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James Ivory decidiu embrenhar pelo mundo dos artistas e não se deu nada bem. Surviving Picasso retrata um período da vida de Picasso em que ele se apaixona por Françoise Gilot, uma jovem pintora que acabou por ser a única mulher forte e capaz o suficiente para "sobreviver" ao portento criativo de Pablo Picasso. Não só lhe sobreviveu como também foi a única capaz de o deixar e continuar com a sua vida...
Nos principais papéis há Anthony Hopkins como Pablo Picasso, Natascha McElhone como Françoise Gilot e depois há também em papéis mais secundários, nomes como Julianne Moore, Joss Ackland e um novíssimo e quase irreconhecível Dominic West como Paulo Picasso.
Surviving Picasso é muito fraquinho. Logo à partida há uma enorme falha que é a ausência das obras de Picasso. Acho incompreensível fazer o que quer que seja minimamente relacionado com Picasso e não mostrar um único quadro do mestre... No entanto, há uma razão para isso. Não existia uma autorização expressa para se poder mostrar as obras de Picasso. A família opôs-se ao filme e não autorizou que se usassem reproduções das obras. Só isto retira muita estética ao filme, já para não dizer que se perde imenso valor estético e uma parte substancial da história. Até porque existe uma relação quase simbiótica entre as mulheres e os períodos estéticos de Picasso...
Mas para além disso, o filme é relativamente inócuo. A fotografia é fraca, não tem nenhum pormenor relevante na realização, a banda sonora é quase inexistente... Não quero estar aqui a bater mais no ceguinho...
Não fosse as boas interpretações dos actores principais e este Surviving Picasso teria sido uma desgraça total. Parece um daqueles biopics feitos para televisão. Não gostei nada. Se a intenção era mostrar um pouco mais Gilot para além de Picasso fizeram-lhe um muito mau serviço. O filme serve acima de tudo para mostrar como Picasso tudo dominava e ninguém saia incólume da relação... que é exactamente o oposto daquilo a que se propunha. Apesar da premissa, o retrato de Françoise Gilot figura mais como acompanhante de Picasso do que peça principal... é um falhanço total para James Ivory. Acontece aos melhores... 


Rodin foca-se na vida do famoso escultor num específico espaço de tempo e eventos. O momento é o da criação da famosa estátua de Balzac, na altura muito mal recebida, mas que agora é reconhecida como uma das obras mais importantes da escultura moderna. O evento é o romance tórrido e conturbado com Camille Claudel e a posterior separação entre ambos. Em pano de fundo surge também, uma obra escultórica que teve influência directa dos dois artistas, A Porta do Inferno, baseada na obra de Dante.
A premissa e o núcleo central do enredo são muito bons, os intervenientes têm muita coisa para dizer e mostrar, mas no geral, o filme acaba por ser uma decepção. Por muito que goste de Rodin - e é sem dúvida um dos meus artistas favoritos - é preciso compreender que a maior parte do público não conhece a personagem. Quem tiver pouco conhecimento da vida e da obra do mestre escultor nunca vai perceber o filme e vai literalmente estar a olhar para uma tela "vazia" a tentar perceber o que é que se passa. Neste caso, uma escultura em fase de criação... Bastava uma pequena introdução para dar um melhor contexto ao filme. Auguste Rodin, apesar de ser unanimemente considerado o percursor da escultura moderna, era na realidade um homem "comum". Tentou por três vezes ingressar na Faculdade de Belas Artes e por três vezes foi recusado, o que exemplifica bem o quanto o ensino artístico tem para oferecer e reconhecer em termos de conhecimento estético... Mas isso é outra história... Rodin era efectivamente um autodidacta. Não aprendeu com ninguém. "Ensinou-se", no seu próprio estilo. Acho que meia dúzia de linhas no início do filme a explicar quem é o protagonista, permitiriam entrar melhor no mundo de Rodin e Claudel. Sem esta introdução, uma pessoa fica algo perdida na história, como se entrasse a meio do filme sem perceber nada do que aconteceu antes...
Mas esse nem é o principal problema deste Rodin. O problema está em tudo o resto. A realização de Jacques Doillon é fraca, dura e seca como um pedaço de pedra antes de ser trabalhado por um escultor. Percebo a lógica (se é que ela existe), mas não gosto do tom demasiado cru e austero. É um filme que parece uma adoração a uma fotografia antiga e acinzentada de uma estátua. Há uma música deslavada no início e outra no fim, perto dos créditos. Pelo meio, sempre os mesmos planos fixos envoltos em silêncio. As obras dos dois artistas que deveriam na realidade ser a grande mais valia, pouco ou quase nada são intervenientes... Não gostei nada disto. Rodin é um dos meus artistas favoritos e por isso acho que este filme fez-lhe pouca ou nenhuma justiça... Vale a interpretação de Vincent Lindon e Izïa Higelin e pouco mais. Não há tensão, não há carga emocional... Tudo é uma estátua de pedra sólida neste filme. Estaria de acordo com esta aproximação, não fosse o tema central deste tal "momento" o romance  de Rodin Claudel... É um contrasenso... Tudo junto, parece um daqueles telefilmes ou documentários que recriam a vida de uma pessoa famosa...  Uma decepção enorme. 

Vi este Bruna Surfistinha numa onda estranha de visualização de filmes. Curiosamente, e por pura coincidência, vi uma série de filmes brasileiros de seguida. Não tinha grande opinião positiva, mas depois deste pequeno lote, posso dizer que o cinema brasileiro subiu imenso na minha consideração e até posso dizer que o cinema oriundo do Brasil tem muito a oferecer ao mundo.
Esta é um história baseada em factos verídicos. Raquel, uma miúda de 17 anos da classe média brasileira, foge de casa após um conflito familiar. Sem muito por onde se virar, Raquel envereda pelo mundo da prostituição e do dinheiro fácil. Conhecida no submundo do sexo pelo nome de Bruna Surfistinha começa a ganhar fama. Mas ao contrário de tantas outras miúdas na mesma situação, em vez de se esconder, Raquel começa a relatar a sua rotina e os seus encontros sexuais num blog que se tornou um fenómeno de popularidade, primeiro no Brasil, depois em todo o mundo. Mais tarde, atingiu a celebridade pública quando escreveu o livro "O Doce Veneno do Escorpião", que se tornou também um best seller. É esse livro que serviu de base ao filme.
Se a história rocambolesca é, por si só, a grande estrela do filme, são os actores que lhe dão vida. E este grupo, como acontece quase sempre nas produções brasileiras, é muito bom. Deborah Secco faz um grande papelaço e tem a ajuda de bons actores como Cássio Gabus Mendes, Drica Moraes, Cristina Lago e Fabiula Nascimento, que já me tinha ficado debaixo de olho após o fantástico Estômago. Os brasileiros, tal como os americanos, parecem ter todos uma estranha inclinação genética que lhes permite estarem super à vontade no grande ecrã. E quando têm de representar casos verídicos, como é caso, isso é ouro sobre azul.
Marcos Baldini esteve aos comandos da realização e conseguiu fazê-lo muito bem. Prostituição não é propriamente um tema muito agradável de tratar, nem fácil de filmar. Seja ao vivo ou pela internet, com este ou aquele nome, na vida real ou na ficção, a prostituição parece fascinar a sociedade. Mas transpor a violência implícita da profissão sem ser totalmente explícito é mesmo muito difícil. Baldini conseguiu equilibrar muito bem este pormenor e passa do look sujo e decadente das espeluncas de vão de escada para as grandes festas VIP cheias de brilhantes com a mesma mestria. Sem ser uma obra-prima, é um filme bem feito. Bruna Surfistinha é por vezes bastante potente, mas na maioria dos casos é demasiado suavizado, e esta é se calhar, a maior falha. Mas nem tudo tem de ser totalmente explícito e chocante, não é verdade? Respeito a lógica. Bruna Surfistinha está bem equilibrado e por isso vê-se muito bem. ●●●○

