O livro da Agatha Christie, Murder on the Orient Express é vagamente inspirado no famoso caso Lindbergh, que envolveu raptos e mortes. Se a história real já é mais estranha que a ficção, o livro da Agatha Christie sublima ainda mais o enredo. É das melhores e mais bem construídas histórias policiais que conheço. Não admira que já vá para aí na quarta adaptação. Mas tudo começou aqui com este Murder on the Orient Express realizado por Sidney Lumet.
Mas antes de mais nada tenho de afirmar que este livro nunca mais devia ser adaptado para cinema. Quer dizer, "nunca mais" também é um bocado radical. Uma adaptação de dez em dez, ou vinte em vinte anos, apenas para uma nova geração de espectadores que não se dão ao trabalho de ir ver o que está para trás. Esta história em particular não deixa margem de manobra para nada. O final é tão epicamente surpreendente que é impossível de ser mudado. E um realizador que pegue novamente na história vai estar sempre preso a ele. Se não muda o filme, vai de encontro a todas as outras adaptações já feitas, mas se muda alguma coisa, irá estar a desvirtuar a história, e ainda por cima não estou a ver em que é que possa ser melhorada. É a velha questão de ser preso por ter cão e ser preso por não ter...
Esta adaptação de Sidney Lumet, surpreendentemente (vindo de quem vem) nem é grande espiga, apesar de estar tudo muito bem feito. Na altura da estreia foi um sucesso precisamente por ter sido a primeira adaptação, mas tirando isso, não é um filme muito satisfatório. O look anos 70 também não ajuda. A história da Agatha Christie é espectacular, mas o twist final só funciona uma vez. E de cada vez que vejo um nova versão acabo por me entediar... É basicamente o que dizia no início... É a verdadeira faca de dois gumes. Estranhamente isto também se aplica neste filme, porque entretanto já vi todos os outros filmes antes deste. Para uma pessoa que veja o filme agora, pela primeira vez, ele acaba por funcionar como mais uma versão da história.
Ainda por cima esta primeira tentativa cinematográfica não tem uma estética forte e aquelas carruagens e cenários exíguos também não davam muita margem de manobra para uma grande realização. Quer dizer, Lumet realizou um dos grandes thrilllers do cinema apenas numa sala... Bem, mesmo os grandes realizadores têm os seus maus momentos... O grande apelo do filme acaba por residir nos actores. E nesse aspecto é um festim de lendas do cinema...
Albert Finney, Lauren Bacall, Ingrid Bergman, Jacqueline Bisset, Jean-Pierre Cassel (pai do Vincent Cassel), Sean Connery, John Gielgud, Anthony Perkins, Vanessa Redgrave, Michael York... e a lista continua... Tudo muito bem, com um pequeno reparo... Albert Finney como Hercule Poirot... não!. Reconheço o esforço na criação da persona, mas não. Aquele não é o Poirot que existe na mentalidade colectiva. Tem a sua piada de vez em quando, mas acho que está desfasado da "realidade". Não "é" o Poirot... é um actor a esforçar-se ao máximo para tentar ser o mais parecido possível com "o" Poirot, que como toda a gente sabe foi encarnado no eterno David Suchet.
Esta primeira versão de Murder on the Orient Express não está má, mas podia ter sido muito melhor. Digamos que foi uma boa primeira tentativa... ●●●○○
PS: Sem querer estregar o filme, fica apenas a informação que dos mais de 70 livros que Agatha Christie escreveu, este é o único em que no final o verdadeiro assassino não é levado à justiça... Mas só vendo para se perceber como a justiça acaba por realmente ser bem empregue... A última vez que Agatha Christie apareceu ao público foi para ver este filme na estreia... Curioso, não é?...
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Dois bandidos de meia tigela decidem fazer um golpe extraordinário: assaltar o que é nada mais nada menos que o local onde os mafiosos jogam cartas com avultadas somas de dinheiro. A ideia é arrojada e em princípio até é uma boa ideia, porque assaltar alguém que não pode ir à polícia fazer queixa não é assim tão descabido. Obviamente, as coisas não vão correr como planeado, até porque este golpe "simples" acaba por abalar economicamente toda a estrutura da própria Máfia. Para resolver toda esta confusão, os mafiosos recorrem aos serviços de Jackie Cogan, um justiceiro implacável mas que parece estar do lado errado da barricada.
Brad Pitt, Scoot McNairy, Ben Mendelsohn, Ray Liotta, Richard Jenkins e James Gandolfini dão corpo a uma série de personagens muito bem construídas. Se no caso de Pitt esta foi (mais) uma mudança de ares, para o restante elenco é quase como voltar a casa para comer um prato de pasta da nona Giona acompanhado de um copo de Chianti... Mas todos sem excepção estão muito bem e estão especialmente bem dirigidos.
Killing Them Softly tem uma narrativa simples e muito pouco original mas está muito bem feito. A fotografia é exemplar. Andrew Dominik tem uma realização sem mácula. Não o conhecia até esta altura, mas foi um nome que listei para ficar debaixo de olho. Apesar da crítica constante ao modo de vida e ao sonho americano (a crise financeira de 2008/09 era uma realidade bem palpável), a história de base é um dejá vu constante, e por isso é o olhar, os enquadramentos e os movimentos de câmara de Dominik que salvam literalmente o filme da irrelevância. Isto só prova que por muito banal que uma história seja, ter um bom realizador e bons diálogos interpretados por bons actores salvam logo um filme.
Killing Them Softly fez-me lembrar aquele aspecto mais negro, violento e sujo dos antigos filmes policiais (e mafiosos) dos anos 70, e quanto mais não fosse, só por causa disso já é totalmente aceitável. Um bom filmito de ladrões e mafiosos. ●●●○○
Brad Pitt, Scoot McNairy, Ben Mendelsohn, Ray Liotta, Richard Jenkins e James Gandolfini dão corpo a uma série de personagens muito bem construídas. Se no caso de Pitt esta foi (mais) uma mudança de ares, para o restante elenco é quase como voltar a casa para comer um prato de pasta da nona Giona acompanhado de um copo de Chianti... Mas todos sem excepção estão muito bem e estão especialmente bem dirigidos.
Killing Them Softly tem uma narrativa simples e muito pouco original mas está muito bem feito. A fotografia é exemplar. Andrew Dominik tem uma realização sem mácula. Não o conhecia até esta altura, mas foi um nome que listei para ficar debaixo de olho. Apesar da crítica constante ao modo de vida e ao sonho americano (a crise financeira de 2008/09 era uma realidade bem palpável), a história de base é um dejá vu constante, e por isso é o olhar, os enquadramentos e os movimentos de câmara de Dominik que salvam literalmente o filme da irrelevância. Isto só prova que por muito banal que uma história seja, ter um bom realizador e bons diálogos interpretados por bons actores salvam logo um filme.
