Os eventos passados em Dunkirk são decisivos na história da Segunda Guerra Mundial e consequentemente na história do mundo. Sem o salvamento destes soldados presos na praia e cercados de alemães, é provável que a Inglaterra tivesse sucumbido e a Alemanha Nazi tivesse mesmo conquistado toda a Europa e quem sabe o mundo hoje, seria um mundo totalmente diferente... É uma daquelas histórias de guerra que para além de diferentes do habitual (são os civis que salvam os soldados e não o contrário), também não é muito conhecida, talvez ofuscada pela grande manobra de acção e bravura que foi o desembarque na Normandia. Por isso, é sempre bom ser relembrado e informado de factos menos conhecidos. Este Dunkirk, de Christopher Nolan é isto e muito mais, mas tem algumas falhas. E quando eu digo "falhas", não são "falhas", mas apenas aspectos que não conjugam muito bem com o que gosto de ver num filme de guerra.
Estar a ver um filme como o Dunkirk é como estar a apreciar uma obra arquitectónica de Alvar Aalto. É bonito e minimalista mas demasiado impessoal. E Dunkirk é um bocado assim. As personagens são demasiado robotizadas. Eu percebo a lógica: desumanizar as personagens para transmitir a desumanização do soldado e da própria guerra. Neste caso, acho que Nolan foi longe demais e as personagens tornaram-se quase zombies, sem acção, sem emoções, sem personalidade... apenas têm uma presença física. Percebo, mas não gosto. Tornou-se demasiado não-emocional.
A narrativa não-linear é um pouco confusa e também não ajuda a cimentar a importância e o desespero dos soldados. Também a entendo mas também não gostei porque não é totalmente perceptível. Percebo a lógica temporal dispersa pela areia, pela água e pelo ar. E provavelmente até foi mesmo o que os soldados sentiram naqueles instantes angustiantes, mas essa sensação não passou pelo ecrã. Tal como os actores (Mark Rylance, Tom Hardy, Cillian Murphy, Kenneth Branagh, Fionn Whitehead, Damien Bonnard), apenas estão lá...
Mas apesar disto tudo, Dunkirk é uma obra de arte lindíssima. Belo som, maravilhosas imagens e planos de câmara de deixar um gajo de boca aberta. Parece-me que este Dunkirk é mais uma experiência do que propriamente um filme. Nolan quis experimentar um novo tipo de cinema e apoiou-se neste elenco jovem para o fazer. Cheira quase a preparação para algo grande que vem a seguir. É uma obra de arte cinematográfica minimalista e algo diferente no já longo e muito bem preenchido currículo de Nolan.
Apesar de não ser excepcional e de optar por ir para campos que não são do meu gosto, é um belíssimo filme de guerra que sem dúvidas, recomendaria sempre. E vem confirmar aquilo que toda a gente já percebeu, mas não quer dizer: Christopher Nolan é o melhor, mais eclético, perfecionista, puro e verdadeiro realizador do momento. ●●●○○
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É difícil separar o Mel Gibson-pessoa dos Mel Gibson-actor/realizador. Nos últimos anos tem estado um bocado proscrito precisamente porque o seu lado pessoal tem sobressaído demasiado e ainda por cima pelas piores razões. Depois de anos a criar uma figura de durão, homem violento e másculo (dentro e fora do cinema) é difícil de separar uma persona da outra. Eu gosto muito do Mel Gibson-actor/realizador e felizmente consigo separar as duas coisas.
Hacksaw Ridge tem o condão de reabilitar Mel Gibson para o cinema e para o grande público. (Ainda bem!) Apresenta uma história verdadeira com uma personagem pacifista, um objector de consciência que no meio de uma guerra brutal (EUA contra o Japão), se preocupa mais em defender os seus companheiros do que atacar os seus inimigos. É uma mensagem extremamente poderosa. O mais incrível de toda esta situação é que a personagem é real e a história também. Desmond Doss foi um soldado americano que apesar de todas as pressões internas do Exército dos EUA (foi a tribunal de guerra por se recusar a pegar em armas de fogo e foi alvo de constantes agressões pelos superiores hierárquicos e colegas de caserna durante a formação militar) levou a sua ideia de pacifismo avante e acabou condecorado como um grande herói de guerra pelos seus feitos: como soldado/médico salvou das trincheiras dezenas de militares (americanos e não só) de uma morte certa. O que fez é verdadeiramente heróico. Parece tão inacreditável que fui obrigado a ir confirmar. E é mesmo verdade. É uma daquelas histórias em que a realidade suplanta (e muito) a ficção e que merece ser contada e relembrada. Num mundo povoado por super-heróis de plástico e pipocas é bom saber que ainda há verdadeiros heróis e que alguém lhe dá o devido valor.
Para além da realização perfeita de Gibson, uma grande parte do valor de Hacksaw Ridge vem também dos actores: Andrew Garfield é excelente e foi muitíssimo bem escolhido; Sam Worthington, Hugo Weaving e Vince Vaughn complementam especialmente bem o protagonista e o resto do casting é muito homeogéno. As cenas de guerra são cruas e têm um "ar antigo", quase do tempo pré-efeitos especiais, o que lhe confere uma autenticidade incrível. Muito bom.
