. E isto, só enquanto era miúdo, porque depois continuei a revê-lo constantemente ao longo do tempo. Se estiver a ser transmitido em algum canal de TV, simplesmente não lhe consigo resistir. Aquela música parte-me todo... Oh! Começa automaticamente a ecoar na cabeça... Não só pelo filme, mas também pela lembrança daqueles momentos antigos em que o miúdo (acho que isso aconteceu com muita gente...) queria era ter um casaco de couro, um chicote e ir por aí à aventura, em busca de um grande tesouro, derrotando os inimigos pelo caminho, nem que para isso tivesse que ficar preso num túmulo egípcio cheio de cobras e esqueletos ou que tivesse de passar por baixo de um camião em movimento.
Este é um daqueles filmes fáceis de "criticar" porque o tenho gravado integralmente na cabeça. Agora mesmo começam (novamente) a ecoar as notas da música de John Williams que é sem dúvida uma das melhores de sempre. A marcha do Raiders é um hit intemporal assim como a restante banda sonora original. Poderia estar aqui a falar de tudo o que Raiders of the Lost Ark tem de bom, mas seria entediante. É preferível enumerar o que tem de mal, porque é muito mais fácil. Nada. Não tenho um único defeito a apontar a este filme. É dos filmes mais consensuais que já encontrei, tanto entre a crítica como entre o público. Mas como em tudo na vida, há sempre quem discorde. Já li, por exemplo, que a personagem do Indiana Jones é irrelevante para o desenvolvimento da história. Se se pensar bem, na realidade, os nazis conseguem ficar mesmo com a arca, mas inadvertidamente matam-se todos no final... E o restante filme, pergunto eu? É para ignorar? Aqueles cenários? As cenas de acção memoráveis? A bola gigante de pedra? As tarântulas? As cobras? Os túmulos egípcios? O Nepal? Todas as personagens?... Há críticas que não consigo mesmo entender... Bem... para mim, não existe melhor filme de acção. É um filme moderno que parece ter estreado ontem, mas que já vai com uns consideráveis 40 anos em cima. Para mim é um daqueles filmes intemporais e perfeito do princípio ao fim. O entusiasmo é tanto sempre que falo no filme que já me esquecia de mencionar os actores. Karen Allen, Paul Freeman, John Rhys-Davies, Denholm Elliott compõe o "núcleo duro" mas não há ninguém que destaque pela negativa. E depois há Harrison Ford, "o" Indiana Jones. Li muita coisa sobre o filme e sobre como Tom Selleck era a primeira escolha e quase ficou com o papel... Não. Não. Não. Toda a lógica do universo diz que apenas Harrison Ford poderia ser o Indiana Jones. Não consigo sequer imaginar outro actor naquele papel.
Raiders of the Lost Ark tem tudo o que procuro num filme de acção: bons actores numa boa história, com um bom ritmo e uma boa banda sonora. Só falta mesmo agradecer ao homem que praticamente sozinho criou o moderno cinema de acção: Steven Spielberg. Raiders of the Lost Ark é um dos filmes da minha vida e sem dúvida o filme que mais vezes vi. É a minha referência para todos os filmes de acção e até ao dia de hoje ainda não superado. Um marco do cinema absolutamente obrigatório. ●●●●● + ●

Baseado numa história verídica. Acho que é assim que convém sempre apresentar a história de Pedro e Inês. É tão inacreditável que parece material de poesia e lendas. Este novo filme de Pedro e Inês baseia-se na história original do Rei D. Pedro e da aia galega Inês de Castro, mas agora com base no romance de Rosa Lobato Faria que muda substancialmente o drama de amor de forma a mostrar a mesma situação ao longos dos tempos. Para além do narrativa clássica passada no século XIV, também se pode ver o desenvolvimento nos dias de hoje, em que os amantes são arquitectos, assim como num futuro distópico em que a história se passa numa realidade pós-civilização.
Como actores temos Joana de Verona como Inês, Diogo Amaral como Pedro, Vera Kolodzig como Constança e Miguel Borges como o infame Pero Coelho, mas o destaque vai para os papéis secundários: Custódia Gallego, a rainha Beatriz e João Lagarto, o rei Afonso IV fazem dois pequenos papelaços e nota-se que estão a léguas dos jovens actores. Sem entrar em grandes pormenores, o que noto é que há uma falta de intensidade dramática gritante aos actores portugueses. Na realidade parecem presos num estranho limbo: estão entre o laxismo das prestações rápidas de telenovela, misturado com aquela performance hiper-teatral de outros tempos.
Em termos de realização tenho que admitir que é a descair para o fraquito. António Ferreira dá um ar de sua graça no início (minúsculo, mas excelente o pormenor com os piscares de olhos) e no final, mas pelo meio tudo é demasiado uniforme e monótono. Não há uma cultura visual no cinema português. Parece que ou há uma coisa (visual) ou outra (narrativa). Não percebo esta lógica. Durante duas horas de filme, o enquadramento do filme é sempre o mesmo... Apenas por uma vez há uma filmagem diferente, fotografada de baixo para cima.
A estrutura da narrativa foi a grande surpresa. Não é que esta divisão em três linhas temporais seja uma novidade, mas está muito bem construída e acaba por ter uma boa fluidez, o que não é propriamente fácil de conseguir. A principio houve ali umas falhazinhas nas transições de umas linhas temporais para as outras, mas depois a coisa foi-se compondo até terminar muito bem.
Apesar da imensa melhoria que tenho notado neste últimos anos nos filmes portugueses, ainda há coisas que falham. A luz e as sombras são um elemento quase ausente e a música é sempre muito fraquinha e quase não tem expressão. Nenhum destes elementos é aproveitado como intensificadores dramáticos. E depois há falhas óbvias, como por exemplo a sobreposição do voz-off na cena em que Inês morre e que é suposto ser a mais dramática do filme... um autentico anti-clímax emocional que eu não consigo compreender. E volto à fotografia e realização... Não há um close-up. Os planos são quase sempre os mesmos. As câmaras estão sempre posicionadas à mesma altura. Não há pormenores... É tudo demasiado uniforme e às vezes o enquadramento e a luz transportam-me para a estética de telenovela. Não sei se será falta de financiamento, tempo ou mesmo falta de jeito e inspiração. O que sei é que acontece e está à vista. Limando estes pormenores, facilmente um filme português poderia rivalizar com qualquer outra produção estrangeira...