Killing Them Softly fez-me lembrar aquele aspecto mais negro, violento e sujo dos antigos filmes policiais (e mafiosos) dos anos 70, e quanto mais não fosse, só por causa disso já é totalmente aceitável. Um bom filmito de ladrões e mafiosos. ●●●○○
Mason Storm é um detective durão que investiga a ligação entre a máfia, a polícia e políticos corruptos. Para o afastarem da investigação, os mauzões matam-lhe a família toda e, para todos os efeitos, ele também é morto. Mas o que os mauzões não sabem é que Storm não morre assim com tanta facilidade. Não é por levar com dois tiros de caçadeira à queima-roupa que ele se vai abaixo. Storm fica em coma durante uns sete anos e depois de fugir do hospital, vai fazer uma cura asiática milagrosa e sai em busca de vingança... Dito assim, parece estúpido. E em parte, até é um bocadinho. Mas na realidade, esta é a mesma história do Kill Bill... Dá que pensar, não é verdade? A (grande) diferença está na forma como se mostram e se contam as histórias. Bruce Malmuth, por exemplo, é um realizador de TV e pouco mais. Obviamente que isso faz toda a diferença. Não vai inventar nada de novo. Seguiu os trâmites normais dos filmes de acção dos anos 80 e pronto. Introdução, porrada, tiros, um pouco de história, muita porrada, cena de perseguição automóvel, mais um pouco de história, tiros, cena final de porrada e vingança épica consumada, The end.
Desde que me lembro, Steven Seagal faz sempre o mesmo papel em todos os filmes. Deve ser caso único no cinema. Só por isso merece toda a minha admiração. A isto é que se chama consistência. No início da carreira, era grande fã do Seagal. Aqueles movimentos de artes marciais que só ele tinha, as deixas típicas do herói... Apesar de ter aparecido mais tarde que os restantes (só dos anos 90 para a frente), Steven Seagal é um verdadeiro herói de acção e está ao mesmo nível que os míticos heróis da porrada dos anos 80. Claro que ao fim de 7 ou 8 filmes todos iguais, sempre com a mesma personagem, e sempre com a mesma aparência, a coisa começou a cansar-me. Já chegava...
No casting, entre outros, pode-se ver em acção a Kelly LeBrock, "a mulher de vermelho" (se é que alguém ainda se lembra da referência...) que na altura era casada com o Steven Seagal. Também se pode ver o William Sadler, um excelente actor que fazia quase sempre de mau e Frederick Coffin, um outro excelente actor que fazia quase sempre de bom.
Não sei porquê, mas gosto de alguns destes filmes "maus". Há qualquer coisa neles que me fascina. E é preciso entender que estes filmes são assim fraquitos, mas há condicionantes por trás. Os filmes tinham de ser condensados nos 90 minutos habituais da altura. Ninguém via filmes mais compridos em termos de duração, isso era para os filmes intelectuais... O resto simplesmente tinha de sair fora. Na melhor das hipóteses ficava para o trailer, e por isso é que nos anos 90, muitas cenas que se viam nos trailers depois não apareciam nos filmes... Tempos estranhos... Na pior das hipóteses era cortado e se a história ficasse com falhas no argumento... who cares? O importante eram as cenas de porrada e acção. Alguém queria lá saber da história para alguma coisa...
Hard to Kill é mais um filmito de acção e porrada entre muitos outros da altura, mas que eu gosto por qualquer motivo estranho. É nitidamente mais um caso de puro saudosismo... (2)
Desde que me lembro, Steven Seagal faz sempre o mesmo papel em todos os filmes. Deve ser caso único no cinema. Só por isso merece toda a minha admiração. A isto é que se chama consistência. No início da carreira, era grande fã do Seagal. Aqueles movimentos de artes marciais que só ele tinha, as deixas típicas do herói... Apesar de ter aparecido mais tarde que os restantes (só dos anos 90 para a frente), Steven Seagal é um verdadeiro herói de acção e está ao mesmo nível que os míticos heróis da porrada dos anos 80. Claro que ao fim de 7 ou 8 filmes todos iguais, sempre com a mesma personagem, e sempre com a mesma aparência, a coisa começou a cansar-me. Já chegava...
No casting, entre outros, pode-se ver em acção a Kelly LeBrock, "a mulher de vermelho" (se é que alguém ainda se lembra da referência...) que na altura era casada com o Steven Seagal. Também se pode ver o William Sadler, um excelente actor que fazia quase sempre de mau e Frederick Coffin, um outro excelente actor que fazia quase sempre de bom.
Não sei porquê, mas gosto de alguns destes filmes "maus". Há qualquer coisa neles que me fascina. E é preciso entender que estes filmes são assim fraquitos, mas há condicionantes por trás. Os filmes tinham de ser condensados nos 90 minutos habituais da altura. Ninguém via filmes mais compridos em termos de duração, isso era para os filmes intelectuais... O resto simplesmente tinha de sair fora. Na melhor das hipóteses ficava para o trailer, e por isso é que nos anos 90, muitas cenas que se viam nos trailers depois não apareciam nos filmes... Tempos estranhos... Na pior das hipóteses era cortado e se a história ficasse com falhas no argumento... who cares? O importante eram as cenas de porrada e acção. Alguém queria lá saber da história para alguma coisa...
Hard to Kill é mais um filmito de acção e porrada entre muitos outros da altura, mas que eu gosto por qualquer motivo estranho. É nitidamente mais um caso de puro saudosismo... (2)
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Another 48 Hours tentou capitalizar o enorme sucesso que foi o 48 Hours. Cai em termos de qualidade, porque é mais do mesmo, excluindo tudo o que eram bons pormenores do primeiro filme. Não houve progressão. Foi quase como um novo episódio da série. Está à vista que isto foi uma manobra de estúdio: Vamos fazer uma sequela e vender mais bilhetes, e não uma questão de haver mais alguma coisa para contar ou acrescentar. Do ponto de vista da intenção do estúdio foi uma estupidez porque entretanto passaram-se 8 anos entre os dois filmes. O público provavelmente já nem era o mesmo do primeiro filme. Basicamente, criaram aqui um episódio seguinte, um bocado como acontece hoje em dia. Mas no principio dos anos 90 o público não estava para estas coisas. O pessoal queria ver coisas novas e não repetições ou continuações de histórias. E não perdoava. A dupla acabou, mas ficou o conceito e ainda não parou de ser explorado. Se no primeiro filme elogiei todas as pessoas envolvidas acho que é justo virar o argumento ao contrário e não atirar todas as culpas para a ganancia infinita dos estúdios. Walter Hill, Eddie Murphy, Nick Nolte e toda a restante equipa estiveram mal. Foram simplesmente atrás do dinheiro e pronto, foi isso. Portanto vou dar todo o destaque para os secundários Brion James, Kevin Tighe e Ed O'Ross, gajos que nunca tiveram protagonismo, mas que sempre reconheci como muito bons actores. Entretanto esquecidos pelo tempo, estes três acompanharam-me ao longo de anos e junto têm mais de 300 filmes no currículo. Três pancadas no peito para os grandes secundários do mundo do cinema e de Hollywood.