Quando se fala de música rock é impossível não mencionar os Queen. Fala-se muitas vezes nas melhores bandas do mundo, e é sempre um tópico quente. Gosto de muitas bandas rock míticas: Led Zeppelin, The Doors, mas tenho um lugar no meu cérebro especialmente para os Pink Floyd. Quando penso na melhor banda de sempre, lembro-me sempre dos Pink Floyd em primeiro lugar. É um tipo de música que me toca fundo no cérebro. Mas depois ponho a rolar um Greatests Hits dos Queen e começo a ver a quantidade de hits, singles e músicas que passaram directamente para a cultura pop, e então tenho de admitir que os Queen são provavelmente a melhor banda do mundo. De sempre.
Contrariamente às outras bandas lendárias, a música dos Queen é algo incoerente. Ao passo que a sonoridade de base de uns Doors ou Led Zeppelin é mais ou menos linear e constante ao longos das décadas, a música dos Queen vai mudando e passando por vários estilos. Quase ao ritmo da mudança visual do Freddy Mercury... E estranhamente, isto nunca lhse retirou sonoridade. Passa do glam rock dos 70's, desdobra-se em vários estilos pelo meio dos 80's e termina num pop mais leve nos 90's juntamente com um lado mais básico e pessoal do Mercury. Mas a música permanece sempre excepcionalmente boa. É estranho. Isto nem devia ter acontecido. Já vi alguns documentários sobre os Queen e por isso conheço relativamente bem os elementos da banda. E a minha única explicação para aquilo funcionar sempre bem em termos musicais é o background profissional deles. Tirando o Freddy Mercury - que nasceu para ser performer e nunca poderia ter sido outra coisa -, todos eles têm formação académica e/ou técnica: Brian May é formado em astrofísica, Roger Taylor formou-se em biologia e John Deacon estudou electrónica... Isto é tudo pessoal muito técnico. Acho que é por causa disso que a música é tão... tão... Não sei explicar. Acho que de alguma forma eles conseguiram alinhar as músicas e as batidas com os nossos chacras, o palpitar do coração ou com a via láctea e os planetas... Não sei... Sei que a música dos Queen "funcionou" durante os 30 anos de existência da banda e continua a bater forte em todas as novas gerações, como se a música deles fosse lançada agora pela primeira vez. Sempre que aparece um filme ou um anúncio com uma música dos Queen, dá a impressão que a banda ainda existe e que aquela composição é de "agora". Os Queen atingiram a intemporalidade.
Como já sou meio-jurássico ainda me lembro do Live Aid do Bob Geldof, em 1985. Passaram por lá as maiores bandas e os melhores cantores do mundo naquela altura. Desses, entretanto já se eclipsou tudo da memória... tirando aquela performance dos Queen. É uma coisa que fica para sempre. Vindo de uma banda que se estava a separar e que já não tocava há algum tempo... é preciso ser mesmo muito bom para dar um show daqueles.
E depois há Bohemian Rhapsody. No campo da música moderna, tipo pop e rock, acho que não há dúvidas que é a melhor música de sempre. Nunca conheci ninguém que não gostasse da música. Mas para além da estranheza daquela junção marada de estilos musicais e operáticos, há algo naquela música ainda mais profundo. A letra e as performances do Freddy têm um carácter tão estranhamente premonitório que se torna até assustador. Parece que ele sabia como iria acabar e como tudo se desenrolaria no final... Bem, se calhar estou novamente a ver coisas onde elas não existem... Mas é que eu sinto.
Os Queen faziam músicas que são inexplicáveis e facilmente reconhecidas por qualquer pessoa no mundo inteiro. Daí que fazer um filme sobre a banda e as raízes das músicas, nunca seria uma tarefa fácil e um risco muito grande. Mas há que dizer que Bryan Singer fez um bom trabalho. Bohemian Rhapsody é um filme totalmente aceitável porque capitaliza na atracção quase visceral e também intemporal da música do Queen. Foi um enorme êxito de bilheteira, o que para mim não foi surpresa nenhuma. Acho que qualquer filme mixuruca (o que não é o caso) que tivesse banda sonora dos Queen seria sempre bom. Mas à parte da música, o filme realmente está bem feito, porque assenta num guião perfeitamente estruturado. É um biopic bem feito, bem realizado e muitíssimo bem interpretado por Rami Malek. E aqui há que mencionar o protagonista. Ter uma cara parecida com o Freddy Mercury não é esforço nenhum. Mas há que lhe dar todo o mérito pela forma como lhe deu "corpo" e como mimetizou muitas daquelas nuances tão típicas e únicas do Freddy Mercury. E isso era provavelmente a coisa mais difícil de conseguir. Já o restante pessoal (Lucy Boynton, Gwilym Lee, Ben Hardy, Joseph Mazzello) faz essencialmente de secundário e acaba mesmo por ser secundário, porque só lá estão devido às parecenças físicas com a banda original e para servir de suporte para a grande performance de Malek. Não deixa de ser curioso que os Queen tenham aparentemente "sofrido" do mesmo problema... Apesar de ser um filmito bastante "normal", Bohemian Rhapsody, acaba por ser agradável porque mostra um pouco o "interior" da banda, os confrontos e as fontes de inspiração para algumas músicas, assim como toda a dualidade e demónios do grande monstro e génio dos palcos que foi Freddy Mercury. E só por isso já vale bem o bilhete. ●●●○○

