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Normalmente nunca diria isto, mas vou ter de o dizer... Idiocracy é um dos piores filmes que já vi na minha vida... mas que vale a pena dar uma vista de olhos. Por muito estranho que pareça é mesmo verdade. Apesar do filme ser mesmo mau, o cerne do filme merece uma reflexão, nem que seja só por 10 minutos.
Um soldado americano (Luke Wilson) é escolhido para uma experiência secreta envolvendo hibernação prolongada. Ele foi escolhido por ser um gajo absolutamente mediano e sem ligações familiares. Junto com ele vai também participar uma prostituta (Maya Rudolph), "emprestada" pelo seu chulo a troco de favores. A experiência acaba por correr mal devido a uma escândalo com o chulo, e o que deveria ser uma coisa com duração de um ano, acaba por ser esquecida e prolongar-se por 500 anos. Quando o soldado mediano finalmente acorda no futuro, 500 anos mais tarde, descobre que a inteligência foi extinta e que a América é uma sociedade tão estupidificada que ele é seguramente o humano mais inteligente à face da Terra. É então escolhido para resolver uma série de problemas... resultado de causas verdadeiramente estúpidas.
Idiocracy está num limbo. Teoricamente é uma comédia de ficção científica, mas na realidade nem é uma coisa nem outra. Como comédia é um contrassenso pois para além de não ser nada cómico, ainda por cima é um tipo de comédia que só é apelativo para o tipo de pessoal que está literalmente a criticar. Como ficção cientifica é mesmo só porque se passa no futuro, porque nem a história é nova (ou original) nem sequer o tema é muito aprofundado para além dos óbvios sketches. Para além disto, o próprio filme esteve envolvido numa disputa bastante feia com os estúdio da Fox. O que é absolutamente compreensível vendo o teor do filme. Até a Foz News é descaradamente gozada... Os estúdios ficaram com o filme completamente feito em carteira durante um ano e só o distribuíram em meia dúzia de cinema, sem promoção nenhuma, sem trailers, sem nada. Foi mesmo só para cumprir o contrato que previa a estreia em cinema. E depois o filme desapareceu do público... Idiocracy merece destaque precisamente por causa disto tudo. Como é possível que um filme que é essencialmente mal feito, sem distribuição, sem marketing, sem trailer e que quase caiu no esquecimento se torna uma referência da comédia politica entre os críticos e o público e ainda arranja o "título" de filme de culto? É um mistério.
Mas se há uma resposta certa, acho que é por o filme tocar num ponto muito sensível, e basicamente, por apontar para o elefante no meio da sala da América... A estupidez. Não vale a pena estar aqui com grandes rodeios. A América, outrora o grande centro de mentes brilhantes está a tornar-se cada vez mais estúpida. Uma maioria de pessoas elegeu o Donald Trump como presidente, portanto está tudo dito. Não é por nada que Mike Judge, o realizador que já tem créditos como o criador, produtor e dono das vozes de Beavis and Butt-Head, tem sido referido como um grande profeta. Depois de Donald Trump como presidente, acho que ninguém estranharia muito se agora fosse eleito um wrestler (como a personagem de Terry Crews) ou um culturista sem qualquer formação política ou social. De certa forma o filme é premonitório por ir mais além do racional e mostrar que o ridículo se pode tornar realidade, e também porque sendo uma comédia pode brincar com todos estes temas muito sérios. Muita vezes vi referida até a expressão: "o filme que lentamente se vai tornando num documentário social"... É estranho, mas é verdade. A linguagem utilizada, já muito longe do inglês, cheia de jargão e siglas... Uma comunidade manipulada e controlada por grandes corporações que apenas querem que a sociedade seja uma população de consumidores acéfalos... As séries e filmes sem continuidade tipo jackass que estreiam em primeiro lugar nos cinemas americanos... A omnipresente hipersexualização... de tudo, basicamente... As pilhas de lixo infindáveis provocadas por um consumismo desenfreado... Enfim... a realidade que ninguém quer ver ou admitir...
A realidade é que esta ficção é bem mais real e muito menos futurista e utópica do que parece. Este tema do homem que acorda no futuro para perceber que a humanidade se estupidificou ao ponto de quase se aniquilar não é nova. No Time Machine do H.G. Wells isto já é em parte mencionado. No conto The Marching Morons de Cyril Kornbluth também já se trata da temática sobre o que é que acontece quando se tem uma sociedade em que a população se expande exponencialmente e ao mesmo tempo há uma uma falta de pressão evolucionária...
Falar da estupidez crescente na sociedade daria para uma site completo porque as razões são imensas e muito interligadas. E aí tenho que dar o braço a torcer porque Idiocracy toca em quase tudo de uma forma muito leviana, mas ao mesmo tempo muito acertada. Vai desde o pormenor da Fox News com os seus apresentadores musculados e apresentadoras quase de mamas à mostra, passando pela crítica a uma sociedade dominada pelo marketing das grandes empresas que diz que "os electrólitos são tão bons que substituem a água simples" e que assim levam a uma catástrofe ecológica. E quem diz electrólitos, poderia dizer L. Casei Imunitass...