Another 48 Hours é a sequela típica, precursora dos fenómenos comerciais de hoje em dia: sem nada para acrescentar, sem nada de novo, apenas uma reciclagem de uma fórmula anterior que teve sucesso. Fraquinho, mas ainda se vê. ●○○○○
Another 48 Hours é a sequela típica, precursora dos fenómenos comerciais de hoje em dia: sem nada para acrescentar, sem nada de novo, apenas uma reciclagem de uma fórmula anterior que teve sucesso. Fraquinho, mas ainda se vê. ●○○○○
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Um detective de rua, um duro, é o único sobrevivente de um tiroteio que matou os seus companheiros. Pelo caminho cruza-se com um espertalhão das ruas que vai em busca de uma fortuna escondida. As duas histórias interligam-se de um forma inesperada, e apesar de todas as diferenças, acabam por formar uma dupla absolutamente improvável. Juntos semeiam o caos na cidade.
Walter Hill praticamente inventou um novo conceito com esta pequena série de filmes: o conceito dos protagonistas antagónicos. É aquela coisa já tão batida do polícia bom e o polícia mau. Mas aqui não há o bom e o mau polícia; aqui são todos bons e maus ao mesmo tempo. Confuso? Nem por isso. É mais a realidade. A diferença entre os bons e os maus é muito ténue, e às vezes, a única diferença é que uns têm um distintivo da polícia e os outros não. Os dois parceiros têm uma linguagem baixa, tratam geralmente mal todas as outras pessoas, bebem em demasia, são violentos, têm vidas lixadas e são corruptos quando têm de ser para se desenrascarem. Mas principalmente dão-se mal um com o outro. A única coisa que os une é a promessa de dinheiro fácil e vingança. Não é propriamente a coisa mais bonita do mundo, mas é o que é. E de alguma forma estranha, uma pessoa começa a sentir alguma empatia por aquelas personagens tão distorcidas.
O look sujo da noite está muito captado pela lente de Walter Hill, um gajo super habituado a esta temática. Um dos meus realizadores preferidos. Aqui dirige um dos gajos que nitidamente poderia ser um dos grandes actores de Hollywood, mas que por alguma razão que desconheço nunca se quis mostrar muito: Nick Nolte. Com um mau feitio inesquecível, Nolte imortalizou a personagem e criou uma série de estereótipos para todos os futuros "maus polícias". Do outro lado, Eddie Murphy, um estreante desconhecido - para a maior parte das pessoas (que não viam o Saturday Night Live)-, mas com um lado cómico tão diferente de tudo o que já se tinha visto, que só podia estar destinado ao sucesso. A química de atracção/repulsa entre dois é tão potente que marcou toda uma geração de filmes à posteriori. Como era normal na altura, no suporte aos dois nomes principais, um grande grupo de omnipresentes secundários de luxo: David Patrick Kelly, Sonny Landham, Annette O'Toole, Frank McRae e James Remar.
Néons com fartura (não era cenário, era a realidade...), as típicas deixas dos filmes de acção dos anos 80 (simplesmente, as melhores!), politicamente incorrecto, perseguições de carros à "moda antiga", boa banda sonora e uma história com pés e cabeça fazem de 48 Hours, um filmito policial muito aceitável. ●●●○○
Walter Hill praticamente inventou um novo conceito com esta pequena série de filmes: o conceito dos protagonistas antagónicos. É aquela coisa já tão batida do polícia bom e o polícia mau. Mas aqui não há o bom e o mau polícia; aqui são todos bons e maus ao mesmo tempo. Confuso? Nem por isso. É mais a realidade. A diferença entre os bons e os maus é muito ténue, e às vezes, a única diferença é que uns têm um distintivo da polícia e os outros não. Os dois parceiros têm uma linguagem baixa, tratam geralmente mal todas as outras pessoas, bebem em demasia, são violentos, têm vidas lixadas e são corruptos quando têm de ser para se desenrascarem. Mas principalmente dão-se mal um com o outro. A única coisa que os une é a promessa de dinheiro fácil e vingança. Não é propriamente a coisa mais bonita do mundo, mas é o que é. E de alguma forma estranha, uma pessoa começa a sentir alguma empatia por aquelas personagens tão distorcidas.
O look sujo da noite está muito captado pela lente de Walter Hill, um gajo super habituado a esta temática. Um dos meus realizadores preferidos. Aqui dirige um dos gajos que nitidamente poderia ser um dos grandes actores de Hollywood, mas que por alguma razão que desconheço nunca se quis mostrar muito: Nick Nolte. Com um mau feitio inesquecível, Nolte imortalizou a personagem e criou uma série de estereótipos para todos os futuros "maus polícias". Do outro lado, Eddie Murphy, um estreante desconhecido - para a maior parte das pessoas (que não viam o Saturday Night Live)-, mas com um lado cómico tão diferente de tudo o que já se tinha visto, que só podia estar destinado ao sucesso. A química de atracção/repulsa entre dois é tão potente que marcou toda uma geração de filmes à posteriori. Como era normal na altura, no suporte aos dois nomes principais, um grande grupo de omnipresentes secundários de luxo: David Patrick Kelly, Sonny Landham, Annette O'Toole, Frank McRae e James Remar.
Néons com fartura (não era cenário, era a realidade...), as típicas deixas dos filmes de acção dos anos 80 (simplesmente, as melhores!), politicamente incorrecto, perseguições de carros à "moda antiga", boa banda sonora e uma história com pés e cabeça fazem de 48 Hours, um filmito policial muito aceitável. ●●●○○
Passado na Los Angeles dos anos 70, The Nice Guys conta a história de dois detectives muito particulares que investigam o aparente suicídio de uma artista porno. Esta investigação vai levá-los muito mais longe do que estavam à espera...
Os nice guys são Ryan Gosling e Russell Crowe e são dirigidos por um muito experiente Shane Black, que há muito se dedica (e bem) aos filmes policiais e de acção. Também uma miúda que parece ser muito talentosa Angourie Rice, mas nem isso é suficiente para dar mais "sabor" aos filme.