First Man é um biopic sobre a vida do lendário astronauta americano, Neil Armstrong. Abarca o período entre 1961 e 1969, ou seja, desde a preparação inicial até ao objectivo final que era pousar e ter um humano a caminhar na lua. Em plena Guerra Fria, os americanos deram tudo por tudo para superar os soviéticos, o que levou ao extremo o empenho da NASA, e especialmente os pilotos.
Nota-se que Damien Chazelle quis fazer um filme sobre a mítica alunagem que não fosse documental, mas que fosse o mais fiel possível aos acontecimentos. Nesse aspecto é irrepreensível. First Man é um filme bem feito com alguns toques de brilhantismo aqui e ali. Peca apenas pelo ritmo excessivamente arrastado e por alguma desconexão narrativa. Os actores estão todos muito bem (Ryan Gosling, Claire Foy, Jason Clarke, Kyle Chandler, Corey Stoll) e a música é muito boa, com todos aqueles instrumentos e ambiências estranhas. Como os últimos filmes têm sido excepcionais, esperava um pouco mais de Chazelle. Acho que foi a falta do tema musical... Mas ainda assim, First Man é um bom filmito que se vê muito bem. ●●●○○

Robin Williams: Come Inside My Mind é um grande documentário da HBO, realizado por Marina Zenovich. Está repleto de filmagens nunca antes vistas do lendário comediante e de certa forma mostra como Robin passou da euforia total para uma mortífera depressão motivada por uma doença degenerativa. Sinceramente não sei como fizeram isto. A locução é do próprio e parece relatar toda a sua vida até ao ponto final da morte. Para mim, Robin Williams foi um génio da comédia e um dos melhores de sempre. É absolutamente lendário. Era alguém que nitidamente tinha muitas pessoas lá dentro. Muitas pessoas cómicas, mas também alguns demónios.
Tem também a participação de praticamente todos os grandes gajos da comédia dos últimos anos e cujos nomes dispensam apresentações como Roseanne Barr, John Belushi, Lewis Black, Jim Carrey ou Billy Crystal. Mas todo o documentário está repleto de homenagens e testemunhos de outros grandes nomes de Hollywood como Steve Allen, Robert Altman, Kate Capshaw, George Carlin ou Johnny Carson. É um trabalho de produção incrível, e a sensação que fiquei é que realmente dá a ideia de entrar literalmente dentro da cabeça do Robin Williams e perceber o que aconteceu até ao trágico desfecho. Mas para mim, o que fica é a homenagem a um dos grandes actores cómicos (e não só, porque também era excepcional no drama) de sempre e a um dos gajos que mais gostava no cinema. Grande, Grande Robin Williams. É uma pena que já cá não esteja. É um dos pouco gajos neste mundo que me fazia rir compulsivamente. Um verdadeiro génio. ●●●●○

A Vida é um Sopro é um documentário mediano mas que acaba por ser bom devido ao entrevistado e às suas obras. E o entrevistado é nem mais nem menos do que o senhor Oscar Ribeiro de Almeida Niemeyer Soares Filho, ou simplesmente, Oscar Niemeyer, o génio.
No mundo da arquitectura, para mim, é simplesmente o melhor. Não só pelo desenho arquitectural, mas também porque tem inerente uma filosofia de vida. Mesmo sem nunca ter visto um documentário, olhando para os edifícios e construções, percebe-se imediatamente que há ali uma linha de pensamento dirigida para a pessoa que olha e usufrui do equipamento. Isto é algo que grande parte da arquitectura dita "modernista" se esquece. Um prédio, mesmo que uma pessoa não o use, não é "só" um prédio; é uma presença na vida das pessoas; interfere com o meio envolvente; mesmo sendo imóvel, interage com a pessoa que vai a passar, mesmo que ela nem olhe para lá. E estas pequenas (ou grandes, conforme a dimensão) interferências na vida quotidiana têm um reflexo, e é esse reflexo que me parece que muitas vezes não é sequer tido em conta. E nem sequer estou a falar na construção comercial, que isso são caixotes-dormitórios para acomodar paletes de pessoas, estou a referir a intervenção arquitectónica urbana que muitas vezes é premiada e reverenciada como o supra-sumo da arquitectura e que para mim, não tendo em conta o impacto da questão social e humana, é - pegando nas palavras do mestre - simplesmente uma merda. Pode ser muito bonito, muito estético e arrojado, mas quando não "pensa" nos impactos, nas pessoas e como isso muda tudo, para mim não vale simplesmente nada. Zero.
Já vi muitas entrevistas, alguns documentários e chego à conclusão que Niemeyer é provavelmente o melhor arquitecto de sempre. E acho isso porque é uma junção de duas coisas inseparáveis: arquitectura e pessoas. Sem uma destas coisas, a outra não faz sentido. Talvez seja a sua queda ideológica para a política mais socialista que mistura tão bem as duas coisas... não sei. O que sei é que o homem concebeu das melhores obras arquitectíonicas do mundo como por exemplo a Catedral de Brasília, o Congresso Nacional do Brasil, o parque urbano de Ibirapuera, a sede da ONU ou o Museu de Arte Contemporânea de Niterói. Arquitectura com décadas que parece saída do futuro. Mais um gajo que estava muito à frente no seu tempo.
Oscar, como gajo que é "gajo", é "simples" e não tem papas na língua. É uma delicia vê-lo a defender o que é bom e bonito, como "a mulhér bonita, o prédio bonito" e a mandar literalmente foder o que é mau e não presta. Sem contemplações, sem merdas. Simples e directo do coração. Oscar Niemeyer, sem dúvida, um dos melhores gajos de sempre.
Como já disse, "A vida é um sopro" é documentário a cair para o fracote. Quer dizer, até me custa dizer "fracote", mas a sensação com que fico é que o Niemeyer é tão bom, que provavelmente ninguém conseguiria fazer um documento à altura do entrevistado. Até tem alguma produção, mas pouca. É mais uma entrevista "quitada" do que propriamente um documentário. Já vi uns quantos documentários sobre arquitectura e (quase) todos cometem o mesmo erro: não mostram os interiores e os pormenores. É quase como se arquitectura fosse apenas a parte exterior da construção. É pena e é um erro. Aposto que se o Niemeyer fizesse um documentário ele mostraria os interiores e como pensou na disposição das casas de banho e porque é que nas áreas comuns usou "aquelas" cores ou "aquela" iluminação em detrimento da outra. Mas pronto, é o que há e é melhor que nada. Podia ser melhor, mas não está mal. E compreendo que a investigação e produção duma cena destas não seja fácil nem barata, portanto o Fabiano Maciel está totalmente desculpado. Pelo menos, reconheceu a genialidade do homem, fez o documentário e eu pude vê-lo, portanto, está tudo bem. Parabéns para o Fabiano. A Vida é um Sopro é muito provavelmente o último registo/entrevista do mestre, e isso, só por si, já merece destaque. Tem também comentários e participações (de arquivo) do Chico Buarque, Le Corbusier, Lúcio Costa, José Saramago e Mário Soares. Oscar Niemeyer continuou a trabalhar até ao dia 5 de dezembro de 2012, contabilizando uns já longos e profícuos 104 anos. Ou como diria o mestre, "nasceu, viveu, se fodeu"... ●●●○○