E se se avançar um pouco mais no tempo, ainda temos as redes sociais que têm sido o grande megafone desta estupidez crescente e alarmante que muita gente já percebeu que vai acabar mal. Mas não se pode dizer mal das redes sociais nem dos seus malefícios... porque gera imensa receita ("i love money, don't you?" deve ser a expressão que aparece mais vezes no filme...) e imensa gente adora as redes sociais e já nem sequer conseguem viver sem elas. Se este tema entrasse no filme (ainda nem sequer tinham grande expressão na altura da estreia), seguramente o filme teria mais 1 hora de duração... Pode ser que Mike Judje volte ao tema mais tarde... ou se calhar é melhor não o deixar dizer mais nada para não tocar novamente em pontos sensíveis...
De certa forma, Idiocracy é um olhar satírico para dentro. É como uma parte da América se revê e como tem noção de como o mundo começa a ver a própria América. E têm razão. Não tenho dúvida nenhuma, que cada vez mais, o mundo olha para a América, não como a grande super-potência de outros tempos, mas como o grande centro exportador de estupidez para o resto do mundo...
Estupidez é uma coisa aparentemente hereditária e altamente contagiosa. Isto fica bem demonstrado nos geniais primeiros minutos. E, cada vez mais me apercebo, que afinal pode não ter cura. E isto sou eu a ser um bocadinho optimista, porque na realidade o meu cérebro pessimista o que me diz é que a estupidez não tem cura e que eventualmente vamos estar bem fodidos por não tratarmos deste problema a tempo... Este tema da estupidez chateia-me. Fico com comichões e dá-me vontade de bater em alguém... é melhor ficar por aqui e não me alongar mais... ...
Sinto-me muito dividido em relação a este Idiocracy. Nunca o veria novamente de tão mau que é, mas sou obrigado a recomendá-lo pela reflexão que obriga a fazer... ○ - ●●●●

Num dia tão normal quanto tantos outros, a Terra (que é como quem diz a América...) é invadida por marcianos com grandes cérebros. Inteligentes, beligerantes e com um sentido humor absolutamente mortífero. Eis Mars Attacks!, versão Tim Burton.
Descobri que a ideia deste estranho Mars Attacks! partiu de um jogo de cartas criado por Len Brown e Woody Gelman e ilustrado por Norm Saunders. A estética está lá toda, só faltava mesmo uma história que unisse as personagens. Tim Burton, obviamente um apaixonado pelos filmes foleiros, tipo série C (ou D... conforme o mais baixo orçamento possível...), do género Ed Wood (pouco tempo antes tinha-lhe prestado uma homenagem com o filme do mesmo nome...) decidiu pegar nas personagens e tornar todo o filme numa visão sarcástica da América. Ele goza com os americanos no geral, com o Governo, com os Militares, com a influência da televisão e com a degradação da cultura. Ninguém fica a salvo do comentário incisivo e satírico de Burton. Provavelmente foi por causa disso que o filme não foi muito bem recebido. Ok. A aproximação tipo paródia desmiolada também pode ter ajudado às críticas, mas dar o salto da comédia para a pura sátira não costuma dar bons resultados... Parece-me que a maior parte das vezes, o público não entende bem a mensagem.
Tim Burton vinha de uma série de sucessos de bilheteira e crítica, uns atrás dos outros. Parecia imparável e parecia que podia fazer e dizer o que quisesse. Mars Attacks!, juntamente com o anterior Ed Wood, marcaram uma inflexão nas críticas positivas. Acho que a crítica também não vai muito à bola com a sátira. Mas apesar da baixa nas críticas, Burton continuou a ser um nome com que qualquer actor queria trabalhar. Mars Attacks! é um filme meio louco, mas mesmo assim conseguiu juntar um casting com nomes de peso que só se conseguem encontrar em grandes produções destinadas aos melhores Óscares. Os nomes são mesmo de peso: Jack Nicholson, Glenn Close, Annette Bening, Pierce Brosnan, Danny DeVito, Martin Short, Sarah Jessica Parker, Michael J. Fox, Rod Steiger, Lukas Haas, Natalie Portman e o mais importante de todos, o Tom Jones, que com a sua música funky consegue finalmente... bem o melhor é mesmo ver. Parecia que toda a gente queria entrar neste filme...
Mars Attacks! é tão fora da caixa e tão louco que vai deixar poucas pessoas indiferentes. Este é um daqueles filmes que se ama ou se odeia. Não tem meio termo. Não desgosto, mas prefiro a parte mais gótica e a loucura mais controlada do Tim Burton... ●●●○

Five Foot Two é um documentário em torno da figura excêntrica da Lady Gaga. Vê-se bem e permite entrar no mundo da actual diva da pop, mas que se nota que está tão cansada de o ser que tenta ser outra coisa diferente... como uma simples autora e cantora. Vale pela intimidade e por se ficar a conhecer a pessoa para lá do fogo-de-artifício, das vestimentas extravagantes e das lantejoulas explosivas. Pode ser uma surpresa para muitos, mas Lady Gaga é uma moça que gosto. Para lá dos vestidos de bife e das coreografias MTV, tem um lado estranhamente rock/punk (faz-me lembrar os antigos performers polémicos e os glam rockers) que não é totalmente descartável. Tem ali um crazy eye qualquer que me atrai... É estranho. Para um gajo do rock/industrial/punk e das guitarradas intermináveis como eu, isto é algo que não consigo explicar muito bem.  
