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Um miúdo com argumentação de adulto tem queda para acidentes. Na realidade, uma acidente grave uma vez por ano. Uma família que não se ama e uma série de psicólogos que não ligam muito ao caso. Quando o miúdo cai dum precipício e fica em coma, abre-se todo um horizonte de realidade(s) e fantasia(s), que por vezes são difíceis de distinguir. Especialmente para o médico que segue o seu estado clínico...
The 9th Life of Louis Drax podia ser melhor, mas mesmo assim é um thriller relativamente aceitável. Parece um filho ilegítimo de Le fabuleux destin d'Amélie Poulain com o Shape of Water do Del Toro. Bebe em demasia deste tipo de cinema fantástico e acaba por ser polido demais. Se por vezes é absolutamente genial nos pormenores, por outro lado parece demasiado cliché e previsível, o que o torna algo desconexo e descompensado. Parece que Alexandre Aja não sabia muito bem em que direcção virar o filme e por isso foi deixando rolar a fita para ver no que a coisa dava. Fiquei com a impressão que o guião foi sendo escrito à medida que o filme se desenrolava... É um mix de coisas com muita potencialidade mas sem nunca serem exploradas em profundidade. The 9th Life of Louis Drax nunca se "assume" verdadeiramente como sendo um filme do fantástico, de mistério ou de terror... Vai flutuando entre estas temáticas e por isso o resultado final não é bom. Mas também não é totalmente mau. O que é uma pena. A história tem muito potencial.
Aiden Longworth, o miúdo que dá corpo a Louis Drax é muito bom e tem nuances de actor experiente. Foi muito bem escolhido. No mesmo nível estão Aaron PaulJamie Dornan, Sarah Gadon e num plano mais secundário, Oliver Platt passeia qualidade. "Esquecível" mas totalmente "visível". ●●○○

Que grande complicação mental é este Enemy. Não o conhecia e acabei por o ver na altura errada (depois de um dia de trabalho muuuuuito longo e duro e estava totalmente "roto", física e mentalmente) e isso pode ter alterado a minha percepção.
Enemy é um daqueles filmes metafísico/simbólico/não-lineares, cheio de pistas que levam (ou podem levar) a que no final se entenda minimamente o seu significado. É um autêntico exercício mental para o espectador. É um puzzle temporal que necessita muita atenção para ser interligado. Tem muitos parêntesis... É complicado...
Adam (Jake Gyllenhaal) que tem uma relação instável como Mary (Mélanie Laurent) está ver um filme e encontra um actor que é exactamente igual a si e torna-se um obsessão encontrar essa "sósia". Anthony, o elusivo "homem duplicado" do filme está numa relação com Helen (Sarah Gadon) que por acaso se cruza com Adam e por coincidência é muito parecida com a sua própria mulher...
Mas é muito mais complicado que isto. É sobre dupla personalidade (?), realidades alternativas (?), sentimentos possessivos (?), medo de compromisso pessoal (?) e aranhas gigantescas (?). Mas também podem ser outras coisas... ou não (?).
Enemy tem como base O Homem Duplicado do José Saramago, mas como não li o livro (ainda) não sei se é fiel ou simplesmente um adaptação livre, mas suspeito que seja mais a segunda hipótese. A realização de Denis Villeneuve é muito "tensa" e fria (por vezes parece um filme distópico/futurista) mas é irrepreensível. Muito boa. Não sei se é por ser do Canadá, mas lembrou-me muito os primeiros filmes de David Cronenberg. O que tem de negativo é uma fotografia que detesto: tem uma coloração meio acastanhada que transforma tudo numa imensa mancha de poluição. Enquanto via o filme só me vinha à cabeça a expressão... "filtro de urina". Eu sei que é uma expressão merdosa, mas sinceramente é o que pensava... Gostos são gostos e até percebo a lógica (a sensação de distanciamento e "desumanismo") e reconheço um certo estilo na "coisa". Mas não gosto na mesma... Em sentido completamente contrário vai a banda sonora que é muito boa.
Interpretações, alusões, dicas, traições, pistas dúbias e muito espaço para especulação é assim este Enemy. Foi o primeiro filme de Denis Villeneuve que vi e fiquei bem impressionado logo à primeira. Fixei o nome e ainda não me arrependi. Neste momento, é mesmo "o" grande nome na cadeira de realizador.
Há ainda uma participação breve da "senhora" Isabella Rossellini, uma hipótese rara de rever uma autêntica diva do cinema.
Nota-se que Enemy está destinado a tornar-se (lentamente) num filme de culto, mas para já ainda está na penumbra. Para ver com atenção. ●●●○○

 
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