Rodin foca-se na vida do famoso escultor num específico espaço de tempo e eventos. O momento é o da criação da famosa estátua de Balzac, na altura muito mal recebida, mas que agora é reconhecida como uma das obras mais importantes da escultura moderna. O evento é o romance tórrido e conturbado com Camille Claudel e a posterior separação entre ambos. Em pano de fundo surge também, uma obra escultórica que teve influência directa dos dois artistas, A Porta do Inferno, baseada na obra de Dante.
A premissa e o núcleo central do enredo são muito bons, os intervenientes têm muita coisa para dizer e mostrar, mas no geral, o filme acaba por ser uma decepção. Por muito que goste de Rodin - e é sem dúvida um dos meus artistas favoritos - é preciso compreender que a maior parte do público não conhece a personagem. Quem tiver pouco conhecimento da vida e da obra do mestre escultor nunca vai perceber o filme e vai literalmente estar a olhar para uma tela "vazia" a tentar perceber o que é que se passa. Neste caso, uma escultura em fase de criação... Bastava uma pequena introdução para dar um melhor contexto ao filme. Auguste Rodin, apesar de ser unanimemente considerado o percursor da escultura moderna, era na realidade um homem "comum". Tentou por três vezes ingressar na Faculdade de Belas Artes e por três vezes foi recusado, o que exemplifica bem o quanto o ensino artístico tem para oferecer e reconhecer em termos de conhecimento estético... Mas isso é outra história... Rodin era efectivamente um autodidacta. Não aprendeu com ninguém. "Ensinou-se", no seu próprio estilo. Acho que meia dúzia de linhas no início do filme a explicar quem é o protagonista, permitiriam entrar melhor no mundo de Rodin e Claudel. Sem esta introdução, uma pessoa fica algo perdida na história, como se entrasse a meio do filme sem perceber nada do que aconteceu antes...
Mas esse nem é o principal problema deste Rodin. O problema está em tudo o resto. A realização de Jacques Doillon é fraca, dura e seca como um pedaço de pedra antes de ser trabalhado por um escultor. Percebo a lógica (se é que ela existe), mas não gosto do tom demasiado cru e austero. É um filme que parece uma adoração a uma fotografia antiga e acinzentada de uma estátua. Há uma música deslavada no início e outra no fim, perto dos créditos. Pelo meio, sempre os mesmos planos fixos envoltos em silêncio. As obras dos dois artistas que deveriam na realidade ser a grande mais valia, pouco ou quase nada são intervenientes... Não gostei nada disto. Rodin é um dos meus artistas favoritos e por isso acho que este filme fez-lhe pouca ou nenhuma justiça... Vale a interpretação de Vincent Lindon e Izïa Higelin e pouco mais. Não há tensão, não há carga emocional... Tudo é uma estátua de pedra sólida neste filme. Estaria de acordo com esta aproximação, não fosse o tema central deste tal "momento" o romance de Rodin e Claudel... É um contrasenso... Tudo junto, parece um daqueles telefilmes ou documentários que recriam a vida de uma pessoa famosa... Uma decepção enorme. ●○○○○
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Juntar Martin Scorcese, Robert De Niro e Jerry Lewis num só filme deveria ser um festim para mim. São três "instituições" que fazem parte do meu imaginário cinematográfico e são nomes que com cresci e evolui a ver a filmes. Mas nem sempre as coisas saem bem quando se mistura tudo o que gostamos...
Rupert Pupkin (Robert De Niro) tem uma ideia e uma obsessão. A ideia é a de que ele pode ser o novo Rei da Comédia. A obsessão é o seu grande ídolo Jerry Langford (Jerry Lewis), o famoso apresentador de um talk show com stand-up. Após um incidente em que Rupert salva Jerry de uma fã enlouquecida, os dois conhecem-se e Jerry incentiva-o a seguir uma carreira na comédia. Mas quando Jerry o relega para um plano secundário e o rejeita, Pupkin decide uma abordagem mais radical: com a ajuda da psicótica Masha (Sandra Bernhard) vai raptar o apresentador e exigir como resgate uma actuação de stand-up a solo no seu programa.
Tenho de admitir que vejo qualquer coisa com o selo Martin Scorcese. Para mim é uma marca de qualidade e sei logo à partida que vou ver uma coisa em condições. No entanto, Scorcese devido à sua elasticidade de temas, já me deu alguns amargos de vista. The King of Comedy foi um desses amargos. O que não deixa de ser estranho porque vejo sempre o filme muito bem referenciado, com muito boas críticas tanto do público como dos especialistas. Tenho de admitir que não gostei nada disto. Acho que se ficou pelo meio do caminho. Nem consegue ser cómico, nem consegue ser dramático. Fica ali num limbo que nem é carne nem peixe. Apesar da boa actuação, até o próprio Robert De Niro, parece perdido num jogo de personagens onde não se sente à vontade.
Obviamente tem os seus pontos positivos, principalmente ao nível dos pormenores de realização de Scorcese e da excelente fotografia. O filme não me cativou e acabei por me distrair... Isto aconteceu em particular com o facto de não conseguir desligar do facto de como este filme é parecido com o novo Joker e não só porque partilha uma história muito similar. Estive a ler umas coisas sobre o filme e descobri que uma das ideias propostas (pelo Jerry Lewis) era de que no final, Pupkin devia matar o Langford no seu show final. Scorcese achou que era demasiado violento e deixou a ideia de fora. Estranho, não é?
Se eu me distraio com um filme, isso normalmente quer dizer que lhe falta qualquer coisa. No caso de The King of Comedy acho que lhe falta mais comédia e mais intensidade dramática. Aliás, acho que lhe falta muita coisa. A personagem de Pupkin é detestável no mau sentido. Apesar de se compreender a obsessão nunca causa nenhuma empatia. O tema central que é objectivamente o culto da personalidade, da pessoa famosa, nunca é o ponto central. Os pontos positivos (todos técnicos) atenuam estas falhas, o que faz com que The King of Comedy seja perfeitamente "visível" mas que não "marque" tão profundamente como outros Scorceses... Foi uma decepção inesperada... ●●○○○
Rupert Pupkin (Robert De Niro) tem uma ideia e uma obsessão. A ideia é a de que ele pode ser o novo Rei da Comédia. A obsessão é o seu grande ídolo Jerry Langford (Jerry Lewis), o famoso apresentador de um talk show com stand-up. Após um incidente em que Rupert salva Jerry de uma fã enlouquecida, os dois conhecem-se e Jerry incentiva-o a seguir uma carreira na comédia. Mas quando Jerry o relega para um plano secundário e o rejeita, Pupkin decide uma abordagem mais radical: com a ajuda da psicótica Masha (Sandra Bernhard) vai raptar o apresentador e exigir como resgate uma actuação de stand-up a solo no seu programa.
Tenho de admitir que vejo qualquer coisa com o selo Martin Scorcese. Para mim é uma marca de qualidade e sei logo à partida que vou ver uma coisa em condições. No entanto, Scorcese devido à sua elasticidade de temas, já me deu alguns amargos de vista. The King of Comedy foi um desses amargos. O que não deixa de ser estranho porque vejo sempre o filme muito bem referenciado, com muito boas críticas tanto do público como dos especialistas. Tenho de admitir que não gostei nada disto. Acho que se ficou pelo meio do caminho. Nem consegue ser cómico, nem consegue ser dramático. Fica ali num limbo que nem é carne nem peixe. Apesar da boa actuação, até o próprio Robert De Niro, parece perdido num jogo de personagens onde não se sente à vontade.
Obviamente tem os seus pontos positivos, principalmente ao nível dos pormenores de realização de Scorcese e da excelente fotografia. O filme não me cativou e acabei por me distrair... Isto aconteceu em particular com o facto de não conseguir desligar do facto de como este filme é parecido com o novo Joker e não só porque partilha uma história muito similar. Estive a ler umas coisas sobre o filme e descobri que uma das ideias propostas (pelo Jerry Lewis) era de que no final, Pupkin devia matar o Langford no seu show final. Scorcese achou que era demasiado violento e deixou a ideia de fora. Estranho, não é?
Se eu me distraio com um filme, isso normalmente quer dizer que lhe falta qualquer coisa. No caso de The King of Comedy acho que lhe falta mais comédia e mais intensidade dramática. Aliás, acho que lhe falta muita coisa. A personagem de Pupkin é detestável no mau sentido. Apesar de se compreender a obsessão nunca causa nenhuma empatia. O tema central que é objectivamente o culto da personalidade, da pessoa famosa, nunca é o ponto central. Os pontos positivos (todos técnicos) atenuam estas falhas, o que faz com que The King of Comedy seja perfeitamente "visível" mas que não "marque" tão profundamente como outros Scorceses... Foi uma decepção inesperada... ●●○○○
Jerry Lewis é um daqueles gajos que fazem parte do meu imaginário cinematográfico e eu nem sequer sou fã de comédias. Acho até que a comédia desta altura (anos 60) está tão datada que nem sequer faz sentido hoje em dia... Mas também posso estar enganado... Bem, não interessa....
The Ladies Man é o Jerry Lewis a meter-se em trabalhos como sempre acontece.
Lewis toma o papel de Herbert H. Heebert, um jovem que recentemente acabou o curso na universidade e decide ir trabalhar como servente numa mansão particular. Como é óbvio tinha de haver uma confusão pelo caminho. E a confusão é o facto de Herbert ter uma aversão a mulheres devido a um desgosto amoroso e a tal mansão onde acabou de arranjar trabalho ser na realidade uma espécie de hotel exclusivo para mulheres... Mulheres lindíssimas mas com muitos caprichos, particularidades e excentricidades. Este é o mote para uma série de trapalhadas bem ao jeito Jerry Lewis.