O que sinto em relação aos filmes é muito parecido com o que sinto em relação à música. O hitzinho de verão, feito à medida para se ouvir bem em esplanadas ao final do dia, não entram nesta cabeça. A música romântica destinada a todos aqueles que tiveram um recente desgosto de amor, ou o grande musicol techno/DJ do momento... não...não... isso aqui não cola. Mesmo.
E apesar de ter uma aversão natural ao pop (porque normalmente é tratado como um produto de consumo e é usualmente algo falso, concebido em laboratório para satisfazer o cliente final, como quem afina o picante das batatas fritas com sabor a churrasco texano...), não desdenho imediatamente a música que vem daí. Grandes temas, muitos intemporais, são puro pop e eu "consumo-os" como toda a gente. Mas não porque têm um ritmo dançável, são divertidos ou porque toda a gente ouve e dá incessantemente na rádio. Ouço sim, porque são fixes, são boas boas músicas e porque ficam no tempo. Tento sempre seleccionar as que me parecem totalmente "verdadeiras". No caso da Lady Gaga, sempre me pareceu que por baixo daquela sonoridade liminarmente pop, havia música verdadeira. Em certa parte, este documentário vem confirmar a minha suspeita. Por exemplo, há por lá uma versão acústica do mega-hit "Bad Romance" que é totalmente o oposto da versão pop dançável. Se aquela tivesse sido a versão original, seguramente não tinha tido a projeção e divulgação que teve... Dá que pensar.
Five Foot Two incide num período em que Lady Gaga lança um novo álbum - diferente do habitual, com muita sonoridade country e uma atitude mais adulta - e simultaneamente prepara o show no intervalo no Super Bowl, que na América é o Santo Graal da performance em palco.
O documentário de Chris Moukarbel está bem engendrado mas não é nada de especial, porque não tem muito conteúdo. É um filme feito à medida. Para lá do lado pessoal, pareceu-me mais um grito de revolta do que outra coisa. É quase um documento do culminar de carreira como entertainer para teenagers e a tentativa de dar o salto para um público adulto. Sinceramente, acho que está a conseguir, até porque já ganhou prémios com músicas "normais" e porque deu o salto para o cinema com bons resultados na crítica. (ainda me falta ver o filme...) As composições são boas (mesmo as mais pop) e a moça até canta bem. Só falta mesmo assumir o nome Stefani Germanotta para se libertar de vez do antigo ícone pop, mas acho que o nome é tão valioso que isso nunca vai acontecer. Mas quem sabe? ●●○○○

A Guerra Civil Americana continua a mastigar homens nos campos de batalha. No meio de toda esta carnificina, o presidente americano, Abraham Lincoln, tem a sua própria luta interna: emancipar os escravos e acabar constitucionalmente com a escravatura. Para isso tem de conseguir os votos sufucientes dos adeversários assim como do seu próprio partido.
Este é o ponto de partida de Lincoln, mais uma super-produção de Steven Spielberg, agora em versão biográfica. Lincoln entra directamente na minha categoria de mixed-feelings. Apesar de muito bem feito, acho-o demasiado denso, lento e meloso para o meu gosto. Ainda que tenha alguns fogachos de emoção, são demasiado poucos. Com os actores que tem (Daniel Day-Lewis, Sally Field, Tommy Lee Jones [só aqui um triunvirato que grita para prémio de Óscares], Joseph Gordon-Levitt, James Spader) podia e deveria ter muito mais intensidade. Fica-se "apenas" por um biopic extremamente bem escrito e realizado.

Por vezes parece demasiado encenado como que a piscar o olho à Academia, e como se costuma dizer, "sem sair da zona de conforto". É esse mesmo o principal problema: Spielberg não quer confrontar nenhuma ideia nem nenhuma opinião e por isso mantém-se sempre a uma distância teatral de qualquer futuro problema que o filme lhe pudesse causar. Não quis tomar partido e assim não tomou rigorosamente nada. Fica uma obra para a posteridade que soa a perfeito, mas insípida e algo "oca". Ligeiramente desapontante... Desapontantemente ligeira. ●●●○○

Quando saiu da prisão, condenado por matar dois negros que lhe tentaram roubar o carro, um antigo skinhead tenta evitar que o irmão mais novo siga os mesmo trilhos perigosos e errados. Neo-nazis, questões raciais e sociais fracturantes e cinzentas, a perda da influência paternal e as más influências, um ciclo de violência que é errático e que ataca quem está ao nosso lado. Tudo isto são temas muito difícies de pegar e especialmente ambíguos para mostrar em filme. Por isso mesmo, American History X não é propriamente um filme fácil. Desde aquele "momento" no lancil do passeio, passando pelo chuveiro da prisão até ao final imprevisível mas traumático, tudo neste filme é musculado e duro. É um mergulho num mundo violento, a "preto e branco" e pouco conhecido da sociedade. Um vislumbre do submundo dos skinheads e da supremacia racial branca. Apesar de ser um filme de 1998, é irónico que alguns discursos do filme encaixem perfeitamente na retórica do actual presidente americano, Donad Trump, o que ajuda a perceber melhor porque esta administralção é recorrentemente acusada de ser racista e conotada (ou colada) com a propaganda da supremacia branca. Este tema/trauma racial é latente na sociedade americana, daí que seria uma boa altura para rever o filme e perceber o quão actual se mantém. Curiosamente, se o filme fosse lançado neste momento é provável que fosse extremamente polémico e traria ainda mais gasolina para a fogueira do debate público. É caso para dizer que um tema desta magnitude nunca sai de cima da mesa da actualidade...
