0322 Chaplin

Quando se faz um filme sobre uma personagem que é simultaneamente, um dos maiores cineastas, um dos melhores actores de sempre e uma figura incontornável do história do cinema e até do próprio mundo, há uma obrigatoriedade natural de ter de se criar um épico. Richard Attenborough tem todo o meu crédito pois consegui-o. Chaplin é um grande filme. Tanto em dimensão como em qualidade. E tinha mesmo de ser assim para conseguir cobrir a enormíssima carreira (e vida) de Charles Spencer Chaplin, ou o icónico vagabundo "Charlot", como lhe queiram chamar, que para além de actor também foi músico, produtor, empresário, escritor, dançarino e coreógrafo. Ah! E em 1919, juntamente com outros ícones do mundo do cinema "antigo" (Mary Pickford, Douglas Fairbanks e D. W. Griffith) também fundou a United Artists. Chaplin criou uma das mais reconhecidas personagens do mundo, conviveu com as maiores lendas da sua altura, viveu na pele a "caça paranóica ao comunista" nos Estados unidos e fez, talvez a transição mais fracturante do cinema, do mudo para o sonoro. E isto para não falar na conturbada relação com a mãe, as múltiplas mulheres e romances ocasionais e o seu final de vida no exílio suíço e quase caído no esquecimento. Nada de muito relevante e muito pouco para se contar, portanto...
A história do filme cobre a infância difícil e a relação com a mãe (estranhamente interpretada por Geraldine Chaplin, a filha de Chaplin na vida real), o início de carreira no teatro, ainda em Inglaterra, e a passagem para o "novo mundo" do cinema, onde chega ao pináculo do reconhecimento global. Mostra também o lado mais sombrio do hilariante "Vagabundo" e como toda uma vida de riso no cinema, também foi (atrás das câmaras) uma vida de profunda tristeza e perda constante.
Abarcando um período tão longo e tão recheado da vida de Chaplin, o filme nunca esmorece nem aborrece. Attenborough arranja sempre forma de encaixar bem a história e arranja novos focos de interesse em cada novo período da vida do mestre. Compreendo perfeitamente que deva ter sido uma missão extremamente difícil a de decidir o que cortar.
Chaplin é interpretado por um soberbo Robert Downey Jr., e que demonstra aqui, claramente, que tanto é um bom actor, como também é meio chalado. Tanto crazy eye, que até mete impressão... Ver a espantosa actuação de Robert Downey Jr. a dar vida a uma personagem complexa como a de Chaplin, leva-me sempre a pensar porque é que a maior parte dos gajos extremamente talentosos, têm sempre uma queda para a maluqueira. Bem, mas isso é uma coisa deles...
Como "actores de suporte" num casting absolutamente gigantesco ainda há James Woods, Kevin Kline, Diane Lane, Marisa Tomei, Penelope Ann Miller e Anthony Hopkins (tudo pessoal de "primeira"), para não falar de "pequenas" participações de muita gente como Dan Aykroyd, David Duchovny e muitos, muitos outros.
Este filme sobre Chaplin é uma pérola do cinema. É muito bom em muitos aspectos: na realização, no argumento, nos actores, mas principalmente no trabalho épico de produção. Para quem gosta do cinema como forma de arte e das suas origens, tem mesmo de ver este Chaplin. É simplesmente obrigatório. ●●●●●

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