Para além de Jerry Lewis há uma série infindável de actrizes em pequenos papéis, sendo que o destaque tem de ir Helen Traubel como a dona da casa, para Kathleen Freeman como a responsável pela casa e para Buddy Lester que tem provavelmente a cena mais cómica de todo o filme. Também há uma cena com uma filmagem em directo para a televisão que é muito boa. E também há uma cena de dança muito estranha com uma das personagens mais misteriosas que é muito boa... Há alguns bons pormenores por aqui... Um dos destaques tem mesmo de ir para o gigantesco e complexo cenário criado para dar corpo ao filme. Na realidade, quase tudo se passa neste cenário interior, que parece uma casa de bonecas gigante, que é um dos maiores alguma vez construídos.
Para além do papel principal, Jerry Lewis também escreve e realiza este The Ladies Man. Como acumulou várias funções (de actor e realizador), Lewis pediu à produção que junto da câmara de 35 mm lhe juntassem um pequeno monitor de video para poder ir acompanhando as filmagens on-set. Sem querer, Lewis acabou por criar um "assistente de vídeo" que a partir desse momento foi aproveitado por outros realizadores e que acabou por se tornar um standard nas produções até ao dia de hoje.
The Ladies Man é uma comédia de outros tempos. Apesar de ter um ou outro bom pormenor, está muito datada e acho que só agradará aos fãs mais hardcore de Jerry Lewis. Para mim, será sempre puro saudosismo. ●●○○○
The Ladies Man é o Jerry Lewis a meter-se em trabalhos como sempre acontece.
Lewis toma o papel de Herbert H. Heebert, um jovem que recentemente acabou o curso na universidade e decide ir trabalhar como servente numa mansão particular. Como é óbvio tinha de haver uma confusão pelo caminho. E a confusão é o facto de Herbert ter uma aversão a mulheres devido a um desgosto amoroso e a tal mansão onde acabou de arranjar trabalho ser na realidade uma espécie de hotel exclusivo para mulheres... Mulheres lindíssimas mas com muitos caprichos, particularidades e excentricidades. Este é o mote para uma série de trapalhadas bem ao jeito Jerry Lewis.
Para além de Jerry Lewis há uma série infindável de actrizes em pequenos papéis, sendo que o destaque tem de ir Helen Traubel como a dona da casa, para Kathleen Freeman como a responsável pela casa e para Buddy Lester que tem provavelmente a cena mais cómica de todo o filme. Também há uma cena com uma filmagem em directo para a televisão que é muito boa. E também há uma cena de dança muito estranha com uma das personagens mais misteriosas que é muito boa... Há alguns bons pormenores por aqui... Um dos destaques tem mesmo de ir para o gigantesco e complexo cenário criado para dar corpo ao filme. Na realidade, quase tudo se passa neste cenário interior, que parece uma casa de bonecas gigante, que é um dos maiores alguma vez construídos.
Para além do papel principal, Jerry Lewis também escreve e realiza este The Ladies Man. Como acumulou várias funções (de actor e realizador), Lewis pediu à produção que junto da câmara de 35 mm lhe juntassem um pequeno monitor de video para poder ir acompanhando as filmagens on-set. Sem querer, Lewis acabou por criar um "assistente de vídeo" que a partir desse momento foi aproveitado por outros realizadores e que acabou por se tornar um standard nas produções até ao dia de hoje.
The Ladies Man é uma comédia de outros tempos. Apesar de ter um ou outro bom pormenor, está muito datada e acho que só agradará aos fãs mais hardcore de Jerry Lewis. Para mim, será sempre puro saudosismo. ●●○○○
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Dois bandidos de meia tigela decidem fazer um golpe extraordinário: assaltar o que é nada mais nada menos que o local onde os mafiosos jogam cartas com avultadas somas de dinheiro. A ideia é arrojada e em princípio até é uma boa ideia, porque assaltar alguém que não pode ir à polícia fazer queixa não é assim tão descabido. Obviamente, as coisas não vão correr como planeado, até porque este golpe "simples" acaba por abalar economicamente toda a estrutura da própria Máfia. Para resolver toda esta confusão, os mafiosos recorrem aos serviços de Jackie Cogan, um justiceiro implacável mas que parece estar do lado errado da barricada.
Brad Pitt, Scoot McNairy, Ben Mendelsohn, Ray Liotta, Richard Jenkins e James Gandolfini dão corpo a uma série de personagens muito bem construídas. Se no caso de Pitt esta foi (mais) uma mudança de ares, para o restante elenco é quase como voltar a casa para comer um prato de pasta da nona Giona acompanhado de um copo de Chianti... Mas todos sem excepção estão muito bem e estão especialmente bem dirigidos.
Killing Them Softly tem uma narrativa simples e muito pouco original mas está muito bem feito. A fotografia é exemplar. Andrew Dominik tem uma realização sem mácula. Não o conhecia até esta altura, mas foi um nome que listei para ficar debaixo de olho. Apesar da crítica constante ao modo de vida e ao sonho americano (a crise financeira de 2008/09 era uma realidade bem palpável), a história de base é um dejá vu constante, e por isso é o olhar, os enquadramentos e os movimentos de câmara de Dominik que salvam literalmente o filme da irrelevância. Isto só prova que por muito banal que uma história seja, ter um bom realizador e bons diálogos interpretados por bons actores salvam logo um filme.
Killing Them Softly fez-me lembrar aquele aspecto mais negro, violento e sujo dos antigos filmes policiais (e mafiosos) dos anos 70, e quanto mais não fosse, só por causa disso já é totalmente aceitável. Um bom filmito de ladrões e mafiosos. ●●●○○
Brad Pitt, Scoot McNairy, Ben Mendelsohn, Ray Liotta, Richard Jenkins e James Gandolfini dão corpo a uma série de personagens muito bem construídas. Se no caso de Pitt esta foi (mais) uma mudança de ares, para o restante elenco é quase como voltar a casa para comer um prato de pasta da nona Giona acompanhado de um copo de Chianti... Mas todos sem excepção estão muito bem e estão especialmente bem dirigidos.
Killing Them Softly tem uma narrativa simples e muito pouco original mas está muito bem feito. A fotografia é exemplar. Andrew Dominik tem uma realização sem mácula. Não o conhecia até esta altura, mas foi um nome que listei para ficar debaixo de olho. Apesar da crítica constante ao modo de vida e ao sonho americano (a crise financeira de 2008/09 era uma realidade bem palpável), a história de base é um dejá vu constante, e por isso é o olhar, os enquadramentos e os movimentos de câmara de Dominik que salvam literalmente o filme da irrelevância. Isto só prova que por muito banal que uma história seja, ter um bom realizador e bons diálogos interpretados por bons actores salvam logo um filme.
Killing Them Softly fez-me lembrar aquele aspecto mais negro, violento e sujo dos antigos filmes policiais (e mafiosos) dos anos 70, e quanto mais não fosse, só por causa disso já é totalmente aceitável. Um bom filmito de ladrões e mafiosos. ●●●○○
A Guerra causa-me repulsa, mas ao mesmo tempo atrai-me. Intriga-me todo o desenvolvimento necessário até chegar a um conflito. No caso das Guerras Mundiais, fico pasmado com tudo o que tem de acontecer no passado, para que se chegue a um conflito à escala global. Por causa dos filmes, muito se fala e vê sobre a II Guerra Mundial. Os avanços nas câmaras de filmar, os cineastas que acompanharam in loco o conflito, e mais tarde, o cinema de acção banalizou de tal forma o conceito de guerra, que a II GM ganhou todo o protagonismo quando se fala de um conflito global. Mas para mim, a I Guerra Mundial é não só o ponto mais marcante da História da Guerra, como da História da própria Humanidade. É um momento novo e ao mesmo tempo decisivo na história. Uma mudança completa e imediata de paradigma, que mudou radicalmente o rumo da História, com implicações directas no mundo actual em que vivemos.
A Humanidade e a Guerra parece que sempre co-existiram. O conflito parece ter raízes profundas no próprio ADN humano. Um mundo sem conflitos e sem guerra é quase um conceito distópico. Sempre existiram conflitos e os homens têm-se matado uns aos outros por este ou aquele motivo, desde tempos imemoriais. Milhões de pessoas foram assassinadas da maneira mais cruel, milhões de soldados perderam a vida em milhares de guerras por toda a história do mundo. O que muda então com a I Guerra Mundial? A principal e mais marcante novidade foi a globalização do conflito em si. Mas acrescem pormenores novos como a industrialização da guerra, a transposição do plano de conflito para além da terra, para o mar e até para os céus, a massificação da morte, e mais importante, a normalização da indiferença perante a guerra.
A I Primeira Guerra Mundial mostrou uma nova faceta da maldade humana e não só. A situação desgastante, infernal e desumana das trincheiras e das terras de ninguém que levou a novos píncaros a loucura da guerra. A utilização dos gases venenosos. A indiferença das chefias militares e o desprezo levados a níveis industriais, quando confrontados com o sofrimento dos soldados, traduzido na célebre expressão de carne para canhão. O vazio de emoções, a falta total de empatia, a crueldade e a estupidez humanas levados a novos extremos. O Inferno na Terra.
A guerra que iria acabar com todas as guerras, era tão ilusória que levou o mundo a desintegrar-se, e mergulhou-o anos depois num conflito ainda maior, que não resolvendo nada em definitivo, muito pelo contrário, ainda aprofundou os conflitos anteriores, criou outros novos e mais complexos e, acredito eu, ainda nos levará a um conflito porventura ainda maior que todos os outros anteriores. Tudo estava tão iludido com a magia da nova indústria e do avanço científico que traria um final rápido a qualquer guerra, que ninguém pensou sequer nas consequências do que viria a seguir. Bem, após cem anos de conflitos bélicos por todo o mundo, milhões de mortos militares e civis, divisões profundas entre países e continentes e a recorrente ameaça de erradicação nuclear, o mundo parece estar numa espécie de banho-maria para um futuro mega-conflito planetário. Espero estar enganado, mas infelizmente não me parece que esteja. A ver vamos. Mas adiante.