Esta nova versão de Pedro e Inês, no geral, até é um filmito consistente, que se vê bastante bem, mas poderia ser muito melhor se tivesse mais alguns pormenores e mais polidos. Os filmes portugueses estão cada vez melhores, mas ainda têm um longo caminho a percorrer... Ainda assim, um filmito muito aceitável. Recomendado. ○○○

Highlander II: The Quickening... O que dizer desta "coisa"? Não é fácil... Depois de 6 anos de interregno, alguém se apercebeu que um filmito sem grande sucesso comercial, lentamente começava a ganhar fãs. E então, porque não fazer um sequela, e dar ao público o que ele quer? Pois então, tomem lá Highlander II: The Quickening. Esta sequela basicamente rasga toda a história do primeiro filme e atira-a para o lixo. Afinal o imortal já não é imortal. Afinal os imortais são extraterrestres e afinal aquela coisa do "haver só um no final" nunca existiu. E quanto à história? Ora deixa-me cá inventar uma coisa estúpida... Por exemplo. Vamos para o ano 2024 e vamos pegar numa coisa da moda, o desaparecimento da camada de ozono. Não sei se alguém ainda se lembra, mas na década de 90, um dos grandes temas da humanidade era o planeta ficar sem a camada de ozono... Comparativamente ao que se passa hoje em dia, é caso para dizer: bons velhos tempos, não?...
A seguir vamos pôr o Connor MacLeod como o engenheiro responsável pela criação de um escudo que protege a Terra. E o MacLeod vai lutar com quem? Já que ele era o último dos imortais, como se viu no último filme... Humm... deixa lá ver... Já sei. Afinal há mais imortais mas estão noutro planeta. Boa Ideia! Bem... Já nem sequer consigo gozar com isto. É tão ridículo e tão mal feito que nem tem graça. Podia chegar ao ponto de ser tão mau que acaba por ser bom, mas acho que até vai para além disso. É simplesmente ridículo. Lembro-me de o ter visto na altura e ter ficado com a sensação de ser roubado. Isto não tem nada a ver com o Highlander. É simplesmente um fraude de bilheteira.
Regressa uma parte do elenco original (Christopher Lambert e Sean Connery), mas de forma claramente chateada e a olhar para a conta bancária com mais atenção do que para o próprio filme. Estrearam-se Virginia Madsen, Michael Ironside e John C. McGinley, mas mais valia terem ficado em casa a ver o primeiro filme. Não há nada que se aproveite aqui. Não sei o que aconteceu com Russell Mulcahy, mas deve ter sido muito grave...
Highlander II: The Quickening é o exemplo mais marcante de tudo o que uma sequela não deve ser. É uma nulidade completa e um desrespeito à originalidade dos filmes. Um rotundo zero. ○○○○○

Não sei se já disse isto, mas Darren Aronofsky é um dos meus realizadores favoritos. É estranho e filosófico o suficiente para eu não conseguir não gostar. Mas reconheço que às vezes as coisas não correm bem. Um desses casos é The Fountain que tem nos principais papéis Hugh Jackman, Rachel Weisz, Ellen Burstyn e Mark Margolis. Escrito e realizado pelo AronofskyThe Fountain é uma procura pela fonte da vida eterna, e por tabela, uma procura por respostas para a vida depois da morte. É uma história não linear que decorre em diferentes períodos da vida de uma personagem, no ano 1500, em 2005 e no ano 2500. A personagem (que em princípio é a mesma apesar da disparidade temporal) é simultaneamente Tomas, um conquistador em procura da árvore da vida para a sua rainha; Tommy, um neurocientista que tenta salvar a mulher de um cancro e Tom Creo, um monge-astronauta que tenta salvar a última memoria da mulher na forma de uma árvore viajando pelo universo numa esfera transparente. Como as histórias vão-se entrelaçando continuamente e decorrem de certa forma paralelas, Aronofsky usou todos os estratagemas visuais e não só, para separá-las e diferenciá-las: por exemplo, cada época usa cores e padrões diferentes. O passado é triangular e dourado, o presente é quadrado e branco e no futuro abundam as formas redondas e o tom prateado. As cores são importantes na mensagem. O dourado para as coisas fúteis e materiais, o branco para a verdade e finitude das coisas e o prateado para as estrelas e a viagem no espaço. Está bem pensado. Aronofsky é um gajo inteligente e incorpora muito bem estes truques de imagética para transmitir sensações. Usar efeitos especiais visuais (sem serem digitais) para manter o efeito de não-tempo do filme dá a impressão que se está ver um sonho e tudo se torna quase onírico e orgânico. A música, composta como habitualmente por Clint Mansell, também ajuda nesse campo. Mais uma jogada de mestre. Até na postura física da personagem de Tom se podem ver estes pormenores em acção. É por causa disto que gosto do Darren Aronofsky... é um gajo que pensa. Mas isso também se pode tornar num problema... quando se pensa em demasia.
Parece que a determinada altura, instalou-se aqui uma certa confusão. Acho que Aranofski foi demasiado ambicioso. As coisas tornam-se tão vagas que fico na dúvida se aquilo é a verdade ou é um sonho. Torna-se tudo demasiado ambíguo. Eu não me importo de aplicar as minhas interpretações pessoais a um filme, mas preciso de saber o que é ou não real para tirar conclusões. A determinada altura já não sabia muito bem o que estava a ver. Alguma coisa falhou neste campo e basta este pormenor que é basicamente o alicerce de todo o filme para perceber que há algo errado: a tal fonte da vida eterna. No título e no início do filme é uma fonte de água que dá a vida eterna, mas praticamente o resto do filme debruça-se sobre a Árvore da Vida, que nas histórias bíblicas é uma árvore no Jardim do Éden e em que os frutos é que dão vida eterna. Confuso?! Eu também fiquei...
Acho sinceramente que Darren Aronofsky começou a juntar demasiada informação (os limites da vida, o amor transcendental, a vida, eterna, ciência, metafísica e religião) e a tentar abarcar demasiadas coisas que acabou por lhe sair um filme inconsistente. Parece que foi um pouco feito à pressa para tentar juntar o máximo possível de elementos. Pelo menos é a ideia com que fico. Algo correu mal e foi nitidamente a meio do processo, porque a história de base parecia estar bem definida.