American History X é realizado na perfeição por Tony Kaye, que nos vai levando para a frente e para trás na história (brilhante fotografia a preto e branco) para mostrar um drama intimista e familiar com toques de conto moral mas sem ser objetivamente moralista. Impecável. Ninguém diria que Kaye teve grandes discordâncias com o corte final, a ponto de querer (e processar o estúdio) para retirar o seu nome dos créditos do filme. É um dos poucos casos em que o realizador não gosta na peça final, mas que aparentemente tudo acaba por se conjugar na perfeição.
Beverly D'Angelo, Elliott Gould, Stacy Keach, Edward Furlong e em especial destaque Edward Norton, no papel irreconhecível de um musculado skinhead arrependido, todos dão uma prestação espectacular e inesquecível. A realização é limpa, impecável e a história circular de violência é quase um pequeno conto moderno. Não poderia pedir mais. American History X é um grande filme e está recomendadíssimo. ●●●●○

Mark e David Schultz são dois irmãos que são também campeões olímpicos de luta greco-romana. Apesar das vitórias, Mark leva uma vida fora da ribalta, treinando na obscuridade e praticamente no anonimato. A juntar a esta falta de reconhecimento, Mark sente que vai estar sempre na sombra do irmão que talvez por ser mais sociável acaba por ser mais apoiado. A determinado ponto entra em cena o milionário excêntrico John du Pont, uma misteriosa personagem que sente que Mark não é suficientemente reconhecido e por isso quer mudar todo o paradigma desportivo, trazê-lo para a ribalta e mostrá-lo ao mundo (americano) como um exemplo do trabalhador dedicado e do que a América faz de melhor. Para isso, monta uma equipa (Equipa Foxcatcher) e toda a estrutura de treino na sua enorme mansão com o intuito de participar nos Jogos Olímpicos de 1988 e vencer a medalha de ouro. Só que à medida que Mark e John se tornam mais íntimos, a difícil conciliação de personalidades, faz com que tanto Mark como John acabem por trilhar um caminho de tragédia.
Foxcatcher é um filme estranho. Para já porque é baseado numa história verídica e como toda a gente sabe, a realidade é mais estranha que a ficção. Todos os eventos inacreditáveis do filme são realmente verdadeiros. Li e confirmei a história e parece-me... inacreditável. É daquelas coisas que uma pessoa só consegue pensar: "isto é mesmo verdade?", "isto aconteceu mesmo assim?". E é. É mesmo verdade. Por isso a história é um dos pontos positivos e basilares deste Foxcatcher. A outra coisa boa é o ritmo/tom do filme. Só quando me informei melhor do assunto é que percebi porque é que o filme parece destinado apenas a ser visto por pessoas fortemente medicadas com Prozac. É que tem um ambiência e um tom mesmo estranho. É beje, mas tem uma qualidade quase onírica... Parece que o próprio filme está sob o efeito de uma droga qualquer. Encaixa perfeitamente bem no tema. É (muito) monótono mas ao mesmo tempo é tenso. Nota-se algo no ar, como se uma pessoa estivesse muito calma mas prestes a explodir num violento episódio psicótico. Calmo, mas desconfortável. É essa a sensação. Nota-se que se passa algo de errado e que aquelas personagens estão a caminho de algo mau, mas não se percebe o quê nem porquê nem quando. Só faz sentido no final. Um grande polegar levantado para Bennett Miller. Excelente realização.
Um outro ponto muito positivo são os actores. Channing Tatum (muitíssimo bem), Mark Ruffalo e Vanessa Redgrave dão cartas na representação, mas quem partiu a louça toda foi o Steve Carell. Uma surpresa de tamanho olímpico. Uma transformação total e completa e não estou a falar da parte das próteses faciais. É mesmo da parte psicológica. Ver Steve Carell a fazer papéis cómicos e vê-lo a fazer de alucinado milionário John du Pont é como ver pessoas/actores totalmente diferentes. Até o olhar é diferente. Está irreconhecível... para melhor.
Foxcatcher surpreendeu-me imenso pela positiva. Sem dúvida nenhuma um filme para ver. ●●●○○

A Hologram For The King é uma comédia (?) sobre o choque de culturas. Neste caso, um homem de negócios americano (Tom Hanks) procura sair da situação de falência em que se encontra, tentando vender um revolucionário aparelho holográfico de videoconferências ao Chefe de Estado Saudita himself. Pelo caminho cruza-se com uma médica saudita (Sarita Choudhury) e com um motorista (Omar Elba) um pouco alucinado mas assertivo. Estão assim reunidas todas as condições para uma boa comédia. E na realidade até é uma boa comédia. Não conhecia esta faceta do Tom Tykwer. Não apanhei o início dos créditos e portanto não sabia quem realizava. Aliás, não sabia nada deste filme. Foi um daqueles filmes que apanhei na TV e que nem fazia a mínima ideia que existisse. Simplesmente sentei-me no sofá, liguei a TV e estava a começar o filme. Prendeu-me logo de imediato, o que já é um ponto muito positivo. E depois, vai melhorando, em crescendo, entrando num tom muito particular que é ser uma comédia e um drama ao mesmo tempo. Gostei bastante. Só não gostei mais porque a determinada altura, ainda por cima perto do final, descamba para uma espécie de comédia romântica light, que não é mesmo nada o meu género de filmes... Foi pena, mas tudo bem. Gostei da surpresa. ●●●○○

O veterano da Guerra da Coreia Walt Kowalski é uma personagem de outros tempos. Tal como o seu precioso Ford Gran Torino de 1972, Kowalski também é uma relíquia dos anos 70 obrigada a viver num mundo totalmente diferente e antagónico do que sempre conheceu. Daí que a personagem seja bastante antipática, por vezes mal educada e até roçando mesmo o belicismo puro e duro. Para piorar ainda mais a situação, Kowalski - que já nem conseguia tolerar a família mais próxima - perde a mulher para a velhice, e o mundo envolvente (a vizinhança) muda radicalmente, deixando-o literalmente sozinho, isolado e cada vez mais intolerante.