They Shall Not Grow Old é um documentário sobre a I Guerra Guerra Mundial produzido e realizado por Peter Jackson. O que pode ser uma surpresa para alguns, é que Peter Jackson já tinha feito um outro documentário antes. Forgotten Silver não é bem um documentário, mas antes um documentário falso, encomendado pela TV Neozelandesa, sobre um realizador famoso daquele país que caiu no esquecimento. Tive a sorte de o ver numa edição do Fantasporto (quando o Peter Jackson ainda era o gajo das entranhas, sangue a rodos e muito, muito gore, e não o gajo respeitável do cinema que é hoje...) Apesar de não ter nada a ver com isto, Peter Jackson já tinha os skills necessários para fazer um restauro de uma obra deste género porque já tinha feito o caminho inverso: filmar e envelhecer. Aqui foi pegar nas filmagens originais e restaurá-las. E fez um trabalho técnico absolutamente fabuloso. Já vi muita coisa da I Guerra, mas nada como isto. Foi a primeira vez que tive um vislumbre real do que aconteceu. A cores e com o movimento correcto. Como naquela altura a passagem da bobine de fita era manual e o operador tinha de dar à manivela, a velocidade da imagem saía sempre estranha. Aqui, tudo isso foi corrigido e acrescentado material sonoro para dar mais autenticidade. Apesar de ser uma época tão distante, sei que já nos anos 10 se faziam experiências com cor nos filmes, mas este restauro é outra coisa totalmente diferente. Tecnicamente é absolutamente irrepreensível. Mas como documentário, sinceramente, já vi melhor. Parece-me que o Peter Jackson não se quis alongar nas raízes do próprio conflito e na história complexa (tanto dentro do cenário de guerra e dos seus intervenientes, como nas implicações na vida do cidadão comum fora do conflito directo), mas apenas mostrar como era a vida, sofrimento e morte de um simples soldado inglês nas trincheiras da frente de batalha. Eu entendo isso, mas acaba por ser demasiado redutor. Nesse campo, sinceramente esperava mais, mas tudo bem, entendo... É uma aproximação mais técnica do que propriamente histórica. Por isso mesmo, tenho um feeling que o Peter Jackson ainda vai voltar a este assunto da I Guerra Mundial.
Apesar desta limitação compreensível, They Shall Not Grow Old é um documentário totalmente obrigatório. Primeiro pela questão cinematográfica e técnica (sublime), que é em certa parte, também história do próprio cinema, dos filmes, como eles são feitos e como a parte técnica vai evoluindo ao longo dos tempos. E em segundo, porque é importante não esquecer a história. É um chavão, mas é totalmente verdade. Quem esquece a história, acaba por a repetir, assim como os erros dos passado. No caso de uma guerra com estas proporções e implicações no futuro, isto deveria passar nas escolas. Devia-se mostrar aos miúdos (mas não só, até porque andam por aí muitos adultos com mentalidades de criança...) que um conflito com esta escala de tamanho planetário, crueldade e sofrimento humano nunca pode ser esquecido, mas especialmente, nunca se poderá repetir. ●●●○○
A Humanidade e a Guerra parece que sempre co-existiram. O conflito parece ter raízes profundas no próprio ADN humano. Um mundo sem conflitos e sem guerra é quase um conceito distópico. Sempre existiram conflitos e os homens têm-se matado uns aos outros por este ou aquele motivo, desde tempos imemoriais. Milhões de pessoas foram assassinadas da maneira mais cruel, milhões de soldados perderam a vida em milhares de guerras por toda a história do mundo. O que muda então com a I Guerra Mundial? A principal e mais marcante novidade foi a globalização do conflito em si. Mas acrescem pormenores novos como a industrialização da guerra, a transposição do plano de conflito para além da terra, para o mar e até para os céus, a massificação da morte, e mais importante, a normalização da indiferença perante a guerra.
A I Primeira Guerra Mundial mostrou uma nova faceta da maldade humana e não só. A situação desgastante, infernal e desumana das trincheiras e das terras de ninguém que levou a novos píncaros a loucura da guerra. A utilização dos gases venenosos. A indiferença das chefias militares e o desprezo levados a níveis industriais, quando confrontados com o sofrimento dos soldados, traduzido na célebre expressão de carne para canhão. O vazio de emoções, a falta total de empatia, a crueldade e a estupidez humanas levados a novos extremos. O Inferno na Terra.
A guerra que iria acabar com todas as guerras, era tão ilusória que levou o mundo a desintegrar-se, e mergulhou-o anos depois num conflito ainda maior, que não resolvendo nada em definitivo, muito pelo contrário, ainda aprofundou os conflitos anteriores, criou outros novos e mais complexos e, acredito eu, ainda nos levará a um conflito porventura ainda maior que todos os outros anteriores. Tudo estava tão iludido com a magia da nova indústria e do avanço científico que traria um final rápido a qualquer guerra, que ninguém pensou sequer nas consequências do que viria a seguir. Bem, após cem anos de conflitos bélicos por todo o mundo, milhões de mortos militares e civis, divisões profundas entre países e continentes e a recorrente ameaça de erradicação nuclear, o mundo parece estar numa espécie de banho-maria para um futuro mega-conflito planetário. Espero estar enganado, mas infelizmente não me parece que esteja. A ver vamos. Mas adiante.
They Shall Not Grow Old é um documentário sobre a I Guerra Guerra Mundial produzido e realizado por Peter Jackson. O que pode ser uma surpresa para alguns, é que Peter Jackson já tinha feito um outro documentário antes. Forgotten Silver não é bem um documentário, mas antes um documentário falso, encomendado pela TV Neozelandesa, sobre um realizador famoso daquele país que caiu no esquecimento. Tive a sorte de o ver numa edição do Fantasporto (quando o Peter Jackson ainda era o gajo das entranhas, sangue a rodos e muito, muito gore, e não o gajo respeitável do cinema que é hoje...) Apesar de não ter nada a ver com isto, Peter Jackson já tinha os skills necessários para fazer um restauro de uma obra deste género porque já tinha feito o caminho inverso: filmar e envelhecer. Aqui foi pegar nas filmagens originais e restaurá-las. E fez um trabalho técnico absolutamente fabuloso. Já vi muita coisa da I Guerra, mas nada como isto. Foi a primeira vez que tive um vislumbre real do que aconteceu. A cores e com o movimento correcto. Como naquela altura a passagem da bobine de fita era manual e o operador tinha de dar à manivela, a velocidade da imagem saía sempre estranha. Aqui, tudo isso foi corrigido e acrescentado material sonoro para dar mais autenticidade. Apesar de ser uma época tão distante, sei que já nos anos 10 se faziam experiências com cor nos filmes, mas este restauro é outra coisa totalmente diferente. Tecnicamente é absolutamente irrepreensível. Mas como documentário, sinceramente, já vi melhor. Parece-me que o Peter Jackson não se quis alongar nas raízes do próprio conflito e na história complexa (tanto dentro do cenário de guerra e dos seus intervenientes, como nas implicações na vida do cidadão comum fora do conflito directo), mas apenas mostrar como era a vida, sofrimento e morte de um simples soldado inglês nas trincheiras da frente de batalha. Eu entendo isso, mas acaba por ser demasiado redutor. Nesse campo, sinceramente esperava mais, mas tudo bem, entendo... É uma aproximação mais técnica do que propriamente histórica. Por isso mesmo, tenho um feeling que o Peter Jackson ainda vai voltar a este assunto da I Guerra Mundial.
Apesar desta limitação compreensível, They Shall Not Grow Old é um documentário totalmente obrigatório. Primeiro pela questão cinematográfica e técnica (sublime), que é em certa parte, também história do próprio cinema, dos filmes, como eles são feitos e como a parte técnica vai evoluindo ao longo dos tempos. E em segundo, porque é importante não esquecer a história. É um chavão, mas é totalmente verdade. Quem esquece a história, acaba por a repetir, assim como os erros dos passado. No caso de uma guerra com estas proporções e implicações no futuro, isto deveria passar nas escolas. Devia-se mostrar aos miúdos (mas não só, até porque andam por aí muitos adultos com mentalidades de criança...) que um conflito com esta escala de tamanho planetário, crueldade e sofrimento humano nunca pode ser esquecido, mas especialmente, nunca se poderá repetir. ●●●○○
Jeff é um homem que já correu o mundo como fotógrafo profissional, mas que depois de partir a perna enquanto trabalhava, fica confinado a um cadeira de rodas no seu apartamento em Greenwich Village. Entediado com a situação, decide virar a sua máquina fotográfica para a vida dos vizinhos nas traseiras do pacato bairro. No entanto, fruto da sua cabeça (ou não), presencia alguns acontecimentos que o fazem suspeitar que um dos vizinhos pode ter assassinado a mulher...
Qualquer aspirante a cineasta (e qualquer pessoa que goste verdadeiramente de cinema) deveria ver pelo menostrês vezes o Rear Window. É uma obra-prima consensual entre público e crítica. Mas, mais que isso, é um manual de como fazer um excelente filme com poucos recursos. Analisando bem, é uma gigantesca produção de teatro com base numa história repleta de suspense e intriga, tudo suportado por actores míticos e de calibre superior como James Stewart, Grace Kelly, Thelma Ritter ou Raymond Burr, mas especialmente pela direcção em cena do mestre Alfred Hitchcock. É um thriller à maneira antiga, repleto de suspense e paranoia, cheio de tiques de voyeurismo e tensão romântica, bem à moda de Hitchcock, que tem bem marcado o seu estilo de filmar nos mais pequenos pormenores.