Não gostei, mas também não desgostei deste The Fountain. Não há dúvida que é algo novo e de certa forma é um filme com valores filosóficos profundos, mas há alguma inconsistência que não sei de onde vem. Mas também deu para perceber que é um daqueles filmes que não se vê à primeira. Tem tantos pormenores e tanta informação visual e simbólica que nitidamente precisa de ser visto, deixar fluir as ideias no cérebro e uns tempos depois, rever para assimilar e tirar novas ideias. Ainda estou na primeira fase. Já o vi há uns anos e ainda hoje me vem à memória, porque não está totalmente resolvido no meu cérebro. Mais cedo ou mais tarde terei de voltar à carga. Mas acho que merece uma visualização atenta. ●●●○

Vamos lá directos ao assunto. Depois de Suicide Squad descambar em sucesso de bilheteira (WTF?!! Como é que isso foi possível?!?), decidiram fazer um spin-off e pegar na única personagem que tinha alguma lógica. E assim chega aos ecrãs Birds of Prey: And the Fantabulous Emancipation of one Harley Quinn. Para além de ter o título mais parvo dos últimos anos, é também o filme mais idiota que vi nos últimos tempos. Tem cenas de porrada em câmara lenta e uma história levezinha para permitir que as personagens progridam pelas várias cenas de porrada até ao final do filme. Para piorar ainda mais a coisa, há uma narrativa hiperactiva, cheia de flashbacks, flashfowards e flashcoisos, a tentar imitar os primeiros filmes de Tarantino, para parecer que é uma coisa super-inteligente. Só que não. É isto: porrada e um vislumbre de uma narrativa como se ele estivesse a formar-se na cabeça de um viciado de crack... Isto é mais uma chachada igual a tantas outras, com a agravante de ser bastante pior. A principal diferença é que é tudo copiado. É uma espécie de Deadpool mas sem piada É uma espécie de Jack Sparrow mas sem estilo. Tudo bem. Nada de novo no panorama cinematográfico actual.
Ok. Mas há algo mais para dizer. Vamos lá a falar do elefante na sala.
Realizado por Cathy Yan e escrito por Christina Hodson, Birds of Prey é uma obra de propaganda girl power. Mais. No mínimo isto é propaganda feminista, no máximo é uma obra misandrista. Tive de ir pesquisar para ver se existia um termo contrário a misógino. Porque é mesmo isso que é este Birds of Prey. São demasiadas evidências, são demasiados pormenores, são demasiadas referências. Quem quiser que veja o que quiser. E isto foi o que eu vi. Aqui, qualquer velhinha de 98 anos consegue derrotar a soco um calmeirão musculado de 2 metros de altura. Aqui o animal de estimação da Harley é uma hiena, pormaior de relevância visto que as hienas são socialmente matriarcais... e um dos animais mais agressivos do mundo selvagem. Mas isto é apenas um pormenor, porque o filme é todo assim. Ewan McGregor e o seu fiel companheiro, Chris Messina estão lá apenas para fazerem de misóginos nojentos. Como qualquer homem do filme, são sádicos, vis e gostam de maltratar e humilhar as mulheres. As pinturas no quarto dele são ofensivamente violentas, ele está constantemente a humilhar e, mais uma vez o pormenor, ele é o líder de uma série de gajos sujos e violentos que andam sempre de máscaras a esconder a cara... É um bocadinho demais, não é? Eu acho ridículo...
Eu compreendo esta nova aproximação feminista no cinema, porque durante muitos anos foram relegadas para segundo plano. Seria justo que tivessem tanto protagonismo como os homens. Acho isso muito bem. Mas quando um filme apresenta os homens como sendo a escória do mundo, acho que a coisa já passa o limite do razoável. #notmetoo. Já chega disto...
Margot Robbie, Rosie Perez, Mary Elizabeth Winstead, Jurnee Smollett-Bell, Dinah Lance e Ella Jay Basco são mulheres invencíveis e como autênticos super-heróis, à porrada, fazem em picadinho qualquer gajo que encontrem pelo caminho, mesmo que sejam às centenas e estejam armados até aos dentes. E não há mais nada para dizer... Quem quiser que tire as suas ilações. A mim já chateia esta coisa do girl power e da emancipação. Tudo o que é demais é erro...
Se a intenção era mostrar que as mulheres podem ser mais fortes que os homens, e neste caso da ficção, queriam criar uma heroína forte e carismática, acho que a intenção saiu totalmente ao lado. O melhor que a dupla Cathy Yan/Christina Hodson deveria fazer era ver umas 12 vezes seguidas o Wonder Woman da Patty Jenkins e da Gal Gadot, e tentar aprender umas coisas. Aí sim, tinham a planta perfeita para um bom filmito de acção com uma excelente heroína que não fica atrás de nenhum homem. Em última análise, o que este filme prova, é que existe uma igualdade muito nivelada, porque tanto homens como mulheres, conseguem fazer filmes de merda. Só me chateia a Margot Robbie que merecia uma coisinha melhor. ○○○○○

Acho que toda a gente conhece o livro do H. G. Wells, The War of the Worlds. Mesmo para quem não leu, como é o meu caso (falha que pretendo resolver muito em breve), acaba por ser um daqueles títulos que parece que existe desde sempre e que é do conhecimento geral. Quando saiu em 1898, foi um dos primeiros livros com a temática do conflito entre humanos e uma outra raça que veio do espaço. Com uma premissa tão potente era uma questão de tempo até que chegasse ao grande ecrã. A Paramount comprou os direitos em 1924, mas só em 1953 é que o filme veria a luz do dia.
Para isso, o estúdio juntou um dos grandes nomes da altura da ficção cientifica, George Pal e deu-lhe liberdade criativa. A realização ficou a cargo de Byron Haskin, um realizador profícuo das décadas de 40 e 50, mas também um dos grandes nomes dos efeitos especiais da época. Teria mesmo de ser um equipa assim, pois The War of the Worlds era o blockbuster de acção e efeitos especiais daquela altura.
Tal como acontece hoje em dia, a acção e os efeitos especiais são os verdadeiros actores principais do filme. Gene Barry e Ann Robinson formam o par romântico, mas as personagens não têm muito relevância na história. A título de curiosidade... Tanto Gene Barry como Ann Robinson contracenaram novamente no remake de Steven Spielberg do The War of the Worlds, interpretando os papéis dos avós dos miúdos, na versão de 2005. É um pormenor importante, porque nota-se que Spielberg fez uma nova versão mais fiel do livro em relação à história original, mas no entanto usou muitos elementos deste filme. Mas isso é outra história.
Pelo que li, o filme tem algumas diferenças em relação ao livro, sendo que isso aconteceu não só por motivos de adaptar a história para o século XX e para o perigo latente da Guerra Fria, mas também porque haviam problemas técnicos caso a adaptação fosse literal. Por exemplo, os célebres tripods foram substituídos pelas máquinas de guerra marcianas porque não havia forma de pôr as máquinas a andar; assim optou-se pelas máquinas voadoras. Também a inclinação para um contexto mais religioso, e o uso da bomba atómica foram uma novidade do filme. No campo técnico, mesmo que os efeitos especiais pareçam amadores ou risíveis, nos anos 50 eram o supra-sumo da arte. Na adaptação do guião, nota-se uma tentativa da produção em ser o mais fiel possível ao livro, mas também se nota uma modernização da história, por forma a ir de encontro com a realidade daquele momento, sendo que o pormenor mais gritante é facto de se estar a entrar num período agudo da Humanidade, como foi o caso da Guerra Fria (entre americanos e russos na sequência do pós-guerra mundial). A própria questão da invasão alienígena não é um mero pormenor, numa América paranóica, em suspense, à espera duma invasão repentina por parte dos russos...