Hacksaw Ridge é muitas coisas. É um filme de guerra que é um autêntico manifesto anti-guerra sem cair em falsos moralismos. É um pedido de desculpas e de integração de Mel Gibson. Não é coincidência esta escolha da personagem. Apesar de todas as diferenças evidentes, Doss, tal como Gibson é também alguém que não é bem visto pelos seus pares, mas que prova em campo todo o seu valor e acaba por receber a atenção merecida. Noutro plano, é também a confirmação de um grande realizador que é tão bom que obviamente não precisa de enormes orçamentos para fazer bom cinema. Mas principalmente é um filme muito bom que merece ser visto. ●●●●○
Hacksaw Ridge tem o condão de reabilitar Mel Gibson para o cinema e para o grande público. (Ainda bem!) Apresenta uma história verdadeira com uma personagem pacifista, um objector de consciência que no meio de uma guerra brutal (EUA contra o Japão), se preocupa mais em defender os seus companheiros do que atacar os seus inimigos. É uma mensagem extremamente poderosa. O mais incrível de toda esta situação é que a personagem é real e a história também. Desmond Doss foi um soldado americano que apesar de todas as pressões internas do Exército dos EUA (foi a tribunal de guerra por se recusar a pegar em armas de fogo e foi alvo de constantes agressões pelos superiores hierárquicos e colegas de caserna durante a formação militar) levou a sua ideia de pacifismo avante e acabou condecorado como um grande herói de guerra pelos seus feitos: como soldado/médico salvou das trincheiras dezenas de militares (americanos e não só) de uma morte certa. O que fez é verdadeiramente heróico. Parece tão inacreditável que fui obrigado a ir confirmar. E é mesmo verdade. É uma daquelas histórias em que a realidade suplanta (e muito) a ficção e que merece ser contada e relembrada. Num mundo povoado por super-heróis de plástico e pipocas é bom saber que ainda há verdadeiros heróis e que alguém lhe dá o devido valor.
Para além da realização perfeita de Gibson, uma grande parte do valor de Hacksaw Ridge vem também dos actores: Andrew Garfield é excelente e foi muitíssimo bem escolhido; Sam Worthington, Hugo Weaving e Vince Vaughn complementam especialmente bem o protagonista e o resto do casting é muito homeogéno. As cenas de guerra são cruas e têm um "ar antigo", quase do tempo pré-efeitos especiais, o que lhe confere uma autenticidade incrível. Muito bom.
Hacksaw Ridge é muitas coisas. É um filme de guerra que é um autêntico manifesto anti-guerra sem cair em falsos moralismos. É um pedido de desculpas e de integração de Mel Gibson. Não é coincidência esta escolha da personagem. Apesar de todas as diferenças evidentes, Doss, tal como Gibson é também alguém que não é bem visto pelos seus pares, mas que prova em campo todo o seu valor e acaba por receber a atenção merecida. Noutro plano, é também a confirmação de um grande realizador que é tão bom que obviamente não precisa de enormes orçamentos para fazer bom cinema. Mas principalmente é um filme muito bom que merece ser visto. ●●●●○
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Há filmes que por natureza não vejo. Ou porque os trailers mostram um filme pateta igual a milhares de outros e não me apetece perder tempo a vê-lo, ou porque são comédias românticas de domingo à tarde. Filmes com banda sonora de rap (ou hip hop e categorias semelhantes) e de danças urbanas com adolescentes também passo. Não é um tipo de música que goste, portanto não me diz nada.
Pensei que era um filme sobre rap e/ou sobre a história do Eminem. Não sei onde fui buscar esta ideia. Por esta razão, achei que o filme não era para mim e andei anos sem ver 8 Mile. E foi um erro enorme. Porque definitivamente, 8 Mile é um filme muito bom.
Mal acabei de ver o filme, fui pesquisar um pouco e descobri que o Eminem ganhou o Óscar para a Melhor Música Original. Pelos vistos foi a primeira vez que um rapper ganhou este prémio. A música chama-se "Lose Yourself" e dá o tom ao filme. Só para tirar uma dúvida dei-me ao trabalho de procurar a letra...
"Lose Yourself"
Look, if you had, one shot, or one opportunity
To seize everything you ever wanted. In one moment
Would you capture it, or just let it slip?
Yo
His palms are sweaty, knees weak, arms are heavy
There's vomit on his sweater already, mom's spaghetti
He's nervous, but on the surface he looks calm and ready to drop bombs,
But he keeps on forgetting what he wrote down,
The whole crowd goes so loud
He opens his mouth, but the words won't come out
He's choking how, everybody's joking now
The clock's run out, time's up, over, bloah!