Rear Window é mais um daqueles filmes que tem material para escrever uma enciclopédia inteira e é até provável que já o tenham feito. É uma obra-prima que tem de figurar em qualquer lista dos melhores filmes de sempre. É impressionante o que se consegue fazer com a simplicidade se se for genial o suficiente. E Alfred Hitchcock tinha genialidade para dar e vender... Sobre o mítico Alfred Hitchcock e tudo o que ele representa para o cinema nem sequer me vou alongar, porque ficaria aqui a escrever durante uma semana. Filmagens espetaculares, ângulos de câmara dramáticos, o som ambiente, o uso fantástico da luz e sombra, mas especialmente, o controlo total da percepção que o próprio espectador tem. Apesar de já estar bem longe da magia original do cinema é um digno sucessor e se calhar, o último mágico verdadeiramente moderno dos filmes. Hitchcock é uma figura incontornável do universo cinematográfico e este Rear Window, mesmo tantos anos depois da estreia ainda continua a ser uma prova viva disso mesmo. ●●●●●
Qualquer aspirante a cineasta (e qualquer pessoa que goste verdadeiramente de cinema) deveria ver pelo menostrês vezes o Rear Window. É uma obra-prima consensual entre público e crítica. Mas, mais que isso, é um manual de como fazer um excelente filme com poucos recursos. Analisando bem, é uma gigantesca produção de teatro com base numa história repleta de suspense e intriga, tudo suportado por actores míticos e de calibre superior como James Stewart, Grace Kelly, Thelma Ritter ou Raymond Burr, mas especialmente pela direcção em cena do mestre Alfred Hitchcock. É um thriller à maneira antiga, repleto de suspense e paranoia, cheio de tiques de voyeurismo e tensão romântica, bem à moda de Hitchcock, que tem bem marcado o seu estilo de filmar nos mais pequenos pormenores.
Rear Window é mais um daqueles filmes que tem material para escrever uma enciclopédia inteira e é até provável que já o tenham feito. É uma obra-prima que tem de figurar em qualquer lista dos melhores filmes de sempre. É impressionante o que se consegue fazer com a simplicidade se se for genial o suficiente. E Alfred Hitchcock tinha genialidade para dar e vender... Sobre o mítico Alfred Hitchcock e tudo o que ele representa para o cinema nem sequer me vou alongar, porque ficaria aqui a escrever durante uma semana. Filmagens espetaculares, ângulos de câmara dramáticos, o som ambiente, o uso fantástico da luz e sombra, mas especialmente, o controlo total da percepção que o próprio espectador tem. Apesar de já estar bem longe da magia original do cinema é um digno sucessor e se calhar, o último mágico verdadeiramente moderno dos filmes. Hitchcock é uma figura incontornável do universo cinematográfico e este Rear Window, mesmo tantos anos depois da estreia ainda continua a ser uma prova viva disso mesmo. ●●●●●
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Um pistoleiro sem nome chega à pequena povoação de Lago e após causar a impressão de durão, é contratado para matar três foras-da-lei que em breve chegarão. Com o tempo percebe-se que esses ladrões foram capturados e presos precisamente porque já lá tinham estado a tentar roubar o ouro e foram denunciados pelos locais. Mas o pistoleiro sem nome e sem medo - será um fantasma, o diabo, um espírito de vingança? - está ali porque tem outras contas para ajustar...
Este High Plains Drifter é um western muito estranho do Clint Eastwood. Apesar do ar clássico e antiquado, tem um tom estranhamente sobrenatural e é... estranho. Eastwood representa mais uma vez o pistoleiro misterioso - aqui nem nome tem - e contracena com Geoffrey Lewis, Mitchell Ryan, Verna Bloom e Marianna Hill. Destaco aqui um gajo que sempre reconheci, especialmente dos westerns - mas não só - por ser sempre um vilão desprezível e oleoso, Anthony James. É daqueles gajos que sempre foi secundário, mas que de alguma forma - e acho que é por causa da cara - sempre retive mentalmente. Tem qualquer coisa que é estranhamente... arrepiante. A realização também é do Eastwood (aqui no seu segundo filme) e de certa forma, parece que está a treinar para os próximos voos. E foi o que se viu...
Apesar de não gostar muito do filme no seu todo - já me fartei um pouco de westerns de vingança - High Plains Drifter tem uma grande mais valia que é a ambiência fantasmagórica e a história que facilmente podia ser adaptada para os dias de hoje. ●●○○○
Este High Plains Drifter é um western muito estranho do Clint Eastwood. Apesar do ar clássico e antiquado, tem um tom estranhamente sobrenatural e é... estranho. Eastwood representa mais uma vez o pistoleiro misterioso - aqui nem nome tem - e contracena com Geoffrey Lewis, Mitchell Ryan, Verna Bloom e Marianna Hill. Destaco aqui um gajo que sempre reconheci, especialmente dos westerns - mas não só - por ser sempre um vilão desprezível e oleoso, Anthony James. É daqueles gajos que sempre foi secundário, mas que de alguma forma - e acho que é por causa da cara - sempre retive mentalmente. Tem qualquer coisa que é estranhamente... arrepiante. A realização também é do Eastwood (aqui no seu segundo filme) e de certa forma, parece que está a treinar para os próximos voos. E foi o que se viu...
Apesar de não gostar muito do filme no seu todo - já me fartei um pouco de westerns de vingança - High Plains Drifter tem uma grande mais valia que é a ambiência fantasmagórica e a história que facilmente podia ser adaptada para os dias de hoje. ●●○○○
É difícil separar o Mel Gibson-pessoa dos Mel Gibson-actor/realizador. Nos últimos anos tem estado um bocado proscrito precisamente porque o seu lado pessoal tem sobressaído demasiado e ainda por cima pelas piores razões. Depois de anos a criar uma figura de durão, homem violento e másculo (dentro e fora do cinema) é difícil de separar uma persona da outra. Eu gosto muito do Mel Gibson-actor/realizador e felizmente consigo separar as duas coisas.
Hacksaw Ridge tem o condão de reabilitar Mel Gibson para o cinema e para o grande público. (Ainda bem!) Apresenta uma história verdadeira com uma personagem pacifista, um objector de consciência que no meio de uma guerra brutal (EUA contra o Japão), se preocupa mais em defender os seus companheiros do que atacar os seus inimigos. É uma mensagem extremamente poderosa. O mais incrível de toda esta situação é que a personagem é real e a história também. Desmond Doss foi um soldado americano que apesar de todas as pressões internas do Exército dos EUA (foi a tribunal de guerra por se recusar a pegar em armas de fogo e foi alvo de constantes agressões pelos superiores hierárquicos e colegas de caserna durante a formação militar) levou a sua ideia de pacifismo avante e acabou condecorado como um grande herói de guerra pelos seus feitos: como soldado/médico salvou das trincheiras dezenas de militares (americanos e não só) de uma morte certa. O que fez é verdadeiramente heróico. Parece tão inacreditável que fui obrigado a ir confirmar. E é mesmo verdade. É uma daquelas histórias em que a realidade suplanta (e muito) a ficção e que merece ser contada e relembrada. Num mundo povoado por super-heróis de plástico e pipocas é bom saber que ainda há verdadeiros heróis e que alguém lhe dá o devido valor.
Para além da realização perfeita de Gibson, uma grande parte do valor de Hacksaw Ridge vem também dos actores: Andrew Garfield é excelente e foi muitíssimo bem escolhido; Sam Worthington, Hugo Weaving e Vince Vaughn complementam especialmente bem o protagonista e o resto do casting é muito homeogéno. As cenas de guerra são cruas e têm um "ar antigo", quase do tempo pré-efeitos especiais, o que lhe confere uma autenticidade incrível. Muito bom.
Hacksaw Ridge é muitas coisas. É um filme de guerra que é um autêntico manifesto anti-guerra sem cair em falsos moralismos. É um pedido de desculpas e de integração de Mel Gibson. Não é coincidência esta escolha da personagem. Apesar de todas as diferenças evidentes, Doss, tal como Gibson é também alguém que não é bem visto pelos seus pares, mas que prova em campo todo o seu valor e acaba por receber a atenção merecida. Noutro plano, é também a confirmação de um grande realizador que é tão bom que obviamente não precisa de enormes orçamentos para fazer bom cinema. Mas principalmente é um filme muito bom que merece ser visto. ●●●●○
Hacksaw Ridge tem o condão de reabilitar Mel Gibson para o cinema e para o grande público. (Ainda bem!) Apresenta uma história verdadeira com uma personagem pacifista, um objector de consciência que no meio de uma guerra brutal (EUA contra o Japão), se preocupa mais em defender os seus companheiros do que atacar os seus inimigos. É uma mensagem extremamente poderosa. O mais incrível de toda esta situação é que a personagem é real e a história também. Desmond Doss foi um soldado americano que apesar de todas as pressões internas do Exército dos EUA (foi a tribunal de guerra por se recusar a pegar em armas de fogo e foi alvo de constantes agressões pelos superiores hierárquicos e colegas de caserna durante a formação militar) levou a sua ideia de pacifismo avante e acabou condecorado como um grande herói de guerra pelos seus feitos: como soldado/médico salvou das trincheiras dezenas de militares (americanos e não só) de uma morte certa. O que fez é verdadeiramente heróico. Parece tão inacreditável que fui obrigado a ir confirmar. E é mesmo verdade. É uma daquelas histórias em que a realidade suplanta (e muito) a ficção e que merece ser contada e relembrada. Num mundo povoado por super-heróis de plástico e pipocas é bom saber que ainda há verdadeiros heróis e que alguém lhe dá o devido valor.
Para além da realização perfeita de Gibson, uma grande parte do valor de Hacksaw Ridge vem também dos actores: Andrew Garfield é excelente e foi muitíssimo bem escolhido; Sam Worthington, Hugo Weaving e Vince Vaughn complementam especialmente bem o protagonista e o resto do casting é muito homeogéno. As cenas de guerra são cruas e têm um "ar antigo", quase do tempo pré-efeitos especiais, o que lhe confere uma autenticidade incrível. Muito bom.
Hacksaw Ridge é muitas coisas. É um filme de guerra que é um autêntico manifesto anti-guerra sem cair em falsos moralismos. É um pedido de desculpas e de integração de Mel Gibson. Não é coincidência esta escolha da personagem. Apesar de todas as diferenças evidentes, Doss, tal como Gibson é também alguém que não é bem visto pelos seus pares, mas que prova em campo todo o seu valor e acaba por receber a atenção merecida. Noutro plano, é também a confirmação de um grande realizador que é tão bom que obviamente não precisa de enormes orçamentos para fazer bom cinema. Mas principalmente é um filme muito bom que merece ser visto. ●●●●○
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4:44 Last Day on Earth foi o último filme do Abel Ferrara que vi e não gostei nada. O Abel Ferrara até é um gajo que curto. Tudo o que vi até hoje da sua autoria, foi no mínimo aceitável, sendo que tem muito bons filmes no currículo. E eu ainda funciono um bocado assim: quando vejo um filme de um realizador que gosto, reservo-o para ver, mesmo não sabendo rigorosamente nada sobre o que se trata. Deste filme, a única coisa que sabia é que se passava no último dia da Terra. Não sabia mais nada. A premissa era boa, o realizador também, por isso, estava bastante curioso para ver.