Se me pedissem para escolher uma temática de eleição no cinema não tenho dúvidas que seria a ficção científica. Mas este predileção pela ficção científica tem as suas raízes nos factos científicos. Se estiver a fazer um zapping, é-me quase impossível resistir a um documentário ou programa sobre o Universo. Se as mecânicas do planeta Terra - já de si complexas - são relativamente simples de entender e assimilar, já os mecanismos de funcionamento do espaço sideral são quase para além da compreensão humana. São forças gravitacionais, planetas errantes, buracos negros, raios gama, energias negras e outras coisas ainda mais extravagantes que me deixam com a cabeça à roda. Fascinam-me. E ainda por cima, tudo está numa escala tão massiva que é... mind-blogging. (esta é uma expressão que uso com regularidade quando me refiro ao Universo, até porque nunca encontrei uma expressão portuguesa que fosse equivalente...)
Toda a minha curiosidade por saber como tudo começou e como tudo funciona, e sendo um tolinho por coisas do Universo levou-me ao encontro dos (principais) autores científicos (ou pelo menos, os que têm preponderância televisiva...) e por isso nunca poderia contornar uma personagem com a de Stephen Hawking. Um cromo e um crâneo científico dos melhores que por cá passou. Daí que tinha bastante curiosidade em ver este biopic sobre o Hawking, The Theory of Everything.
E tenho de admitir que foi uma belíssima surpresa. Apesar do ritmo lento - mas constante -, tem sempre um momento em que dá um salto e fez-me ficar ansioso por saber o que ia acontecer a seguir. A realização de James Marsh é segura e às vezes até algo "distante", mas de alguma forma acho que foi propositado e enquadra-se perfeitamente. Mas se o filme é digno de aplausos é por causa do Eddie Redmayne. Felicity Jones no papel da mulher que acompanha o definhar físico do génio está muito bem - assim como o restante casting - mas acaba por se tornar demasiado secundária perante o papelaço do Redmayne que absorve todo o filme. É uma grande e exemplar interpretação do Eddie Redmayne, que a determinada altura fez-me esquecer que estava a ver um filme. É que parecia mesmo o Stephen Hawking. Absolutamente impressionante. Uma actuação para a história, sem dúvida. Uma autêntica viagem pelo universo da vida de Stephen Hawking. Muito bem feito. Muito bom. ●●●●○

Se há uma coisa que os serviços de streaming fazem melhor que qualquer outros "estúdios" é no campo dos documentários. Este Becoming Bond (da Hulu) é mais um desses exemplos e explora a história marada em torno do James Bond mais odiado mas ainda assim, talvez o mais emblemático e carismático de todos: George Lazenby. É um documento surpreendente (num misto de documentário e recriação [Josh Lawson, muito bem no papel de George]) que mostra que a realidade é sempre mais estranha que a ficção. Como é que um mecânico australiano e mais tarde modelo masculino de roupa, sem experiência absolutamente nenhuma como actor, foi escolhido para ser "o" James Bond, e ainda por cima para colmatar a saída de cena do "verdadeiro" Bond, Sean Connery? Não parece possível, mas foi exactamente isso que aconteceu... Revelações surpreendentes estão incluídas, como aquela em que Lazenby diz que após lhe terem oferecido um contrato de 1 milhão de dólares e a hipótese de protagonizar os próximos seis filmes do mais conhecido agente secreto de Sua Majestade, ele simplesmente recusou... porque teve um feeling que aquele não era o caminho que deveria percorrer...
Becoming Bond é um documentário obrigatório para todos os fãs do 007, com a presença ubíqua de Lazenby, the man himself... Vê-se muito bem. ●●●○○

Se fosses a entrar num elevador e toda a gente estivesse a olhar para a parede, o que farias quando a porta se fechasse? E se alguém te mandasse dar choques a outra pessoa sempre que ela errasse numa pergunta, o que farias? Para todas as pessoas que estão a pensar que fariam diferente do comportamento colectivo ou que não o fariam simplesmente porque lhe mandaram, aconselharia que lessem um pouco sobre as experiências do psicólogo Stanley Milgram, porque elas demonstram exactamente o contrário.
Sempre gostei de psicologia e de perceber o comportamento humano perante diversos cenários. Já tinha lido algumas coisas do, e sobre o Milgram (inclusive sobre as questões éticas relacionadas com as tais experiências) e por isso tenho de falar sobre este Experimenter. É uma pérola escondida! Um excelente filme de Michael Almereyda. Uma baixíssima produção, recheada de bons actores (Peter Sarsgaard, Winona Ryder, Anthony Edwards, John Leguizamo, Anton Yelchin), embrulhados num belíssimo argumento que gira em torno das reais experiências psicológicas e sociais de Milgram sobre autoridade e controlo. Muito bom. Leva quatro "bolinhas" de caras e só não leva cinco, apenas e só, devido àquela barba postiça ridícula que estragou tudo. Um pequeno filme (quase) perfeito, com toques de documentário e repleto de belíssimos pormenores. Um exemplo de como filmar em pequenos espaços e que por vezes tem momentos de pura representação teatral. Recomendadíssimo. ●●●●○

Eugène-François Vidocq foi uma daquelas personagens reais que se não existisse tinha mesmo de ser inventada. Começou a sua história como um criminoso a ser perseguido pela polícia nas ruas e acabou como o fundador e diretor da Sûreté Nationale, a polícia francesa especializada em investigação criminal. É, assim, comummente considerado como o pai da criminologia moderna. Ah! E foi ele a inspiração para muitos escritores, como Victor Hugo, Balzac e Arthur Conan Doyle. Mas do "verdadeiro" Eugène-François Vidocq pouco há neste Vidocq. Pegaram na personagem histórica e transformaram-na numa personagem de filme que é uma coisa totalmente diferente. Não é nenhum biopic ou algo do género. Muito pelo contrário. Por mim não há problema nenhum, até porque foi depois de ver este "Vidocq" que fiquei a conhecer o verdadeiro "Vidocq". Mas adiante.
Vidocq é um bom filmito francês, misto de fantasia, mistério e acção. Na cadeira do realizador está Pitof, o director de efeitos especiais que costumava trabalhar com a dupla Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro. As parecenças visuais são óbvias, mas a realização acaba por ser demasiado estranha para mim com todos aqueles close-ups. Escapa, mas não me agrada.
A história de Vidocq é totalmente transformada: tudo começa precisamente quando Vidocq desaparece depois de uma intensa luta com o Alquimista, um assassino que ele persegue à muito tempo e que parece ter poderes sobrenaturais. Entra então em cena o seu jovem biógrafo que para além de querer documentar o que aconteceu naqueles últimos momentos, também quer vingança...
Gérard Depardieu está bem como Vidocq. Guillaume Canet, Inés Sastre ajudam bem como secundários. Vidocq é uma boa (e diferente) alternativa aos filmes de acção estereotipados americanos. A ver. ●●●○○