Como se isto não fosse mau o suficiente, os novos vizinhos do lado são ironicamente de etnia asiática, o que eleva a sua insatisfação e irritabilidade para novos níveis. Pior ainda, é quando o miúdo do lado (Bee Vang), forçado por um gangue local, tenta roubar-lhe o Gran Torino. Isto leva-o para um caminho totalmente inesperado.
Sou grande fã do Clint Eastwood. Gosto daquelas personagens duras, republicanas e conservadoras. Mas só na ficção, que é onde ficam bem. Já vejo filmes há tantos anos com o Clint Eastwood que nem sequer consigo dissociá-lo do próprio cinema. É uma daquelas figuras tão carismáticas do meio cinematográfico e que passa por tantas gerações que ficou marcado para sempre, nos mais variados estilos e feitios. E apesar de parecer familiar também acaba por ser sempre diferente e surpreender pela positiva. Clint Eastwood é um senhor do cinema e está tudo dito. Nunca vi um mau filme onde entrasse ou que realizasse.
Gostei muito deste Gran Torino, que a princípio me parecia uma pequena ode ao racismo e intolerância, mas que lentamente vira para uma boa história de compreensão e redenção. É um filme muito pessoal. Parece quase uma mensagem para o grande público, dizendo que o mal encarado e durão Dirty Harry também tem coração e apesar de velho, ainda tem capacidade de mudar e de se adaptar e, mais importante ainda, de se regenerar... E paralelamente, como um verdadeiro símbolo da América, Kowalski também assenta que nem uma luva no novo enquadramento americano no mundo: isolado, abertamente menosprezado pela vizinhança e aparentemente antiquado. Daí que apesar de toda a simplicidade na história, Gran Torino é mais do que parece à primeira vista.  Mas também posso ser eu a ver coisas onde elas não existem. Isso acontece frequentemente...
Gran Torino assenta essencialmente em Clint Eastwood mas é bem suportado por um elenco desconhecido mas muito coerente (Christopher Carley, Ahney Her) e é realizado de uma forma muito linear, com aquela mestria da simplicidade que Clint já habituou o pessoal. Não deslumbra, mas merece ser visto com atenção. ●●●○○

Deepwater Horizon é um drama de acção com toques de "Michael Bay", mas que estranhamente se vê bem. Tecnicamente, está muitíssimo bem feito. O filme é baseado nos eventos reais (coisa que Peter Berg já fez algumas vezes e sempre muito bem...) passados na plataforma petrolífera da BP com o mesmo nome. Após um acidente durante uma perfuração a grande profundidade, a plataforma explodiu em chamas, matando 11 pessoas e afundou-se, deitando para o Golfo do México toneladas de crude durante 87 dias. É o maior desastre ambiental na história da América e um dos piores de sempre. Uma tragédia que toda a gente seguiu colado às televisões, mas faltava o mais importante que é saber realmente o que aconteceu a bordo. Obviamente não estive lá para ver, mas por isso mesmo tenho de dar os parabéns ao Peter Berg porque em alguns momentos, conseguiu verdadeiramente "levar-me" até ao meio da acção, do caos do acidente e das tentativas de sobrevivência de quem realmente passou por tudo aquilo. Tecnicamente, este Deepwater Horizon está irrepreensível. Por vezes nem parecia um filme... Também ajuda ter pessoas a dar corpo às personagens como Mark Wahlberg, Kurt Russell, Gina Rodriguez e John Malkovich, assim como um "exército de secundários" todos muito bons. Uma pequena surpresa. ●●●○○

The Bad Batch é daqueles filmes que percebi, mas não gostei. Percebi a metáfora dos indesejáveis, que expulsos da "sociedade perfeita", são levados para lá dos limites do inaceitável (canibalismo) por força das circunstâncias. Sendo que as circunstâncias são basicamente, a falta de comida, de regras e de empatia, então a lei do mais forte, a lei da necessidade mais básica, a simples e pura sobrevivência, irá sempre imperar.