Tenho de admitir que foi uma enorme desilusão. 4:44 Last Day on Earth é por vezes entediante e tem muitos momentos que pareciam quase amadores. Tive de ir confirmar se este Abel Ferrara, era de facto, o Abel Ferrara que eu conhecia. Infelizmente, era o mesmo.
Apesar de tudo o que tem de mau, 4:44 Last Day on Earth é um filme curioso porque pode ter várias apreciações. Ou é uma produção normal, dita "comercial" e está bastante abaixo do que é normal para o "standard Ferrara", ou então é uma minúscula produção e acaba por ser um bom filme, feito praticamente sem dinheiro e apenas com 2 actores e muito recurso a stock footage.
Se for o caso da baixa produção (que é o que parece), o argumento acaba por ser inteligente porque arranja uma premissa enorme (o fim do mundo programado, chegando ao cúmulo de se saber as horas e minutos do fim) e fecha-se no enfoque que é o pequeno mundo de uma relação conjugal e como isso a afecta. Mas se for o caso de uma produção comercial, acaba por ser uma fraude e pouco inteligente, porque arranja uma premissa enorme, mas só mostra a reação de apenas um casal, ignorando tudo o resto.
Seja qual for a situação financeira, não gostei, porque estava à espera de mais. Fiquei desiludido. Mas nem tudo é mau. Nota-se que há gajos na cadeira do realizador que são muito bons a filmar em espaços pequenos, a arranjar planos diferentes e contrastes de luzes interessantes, e que fazem um filme quer tenham muito ou pouquíssimo dinheiro. Eles arranjam sempre uma solução artística ou técnica para conseguirem fazer um filme no mínimo aceitável, como apesar de tudo, é o caso. Destaque para os actores principais, que suportam e dão vida a um argumento algo entediante: Shanyn Leigh, mas especialmente para o Willem Dafoe que é um daqueles gajos que está cá dentro... Se não fossem estes dois, o filme seria quase insuportável de ver.
Não consegui encontrar dados sobre os valores de produção. Mas nem tudo se pode resumir a custos e dinheiro. A realidade é que Abel Ferrara conseguiu criar o fim do mundo, tal como é visto na TV por duas personagens e que quase nunca saem do seu apartamento. Como tudo na vida, isto podia ser bem ou mal feito. Neste caso, toca os dois pontos: tem algumas coisas boas, mas tem muito mais coisas más. Por isso mesmo, 4:44 Last Day on Earth, nunca seria um filme que recomendasse a alguém. O trailer é melhor que o filme! Vindo de quem vem, podia e deveria ser muito melhor. ●○○○○
Tenho de admitir que foi uma enorme desilusão. 4:44 Last Day on Earth é por vezes entediante e tem muitos momentos que pareciam quase amadores. Tive de ir confirmar se este Abel Ferrara, era de facto, o Abel Ferrara que eu conhecia. Infelizmente, era o mesmo.
Apesar de tudo o que tem de mau, 4:44 Last Day on Earth é um filme curioso porque pode ter várias apreciações. Ou é uma produção normal, dita "comercial" e está bastante abaixo do que é normal para o "standard Ferrara", ou então é uma minúscula produção e acaba por ser um bom filme, feito praticamente sem dinheiro e apenas com 2 actores e muito recurso a stock footage.
Se for o caso da baixa produção (que é o que parece), o argumento acaba por ser inteligente porque arranja uma premissa enorme (o fim do mundo programado, chegando ao cúmulo de se saber as horas e minutos do fim) e fecha-se no enfoque que é o pequeno mundo de uma relação conjugal e como isso a afecta. Mas se for o caso de uma produção comercial, acaba por ser uma fraude e pouco inteligente, porque arranja uma premissa enorme, mas só mostra a reação de apenas um casal, ignorando tudo o resto.
Seja qual for a situação financeira, não gostei, porque estava à espera de mais. Fiquei desiludido. Mas nem tudo é mau. Nota-se que há gajos na cadeira do realizador que são muito bons a filmar em espaços pequenos, a arranjar planos diferentes e contrastes de luzes interessantes, e que fazem um filme quer tenham muito ou pouquíssimo dinheiro. Eles arranjam sempre uma solução artística ou técnica para conseguirem fazer um filme no mínimo aceitável, como apesar de tudo, é o caso. Destaque para os actores principais, que suportam e dão vida a um argumento algo entediante: Shanyn Leigh, mas especialmente para o Willem Dafoe que é um daqueles gajos que está cá dentro... Se não fossem estes dois, o filme seria quase insuportável de ver.
Não consegui encontrar dados sobre os valores de produção. Mas nem tudo se pode resumir a custos e dinheiro. A realidade é que Abel Ferrara conseguiu criar o fim do mundo, tal como é visto na TV por duas personagens e que quase nunca saem do seu apartamento. Como tudo na vida, isto podia ser bem ou mal feito. Neste caso, toca os dois pontos: tem algumas coisas boas, mas tem muito mais coisas más. Por isso mesmo, 4:44 Last Day on Earth, nunca seria um filme que recomendasse a alguém. O trailer é melhor que o filme! Vindo de quem vem, podia e deveria ser muito melhor. ●○○○○
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Não me vou demorar muito. Em termos críticos, vou "despachar" isto num instante, tal como se "despacha" uma obra de arte que poucos (ou nenhuns) defeitos tem. The Revenant é um filme perfeito. Épico. Gigante. Cru. Violento. Visceral. Real. Genuíno. Por vezes é até arrebatador. Um mix perfeitamente equilibrado entre a beleza frágil e estéril de um filme artístico e o nojo do cuspo de tabaco de mascar de um western de barba rija. Excepcional. Digno de todos os aplausos e de todos os prémios. Logo à partida, aplausos para Alejandro Iñárritu, que sem dúvida nenhuma, é o melhor realizador do momento. E tem vindo inequivocamente a prová-lo filme após filme. Nem é preciso dizer mais nada. Nem é preciso ver com muita atenção para se perceber que este é um filme "verdadeiro". Totalmente genuíno. Quase que se cheira a lama molhada... Para mim, isto é cinema puro.
Depois, mais aplausos para Leonardo DiCaprio (um gajo que nem aprecio particularmente) e para Tom Hardy (um gajo que particularmente aprecio), que apesar de estarem nitidamente a "piscar o olho" a um prémio nos Óscares, têm uma performance acima do normal, até para eles próprios. Mais uma vez, influência directa do Iñárritu, que leva actores muito bons, simplesmente para outro nível muito superior.
Visualmente, The Revenant, é avassalador. A fotografia é gélida e distante, mas ao mesmo tempo é penetrante. Os grandes planos naturais que conscientemente esmagam as personagens. As filmagens de acção "sem costuras"... Tudo pensado ao pormenor. Brilhante. Faltam-me os adjectivos. Até voltei a pensar em coisas que, em termos de cinema, já tinham desaparecido da minha mente, como quando fui confrontado com aquela cena do ataque do urso e pensei: "como é que fazem isto?". Já nem lembrava dessa sensação! Obrigado, Alejandro, muito obrigado.
Apesar de ser baseado numa história verídica de violência e sobrevivência, acho que em The Revenant, o Iñárritu teve a inteligência de introduzir outra grande "moral da história" mais subtil: se retirarmos tudo o que é conforto do elemento humano e confrontarmos as pessoas com a natureza selvagem, as pessoas tornam-se elas próprios em elementos selvagens. E lidar com uma ou outra situação, acaba por ser fatal, para qualquer interveniente. Ninguém sai ileso. Acho que essa a grande mensagem de fundo deste The Revenant: teremos que lidar com a selvajaria humana e perceber como evitá-la a todo o custo, porque é visceral horrível e ninguém irá sair sem marcas profundas desse confronto. Uma recordação do já que aconteceu para mostrar um vislumbre do que está para acontecer, se continuarmos a destruir a natureza. E quando falo em natureza, refiro-me ao mundo natural, mas também à própria natureza humana que é intrinsecamente equilibrada. The Revenant é um grande, grande filme, com uma mensagem poderosíssima de fundo, que me deixou muito surpreendido pela positiva. Mesmo no espaço comercial, ainda há alguma esperança para o cinema de qualidade. Um clássico instantâneo, uma mensagem inteligente e um filme obrigatório. ●●●●●
Depois, mais aplausos para Leonardo DiCaprio (um gajo que nem aprecio particularmente) e para Tom Hardy (um gajo que particularmente aprecio), que apesar de estarem nitidamente a "piscar o olho" a um prémio nos Óscares, têm uma performance acima do normal, até para eles próprios. Mais uma vez, influência directa do Iñárritu, que leva actores muito bons, simplesmente para outro nível muito superior.
Visualmente, The Revenant, é avassalador. A fotografia é gélida e distante, mas ao mesmo tempo é penetrante. Os grandes planos naturais que conscientemente esmagam as personagens. As filmagens de acção "sem costuras"... Tudo pensado ao pormenor. Brilhante. Faltam-me os adjectivos. Até voltei a pensar em coisas que, em termos de cinema, já tinham desaparecido da minha mente, como quando fui confrontado com aquela cena do ataque do urso e pensei: "como é que fazem isto?". Já nem lembrava dessa sensação! Obrigado, Alejandro, muito obrigado.
