Full Metal Jacket é um daqueles filmes que não precisa de apresentações. É simplesmente um dos melhores filmes de guerra que já vi. E esta apreciação é mais ou menos unânime entre os cinéfilos, críticos e público em geral, o que por si só já é uma referência de qualidade. Mas eu tenho um problema com este filme. E esse problema é a dualidade.
O génio do cinema, Stanley Kubrick sempre filmou com base em referências de alguma forma mitológicas e/ou conceptuais. Em todos os filmes dele há uma característica bem marcada que me diz que tudo o que aparece ou é dito tem sempre outro significado, que quer dizer algo mais. Em Full Metal Jacket essa "marca" é a dualidade, que está presente mesmo antes do filme começar, quando uma pessoa
olha para o (excelente) poster promocional e temos uma frase como "Born to Kill" escrita ao lado de um pin com o símbolo da paz... Já durante o filme, a dualidade é omnipresente e o próprio personagem principal, a determinada altura, faz precisamente menção à dualidade do homem e da guerra. Eu percebo a lógica, mas neste caso, a lógica aparece-me de certa forma inconsistente, ou então o Kubrick foi longe demais nesse lado duplo das coisas e não conseguiu passar bem a mensagem. Como aquele match cut no 2001, em que se salta instantaneamente do osso para a nave espacial. Ou é algo que eu não percebi ou algo que não está bem. Seja como for, para mim é uma marca profunda, porque o problema não está na dualidade do argumento, do tratamento das personagens ou outra coisa qualquer; o problema está na espinha dorsal do filme. Por vezes dou por mim a pensar se este não será um tipo de filme totalmente novo. Um filme com duas partes totalmente distintas que se interligam no final. Mas não me parece que assim seja. Acho que mentalmente só estou a tentar ver as coisas de outra forma para "desculpar" o "erro" de cálculo do Kubrick. Já vi este filme pelo menos umas 5 vezes e não consigo deixar de pensar que na realidade são dois filmes excepcionais "colados" a meio. Falta-me a ligação que deveria ser a personagem do Matthew Modine, só que a personagem principal do primeiro filme (devido à prestação excepcional) acaba por ser, sem dúvida, o Vincent D'Onofrio. E aqui é que começam verdadeiramente os problemas.
A primeira parte trata da desumanização do treino militar. Não é por nada que o filme começa com o rapar das cabeças dos recrutas, uniformizando-os numa "massa" desprovida de individualidade. Depois o tratamento miserável que sargento Hartman (um incomparável, inesquecível e icónico R. Lee Ermey) dá aos moços, relega-os para o ponto mais baixo da subserviência e controlo. Alguns aguentam o tratamento duríssimo (Arliss Howard), enquanto outros (Vincent D'Onofrio) acabam por enlouquecer e sucumbir mesmo antes de entrarem no teatro de guerra. A segunda parte leva-nos para a loucura e para a surrealidade da guerra. Somos transportados para o Vietname, onde os soldados americanos esperavam ser recebidos como salvadores mas afinal acabam por perceber que não são bem-vindos. Os cenários aumentam mas ritmo de acção diminui. Talvez por isso sinta que esta segunda parte do filme acaba por se tornar mais fraca do que a primeira. Parece quase um epílogo da história anterior. Não tem propriamente um início nem um fim, apenas uma informação breve sobre o que aconteceu a alguns dos protagonistas do "primeiro" filme e o encontro com novas personagens (Adam Baldwin). É esta dualidade forçada, entre as duas partes do filme, que acho que o prejudicam. A primeira parte é muito mais forte que a segunda, a ligação pelo meio perde-se e isso acaba por ofuscar o resultado final.
Mas tenho de esclarecer aqui uma coisa. Por muito pretensioso (ou faccioso?!?...) que possa parecer, Full Metal Jacket só tem algo de criticável precisamente por ser realizado pelo Stanley Kubrick. O homem era um génio e isso vê-se na sua filmografia. Todos os filmes são perfeitos e alguns até são mais que perfeitos! Por isso mesmo a "barra" está sempre muito, muito lá em cima. É essa a única razão que me leva a escalpelizar tanto ao pormenor e a ser tão exigente.
Mas tirando este meu complexo das "duas metades", Full Metal Jacket é um filme único e imperdível. Banda sonora excepcional, uma atenção aos detalhes absolutamente minuciosa, cenários e fotografia belíssima, planos de câmara fantásticos e recheado de personagens e situações tão icónicas que ainda hoje continuam a ser copiadas e algumas já entraram e enraizaram-se na cultura pop como é o caso do sargento Hartman e do seu temperamento irascível. É um filme obrigatório para qualquer pessoa que gosta de cinema. Um filme com a marca e a qualidade Stanley Kubrick. Imperdível. ●●●●○
(se este fosse um filme realizado por outra pessoa qualquer, seria de caras para levar 5
estrelas; ao Kubrick, não consigo perdoar esta "falha" por muito mínima que seja...)