Snap back to reality, Oh there goes gravity
Oh, there goes Rabbit, he choked
He's so mad, but he won't give up that
Easy, no
He won't have it, he knows his whole back's to these ropes
It don't matter, he's dope
He knows that but he's broke
He's so stagnant, he knows
When he goes back to his mobile home, that's when it's
Back to the lab again, yo
This whole rhapsody
He better go capture this moment and hope it don't pass him
[Hook:]
You better lose yourself in the music, the moment
You own it, you better never let it go (go)
You only get one shot, do not miss your chance to blow
This opportunity comes once in a lifetime yo
You better lose yourself in the music, the moment
You own it, you better never let it go (go)
You only get one shot, do not miss your chance to blow
This opportunity comes once in a lifetime yo
(You better)
The soul's escaping, through this hole that is gaping
This world is mine for the taking
Make me king, as we move toward a new world order
A normal life is boring, but superstardom's close to post mortem
It only grows harder, homie grows hotter
He blows. It's all over. These hoes is all on him
Coast to coast shows, he's known as the globetrotter
Lonely roads, God only knows
He's grown farther from home, he's no father
He goes home and barely knows his own daughter
But hold your nose 'cause here goes the cold water
His hoes don't want him no more, he's cold product
They moved on to the next schmoe who flows
He nose dove and sold nada
So the soap opera is told and unfolds
I suppose it's old partner but the beat goes on
Da da dum da dum da da da da
[Hook]
No more games, I'm a change what you call rage
Tear this motherfucking roof off like two dogs caged
I was playing in the beginning, the mood all changed
I've been chewed up and spit out and booed off stage
But I kept rhyming and stepped right into the next cypher
Best believe somebody's paying the pied piper
All the pain inside amplified by the fact
That I can't get by with my 9 to 5
And I can't provide the right type of life for my family
Cause man, these goddamn food stamps don't buy diapers
And it's no movie, there's no Mekhi Phifer, this is my life
And these times are so hard, and it's getting even harder
Trying to feed and water my seed, plus
Teeter totter caught up between being a father and a prima donna
Baby mama drama's screaming on her
Too much for me to wanna
Stay in one spot, another day of monotony
Has gotten me to the point, I'm like a snail
I've got to formulate a plot or I end up in jail or shot
Success is my only motherfucking option, failure's not
Mom, I love you, but this trailer's got to go
I cannot grow old in Salem's lot
So here I go it's my shot.
Feet, fail me not, this may be the only opportunity that I got
[Hook]
You can do anything you set your mind to, man
...Sinceramente, não entendo. Não é a letra, é a extensão dela! Como é possível alguém conseguir decorar isto tudo? Ainda por cima, junto com muitas outras músicas do filme. Juro que não entendo.
E então apercebi-me que o meu não entendimento era uma constante neste filme. Passo a explicar. Há coisas que naturalmente me causam repulsa. Uma delas é a decadência. Quando se assiste diariamente à decadência, ela deixa de ter glamour... Também por essa razão eu não deveria ter gostado de 8 Mile, mas gostei. Em 8 Mile, a decadência não é só uma condição em que as personagens vivem; a decadência é quase uma personagem. Está tão bem tratada, estilizada, filmada e tão presente que interaje com os actores. Isto é sinal de um realizador que tem muito tacto social. Quer isto dizer que Curtis Hanson é um daqueles realizadores que tem os pés no chão, que observa as a interagirem na vida real e transpõe-na para o cinema com todas as suas qualidades e defeitos inerentes.
Depois tem Eminem. Eu sou um gajo do rock e do punk, por isso o hip hop, o R&B e restantes sucedâneos não fazem efeito. Pelo contrário, é um tipo de música que me faz mudar a estação de rádio. Mais uma razão para eu não ter gostado de 8 Mile, mas acabei por gostar. E pensando bem, a banda sonora não podia ser outra. Este é o tipo de música que melhor encaixa na história. E embora me custe admitir, o Eminem surpreendeu-me bastante como actor. Podem ter sido dicas de representação da Kim Basinger, pode ter sido pelo facto de ele ser originário duma zona "maravilhosa" como Detroit, por ter tido uma vida pessoal relativamente semelhante à do papel que intrepreta, mas também há a hipótese do gajo poder ser mesmo bom. O que é certo é que está perfeito no papel. Brittany Murphy, no papel de companheira à distância, movida pelo interesse pessoal também está muito bem, como sempre.
8 Mile é um retrato muito bem feito da decadência das grandes periferias, da cultura white trash nas suas caravanas arruinadas e imundas, das lutas pela sobrevivência urbana, em que o mundo dos gangs muitas vezes parecem ser a única salvação para quem sabe que não tem salvação possível, mas sobretudo mostra como por vezes, a salvação vem dos sítios mais inesperados. Mas acima disto tudo, 8 Mile é um filme dramático, tenso, excepcionalmente bem ritmado e no geral, muito bom. Posso dizer que 8 Mile é um daqueles bons filmes "à moda antiga", muitíssimo bem dirigido por Curtis Hanson, que merece ser visto, mesmo que à partida o tema não seja (aparentemente) muito agradável. ●●●●○
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