Apesar de ser baseado numa história verídica de violência e sobrevivência, acho que em The Revenant, o Iñárritu teve a inteligência de introduzir outra grande "moral da história" mais subtil: se retirarmos tudo o que é conforto do elemento humano e confrontarmos as pessoas com a natureza selvagem, as pessoas tornam-se elas próprios em elementos selvagens. E lidar com uma ou outra situação, acaba por ser fatal, para qualquer interveniente. Ninguém sai ileso. Acho que essa a grande mensagem de fundo deste The Revenant: teremos que lidar com a selvajaria humana e perceber como evitá-la a todo o custo, porque é visceral horrível e ninguém irá sair sem marcas profundas desse confronto. Uma recordação do já que aconteceu para mostrar um vislumbre do que está para acontecer, se continuarmos a destruir a natureza. E quando falo em natureza, refiro-me ao mundo natural, mas também à própria natureza humana que é intrinsecamente equilibrada. The Revenant é um grande, grande filme, com uma mensagem poderosíssima de fundo, que me deixou muito surpreendido pela positiva. Mesmo no espaço comercial, ainda há alguma esperança para o cinema de qualidade. Um clássico instantâneo, uma mensagem inteligente e um filme obrigatório. ●●●●●
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Porter foi roubado, atraiçoado e atingido com dois tiros nas costas. Mas Porter é um gajo duro e não morre assim tão facilmente. Contra todas as expectativas, Porter está vivo e quer vingança. Mas também quer os seus 70 mil dólares de volta, e há-de tentar reavê-los nem que tenha de enfrentar polícias corruptos, a ex-mulher, uma dominatrix e o seu gang chinês ou uma poderosa organização mafiosa... Nada pára Porter.
Payback é um filme de criminosos, detectives e porrada à moda dos anos 70. Aquele genérico, com aquelas letras e aquela música não engana ninguém. Por mim, óptimo. Gosto imenso de filmes de detectives mal encarados e de porrada dessa altura. Podia ser o Clint Eastwood ou o Charles Bronson, mas é o Mel Gibson e isso é sempre bom. De suporte, um casting muito bom, recheado de bons actores: Gregg Henry, Maria Bello, David Paymer, Bill Duke, Deborah Kara Unger, William Devane, Lucy Liu, Kris Kristofferson e até James Coburn. Payback enche-me (medianamente) as medidas.
Originalmente era isto que ia escrever sobre Payback. Mas escrever sobre filmes tem destas coisas: uma pessoa tenta apanhar alguma informação sobre um filme que não parece ter muito sob a superfíce e às vezes é surpreendido. Este é um caso flagrante e um verdadeiro case study.
Vim eu a saber que Payback é um remake de Point Blank de 1967 (que nunca vi) com Lee Marvin no principal papel, daí que se pareça tanto com filmes "criminosos, detectives e porrada à moda dos anos 70". Mas na realidade, Payback, são dois filmes totalmente diferentes: Payback: Straight Up (versão do realizador) e Payback (versão de estúdio). Como tenho o hábito de rever filmes, por acaso vi as duas versões, o que me causou uma confusão imensa. Tinha a certeza que já tinha visto este filme, mas estranhamente, ele diferia em muitos pormenores. Por exemplo, tinha a certeza que o Kris Kristofferson entrava, mas neste filme, o chefe da máfia só fala ao telefone e é uma mulher. E à medida que ia avançando ia ficando pior: cenas inteiras desapareciam e para culminar, o próprio final é totalmente diferente. Pensei que estava a ficar maluco, ou pior, a perder as minhas faculdades de cine-memória. Afinal, havia outra... versão.
Pelo que percebi, o realizador - Brian Helgeland - foi despedido/substituído depois do filme estar "rodado e montado", o que levou a que 30% do filme tivesse de ser re-filmado para o "actualizar". Já li umas coisas sobre quem teria sido o realizador a fazer a montagem final, mas é uma incógnita. Falou-se de John Myhre e Paul Abascal - gajos que desconheço -, e até do próprio Mel Gibson. Não faço a mínima ideia, mas também isso não é importante.
O que é importante aqui é perceber quanto um filme muda só porque juntam mais umas imagens e se cortam outras. A montagem é quase meio filme. E não é só uma questão de ritmo. É uma questão da própria história. Até personagens podem simplesmente desaparecer do enredo na mesa de montagem.
Pessoalmente, acho que Payback é um filme óptimo. Primeiro, porque mostra que não sou averso a remakes como compreensivelmente seria de supor pelas 3 ou 4 pessoas que leem este blogue. Não vejo problema nenhum em fazer remakes, desde que se justifique. Sendo que a justificação é o filme original precisa de um refrescamento e já passaram 30 anos (mais ou menos) desde o lançamento da versão original. Depois, porque mostra a importância da parte oculta dos filmes: a parte técnica, aquelas letrinhas chatas e intermináveis no final, depois dos nomes das "estrelas" e do realizador, que o pessoal usa nos cinemas para não calcar/tropeçar em alguém até à luz das saídas, mas que faz toda a diferença na forma como um filme chega ao grande ecrã. Finalmente, porque mostra que não tenho nada contra a preferência "editorial" dos estúdios. Por vezes, parece que os estúdios querem tornar todos os filmes iguais e, normalmente, quando mexem na obra dos realizadores, basicamente sai merda. Curiosamente, este não é o caso. Apesar de gostar da versão mais crua de Brian Helgeland, gosto ainda mais do corte dado pelo estúdio. Acho que torna o filme mais comercial, mas mais equilibrado. Nem que fosse só por esta vez, teria que concordar que este corte de estúdio está melhor que o original. Mas como sempre é tudo uma questão de gosto e gostos não se discutem... Vê-se bem e vê-se bem. ●●○○○
Payback é um filme de criminosos, detectives e porrada à moda dos anos 70. Aquele genérico, com aquelas letras e aquela música não engana ninguém. Por mim, óptimo. Gosto imenso de filmes de detectives mal encarados e de porrada dessa altura. Podia ser o Clint Eastwood ou o Charles Bronson, mas é o Mel Gibson e isso é sempre bom. De suporte, um casting muito bom, recheado de bons actores: Gregg Henry, Maria Bello, David Paymer, Bill Duke, Deborah Kara Unger, William Devane, Lucy Liu, Kris Kristofferson e até James Coburn. Payback enche-me (medianamente) as medidas.
Originalmente era isto que ia escrever sobre Payback. Mas escrever sobre filmes tem destas coisas: uma pessoa tenta apanhar alguma informação sobre um filme que não parece ter muito sob a superfíce e às vezes é surpreendido. Este é um caso flagrante e um verdadeiro case study.
Vim eu a saber que Payback é um remake de Point Blank de 1967 (que nunca vi) com Lee Marvin no principal papel, daí que se pareça tanto com filmes "criminosos, detectives e porrada à moda dos anos 70". Mas na realidade, Payback, são dois filmes totalmente diferentes: Payback: Straight Up (versão do realizador) e Payback (versão de estúdio). Como tenho o hábito de rever filmes, por acaso vi as duas versões, o que me causou uma confusão imensa. Tinha a certeza que já tinha visto este filme, mas estranhamente, ele diferia em muitos pormenores. Por exemplo, tinha a certeza que o Kris Kristofferson entrava, mas neste filme, o chefe da máfia só fala ao telefone e é uma mulher. E à medida que ia avançando ia ficando pior: cenas inteiras desapareciam e para culminar, o próprio final é totalmente diferente. Pensei que estava a ficar maluco, ou pior, a perder as minhas faculdades de cine-memória. Afinal, havia outra... versão.
Pelo que percebi, o realizador - Brian Helgeland - foi despedido/substituído depois do filme estar "rodado e montado", o que levou a que 30% do filme tivesse de ser re-filmado para o "actualizar". Já li umas coisas sobre quem teria sido o realizador a fazer a montagem final, mas é uma incógnita. Falou-se de John Myhre e Paul Abascal - gajos que desconheço -, e até do próprio Mel Gibson. Não faço a mínima ideia, mas também isso não é importante.
O que é importante aqui é perceber quanto um filme muda só porque juntam mais umas imagens e se cortam outras. A montagem é quase meio filme. E não é só uma questão de ritmo. É uma questão da própria história. Até personagens podem simplesmente desaparecer do enredo na mesa de montagem.
Pessoalmente, acho que Payback é um filme óptimo. Primeiro, porque mostra que não sou averso a remakes como compreensivelmente seria de supor pelas 3 ou 4 pessoas que leem este blogue. Não vejo problema nenhum em fazer remakes, desde que se justifique. Sendo que a justificação é o filme original precisa de um refrescamento e já passaram 30 anos (mais ou menos) desde o lançamento da versão original. Depois, porque mostra a importância da parte oculta dos filmes: a parte técnica, aquelas letrinhas chatas e intermináveis no final, depois dos nomes das "estrelas" e do realizador, que o pessoal usa nos cinemas para não calcar/tropeçar em alguém até à luz das saídas, mas que faz toda a diferença na forma como um filme chega ao grande ecrã. Finalmente, porque mostra que não tenho nada contra a preferência "editorial" dos estúdios. Por vezes, parece que os estúdios querem tornar todos os filmes iguais e, normalmente, quando mexem na obra dos realizadores, basicamente sai merda. Curiosamente, este não é o caso. Apesar de gostar da versão mais crua de Brian Helgeland, gosto ainda mais do corte dado pelo estúdio. Acho que torna o filme mais comercial, mas mais equilibrado. Nem que fosse só por esta vez, teria que concordar que este corte de estúdio está melhor que o original. Mas como sempre é tudo uma questão de gosto e gostos não se discutem... Vê-se bem e vê-se bem. ●●○○○
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The Quick and the Dead é um western que vai buscar o título a uma frase bíblica que resume o facto de todos nós, mais cedo ou mais tarde, sermos julgados pelos nossos pecados, quer estejamos vivos (the quick) ou mortos (the dead). É bastante apropriado, visto que toda a história gira duma sádica competição tipo torneio, mas envolvendo um duelo de armas até à morte, mano a mano. Mais western que isto não pode ser... O título é algo dúbio já que também se aplica à rapidez do dedo no gatilho. Nos westerns e em particular nos duelos, a rapidez a sacar e disparar é o que separa basicamente os vivos dos mortos... Mas as referências bíblicas estão lá todas, como por exemplo a personagem de Gene Hackman se chamar Herod ou Russel Crowe interpretar um padre, arrependido, depois de anos como bandido.