No início do filme é bastante gritante o enquadramento quando mencionam a I e a II Guerra Mundial. Agora a Humanidade seria confrontada com uma nova guerra, mais uma invasão, mas por parte de um inimigo aparentemente invencível. E essa é uma perspectiva totalmente nova.
Por outro lado... os marcianos. Toda esta história acontece, porque os habitantes de Marte têm o seu planeta em perigo. Esgotados os recursos do seu planeta, os marcianos avaliam todos os outros corpos celestes do sistema solar, mas chegam à conclusão que o melhor e mais dotado de todos, é a Terra. E é então que decidem invadir. Dotados de melhores armas, mais inteligentes e em maior número, invadem a Terra, eliminando facilmente qualquer ameaça dos humanos. Quando tudo parecia perdido, eis que a Natureza, mais precisamente a natureza microscópica salva a Humanidade, quando todo o poderio militar nem um dano conseguiu infligir à força invasora.
Acho que é por causa destes pormenores que The War of the Worlds é um história que nunca passa de moda. Para todos os efeitos é um conto moralista que encosta a fanfarronice militar às cordas e nos lembra do nosso tamanho e lugar na vastidão do Universo. É uma história de alerta para a constante arrogância humana e para a nossa forma estúpida de tentar resolver tudo, construindo uma bomba maior que a do vizinho...
Mas não consigo deixar de pensar numa coisa. Numa altura de pandemia, em que um vírus minúsculo, tão minúsculo que é invisível a olho nu, põe literalmente a humanidade de joelhos, à espera em casa, sinceramente pensei que tanto o livro, como este filme voltassem a estar na ordem do dia. De certa forma, nesta nova versão moderna que vivemos hoje, não seremos nós a espécie invasora? Dá que pensar... ●●●

Mason Storm é um detective durão que investiga a ligação entre a máfia, a polícia e políticos corruptos. Para o afastarem da investigação, os mauzões matam-lhe a família toda e, para todos os efeitos, ele também é morto. Mas o que os mauzões não sabem é que Storm não morre assim com tanta facilidade. Não é por levar com dois tiros de caçadeira à queima-roupa que ele se vai abaixo. Storm fica em coma durante uns sete anos e depois de fugir do hospital, vai fazer uma cura asiática milagrosa e sai em busca de vingança... Dito assim, parece estúpido. E em parte, até é um bocadinho. Mas na realidade, esta é a mesma história do Kill Bill... Dá que pensar, não é verdade? A (grande) diferença está na forma como se mostram e se contam as histórias. Bruce Malmuth, por exemplo, é um realizador de TV e pouco mais. Obviamente que isso faz toda a diferença. Não vai inventar nada de novo. Seguiu os trâmites normais dos filmes de acção dos anos 80 e pronto. Introdução, porrada, tiros, um pouco de história, muita porrada, cena de perseguição automóvel, mais um pouco de história, tiros, cena final de porrada e vingança épica consumada, The end.
Desde que me lembro, Steven Seagal faz sempre o mesmo papel em todos os filmes. Deve ser caso único no cinema. Só por isso merece toda a minha admiração. A isto é que se chama consistência. No início da carreira, era grande fã do Seagal. Aqueles movimentos de artes marciais que só ele tinha, as deixas típicas do herói... Apesar de ter aparecido mais tarde que os restantes (só dos anos 90 para a frente), Steven Seagal é um verdadeiro herói de acção e está ao mesmo nível que os míticos heróis da porrada dos anos 80. Claro que ao fim de 7 ou 8 filmes todos iguais, sempre com a mesma personagem, e sempre com a mesma aparência, a coisa começou a cansar-me. Já chegava...
No casting, entre outros, pode-se ver em acção a Kelly LeBrock, "a mulher de vermelho" (se é que alguém ainda se lembra da referência...) que na altura era casada com o Steven Seagal. Também se pode ver o William Sadler, um excelente actor que fazia quase sempre de mau e Frederick Coffin, um outro excelente actor que fazia quase sempre de bom.
Não sei porquê, mas gosto de alguns destes filmes "maus". Há qualquer coisa neles que me fascina. E é preciso entender que estes filmes são assim fraquitos, mas há condicionantes por trás. Os filmes tinham de ser condensados nos 90 minutos habituais da altura. Ninguém via filmes mais compridos em termos de duração, isso era para os filmes intelectuais... O resto simplesmente tinha de sair fora. Na melhor das hipóteses ficava para o trailer, e por isso é que nos anos 90, muitas cenas que se viam nos trailers depois não apareciam nos filmes... Tempos estranhos... Na pior das hipóteses era cortado e se a história ficasse com falhas no argumento... who cares? O importante eram as cenas de porrada e acção. Alguém queria lá saber da história para alguma coisa...
Hard to Kill é mais um filmito de acção e porrada entre muitos outros da altura, mas que eu gosto por qualquer motivo estranho. É nitidamente mais um caso de puro saudosismo... (2)

Para comentar decentemente um filme como Edward Scissorhands, eu deveria ter aqui a tocar a música do Danny Elfman. Como não é o caso, a única coisa que posso dizer é que gosto mesmo muito este filme. Gosto de tudo sem excepção. Gosto do estilo, da história, da música, da inocência, do drama, da fantasia... de tudo. Não tenho uma única coisa a apontar a Edward Scissorhands. É uma moderna alegoria perfeita. É a magia do cinema e das histórias na sua forma mais simples, mas que no entanto toca nos pensamentos filosóficos mais profundos da mente humana. Tem metáforas potentes. Basta pensar que Edward, para além do look infantil com o cabelo do Robert Smith, é para todos os efeitos um ser imortal. Incompleto, mas imortal. Na realidade, para além dos cenários bonitos da suburbia americana, Edward Scissorhands é uma visão sobre a sociedade actual, a partir do ponto de vista de um ser imortal e solitário que quer misturar-se e ser uma personagem normal como todos nós. Poderia estar aqui um dia inteiro a aprofundar os grandes significados e pensamentos que me ocorrem sempre que me lembro deste filme, mas não me apetece. Para isso é que inventaram a internet. Há milhões de sites que misturam as ilações da história de Edward Scissorhands com os grandes temas filosóficos. Para mim, é mais um filme "inocente" que um filme filosófico, apesar de lhe reconhecer a mesma qualidade. Tem uma qualidade inerente, tão infantil, que me enche o coração e me deixa melancólico. É um filme que mostra as qualidades e defeitos da sociedade humana, visto por uma personagem muito especial (nitidamente é a visão do Tim Burton sobre o mundo), mas que tem uma esperança final que tudo acabe bem. É um foco de luz na escuridão. É a viagem de uma alma humana pelos ruas da sociedade. Bem, acho que estou a divagar novamente...
