0489 Nikita
Posted by artzzz333
Posted on 18:52
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Em 1990, já tinha visto umas centenas largas de filmes. Provavelmente já iria na casa do milhar, provavelmente, não. Sinceramente, não consigo quantificar. Mas sei que devido à pouca idade e experiência, tinha uma perspetiva muito limitada e estereotipada do cinema. Nessa altura, havia três formas de ver filmes. No cinema, em que via os filmes americanos, que apesar de diferentes dos dias de hoje, eram mais os menos a mesma coisa: acçao e efeitos. Em casa, na tv, por um lado, via os filmes portugueses a preto e branco, do tempo da "outra senhora", westerns (maioritariamente americanos) que ainda rodavam com alguma frequência, mas por outro lado via os "filmes de seca", os "intelectuais", e os "estranhos" do então "elitista" segundo canal da TV, que quase ninguém via (acho que isso ainda se mantém nos dias de hoje...). Normalmente, filmes europeus, maioritariamente franceses, que na altura eram uma seca monumental porque, tal como dizem os miúdos hoje em dia, eram só "gajos a falar"... Não acontecia nada... Não havia acção, não havia efeitos especiais... Nada. Só gajos a falar de coisas da vida... E quando parecia que ia começar a interessar... acabava! E eu não percebia nada daquilo. Simplesmente não tinha massa intelectual suficiente para entender aqueles filmes. Muito provavelmente foi isso que me levou a criar a ideia que os filmes franceses eram um seca. E criei um rótulo na minha cabeça. O que levou a criar a fantasia de que francês (ou outro europeu qualquer) e acção simplesmente não eram conceitos que pudessem ser misturados. No entanto, começava a cristalizar-se outro conceito de consumo de filmes: os videoclubes. Era a Netflix da altura. Pensando bem, era mais ou menos a mesma coisa, menos a comodidade. Vendo bem, a grande diferença desse tempo para agora é que os videoclubes não faziam documentários e filmes próprios. Tirando isso, e o facto de um gajo não ter de ir lá à loja buscar o filme e depois entregá-lo no dia seguinte rebobinado. Mas adiante...Uma vez trouxe do videoclube um filme de acção chamado Nikita sem perceber que estava a levar para casa um filme francês. E, pronto! Mudou totalmente a minha perspetiva. Em duas horas, tive de comer todos os rótulos e estereótipos que tinha colado aos filmes franceses. Pior ainda: tinha descoberto que os franceses (e um filme em língua francesa) conseguia ser melhor, em termos de acção, que os melhores filmes americanos. Como é que isso era possível? A resposta era simples: Luc Besson. Mudou totalmente a minha percepção do cinema. A partir daí abriu-me a mente e comecei a ver os filmes europeus como uma alternativa para melhor ao cinema "americano". Foi uma reviravolta inesperada.
Mas à parte de toda esta questão percepcional, Nikita, a jovem degenerada e drogada, depois transformada em agente de elite dos serviços secretos franceses (uma moderna Cinderela, se quisermos ver isto dum prisma totalmente distorcido...), continua - mesmo depois destes anos todos - a ser um excelente filme de acção e totalmente actual. Apesar de parecer sempre muito crítico relativamente ao género de "acção", é talvez a minha temática favorita logo a seguir à ficção científica. Quem é que não gosta de um bom filme de acção? Acho que toda a gente com menos de 75 anos... Mas tem de ter alguns critérios. Tem de ser comedido, mas ao mesmo tempo explosivo e imprevisível, tem de ter uma boa história e tem de ter obrigatoriamente bons actores e boas representações (como as de Anne Parillaud, Tchéky Karyo, Jean Reno, Jean-Hugues Anglade e Jeanne Moreau). Quem é que não se lembra do Victor? Uma personagem tão impactante que apesar de estar apenas 10 minutos em cena, parece que faz parte do filme todo? Só por este "pormenor" se percebe que se está a ver um bom filme... Mas para mim, a qualidade essencial é que tem de ser "adulto". E tem de ter algum "miolo"... É perceptível, isto do "miolo"?... Basicamente, tem de ter aquilo que falta em quase todos os grandes filmes de acção do momento. Senão, são só explosões e chapadas... Qualquer é o interesse disso?
Pela simplicidade, pela inovação, mas especialmente pela qualidade e intemporalidade, Nikita é altamente recomendado. ●●●●○
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