Danny Boyle é um gajo que curto há muito tempo. É daqueles realizadores que sei de antemão que não me vai desiludir. Mas desta vez acabou mesmo por acontecer. Steve Jobs é um desilusão de filme. Esperava muito mais.
O filme retrata alguns aspectos marcantes do co-fundador da Apple em três momentos temporais distintos: em 1984 aquando do lançamento do Macintosh; em 1986, quando o mundo dos computadores ficou chocado com o despedimento de Jobs e sequente criação do enorme falhanço que foram os computadores pretos da NEXT; e em 1997 com o regresso à casa onde "nasceu" para lançar o iMac, o pequeno computador colorido que foi um sucesso porque toda a gente queria ter um só por ser extremamente giro.
Eu não tenho problema nenhum com filmes "partidos". Muito pelo contrário. Gosto muito de argumentos não-lineares. E neste caso, como é costume, Aaron Sorkin não desilude e consegue habilmente costurar três histórias "diferentes" e distantes no tempo. MAs para mim há algo que falha. A demasiada incidência na vida de Steve Jobs por "trás da cortina" (percebe-se a lógica, já que os fãs tratavam-no [e ainda tratam] como um verdadeiro Feiticeiro de Oz [com todas as implicações que isso traz...]), acabou por transformar um biopic de Jobs no filme em que Jobs vive a sua vida inteira nos bastidores, vãos de escadas, passagens estreitas e garagens subterrâneas. Não me lembro bem, mas acho que há apenas uma única cena de exteriores... A determinada altura o filme torna-se repetitivo e por vez até maçador. A ex-mulher e a filha estão presentes, mas aparecem e desaparecem, assim como toda a restante gente... Parece que o Jobs vivia literalmente num daqueles camarins escuros e distante da realidade e era visitado regularmente por meio mundo que o vinha chatear mesmo antes de ele apresentar um produto novo qualquer... Parece uma paródia. Mas não é.
O que poderia ajudar muito a elevar o filme seriam os actores. Michael Fassbender, Kate Winslet, Seth Rogen e Jeff Daniels são muito bons, mas de alguma foram parecem desligados do enredo. Posso ser só eu, mas nunca consegui "ver" o Fassbender como Jobs. Há algo ali que não bate certo. Foi como estar a ver uma personagem ficcional com o mesmo nome do Jobs, mas que não era "o" Jobs. E ainda por cima dá a impressão que contaminou o resto do elenco.
Os grandes (Danny Boyle) também "falham" e este é o caso. Steve Jobs não é um mau filme, mas também não é um bom filme. Tendo por base, uma personagem tão rica como a figura de Jobs, vindo de um realizador que até é dos mais favoritos, e face à expectativa que foi criada na altura da estreia, Steve Jobs só pode ser classificado como uma enorme desilusão. ●●○○○

Mark e David Schultz são dois irmãos que são também campeões olímpicos de luta greco-romana. Apesar das vitórias, Mark leva uma vida fora da ribalta, treinando na obscuridade e praticamente no anonimato. A juntar a esta falta de reconhecimento, Mark sente que vai estar sempre na sombra do irmão que talvez por ser mais sociável acaba por ser mais apoiado. A determinado ponto entra em cena o milionário excêntrico John du Pont, uma misteriosa personagem que sente que Mark não é suficientemente reconhecido e por isso quer mudar todo o paradigma desportivo, trazê-lo para a ribalta e mostrá-lo ao mundo (americano) como um exemplo do trabalhador dedicado e do que a América faz de melhor. Para isso, monta uma equipa (Equipa Foxcatcher) e toda a estrutura de treino na sua enorme mansão com o intuito de participar nos Jogos Olímpicos de 1988 e vencer a medalha de ouro. Só que à medida que Mark e John se tornam mais íntimos, a difícil conciliação de personalidades, faz com que tanto Mark como John acabem por trilhar um caminho de tragédia.
Foxcatcher é um filme estranho. Para já porque é baseado numa história verídica e como toda a gente sabe, a realidade é mais estranha que a ficção. Todos os eventos inacreditáveis do filme são realmente verdadeiros. Li e confirmei a história e parece-me... inacreditável. É daquelas coisas que uma pessoa só consegue pensar: "isto é mesmo verdade?", "isto aconteceu mesmo assim?". E é. É mesmo verdade. Por isso a história é um dos pontos positivos e basilares deste Foxcatcher. A outra coisa boa é o ritmo/tom do filme. Só quando me informei melhor do assunto é que percebi porque é que o filme parece destinado apenas a ser visto por pessoas fortemente medicadas com Prozac. É que tem um ambiência e um tom mesmo estranho. É beje, mas tem uma qualidade quase onírica... Parece que o próprio filme está sob o efeito de uma droga qualquer. Encaixa perfeitamente bem no tema. É (muito) monótono mas ao mesmo tempo é tenso. Nota-se algo no ar, como se uma pessoa estivesse muito calma mas prestes a explodir num violento episódio psicótico. Calmo, mas desconfortável. É essa a sensação. Nota-se que se passa algo de errado e que aquelas personagens estão a caminho de algo mau, mas não se percebe o quê nem porquê nem quando. Só faz sentido no final. Um grande polegar levantado para Bennett Miller. Excelente realização.
Um outro ponto muito positivo são os actores. Channing Tatum (muitíssimo bem), Mark Ruffalo e Vanessa Redgrave dão cartas na representação, mas quem partiu a louça toda foi o Steve Carell. Uma surpresa de tamanho olímpico. Uma transformação total e completa e não estou a falar da parte das próteses faciais. É mesmo da parte psicológica. Ver Steve Carell a fazer papéis cómicos e vê-lo a fazer de alucinado milionário John du Pont é como ver pessoas/actores totalmente diferentes. Até o olhar é diferente. Está irreconhecível... para melhor.
Foxcatcher surpreendeu-me imenso pela positiva. Sem dúvida nenhuma um filme para ver. ●●●○○