O que não gostei, principalmente, é que me pareceu um mix de coisas. Uma espécie de híbrido entre filme independente/intelectual, um videoclipe da Lana del Rey e um anúncio Tommy Hilfiger (ou será Ralph Lauren? Não sei muito bem qual destes é, mas é aquele que não tem nada a ver com o mar; o filme é todo passado no deserto...), rodado nos cenários pós-apocalípticos do Mad Max. Apesar de ser um filme com uma fotografia fantástica, acho-o algo despropositado: a disparidade entre o grotesco da actuação das personagens e as imagens lindíssimas não conjugam perfeitamente. É como tentar juntar as palavras romance e canibal na mesma frase: dificilmente irá sair bem...
Acho que é um filme feito por alguém com bastante talento (Ana Lily Amirpour), mas que não se consegue conter. É um problema que tenho visto muitas vezes.
Com aquele início muito bom e com tantas possibilidades metafóricas da história (até com a actualidade política e social americana), podia e deveria ter sido muito melhor. Até porque esta história funciona em qualquer altura: num presente instável e anárquico ou num futuro longínquo e distópico. Acho que o tema foi muito mal aproveitado. Fiquei com a sensação que tentaram que The Bad Batch tivesse aquele ar de filme "independente" e "intelectual" e acabaram por tornar o filme vazio e monótono, ao mesmo tempo que o tornaram ostensivamente metafórico, como se o público fosse um bocado burrinho e não conseguisse perceber nas entrelinhas. Detesto que me façam isso...
Aliás, é um filme que se perde bastante a tentar passar mensagens em cartazes. São muitos cartazes com muitas mensagens, espalhados por todo o lado e por todo o filme... Dei por mim a imaginar-me naquelas lojas de presentes que têm mensagens motivacionais em canecas e t-shirts...
O que poderia safar este filme seriam os actores. Mas nem isso aconteceu. Suki Waterhouse no papel principal de uma personagem que até tem bastante impacto, simplesmente não "aparece"; Keanu Reeves parece deslocado do seu papel e começo a ficar preocupado com o Jim Carrey e com o Giovanni Ribisi: só aparecem a fazer papéis de loucos ou estarão mesmo a pirar do capacete? A única surpresa positiva é o Jason Momoa, que não sendo grande actor, até teve bastante "presença".
The Bad Batch é uma partida em falso, apesar de metade do elenco andar constante de um lado para outro sem rumo. Apesar de estar muito bem fotografado, acaba por ser monótono e não tem uma história definida. Mas tem potencial. Há por aqui muito material de base para se fazer um filme em condições. Pode ser que alguém tenha visto o mesmo que eu e daqui por uns anos refaça o filme como deve ser. ●●○○○

Eunice Kathleen Waymon mais conhecida pelo nome artístico de Nina Simone foi uma pianista, cantora, performer, compositora e ainda teve tempo para ser o novo rosto do ativimo pelos direitos civis dos negros norte-americanos, ao lado de nomes míticos como Martin Luther King e Malcolm X. Nina Simone não teve um começo (nem o resto) de vida fácil: era a sexta de oito filhos, no meio de uma família pobre. Mas para compensar a falta de sorte que uma pessoa tem quando nasce, tinha um dom: a música. Começou a tocar piano aos 3 anos e aos 12 estreava o seu primeiro concerto, um recital clássico. Numa entrevista, li que este concerto a marcou profundamente e que acabou por envolvê-la, inconscientemente, anos mais tarde, nos movimentos pelos direitos civis. Nesse concerto, os pais dela foram forçados a sentar-se ao fundo da sala, para deixar espaço para os brancos e, por isso, Nina recusou-se a tocar até que os pais fossem novamente colocados à frente. Muitos anos depois e já com pleno reconhecimento público, a rebeldia e o tom mais violento do protesto anti-guerra (do Vietname), coloca-a em confronto aberto com o próprio país. Discordante sonora da política americana também em relação ao direito de negros, Nina abandona os Estados Unidos e voa para o paraíso das Barbados. E começa então a desenrolar-se uma história rocambolesca, que elevaria Nina Simone ao estatuto de lenda, tanto em termos de personalidade, como em termos musicais. Nina regressa aos Estados Unidos e, para piorar toda esta relação já de si conturbada, descobre que tem um mandado de captura emitido em seu nome com o motivo de sonegação de impostos, o que faz com que regresse de vez às Barbados. Depois, mudou-se para a Libéria. Esta mudança de país não é coincidência. A Libéria foi fundada para levar os negros livres e os negros que tinham sido libertos da escravatura para África . Foi também a primeira "colônia" africana a ser independente e até o nome significa literalmente "liberdade". Ao mudar-se para a Libéria, Nina Simone estava na realidade a fazer uma declaração de interesses. A seguir foi viver para a Suécia, depois ainda se mudou para a Holanda e acabou os seus dias em França.