The Nice Guys até é um filme agradável mas de facto não tem muito sabor. Tem algumas piadas engraçadas e bem esgalhadas e até há uma boa química natural entre os dois protagonistas, mas sente-se que falta ali alguma coisa. Não sei muito bem o que é, mas falta. Vê-se bem, não chateia, dá para dar uma ou outra gargalhada, mas fica-se por aí. É demasiado inócuo para o meu gosto. Tem bons momentos, mas definitivamente podia ser melhor. ●●○○○
Os nice guys são Ryan Gosling e Russell Crowe e são dirigidos por um muito experiente Shane Black, que há muito se dedica (e bem) aos filmes policiais e de acção. Também uma miúda que parece ser muito talentosa Angourie Rice, mas nem isso é suficiente para dar mais "sabor" aos filme.
The Nice Guys até é um filme agradável mas de facto não tem muito sabor. Tem algumas piadas engraçadas e bem esgalhadas e até há uma boa química natural entre os dois protagonistas, mas sente-se que falta ali alguma coisa. Não sei muito bem o que é, mas falta. Vê-se bem, não chateia, dá para dar uma ou outra gargalhada, mas fica-se por aí. É demasiado inócuo para o meu gosto. Tem bons momentos, mas definitivamente podia ser melhor. ●●○○○
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Porter foi roubado, atraiçoado e atingido com dois tiros nas costas. Mas Porter é um gajo duro e não morre assim tão facilmente. Contra todas as expectativas, Porter está vivo e quer vingança. Mas também quer os seus 70 mil dólares de volta, e há-de tentar reavê-los nem que tenha de enfrentar polícias corruptos, a ex-mulher, uma dominatrix e o seu gang chinês ou uma poderosa organização mafiosa... Nada pára Porter.
Payback é um filme de criminosos, detectives e porrada à moda dos anos 70. Aquele genérico, com aquelas letras e aquela música não engana ninguém. Por mim, óptimo. Gosto imenso de filmes de detectives mal encarados e de porrada dessa altura. Podia ser o Clint Eastwood ou o Charles Bronson, mas é o Mel Gibson e isso é sempre bom. De suporte, um casting muito bom, recheado de bons actores: Gregg Henry, Maria Bello, David Paymer, Bill Duke, Deborah Kara Unger, William Devane, Lucy Liu, Kris Kristofferson e até James Coburn. Payback enche-me (medianamente) as medidas.
Originalmente era isto que ia escrever sobre Payback. Mas escrever sobre filmes tem destas coisas: uma pessoa tenta apanhar alguma informação sobre um filme que não parece ter muito sob a superfíce e às vezes é surpreendido. Este é um caso flagrante e um verdadeiro case study.
Vim eu a saber que Payback é um remake de Point Blank de 1967 (que nunca vi) com Lee Marvin no principal papel, daí que se pareça tanto com filmes "criminosos, detectives e porrada à moda dos anos 70". Mas na realidade, Payback, são dois filmes totalmente diferentes: Payback: Straight Up (versão do realizador) e Payback (versão de estúdio). Como tenho o hábito de rever filmes, por acaso vi as duas versões, o que me causou uma confusão imensa. Tinha a certeza que já tinha visto este filme, mas estranhamente, ele diferia em muitos pormenores. Por exemplo, tinha a certeza que o Kris Kristofferson entrava, mas neste filme, o chefe da máfia só fala ao telefone e é uma mulher. E à medida que ia avançando ia ficando pior: cenas inteiras desapareciam e para culminar, o próprio final é totalmente diferente. Pensei que estava a ficar maluco, ou pior, a perder as minhas faculdades de cine-memória. Afinal, havia outra... versão.
Pelo que percebi, o realizador - Brian Helgeland - foi despedido/substituído depois do filme estar "rodado e montado", o que levou a que 30% do filme tivesse de ser re-filmado para o "actualizar". Já li umas coisas sobre quem teria sido o realizador a fazer a montagem final, mas é uma incógnita. Falou-se de John Myhre e Paul Abascal - gajos que desconheço -, e até do próprio Mel Gibson. Não faço a mínima ideia, mas também isso não é importante.
O que é importante aqui é perceber quanto um filme muda só porque juntam mais umas imagens e se cortam outras. A montagem é quase meio filme. E não é só uma questão de ritmo. É uma questão da própria história. Até personagens podem simplesmente desaparecer do enredo na mesa de montagem.
Pessoalmente, acho que Payback é um filme óptimo. Primeiro, porque mostra que não sou averso a remakes como compreensivelmente seria de supor pelas 3 ou 4 pessoas que leem este blogue. Não vejo problema nenhum em fazer remakes, desde que se justifique. Sendo que a justificação é o filme original precisa de um refrescamento e já passaram 30 anos (mais ou menos) desde o lançamento da versão original. Depois, porque mostra a importância da parte oculta dos filmes: a parte técnica, aquelas letrinhas chatas e intermináveis no final, depois dos nomes das "estrelas" e do realizador, que o pessoal usa nos cinemas para não calcar/tropeçar em alguém até à luz das saídas, mas que faz toda a diferença na forma como um filme chega ao grande ecrã. Finalmente, porque mostra que não tenho nada contra a preferência "editorial" dos estúdios. Por vezes, parece que os estúdios querem tornar todos os filmes iguais e, normalmente, quando mexem na obra dos realizadores, basicamente sai merda. Curiosamente, este não é o caso. Apesar de gostar da versão mais crua de Brian Helgeland, gosto ainda mais do corte dado pelo estúdio. Acho que torna o filme mais comercial, mas mais equilibrado. Nem que fosse só por esta vez, teria que concordar que este corte de estúdio está melhor que o original. Mas como sempre é tudo uma questão de gosto e gostos não se discutem... Vê-se bem e vê-se bem. ●●○○○
Payback é um filme de criminosos, detectives e porrada à moda dos anos 70. Aquele genérico, com aquelas letras e aquela música não engana ninguém. Por mim, óptimo. Gosto imenso de filmes de detectives mal encarados e de porrada dessa altura. Podia ser o Clint Eastwood ou o Charles Bronson, mas é o Mel Gibson e isso é sempre bom. De suporte, um casting muito bom, recheado de bons actores: Gregg Henry, Maria Bello, David Paymer, Bill Duke, Deborah Kara Unger, William Devane, Lucy Liu, Kris Kristofferson e até James Coburn. Payback enche-me (medianamente) as medidas.
Originalmente era isto que ia escrever sobre Payback. Mas escrever sobre filmes tem destas coisas: uma pessoa tenta apanhar alguma informação sobre um filme que não parece ter muito sob a superfíce e às vezes é surpreendido. Este é um caso flagrante e um verdadeiro case study.