Jobs conta a história de Steve Jobs, desde que desiste da universidade até chegar ao patamar de guru criativo e um dos empresários de maior sucesso no século XX, à frente da empresa tecnológica mais valiosa do mundo. É um período de tempo extremamente alargado (1973-2000) o que leva a que muitos pontos de interesse da história da Apple e do Jobs sejam omitidos ou erroneamente dramatizados. É uma das grandes falhas do filme. Mas essencialmente é um filmito que se vê bem. Parece um telefilme ou um documentário quitado. Acho que o melhor que deveriam ter feito era acrescentar mais umas duas horitas (até porque há material relevante que ficou de fora: a relação conturbada com a filha, as Silicon Valley Wars, etc.) e transformar isto numa mini-série de luxo. Acho que ficava muito melhor e os apple fans podiam ter mais uma coisita para adorarem e juntarem aos mini-altares do Jobs lá de casa. ;-) Assim, tal como estreou, é só mais um filmito que nem aquece nem arrefece. Ashton Kutcher como Steve Jobs até nem está mal, mas também não mostra grande garra. Muitos nomes de relevo juntaram-se à parada como Matthew Modine, J.K. Simmons, Kevin Dunn e James Woods, só para mencionar alguns. Jobs (o filme, não o homem) não teve muito sucesso e levou com muita crítica negativa principalmente daqueles que se intitulam como apple fans (?). Passados 2 ou 3 anos saiu uma nova versão da história... Mas essa ainda não consegui ver. Fica para breve. ●●○○○

Não querendo entrar no campo dos realizadores subvalorizados e para não me repetir, vou só dizer que este é mais um (bom) filme do Robert Zemeckis. The Walk é baseado na história verídica de Philippe Petit, um equilibrista francês, que em 1974 decidiu unir as duas torres do Wall Trade Center com uma corda de 200 kgs de aço e atravessá-la a pé a mais de 400 metros de altura. Zemeckis dirige tão bem este filme que aposto que se for visto em formato 3D/IMAX deve dar umas tonturas valentes.
Contado na primeira pessoa e muitas vezes voltado directamente para o espectador, The Walk é mais parecido com um heist movie do que um biopic. Só para se ter uma noção, a primeira vez que Philippe Petit/Joseph Gordon-Levitt põe um pé naquele cabo de aço, já passou cerca de 1 hora e meia de filme. Empreender uma façanha deste tipo é muito mais do que simplesmente andar num cabo de aço mais fino do que o próprio pé. São anos de planeamento antecipado e meticuloso e muito trabalho nos locais só para montar uma coisa desta magnitude. Não deixa de ser extraordinário o golpe que fizeram. E depois, como se não fosse bastante, Petit ainda andou em cima do cabo durante largos minutos fazendo manobras arriscadas de equilibrismo. E com tudo isto, justamente, ficou para a história.
Todos os aspectos técnicos (como é normal com o RZ) são do melhor, o casting é jeitoso (Joseph Gordon-Levitt, Charlotte Le Bon, James Badge Dale, César Domboy, Ben Kingsley), está muito bem escrito e não há propriamente nada de mal a apontar a The Walk. Mas acho que falha na essência e algumas coisitas minúsculas. Exagera um pouco nos planos picados para mostrar a quem tem vertigens, a loucura que é estar em cima do WTC e olhar directamente para baixo. Está 10-15 minutos mais comprido do que o que devia. O aspecto (demasiado) formatado de biopic com discurso directo acaba por não ajudar porque a determinado momento parece um realmente um documentário da TV. Ainda assim, um documentário muito bom. Nota-se que é também uma prova sentida de homenagem à cidade de Nova York e às Torres do WTC, o que se compreende facilmente devido ao trama dos ataque de 11/9. É sentido e é facilmente perceptível na forma como Zemeckis aborda cada frame onde aparecem os prédios. É compreensível, mas acho que foi exactamente isso que fez o filme perder um pouco o foco. Mas é um filme que se vê muito bem. Só tenho pena é de não o ter visto num cinema 3D ou IMAX. Deve ser uma autêntica trip de vertigens... ●●●○○

Elis é um biopic brasileiro sobre a vida conturbada daquela que é considerada a melhor cantora brasileira de sempre: Elis Regina.
Antes de mais nada, a confissão. Conheço uma ou outra música da Elis Regina... sei que se envolveu em alguns conflitos com a ditadura militar brasileira e que, tal como as grandes estrelas musicais irreverentes, morreu devido aos excessos com a bebida e as drogas. E é isto que sei sobre a cantora, admitindo que os pormenores são quase nenhuns. Não sou nada fã de música brasileira (muito menos Bossa Nova... [eu é mais Sepultura e Planet Hemp]), daí que Elis Regina seja para mim uma perfeita deconhecida.
Apanhei este filme na RTP2 e decidi dar-lhe uma hipótese, até porque já não me lembro de ver um mau filme brasileiro. Pelo contrário, todos os filmes brasileiros que tenho visto são excelentes. Precisamente por causa disso, Elis desiludiu-me um bocadinho. Esperava mais, ainda por cima, tendo como base, a melhor cantora brasileira de sempre. Afinal, Elis (realizado por Hugo Prata) é "apenas" um filmito brasileiro relativamente jeitoso. Não é que o filme seja mau, eu é que estava à espera de melhor. Tinha as expectativas demasiado elevadas. É quase uma mistura entre uma telenovela e um filme. Um telefilme?!? Não tem grande "presença", falta-lhe energia, mais drama e um ritmo mais vibrante, mas também não chateia.
Tem dois grande pontos positivos: o primeiro são os actores que são muito bons (não me lembro de ver um mau actor brasileiro) (Gustavo Machado, Caco Ciocle e Zécarlos Machado) mas obviamente o principal destaque vai para Andréia Horta. Brilhante, mesmo. Um verdadeiro tour de force. O outro ponto positivo foi dar-me a conhecer a figura de Elis Regina, de quem, pouco ou nada conhecia. Fiquei curioso e mal tenha oportunidade vou arranjar uns discos. Quando isto acontece depois de ver um filme é sempre bom. ●●○○○

