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O livro da Agatha Christie, Murder on the Orient Express é vagamente inspirado no famoso caso Lindbergh, que envolveu raptos e mortes. Se a história real já é mais estranha que a ficção, o livro da Agatha Christie sublima ainda mais o enredo. É das melhores e mais bem construídas histórias policiais que conheço. Não admira que já vá para aí na quarta adaptação. Mas tudo começou aqui com este Murder on the Orient Express realizado por Sidney Lumet.
Mas antes de mais nada tenho de afirmar que este livro nunca mais devia ser adaptado para cinema. Quer dizer, "nunca mais" também é um bocado radical. Uma adaptação de dez em dez, ou vinte em vinte anos, apenas para uma nova geração de espectadores que não se dão ao trabalho de ir ver o que está para trás. Esta história em particular não deixa margem de manobra para nada. O final é tão epicamente surpreendente que é impossível de ser mudado. E um realizador que pegue novamente na história vai estar sempre preso a ele. Se não muda o filme, vai de encontro a todas as outras adaptações já feitas, mas se muda alguma coisa, irá estar a desvirtuar a história, e ainda por cima não estou a ver em que é que possa ser melhorada. É a velha questão de ser preso por ter cão e ser preso por não ter...
Esta adaptação de Sidney Lumet, surpreendentemente (vindo de quem vem) nem é grande espiga, apesar de estar tudo muito bem feito. Na altura da estreia foi um sucesso precisamente por ter sido a primeira adaptação, mas tirando isso, não é um filme muito satisfatório. O look anos 70 também não ajuda. A história da Agatha Christie é espectacular, mas o twist final só funciona uma vez. E de cada vez que vejo um nova versão acabo por me entediar... É basicamente o que dizia no início... É a verdadeira faca de dois gumes. Estranhamente isto também se aplica neste filme, porque entretanto já vi todos os outros filmes antes deste. Para uma pessoa que veja o filme agora, pela primeira vez, ele acaba por funcionar como mais uma versão da história.
Ainda por cima esta primeira tentativa cinematográfica não tem uma estética forte e aquelas carruagens e cenários exíguos também não davam muita margem de manobra para uma grande realização. Quer dizer, Lumet realizou um dos grandes thrilllers do cinema apenas numa sala... Bem, mesmo os grandes realizadores têm os seus maus momentos... O grande apelo do filme acaba por residir nos actores. E nesse aspecto é um festim de lendas do cinema...
Albert Finney, Lauren Bacall, Ingrid Bergman, Jacqueline Bisset, Jean-Pierre Cassel (pai do Vincent Cassel), Sean Connery, John Gielgud, Anthony Perkins, Vanessa Redgrave, Michael York... e a lista continua... Tudo muito bem, com um pequeno reparo... Albert Finney como Hercule Poirot... não!. Reconheço o esforço na criação da persona, mas não. Aquele não é o Poirot que existe na mentalidade colectiva. Tem a sua piada de vez em quando, mas acho que está desfasado da "realidade". Não "é" o Poirot... é um actor a esforçar-se ao máximo para tentar ser o mais parecido possível com "o" Poirot, que como toda a gente sabe foi encarnado no eterno David Suchet.
Esta primeira versão de Murder on the Orient Express não está má, mas podia ter sido muito melhor. Digamos que foi uma boa primeira tentativa... ●●●○


PS: Sem querer estregar o filme, fica apenas a informação que dos mais de 70 livros que Agatha Christie escreveu, este é o único em que no final o verdadeiro assassino não é levado à justiça... Mas só vendo para se perceber como a justiça acaba por realmente ser bem empregue... A última vez que Agatha Christie apareceu ao público foi para ver este filme na estreia... Curioso, não é?...