Gosto imenso da Nina Simone. Mesmo muito. Como pessoa e como intérprete. E é uma relação que tem vindo a melhorar com o tempo. "Conheci" Nina Simone há muitos anos. Primeiro, só umas músicas, assim meias perdidas, mas muito boas. Depois uma pessoa começa a procurar e a descobrir o resto do puzzle e é espectacular. Músicas fantásticas. Únicas. Inesquecíveis. São daquelas músicas que ficam logo no ouvido, mesmo que se ouçam só alguns segundos e com ruído de fundo. Tenho tantas músicas preferidas da Nina Simone que nem consigo enumerar. Por acaso, muitas vezes nem sei mesmo o nome de algumas músicas. Mas sei logo que são da Nina Simone. O reportório é tão grande, com tantas músicas originais, adaptações, versões, best of's e coletâneas, que ainda hoje vou descobrindo material novo. Para quem gosta tanto da Nina Simone como eu, encontrar um documentário à altura não é fácil. Já vi mais uns dois e... não são bons. Quando a personalidade a documentar é grande demais, torna-se difícil equilibrar e enquadrar o tamanho do ego no próprio documentário. Parece que ficam sempre áquem da pessoa. Neste caso, não. What Happened, Miss Simone?, realizado pela experiente Liz Garbus e produzido originalmente pela Netflix é um documentário muito bom. Mesmo muito bom. Tem uma série de entrevistas com a diva e também com familiares e amigos intímos para enquadrar os contextos. Paralelamente, é uma visão intimista da cantora, e ao mesmo tempo encaixa-a na perspectiva histórica do momento. A história não é bonita, mas dá para perceber porque é que uma personalidade tão genial estava simultaneamente tão mergulhada num inferno pessoal. Daí a genialidade do título... É um documentário muito bom, tenho de repetir. What Happened, Miss Simone? é para ver e rever. Assim tem-se a oportunidade de ouvir uma grandessíssima banda sonora. Obrigatório para quem não a conhece, mas principalmente para todos os que gostam de Nina Simone. ●●●●○


Depois de mostrar uma outra realidade americana em Bowling for Columbine, Fahrenheit 9/11 e Sicko, o mais recente filme de Michael Moore, Capitalism: A Love Story (2009) não é propriamente um filme distópico mas anda lá perto.
Algumas empresas americanas de renome fazem seguros de vida no nome dos empregados, e no caso de eles morrerem, a empresa recebe a respectiva indemnização. Sempre que um funcionário morre, gera uma receita para a empresa, melhorando a margem de lucro dos accionistas. Esses funcionários são referidos como sendo "dead peasants", qualquer coisa como "camponeses mortos". Camponeses mortos?! Bem, se isto não é uma espécie de distopia, então não sei o que isto é. Moore continua, mostrando aquilo que todo o Mundo já viu e ainda sente: a grande potência capitalista a desmoronar-se financeiramente e aponta as razões. Mostra que existe uma aliança secreta - muito à maneira americana - entre o Congresso e Wall Street com o intuito de reservar e preservar o domínio dos "1%" sobre os restantes "99%". Mais uma acha para a fogueira das teorias da conspiração envolvendo o domínio de uma Nova Ordem Mundial. Mas ainda faz mais. Mostra que o que aconteceu foi um takeover premeditado de Wall Street ao Congresso Americano e, sem papas na língua, aponta o dedo aos responsáveis. Insinua até que se tratou de uma espécie de golpe de estado. Só que as armas não são armas de fogo que disparam rajadas de balas. As armas são instrumentos financeiros que disparam juros elevados e esquemas fraudulentos que ninguém consegue explicar ou regular. Às vezes nem os próprios envolvidos conseguem explicar como funciona: só sabem que funciona... As vítimas são iguais e são as mesmas em todo o lado: os mais pobres, os tais "99%", que nada sabem sobre o esquema. E por isso mostra também essa realidade: despejos à força, bairros inteiros penhorados e situações desesperantes de famílias que perdem tudo para os senhores de colarinho branco, como quem diz: "isto é o que vos vai acontecer, quando já não tiverem mais dinheiro para pagar aqueles juros que não sabiam que existiam no meio das letrinhas pequeninas."
Mas não foram só as finanças que desabaram. O tão falado "sonho americano" também desabou e transformou-se num verdadeiro pesadelo. Afinal, o tal sonho nunca passou de um enorme e elaborado instrumento de marketing para iludir e sacar triliões de dólares aos mais distraídos e crentes. Denuncia ainda o reservadíssimo pântano de corrupção em que se movimentam as altas finanças e o salvamento dos "casinos insanos" em que as bolsas se transformaram, através do recurso a biliões de dólares dos contribuintes, na manobra mais pró-socialista que a América já viu. Maior ironia não poderia existir.
Esta é a realidade americana que Michael Moore gosta de exibir. E, em grande parte, eu acredito nele e nos documentários que faz. Quem está atento às notícias e vai vendo como este mundo funciona (com o dinheiro acima de tudo), percebeu logo que o filme ia obviamente ficar datado. Passou tão pouco tempo e já está ultrapassado. Naquela altura, Moore deveria pensar que estava a documentar o colapso eminente do capitalismo. No período logo a seguir à crise, lembro-me que muita gente falou nisso. Neste momento, a resposta está à vista: Wall Street e as bolsas em geral, batem recordes positivos quase todos os dias. Sendo assim, este documentário vai direitinho para o arquivo histórico, como um registo de acontecimentos muito breves. Um (contra)tempo que surgiu e desapareceu muito rapidamente.
Independentemente de se gostar ao não da aproximação sectária que Michael Moore faz, os seus filmes/documentários/teses são sempre muito bons, muito bem escritos, muito coerentes e nunca desiludem. Tudo graças a um estilo muito próprio de intervenção e à combinação muito bem feita de entrevistas, música, pesquisa histórica, voz-off, montagem rápida e imagens de arquivo. Tudo sempre muito bem doseado e ritmado. Os filmes de Michael Moore são como uma aula privada sobre como fazer passar uma mensagem através dum documentário.