Vim eu a saber que Payback é um remake de Point Blank de 1967 (que nunca vi) com Lee Marvin no principal papel, daí que se pareça tanto com filmes "criminosos, detectives e porrada à moda dos anos 70". Mas na realidade, Payback, são dois filmes totalmente diferentes: Payback: Straight Up (versão do realizador) e Payback (versão de estúdio). Como tenho o hábito de rever filmes, por acaso vi as duas versões, o que me causou uma confusão imensa. Tinha a certeza que já tinha visto este filme, mas estranhamente, ele diferia em muitos pormenores. Por exemplo, tinha a certeza que o Kris Kristofferson entrava, mas neste filme, o chefe da máfia só fala ao telefone e é uma mulher. E à medida que ia avançando ia ficando pior: cenas inteiras desapareciam e para culminar, o próprio final é totalmente diferente. Pensei que estava a ficar maluco, ou pior, a perder as minhas faculdades de cine-memória. Afinal, havia outra... versão.
Pelo que percebi, o realizador - Brian Helgeland - foi despedido/substituído depois do filme estar "rodado e montado", o que levou a que 30% do filme tivesse de ser re-filmado para o "actualizar". Já li umas coisas sobre quem teria sido o realizador a fazer a montagem final, mas é uma incógnita. Falou-se de John Myhre e Paul Abascal - gajos que desconheço -, e até do próprio Mel Gibson. Não faço a mínima ideia, mas também isso não é importante.
O que é importante aqui é perceber quanto um filme muda só porque juntam mais umas imagens e se cortam outras. A montagem é quase meio filme. E não é só uma questão de ritmo. É uma questão da própria história. Até personagens podem simplesmente desaparecer do enredo na mesa de montagem.
Pessoalmente, acho que Payback é um filme óptimo. Primeiro, porque mostra que não sou averso a remakes como compreensivelmente seria de supor pelas 3 ou 4 pessoas que leem este blogue. Não vejo problema nenhum em fazer remakes, desde que se justifique. Sendo que a justificação é o filme original precisa de um refrescamento e já passaram 30 anos (mais ou menos) desde o lançamento da versão original. Depois, porque mostra a importância da parte oculta dos filmes: a parte técnica, aquelas letrinhas chatas e intermináveis no final, depois dos nomes das "estrelas" e do realizador, que o pessoal usa nos cinemas para não calcar/tropeçar em alguém até à luz das saídas, mas que faz toda a diferença na forma como um filme chega ao grande ecrã. Finalmente, porque mostra que não tenho nada contra a preferência "editorial" dos estúdios. Por vezes, parece que os estúdios querem tornar todos os filmes iguais e, normalmente, quando mexem na obra dos realizadores, basicamente sai merda. Curiosamente, este não é o caso. Apesar de gostar da versão mais crua de Brian Helgeland, gosto ainda mais do corte dado pelo estúdio. Acho que torna o filme mais comercial, mas mais equilibrado. Nem que fosse só por esta vez, teria que concordar que este corte de estúdio está melhor que o original. Mas como sempre é tudo uma questão de gosto e gostos não se discutem... Vê-se bem e vê-se bem. ●●○○○
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Tenho um vício desde os tempos em que existiam vídeo clubes e o sistema VHS. Como nessa altura longínqua não existia internet nem a profusão de trailers por todo o lado que existe hoje, a escolha certeira para o aluguer dos filmes (que era caro para um adolescente) baseava-se em três factores principais: a qualidade da ilustração da capa, o actor principal e o realizador. Por exemplo, quando via que determinado filme era do realizador X, que eu já conhecia, e gostava dos seus filmes, nem sequer pensava mais: a escolha estava feita.
Os trailers ajudaram durante um tempo. Agora, estão todos tão iguais e massificados de tal forma que já não são um elemento de escolha. As capas/posters dos filmes, idem aspas. Os actores ainda são um dos elementos decisivos nas minhas escolhas à priori. Por exemplo o Josh Brolin: sei que nunca faz filmes de treta. Nem chicletes. Sei que quando ele é mencionado no casting, eu vou ver um filmito em condições. O outro factor também ainda decisivo é o realizador.
Neste caso, o Denis Villeneuve. Tinha visto um filme muito, muito, muito jeitoso chamado Enemy, baseado no livro do José Saramago, "O Homem Duplicado". E a partir daí deixei como referência o nome de Villeneuve, pois nunca o tinha visto antes. E foi assim que cheguei até Sicario.
Não fazia a mínima ideia do que se tratava o filme: não vi trailer nem posters, nada... só conhecia o nome. Mas a velha técnica de escolha no vídeo clube não me enganou. Sicario é um excelente filme. Ponto final. Não há nada de mal a apontar.
É um excelente filme de acção... sem acção, explosões ou perseguições. Bem, há uma explosão, mas é só uma mesmo. Há uma tensão inacreditável durante todo o filme. É um verdadeiro thriller. É um daqueles filmes que só não nos faz estar constantemente a roer as unhas, porque estamos agarrados com força à cadeira durante todo o tempo. E quando termina, a cadeira fica lá com as marcas dos dedos. É muito bom. Muito tenso. Imparável. Sicario é tecnicamente perfeito. Fotografia, música, realização, montagem... Nada falha.
Grande argumento acerca do combate aos cartéis de droga na fronteira dos Estados Unidos e o México, repleta de personagens no limite, fortes, dúbias e memoráveis, onde nunca se sabe quem são os amigos ou os inimigos.
A juntar a tudo isto, actores excepcionais. Emily Blunt, perfeitamente bem escolhida para um papel de agente policial idealista mas inexperiente, Josh Brolin, um gajo sempre impecável, e especialmente Benicio Del Toro que aqui até mete medo. De certeza que Del Toro não fez a formação de actor num cartel de droga sul-americano qualquer? Mas não tenho dúvidas que é um dos melhores actores da actualidade.
Denis Villeneuve é de facto um gajo a ter em atenção. é o gajo que melhores filmes faz e é um dos grandes realizadores do momento. Fico ansiosamente à espera dos novos filmes... ●●●●●
Os trailers ajudaram durante um tempo. Agora, estão todos tão iguais e massificados de tal forma que já não são um elemento de escolha. As capas/posters dos filmes, idem aspas. Os actores ainda são um dos elementos decisivos nas minhas escolhas à priori. Por exemplo o Josh Brolin: sei que nunca faz filmes de treta. Nem chicletes. Sei que quando ele é mencionado no casting, eu vou ver um filmito em condições. O outro factor também ainda decisivo é o realizador.