À primeira vista, até pode parecer, mas o filme não tem grande história. Por vezes até se torna repetitivo e copia (ou inspira-se?) mais noutros westerns do que arranja material original. É um filme com mais estilo do que substância. Mas ainda assim tem duas coisas muito boas: a parada de estrelas e a realização.
Em relação a actores é só ver a lista: Sharon Stone (que fica bem em qualquer situação ou papel), Gene Hackman (um "senhor" do cinema que não precisa de apresentações), Russell Crowe (um actor razoável, inflacionado por "filmes de óscares" mas que aqui até escapa), Leonardo DiCaprio (tão novinho que ainda era a perdição das teenagers-coleccionadoras-de-posters-da-Bravo) e Lance Henriksen (um gajo cheio de estilo seja em que filme for).
Mas o que mais salta à vista em The Quick and the Dead é a realização de Sam Raimi. Por vezes não se percebe muito bem porque é que alguns realizadores se destacam e outros não. Sam Raimi é um caso particular e de estudo. Ele conseguiu criar uma estética, mas acima de tudo, uma linguagem visual própria e original que aparentemente funciona em qualquer género de filme. Criou essa linguagem para o excelente Evil Dead e foi um sucesso. Mais tarde aplicou a mesma receita com super-heróis (ainda que com um lado bastante negro) em Darkman. (percebe-se como Raimi aparece anos mais trade a dirigir a saga Spider-Man). Mas essa lógica visual continua a funcionar até num western verdadeiramente à moda antiga. E funciona sempre muito bem. É um tipo de realização tão particular que mesmo quem não saiba quem é o realizador consegue facilmente identificá-lo graças à estética. Acho isso incrível.
The Quick and the Dead não é nada de espectacular ou muito memorável, mas entretém sem ser totalmente desmiolado. Vê-se bem. Para quem é um fã do Sam Raimi ainda se vê melhor. ●●○○○
À primeira vista, até pode parecer, mas o filme não tem grande história. Por vezes até se torna repetitivo e copia (ou inspira-se?) mais noutros westerns do que arranja material original. É um filme com mais estilo do que substância. Mas ainda assim tem duas coisas muito boas: a parada de estrelas e a realização.
Em relação a actores é só ver a lista: Sharon Stone (que fica bem em qualquer situação ou papel), Gene Hackman (um "senhor" do cinema que não precisa de apresentações), Russell Crowe (um actor razoável, inflacionado por "filmes de óscares" mas que aqui até escapa), Leonardo DiCaprio (tão novinho que ainda era a perdição das teenagers-coleccionadoras-de-posters-da-Bravo) e Lance Henriksen (um gajo cheio de estilo seja em que filme for).
Mas o que mais salta à vista em The Quick and the Dead é a realização de Sam Raimi. Por vezes não se percebe muito bem porque é que alguns realizadores se destacam e outros não. Sam Raimi é um caso particular e de estudo. Ele conseguiu criar uma estética, mas acima de tudo, uma linguagem visual própria e original que aparentemente funciona em qualquer género de filme. Criou essa linguagem para o excelente Evil Dead e foi um sucesso. Mais tarde aplicou a mesma receita com super-heróis (ainda que com um lado bastante negro) em Darkman. (percebe-se como Raimi aparece anos mais trade a dirigir a saga Spider-Man). Mas essa lógica visual continua a funcionar até num western verdadeiramente à moda antiga. E funciona sempre muito bem. É um tipo de realização tão particular que mesmo quem não saiba quem é o realizador consegue facilmente identificá-lo graças à estética. Acho isso incrível.
The Quick and the Dead não é nada de espectacular ou muito memorável, mas entretém sem ser totalmente desmiolado. Vê-se bem. Para quem é um fã do Sam Raimi ainda se vê melhor. ●●○○○
Tenho andado a pensar numa forma de classificar os filmes. Classificar, não. O termo mais correcto será quantificar os filmes.
Apesar de tudo, a classificação é bem mais fácil. Tirando os problemas óbvios dos filmes que têm vários géneros, é muito mais fácil. Um filme ou é de ficção científica ou um drama, um filme de acção ou um documentário. Há até aqueles filmes feitos especificamente para explorar o gosto do público por determinado género como o blaxpoitation. Há filmes que, apesar de não serem bons, são um marco do cinema precisamente por terem criado um novo género como o spaghetti western, por exemplo. Claro que isto não é assim tão simples. Porque o 2001: Odisseia no Espaço não é apenas um filme de ficção científica, nem o Apocalypse Now é um filme de guerra. Há filmes que pura e simplesmente não se conseguem encaixar num determinado rótulo ou género. Por estranho que possa parecer, normalmente até é o que distingue os grandes filmes dos demais. Mas sempre é mais fácil conseguir encaixar um filme num determinado género (ou vários) do que conseguir mostrar o seu valor.
Por isso é que nos jornais e afins, as atribuições dos críticos são tão díspares. Como se costuma dizer na gíria: "é conforme!". Isto é, depende de quem avalia. Se for um crítico mais "virado" para o cinema europeu, qualquer filme com o selo de Hollywood vai ser uma merda e só tem direito a 1 "estrelinha. Se for um crítico com outro interesse ou outra perspectiva diferente, a avaliação do filme muda. Isto sempre me pareceu demasiado abstracto e subjectivo. Portanto, tenho andado a pensar que tem de haver um método mais objectivo para quantificar um filme.
Primeiro pensei que as matemáticas e as médias seriam um bom método a aplicar, mas depois lembrei-me do Dead Poets Society e do sistema métrico de avaliação de poesia do Dr. J. Evans Pritchard, Ph.D.. Não me parece bem andar de regra e esquadro a fazer gráficos para avaliar o que quer que seja. Desisti dessa ideia e percebi que - mesmo que não se queira - há sempre uma grande dose de subjectividade nestas avaliações. O que não é assim tão negativo quanto pensava. Eu sei que é um contraditório afirmar isto, mas é verdade.
Da mesma forma que sempre achei que quantificar os filmes com 5 "estrelas" era demasiado redutor. Estava enganado outra vez. Após muita reflexão sobre o assunto cheguei à conclusão que É MESMO a melhor forma. (Isto acontece-me muitas vezes, contradizer as minha próprias opiniões). Com um acréscimo: a sexta "estrelinha". A "estrela" que distingue os excelentes filmes, dos filmes "fora da escala". Eis a minha lógica de pensamento.
Percebi que existem 5 tópicos (mais 1 extra) que definem a qualidade de um filme. E para tentar ser o mais objectivo possível, analiso os filmes como tendo o tópico preenchido ou não, de forma a eliminar a subjectividade o mais possível.
Primeiro: a realização geral. Na realização geral incluo a visão estética do filme, a direcção dos actores e a forma como são apresentadas as imagens. Convém não esquecer que um filme é acima de tudo uma mostra gráfica. Uma série de imagens estáticas colocadas em movimento. Neste ponto conta muito toda a equipa "visual" que um realizador junta à sua volta, como o director de fotografia, por exemplo. Mas também a visão particular do realizador. Como é que se apresentam emoções? Qual a melhor forma de mostrar arrependimento? Como se mostra à audiência que algo está para acontecer? Ou pôr-lhe os cabelos em pé? Ou dar-lhe um nó no estômago? Pois. Só um grande realizador sabe compor imagens para responder a isso. Outra coisa que se nota nos grandes realizadores é também um aspecto mais abrangente: domínio sobre o filme. Por isso mesmo, é raro um "assalariado" de estúdio conseguir fazer um grande filme. Um "assalariado" faz demasiadas concessões enquanto um grande realizador tem o filme todo na cabeça e controla todos os aspectos do filme. Isto nota-se num filme. Para o bem e para o mal.
Segundo: actores. O que é um filme sem actores? Nada. É como um actor sem público. Uma das forças motrizes de um bom filme são mesmo os actores. Mas não só. É também a escolha dos próprios actores. Alguém imaginou outro actor que não o Harrison Ford a fazer de Indiana Jones? Outro actor no The Shinning que não o Jack Nicholson? Outro Patton que não o George C. Scott? Pode não parecer, mas a escolha inicial de um determinado actor para um determinado papel é muito importante e decisivo para criar um bom filme. E, como é óbvio, o actor tem de ser mesmo bom e de ter um boa performance. Como se costuma dizer, se o actor fizer um daqueles "papelaços" inesquecíveis, mesmo um filme mediano torna-se logo bom.
Terceiro: a história. Antes de um filme existir visualmente, ele vai nascendo no papel através do seu guião. Não sei avaliar a qualidade técnica de um guião, mas mais importante do que isso é quando o realizador lhe dá vida. Mas começar com uma grande história, um tema totalmente inovador é meio caminho andado para ter em mãos um bom filme. Neste aspecto, saliento sempre um factor muito importante. O final da história. Quem escreve sabe bem que finalizar um boa história é sempre muito mais difícil do que iniciá-la. Não me estou a referir os célebres twists. Estou a referir-me àquela "boa" conclusão. Muitas vezes, os filmes têm boas histórias, desenvolvem-se bem, mas o final do filme deixa um sabor amargo. Finais demasiadamente "em aberto" (à europeu), totalmente previsíveis ou que dão tantas voltas (os tais twists) para baralhar o final óbvio, que acabam por ser novamente previsíveis.
Quarto: os aspectos técnicos. Som, luz, cor e efeitos especiais dão camadas extra a um filme. E se elas forem todas muito boas e equilibradas, a qualidade de um filme aumenta exponencialmente. Isto nota-se, pela negativa nos blockbusters. A camada dos efeitos especiais é tão espessa que por vezes tapa todo o filme. Por isso é que é raro ver um "blockbuster de efeitos" que seja um bom filme. Pelo lado positivo, aspectos técnicos bem concebidos, que ajudem a contar a história e exponenciem o trabalho dos actores, elevam os filmes à categoria de clássicos. É como a construção de um pintura: começa-se pelo esboço a carvão, lima-se os pormenores, acrescentam-se cores e finaliza-se os retoques.
