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As grandes histórias estão sempre a vir à baila. É o caso de Murder on the Orient Express de Agatha Christie. Mas antes de dizer mais alguma coisa, deixo a pergunta no ar: justifica-se uma nova investida em "velhas" histórias? Não há mais histórias para adaptar? Vamos ficar eternamente presos neste loop de remakes, readaptações, re-, re-, re-...? Já estou um bocadinho farto... Dito isto, esta nova adaptação, com as devidas ressalvas, é totalmente aceitável. Sobejamente conhecida por ser uma excelente história de crime e mistério com um grande final, leva a que o filme perca algum interesse porque já a vi uma porrada de vezes. Fica preso entre dois mundos: refazer a história tal como ela é e uma pessoa já sabe qual o final ou então inventar uma nova história, mas aí deixa de ser o Crime no Expresso do Oriente, não é?
Kenneth Branagh é a grande força motriz do filme. Atrás das câmaras tem uma prestação segura e faz uma boa realização sem exageros; como nova encarnação de Hercule Poirot também não desaponta e até lhe incute algum vigor e dualidade que não existia na icónica (e incontornável) personagem de David Suchet, aliás, o único, eterno e verdadeiro Poirot...
O grupo de actores é extenso e como não podia deixar de ser só acrescenta valor: Penélope Cruz, Johnny Depp, Judi Dench, Willem Dafoe, Michelle Pfeiffer, entre outros.
Branagh foi muito inteligente em pegar nos contos de Agatha Christie: se isto correr bem - e aparentemente correu -, tem aqui um filão cinematográfico para durar anos. Parece-me óbvio que Murder on the Orient Express terá sequela obrigatória. Como está bem feito, não me desagrada a ideia... ●●●○○

Os eventos passados em Dunkirk são decisivos na história da Segunda Guerra Mundial e consequentemente na história do mundo. Sem o salvamento destes soldados presos na praia e cercados de alemães, é provável que a Inglaterra tivesse sucumbido e a Alemanha Nazi tivesse mesmo conquistado toda a Europa e quem sabe o mundo hoje, seria um mundo totalmente diferente... É uma daquelas histórias de guerra que para além de diferentes do habitual (são os civis que salvam os soldados e não o contrário), também não é muito conhecida, talvez ofuscada pela grande manobra de acção e bravura que foi o desembarque na Normandia. Por isso, é sempre bom ser relembrado e informado de factos menos conhecidos. Este Dunkirk, de Christopher Nolan é isto e muito mais, mas tem algumas falhas. E quando eu digo "falhas", não são "falhas", mas apenas aspectos que não conjugam muito bem com o que gosto de ver num filme de guerra.
Estar a ver um filme como o Dunkirk é como estar a apreciar uma obra arquitectónica de Alvar Aalto. É bonito e minimalista mas demasiado impessoal. E Dunkirk é um bocado assim. As personagens são demasiado robotizadas. Eu percebo a lógica: desumanizar as personagens para transmitir a desumanização do soldado e da própria guerra. Neste caso, acho que Nolan foi longe demais e as personagens tornaram-se quase zombies, sem acção, sem emoções, sem personalidade... apenas têm uma presença física. Percebo, mas não gosto. Tornou-se demasiado não-emocional.
A narrativa não-linear é um pouco confusa e também não ajuda a cimentar a importância e o desespero dos soldados. Também a entendo mas também não gostei porque não é totalmente perceptível. Percebo a lógica temporal dispersa pela areia, pela água e pelo ar. E provavelmente até foi mesmo o que os soldados sentiram naqueles instantes angustiantes, mas essa sensação não passou pelo ecrã. Tal como os actores (Mark Rylance, Tom Hardy, Cillian Murphy, Kenneth Branagh, Fionn Whitehead, Damien Bonnard), apenas estão lá...
Mas apesar disto tudo, Dunkirk é uma obra de arte lindíssima. Belo som, maravilhosas imagens e planos de câmara de deixar um gajo de boca aberta. Parece-me que este Dunkirk é mais uma experiência do que propriamente um filme. Nolan quis experimentar um novo tipo de cinema e apoiou-se neste elenco jovem para o fazer. Cheira quase a preparação para algo grande que vem a seguir. É uma obra de arte cinematográfica minimalista e algo diferente no já longo e muito bem preenchido currículo de Nolan.
Apesar de não ser excepcional e de optar por ir para campos que não são do meu gosto, é um belíssimo filme de guerra que sem dúvidas, recomendaria sempre. E vem confirmar aquilo que toda a gente já percebeu, mas não quer dizer: Christopher Nolan é o melhor, mais eclético, perfecionista, puro e verdadeiro realizador do momento. ●●●○○

 
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