Neste caso, o Denis Villeneuve. Tinha visto um filme muito, muito, muito jeitoso chamado Enemy, baseado no livro do José Saramago, "O Homem Duplicado". E a partir daí deixei como referência o nome de Villeneuve, pois nunca o tinha visto antes. E foi assim que cheguei até Sicario.
Não fazia a mínima ideia do que se tratava o filme: não vi trailer nem posters, nada... só conhecia o nome. Mas a velha técnica de escolha no vídeo clube não me enganou. Sicario é um excelente filme. Ponto final. Não há nada de mal a apontar.
É um excelente filme de acção... sem acção, explosões ou perseguições. Bem, há uma explosão, mas é só uma mesmo. Há uma tensão inacreditável durante todo o filme. É um verdadeiro thriller. É um daqueles filmes que só não nos faz estar constantemente a roer as unhas, porque estamos agarrados com força à cadeira durante todo o tempo. E quando termina, a cadeira fica lá com as marcas dos dedos. É muito bom. Muito tenso. Imparável. Sicario é tecnicamente perfeito. Fotografia, música, realização, montagem... Nada falha.
Grande argumento acerca do combate aos cartéis de droga na fronteira dos Estados Unidos e o México, repleta de personagens no limite, fortes, dúbias e memoráveis, onde nunca se sabe quem são os amigos ou os inimigos.
A juntar a tudo isto, actores excepcionais. Emily Blunt, perfeitamente bem escolhida para um papel de agente policial idealista mas inexperiente, Josh Brolin, um gajo sempre impecável, e especialmente Benicio Del Toro que aqui até mete medo. De certeza que Del Toro não fez a formação de actor num cartel de droga sul-americano qualquer? Mas não tenho dúvidas que é um dos melhores actores da actualidade.
Denis Villeneuve é de facto um gajo a ter em atenção. é o gajo que melhores filmes faz e é um dos grandes realizadores do momento. Fico ansiosamente à espera dos novos filmes... ●●●●●
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O comissário Pierre Niemans (Jean Reno) é chamado a uma prestigiada universidade na montanha, que funciona quase como uma comunidade fechada, para investigar o brutal homicídio de um funcionário. Por outro lado, Max Kerkerian (Vincent Cassel) investiga a vandalização de um cemitério, em particular, a sepultura de uma menina morta anos antes, filha de uma freira que vive em reclusao total. As duas histórias acabam por ser cruzar, tal como os dois detetives, obrigados a trabalhar em conjunto com uma misteriosa mulher alpinista (Nadia Farès). Ambos terão de lidar com uma comunidade pequena, elitista, muito fechada, de poucas palavras e com muitos segredos por contar. Acabam por se envolver numa bizarra história de enganos, mentiras, assassinatos, serial killers e até eugenia...
Mathieu Kassovitz não costuma fazer maus filmes, mas em Les Rivières Pourpres (trduzido como "Os Crimes dos Rios Púrpura") superou-se. É um tudo-em-um: um thriller, um filme de detetives, de acção, de suspense e por vezes até de terror. Tem uma melhores cenas iniciais que já vi e termina igualmente bem, de uma forma totalmente inesperada. Prendeu-me na cadeira do principio ao fim. Já o revi umas três vezes... ●●●●○
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Seven é um filme excelente. Não consigo ser mais sintético. É um dos melhores policiais que já vi envolvendo o tema sempre magnético dos serial killers. Desde o genérico inicial até aos créditos finais, nota-se que cada cena foi pensada e executada ao pormenor. Seven é o filme que todos os realizadores gostariam de ter feito: é simples mas ao mesmo tempo é complexo. Tem um aspecto decadente, mas também é esteticamente belo. É um drama. Um policial negro. Um filme de suspense que também está repleto de acção.
Tecnicamente é irrepreensível. Tem a música de Howard Shore que é sempre óptima e dá uma ambiência decadente e quase mística ao filme. Mas não é só a música. Tudo está primoroso em Seven: o som, a iluminação, a montagem... Tudo perfeitamente consistente. O facto de David Fincher ser um gajo dos telediscos poderia ter destruído o filme. A anterior experiência de realização tinha sido um fracasso relativo (Alien3), mas foi mais por culpa da estrutura do próprio filme do que do Fincher. (E já agora, o Alien3 só não é o melhor de todos os Alien, porque existe um Aliens do Jim Cameron...). David Fincher surpreendeu-me imenso e tornou-se imediatamente num dos meus realizadores de eleição, precisamente por ter pegado em toda a experiência visual dos telediscos e ter transformado um policial que poderia ser banal numa quase obra prima. Mas a palavra-chave aqui não é visual. É consistência. Tudo está perfeitamente unido. É um puzzle gigante em que no final todas as peças soltas encaixam na perfeição. Lembro-me perfeitamente do detective Somerset dizer algures no meio do filme que a história não ia acabar bem...
Em termos de argumento, Seven é como um relógio suíço. É uma obra de precisão meticulosamente manufacturada em que o autor está atento ao mais ínfimo pormenor. E ainda por cima está repleto de considerações acutilantes ao funcionamento da sociedade actual, que uma pessoa sabe que são verdadeiras, mas não tem coragem de as afirmar. Sendo que a base do argumento são os 7 pecados capitais, não dar uma "tacadas moralistas", seria perder uma oportunidade de ouro, não é verdade?
Nos papéis principais, estão dois excelente actores no "pico de forma" que são tão diferentes e antagónicos que só podiam funcionar bem juntos: Morgan Freeman e Brad Pitt. Gwyneth Paltrow num papel mais secundário do que habitual como a super fragilizada mulher de Pitt está perfeita, mas quem rouba o show é sem dúvida Kevin Spacey (John Doe é sem dúvida um dos melhores serial killers da história do cinema) que apesar de só aparecer durante poucos minutos consegue ter tanto impacto no filme quando os outros actores. Muito bom.
Seven é daqueles filmes que não preciso de rever, se bem que o faço sempre que dá na TV. Não consigo resistir. Vi-o no cinema na altura da estreia. . Não sabia ao que ia. Tinha gostado imenso do filme de estreia do Fincher e fiquei curioso para ver o que iria apresentar. Logo no aspecto inicial dos créditos percebi que ia ver algo especial. Quando comecei a ouvir e a musica era NIN eu soube que vinha aí algo de único. E não me enganei-me. Mais: suplantou todas as minhas expectativas. Levei uma autêntica "pancada" na cabeça. E foi espectacular. Saí da sala de cinema e só me apetecia voltar e rever o filme... Tem cenas tão brutais, únicas e inesperadas que ficam gravadas na memória. Não é preciso lembrar ninguém do salto que deram na cadeira quando o Victor (um esquelético, mas "verdadeiro" Michael Reid MacKay) repentinamente se começa mexer naquela cama suja, pois não? Ou daquela caixa no final...