Destaque para um discurso do presidente Roosevelt que aposto que muitos "Wall Streeters" não devem gostar nada de ouvir. Para terminar em grande, nada melhor que dizer: "tomem lá e embrulhem!" com uma versão jazz da Internacional Comunista. ●●●○○

Precisava de ver um bom filme, por isso escolhi o Easy Rider (1969), que nunca tinha visto. Mas como é que se consegue saber se um filme é bom, mesmo antes de o ver? É fácil! Um filme sobre dois "dealers" (Billy e Captain America) que decidem fazer um "coast to coast" de mota para fazer um negócio no mítico Mardi Gras, só pode ser bom. Um filme com Dennis Hopper e Peter Fonda como representantes duma sociedade hippie no pós-1968, que surge como alternativa à (distorcida?) América ultra-conservadora, só pode ser bom. E não há dúvida: Easy Rider, um filme nascido para ser selvagem, é um filme muito bom. A prova disso mesmo é ser uma referência incontornável do cinema e da própria cultura. Até no pormenor da música que popularizou, Born to be Wild, que já foi usada para aí em 30 filmes e é uma referência obrigatória quando se fala em liberdade sem condições ou em querer romper com a rotina. Não achei que fosse uma obra-prima do cinema, principalmente porque Dennis Hopper não parece ser extremamente dotado em termos de realização (a estética é quase nula), mas é um filme muito bom.
Uma das sequêcias mais marcantes acontece a meio da viagem, quando conhecem um advogado chamado George (Jack Nicholson) que tenta libertar-se do mundo conservador onde se sente demasiadamente preso. A conversa entre os três, à  volta de uma fogueira, em que a personagem de Nicholson, mais habituada ao álcool, decide estrear-se a fumar marijuana, só por si, é um ícone e vale um filme inteiro. Destaque para Jack Nicholson, que em 20 minutos, consegue "roubar" totalmente o filme. Li algures que Terry Shouthern, que tinha já créditos no fenomenal Dr. Strangelove de Stanley Kubrick deu uma ajuda nesta parte do argumento. De facto, nota-se que se destaca do resto do filme. Aliás, também li que foi Shouthern quem tirou da cartola o excelente título, por isso é provável que tenha metido o dedo em mais algumas cenas. Mas isto são pormenores de bastidor.
É um filme sem floreados, cru (se calhar até em demasia), a acelerar estrada fora e sem concessões ao público. A demanda destes dois amigos queimadores de erva, que como diz no cartaz, vão ao encontro da América, mas não a encontram em lado nenhum, acaba por ser bastante linear. Mas o que é interessante não é a viagem propriamente dita, mas sim o que estas duas personagens estranhas encontram durante o percurso. Até porque na sua essência, o filme nem é sobre a viagem. É sobre o medo da mudança. É sobre as forças que nos puxam para trás. É sobre o medo de nos tornarmos autênticos "dinossauros" se não acompanharmos o andamento dos novos tempos. É sobre o choque entre o rural e o urbano. É sobre eras que parecem eternas mas que invevitalmente chegam ao fim. É sobre expectativas que nunca se cumprem. Temas universais que foram, são, e serão sempre actuais.
Easy Rider, tal como todos os grandes filmes, é muito mais do que aparenta. Quer isto dizer que está aberto a interpretações pessoais. Uma pessoa pode classificá-lo como um filmes de hippies cabeludos sem rumo, e outra pode vê-la como um filme sobre novos empreendedores. Afinal, os dois amigos fazem uma longa viagem para fazer negócio e não por diversão. Até o pormenor de Fonda guardar o dinheiro no depósito de gasolina da mota pode ser interpretado como o velho chavão que diz que o dinheiro faz o mundo girar. Cada um vê aquilo que quer ver.
Este filme é um verdadeiro clássico que todos os amantes de bom cinema deveriam ver. Era uma falha no meu reportório, mas agora já está preenchida. Pode não parecer, mas é incrivelmente difícil ver estes filmes.
Já passaram quase 50 anos, mas Easy Rider continua forte e estranhamente actual. As forças em conflito mudaram, mas o choque eterno entre culturas, entre o novo e o velho há-de sempre permanecer. Obviamente que um filme com esta temática, nunca pode acabar bem. Mas qual é o conflito que acaba bem? Isso fica bem expresso numa outra cena icónica, em que depois de tudo correr (mais ou menos) como planeado inicialmente, Fonda, desiludido, diz que estragaram tudo, "we blew it". A que é que ele se referia? Não se sabe. Acho que cada pessoa que vê o filme tirará as suas conclusões muito próprias. Para mim, o que correu mal, foi o próprio sonho americano. Ele funciona em termos económicos, mas perdeu a componente humana. A tolerância pelo diferente. A resistência à mudança nunca irá desaparecer e por isso vão haver sempre conflitos. O sonho idílico de paz e amor, é mesmo só isso, um sonho. Uma utopia, que por natureza, nunca se irá realizar.
Se o filme propriamente dito está aberto a múltiplas interpretações, também o final fica em aberto. E não digo mais nada, porque não quero estragar o clímax do filme. Será que o fim é mesmo o fim? Será que eles se safam e partem novamente em busca do que não encontraram? O melhor é ver Easy Rider e tirar as próprias conclusões. ●●●●●

 
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