Hercule Poirot é um detective privado de nacionalidade belga, mas que passou a maior parte da sua vida radicado em Inglaterra. Isso não o impediu de usar as suas poderosas "pequenas células cinzentas" para investigar e infalivelmente desvendar crimes por toda a Europa, África, Ásia e numa boa parte da América do Sul, juntamente com os seus inseparáveis colegas: Inspector Japp e Capitão Hastings. Poirot é excêntrico, cheio de maneirismos e de obsessões compulsivas. Gosta do estilo Arte Déco, é extremamente pontual e leva tudo ao limite da perfeição obsessiva, como por exemplo a sua conta bancária, onde tem exactamente 444 libras, 4 xelins e 4 pence.
Hercule Poirot é uma personagem ficcional criada por Agatha Christie que... Bem, não vale a pena alongar mais sobre quem é Poirot... Toda a gente sabe quem é. Mesmo quem não é grande apreciador da personagem - como eu - conhece-o e reconhece o valor das histórias de Agatha Christie. E são tantas que também não vale a pena mencioná-las, porque precisaria de outro site só para isso.
Mas sendo uma série de tv, o que está Poirot a fazer num site de cinema? Um pequeno à parte...
Apesar de parecer lógico, não há um termo geral para a definição de longa metragem. Dependendo do local ou de quem avalia, uma projeção para ser considerada como longa metragem terá de ter 40, 70, 80 ou mais minutos de duração. Para mim, parece-me mais lógico o limite dos 70 minutos. E por vezes nem sequer é uma questão de duração, se dá na TV ou passa no cinema, mas sim o contexto ou outros aspectos do filme que o tornam numa longa metragem.
Já vi filmes como La Jetée (de Chris Marker), que não é mais que uma colecção de fotografias narradas com apenas 30 minutos, mas que me parece de facto um filme completo. Ou Un Chien Andalou (de Luis Buñuel) que tem 15 minutos, pela sua importância visual e no desenvolvimento de outros filmes posteriores. Ou ainda Le voyage dans la lune (de Georges Méliès), comummente aceite como um dos primeiros filmes de ficção cientifica, só tem 13 minutos. Apesar de serem tecnicamente curtas metragens, em termos de contexto para a própria história do cinema, acho que estes exemplos mais "curtos" se elevam para verdadeiras longas-metragens. Por outro lado, Modern Times Forever, do grupo de arte dinamarquês Superflex, com 240 horas é actualmente o filme de maior duração. Mas está previsto para 2020, a estreia de Ambiancé, de Andy Weberg com 720 horas. Mas estes exemplos são "instalações" ou documentários artísticos e eu não os consideraria como sendo um "filme de longa metragem", apesar da questão técnica da duração. Estou a divagar...
Voltando a Poirot... Se se considerar os 70 minutos como o primeiro patamar para identificar tecnicamente uma longa metragem, Poirot tem pelo menos 34 "episódios" com mais de 90 minutos e isto "apenas" entre 1989 e 2013. Isto quer dizer que, objectiva e tecnicamente falando, Poirot é a mais longa série de filmes da história!!!
Só para servir de exemplo, a temática James Bond, que é actualmente a saga mais longa - e já cá anda desde os anos 60 - "só" tem 20 e tal distribuições... Coitadito. O James Bond ainda é um "menino" quando comparado o grande Hercule Poirot.
Não se pode mencionar Poirot sem mencionar David Suchet. O detective privado foi interpretado ao longo dos tempos no grande e no pequeno ecrã por uma série de grande actores como José Ferrer, Peter Ustinov, Ian Holm, Kenneth Branagh, Charles Laughton e até Orson Welles fez uma adaptação radiofónica. Mas sem dúvida nenhuma que Hercule Poirot é David Suchet e David Suchet é Hercule Poirot. Há actores que "nascem e vivem" para um papel, e este é um dos casos mais exemplares... Não deixa de ser curioso que Suchet, antes de ser "o" Poirot, tenha interpretado a personagem do Inspector Japp, em Thirteen at Dinner, de 1985, sendo que Peter Ustinov é que ficou com o papel principal... Curioso, não?
Hercule Poirot faleceu em 1949 (ou dependendo da versão, 1975?!) com direito a ser a única personagem de ficção a aparecer no obituário da primeira página do The New York Times., mas o seu legado continua a apaixonar novas gerações. Acho que vai ser assim por muitos mais anos, pois tem algo de estranhamente intemporal.
Por tudo isto, e por ser absolutamente merecido o reconhecimento, como uma das grandes personagens literárias de sempre, a devida e respeitosa vénia para Hercule Poirot e para a maior série de filmes até hoje. ●●●●●

"The truth, however ugly in itself, is always curious and beautiful to the seeker after it."
Hercule Poirot, em The Murder of Roger Ackroyd

 
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