Mas como todos os filmes que são excelentes, Seven tinha de ter o final perfeito. Para mim, tem um dos melhores finais que já vi. É difícil rematar bem uma história, principalmente quando ela se vai desenvolvendo em crescendo: é preciso um daqueles finais bombásticos. Seven cumpre totalmente. Tem o remate perfeito. Seven é um daqueles raros filmes que uma pessoa tem mesmo de ver. ●●●●●
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Sabia que este filme era um remake de um filme sueco de grande sucesso, baseado numa trilogia de livros também de grande sucesso. (Tanto sucesso junto põe-me logo de pé atrás) Mas depois quando vi que era realizado pelo David Fincher e como não costuma falhar, fiquei logo mais sossegado. Infelizmente, The Girl with the Dragon Tattoo foi mais uma decepção. Não é que o filme seja mau, eu é que pelos vistos tenho expectactivas muito elevadas quando vejo o nome dos realizadores. Desde o início da carreira que Fincher me enche totalmente as medidas. Mas também é verdade que após alguns filmes e mais recentemente, a coisa tem vindo a descambar... Estranhei imediatamente quando vi aquele genérico "maluco" plastificado com música de Led Zeppelin/Trent Reznor. Eu até gosto bastante de Led Zeppelin e de NIN, mas... o que é aquilo? O que é aquele genérico tem que ver com o resto do filme? Não percebi...
A história bem construída, dividida entre o policial negro e o thriller é pouco usual para o "standard americano" recente e por isso é muito fixe. OJames Bond Daniel Craig está ok, assim como a Rooney Mara, o Christopher Plummer, o Stellan Skarsgård e o restante pessoal. Mas tudo isto se eclipsou na minha cabeça... É que continuo a questionar-me: onde é que está o antigo David Fincher? ●●○○○
A história bem construída, dividida entre o policial negro e o thriller é pouco usual para o "standard americano" recente e por isso é muito fixe. O
Há filmes para todos os gostos e de todos os géneros e sub-géneros. Balada da Praia dos Cães, um filme de cariz político da autoria de José Fonseca e Costa, pertence a um sub-sub-género muito específico que é o "esquecido, maltratado e difícil de apanhar". Demorei anos até o conseguir ver, mas finalmente consegui. Vamos por partes.
Baseado no livro de José Cardoso Pires com o mesmo nome, Balada da Praia dos Cães é acima de tudo uma amostra do Portugal dos anos 60: cinzento, bafiento e salazarento. Mas não só. É uma história policial baseada em factos verídicos, intrincada, negra, muitíssimo bem montada e com uma narrativa moderna, recorrendo com frequência a cenas de flashbacks e sonhos.
Tudo começa numa praia, com a descoberta do corpo em decomposição de um oficial do exército procurado pela polícia política. O responsável pela investigação é Elias Santana, um solitário homem à antiga. Terá que deslindar um caso complexo com a ajuda de Mena, uma misteriosa mulher que entretanto se entrega às autoridades e que tem uma historia incrível para explicar a macabra descoberta. Ao mesmo tempo, Elias combate o poder de sedução de Mena para não cair em tentação...
Quanto mais não fosse, só pelo tratamento dado à história valia a pena ver. Mas depois ainda tem Raul Solnado e Assumpta Serna. Solnado aparece num raro papel sério e está óptimo, ainda que por vezes ficasse com a sensação que ele nunca consegue mesmo ficar sério. Fica aqui provado que Solnado não era "apenas" um homem da comédia: era excelente na representação.
Mas se há um destaque na representação ele tem de ir obrigatoriamente para Assumpta Serna. Fixei automaticamente este nome. Nunca tinha visto esta actriz espanhola e posso dizê-lo que fiquei enfeitiçado, tal como a personagem Elias Santana. Parece que saiu verdadeiramente dum filme dos anos 60. Tem aquela beleza típica do sixties que não se consegue explicar. Mas não é só uma cara bonita; é uma brilhante actriz. Quando fui pesquisar e vi o currículo da mulher fiquei estupefacto. (e pensava eu que sabia muito de cinema...). É um dos pontos de tensão constante do filme: o confronto surdo entre o Solnado como representante antiquado de quem fecha os 50's e a Serna como a mulher moderna que dá inicio aos 60s.
Depois começam os problemas "técnicos".
O filme é muito bom e tem momentos geniais de cinema, só que tem um péssimo som. Parece que o som é projectado do auscultador de um telefone antigo... ao longe. E ainda por cima a música até está presente e é muito boa (do Alberto Iglesias), contrariamente aos outros filmes portugueses que tenho visto, em que o silêncio só é cortado pelo chão a ranger debaixo dos pés dos actores.
Ao irritante problema "som", juntam-se as dobragens que são horríveis. Sim, dobragens. Como o filme é uma produção Portugal-Espanha e o elenco tem actores de várias nacionalidades, optaram pela dobragem. Por muito que se esforçassem, António Feio, Paula Guedes e Mário Viegas nunca conseguiriam fazer esquecer o ridículo que são as dobragens.
Volto ao início, Balada da Praia dos Cães, é um filme "esquecido, maltratado e difícil de apanhar". Há muitos anos que queria ver este filme e finalmente consegui apanhá-lo na RTP Memória. Foi mesmo difícil. Pergunto eu: não há tempo de antena suficiente para ir repondo por aí uns filmes portugueses mais antigolas, mas muito bons, como este?
Balada da Praia dos Cães parece o filme que quase não existe. Mesmo na vastidão da net, não há disponível um trailer ou um poster. E o IMDB só tem a ficha mínima. É uma pena. Mal tenha oportunidade irei criar um poster em condições. É o mínimo que posso fazer. Este filme merece um tratamento digno.
E faço um apelo sentido aos senhores donos deste filme para que remasterizem este filme e especialmente que tratem daquele som marado. O filme está tão bem feito e é tão moderno que depois podem até reeditá-lo para cinema. Ninguém vai notar. ●●●○○
The Gauntlet, traduzido (desta vez, bem) como Barreira de Fogo é um filme de e com Clint Eastwood. Ainda há pouco tempo falei deste filme a propósito de Wara no Tate. Não sei se alguém na RTP1 anda por aqui a ler, mas o que é certo é que repuseram o filme. E ainda bem. Tinha saudades destes filmes "à moda antiga". E este é uma raridade.
É um daqueles filmalhaços violentos, politicamente incorrectos, "macho e duro de roer", vindo do tempo em que se pintavam cartazes (este, em particular, é excelente) como forma de promoção. Um dinossauro, portanto. Mas é um bom dinossauro. Já o vi há muitos anos e ainda se mantém relativamente fresco na memória, o que é sempre um óptimo sinal.