A grande fatia do sucesso de Edward Scissorhands tem de ser atribuída ao Tim Burton. Não só pela realização que busca inspiração nos grandes filmes clássicos iniciais do terror e suspense, mas também na estética e, lá está, na inocência original desses filmes. Se calhar o termo inocência nem é o melhor termo, o melhor seria ingenuidade... ou ainda melhor, pureza. Pureza não está ligado directamente a conceitos como bom ou mau, é mais um conceito tipo Frankenstein quando ele atira a miúda para o lago. Há danos, claro que há danos, mas não são fruto da maldade. Os filmes iniciais de Tim Burton, e este em particular, tem muita dessa qualidade. Burton já tinha consolidado uma carreira e uma filmografia "diferente" com Beetlejuice e Batman, mas com este filme estranho de um jovem imortal mas incompleto, com tesouras em vez de mãos, ele conseguiu criar um novo tipo de cinema e estilo: o filme "Tim Burton".
Não consigo ver mais ninguém no papel de Edward Scissorhands para além de Johnny Depp. É mais um daqueles casos em que um actor nasceu para um papel. Winona Ryder no pico das performances, Dianne Wiest na perfeição e tantos outros como O-Lan Jones, Alan Arkin, Anthony Michael Hall ou Kathy Baker, todos impecáveis. Obviamente, tenho que fazer um destaque muito especial para o Vincent Price que é uma das peças chave do filme, mesmo que só apareça por breves instantes. Logo à partida por ser uma lenda do cinema. E não só, porque aquela voz fantasticamente gutural do Thriller do Maichel Jackson é dele. É um actor com mais de 200 filmes no currículo e que faz parte do meu imaginário através dos filmes de terror antigos. É um dos verdadeiros mestres do terror e uma figura já mitológica da história do cinema. Acresce dizer que este foi o último filme em que participou, e para completar a mitologia, a última cena em que aparece num filme, é a da sua própria morte. Lendário.
Tim Burton criou aqui uma simbiose estranha que ainda funciona hoje em dia; misturou com sucesso a negra visão gótica, mas inocente dos antigos filmes de terror como uma inovadora estética, às vezes quase em tom pastel. Mas isso não se passou apenas do campo visual. Esta lógica manteve-se em todos os aspectos e o resultado foram histórias totalmente originais. Edward Scissorhands faz parte do meu imaginário e está arquivado no mesmo sítio dos grandes histórias clássicas tipo Alice no País das Maravilhas... (acho que não é coincidência que Burton tenha mais tarde adaptado a história para cinema...) Que originalidade. Que novidade. Que coisa tão diferente. Não tenho muito mais adjectivos. Edward Scissorhands entrou directa e imediatamente no lote de filmes clássicos e intemporais porque é um versão moderna das grandes fábulas da humanidade. Essencial. Perfeito. Perfeitamente intemporal. Um dos meus filmes preferidos de sempre. ●●●●● + ●

Another 48 Hours tentou capitalizar o enorme sucesso que foi o 48 Hours. Cai em termos de qualidade, porque é mais do mesmo, excluindo tudo o que eram bons pormenores do primeiro filme. Não houve progressão. Foi quase como um novo episódio da série. Está à vista que isto foi uma manobra de estúdio: Vamos fazer uma sequela e vender mais bilhetes, e não uma questão de haver mais alguma coisa para contar ou acrescentar. Do ponto de vista da intenção do estúdio foi uma estupidez porque entretanto passaram-se 8 anos entre os dois filmes. O público provavelmente já nem era o mesmo do primeiro filme. Basicamente, criaram aqui um episódio seguinte, um bocado como acontece hoje em dia. Mas no principio dos anos 90 o público não estava para estas coisas. O pessoal queria ver coisas novas e não repetições ou continuações de histórias. E não perdoava. A dupla acabou, mas ficou o conceito e ainda não parou de ser explorado. Se no primeiro filme elogiei todas as pessoas envolvidas acho que é justo virar o argumento ao contrário e não atirar todas as culpas para a ganancia infinita dos estúdios. Walter Hill, Eddie Murphy, Nick Nolte e toda a restante equipa estiveram mal. Foram simplesmente atrás do dinheiro e pronto, foi isso. Portanto vou dar todo o destaque para os secundários Brion James, Kevin Tighe e Ed O'Ross, gajos que nunca tiveram protagonismo, mas que sempre reconheci como muito bons actores. Entretanto esquecidos pelo tempo, estes três acompanharam-me ao longo de anos e junto têm mais de 300 filmes no currículo. Três pancadas no peito para os grandes secundários do mundo do cinema e de Hollywood.
Another 48 Hours é a sequela típica, precursora dos fenómenos comerciais de hoje em dia: sem nada para acrescentar, sem nada de novo, apenas uma reciclagem de uma fórmula anterior que teve sucesso. Fraquinho, mas ainda se vê. ○○○

A Marvel tem muitos super-heróis. Tem uma panóplia aparentemente infindável de figuras que em princípio dá-lhes material para fazerem filmes para aí até ano de 2067. No entanto, este universo tem duas falhas primordiais que são propriedade dos seus arqui-inimigos da DC Comics.
A primeira é que não tem grande equilíbrio de poderes entre os super-vilões e os seus super-heróis. Têm sempre de inventar um ser qualquer vindo do espaço ou de outras dimensões, para pelo menos equivaler o poderio dos super-heróis. Logo à partida, isso é uma falha porque não há empatia possível, nem há hipótese de "dualizar" os super-vilões; são sempre seres vis que só querem a destruição total da humanidade. É um bocadinho infantil demais, até para coisas de super-heróis. Na mitologia clássica, as histórias perduram no tempo, porque mesmo os piores vilões têm algo que é humano, que permite algum tipo de empatia ou pelo menos de compreensão.
A outra grande falha do Universo Marvel é... não ter o Superman. O super-herói dos super-heróis. Tenho a certeza que se pudesse, a Marvel vendia três dúzias dos seus melhores heróis só para poder contar com o melhor, mais completo e mais complexo de todos os super-heróis que é o Superman. Como isso não é possível, a Marvel criou uma cópia. Neste caso, uma "Superman". Obviamente que nunca funcionou, não funciona e nunca irá funcionar porque... não é possível melhorar o original. O máximo que a Marvel se pode contentar é ficar os imensos lucros de fazer filmes com um sucedâneo. A DC Comics tem os melhores super-vilões e o melhor super-herói. A Marvel tem tudo o resto e a vantagem de ter uma equipa de produtores que conseguem fazer filmes (ligeiramente) melhores e mais rentáveis. Já não é mau. Não se pode ter tudo.
