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Sad Hill Unearthed é um dos documentário mais estranhos que já vi. Não por ser propriamente estranho (nem sequer é muito bom) mas porque me deu a conhecer (e perceber que existe) uma outra perspectiva sobre o cinema: a arqueológica. E proporcionou-me uma enorme surpresa.
Em Espanha, mais propriamente em Burgos, um grupo de fãs do magnífico filme "The Good, the Bad and the Ugly" desenterraram o cenário onde foi filmada a icónica cena final no cemitério. Apesar do sítio ter sido construído de raiz (5000 campas em formato circular [único e espectacular]) foi abandonado logo após as filmagens e deixado ao abandono durante quase 50 anos. Obviamente pouco restou, e nada restaria, não fosse este grupo de amigos (inicialmente) e uma série de fãs malucos (no bom sentido) que conseguiram resgatá-lo do esquecimento. Apesar de já ter visto o filme "n" de vezes, não conheço muito bem a história behind the scenes, e portanto não fazia ideia que tinha sido filmado tão perto. Uma gigantesca surpresa. Não fazia ideia. Fiquei boquiaberto e muito entusiasmado.
Tem a contribuição de Ennio Morricone, James Hetfield (sim, dos Metallica), Joe Dante, Álex de la Iglesia, Clint Eastwood e do próprio mestre Sergio Leone, entre outros.
The Good the Bad and the Ugly é um filme que me é muito especial, mas quanto a isso, terá o seu próprio espaço. Dou os meus parabéns aos gajos que descobriram isto e a todos os que não deixaram morrer uma parte importante da história do cinema. Os meus sinceros parabéns ao Guillermo de Oliveira pelo esforço de pesquisa e também pelo documentário. Fica a promessa de um dia ir lá visitar o local pessoalmente. ●●●○○

Um pistoleiro sem nome chega à pequena povoação de Lago e após causar a impressão de durão, é contratado para matar três foras-da-lei que em breve chegarão. Com o tempo percebe-se que esses ladrões foram capturados e presos precisamente porque já lá tinham estado a tentar roubar o ouro e foram denunciados pelos locais. Mas o pistoleiro sem nome e sem medo - será um fantasma, o diabo, um espírito de vingança? - está ali porque tem outras contas para ajustar...
Este High Plains Drifter é um western muito estranho do Clint Eastwood. Apesar do ar clássico e antiquado, tem um tom estranhamente sobrenatural e é... estranho. Eastwood representa mais uma vez o pistoleiro misterioso - aqui nem nome tem - e contracena com Geoffrey Lewis, Mitchell Ryan, Verna Bloom e Marianna Hill. Destaco aqui um gajo que sempre reconheci, especialmente dos westerns - mas não só - por ser sempre um vilão desprezível e oleoso, Anthony James. É daqueles gajos que sempre foi secundário, mas que de alguma forma - e acho que é por causa da cara - sempre retive mentalmente. Tem qualquer coisa que é estranhamente... arrepiante. A realização também é do Eastwood (aqui no seu segundo filme) e de certa forma, parece que está a treinar para os próximos voos. E foi o que se viu...
Apesar de não gostar muito do filme no seu todo - já me fartei um pouco de westerns de vingança - High Plains Drifter tem uma grande mais valia que é a ambiência fantasmagórica e a história que facilmente podia ser adaptada para os dias de hoje. ●●○○○