A vida é injusta. A vida é um jogo de xadrez que inevitavelmente toda a gente perde. Quando penso em xadrez dá-me logo para os pensamentos profundos. É um efeito secundário que o xadrez tem em mim. A minha ligação ao xadrez é um pouco estranha. O primeiro contacto que tive com o jogo foi numas "férias grandes" que passei totalmente a jogar com os filhos de um casal holandês que decidiu fazer campismo selvagem perto da casa dos meus pais que na altura era literalmente no meio de um pinheiral denso. Estranho, mas verdade. Adorei o jogo e ainda acho que é o melhor alguma vez inventado. Daí que tivesse bastante curiosidade para ver Pawn Sacrifice. Acaba por ser um biopic de um dos mais geniais e famosos jogadores, Bobby Fischer, que é também, provavelmente o melhor de sempre. Para além de já ser um figura mediática devido ao mix de genialidade e também do temperamento explosivo, Fischer tornou-se numa figura mítica, quando em plena Guerra Fria, defrontou Boris Spassky, de nacionalidade soviética. Este encontro de xadrez "parou" o mundo. Mais do que um confronto de xadrezistas, era obviamente um confronto entre as "potências mentais" dos EUA e a URSS. A comparação era perfeita e as implicações, muitas. Qual dos sistemas sociais produziria o jogador mais inteligente? Derradeiramente, quem era melhor? Inevitavelmente, este jogo revestiu-se destas perguntas e o resultado final iria produzir as respostas.
Indo directo ao assunto, Pawn Sacrifice cumpre perfeitamente. Primeiro porque conseguiu capturar a tensão dos momentos. Não é fácil fazer isto. O "culpado" é Edward Zwick. Tem uma realização impecável. Muito seguro, muito certinho, clean, impecável. Depois porque tem Tobey Maguire num grande papelaço a interpretar Fischer. Nota-se que Maguire dá tudo neste papel, até porque tenta há muito tempo desprender-se do sucesso "Homem Aranha". Captou totalmente a aura psicótica, explosiva e imprevisível de Fischer. Ainda há Liev Schreiber, Michael Stuhlbarg e Peter Sarsgaard, mas são verdadeiramente actores secundários; mas só porque Tobey Maguire absorve totalmente as situações todas.
Foi uma boa surpresa este Pawn Sacrifice. Face ao panorama actual do cinema, é um bom filme que merece ser visto. ●●●●○

Quando se faz um filme sobre uma personagem que é simultaneamente, um dos maiores cineastas, um dos melhores actores de sempre e uma figura incontornável do história do cinema e até do próprio mundo, há uma obrigatoriedade natural de ter de se criar um épico. Richard Attenborough tem todo o meu crédito pois consegui-o. Chaplin é um grande filme. Tanto em dimensão como em qualidade. E tinha mesmo de ser assim para conseguir cobrir a enormíssima carreira (e vida) de Charles Spencer Chaplin, ou o icónico vagabundo "Charlot", como lhe queiram chamar, que para além de actor também foi músico, produtor, empresário, escritor, dançarino e coreógrafo. Ah! E em 1919, juntamente com outros ícones do mundo do cinema "antigo" (Mary Pickford, Douglas Fairbanks e D. W. Griffith) também fundou a United Artists. Chaplin criou uma das mais reconhecidas personagens do mundo, conviveu com as maiores lendas da sua altura, viveu na pele a "caça paranóica ao comunista" nos Estados unidos e fez, talvez a transição mais fracturante do cinema, do mudo para o sonoro. E isto para não falar na conturbada relação com a mãe, as múltiplas mulheres e romances ocasionais e o seu final de vida no exílio suíço e quase caído no esquecimento. Nada de muito relevante e muito pouco para se contar, portanto...
A história do filme cobre a infância difícil e a relação com a mãe (estranhamente interpretada por Geraldine Chaplin, a filha de Chaplin na vida real), o início de carreira no teatro, ainda em Inglaterra, e a passagem para o "novo mundo" do cinema, onde chega ao pináculo do reconhecimento global. Mostra também o lado mais sombrio do hilariante "Vagabundo" e como toda uma vida de riso no cinema, também foi (atrás das câmaras) uma vida de profunda tristeza e perda constante.
Abarcando um período tão longo e tão recheado da vida de Chaplin, o filme nunca esmorece nem aborrece. Attenborough arranja sempre forma de encaixar bem a história e arranja novos focos de interesse em cada novo período da vida do mestre. Compreendo perfeitamente que deva ter sido uma missão extremamente difícil a de decidir o que cortar.
Chaplin é interpretado por um soberbo Robert Downey Jr., e que demonstra aqui, claramente, que tanto é um bom actor, como também é meio chalado. Tanto crazy eye, que até mete impressão... Ver a espantosa actuação de Robert Downey Jr. a dar vida a uma personagem complexa como a de Chaplin, leva-me sempre a pensar porque é que a maior parte dos gajos extremamente talentosos, têm sempre uma queda para a maluqueira. Bem, mas isso é uma coisa deles...
Como "actores de suporte" num casting absolutamente gigantesco ainda há James Woods, Kevin Kline, Diane Lane, Marisa Tomei, Penelope Ann Miller e Anthony Hopkins (tudo pessoal de "primeira"), para não falar de "pequenas" participações de muita gente como Dan Aykroyd, David Duchovny e muitos, muitos outros.
Este filme sobre Chaplin é uma pérola do cinema. É muito bom em muitos aspectos: na realização, no argumento, nos actores, mas principalmente no trabalho épico de produção. Para quem gosta do cinema como forma de arte e das suas origens, tem mesmo de ver este Chaplin. É simplesmente obrigatório. ●●●●●