Dito isto, chega-se a Captain Marvel... que é mais um exemplo perfeito de um filme copy/paste da Marvel. O mesmo esquema narrativo, a mesma história de super-heróis, a mesma história de super-vilões... sempre tudo igual. É o que se costuma dizer: em equipa vencedora não se mexe. E também para quê? Afinal, os bolsos e os apetites dos fãs são infindáveis, não é verdade? Comem tudo o que lhes aparece à frente, portanto para quê mudar?...
Realizado pela dupla Anna Boden e Ryan Fleck com os actores Brie Larson, Samuel L. Jackson, Ben Mendelsohn, Jude Law, Annette Bening e Djimon Hounsou.
O que é que posso dizer mais, quando a única coisa que ecoa na minha cabeça é o som de pipocas a estalar?... Nada... ○○○

Era um grande fã da série The Twilight Zone. Não perdia um episódio. Olhando em retrospectiva, The Twilight Zone é provavelmente um dos eventos televisivos que mais influenciou não só a minha maneira de ver filmes como também a minha própria maneira de pensar. É pura imaginação à solta. Tudo era possível e nada era impossível talvez fosse a lógica mais marcante da série que passou para minha mente. Pegava em conceitos quotidianos e extrapolava, extrapolava, extrapolava... até que chagava a um sítio tão distante que só poderia ser uma... Quinta Dimensão.
Seguindo uma lógica diferente da habitual, uma série de TV com sucesso a nível planetário, fez o caminho óbvio e saltou dos então minúsculos ecrãs de TV para aterrar nos imensos ecrãs do cinema. Esta solução parecia irremediavelmente destinada ao sucesso mas, como tudo na vida, às vezes as coisas não acontecem como planeado. Twilight Zone: The Movie foi um fiasco comercial e para além disso ficou ligado a uma das grandes tragédias e polémicas do mundo do cinema.
Sem ter um caminho muito bem definido, a produção simplesmente coloriu e adaptou histórias do imenso universo da Twilight Zone. Há um prólogo e quatro segmentos, como se fossem 4 episódios isolados. o episódio 1 (Time Out) é sobre um homem intolerante que se vê misteriosamente transportado para cenário em que é confrontado directamente com a sua própria intolerância. O episódio 2 (Kick the Can) conta a história de um velhote com poderes mágicos que visita um lar de idosos. No episódio 3 (It's a Good Life) temos a história de um miúdo com uma imaginação prodigiosa. E no episódio 4, o mítico (Nightmare at 20,000 feet) em que um escritor com medo de voar vê algo assustador na asa do avião...
Este foi logo um dos problemas. "Não é um filme: são quatro episódios numa cassete", foi o que pensei na altura, quando comecei a ver o VHS que tinha trazido do videoclube. E para quem tinha visto tudo o que havia para ver da mítica série seria muito difícil escolher o melhor dos melhores, porque simplesmente, era uma tarefa impossível. De uma forma ou outra, (quase) todos os episódios eram muito bons. Foi isso que cristalizou o sucesso da série na mente do público. Fazer uma escolha assim tão pequena, ia ser sempre uma escolha muito arriscada. Talvez por isso mesmo, os estúdios escolheram actores com algum peso na altura como Vic Morrow, Dan Aykroyd, Albert Brooks, Kathleen Quinlan e John Lithgow e passou a realização para as mãos das estrelas mais promissoras daquele momento. Joe Dante realizou It's a Good Life; George Miller fez o Nightmare at 20,000 Feet; Steven Spielberg realizou Kick the Can e John Landis esteve no prólogo e no episódio Time Out. Este é o episódio que viria a tornar-se memorável pelas piores razões. Durante as filmagens, numa cena que se passava no Vietname, um helicóptero despenhou-se, causando a morte imediata de Vic Morrow e de duas crianças, Renee Chen e My-ca Dinh Le. Para piorar ainda mais a situação, as crianças nem sequer estavam registadas oficialmente como actores para poderem filmar durante a noite, o que já altura não era permitido pelos estúdios e pela legislação em vigor. A produção foi terminada à pressa. John Landis foi acusado de homicídio... Correu tudo mal.
Durante algum tempo, este filme fascinou-me precisamente por causa deste episódio. Li muita coisa sobre o assunto para perceber como é que um acontecimento desta gravidade tinha acontecido em Hollywood. Aliás, é sempre mencionado quando se fala na questão da segurança dos actores. Foi até determinante para isso, porque depois deste acidente, muitas das práticas correntes no meio foram alteradas para sempre. Curiosamente, este foi o único episódio que não era um remake de espisódios da série. Todos os restantes eram novas adaptações e este era o único original. Também foi por causa deste acidente que o filme ficou desconexo. Era suposto haver um a ligação no final que juntasse o prólogo e os quatro episódios, mas devido ao acidente, o filme acabou por ser fechado à pressa. Mas quando em cima de um filme está o ónus da morte de um adulto e duas crianças com menos de 10 anos, a qualidade e consistência são um pormenor absolutamente irrelevante.
Foi pena. Rod Serling, o mítico criador da série The Twilight Zone merecia uma homenagem à maneira. O destino não quis deixar. ○○○

O ano é 2065. A terra foi devastada pela invasão de uma misteriosa raça de extraterrestres parecidos com espíritos. A humanidade está de joelhos e a única esperança recai sobre Aki Ross, uma jovem e brilhante cientista, que luta contra o tempo para salvar o planeta e também a si, já que foi infectada, como aconteceu como a maior parte da população. Para isso vai ter a ajuda preciosa de um grupo de militares liderado pelo seu namorado. Pelo meio vão ter de enfrentar também o General Hein que tem um plano para destruir de uma vez por todas os extraterrestres, nem que para isso tenha de destruir o próprio planeta.
Nos últimos anos, o mundo dos videojogos tem tomado de assalto o mundo do cinema. Não só tem sido material para adaptações, como de certa forma, tem vindo a influenciar a forma como a narrativa dos filmes tem evoluído. A lógica de plataformas há muito que foi abandonada nos jogos. A lógica mais recente é ter uma narrativa do género: ir em busca de uma chave que permita abrir uma porta, que revela uma nova chave para abrir uma outra porta. Em parte, este truque simples de empurrar a narrativa para a frente sem acrescentar muita história e intercalar com cenas espectaculares de acção, tem sido o motor da maior parte dos filmes de acção dos últimos anos. Mas este não é o caso. Apesar de estar carregado de cenas de acção, Final Fantasy: The Spirits Within segue mais uma lógica de anime, com uma aproximação mais filosófica do que os filmes americanos. Esta é uma vantagem porque o filme não se torna tão entediante e até tem alguma substância. Obviamente, essa foi a razão do seu insucesso. O público não estava muito virado para este tipo de narrativas. O filme esteve tão mau nas bilheteiras que levou a produtora Square Pictures à falência.