Lembrava-me particularmente do facto de haver milhões de tiros disparados em meia dúzia de cenas. Aliás, não lembro dum filme onde sejam disparados tantos tiros. É um exagero. Por isso é que a tradução como Barreira de Fogo está bem conseguida. Sem me repetir muito, é um exagero de tiros. Deitaram a abaixo uma casa a tiro, por isso já se vê a quantidade inacreditável de balas disparadas. Já para não falar da cena final, onde o stock americano de balas de cinema deve ter ficado um bocadito em baixo. Não resisto a dizê-lo novamente: é um exagero.
Mas como tantas outras coisas neste filme, esse exagero acaba por ser fixe. Mas isto também pode ser a minha imparcialidade a falar. É que eu gosto muito dos antigos filmes do Clint Eastwood. E também do próprio Eastwood.
Acho que fez uma transição muito engraçada dos westerns para os filmes "normais", como os policiais. Quer dizer, não sei se se pode considerar bem uma transição, porque basicamente ele trocou os cavalos por carros e os jeans e o chapéu por fato e gravata. O resto manteve-se exactamente igual. The Gauntlet, por exemplo, deve estar catalogado como uma história policial, mas para mim continua a ser um western. A diferença aqui, é que este filme é passado no tempo actual, os homens vestem fato e gravata e os pistoleiros andam de carro e de moto em vez de cavalos...
Mas também não posso ser assim tão redutor. Para já tem a Sondra Locke a representar uma mulher (muito) emancipada e totalmente fora da "trela masculina imaginária" da altura. Convém não esquecer que é um filme do longínquo ano de 1977. Mas também porque o filme está recheado de pormenores muito avançados para o seu tempo e para o tipo de filme que é. Tem até pormenores de argumento onde o Tarantino nitidamente se veio inspirar como naquela cena em que Eastwood entra num café e a empregada desata a falar com ele sobre tudo e mais alguma coisa sem que ele nunca abra a boca. Muito bom. Não é uma obra-prima, e até o próprio Clint Eastwood já fez muito melhor, tanto como realizador como actor, mas é um filme que tendo oportunidade, nunca deixo de (re)ver. ●●●○○
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O polícia Sean Archer (John Travolta) e o criminoso Castor Troy (Nicolas Cage) são inimigos mortais e depois de uma perseguição, Castor acaba em coma. Apenas Pollux (Alessandro Nivola), irmão de Castor sabe a localização de uma bomba química que pode destruir a cidade de Los Angeles. A única solução é recorrer à ficção científica e trocar de cara (!?) para conseguir extrair informações. Assim, Travolta (o bom) troca de lugar com Cage (o mau). As coisas complicam-se quando Troy desperta do coma e assume o lugar de Archer na sua própria vida. É esta troca de lugares que torna Face Off muito interessante.
Os actores principais têm "química" e foram muito bem escolhidos, pois ambos têm imenso "crazy eye". São perfeitos para este tipo de filme. Até John Travolta está bem, o que é uma raridade. E também parece que se divertiram imenso a insultar-se e a gozar com os maneirismos típicos de cada um. Isto forma um veículo perfeito para as cenas de acção cuidadosamente coreografadas, quase como se fossem cenas de um bailado moderno.
Face Off tem tudo para ser uma chachada de acção, perseguições, explosões e porrada, mas de alguma forma, John Woo consegue exagerar de tal forma as coisas que ficam sempre cool. De certa forma até lembra um bocado aquele estilo tipo James Bond. Com tudo o que tem de moralmente discutível, Woo é um dos poucos realizadores que consegue realmente estilizar a violência. Ele e Tarantino, que deve ter visto toneladas de filmes de John Woo. Não é de estranhar que Tarantino tenha ido parar a Reservoir Dogs ou Kill Bill... Mas isso é outra história.
Talvez por causa dessa atenção à estética, Face Off é um grande filme de acção, que sai completamente fora dos parâmetros normais, mesmo tendo por base uma história totalmente disparatada. Mas aqui o importante nem é a história, mas sim o desenrolar da acção. E aí, Woo acertou em cheio.
Quem já viu alguns filmes de John Woo apercebe-se que há particularidades estéticas que são uma autêntica imagem de marca: o uso (exagerado) da câmara lenta; o estilo "mexican standoff", que normalmente envolve dois ou mais protagonistas a apontar armas directamente à cabeça uns dos outros, algo que parece tão Tarantino mas que é na realidade muito Woo; o uso recorrente das pombas brancas (em câmara lenta, claro) antes duma grande cena de acção ou tiroteio; também é normal as personagens usarem sempre duas armas em punho e não conseguirem evitar disparar em vôo.
Mas o mais importante em Face Off até nem são os actores, a história e nem sequer as fantásticas cenas de acção verdadeiras, "à moda antiga", com duplos a sério (às vezes penso se muitos destes duplos não ficam gravemente feridos a fazer algumas cenas). O mais importante neste filme é o contexto.
Face Off foi um sucesso enorme (entre público e crítica especializada, o que é muito raro) e isso deveu-se essencialmente ao facto de ser diferente de todos os outros filmes de acção. É daqueles filmes, que apesar de parecer "normal", acaba por ter qualquer coisa que o torna fixe. Não se nota o que é, mas há algo distinto em Face Off.
Esse factor distintivo é a inspiração "a dar a volta". Este foi o terceiro filme de John Woo em solo americano. Mas quem teve a paciência para ver maratonas de filmes de acção coreanos, chineses ou de Hong Kong, percebe que este não é um filme americano. Woo continuou a filmar como se estivesse em Hong Kong, sendo que a única diferença é que o filme é falado em inglês e feito com actores ocidentais. Mas todas as "regras" são orientais.
Depois de anos a produzir filmes de artes marciais para o mercado ocidental, o cinema oriental mudou e foi buscar inspiração aos sítios mais estranhos como o spaghetti western ou os policiais dos anos 70. Como as produções orientais parece que não existem e não chegam a ser distribuídas nos circuitos ocidentais (tirando, lá está, os filmes de artes marciais), parece que esta mudança nem sequer existiu. Alguém associa o género de ação ou policial ao cinema oriental? Não me parece. Até que John woo chegou a Hollywood e começou a filmar. O resultado são filmes de acção "estranhos" e que apesar de pareceram iguais aos restantes, são muito diferentes do habitual. E essa foi a principal marca que Face Off deixou. Dentro do género dos típicos filmes de "tiros e porrada", Face Off é um dos melhores. Vê-se e revê-se sempre muito bem. ●●●●○