Eunice Kathleen Waymon mais conhecida pelo nome artístico de Nina Simone foi uma pianista, cantora, performer, compositora e ainda teve tempo para ser o novo rosto do ativimo pelos direitos civis dos negros norte-americanos, ao lado de nomes míticos como Martin Luther King e Malcolm X. Nina Simone não teve um começo (nem o resto) de vida fácil: era a sexta de oito filhos, no meio de uma família pobre. Mas para compensar a falta de sorte que uma pessoa tem quando nasce, tinha um dom: a música. Começou a tocar piano aos 3 anos e aos 12 estreava o seu primeiro concerto, um recital clássico. Numa entrevista, li que este concerto a marcou profundamente e que acabou por envolvê-la, inconscientemente, anos mais tarde, nos movimentos pelos direitos civis. Nesse concerto, os pais dela foram forçados a sentar-se ao fundo da sala, para deixar espaço para os brancos e, por isso, Nina recusou-se a tocar até que os pais fossem novamente colocados à frente. Muitos anos depois e já com pleno reconhecimento público, a rebeldia e o tom mais violento do protesto anti-guerra (do Vietname), coloca-a em confronto aberto com o próprio país. Discordante sonora da política americana também em relação ao direito de negros, Nina abandona os Estados Unidos e voa para o paraíso das Barbados. E começa então a desenrolar-se uma história rocambolesca, que elevaria Nina Simone ao estatuto de lenda, tanto em termos de personalidade, como em termos musicais. Nina regressa aos Estados Unidos e, para piorar toda esta relação já de si conturbada, descobre que tem um mandado de captura emitido em seu nome com o motivo de sonegação de impostos, o que faz com que regresse de vez às Barbados. Depois, mudou-se para a Libéria. Esta mudança de país não é coincidência. A Libéria foi fundada para levar os negros livres e os negros que tinham sido libertos da escravatura para África . Foi também a primeira "colônia" africana a ser independente e até o nome significa literalmente "liberdade". Ao mudar-se para a Libéria, Nina Simone estava na realidade a fazer uma declaração de interesses. A seguir foi viver para a Suécia, depois ainda se mudou para a Holanda e acabou os seus dias em França.
Gosto imenso da Nina Simone. Mesmo muito. Como pessoa e como intérprete. E é uma relação que tem vindo a melhorar com o tempo. "Conheci" Nina Simone há muitos anos. Primeiro, só umas músicas, assim meias perdidas, mas muito boas. Depois uma pessoa começa a procurar e a descobrir o resto do puzzle e é espectacular. Músicas fantásticas. Únicas. Inesquecíveis. São daquelas músicas que ficam logo no ouvido, mesmo que se ouçam só alguns segundos e com ruído de fundo. Tenho tantas músicas preferidas da Nina Simone que nem consigo enumerar. Por acaso, muitas vezes nem sei mesmo o nome de algumas músicas. Mas sei logo que são da Nina Simone. O reportório é tão grande, com tantas músicas originais, adaptações, versões, best of's e coletâneas, que ainda hoje vou descobrindo material novo. Para quem gosta tanto da Nina Simone como eu, encontrar um documentário à altura não é fácil. Já vi mais uns dois e... não são bons. Quando a personalidade a documentar é grande demais, torna-se difícil equilibrar e enquadrar o tamanho do ego no próprio documentário. Parece que ficam sempre áquem da pessoa. Neste caso, não. What Happened, Miss Simone?, realizado pela experiente Liz Garbus e produzido originalmente pela Netflix é um documentário muito bom. Mesmo muito bom. Tem uma série de entrevistas com a diva e também com familiares e amigos intímos para enquadrar os contextos. Paralelamente, é uma visão intimista da cantora, e ao mesmo tempo encaixa-a na perspectiva histórica do momento. A história não é bonita, mas dá para perceber porque é que uma personalidade tão genial estava simultaneamente tão mergulhada num inferno pessoal. Daí a genialidade do título... É um documentário muito bom, tenho de repetir. What Happened, Miss Simone? é para ver e rever. Assim tem-se a oportunidade de ouvir uma grandessíssima banda sonora. Obrigatório para quem não a conhece, mas principalmente para todos os que gostam de Nina Simone. ●●●●○

Life Itself é um documentário que mostra a vida do célebre crítico de cinema Roger Ebert, desde os primeiros passos no jornalismo, passando pelo prémio Pulitzer que ganhou em 1975 quando escrevia críticas no Chicago Sun-Times (nunca um crítico de cinema tinha ganho este prémio), até aos últimos dias de vida em 2013, quando já tinha perdido o maxilar para um cancro e nem sequer conseguia comer ou falar.
Tenho uma relação antiga e estranha com o Roger Ebert. Conhecia-o sem nunca o ter visto, quando via nas capas dos VHS's e dos DVDs aquela expressão do “two thumbs up”. Foi ele que a popularizou. Mas genericamente falando, acho que na realidade ninguém liga a essas coisas. É como ver anúncios de detergentes para a louça que prometem repelir a gordura sem esforço: toda a gente sabe que aquilo só ali está para vender o produto. Não é "verdadeiro", digamos assim. Eu nunca liguei a essas mensagens com 5 estrelas por baixo, do género "Soberbo - LA Times" ou "Imperdível - Variety". O que é isso quer dizer? Que alguém do LA Times acha aquele filme "soberbo"? O gajo do LA Times provavelmente nem gosta dos meus filmes que eu, portanto... Sempre achei que a crítica é uma voz pessoal. Pouco importa se esta ou aquela pessoa escreve que isto ou aquilo é bom ou mau... Acho que nem sequer faz sentido dar crédito pela opinião. Mas por outro lado, acho que a forma como a pessoa escreve a crítica, isso sim, tem material para ser avaliado. Bem, entusiasmei-me um bocado e estou a divagar. Novamente.
Voltando ao Life Itself e ao Roger Ebert. Por um lado é um dos principais impulsionadores deste blog; por outro, nunca li uma única crítica dele. É estranho, mas passo a explicar.
Há uns anos li um artigo sobre um conhecido crítico de cinema chamado Roger Ebert (que na altura eu desconhecia) em que se dizia que o homem era uma máquina de ver e criticar filmes. Tinha visto mais de 10.000 filmes, aos quais tinha feito crítica a mais de 6.000. E isso levou-me a pensar em quantos filmes já teria eu visto. Pensei para com os meus botões: "será que eu, um vulgar amador, já vi mais filmes que o 'senhor dos filmes'?" Contas feitas por alto, tenho a certeza que já vi mais do que 3.000 filmes. Mas quantos terei visto ao certo? Sinceramente não sei. Daí surgiu a ideia para este "Todos os filme que vi - Um gajo 'normal' comenta todos os filmes que viu". Não queria competir com o Ebert, mas apenas ter a certeza de quantos filmes já vi.
Quanto a nunca ter lido uma crítica escrita pelo Ebert. Já o disse algures por aqui: sou bastante "esponjoso". Absorvo tudo o que me rodeia. Daí que não tenha querido ler nada do que ele escreveu para não ficar "influenciado". O homem ganhou um Pulitzer pelas suas críticas. Não é preciso muito para perceber que era mesmo muito bom.
Life Itself, de Steve James conta com as presenças de pessoal de peso do cinema como Martin Scorsese, Steven Zaillian, Gene Siskel ou Werner Herzog, e é um documentário muito, muito bom. Estruturalmente perfeito. Muito completo. Potente. Dramático. Humano. Por vezes, até cómico, mas acima de tudo, inspirador. Acho que é esse o grande trunfo deste documentário. Depois de ver este Life Itself, pessoalmente, Roger Ebert tornou-se numa nova referência do universo do cinema. E acho que ele teria gostado desta pequena, mas merecida homenagem. ●●●●○

Algumas citações do Roger Ebert que encontrei algures aí pela net e com as quais me identifico completamente:

- "It’s hard to explain the fun to be found in seeing the right kind of bad movie."

- "In the past 25 years I have probably seen 10,000 movies and reviewed 6,000 of them. I have forgotten most of them, I hope, but I remember those worth remembering, and they are all on the same shelf in my mind."

- "Entertainment is about the way things should be. Art is about the way they are."

 
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