Quinto: ritmo. Um dos elementos menos visível de um filme é a montagem. Pode não parecer, mas saber quando cortar uma cena ou prolongá-la faz toda a diferença. Isto é muito importante porque marca o andamento de um filme. Pode torná-lo hiper-rápido ou insuportavelmente lento. Há aqui um paralelismo directo com a música. Há que saber quando meter as guitarradas estridentes e as melodias calmas. Um bom filme tem um equilíbrio perfeito entre a acção e o diálogo. É como uma música dos Pink Floyd: não se percebe muito bem porquê, mas têm o ritmo perfeito. Um bom filme é igual. Tem de ser consistente, mas conseguir, de tempos a tempos, fazer-nos dar um salto na cadeira.
Por último: a sexta "estrela". A "estrela" que faz toda a diferença. Pensei muito no assunto e reparei que o que faz os grandes filmes é sua durabilidade. Ou seja, a capacidade de resistirem à passagem do tempo. É como toda a restante arte: a que faz a diferença é a que perdura. Fazer um filme perdurar no tempo é talvez o mais difícil. Já me aconteceu "n" de vezes rever um filme que achava excelente, mas que agora noto que ficou "marcado" no tempo. Uma pessoa percebe que aquele filme é da década de 70 ou 80, que os aspectos técnicos estão "marcados" e/ou desactualizados, que a temática só tinha validade num tempo específico ou que era dum determinado género que entretanto passou de moda. Acho que esta última "estrela" é o que faz os bons filmes saltarem para uma classe à parte. A classe dos "intemporais". Por isso é que há tão poucos.
Resumindo. Para um filme ser bom é necessário existir uma grande colaboração de talentos em volta de uma boa história, liderados por um líder exemplar. Mas para um filme ser intemporal (até resistir à crítica) é absolutamente necessário que o "homem do leme" consiga criar "aquela estrelinha" extra para colocar no final. Vou ver um filme qualquer só para experimentar esta nova classificação. Perdão. Quantificação.
Apesar de tudo, a classificação é bem mais fácil. Tirando os problemas óbvios dos filmes que têm vários géneros, é muito mais fácil. Um filme ou é de ficção científica ou um drama, um filme de acção ou um documentário. Há até aqueles filmes feitos especificamente para explorar o gosto do público por determinado género como o blaxpoitation. Há filmes que, apesar de não serem bons, são um marco do cinema precisamente por terem criado um novo género como o spaghetti western, por exemplo. Claro que isto não é assim tão simples. Porque o 2001: Odisseia no Espaço não é apenas um filme de ficção científica, nem o Apocalypse Now é um filme de guerra. Há filmes que pura e simplesmente não se conseguem encaixar num determinado rótulo ou género. Por estranho que possa parecer, normalmente até é o que distingue os grandes filmes dos demais. Mas sempre é mais fácil conseguir encaixar um filme num determinado género (ou vários) do que conseguir mostrar o seu valor.
Por isso é que nos jornais e afins, as atribuições dos críticos são tão díspares. Como se costuma dizer na gíria: "é conforme!". Isto é, depende de quem avalia. Se for um crítico mais "virado" para o cinema europeu, qualquer filme com o selo de Hollywood vai ser uma merda e só tem direito a 1 "estrelinha. Se for um crítico com outro interesse ou outra perspectiva diferente, a avaliação do filme muda. Isto sempre me pareceu demasiado abstracto e subjectivo. Portanto, tenho andado a pensar que tem de haver um método mais objectivo para quantificar um filme.
Primeiro pensei que as matemáticas e as médias seriam um bom método a aplicar, mas depois lembrei-me do Dead Poets Society e do sistema métrico de avaliação de poesia do Dr. J. Evans Pritchard, Ph.D.. Não me parece bem andar de regra e esquadro a fazer gráficos para avaliar o que quer que seja. Desisti dessa ideia e percebi que - mesmo que não se queira - há sempre uma grande dose de subjectividade nestas avaliações. O que não é assim tão negativo quanto pensava. Eu sei que é um contraditório afirmar isto, mas é verdade.
Da mesma forma que sempre achei que quantificar os filmes com 5 "estrelas" era demasiado redutor. Estava enganado outra vez. Após muita reflexão sobre o assunto cheguei à conclusão que É MESMO a melhor forma. (Isto acontece-me muitas vezes, contradizer as minha próprias opiniões). Com um acréscimo: a sexta "estrelinha". A "estrela" que distingue os excelentes filmes, dos filmes "fora da escala". Eis a minha lógica de pensamento.
Percebi que existem 5 tópicos (mais 1 extra) que definem a qualidade de um filme. E para tentar ser o mais objectivo possível, analiso os filmes como tendo o tópico preenchido ou não, de forma a eliminar a subjectividade o mais possível.
Primeiro: a realização geral. Na realização geral incluo a visão estética do filme, a direcção dos actores e a forma como são apresentadas as imagens. Convém não esquecer que um filme é acima de tudo uma mostra gráfica. Uma série de imagens estáticas colocadas em movimento. Neste ponto conta muito toda a equipa "visual" que um realizador junta à sua volta, como o director de fotografia, por exemplo. Mas também a visão particular do realizador. Como é que se apresentam emoções? Qual a melhor forma de mostrar arrependimento? Como se mostra à audiência que algo está para acontecer? Ou pôr-lhe os cabelos em pé? Ou dar-lhe um nó no estômago? Pois. Só um grande realizador sabe compor imagens para responder a isso. Outra coisa que se nota nos grandes realizadores é também um aspecto mais abrangente: domínio sobre o filme. Por isso mesmo, é raro um "assalariado" de estúdio conseguir fazer um grande filme. Um "assalariado" faz demasiadas concessões enquanto um grande realizador tem o filme todo na cabeça e controla todos os aspectos do filme. Isto nota-se num filme. Para o bem e para o mal.
Segundo: actores. O que é um filme sem actores? Nada. É como um actor sem público. Uma das forças motrizes de um bom filme são mesmo os actores. Mas não só. É também a escolha dos próprios actores. Alguém imaginou outro actor que não o Harrison Ford a fazer de Indiana Jones? Outro actor no The Shinning que não o Jack Nicholson? Outro Patton que não o George C. Scott? Pode não parecer, mas a escolha inicial de um determinado actor para um determinado papel é muito importante e decisivo para criar um bom filme. E, como é óbvio, o actor tem de ser mesmo bom e de ter um boa performance. Como se costuma dizer, se o actor fizer um daqueles "papelaços" inesquecíveis, mesmo um filme mediano torna-se logo bom.
Terceiro: a história. Antes de um filme existir visualmente, ele vai nascendo no papel através do seu guião. Não sei avaliar a qualidade técnica de um guião, mas mais importante do que isso é quando o realizador lhe dá vida. Mas começar com uma grande história, um tema totalmente inovador é meio caminho andado para ter em mãos um bom filme. Neste aspecto, saliento sempre um factor muito importante. O final da história. Quem escreve sabe bem que finalizar um boa história é sempre muito mais difícil do que iniciá-la. Não me estou a referir os célebres twists. Estou a referir-me àquela "boa" conclusão. Muitas vezes, os filmes têm boas histórias, desenvolvem-se bem, mas o final do filme deixa um sabor amargo. Finais demasiadamente "em aberto" (à europeu), totalmente previsíveis ou que dão tantas voltas (os tais twists) para baralhar o final óbvio, que acabam por ser novamente previsíveis.
Quarto: os aspectos técnicos. Som, luz, cor e efeitos especiais dão camadas extra a um filme. E se elas forem todas muito boas e equilibradas, a qualidade de um filme aumenta exponencialmente. Isto nota-se, pela negativa nos blockbusters. A camada dos efeitos especiais é tão espessa que por vezes tapa todo o filme. Por isso é que é raro ver um "blockbuster de efeitos" que seja um bom filme. Pelo lado positivo, aspectos técnicos bem concebidos, que ajudem a contar a história e exponenciem o trabalho dos actores, elevam os filmes à categoria de clássicos. É como a construção de um pintura: começa-se pelo esboço a carvão, lima-se os pormenores, acrescentam-se cores e finaliza-se os retoques.
Quinto: ritmo. Um dos elementos menos visível de um filme é a montagem. Pode não parecer, mas saber quando cortar uma cena ou prolongá-la faz toda a diferença. Isto é muito importante porque marca o andamento de um filme. Pode torná-lo hiper-rápido ou insuportavelmente lento. Há aqui um paralelismo directo com a música. Há que saber quando meter as guitarradas estridentes e as melodias calmas. Um bom filme tem um equilíbrio perfeito entre a acção e o diálogo. É como uma música dos Pink Floyd: não se percebe muito bem porquê, mas têm o ritmo perfeito. Um bom filme é igual. Tem de ser consistente, mas conseguir, de tempos a tempos, fazer-nos dar um salto na cadeira.
Por último: a sexta "estrela". A "estrela" que faz toda a diferença. Pensei muito no assunto e reparei que o que faz os grandes filmes é sua durabilidade. Ou seja, a capacidade de resistirem à passagem do tempo. É como toda a restante arte: a que faz a diferença é a que perdura. Fazer um filme perdurar no tempo é talvez o mais difícil. Já me aconteceu "n" de vezes rever um filme que achava excelente, mas que agora noto que ficou "marcado" no tempo. Uma pessoa percebe que aquele filme é da década de 70 ou 80, que os aspectos técnicos estão "marcados" e/ou desactualizados, que a temática só tinha validade num tempo específico ou que era dum determinado género que entretanto passou de moda. Acho que esta última "estrela" é o que faz os bons filmes saltarem para uma classe à parte. A classe dos "intemporais". Por isso é que há tão poucos.
Resumindo. Para um filme ser bom é necessário existir uma grande colaboração de talentos em volta de uma boa história, liderados por um líder exemplar. Mas para um filme ser intemporal (até resistir à crítica) é absolutamente necessário que o "homem do leme" consiga criar "aquela estrelinha" extra para colocar no final. Vou ver um filme qualquer só para experimentar esta nova classificação. Perdão. Quantificação.
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