O veterano da Guerra da Coreia Walt Kowalski é uma personagem de outros tempos. Tal como o seu precioso Ford Gran Torino de 1972, Kowalski também é uma relíquia dos anos 70 obrigada a viver num mundo totalmente diferente e antagónico do que sempre conheceu. Daí que a personagem seja bastante antipática, por vezes mal educada e até roçando mesmo o belicismo puro e duro. Para piorar ainda mais a situação, Kowalski - que já nem conseguia tolerar a família mais próxima - perde a mulher para a velhice, e o mundo envolvente (a vizinhança) muda radicalmente, deixando-o literalmente sozinho, isolado e cada vez mais intolerante.
Como se isto não fosse mau o suficiente, os novos vizinhos do lado são ironicamente de etnia asiática, o que eleva a sua insatisfação e irritabilidade para novos níveis. Pior ainda, é quando o miúdo do lado (Bee Vang), forçado por um gangue local, tenta roubar-lhe o Gran Torino. Isto leva-o para um caminho totalmente inesperado.
Sou grande fã do Clint Eastwood. Gosto daquelas personagens duras, republicanas e conservadoras. Mas só na ficção, que é onde ficam bem. Já vejo filmes há tantos anos com o Clint Eastwood que nem sequer consigo dissociá-lo do próprio cinema. É uma daquelas figuras tão carismáticas do meio cinematográfico e que passa por tantas gerações que ficou marcado para sempre, nos mais variados estilos e feitios. E apesar de parecer familiar também acaba por ser sempre diferente e surpreender pela positiva. Clint Eastwood é um senhor do cinema e está tudo dito. Nunca vi um mau filme onde entrasse ou que realizasse.
Gostei muito deste Gran Torino, que a princípio me parecia uma pequena ode ao racismo e intolerância, mas que lentamente vira para uma boa história de compreensão e redenção. É um filme muito pessoal. Parece quase uma mensagem para o grande público, dizendo que o mal encarado e durão Dirty Harry também tem coração e apesar de velho, ainda tem capacidade de mudar e de se adaptar e, mais importante ainda, de se regenerar... E paralelamente, como um verdadeiro símbolo da América, Kowalski também assenta que nem uma luva no novo enquadramento americano no mundo: isolado, abertamente menosprezado pela vizinhança e aparentemente antiquado. Daí que apesar de toda a simplicidade na história, Gran Torino é mais do que parece à primeira vista.  Mas também posso ser eu a ver coisas onde elas não existem. Isso acontece frequentemente...
Gran Torino assenta essencialmente em Clint Eastwood mas é bem suportado por um elenco desconhecido mas muito coerente (Christopher Carley, Ahney Her) e é realizado de uma forma muito linear, com aquela mestria da simplicidade que Clint já habituou o pessoal. Não deslumbra, mas merece ser visto com atenção. ●●●○○


The Gauntlet, traduzido (desta vez, bem) como Barreira de Fogo é um filme de e com Clint Eastwood. Ainda há pouco tempo falei deste filme a propósito de Wara no Tate. Não sei se alguém na RTP1 anda por aqui a ler, mas o que é certo é que repuseram o filme. E ainda bem. Tinha saudades destes filmes "à moda antiga". E este é uma raridade.
É um daqueles filmalhaços violentos, politicamente incorrectos, "macho e duro de roer", vindo do tempo em que se pintavam cartazes (este, em particular, é excelente) como forma de promoção. Um dinossauro, portanto. Mas é um bom dinossauro. Já o vi há muitos anos e ainda se mantém relativamente fresco na memória, o que é sempre um óptimo sinal.
Lembrava-me particularmente do facto de haver milhões de tiros disparados em meia dúzia de cenas. Aliás, não lembro dum filme onde sejam disparados tantos tiros. É um exagero. Por isso é que a tradução como Barreira de Fogo está bem conseguida. Sem me repetir muito, é um exagero de tiros. Deitaram a abaixo uma casa a tiro, por isso já se vê a quantidade inacreditável de balas disparadas. Já para não falar da cena final, onde o stock americano de balas de cinema deve ter ficado um bocadito em baixo. Não resisto a dizê-lo novamente: é um exagero.
Mas como tantas outras coisas neste filme, esse exagero acaba por ser fixe. Mas isto também pode ser a minha imparcialidade a falar. É que eu gosto muito dos antigos filmes do Clint Eastwood. E também do próprio Eastwood.
Acho que fez uma transição muito engraçada dos westerns para os filmes "normais", como os policiais. Quer dizer, não sei se se pode considerar bem uma transição, porque basicamente ele trocou os cavalos por carros e os jeans e o chapéu por fato e gravata. O resto manteve-se exactamente igual. The Gauntlet, por exemplo, deve estar catalogado como uma história policial, mas para mim continua a ser um western. A diferença aqui, é que este filme é passado no tempo actual, os homens vestem fato e gravata e os pistoleiros andam de carro e de moto em vez de cavalos...
Mas também não posso ser assim tão redutor. Para já tem a Sondra Locke a representar uma mulher (muito) emancipada e totalmente fora da "trela masculina imaginária" da altura. Convém não esquecer que é um filme do longínquo ano de 1977. Mas também porque o filme está recheado de pormenores muito avançados para o seu tempo e para o tipo de filme que é. Tem até pormenores de argumento onde o Tarantino nitidamente se veio inspirar como naquela cena em que Eastwood entra num café e a empregada desata a falar com ele sobre tudo e mais alguma coisa sem que ele nunca abra a boca. Muito bom. Não é uma obra-prima, e até o próprio Clint Eastwood já fez muito melhor, tanto como realizador como actor, mas é um filme que tendo oportunidade, nunca deixo de (re)ver. ●●●○○

 
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