Final Fantasy: The Spirits Within é um portento técnico que levou quatro anos a ser concluído. Foi a primeira longa-metragem animada por computador que tinha humanos "verdadeiros", ou melhor dizendo, personagens humanas foto-realistas. Nunca se tinha visto nada igual. O filme foi tão avançado para o seu tempos que ainda hoje se aguenta bastante bem. A técnica de captura de movimentos que foi pioneira aqui, foi aproveitada logo de seguida para criar uma personagem conhecida de todos, o Gollum do Lord of the Rings. E é esta técnica, entretanto aprimorada, que ainda hoje se usa. É fantástico. No entanto, na altura era terreno desconhecido. Nunca ninguém tinha feito nada do género. A evolução no campo técnico foi de tal forma rápida que quando chegaram ao fim da produção para fazer a montagem final, tiveram de refazer a parte inicial do filmes porque já se notava a diferença na qualidade da imagem.
Para além da parte técnica, Final Fantasy ainda levantou questões novas. Dar vozes a desenhos animados, não era novidade. Mas dar vozes a figuras humanas digitais já era outra história. Ficaram célebres as reacções precipitadas de alguns actores que perceberam que podiam ficar no desemprego para sempre se a moda de "criar" actores virtuais pegasse na indústria. Tom Hanks foi uma desas vozes e Matt Dillon, que tinha o segundo papel mais importante, recusou participar no filme quando viu a qualidade das imagens. Afinal, não aconteceu nada... Para já...
Ming-Na Wen, Alec Baldwin, Ving Rhames, Steve Buscemi, Donald Sutherland James Woods dão as vozes aos corpos digitais.
Escrito e realizado por Hironobu Sakaguchi (um mago dos videojogos), Final Fantasy: The Spirits Within é um daqueles filmes que me ficou na memória. Não só pela questão técnica que me deixou de boca aberta durante muito tempo, mas também pela lógica filosófica subjacente. As potencialidades da história e da narrativa são tão grandes que não tarda nada, deve regressar na forma de série de TV. É quase certo. Só basta alguém na Netflix ler este texto para se aperceber que o filme existe... Já está um pouco datado no tempo, mas ainda assim vê-se muito bem.  ●●●○


Joker é um excelente filme e foi totalmente inesperado. Mas também é um filme perigoso. E é perigoso porque em traços muito gerais diz: matem os ricos. O dinheiro é a raiz de todos os males e os ricos, porque têm muito dinheiro, são as folhas que brotam da raiz do mal. Não é por nada que após a estreia do filme, venderam-se milhares de máscaras do Joker e elas apareceram misturadas em manifestações juntamente com a máscara também icónica do Guy Fawkes. De certo forma, elas representam a mesma coisa: a oposição à massa elitista e reinante que menospreza o "pequeno e anónimo cidadão", que não é mais que um "criado" destinado a servir o "amo". Joker tornou-se imediatamente num símbolo. Aquele look tornou-se numa máscara para representar os oprimidos... Pensando um bocado no estado do mundo, cheira-me que, mais cedo ou mais tarde, vamos ver muitas máscaras destas por aí...
Mas deixando as questões das desigualdades económicas e sociológicas para outra altura, a personagem do Joker é talvez o melhor vilão de sempre. Já é a terceira vez que faz aparições memoráveis. Jack Nicholson (como sempre a fazer dele próprio, que é como quem diz, excepcional), Heath Legder (sem dúvida nenhuma, o melhor de todos) e agora Joaquin Phoenix (noutro registo completamente diferente). Três grandes actores a darem corpo a uma personagem que tem lentamente evoluído para algo muito maior que simplesmente ser o "mau" que se opõe ao Batman. Como personagem, a vantagem de Joker em relação a outras personagens da BD é que ele não tem uma história de fundo. Não existe a históoria de como surgiu o Joker. Cada um pode imaginar o que quiser. É por isso que ao longo do tempo, e conforme o filme em questão, Joker tem vários nomes e nunca ninguém percebeu muito bem porque é que ele é assim, porque é que tem aquela aparência ou porque é que ele tem os impulsos maníacos que tem. É um vilão sem amarras e sem história. O que o torna no mais perigoso de todos.
Mas neste filme, o Joker é muito mais que um vilão. Aqui, nem sequer parece fazer parte do universo DC Comics e do mundo fantástico dos super-heróis e super-vilões. Aqui, Joker é um gajo "normal". Ele não quer dominar o mundo, tornar-se líder do sub-mundo do crime ou perseguir os bons da fita porque é o "vilão" e é isso que uma pessoa espera. Joker é simplesmente uma figura que tenta fazer pela vida, que quer ter uma vida normal, mas que é menosprezada, espancada, espezinhada e posta de parte da sociedade, porque é diferente dos restantes. E quando uma personagem destas se "passa" da cabeça e consegue ganhar algum protagonismo e poder, eventualmente, alguém vai pagá-las. Por isso é que eu disse que Joker é um filme perigoso. É que isto já não é ficção. Isto já não é um super-vilão. Isto já alcança a realidade do dia-a-dia e isto revê-se na actualidade. De certa forma, está implícito que ao virar de uma qualquer esquina pode aparecer o próximo Joker. E pode vir armado. Ou vir acompanhado com outros Jokers. Por isso, Joker não só é um filme perigoso, como é complexo na forma como vê e mostra a sociedade e por causa disso vai ser sempre polémico. Ultrapassa a ficcionalidade do cinema e ocupa as ruas.
Não deixa de ser curioso que seja um realizador de comédia a pegar no Joker desta forma. Faz todo o sentido. Não há nada pior que um palhaço frustrado e humilhado. Acho que Todd Phillips deu um salto épico em frente, na forma como pegou no tema. O filme é excepcional pela intensidade e pela tensão constante. Muito rapidamente uma pessoa se apercebe que está a ver um drama moderno e não um vulgar filme de super-vilões.