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Não resisto a ver um filme sobre futebol, ainda por cima em ano de Mundial... A principal razão para isso é que não há bons filmes sobre futebol, por isso estou sempre à espera de ser surpreendido. Para ser franco, ainda não foi desta. Pelé: Birth of a Legend até nem é propriamente mau mas parece um telefilme. Pode ser por ter atrás das câmaras um realizador de documentários (Jeff Zimbalist), ou porque simplesmente é mesmo um telefilme. Não sei. Para um filme sobre futebol (que gera tanta emoção incompreensível e incontrolável) falta-lhe intensidade. Achei também estranha a escolha de actores brasileiros para depois os por a falar inglês. Ainda por cima ficam com um sotaque estranhíssimo. Por lá passam Vincent D'Onofrio, Rodrigo Santoro, Seu Jorge, e como não podia deixar de ser, o verdadeiro Pelé, mas tudo muito low-profile. Grande falha na escolha dos dois miúdos (Kevin de Paula e Leonardo Lima Carvalho) que fazem de Pelé. Muito inconstantes e muito pouco à vontade, se bem que vão melhorando com o correr do filme. Claro que tem alguns bons momentos, mas é mesmo só isso, alguns bons momentos. Filme aceitável, mas fracote. ●●○○○
Men in Black é uma divertida comédia de acção que dá uma explicação "plausível" para a muito difundida teoria da conspiração que gira em torno dos misteriosos Homens de Negro. "Eles", os Homens de Negro, os que pertencem a uma organização secreta (que seria das teorias da conspiração sem as organizações secretas?) que persegue extraterrestres oriundos de toda a galáxia. "Eles", os que sabem mais que os outros e que mantêm toda a gente na ignorância, porque sabem que somos "uns idiotas que iam entrar em histeria" se soubéssemos tudo o que eles sabem. Nada como fazer uma comédia para poder dizer estas coisas.
O que tenho a dizer é que a comédia é muito menosprezada. Normalmente é mal tratada nos filmes, que raramente se desviam do riso fácil, da "estalada com creme" e do tombo desconcertante à "isto só video". Para piorar ainda mais a situação, por norma, a isto ainda se juntam argumentos tão simplistas que parecem ser feitos para menores de 6 anos... e estou a falar na idade mental.
Mas volta e meia, lá aparece uma comédia que consigo ver e até gostar. É o caso de Men in Black, que tem muitas coisas positivas. É um filme que proporciona algumas boas gargalhadas, é um bom filme para ver com a miudagem mais jovem, porque é light mas tem a inteligência de caracterizar as situações cómicas de um forma ambígua mas quotidiana, como por exemplo, ter extraterrestres a pedir asilo político. Tem uma uma boa história e está muito bem escrito.
Os actores foram muito bem escolhidos, como por exemplo o Vincent D'Onofrio, mas como é óbvio, todo os holofotes apontam para a dupla principal. Há uma química estranha, que não é fácil de encontrar, mas totalmente natural entre o tom sério e seco de Tommy Lee Jones e a descontração musculada de Will Smith. A realização de Barry Sonnenfeld é excelente como sempre, com o destaque óbvio para o delicado malabarismo de manter equilibrado a acção, a comédia e a ficção científica. Muito difícil. Muito bom. Os efeitos especiais, apesar de não serem revolucionários eram do melhorzinho que se fazia na altura. Parece que o vi ontem, mas este é filme com mais de 20 anos. Incrível. Foi um grande sucesso de bilheteira, totalmente justificado, porque era um filme totalmente diferente do que se estava habituado a ver. Tem um "timbre" próprio. É o "timbre Sonnenfeld".
Gostei do pormenor final de mostrar que a nossa galáxia pode ser só um berlinde para um alien brincar. É uma ideia interessante e, mais uma vez, uma forma inteligente de rematar um filme. ●●●●○
O que tenho a dizer é que a comédia é muito menosprezada. Normalmente é mal tratada nos filmes, que raramente se desviam do riso fácil, da "estalada com creme" e do tombo desconcertante à "isto só video". Para piorar ainda mais a situação, por norma, a isto ainda se juntam argumentos tão simplistas que parecem ser feitos para menores de 6 anos... e estou a falar na idade mental.
Mas volta e meia, lá aparece uma comédia que consigo ver e até gostar. É o caso de Men in Black, que tem muitas coisas positivas. É um filme que proporciona algumas boas gargalhadas, é um bom filme para ver com a miudagem mais jovem, porque é light mas tem a inteligência de caracterizar as situações cómicas de um forma ambígua mas quotidiana, como por exemplo, ter extraterrestres a pedir asilo político. Tem uma uma boa história e está muito bem escrito.
Os actores foram muito bem escolhidos, como por exemplo o Vincent D'Onofrio, mas como é óbvio, todo os holofotes apontam para a dupla principal. Há uma química estranha, que não é fácil de encontrar, mas totalmente natural entre o tom sério e seco de Tommy Lee Jones e a descontração musculada de Will Smith. A realização de Barry Sonnenfeld é excelente como sempre, com o destaque óbvio para o delicado malabarismo de manter equilibrado a acção, a comédia e a ficção científica. Muito difícil. Muito bom. Os efeitos especiais, apesar de não serem revolucionários eram do melhorzinho que se fazia na altura. Parece que o vi ontem, mas este é filme com mais de 20 anos. Incrível. Foi um grande sucesso de bilheteira, totalmente justificado, porque era um filme totalmente diferente do que se estava habituado a ver. Tem um "timbre" próprio. É o "timbre Sonnenfeld".
Gostei do pormenor final de mostrar que a nossa galáxia pode ser só um berlinde para um alien brincar. É uma ideia interessante e, mais uma vez, uma forma inteligente de rematar um filme. ●●●●○