A ambiência do filme é do melhor que já tenho visto e isso em parte é devido à banda sonora original de Hildur Guðnadóttir que é excepcional. A música é tão importante neste filme porque ela foi criada à posteriori para que pudesse dar o tom certo às próprias filmagens. E mesmo a música que não foi composta para o filme foi espectacularmente bem escolhida. Aquele Joker completamente fora da realidade, a dançar a escadaria ao som daquela música imaginária que só passa na sua cabeça... Já é uma cena icónica do cinema. Não é todos os dias que se vê uma coisa dessas acontecer. É preciso ver muitos filmes para encontrar momentos únicos deste género. Mas os pontos positivos são muitos mais. A cinematografia e a estética visual tem óbvias influências dos filmes "violentos" de rua da Nova York dos anos 70, como o Death Wish, o The French Connection ou o Taxi Driver. Foi mais uma excelente escolha, porque cria um ambiente que é imediatamente reconhecível.
O casting é todo muito bom (Zazie Beetz, Frances Conroy, Brett Cullen e com Robert De Niro à cabeça porque já é uma lenda viva), mas como é óbvio todo o destaque tem de ir para Joaquin Phoenix, porque simplesmente rouba todo o show. É mais uma daquelas interpretações que vai ficar para a história. Não só pela questão física (Phoenix absolutamente esquelético e quase irreconhecível) mas principalmente pela carga psicológica que consegue transmitir e que passa para a tela. Genial. Acho que é mais uma performance que vai deixar marcas no actor. Nota-se que aquilo foi tão emotivo, tão visceralmente profundo, que Phoenix ficará marcado pelo Joker para sempre. Há alturas que eu noto que o "Método" leva o actores um pouco longe demais; vão tão para dentro das personagens, que quando saem, um pouco da personagem vem com eles: acho que este é mais um dos casos. Mas também o Joaquin Phoenix sempre teve aquele crazy eye característico... e sempre achei que vivia muito mais gente dentro daquela cabeça. Joaquin Phoenix é um gajo à maneira...
Nos últimos tempos, não me lembro de ter visto um filme que me enchesse tanto as medidas como este Joker. Brilhante. Surpreendente. Faltam-me adjectivos. Não estava nada à espera desta pancada. Pensei que ia ver um filme normal e sem dúvida nenhuma, acabei por ver o melhor filme de 2019. We are all clowns. Obrigatório. ●●●●●

Durante muito anos, ouvi falar de um filme de guerra que supostamente era o melhor de sempre. Tive a sorte e o privilégio de poder assistir a uma reposição numa sala de cinema. Ia com a expectativa no máximo, o que nunca é bom, porque pode facilmente derrapar para a decepção. Na realidade, o filme é bastante longo e lento, mas isso já sabia. Como tinha a sensação que ia ser uma visualização dura, preparei-me mentalmente, mais como se fosse encaminhado para um experiência nova do que para ir ver um "simples" filme.
Um filme de guerra baseado em eventos verídicos, passado na Bielorrússia, onde durante a II Guerra Mundial, um quarto da população daquele país foi chacinada pelos nazis, e tudo isto observado, durante mais de 2 horas, pelos olhos de um adolescente, eu já sabia que não ia ser fácil de ver. O filme começou e para ser totalmente sincero, ao fim de 30 minutos já começava a pensar que tinha sido enganado. O filme é absurdamente lento parece que não tem uma direcção definida e as personagens parecem todas meio loucas. A história parecia que não ia passar daquilo. Ao fim de quase uma hora de filme estive quase a desistir. As performances hiper-exageradas dos actores, mais teatrais que outra coisa, o contínuo do som estridentemente irritante e a lentidão exacerbante da narrativa estavam a dar cabo de mim, tanto mentalmente, mas até fisicamente. Tinha dores nas costas e estava irrequieto numa sala de cinema reconhecida pelas suas cadeiras desconfortáveis. Mas então, tal como as bombas que repentinamente caiam sobre as personagens, de repente, as coisas mudaram.
Vem e Vê (Idi i smotri, no título original) começa verdadeiramente a ganhar tração. Todo aquele tempo, que pareceu desperdiçado, era uma espécie de preparação mental para o que vinha a seguir. A partir daí, começa a entrar nos campos do sublime. A loucura toma conta do filme e a determinada altura, esqueci-me que estava a ver uma peça cinematográfica. Tornou-se verdadeiramente numa experiência. Entra-se num cenário de guerra. Sente-se o terror. Cheira-se a loucura. O zumbido constante torna-se numa linha de continuidade a que uma pessoa se quer agarrar.
Vem e Vê é um dos poucos filmes de guerra em que se começa a detestar a guerra. Ela não é dramatizada ou glorificada; é odiada. Por isso é que Vem e Vê é um dos grande clássicos do cinema. É um filme de guerra potente porque Elem Klimov nos" obriga" a olhar para o ecrã, para aquelas atrocidades todas e a pensar que aquilo não é natural; aquilo não deveria existir. Como é que situações daquelas foram possíveis? Vem e Vê mexe com o cérebro de uma pessoa. É um daqueles filmes que não se esquece porque é como estar a ver o Inferno na Terra. Tecnicamente é irrepreensível, mas a nível dos actores é algo do outro mundo. É duma intensidade que dá arrepios na espinha. Aleksey Kravchenko. Uou! Que tour-de-force. Que coisa espantosa para um miúdo. Uma actuação única e para a história. Nem parece verdade. Parece que o miúdo não está a representar um papel num filme. A determinada altura, parece que ele viveu mesmo todos aqueles momentos horrendos. Ao seu lado, um fantasma. Não sei a experiência foi demasiado perturbadora, mas Olga Mironova não fez mais filmes depois deste. E mesmo com a net intrusiva que temos hoje em dia, boa sorte a tentar encontrar uma biografia. Um mistério...
E depois, o final. Um dos melhores finais de todos os tempos. Quando uma pessoa, começa finalmente a respirar de alívio porque percebe que o filme caminha para o seu términus, Vem e Vê pega nos nossos neurónios e leva-nos a dar uma volta fantasiosa para trás no tempo. Depois põe-me em lágrimas com a música mais bela e triste de sempre e impõe uma questão bastante pertinente: e se pudéssemos voltar atrás no tempo para evitar tudo aquilo que se acabou de ver? E se para isso fosse preciso fazer "aquilo"? (não quero estragar o final, porque esta é a melhor parte). E é essa questão que ainda permanece em disputa na minha cabeça, tanto tempo depois de ver o filme. Há muito poucos filmes que me põe realmente a pensar e em que eu não tenho uma reposta concreta e absoluta. Vem e Vê é um deles. Confrontado com aquela situação final, o que faria eu? Sinceramente não sei responder e mesmo que conseguisse responder, não sei que o conseguiria concretizar. Este é o poder dos grandes filmes. Perduram nos nossos cérebros para sempre. Vem e Vê muito provavelmente só sairá do meu circuito de neurónios, quando eles deixarem de funcionar. Vem e Vê correspondeu totalmente ao que esperava. É uma obra essencial e obrigatória. ●●●●●

 
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